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04 como cristo empregou os símbolos apocalípticos

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04 como cristo empregou os símbolos apocalípticos

  1. 1. COMO CRISTO EMPREGOU OS SÍMBOLOS APOCALÍPTICOS Como observamos no primeiro capítulo, Jesus viveu em um tempoquando a esperança judia de uma pronta vinda de um Messias político seintensificou grandemente. Uma quantidade de escritos apocalípticos, sobnomes falsos ou pseudônimos, circulavam com grande profusão, emantinham a esperança messiânica candente aplicando a mensagem dojuízo de Daniel e de outras passagens proféticas a seu próprio tempo esituação. Os títulos de algumas destas obras pseudoepigráficas são: 4Esdras, 1 Enoc, Apocalipse de Baruque, Livro dos Jubileus. Os termos "apocalíptico" e "apocalipticismo" foram usados maistarde pelos eruditos para indicar as escatologias especulativas econtraditórias contidas nesses escritos do judaísmo tardio. As trêscaracterísticas dominantes desse apocalipticismo judeu foram asseguintes: (1) O juízo cósmico-universal em torno do Israel nacional ou aum fiel remanescente judeu; (2) a substituição súbita da presente erapecaminosa pela criação de um mundo sem pecado e um novo cosmos; e(3) o fim predeterminado deste mundo pecaminoso e a vinda iminente doMessias. Esta urgência freqüentemente estava apoiada por cálculoscontraditórios de períodos de tempo na história mundial. A maioria dos escritores apocalípticos acreditavam que o fim destaera pecaminosa estava perto, e que ocorreria em sua geração. Tambémacreditavam que eles eram os verdadeiros intérpretes dos profetascanônicos de Israel com respeito à sua própria crise. Um exemplonotável foi a comunidade de Qumran, cujo fundador e professor ensinouque a predição de Habacuque de um remanescente do povo de Deus quesobreviveria (Hab. 2:4) estava cumprindo-se em sua própria e única seitanas cavernas do Mar Morto. Contra o fundo desta esperança iminente comum do judaísmo doséculo I de nossa era, o emprego que Jesus fez de alguns símbolosapocalípticos bem conhecidos chega a ser mais significativo. Mostra o
  2. 2. Como Cristo Empregou os Símbolos Apocalípticos 2enfoque inovador da mensagem do evangelho que proclamou Jesus.Cristo deu novo significado a termos apocalípticos tão populares como:"Filho do Homem", "juízo", "vida eterna e ressurreição", "reino deDeus", "esta era e a era por vir". Todas estas expressões eram mais oumenos termos técnicos nos esquemas apocalípticos do judaísmo tardio.A mensagem de Jesus surpreendeu os judeus de seu tempo porque deu acada símbolo apocalíptico um novo significado messiânico oucristocêntrico que despedaçou seus sistemas escatológicos. Os odresvelhos não podiam conter o espumoso vinho novo de sua mensagem deum cumprimento presente em si mesmo (ver Luc. 5:37, 38). A conexão mais dramática do Jesus com o livro do Daniel e osescritos judeus tardios foi sua autodesignação explícita como "o Filho doHomem" (65 vezes nos Evangelhos sinóticos e 12 vezes no quartoEvangelho). Ele se aplicou este titulo em forma consistente. Era a formaprópria como Jesus se referia a si mesmo. O emprego extraordinário queJesus fez deste símbolo convenceu em forma geral à erudição bíblica denosso tempo de que Cristo adotou o termo apocalíptico "um como o filhode homem", da visão do Daniel 7:13 e 14, e o elevou a um títulomessiânico. As similitudes do livro 1 Enoc 37-71 e a sexta visão em 4Esdras 13 (ambos os documentos pós-cristãos) refletem como algunscírculos apocalípticos judeus interpretavam o personagem daniélico"filho de homem": um Messias preexistente e celestial que viria à terracomo o Juiz de toda a humanidade e governaria sobre um novo reinoterrestre. A questão é: Como empregou Jesus o título e o que contido colocounesta expressão apocalíptica, o "Filho do Homem"? Jesus explicou queseus milagres de cura ele os fez com um propósito mais elevado: "Paraque saibam que o Filho do Homem tem potestade na terra para perdoarpecados" (Mar. 2:10). Mas, como pôde ser Jesus ao mesmo tempo ohumilde Filho do Homem e o glorioso ser preexistente da visão deDaniel? O mistério se intensificou quando Jesus começou a dizer que o
  3. 3. Como Cristo Empregou os Símbolos Apocalípticos 3Filho do Homem celestial "devia" sofrer e ser morto, e que ressuscitariadepois de três dias (Mar. 8:31; 9:31; 10:33, 34). Entretanto, sua declaração mais profunda foi: "Porque o Filho doHomem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vidaem resgate por muitos" (Mar. 10:45). Aqui Jesus se identificou com oservo sofredor de Isaías 53, que morreria para o benefício de todos. Aofazê-lo, Jesus fundiu o servo sofredor da profecia de Isaías com o Filhodo Homem da visão do Daniel. Por assim dizê-lo, esvaziou o conteúdodo servo sofredor no personagem apocalíptico do Filho do Homem. Talcombinação de dois personagens messiânicos em profecia eradesconhecido. Aos judeus parecia algo completamente paradoxal. Foi aidéia criadora de Jesus introduzir esta reinterpretação radical do Filho doHomem daniélico. Cristo viu sua missão como Messias em formacompletamente diferente a todas as expectativas messiânicas nojudaísmo. Colocou sua missão de um Messias sofredor e moribundodentro da estrutura apocalíptica de Daniel. Entretanto, a maior surpresados judeus foi o escutar que este humilde filho de um carpinteiroafirmava ser o apocalíptico Filho do Homem, não só em seus dias, mastambém no juízo final. Considere estas afirmações de Jesus (as ênfasessão minhas): "Porque o que se envergonhar de mim e de minhas palavras nestageração adúltera e pecadora, o Filho do Homem se envergonhará tambémdele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos" (Mar. 8:38). "Então verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens com grandepoder e glória" (13:26). "Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, oFilho do Deus Bendito? Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho doHomem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens docéu" (14:61, 62). Nestas declarações dramáticas, Jesus afirmou que a profecia doDaniel 7 até esperava seu cumprimento futuro e apocalíptico quandoDeus julgue a todos os homens, mas que o Filho do Homem daniélico játinha aparecido com outro propósito: trazer salvação da escravidão do
  4. 4. Como Cristo Empregou os Símbolos Apocalípticos 4pecado. Cristo declarou claramente que ele, como o Filho do Homem,tinha descido "do céu" (João 3:13), e que "os anjos de Deus... sobem edescem sobre o Filho do Homem" (1:51). Dessa maneira Cristo ensinouque tinha estabelecido em Israel uma nova comunicação entre o céu e aterra por sua autoridade divina (3:31; 6:62). Isto também envolve suamissão para julgar ao Israel em nome de Deus: "E [Deus] também lhedeu autoridade de fazer juízo, porquanto é o Filho do Homem" (5:27),embora o propósito da primeira vinda do Jesus foi explicitamentesalvação e não juízo no sentido de condenação (3:17; 12:47). Não obstante, João pôde também informar que Jesus veio ao mundopara um juízo presente: "Para juízo vim eu a este mundo; para que os quenão vêem, vejam, e os que vêem, sejam cegados" (João 9:39). Esta classede juízo ou processo de sacudidura era inerente ao oferecimento dasalvação de Cristo, oferecimento que implica necessariamente juízo. Osque rechaçam o dom de Deus de Jesus o Messias, pronunciaramindevidamente seu próprio juízo. Escolheram ser condenados. Oevangelho de Cristo separa aos que aceitam o oferecimento da graçadaqueles que o rechaçam (ver João 3:18-21; 5:24). A presença de Cristoproduz um tempo escatológico de decisão, e esse tempo é agora. Cadapessoa está compelida a rechaçá-lo ou a reconhecê-lo, e assim determinade antemão o veredicto do juízo final sobre si mesmo. Cristo consideracomo de importância decisiva o que o confessemos como o Filho doHomem. Por isso, ao cego a quem tinha sarado perguntou: "Crês tu noFilho do Homem?" (João 9:35). Desse modo Jesus deu a tal pessoa umarevelação mais elevada de si mesmo. Jesus revelou que era o Messiascelestial de que se falava no livro de Daniel, que viria nas nuvens do céuao "Ancião de dias" para receber a glória e o domínio e o reino sobretodos os povos (Dan. 7:14). Este conhecimento conduz a uma fé maisamadurecida em Jesus. O ponto importante nos quatro Evangelhos é a mensagem em queCristo se referiu à missão do Filho do Homem em uma forma dupla: comrespeito a um cumprimento presente e terreno, e também a uma
  5. 5. Como Cristo Empregou os Símbolos Apocalípticos 5consumação cósmica futura. Em outras palavras, Cristo explicou que oapocalíptico Filho do Homem de Daniel teve um cumprimento históricoem salvação e juízo desde seu humilde primeiro advento, enquanto quetambém olhou para o futuro, à consumação em salvação e juízo em seusegundo advento. Em resumo, o juízo de Deus, a vida eterna e aressurreição por meio do Filho do Homem são tanto presente comofuturas. Esta dupla aplicação está expressa no Evangelho de João pormeio desta frase peculiar: "Vem a hora, e agora é, quando os mortos ouvirão a voz do Filho deDeus; e os que a ouvirem viverão. Porque como o Pai tem vida em simesmo, assim também deu ao Filho o ter vida em si mesmo" (João 5:25, 26;ver também 4:23 e 16:32). Quão surpreendente é que Jesus ensinasse que não é suficiente crerque haverá uma ressurreição no último dia, como se promete em Daniel12:2. Sua nova mensagem foi: "Eu sou a ressurreição e a vida; quem crêem mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo o que vive e crê em mim,não morrerá eternamente" (João 11:25, 26). Em outras palavras, a vidafutura no glorioso reino de Deus está à nossa disposição pela fé emCristo agora como uma qualidade espiritual de vida. Um emprego duplo similar da terminologia apocalíptica pode ver-sena forma em que Jesus aplica os conceitos do reino de Deus e sua "era"(aion) correspondente. Ambas idéias estão combinadas na proclamaçãode Jesus: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo;arrependei-vos e crede no evangelho" (Mar. 1:15; cf. Mat. 3:2; 4:17;5:17). O chamado de Cristo parece estar motivado por uma urgênciaapocalíptica da vinda do reino de Deus, e muito bem pode estar inspiradona profecia de tempo messiânico das 70 semanas do Daniel 9.(Particularmente Daniel 2 e 7 prometem a vinda do reino de Deus; Dan.2:44, 45; 7:27.) O conceito de Jesus do reino universal de Deus também era partedas Escrituras. Estas ensinavam que Jeová, o Deus de Israel, é agora Reie chegará a ser Rei no futuro "sobre toda a terra" (Núm. 23:21; Deut.
