O belo aos olhos da alma plotiniana dm 2.

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O belo aos olhos da alma plotiniana dm 2.

  1. 1. DIANA ISABEL PEREIRA MENDESO BELO AOS OLHOS DAALMA PLOTINIANA VILA REAL  2011/2012
  2. 2. DIANA ISABEL PEREIRA MENDESO BELO AOS OLHOS DAALMA PLOTINIANA Trabalho de licenciatura apresentado à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro de Vila Real, como requisito total para a obtenção da avaliação da unidade curricular designada por Estética e Comunicação. Docente: Elisa Maria Oliveira Gomes da Torre VILA REAL  UTAD 2011/2012
  3. 3. (…)”Não há um orgasmo que ponha fim ao desejo. E ela lhe parece bela, como nenhuma outra. Porque uma pessoa é bela, não pela beleza dela, mas pela beleza 1 nossa que se reflete nela” (...) “O que vê então esta visão interior”? Uma vez habituada àquelas belezas, a alma então se introverte. Caso ainda não veja sua própria beleza, que retire de si todo o supérfluo até que, purificada, resplandeça. Trata-se de outra imagem muito conhecida: a do escultor que raspa, pule, limpa, até que surja uma bela estátua (Cf. I, 6, 9, 7-15). “A purificação e o embelezamento não são, entretanto, uma luta contra uma feiúra alheia. Retirar a ferrugem do tempo nos é tanto menos fácil por se tratar de limpar o que lentamente tornou-se nosso2”.______________________________________________________________________1 Alves, Ruben (1933): “O retorno e terno”. Crónicas Ruben Alves 27ª Edição. Papirus2 Oliveira, Loraine (2008): “O Belo em Plotino”
  4. 4. Resumo Plotino é apologista de que a beleza pertence ao mundo inteligível e não ao mundosensível onde a maioria das pessoas tendem a colocá-la e a ficar só por lá. A beleza não é o que os sentidos captam instantaneamente quando os olhos corporaisse abrem. É um valor semeado no nosso interior mais profundo, na nossa bagagem internaque não é visível num simples devaneio visual. A beleza está para além do que vemos. Não se deve então resumir ao mundo sensívelque está aqui tão perto de nós. Segundo Plotino, o Belo é definido a partir de uma perspectiva metafísica. Calcar e vasculhar não só o chão que pisamos... Ele não se deixa ficar pela solidezdeste piso. Tocar não só a epiderme que reveste o nosso esqueleto, mas as camadas interioressobrepostas que são igualmente nossas e não devem ser descartadas como se nada dissessemdo nosso ser e beleza.Com isto quero eu dizer que não podemos nos limitar a este “rés-do-chão”, a este patamar tãobaixo onde só cabe a brutalidade, ou seja, a materialidade das coisas. É um valor inteligível que não permite o sedentarismo do exercício de olhar sem olhosde ver. Não permite a diluição na vulgaridade para onde caiu esse gesto. É muito mais do queos semelhantes pensam ser e captar. Não pertence, então, ao campo visual. É um valor tão grande que só cabe no tamanhode uma visão ampla e completa que tanto tem de abstracta como de concreta...e essa só temlugar reservado na nossa alma, no nosso espírito. Não é algo dado de bandeja, como se tratasse de doses de refeição gratuitas. É algoque nos alimenta e nos enriquece de dentro para fora. E quando essa riqueza chegar à tona,ninguém vê. A claridade do dia que a nossa íris capta leva a um encadeamento que nos deixacegos e incapazes de dizer se coisa X é bela ou pessoa Y é dotada de uma beleza excepcional.Porque não é essa a beleza que Plotino anseia. A beleza de que falamos neste projeto não estáà superfície.Para assistirmos ao espetáculo dela devemos então partir do mundo sensível, mas sempre como olhar para cima, em jeito de contemplação rumo ao inteligível. 4
