Tcc o mito e sua relevância no ensino religioso

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Tcc o mito e sua relevância no ensino religioso

  1. 1. LUCIANO JOSÉ DIASO MITO E SUA RELEVÂNCIA NO ENSINO RELIGIOSO CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS (CCEJ) SÃO PAULO 2011
  2. 2. LUCIANO JOSÉ DIASO MITO E SUA RELEVÂNCIA NO ENSINO RELIGIOSO Monografia de conclusão do curso de Pós-Graduação Lato - Sensu, Especialização em Ensino Religioso, Práticas pedagógicas em Ensino das Religiões. Exigido pelo Centro Cristão de Estudos Judaicos como Requisito parcial para conclusão do curso de Especialização. Orientador: Professor Dr. Jarbas Vargas Nascimento. CENTRO CRISTÃO DE ESTUDOS JUDAICOS (CCEJ) SÃO PAULO 2011
  3. 3. LUCIANO JOSÉ DIAS O MITO E SUA RELEVÂNCIA NO ENSINO RELIGIOSO Monografia de conclusão do curso de Pós-Graduação Lato - Sensu, Especialização em Ensino Religioso, Práticas pedagógicas em Ensino das Religiões. Exigido pelo Centro Cristão de Estudos Judaicos como Requisito parcial para conclusão do curso de Especialização. Orientador: Professor Dr. Jarbas Vargas Nascimento.Aprovado Nota_____________________________________________________________________________Orientador: Prof. Dr. Jarbas Vargas Nascimento.
  4. 4. Sumário INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 5 CAPÍTULO I ............................................................................................................................ 7 A CONTRIBUIÇÃO DO MITO NA EDUCAÇÃO HUMANA ............................................ 71. O mito na evolução da humanidade ................................................................................ 81.1. O Mito e seu objeto ...................................................................................................... 101.2. Por que estudar o Mito? .............................................................................................. 121.3. Mito e Ensino Religioso ............................................................................................... 13 CAPITULO II ......................................................................................................................... 16 RELIGIÃO MITO E ENSINO RELIGIOSO ....................................................................... 162.1. Conceitos, perspectivas e abordagens ......................................................................... 172.2. Religião e Ensino Religioso ............................................................................................ 222.3. Ética e o Ensino Religioso............................................................................................... 293.O Mito no Ensino Religioso ................................................................................................. 34 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 37REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:.................................................................................... 40
  5. 5. 5INTRODUÇÃOO presente estudo sobre mito e Ensino Religioso, vem contribuir para que oleitor tenha a oportunidade de erigir uma análise comparativa própria e coletivaa respeito do mito na vida humana, mais precisamente dentro da dimensãoreligiosa. Todo desenvolvimento integral de que o ser humano é protagonistaou não, passa por representações abstratas, as quais tornam possíveis a eleportar-se diante da vida de maneira a extrair da sua experiência terrena, umacentelha que o sustente para o sentido buscado como resultado dasinquietações que estão encerradas desde antes de sua existência no maisprofundo do seu ser. Toda pessoa mostra-se como que através de um véu.Traz em si parte de mistério e Do Mistério, da Transcendência. Suadinamicidade se move de maneira excepcional, que às vezes foge de uminstante de vislumbrarmento diante da maravilha que se é e que se pode vir aser. Os mitos são expressões do espírito humano sobre sua concepção arespeito dos fenômenos físicos e espirituais de seu ambiente e dentro de suasociedade.Observaremos que é preciso que o profissional de Ensino Religioso estejaatento à importância de estudar e compreender os mitos, assim como o seuprocesso, sua origem, sua estrutura, sua finalidade, pois estes estudos podemem muito contribuir nas aulas de Ensino Religioso assim como pra suaformação pessoal, docente e cultural.Os mitos estão presentes em varias culturas e tradições Religiosas sendonecessária uma leitura histórica, antropológica, sociológica e filosófica, assimsendo só o senso comum não basta, é preciso analisar os mitos em suaconjuntura.Em nosso trabalho, veremos que é o Ensino Religioso que “costura” o mito quecada um cria, expandindo e alargando horizontes, motivando para o respeito.Se cada um é formado para viver com propriedade sua crença, este acabarespeitando o diferente do outro, porque acaba compreendendo que todosbuscam respostas iguais que supram sua necessidade de transcender.
  6. 6. 6Constataremos que o Ensino Religioso tem o desafio de contribuir para umaformação integral, integrada e integradora da pessoa em relação consigomesma, com os outros, com a natureza e com a Transcendência,proporcionando uma aprendizagem intercultural e inter-religiosa, formando aidentidade e educando para a alteridade.O rabino Henry Sobel1 expressa isto muito bem ao afirmar: “Temos quepermanecer, todos nós, enraizados em nossas respectivas tradições, semjamais violar aquilo que é sagrado para cada um de nós. Mas, ao mesmotempo, temos que reconhecer a santidade do credo e das tradições alheias.”2Neste sentido, o presente trabalho traz uma contribuição muito oportuna eimportante para a nossa reflexão sobre culturas e religiões, seus desafios esuas implicações para o Ensino Religioso. Nosso trabalho esta organizado emdois capítulos, no primeiro, trataremos da possível contribuição do mito naEducação Humana, sua evolução; seu objeto e o sentido de estudar sobremito; e as implicações do mito no Ensino Religioso. No segundo capitulo,veremos a relação entre Religião, Mito e Ensino Religioso; os principaisconceitos, perspectivas e abordagens, tal como a ética no Ensino Religioso. Aopercorrermos as páginas que seguirão, seremos interpelados a encontrar umpossível caminho para nos ajudar na pratica do Ensino Religioso nas Escolas.1 Henry Sobel (Lisboa, 9 de janeiro de 1944) é um rabino de cidadania norte-americana há 37 anosradicado no Brasil, onde foi presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista (CIP) até outubrode 2007, onde afastou-se formalmente.2 SOBEL, Henry I. A tolerância religiosa, os direitos humanos e o século XX. Disponível em:www.interacaovirtual.com/Espiritualidade/tolerancia. Acessado em 06/10/2011.
