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01 esperança apocalíptica dos judeus do século i

  1. 1. A ESPERANÇA APOCALÍPTICA DOS JUDEUS DO SÉCULO I O Apocalipse de João está em marcado contraste com os váriosescritos apocalípticos judeus que estiveram em atualidade no primeiroséculo de nossa era. Desde que o general romano Pompeu invadiu aPalestina em 63 a.C. e sujeitou à nação judia ao governo romano,intensificou-se a esperança judia em um Messias prometido. A maioriados judeus esperava a vinda de um Rei-Messias poderoso, da casa deDavi, quem mataria ao dragão romano com seu poder militar ajudadopelo poder divino. Então o Messias restauraria a nação do Israel àsuprema grandeza política como o reino messiânico sobre a terra. Esta esperança apocalíptica era vibrante entre os fariseus. Podedemonstrar-se pelos denominados Salmos de Salomão, um documentofarisaico escrito pouco depois da morte do general Pompeu no 48 a.C. "Olha-o Senhor, e lhes suscite um rei o filho de Davi, no momento que tu escolhas, oh Deus, para que reine em Israel teu servo. Rodeia-o de força para quebrantar aos príncipes injustos, para purificar a Jerusalém dos gentios que a pisoteiam destruindo-a; expulsa em sabedoria e justiça aos pecadores da herança; para despedaçar a arrogância dos pecadores semelhante a um cântaro de oleiro; para quebrantar toda sua solidez com uma vara de ferro; para destruir as nações ilícitas com a palavra de tua boca; a sua advertência as nações fugirão de sua presença; e condenará aos pecadores pelos pensamentos de seus corações".1
  2. 2. Esperança Apocalíptica dos Judeus do Século I 2 O Testamento do Moisés, um hino escrito pelos essênios ou pelosfariseus antes da queda de Jerusalém no 70 D.C., também expressava odesejo premente do pronto advento do reino de Deus: "Pois o Altíssimo Deus eterno se elevará sozinho, aparecerá para tomar vingança das nações e destruirá todos os seus ídolos. Então, tu, Israel, serás feliz. Montarás sobre pescoço e asas de águia. Sim, todas as coisas se cumprirão".2 No Quarto livro do Esdras, conhecido também como o Apocalipsede Esdras, um documento escrito depois da queda de Jerusalém no 70D.C., lemos que o Messias viria para liberar à remanescente do Israel datirania de Roma e para estabelecer o reino messiânico por 400 anos (cap.12).3 A esperança dominante no Israel era a da libertação política, similarà forma como Deus os tinha libertado do Egito. Só que esta vez aexpectativa era por uma redenção permanente dos males da história. Apartida dos zelotes [fanáticos] tinha uma febre apocalíptica tal, queapoiou uma guerra de guerrilhas contra Roma na segurança de que Deusdestruiria os opressores do Israel e criaria um mundo no qual Satanás e ador não existiriam mais. Josefo, o historiador judeu do primeiro século, ordem que um certoJudas, galileo, originou um levantamento a princípios do século I. Suafilosofia era que o povo de Deus devia reconhecer só a Deus como seusoberano e Senhor, e recusar-se a pagar impostos a um amo pagão.4 ONovo Testamento registra que essa rebelião chegou a um fimdesventurado (At. 5:37). Entre os rolos do Mar Morto, descobertos nas cavernas de Qumran,encontrou-se um denominado Regra de guerra (QM), escrito a começosda era cristã. Descreve um plano de batalha para que os pactuantes deQumran travem a última guerra santa contra Roma (Quitim) e Belial. Aesperança era de novo que Deus interviria com seu santos anjos e daria