  5. 5. SumárioResumo........................................................................................................................................4Introdução................................................................................................................................6-7Concepção Tradicional Versus Concepção Plotiniana............................................................8-9Escadório Espiritual.............................................................................................................10-11O Belo como Bem...............................................................................................................12-13Onde está a Beleza? ............................................................................................................14-15Os Observadores da Beleza Suprema.......................................................................................16Identificação........................................................................................................................17-18Conclusão............................................................................................................................19-20Referências Bibliográficas........................................................................................................21 5
  6. 6. Introdução O presente trabalho segue várias linhas de pensamento traçadas em livros, artigos derevistas, estudos, teses e dissertações. Há ainda comentários e traduções da própria obra dasEneádas, uma vez que escrito na sua língua original oferecia um nulo conhecimento à autoradeste trabalho. Em relação às teses, as que seleccionei estudam a concepção metafísica do Belo emPlotino. E fazem-no a partir de análises exaustivas de capítulo a capítulo. É possível vertambém que é tentador relacionar a Eneáda I com a Eneáda V, pois abordam o Belo emambos os mundos (sensível e inteligível). E torna-se interessante e esclarecedor fazer esseparalelismo. Há ainda a tendência de colocar frente a frente, Plotino e o pensamento antigopartilhado por Platão e Aristóteles, destacando-se assim as diferenças e semelhanças. A análise de “Eneáda V” de Plotino exige sérios preparativos mentais. Oentendimento do leitor só chegará à devida interpretação ou à proximidade da mesma sealargar os horizontes filosóficos.Esta obra deve então ser lida com o Intelecto para ser compreendida.Pensamentos transcendentes são exigidos para uma boa reflexão da teorização antiga sobre oBelo. Não devemos então cingir-nos às linhas de pensamento unidirecionais. Torna-se necessário entender que os valores propostos por este autor são os de ordemespiritual, pelo que a dimensão corpórea é imediatamente depreciada. Um dos objectivos deste projecto é perceber como o Belo se expõe no mundosensível. É imprescindível desbravar os tópicos da metafísica de Plotino, apurando o modocomo surge o mundo sensível, e qual a fonte do belo. Para isso, não podemos ignorar a tríadado mundo inteligível: o Uno, a Inteligência e a Alma.Estes pilares inteligíveis conduzirão a um entendimento da nossa parte quanto à noção domundo inteligível e ficaremos a saber que é precisamente de lá que “nascem” o Belo e aForma. A forma e a matéria são interdependentes, uma não se pode expressar sem a outra evice-versa. 6
  7. 7. Plotino fala também da teoria da processão. Este pensador convida a uma passagemnatural sem barreiras do mundo sensível ao mundo inteligível por emanações ou processões. Tudo o que tem origem no Uno, pode retornar a ele, através da contemplação. Esseretorno de que falamos é designado por conversão. O Belo é, então, um meio de conversão. A descoberta do Belo no mundo sensível e o encontro com o Belo na dimensãointeligível exige subtilmente a purificação da alma.Assim, a tentativa de tornar-se Belo levará a uma leveza indescritível. Poder-se-à dizer que esta prova estética é também sobrenatural. Esta simples investigação pretende então colocar à tona a novidade plotiniana. Na suaobra intitulada de “Enéadas” ele fez questão de erguer bem alto a sua concepção de belezaque em tudo se distancia da tradicional. Plotino prefere considerar a beleza como um valor puramente inteligível, associado àcongruência moral e à sumptuosidade metafísica. O autor quer com isto modificar o nosso jeito de ver pois a esmagadora maioria daspessoas tende a alcançar apenas o limiar intermédio, nunca atingindo o mais alto, aquele quesimultaneamente consegue ser o mais profundo... profundo de ser, de descoberta, de espírito.Esta viagem ascendente requer obviamente a uma introspectiva para que a gente descubra eveja em nós o início e o fim de toda a realidade, o Uno. A beleza, esta de Plotino consegue estabelecer uma ligação encantadora onde as raízesracionais cessam momentâneamente de crescer para assistirmos à presença satisfatória doUno. 7