  7. 7. CAPÍTULO IA CONTRIBUIÇÃO DO MITO NA EDUCAÇÃO HUMANA
  8. 8. 8 1. O mito na evolução da humanidadeDesde os primórdios da humanidade estamos em meio e contribuímos com asevoluções. As descobertas, as criações e invenções sempre foram umaconstante na vida das pessoas. O ser humano quer buscar algo que ao mesmotempo parece estar ao seu alcance pela sua inteligência e em contrapartidaatravés das suas buscas anseia pelo não desvendado como se fosse aresposta sobre as indagações a respeito do mistério de estar e permanecervivo. O desconhecido interpela, incita, provoca a ação em favor de umaresposta que seja adequada às inspirações mais íntimas que cada ser traz emseu interior. Onde está a origem da vida, então? Qual o significado que ela tempara cada pessoa?Daí a importância de que todos aqueles que são compromissados com aeducação façam o esforço de trabalhar a partir da sua formação, para que asdiversas matizes a respeito da significação do sentido da vida seja abarcado demaneira a valorizar o que todas a Tradições Religiosas dizem.O mito, segundo a Enciclopédia Britânica do Brasil3, “constitui uma realidadeantropológica fundamental, pois ele não só representa uma explicação sobreas origens do homem e do mundo em que se vive como traduz por símbolosricos de significado o modo como um povo ou civilização entende e interpreta aexistência.”O ser humano anseia desvendar o seu fim último, indaga-se de onde veio, oque faz aqui neste mundo e para onde vai, essas perguntas são pertinentesdurante sua breve vida. Sua busca é em prol do seu desenvolvimento cultural,social, psicológico. E o interessante é que cada pessoa busca do seu jeito,segundo a crença na qual foi iniciado ou na qual fez a opção. O que importa éo sentido da vida, almejado, ansiado por todos independente da condiçãoétnica, social ou cultural.O mito é fantasia, porém é concretude. Mito é a extensão do anseio, do desejodo ser humano de explicar e ser explicado, de entender e de ser entendido.3 Enciclopédia Britânica do Brasil. Publicações. Rio de Janeiro, São Paulo, v. 10, 1997. p. 85.
  9. 9. 9De acordo com VIESSER4, mito-mythos – advém do grego, que significaetimologicamente fábula. Significando fábula, torna-se algo que é transmitidooralmente por nossos antepassados, tendo como base a fidelidade do repassena transmissão das narrativas; para que o ser humano possa compreender arealidade na qual vive e assim, para que construa seu conhecimento acerca doque acredita. A existência humana em sua essência é uma fábula, onde o quese é não está escrito. Pode-se prever alguma coisa, mas nunca delimitar emcertezas estáticas, pois o ser humano é dinâmico, ativo. Com o passar dotempo faz parte da historicidade dos outros e vai construindo a sua de maneiracriativa, única, peculiar.Já temos nos deparado com inúmeras ferramentas que apontam experiênciasque vêm tentar ajudar o ser humano a construir-se como pessoa. O mito é,seguindo esta idéia, mais uma delas que, alargam de maneira extraordinária asopções para o fim buscado. Ele materializa o que não é concreto. Tem afunção de explicar algo que não se vê, mas que se acredita. Com este intuito,busca-se aqui oferecer, através desta abordagem a quem lê, uma oportunidadede interpretar de maneira rica e criativa como o mito se aplica na vida humana,a partir é claro, da atuação nas entrelinhas feita por indução do EnsinoReligioso. Ele está aí como uma ferramenta que auxilia a destrinchar, aclarificar, a trazer à tona, ao alcance das pessoas, com a precisão maiseficiente possível, o que está subentendido na cultura religiosa na qual estáinserido e ou mesmo o que há em outras culturas. Não dá para fechar os olhosou recusar-se a perceber que as crenças que envolvem o que é o campo detrabalho do Ensino Religioso, é exclusivamente matéria para que ele sedesenvolva se aprimore e contribua para a harmonia entre as culturas ereligiões.O mito colabora, quando se trata também da religiosidade das pessoas, eleestá incutido na mente humana, é fato indispensável na existência humana. Omito envolve o ser humano em sua teia e faz com que os fatos do passadosejam parte do seu presente, mostra que a ação e a vida humana estãointerligadas. O mito “envolve acontecimentos supostos, relativos a épocas4 VIESSER, Lizete Carmem. Fundamentos Pedagógicos do Ensino Religioso. IESDE, Curitiba: 2005. p.85.