  6. 6. Como Cristo Empregou os Símbolos Apocalípticos 633:5; Sal. 103:19; Isa. 6:5; Dan. 2:44; 4:3; Isa. 24:23; Zac. 14:9). Alémdisso, os profetas haviam predito que um filho de Davi chegaria a ser oRei de Israel e que, como o Messias do mundo, representaria o governorégio de Jeová para sempre (2 Sam. 7:12-16; Sal. 2:7-9; 132:11-18; Isa.9:7; 11 :1-5; Miq. 5:2; Dan. 7:14, 27). Como já indicamos no capítulo I, o judaísmo farisaico tinhadesenvolvido a esperança de que nos últimos dias o Messias viria notempo indicado por Deus, subiria ao trono de Israel e por seu poderquebrantaria aos príncipes injustos, purificaria a Jerusalém de gentios,quebrantaria toda sua solidez com vara de ferro e, por último, submeteriatodas as nações da terra a seu governo. Na pregação de Cristo, o reino de Deus foi o conceito principal. Seuensino do reino de Deus, sua proximidade, tal como está representadapor sua própria vida, seu ministério de cura e seu domínio sobre osdemônios, revolucionaram o apocalipticismo judeu que tinha perdidotoda esperança de que Deus reinasse no presente histórico. O primeiroadvento de Cristo não foi o fim do tempo a não ser o poder régio deDeus que pôde "atar" a Satanás e liberar os homens do poder do mal (verMat. 12:29). Jesus insistiu em afirmar que nele o reino dos céus seaproximou como uma soberania espiritual de Deus que agora estavaativa em seu oferecimento messiânico de graça e seu domínio sobre osdemônios; uma realidade totalmente diferente do que esperavam osrabinos judeus e os escritores apocalípticos, pois seu reino não era destemundo (João 18:36). Em resumo, a mensagem de Jesus é que em sua própria pessoaDeus invadiu a história humana e triunfou sobre o mal. Ao mesmotempo, Cristo ensinou que a liberação final viria no fim do tempo, emsua segunda vinda (Mat. 6:10; 13:41-43; 16:27; 19:28; 25:31). A nova idéia que Jesus apresentou foi que tanto no presente comono futuro reino de Deus ele intervém como Filho do Homem, e emconexão com isto aplicou a terminologia apocalíptica de "as duas eras" à
  7. 7. Como Cristo Empregou os Símbolos Apocalípticos 7sua nova estrutura escatológica. Enquanto que os apocalipticistasconceberam um dualismo claro de duas eras ou períodos nos quais afutura era isenta de pecado substituiria por completo a esta erapecaminosa, Cristo ensinou que com seu ministério tinha começado a eramessiânica e a salvação. Ao mesmo tempo reconheceu que "a eravindoura" começaria só com a ressurreição dos mortos (Luc. 20:34-36). A identificação por parte do Jesus da era messiânica com "esta era"(Mar. 10:29, 30) destruiu a idéia básica da doutrina das duas eras dosapocalipticistas. A ênfase de Cristo em sua mensagem foi chamar oarrependimento (metanoia) e aceitá-lo como Senhor e Messias (Mat.4:17; 19:21), condição básica para entrar no reino de Deus no momentopresente. Desta forma, a paz e o gozo messiânicos serão experimentadosjá agora na alma (João 15:11; 16:33). Esta tensão entre a escatologiainaugurada e a escatologia apocalíptica, entre o reino da graça e o reinoda glória, entre o "já" e o "ainda não", é característica da mensagem doevangelho do Novo Testamento em sua totalidade. O evangelho não é simplesmente as boas novas a respeito da obrade Cristo no passado ou no futuro. Os poderes da era vindoura jáinvadiram esta era em forma dramática desde o Pentecostes, e agora osverdadeiros crentes "provam" dos poderes do século vindouro medianteCristo (Heb. 6:5). Esta verdade do evangelho dissipa o desespero doapocalipticismo judeu. Os apóstolos afirmaram que a história dasalvação entrou agora na era messiânica, ou os "últimos dias", no qual opoder libertador do Espírito de Deus está totalmente à disposição detodos os que se encontram em Cristo Jesus (Heb. 1:1, 2; At. 2:17-39).

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