  8. 8. Concepção Tradicional Versus Concepção Plotiniana Plotino faz uso de uma linha de pensamento contrária à de Aristóteles. A teoria estética antiga dava primazia a conceitos, como por exemplo, medida, ordem,simetria e proporção. A noção de Belo estipulada por Aristóteles sobreviveu durante alguns séculos até quesurgiu uma escola filosófica bem diferente que trilhou caminhos recusando os ideaisanteriores. Esta nova filosofia de Plotino assenta sobre a Beleza como um valor metafísico. Se a maioria dos mortais tinham nas suas mentes a concepção aristotélica de beleza,quais foram os argumentos que levaram Plotino a recusar este conceito? É óbvio que não é à toa que Plotino ergueu uma noção que revolucionou a época.Há que destacar as razões que levaram a esta concepção metafísica de Belo:1) Simetria: “A alma do mundo é um “reflexo transparente do Uno”, e se torna opaca quando misturada com a matéria no mundo sensível... O homem que vê o belo no relâmpago, no fogo ou na estrela da noite, vê transparecer o Uno na alma do mundo. Ou seja, deixa de ver a opacidade material.” Se a simetria é um factor dos quais a beleza depende, só em objectos palpáveis seriaum factor a ter em consideração. O que significa que nas coisas espirituais não nos restariahipóteses de avaliar o que é belo, ficando este caminho vedado. Mas, se pensarmos bem, asvozes, o arco-íris e o sol são igualmente belos. Concluimos que a simetria é apenas uma dasmanifestações externas da beleza, não a sua fonte.2) Proporção: Se a beleza dependesse, de facto, da proporção, se formos a verificar o rostode x3 pessoa tem sempre a mesma proporção, por mais que possa manifestar diferentesexpressões. É então uma constante e não uma variável4 como o pensamento grego ditou.3) Acordo: Algo é belo se exisitir relação entre as partes de um todo. Este era o pensamento antigo, esteticamente falando. Plotino diz que as peças do puzzle têm que ser belas individualmente para na conjunção o serem também. Se assim não fosse, as coisas brutas5 seriam igualmente belas. 8
  9. 9. A beleza não é o que existe numa combinação como acontece num puzzle, em termosexemplares. Não é de todo uma questão de relação, deve ser vista como elemento interno doobjecto, como uma extensão do mesmo. Esta só é apreendida por uma faculdade intelectual. O autor sublinha que as partes de um todo sejam dotadas de igual beleza, e não queesta existe apenas no resultado da correlação. A matéria em si não é bela. O espírito que nela reside é que é belo. O importante a reter é a questão do reconhecimento e identificação. Só o espírito“detecta” o seu semelhante (espírito). Então, só o espírito está em plena capacidade paracaptar a beleza. _______________________________________________________________________________ 3 A expressão “x pessoa” é uma forma de não personificar, pois pretendo dar um exemplo geral. 4 Em relação à proporção, digo matematicamente que não é uma variável pois esta não mostra diversidade, é sempre a mesma. 5 Brutas no sentido de matéria no seu estado “bruto”, portanto, inicial sem ser tido alvo de algum processo de lapidação. É portanto, a materialidade das coisas propriamente dita. 9
  10. 10. Escadório espiritual “A beleza é um caminho para afastar-nos do mundo brutal da matéria e, assim, subir às regiões do espírito desejadas pela nossa alma.”6 O segredo para interpretar a beleza inteligível está descodificado nas Enéadas. A concepção de beleza por Plotino poderá acender algumas chamas ambíguas, asquais desaparecerão ou apaziguarão com um sopro metafísico e amplo. É urgente perceber que Plotino distingue 3 níveis da realidade: a alma, o intelecto e oUno. “A alma não pode contemplar a beleza se não se torna, ela mesma, bela”7 A possibilidade de compreensão da Beleza está no exercício de transformaçãoindividual e íntima rumo aos níveis superiores da realidade. A Alma contempla em seu âmago a beleza sendo