  10. 10. 10primordiais, ocorridos antes do surgimento dos homens, ou com os “primeiros”homens5.Segundo Eliade6, a tentativa de definir mito é a seguinte, “o mito é umarealidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada einterpretada em perspectivas múltiplas e complementares....o mito conta umahistória sagrada, relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial,o tempo fabuloso dos começos...o mito conta graças aos feitos dos seressobrenaturais, uma realidade que passou a existir, quer seja uma realidadetetal, o Cosmos, quer apenas um fragmento, uma ilha, uma espécie vegetal,um comportamento humano, é sempre portanto uma narração de uma criação,descreve-se como uma coisa foi produzida, como começou a existir...” 7 1.1. O Mito e seu objetoO objeto do mito são as diversas situações em que se procura dar sentido aomundo8. É mediação entre o sagrado e o profano. É verdade escatológica etem o ser humano como o ponto de ligação entre a realidade e o seu sentidoúltimo, a sua transformação última. O mito transcende a experiência do sensocomum, e a razão. O mito não precisa de demonstração. Por isso, é umalinguagem apropriada à religião. Abrange maior amplitude de mensagens,desde atitudes antropológicas muito imprecisas, até conteúdos religiosos, pré-científicos, tribais, folclóricos ou simplesmente anedóticos9.O ser humano na busca incessante em desvendar o mistério de sua existênciatenta compreender esta realidade através dos mitos que lhe são apresentadosdesde seu nascimento; ou pelo menos, convencer-se de que o existir não é umacaso.5 Enciclopédia Britânica do Brasil. Publicações. Rio de Janeiro, São Paulo, v. 10, 1997. p. 86.6 Escritor e historiador romeno nascido em Bucareste, Romênia, considerado o mais importante einfluente especialista em história e filosofia das religiões, ficou conhecido pelas pesquisas queempreendeu sobre a linguagem simbólica das diversas tradições religiosas.7 ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Edições 70, Lisboa, 1989. p. 12-13.8 ELIADE, Ibidem..9 ELIADE, Ibidem.
  11. 11. 11Sendo o ser humano repleto de questionamento a respeito de tudo que ocerca, cabe a ele se envolver na complexidade de sua vida, buscando asinúmeras alternativas que enobrecem e valorizam sua existência. Conhecendoa existência da diversidade de culturas, e que há uma infinidade de mitosatravés dos quais as pessoas se apóiam, Ele se direciona para um itinerárioque remete a compreensão e o prepara para que se adapte ao mundo em quevive de maneira pessoal e coletiva.O mito só fala daquilo que realmente aconteceu do que se manifestou, sendoas suas personagens principais seres sobrenaturais, conhecidos devido aquiloque fizeram no tempo dos primordios10. Os mitos revelam a sua atividadecriadora e mostram a “sobrenaturalidade” ou a sacralidade das suas obras. Emsuma os mitos revelam e descrevem as diversas e frequentemente dramáticaseclosões do sagrado ou sobrenatural no mundo. É está eclosão, ou melhordizer, desabrochamento do sagrado (sobrenatural), que funda, que dá origemao mundo tal como ele é hoje. Sendo também graças à intervenção de seressobrenaturais que o homem é o que é hoje. Ainda segundo Eliade: “O mito é considerado como uma história sagrada, e portanto uma história verdadeira, porque se refere sempre a realidades. O mito cosmogónico é verdadeiro porque a existência do mundo está aí para o provar, o mito da origem da morte é também verdadeiro porque a mortalidade do homem prova-o...e pelo fato de o mito relatar as gestas dos seres sobrenaturais e manifestações dos seus poderes sagrados, ele torna-se o modelo exemplar de todas as actividades humanas significativas11”.Para Eliade o homem arcaico, “é resultado de um número de eventos míticos... 12que constituem uma história sagrada” , ou seja, é o que é, porque entessobrenaturais permitiram que fosse assim; já para o homem moderno, aindasegundo Eliade, é como é hoje, porque houve contribuição de toda asociedade; desde o descobrimento do fogo até os acontecimentos maléficos ou10 ELIADE, Ibidem, p. 12-1311 ELIADE, Ibidem, p. 13.12 ELIADE, Ibidem, p. 16.
  12. 12. 12benéficos ocorridos com a humanidade o fazem ser um sujeito que está àmercê de tudo o que ocorre no passado e presente e que isso contribuirá paraos que futuramente passarem por aqui, ou seja, a vida está repleta da ricacaracterística da história. 1.2. Por que estudar o Mito?O ser humano dentro de sua perspectiva de ser em relação, busca oautoconhecimento, interage e interfere no meio em que vive. Portanto, buscaum envolvimento com o Transcendente como forma de encontrar e assumirsua identidade; por isso a compreensão dos mitos presente na vida humana érelevante: de acordo com Eliade “conhecer os mitos é aprender o segredo da 13origem das coisas” , é identificar de maneira inteligível como o sentido existee como encontrá-lo no cotidiano. Desse modo, o conhecimento torna-se claro,passa da mente para o coração, a partir do momento que realmente sevivencia e conhece o que é buscado, encontra-se o que se procura.As ações humanas são reflexos dessa busca diante de todas as situações quesurgem no seu cotidiano. Cada solução almejada perante o que éaparentemente inexplicável ou sem nexo, revela seu desejo de estar à procurado sentido para sua existência. Com isso, a transcendência, o querer ir além donatural torna-se companheiro na jornada terrena do ser humano: em suasações e utopias, mesmo sem que ele próprio o saiba; daí as crenças,superstições, mitos incutidos e mesclados em sua existência.De acordo com o PCNER14 “... pelo espírito de reverência às crenças alheias (enão só pela tolerância) desencadeia-se o profundo respeito mútuo que pode 15conduzir a paz.” Sob a perspectiva do ser em relação, abre-se campo parauma miscelânea de descobertas; faz-se necessário conhecer as maisdiferentes crenças que surgem e conseqüentemente abrir-se para o novo quedesponta em cada pessoa e aqui, em cada aluno oriundo das mais diversasrealidades, sobretudo quando se fala em nível de Brasil. O Ensino Religioso, na13 ELIADE, Ibidem, p. 18.14 Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Religioso Edições AM São Paulo, 1997.15 Ibidem, pg. 20.