  3. 3. Esperança Apocalíptica dos Judeus do Século I 3ao fiel remanescente de Israel uma vitória eterna por meio de umdesdobramento do poder do Miguel como o guerreiro divino.5 Esta esperança política de um futuro mais brilhante alcançou umtom tão febril no século I, que conduziu ao levantamento judeu contraRoma nos anos 66-72 e no 132. Em ambas as ocasiões os judeuscomeçaram uma guerra militar contra o Império Romano confiando emque Deus os vindicaria com uma vitória sobrenatural. Salomão Schechter resume com quatro características os elementosessenciais da esperança apocalíptica no primeiro século: (1) o Messias,da casa de Davi, restaurará o reino do Israel e estenderá seu governosobre toda a terra; (2) os inimigos de Deus lançarão um ataque maciçocontra Israel, no qual o Messias destruirá a todos seus oponentes pagãos;(3) todas as nações sobreviventes aceitarão o Deus de Israel,reconhecerão seu reino e procurarão a instrução de seu Torah (lei); e (4)a era do reinado messiânico será uma era de prosperidade material esorte espiritual; até a morte seria abolida por meio da ressurreição dosjustos mortos. Este reino do Messias era, de acordo com algumas fontes,uma preparação para o tempo quando Deus mesmo reinaria.6 Infelizmente, os judeus estavam tão dominados por seu ódio paraRoma que enfatizaram unilateralmente a missão da vinda do Messiascomo o libertador do jugo romano e o restaurador do reino nacional aIsrael. Por esta razão, os rabinos estudaram as profecias messiânicas dasEscrituras Hebraicas com uma mente preconcebidas que lhes impediu dever a revelação da plenitude da missão do Messias para salvar do pecadoa todos os homens. Esperando um Messias político só para sua próprianação, passaram por cima das profecias e dos tipos que prediziam amorte expiatória do Messias em sua primeira vinda. Interpretando aprofecia para encontrar evidências com o fim de sustentar sua ambiçãonacional, os judeus se prepararam para rechaçar o Salvador do mundo.Quando Cristo veio em uma maneira contrária a suas expectativas,ficaram completamente desapontados e não o receberam.
  4. 4. Esperança Apocalíptica dos Judeus do Século I 4 Cristo tratou de lhes mostrar que tinham interpretado mal apromessa de Deus de conceder favor eterno a Israel. Tinham chegado aconsiderar sua descendência natural de Abraão como uma pretensão paraessa promessa (João 8:33-40). Na verdade, em seu orgulho racial, osdirigentes judeus passaram por cima das condições prévias que Deustinha especificado. O favor de Deus estava assegurado só a um Israelespiritual e em cujos corações ele tinha escrito sua lei: "Darei minha leiem sua mente, e a escreverei em seu coração; e eu serei a eles por Deus,e eles me serão por povo... Porque todos me conhecerão, do maispequeno deles até o maior, diz o Senhor" (Jer. 31:31-34). As promessas divinas de salvação e bênção para o mundo estavamasseguradas a um Israel regenerado como o verdadeiro povo do pacto. Opovo espiritual de Deus são constituídos pelos que estão "circuncidados"em seus corações (ver Deut. 10:16; 30:6; Jer. 4:4). Um povo assim nãoreclamará as promessas de Deus e renderá um serviço exterior a Deusmeramente pelo puro prazer de alcançar grandeza nacional. O essencialda Bíblia Hebraica não é o Israel, e sim o Messias de Israel! As profeciasmessiânicas constituem o coração tanto da Escritura como dos sagradosserviços do santuário no Israel. Muitos rabinos e fariseus chegaram aacreditar que por meio de um conhecimento da Escritura e umaconformidade exterior a ela, possuíam vida eterna. A Mishná ensina:"Grande é a lei, porque lhe dá vida aos que a praticam tanto neste mundocomo no vindouro".7 Mas Jesus assinalou uma falta fundamental devisão: "Vós perscrutais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vidaeterna; ora, são elas que dão testemunho de mim; vós, porém, nãoquereis vir a mim para terdes a vida" (João 5:39, 40, BJ). A vida está centrada no Messias, o Filho de Deus, e não naEscritura. Jesus afirmou: "As palavras que eu lhes falei são espírito e sãovida" (João 6:63). Ao perder de vista a Cristo como o coração viventedas Escrituras, os judeus já não entenderam mais o significado espiritualdo serviço ritual em seu templo. Começaram a confiar nos mesmossacrifícios e cerimônias em vez de contemplá-lo a ele, a quem