igualmente bela. O espírito caminha para a beleza e o ponto de encontro juntará as duas realidades nãocorpóreas num só. Neste contexto a arte é valorizada mediante o reconhecimento da beleza que traz. A beleza transparece na arte porque ela nasce da forma abrigada no intelecto do artistae não do exercício de colocar mãos à obra.Portanto, o artista quando possui conhecimento intelectual da forma traz à visão a beleza. Plotino descreve a ascendência necessária para se chegar À beleza de que tanto fala.Esta não está à nossa mão, temos que estendê-la e subir. Subir por inteiro. Descreve então a busca da Alma pela beleza, partindo dos objectos sensíveis echegando à beleza dela mesma e do inteligível. Unir a alma à beleza, é uma relação simbiótica que o autor constantemente deseja.___________________________________________________________________________6,7 Ramos, Bento Silva - UFES – Plotino: Uma perspectiva neoplatónica da estética. Departamento de FilosofiaSoares, Luciana Gabriela E. C. Traduçã - Plotino, Acerca da Beleza Inteligível (Eneáda V, 8 [31]) - Introdução,tradução e notas 10
  11. 11. Esta relação é o patamar mais alto que a alma pode alcançar. Quanto às belezas superiores – que já não cabe à percepção ver – a alma, sem órgãos, as vê e proclama, pois, para aqueles que contemplam, é necessário elevar-se, abandonando a percepção, que permanece embaixo. Assim como não é possível descrever aos que não vêem, caso forem cegos de nascença, as belezas da sensibilidade ou aos que não as reconhecem como belas, do mesmo modo não [é possível descrever] a beleza das ocupações a não ser para os que as aceitam plenamente [...].8 Esta viagem ética-contemplativa tem no seu fim a descoberta do belo como bem. Só atingimos o bem se aceitarmos fazer essa viagem ascendente. E para tocarmos nele, teremos que obrigatoriamente nos ajoelharmos e despirmos anossa indumentária, só assim nos é permitida a subida por este escadório espiritual. É um “ir”purificado…trata-se de olhar para si próprio nuo e achar a pureza. Deve-se subir de novo para o Bem, para aquilo que toda a alma deseja. Se alguém viu isto, sabe o que eu digo, em que sentido ele é belo [...] mas somente o obterão aqueles que subirem até o alto e se converterem, e ao se despir das vestimentas que receberam ao vir para baixo9 [...]. _________________________________________________________________________8 Ramos, Bento Silva - UFES – Plotino: Uma perspectiva neoplatónica da estética. Departamento de FilosofiaSoares, Luciana Gabriela E. C. Traduçã - Plotino, Acerca da Beleza Inteligível (Eneáda V, 8 [31]) - Introdução,tradução e notas9 (2007): Viso. Cadernos de Estética Aplicada - Revista electrónica de estética N.º 3, Set – Dez/2007 11
  12. 12. O Belo como Bem Segundo Plotino, a matéria não é detentora de beleza, só o Espírito o é. Plotino desvia-se das noções de Belo que o mundo moderno tem. O Belo evidencia o espírito presente numa realidade corpórea10.Somente o Espírito pode captar o Belo. De facto, Plotino destaca a índole deixando para trás a exteriorização, a aparência queé visível aos olhos de quem não vê11. O Belo reflecte a presença do espírito e quão este é rico e belo. A beleza deixou de estar associada às simetrias e proporções de que o pensamentogrego era apologista. Os filhos contemporâneos pensam que a beleza está no que se vê diretamente nopatamar abaixo. O Belo é aquilo que torna o homem Bom. O que gera a beleza é a pureza e a bondade. Tudo o que revela a beleza da presença do Uno é Belo. O Belo é, portanto, inteligível. Quando o homem é realmente puro e nuo consegue captar essa presença.E assim, a visão ganha cor, nitidez e a vida torna-se bem mais bela. Para Plotino, o Belo é tudo aquilo que conduz o homem ao Bem. O Bem é o fundamento metafísico do mundo. A beleza sensível do mundo material apenas nos permite recordar que existe umaoutra Beleza, superior, suprema: a Inteligível. Na modernidade, o que se busca é a beleza sensível.Ela é o fim, uma rua sem sentido e não um caminho que pode apontar para algo grandioso ebastante que transcende o mundo das aparências e toca a dimensão do essencial. Quem se cinge pela beleza sensível, quem recusa subir vive num mundo ilusório emque os seus olhos estão absolutamente vendados. Por esta razão, as pessoas procuram aperfeição somente nessa beleza e não na natureza espiritual.