  13. 13. 13escola, tende a unir as mais diferentes culturas, ou dimensões religiosas, a fimde que haja entendimento mútuo e a aquisição de novos conhecimentos arespeito das diversas religiões existentes.A reverência e o respeito à maneira do outro acreditar e manifestar sua fé, éum paradigma a ser estudado com comprometimento, sem preconceitos, poisque este vem enfatizar não a visão sob determinado ângulo, mas sim, vem“desmistificar” o que foi se construindo no sentido negativo em relação àstradições religiosas, enquanto ponto de partida para um entendimento maisharmonioso entre as pessoas. 1.3. Mito e Ensino ReligiosoÉ o Ensino Religioso que “costura” o mito que cada um cria, expande e alargahorizontes, motiva para o respeito. Se cada um é formado para viver compropriedade sua crença, este acaba respeitando o diferente do outro, porqueacaba compreendendo que todos buscam respostas iguais que supram suanecessidade de transcender, mas é claro, de maneira diferente e este é umdireito que não pode ser negado a ninguém.Para Eliade,“... a religião mantém a „abertura‟ para o mundo sobre-humano”16,ou seja, a religião contém valores absolutos para todas as atividades humanas,nas quais o ser humano se confronta com o mistério compreendendo alinguagem que o mundo lhe oferece. Para tal explicação, é imprescindível quese identifique os modelos que os mitos lhe revelam, a fim de que se construasignificação ao mundo, levando-se em conta que o que se busca é despontarpara as idéias de “realidade, de valor e de transcendência”17.O mito que envolve o ser humano precisa ser realmente “desmistificado”; nadade complicação e sim buscar entender a complexidade impossível de seignorar. Implantar a harmonia e o enriquecimento mútuo ao invés dahegemonia de uma tradição religiosa. É difícil tal caminho, mas o encontro como Transcendente perpassa pela experiência com o outro, portanto é caminho16 Ibidem, p. 123.17 Ibidem, p. 128.
  14. 14. 14necessário. Toda ação transcendental interpela e possibilita refletir e agir emprol do outro: a alteridade também tem a ver com respeito, com valorização dodiferente. Essa é ou deveria ser uma das missões do Ensino Religioso na vidadas pessoas.O fenômeno religioso dentro da diversidade religiosa existente se fundamentafazendo-se imprescindível ser reconhecido como a ação mítica entre aspessoas. Ao trabalhá-lo, dá-se oportunidade para que a construção daliberdade na prática da sua fé seja cada vez mais incentivada e valorizada.Todos têm direito de ter ou optar pela religião que quiserem, pois segundoCAMPBELL18, “toda religião é verdadeira, de um modo ou de outro” 19, mas faz-se necessário compreendê-la em sua essência, não criando suas própriasmetáforas. O Ensino Religioso, diz em sua prática que é muito bom que oconhecimento a respeito seja externado para outras pessoas: todo“conhecimento é patrimônio da humanidade”20, logo, a socialização só trarábenefícios para todos.A função da escola, além do conhecimento sistematizado é contribuir para queo conhecimento religioso esteja ao alcance dos alunos. A escola é formadora,portanto sua participação no cotidiano das pessoas é um marco importantepara a abertura às novas conquistas nesse campo. Quando a aprendizagem édesenvolvida de maneira integral, a criança conhece a si, reconhece-se econhece o outro, nisto consiste a educação de qualidade que trabalha a partirdo seu próprio mito. Cabe à escola conduzir o Ensino Religioso sob umareflexão crítica, na qual se estabelece significados, fazem-se comparações,orienta-se para a compreensão da dimensão religiosa na qual o educando estáinserido em sua concepção de mundo. A escola ajudará para que hajacomprometimento com a construção do sentido da vida que terá comodesfecho a experiência concreta com o Transcendente.Cabe aos educadores trabalhar com variedades de metodologias quedespertem e auxiliem a motivação interna do educando para o conhecimento.18 Joseph Campbell nasceu em 26 de março de 1904 e cresceu em White Plains, Nova Iorque.Pesquisador de mitologia e religião comparada.19 CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: ed. Palas Athena.1990. P. 59.20 Ibidem.