  5. 5. Esperança Apocalíptica dos Judeus do Século I 5assinalavam os sacrifícios. De modo que perderam o significadoespiritual de sua adoração no templo. Aferrando-se a fórmulas mortas,esses rituais chegaram a ser um mistério inexplicável. Até as restrições rabínicas quanto à observância do sábado revelamque os judeus já não percebiam que no sábado havia uma promessadivina do descanso messiânico. Os dirigentes judeus interpretaram mal oato do Jesus ao curar milagrosamente a um paralítico no sábado como aevidência de uma atitude contra na sábado (João 5:16-18). Entretanto, ooposto era verdade. Jesus ensinou que as obras de misericórdia não sóestavam permitidas, mas também eram obrigatórias no sábado para queas fizesse o Messias, e em perfeita harmonia com a vontade do Paicelestial. "Meu Pai, até o presente, continua trabalhando e eu tambémtrabalho" (João 5:17, NBE). O erudito evangélico Leão Morris o explicadesta maneira: "Ele [Jesus] não estava dizendo que não devia guardar-seo sábado... Estava dizendo que seus críticos não entendiam o quesignificava na sábado e por que tinha sido instituído".8 Não surpreende que Jesus censurasse os judeus por sua falta depercepção espiritual, por não discernir quem era ele, o Enviado ao Israelpelo Pai. E desafiou-os perguntando: "Não vos deu Moisés a lei?Contudo, ninguém dentre vós a observa. Por que procurais matar-me?...Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça" (João 7:19,24). Enquanto desejavam a vinda do Messias, os judeus já não tinham overdadeiro conceito de sua missão divina como Redentor do pecado e deSatanás. Cristo lhes disse: "Todo o que comete pecado é escravo do pecado...Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres" (João 8:34,36), mas eles afirmaram que eram livres porque, disseram, "jamaisfomos escravos de ninguém" (v. 33). Não compreenderam o significadoespiritual do pecado ou o significado da natureza da dignidade real deCristo. O Messias devia vir como o verdadeiro intérprete dos profetas deIsrael. Devia definir os princípios do reino e o plano de redenção. Issofoi o que fez Cristo, e seus ensinos estão registrados nos Evangelhos, os
  6. 6. Esperança Apocalíptica dos Judeus do Século I 6quais formam a chave essencial para entender corretamente o AntigoTestamento. Também formam a ponte teológica entre as profecias doAntigo Testamento e o livro do Apocalipse. Portanto, antes de podermosentender corretamente o último livro da Bíblia, é indispensável descobrirprimeiro como Jesus interpretou a perspectiva profética dos profetasclássicos e o livro do Daniel. Referências 1. "Salmos de Salomão", 17:21-25, citado em J. H. Charlesworth, The Old Testament Pseudepigrapha, T. 2, p. 667. 2. "Testamento de Moisés", 10:7, 8, chamado em G. Aranda Pérez, F. García Martínez e M. Pérez Fernández, Literatura judía intertestamentaria (Estella, Navarra: Verbo Divino, 1996), p. 301. 3. "O Messias que o Altíssimo reservou para o final dos tempos: Ele surgirá da estirpe de Davi " (Ibid., p. 329). 4. Flavio Josefo, Obras completas de Flavio Josefo: Antigüedades judías (Buenos Aires: Acervo Cultural, 1961), XVIII, 1, 1-6 (t. 3, pp. 225-228); La guerra de los judíos, 11, 8 (t. 4, pp. 136-142). 5. 1 QM 6; 12-14. 6. Schechter, Salomão, Aspects of Rabbinic Theology (Nova York: Schocken Books, 1961), p. 102. 7. Abot [Pais] 6: 7. 8 Leão Morris, Reflections on the Gospel of John (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1987), T. 2, pp. 265, 266.

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