___________________________________________________________________________10 Realidade corpórea é o mesmo que dizer corpo, matéria.11 “olhos de quem não vê” Pode parecer ambíguo, mas quero dizer com isto que só quem vê com o sentido(visão) literalmente falando só se depara com o mundo sensível, o mesmo que é depreciado pelo autor dasEnéadas. Os que olham sem ver são as pessoas que se deixam mergulhar pela ilusão da forma exteriorizada damatéria. 12
  13. 13. Esta necessidade de beleza em jeito de “máscara” mostra o quão decadente estamos deespírito. Cabisbaixos olhamos para baixo ao invés de olhar rumo ao Uno. A filosofia espiritualista de Plotino toma a beleza como qualidade do ser, é umacriação metafísica. A beleza não se mede quantificamente, é pura qualidade. No máximo o que poder-se-àdizer é que há graus relativos à sua pureza.Não podemos ignorer o factor de dinâmica do ser segundo Plotino. Em termos práticos, supondo que existem duas realidades, uma corpórea A e outraespiritual B12. A designada por A é um corpo, uma matéria, a qual é dada de imediato. Não existemambiguidades nem lacunas na compreensão da mesma. É uma massa corpórea estática e semvida. Já o B é a reserva mental da imagem, é um mapa mental, intelectual que através damemória nos faz relembrar do mesmo. Esta é viva, porque vive a vida do nosso espírito.É no nosso espírito que reside a beleza superior do ser, assim o espírito pode criar o belo. A beleza em Plotino ultrapassa as barreiras físicas e apresenta-se em sua autênticapureza e imaterialidade. Esta beleza afastada da realidade material e sensível exige uma ascensão.Poder-se-à dizer que Plotino atribuiu uma função à beleza que é caminhar para o alto (Bem) efinalmente chegar ao observatório metafísico do mundo.12 Ramos, Bento Silva - UFES – Plotino: Uma perspectiva neoplatónica da estética. Departamento de FilosofiaSoares, Luciana Gabriela E. C. Traduçã - Plotino, Acerca da Beleza Inteligível (Eneáda V, 8 [31]) - Introdução,tradução e notas 13
  14. 14. Onde está a Beleza? “(…)A beleza, portanto, está lá em cima e provém do alto”13(…) A alma consegue apreender a beleza através do intelecto.Para essa apreensão ser bem sucedida, são imprescindíveis as faculdades cognoscitivas eintelectuais. Quando falamos de fonte da beleza, falamos do espírito e não da matéria. O espírito satisfaz a sede da Beleza. “Então, tome como exemplo, se quiser, duas pedras que se encontram em estado bruto uma ao lado da outra, uma sem proporção e desprovida de arte e a outra já transformada pelo domínio da arte na estátua de um deus ou ainda de um homem, de um deus como uma Graça ou uma Musa e de um homem , não qualquer um, mas aquele que a arte criou escolhendo todas as belas qualidades. Aquela pedra que atingiu a beleza de uma forma devida à arte, aparecerá bela não em relação ao seu ser pedra —pois seria igualmente bela também a outra— mas pela forma que a arte infundiu. Portanto, a matéria não tinha esta forma, mas esta estava em quem a pensava já antes de atingir a pedra; estava no artífice, não enquanto é dotado de olhos e mãos, mas porque participava da arte14.” Dois blocos de pedra, um em bruto, e outro trabalhado dando origem a uma estátua.O mais Belo supostamente é a estátua. Mas essa beleza não está na matéria. Pois, se tivesse o bloco de pedra em bruto eraigualmente bela. Assim sendo, a realidade corpórea só é bela pela forma que a arte lhe deu. Pela formaque está no intelecto do artista. “Forjar o belo na matéria é buscar encontrar aquilo que amamos, que é o mais próprio de nossa natureza, o inteligível. Assim, toda a escada própria da erótica dialética ascendente configura a compreensão sublime da arte em Plotino: a beleza percebida no mundo sensível é o primeiro passo do lembrar-se de si mesmo, o qual deve ser superado na descoberta amorosa das realidades psíquicas. Forjando o belo no sensível, o artista se apresenta como um apaixonado pelas realidades mais intensamente belas do psíquico, e, num próximo momento, também a psyché se apaixona pelo inteligível, e mais belas ainda serão suas produções15.”____________________________________________________________________13 Eneádas V, 8, 1314 Plotino Eneáda V Cap I15 (2007): Viso. Cadernos de Estética Aplicada - Revista electrónica de estética N.º 3, Set – Dez/2007 14