  15. 15. 15Despertando neles o interesse por saber o porquê dos diferentes mitosexistentes na vida das pessoas e o porquê a eles devotam tanta importância.É preciso cautela, cuidado, para não magoar ou insinuar qualquer postura quevenha ferir a maneira que cada um tem de buscar e refletir sobre os mitos queenvolvem a origem de sua vida, de sua morte e para além da morte; o encontrocom o Ser Superior.21O mito enquanto fato da vida diária da humanidade traz e sempre trarádesafios a serem desvendados e trabalhados na educação das pessoas22. OEnsino Religioso é a área que vai conduzir, reger a ação a fim de conseguirharmonizar os anseios religiosos que estão guardados no âmago de cada ser;o conhecimento das diferentes tradições religiosas só tende a trazer benefícios.O mito que envolve o que parece ser inatingível sob o olhar humano é osegredo que motiva e apela para a busca da felicidade e conseqüentemente dosentido da vida humana23.Não há humanidade sem crença, sem uma fé. Não há humanidade sem o mito,sem ser ou estar inserida num mito. Pois a verdade se veste de muitas caras eassim a visão é mais ampla que a compreensão natural. O sonho pela paz seráalcançado à medida que os passos são dados com consciência e clareza doque se procura apresentar e assimilar. O mito enquanto reflexo da “certeza”sobre o desconhecido abre portas para a descoberta de si e do outro comoparticipante indispensável na grande jornada da vida rumo a realização plena24.21 Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Religioso Edições AM São Paulo, 1997. P. 20.22 Ibidem.23 BRASIL, Elizandra dos Santos e DMENGEON, Ivone de Lourdes, Ensino Religioso: o mito comocontribuição na educação humana. www.gper.com.br/documentos/00123_mito.pdf , acessado dia07/07/2011.24 BRASIL, Ibidem.
  16. 16. CAPITULO IIRELIGIÃO MITO E ENSINO RELIGIOSO
  17. 17. 17 2.1. Conceitos, perspectivas e abordagensPara o historiador das religiões, toda manifestação do sagrado é importante;todo rito, mito, crença ou figura divina reflete a experiência do sagrado e, porconseguinte implica as noções de ser, de significação e de verdade.É difícil imaginar de que modo o espírito humano poderia funcionar sem aconvicção de que existe no mundo alguma coisa de irredutivelmente real; e éimpossível imaginar como a consciência poderia aparecer sem conferirsignificado aos impulsos e às experiências do homem. A consciência de ummundo real e significativo está intimamente ligada à descoberta do sagrado.Por meio da experiência do sagrado, o espírito humano captou a diferençaentre o que se revela como real, poderoso, rico e significativo e o que édesprovido dessas qualidades, isto é, o fluxo caótico e perigoso das coisas,seus aparecimentos e desaparecimentos fortuitos e vazios de sentido.25Em suma, o sagrado é um elemento na estrutura da consciência, e não umafase na historia dessa consciência. Nos mais arcaicos níveis de cultura, vivercomo ser humano é em si um ato religioso, pois a alimentação, a vida sexual eo trabalho têm um valor sacramental. Em outras palavras, ser – ou, antes,torna-se – um homem significa ser “religioso”26A maioria das pessoas tem alguma idéia do que seja “religião”. Costuma-sepensar essa definição como crença em Deus, espíritos, seres sobrenaturais, ouna vida após a morte. É possível pensar, ainda, esse conceito como o nome dealgumas das grandes religiões mundiais: Cristianismo, Hinduísmo, Budismo ouIslamismo. Embora parte do senso comum sobre o conceito de “religião”aplique-se aos estudos dos fenômenos e sistemas religiosos, eles sãoinsuficientes para estudos científicos.27O próprio termo “religião” originou-se da palavra latina religio, cujo sentidoprimeiro indicava um conjunto de regras, observâncias, advertências e25 MIRCEA, Eliade, La Nostalgie dês origines, p. 7s.26 MIRCEA, Eliade, Historia das crenças e das idéias religiosas, da idade da Pedra aos mistérios de Elêusis,Zahar, Rio de Janeiro, 2010.27 DA SILVA, Eliane Moura, Religião, Diversidade e Valores Culturais: conceitos teóricos e a educação paraa Cidadania, rever, pcsp, n 2, 2004.
  18. 18. 18interdições, sem fazer referência a divindades, rituais, mitos ou quaisqueroutros tipos de manifestação que, contemporaneamente, entendemos comoreligiosas. Assim, o conceito “religião” foi construído histórica e culturalmenteno Ocidente adquirindo um sentido ligado à tradição cristã. O vocábulo“religião” - nascido como produto histórico de nossa cultura ocidental e sujeito aalterações ao longo do tempo – não possui um significado original ou absolutoque poderíamos reencontrar. Ao contrário, somos nós, com finalidadescientíficas, que conferimos sentido ao conceito. Tal conceituação não éarbitrária: deve poder ser aplicada a conjuntos reais de fenômenos históricossuscetíveis de corresponder ao vocábulo “religião”, extraído da linguagemcorrente e introduzido como termo técnico.Por isso, uma definição para uso acadêmico e científico não pode atender acompromissos religiosos específicos, nem ter definições vagas ou ambíguas,como, por exemplo, definir “religião” como “visão de mundo”, o que pressuporiaque todas as “visões de mundo” fossem religiosas. Do mesmo modo, se“religião” é definida como “sagrado”, a questão torna-se saber o que é“sagrado” e o seu oposto, o “profano”. Outras definições são muito restritivas: adefinição “acreditar em Deus” deixa de fora todos os politeísmos e o Budismo,enquanto a crença numa realidade sobrenatural ou transcendental também nãosatisfaz, por não ser comum a todas as culturas religiosas.28A definição mais aceita pelos estudiosos, para efeitos de organização eanálise, tem sido a seguinte: religião é um sistema comum de crenças epráticas relativas a seres sobre-humanos dentro de universos históricos eculturais específicos29.Aqui, é necessário fazer duas observações: de um lado, é importante ressaltarque, nas línguas de outras civilizações e culturas distintas do Ocidente pós-clássico, não existe um termo para designar “religião” (no caso da tradiçãohindu, por exemplo); de outro, que todas as culturas conhecidas possuemmanifestações que costumamos chamar de “religião”. Isto significa pressupor28 DA SILVA, Eliane Moura, Religião, Diversidade e Valores Culturais: conceitos teóricos e a educaçãopara a Cidadania, rever, pcsp, n 2, 2004.29 Ibidem.