  15. 15. “o intelecto dá forma às coisas da natureza, as torna belas pelo grau de participação na mesma ideia16.” Este pensador diz que para além da beleza das coisas sensíveis, naturais e próprias daarte, existem belezas supremas, as belezas que se encontram no alto, num patamar bemsuperior, belezas essas que não cabem na percepção das sensações, mas à contemplação. “enquanto a beleza permanece externa não a vemos ainda, quando finalmente é interna à alma tem efeito sobre nós. Na verdade, apenas a forma entra através dos olhos: senão como poderia entrar através de uma abertura tão pequena? Mas a forma traz consigo também a grandeza, não aquela grande enquanto massa, mas aquela que é grande pela forma17.” Essa ascensão da beleza sensível em direção à beleza inteligível faz-se através doconhecimento do Homem em relação a si. Este conhecimento da realidade inteligível alcança-se com a alma. Para entender o Belo, a forma na alma não passa de um preceito.___________________________________________________________________________16. 17 Ramos, Bento Silva - UFES – Plotino: Uma perspectiva neoplatónica da estética. Departamento deFilosofiaSoares, Luciana Gabriela E. C. Traduçã - Plotino, Acerca da Beleza Inteligível (Eneáda V, 8 [31]) - Introdução,tradução e notas 15
  16. 16. Os Observadores da Beleza Suprema ... Quem são? (...)nós que não estamos habituados a ver nada das coisas internas nem as conhecemos, seguimos o exterior ignorando que é o interior que move. Como se alguém, vendo a própria imagem, não reconhecendo de onde esta vem, a seguisse. Além disso, tanto a beleza nos estudos como a beleza nos hábitos, ou ainda, em geral, a beleza nas almas, revela que isto que é seguido é outro e que a beleza não está na grandeza. E certamente, na verdade, há mais beleza quando tu vês a sabedoria em alguém e ficas admirado não olhando para o rosto — este poderia ser na verdade feio — mas deixando de lado todo o aspecto exterior, tu segues a sua beleza interior . Se ao invés não te comove ainda, ao ponto de definir bela uma tal pessoa, olhando para o teu próprio interior tampouco te alegrará de ti mesmo como belo. De maneira que em vão tu buscarias a beleza estando em tal condição; pois a buscarás no feio e no impuro; por isso os discursos sobre tais argumentos não são para todos. Mas se tu também viste a ti mesmo belo, recorda-te18(...) Cap2 Ora respondendo à questão que coloquei anteriormente, nem todos os homensconseguem enxergar esta Beleza. Aliás, de facto, falamos de uma “amostra” bem selectiva.Ou seja, são poucos os que reúnem esforços intelectuais para aceitar o “bilhete de viagemascendente” até ao Uno. Estes homens de que falamos terão que ser alvo de um trabalho prévio que consisteem ver não a “capa” que reveste os “corpos”, mas a sabedoria que não reside na feíura nem naaparente perfeição, mas sim no interior, no espírito. Para isso, têm que raspar e lapidar o seupróprio ser e a perspectiva de ver. “(...)De fato, a beleza ilumina todas as coisas e sacia aqueles que estão lá, ao ponto que também esses se tornam belos, como muitas vezes os homens subindo sobre lugares elevados, no momento em que a terra de lá adquire uma cor dourada, são inundados por aquela cor tornado-se semelhantes à terra sobre a qual caminham. Mas lá a cor que floresce é beleza, ou ainda, tudo é cor e beleza em profundidade. Pois o belo não é alguma coisa de diverso, como se fosse um simples florescimento em superfície. Mas aqueles que não vêem o todo crêem somente na impressão externa; ao contrário, àqueles que estão, por assim dizer, totalmente embriagados e saciados de néctar, já que a beleza penetrou toda a alma, é consentido ser não apenas espectadores, porque não existe mais uma coisa externa e uma outra, aquela que olha, por sua vez externa; mas isto que vê com a vista aguda possui em si mesmo isto que é visto; todavia, mesmo o possuindo, muitas vezes ignora que o possui e olha como se o objeto fosse exterior, já que olha como se isto fosse uma coisa visível e porque quer vê-lo como tal. Tudo isto que alguém olha como se fosse visível, olha do exterior. Mas é preciso agora transferir;o objeto visível em si mesmo e olhar para ele como se fosse uma unidade e vê-lo como si mesmo, como se alguém possuído por um deus, inspirado por Febo ou por uma Musa gerasse em si mesmo a visão do deus, se tivesse a força de olhar um deus em si mesmo.19(...)”__________________________________________________________________________________19 Prof. Pizzinga, Dr. R - Um iniciado que estudou a natureza da almaPensamentos de Plotino (incluindo biografia do autor das Enéadas) - Membro dos Iluminados de Kemet 16
  17. 17. Identificação“Intertextualidade” com a Eneáda I “Jamais um olho verá o sol sem ter-se tornado semelhante ao sol, nem uma alma verá a beleza sem ter se tornado bela. Todo ser deve tornar-se divino e belo, se deseja contemplar a Deus e a Beleza.20” A beleza expressa-se como luz, esplendor, como qualidade pura. O espírito do homem é criador de beleza; assim pode atingir a contemplação doesplendor metafísico. Aquele que contempla a beleza física não deve ficar hipnotizado, mas dar-se conta deque se trata apenas de uma imagem, de uma ilusão, e que deveria assim subir em direcção àfonte da qual esta não passa de um reflexo. Pode-se ainda acrescentar que de facto existem graus ascendentes de beleza. Isto parapercebermos melhor da estrutura da viagem ascendente. O grau zero não existe, isto porque, segundo Plotino, em cada corpúsculo de matéria,o esplendor do bem ainda transparece. Voltando ao processo identificativo, quem quiser exercer o papel de aluno de Plotinosó o fará quando se reconhecer a si próprio. “[…]Volte-se sobre ti mesmo, e olha. Se ainda não vês tu mesmo belo, como um criador de esculturas que busca torná-las belas – ele retira uma parte, recorta a outra, outra faz suave, outra ainda faz pura – desta forma também tu, retire o excesso, alinha aquilo que for torto, trabalha sobre o que for obscuro, purifica-os, para que sejam brilhantes. E não cesse de moldar sua própria escultura, até que o esplendor da virtude deiforme brilhe, até que tu vejas a temperança fixada no trono sagrado. Se, tendo te tornado isto, tu também vês isto, associe-se consigo mesmo de modo puro21 [...]. E isso significa, pôr de lado a dimensão corpórea e assim iniciar a sua própriapurificação. Esta decorrerá se na alma do próprio existir o desejo de alcançar o Além22. Plotino é um amante da identificação da nossa índole com a da Beleza inteligível. Percorrendo as Enéadas, deparamo-nos com algumas “ordens” no sentido de nos fazercrer pragmaticamente que o melhor é lapidar o nosso ser, removendo tudo o que sejaimpurezas. Isto, para que no final as sobras melhorem a “visão”, para que possamos descobrir 17
  18. 18. a beleza em nós para contemplar a de lá. Quando a alma se apercebe que partilha a mesma natureza da beleza inteligívelrecorda-se de si própria. Um homem puro, de bem conseguirá detectar as qualidades de outro homem, desdeque este último também viva em tranquilidade e em sintonia com a sua vida interior. Ou seja,não pode estar mergulhada na mera ilusão do mundo sensível que é tão enganador.___________________________________________________________________________20 Plotino Eneáda I, 6, 8-921 (2007): Viso. Cadernos de Estética Aplicada - Revista electrónica de estética N.º 3, Set – Dez/200722 O Além é tomado semânticamente como a Beleza inteligível, a essência. 18