  19. 19. 19que pode existir uma religião sem essa conceituação, ou que o nosso conceitode “religião” é válido para determinados conjuntos de fenômenos nas culturasonde aparecem, mas não se distinguem como “religiosos” no interior de outrosuniversos histórico-culturais. Assim, o conceito de “religião” deve levar emconta a variedade dos fenômenos que costumamos chamar de “religiosos”.30Segundo o dicionário Ilustrado das religiões de SCHWIKART,31 Religião é difícilde ser definida, já que está presente em todos os tempos e em todas asculturas, sob as mais diversas formas. Religião tem a ver com as questõesfundamentais do homem: Quem sou eu? De onde vim? Por que e para que euvivo? O que devo fazer? O que vai acontecer comigo depois da morte? Sãoquestões a respeito do transcendente, do divino, do sagrado. - A origem dotermo religião tem várias explicações.Segundo alguns, vem de “religare” = reatar. Segundo outros, vem de “relegere”= reler, observar conscienciosamente; lembra o respeito devido às prescriçõesda religião romana.JOHNSON32, Em sua definição nos diz que tal como todas as Instituiçõessociais, religião é definida sociologicamente pelas funções que desempenhaem sistemas sociais. De modo geral, é um arranjo social constituído parapromover uma maneira compartilhada, coletiva, de lidar com aspectosdesconhecidos e incognoscíveis da vida humana, com os mistérios da vida,morte e existência, e com os dolorosos dilemas que surgem no processo detomar decisões de natureza moral. Como tal, a religião fornece não sórespostas a duradouros problemas e perguntas humanos, mas forma tambémuma das bases da coesão e da sociedade sociais.ABBAGNANO,33 Nos diz que Religião= (lat. Religio; in. Religion; fr. Religion;AL. Religion; it. Religione). Crença na garantia sobrenatural de salvação, etécnicas destinadas a obter e conservar essa garantia. A garantia religiosa ésobrenatural, no sentido de situar-se além dos limites abarcados pelos poderes30 DA SILVA. Ibidem.31 SCHWIKART, Georg , dicionário Ilustrado das religiões . Aparecida, São Paulo : O Santuário, 2001.32 JOHNSON, Allan G. Dicionário de sociologia: Guia pratico da linguagem sociológica. Rio de Janeiro:Zahar, 1997.33 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes ,2007.
  20. 20. 20do homem, de agir ou poder agir onde tais poderes do homem são impotentese de ter um modo de ação misterioso e imperscrutável.Outra possíveis definições para religião é: Uma estrutura de discursos e práticas comuns a um grupo social referentes a algumas forças (personificadas ou não, múltiplas ou unificadas) tidas pelos crentes como anteriores e superiores ao seu ambiente natural e social, frente às quais os crentes expressam certa dependência (criados, governados, protegidos, ameaçados etc.) e diante das quais se consideram obrigados a um certo comportamento em sociedade com os seus “semelhantes”34.Fundamental para a realidade social da religião é a distinção estabelecida porDURKHEIM35 entre o sagrado e o profano. O profano consistiria de tudo quepodemos saber através dos sentidos. É o mundo natural da vida diária, queexperimentamos como compreensível ou pelo menos, em última análise, comocognoscível. Em contraste, o sagrado abrange tudo que existe além do mundoda vida diária, natural, que vivenciamos com nossos sentidos. Como tal, osagrado inspira sentimentos de respeito porque é considerado incognoscível ealém das limitadas capacidades humanas de perceber e compreender. Areligião é organizada principalmente em torno dos elementos sagrados da vidahumana e cria condições para uma tentativa coletiva de construir uma ponteentre o sagrado e o profano.Para Durkheim, o sobrenatural é uma noção tida geralmente comocaracterística de tudo que é religioso. Entende-se por isso toda a ordem decoisas que ultrapassa o alcance de nosso entendimento; o sobrenatural é omundo do mistério, do incognoscível, do incompreensível. A religião seria,portanto, uma espécie de especulação sobre tudo o que escapa à ciência e, demaneira mais geral, ao pensamento claro.3634 AZEVEDO, M. C. Modernidade e cristianismo. O desafio à inculturação. São Paulo: Loyola, 1981, p. 336.35 DURKHEIM, Émile, As formas elementares da vida religiosa, São Paulo, Abril cultural, 1973.36 DURKHEIM, Ibidem, p. 5
  21. 21. 21Após tantas definições, percebemos que é preciso ficar atento aos usos esentidos dos termos que, em determinada situação, geram crenças, ações,instituições, condutas, mitos, ritos, etc.Estudar os fenômenos e sistemas religiosos como parte da cultura significaapreender um fator identificável da experiência humana, que se apresentacomo imagens que passaram através de milhares de pessoas, ao longo dediferentes tradições, algumas modeladas nos santuários, outras nasuniversidades.Religiões, religiosidades, experiências religiosas se expressam em linguagem eformas simbólicas. Saber o que foi experimentado, vivido e como isso pode sercompreendido exige a capacidade de identificar coisas, pessoas,acontecimentos, através da nomeação, descrição e interpretação, envolvendoconceitos apropriados e linguagem37. Atualmente, os estudos sobre religião ereligiosidade valorizam os fenômenos religiosos de forma diversificada. Há oreconhecimento