  19. 19. Conclusão O autor a quem esta análise se dedica, influenciou a filosofia platónica que tambémprocurava atingir a essência das coisas através da contemplação das essências, do belo em simesmo.Trata-se de uma busca racional da verdade e do sentido de todas as coisas. A carta lançada para a mesa levanta a questão do Belo que é bem mais relativo ecomplexo do que possa parecer. Não se trata aqui da aquisição de uma beleza de natureza diversa daquela que é inata àalma. Trata-se apenas da beleza que é revelada à alma à medida que ela se dirige em direcçãoao Intelecto. Essa conversão que ele quer “ensinar” a qualquer aprendiz que esteja disposto a subirpara o mais alto rumo à beleza, e ao Uno será purificado ao longo desta. Plotino cria uma concepção diferente de Beleza que estamos habituados a verimediatamente através dos nossos sentidos. Ele fala da conversão, da mudança do nosso comportamento visual, fala de umenriquecimento de alma, de espírito. Não se ilude, nem se verga perante as cores, ou porporções aparentemente perfeitas.Porque a forma é apenas um reflexo. E sem forma, seria apenas uma matéria amorfa que nãosuscitaria atenção nem do observador mais perito. Plotino é um especialista da metafísica, ele vê para além do que a realidade lhe dáinstantaneamente, ele vê para além da “brutalidade” dos corpos. A meu ver, o maior desafio está no facto de que nós hoje temos um conceito de belo ede arte como algo da sensibilidade e ligado à múltiplas interpretações. A filosofia antiga procurava uma compreensão racional de tudo, desvalorizando asensibilidade como forma de conhecimento. Neste sentido o belo em si mesmo, existe nointelecto e a arte seria uma forma de o expressar. Plotino aborda a beleza num sentido metafísico. A contemplação do belo consistenuma apreensão intelectual que se obtém por um percurso cognitivo. Atingir o belo é omáximo que a alma pode alcançar. Será como que a captação da essência das coisas. Atingir abeleza inteligível é uma atividade intelectual que a aproxima do Uno.A arte tem um sentidometafísico. Ela é valorizada na medida em que consiste num dos modos de reconhecimento dabeleza. A arte provém do intelecto. Isto significa que a arte transporta o conhecimentointelectual do belo. 19
  20. 20. Para Plotino a beleza não está na forma da realidade corpórea mas na sua índole, noseu espírito. Aqueles que vêem a beleza desse modo não vêem coisa nenhuma, estão "cegos".Quem tem a capacidade de ver é quem olha com a alma, é quem aceita fazer essa viagemascendente até encontrar-se a si próprio despido, que é o mesmo que dizer, encontrar a belezasuprema. O Uno será a inteligência suprema da qual emanam todas as coisas. O ser humano nointuito de alcançar o verdadeiro conhecimento, deve elevar-se das coisas sensíveis àsinteligíveis. Trata-se de um percurso intelectual até se atingir a compreensão do belo. Será oconfronto do homem com a essência e verdadeira natureza das coisas. 20
  21. 21. BibliografiaOliveira, Loraine (2005): O Belo em Plotino: Do Múltiplo ao Uno - Síntese – Rev. de Filosofia(2007): Viso. Cadernos de Estética Aplicada - Revista electrónica de estética N.º 3, Set – Dez/2007Ramos, Bento Silva - UFES – Plotino: Uma perspectiva neoplatónica da estética. Departamento de FilosofiaSoares, Luciana Gabriela E. C. Traduçã - Plotino, Acerca da Beleza Inteligível (Eneáda V, 8 [31]) - Introdução,tradução e notasSantoprete, Luciana; Oliveira, Loraine; de Caldas, Emmannuela - Primeiro Repertório bibliográfico dos estudosem língua portuguesa dedicados a Plotino e ao neoplatonismo da Antiguidade tardiaConsciência e a epistemologia da Beleza: A Bricolagem como PedagogiaFrancisco Antonio Pereira FialhoErmelinda Garrem Fernandes SilveiraProf. Pizzinga, Dr. R - Um iniciado que estudou a natureza da almaPensamentos de Plotino (incluindo biografia do autor das Enéadas) - Membro dos Iluminados de KemetBússola, Carlos (1990): Plotino - A Alma no Tempo. Fundação Celiliana Abel de AlmeidaOliveira, Loraine: Uma Sinfonia de autoridades: notas sobre a exegese dos antigos – Plotino, Eneáda V, 1 [10],8-9Chaimovich, Felipe Soeiro: A Filosofia na Trilha do Belo. Platão, Plotino e a Autenticidade estéticaBrandão, Bernardo Guadalupe (2007): Experiência mística e filosofia em Plotino. Belo HorizonteHuisman Denis; Fontes Martins(2001): - Dicionário dos Filósofos"Pauli, Evaldo: “Tratado do Belo”.Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/megaestetica/TratBelo/0764y000.htm#indices 21

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