de que as questões religiosas permeiam a vida cotidiana comoreligiosidade popular, sob formas de espiritualidade que fornecem elementospara construção de identidades, de memórias coletivas, de experiênciasmísticas e correntes culturais e intelectuais que não se restringem ao domíniodas igrejas organizadas e institucionais.Nenhuma tradição religiosa é “total”, nem existe um status de favoritismo dereligiões38.Conhecer o lugar onde estamos e onde os outros estão em relação à fé e àscrenças leva nos a desenvolver um sentido de proporção no amplo campo dasreligiões, religiosidades, experiências religiosas - onde todos devem serouvidos e respeitados. A diversidade se faz riqueza e deve conduzir àcompreensão, respeito, admiração e atitudes pacificadoras.37 DA SILVA, Eliane Moura, Religião, Diversidade e Valores Culturais: conceitos teóricos e a educação paraa Cidadania, rever, pcsp, n 2, 2004.38 DA SILVA. Ibiem.
  22. 22. 22Religião sempre foi um assunto de vida e morte, não somente em termos desuas próprias funções (batismos e funerais), mas também um assuntoexistencial decisivo para milhões de pessoas.Em quase todas as religiões as experiências religiosas transcendentais oudivinas estão relacionadas diretamente ao sentido vida-morte, e sobre issopodem ser encontradas definições, tanto nos monoteísmos quanto nospoliteísmos, procurando combater a desesperança e ocupando um grandeespaço na realidade cotidiana de nosso tempo. Qual é o sentido da vida? Deonde viemos? Para onde vamos depois da morte? Questões ainda e semprefundamentais, para as quais livros foram escritos, esculturas e pinturasproduzidas, poesias e músicas compostas que, nos últimos cinco mil anos,formaram um patrimônio cultural que pertence a todos e à história de cada um. 2.2. Religião e Ensino ReligiosoA sociedade brasileira é caracterizada pelo pluralismo religioso e diversidadecultural, que se refletem nas escolas entre docentes e discentes. A nova LDBreconhece e considera esta realidade e este dinamismo escolar, e, no que dizrespeito ao Ensino Religioso, prevê esta disciplina como parte integrante daformação básica do cidadão e garante o direito constitucional de liberdade deconsciência e de crença39.A Lei número 9.475, de 22 de julho de 1997, assegura “o respeito à diversidadecultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. Se, porum lado, a lei assegura o direito à diversidade cultural religiosa, por outro lado,a prática dos educadores e das educadoras, em muitos casos, ainda estáorientada pelo ensino confessional, no qual a atuação, em geral, ocorre a partirde um pressuposto cristão, desconsiderando as outras expressões religiosas40.Diante dessa realidade histórica, começam a surgir questionamentos eproposições para o ensino, com o objetivo de considerar e valorizar o39 BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave-Maria, 1997.40 MARKUS, Cledes. Monografia de Culturas e Religiões: Implicações Para o Ensino Religioso,apresentada para a Pós-Graduação Lato Sensu, Especialização em Ensino Religioso, do InstitutoEcumênico de Pós-Graduação em Teologia, da Escola Superior de Teologia. São Leopoldo, RS, 2002. p. 9.
  23. 23. 23pluralismo religioso e a diversidade cultural do nosso país, presentes na salade aula. No que se refere ao Ensino Religioso, essa temática ainda não foisuficientemente abordada: a diversidade cultural e religiosa, em muitos casos,ainda não é considerada em sala de aula; não existem propostas concretas decomo proceder o diálogo inter-religioso; o educador, a educadora ainda estãopor demais atrelado e atrelada a sua confessionalidade, o que dificulta aabordagem, a sistematização e o diálogo com experiências diferentes; faltamconhecimentos dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso e opapel das tradições religiosas no contexto sociocultural; enfim, falta acompreensão das implicações da matriz cultural religiosa nesta disciplina41.A diversidade cultural e religiosa no contexto brasileiro é decorrente de umlongo processo histórico influenciado principalmente, por aspectos políticos eeconômicos, de ordem nacional e internacional. Remonta ao início dacolonização em 1500, quando se dá o encontro desigual e problemático não sóde três povos, mas de inúmeras identidades desenraizadas. Índios, negros ebrancos não eram identidades uniformes, mas cada qual composta porinúmeros povos que apresentavam uma diversidade cultural e religiosa muitogrande42.Além disso, não se pode desconsiderar que o quadro que hoje se apresentasempre teve as influências das relações desiguais de poder que aconteceramno decorrer da história entre as diferentes etnias, obrigando essas diferentesculturas a viverem no mesmo espaço sob exploração, dominação ediscriminação.Esse processo, portanto, se apresenta como uma construção cultural ereligiosa muito complexa, onde coexistem culturas singulares cujas origensestão ligadas a diferentes grupos étnicos, e apresentam características locais eregionais. Além disso, há uma permanente elaboração e redefinição daidentidade nacional em sua complexidade devido ao entrelaçamento deinfluências recíprocas que ocorrem entre as culturas de todos estes povos.41 MARKUS, Ibidem. p. 9.42 MARKUS, Ibidem. p. 28.
  24. 24. 24Fazem parte dessa configuração social e cultural uma variedade de povosindígenas, cada um com suas peculiaridades e identidades; a imensapopulação de afro descendentes cujas origens se encontram em diversasetnias africanas; um numeroso grupo de imigrantes e descendentes dediversos continentes e uma variedade de grupos resultantes de “mestiçagens”como os caboclos e cafuzos.Fazer a identificação de tipos de grupos existentes no Brasil atual é uma tarefacomplexa devido à grande mobilidade que existe entre etnias, tradições eculturas. Além disso, um mesmo indivíduo pode identificar-se com diferentesgrupos, com o mesmo sentimento de pertença devido à sua descendênciamúltipla.No que se refere ao aspecto religioso, existe uma diversidade muito ativa demanifestações religiosas no contexto brasileiro, ligada essencialmente àmultiplicidade de culturas e às variações e “cruzamentos” destas culturas.43Vê-se, portanto, que a diversidade permeia a sociedade brasileira, onde aindaencontramos as características regionais; as diferentes formas de vida entre ocampo e a cidade; diferentes modos de organização social nos diferentesgrupos e regiões; diferentes processos migratórios; formas diversas de relaçãocom a natureza, de vivência da religiosidade, de cosmo visões.Tudo isso propicia à população brasileira vivências e respostas culturais ereligiosas muito diferenciadas que implicam valores e propostas de vidadistintas. Toda a complexa realidade se reflete na escola, onde a diversidadese faz presente diretamente nas pessoas que compõem a comunidade escolar.Esse processo complexo presente na vida brasileira, geralmente é ignorado oudescaracterizado. Isto também acontece na escola, onde a diversidade éignorada, silenciada ou minimizada.44A escola também contribuiu para a disseminação de preconceitos através deconteúdos indevidos e errôneos, presentes em materiais didáticos e livros. Um43 MARKUS, Ibidem. p. 29.44 MARKUS, Ibidem. p. 29.
  25. 25. 25exemplo encontramos nos dicionários, em que ainda hoje são reproduzidosconceitos e significados altamente discriminadores. Veja-se a palavra“selvagem”, que em geral tem o mesmo significado em todos os dicionários,como sendo: habitante das selvas, pessoa que não vive na sociedade civilizadamas que vive na selva, inculto, rude, grosseiro, não civilizado, que nasce semcultura, não domesticado, pessoa sem convivência, facilmente se enfurece, etc.Alguns ainda acrescentam a estes os termos: aborígine e tribo de índios. Nota-se, portanto, uma forte carga ideológica e discriminatória em relação aos povosindígenas, que são considerados sem civilização, sem cultura, rudes,grosseiros.A escola, portanto, se encontra marcada por práticas, teorias e políticaseducacionais que, além de desconsiderarem a diversidade cultural e religiosa,ajudaram a reproduzir preconceitos e discriminações no ambiente escolar.Nos últimos anos, no entanto, existe uma verdadeira preocupação em reverteresse processo, para que currículo, formação de professores e professoras epedagogias possam proceder ao “reconhecimento e valorização decaracterísticas específicas e singulares de regiões, etnias, escolas, professorese alunos.” 45Nesse processo de superação da discriminação e exclusão, de valorização dadiversidade e de construção de uma sociedade mais justa, livre e fraterna, oprocesso educacional se propõe a contribuir e “atuar para promover processos,conhecimentos e atitudes que cooperem na transformação da situação atual”,46visando novos comportamentos e novos vínculos em relação a todos os gruposque historicamente foram alvo de injustiças.Nesse sentido, a escola tem um papel relevante a desempenhar, por um ladoporque ela é um espaço onde acontece a convivência de crianças eadolescentes com distintas concepções, visões de mundo, valores, enfim, comdiferentes culturas e religiões; por outro porque “é um dos lugares onde são45 BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais: pluralidade cultural, orientação sexual. Brasília: MEC/SEF.1997, p. 33.46 Ibidem. p. 24.
  26. 26. 26ensinadas as regras do espaço público para o convívio democrático com adiferença”47 ; e ainda porque a escola apresenta conhecimentos sistematizadosem que precisam estar necessariamente incluída a realidade da diversidade epluralidade do Brasil.Tendo em vista essa contribuição, a Pluralidade Cultural foi incluída nosParâmetros Curriculares Nacionais como tema transversal a ser consideradono ensino. No Volume 10 esta temática é explicitada: “A temática da Pluralidade Cultural diz respeito ao conhecimento e à valorização das características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem no território nacional, às desigualdades socioeconômicas e à crítica às relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno e à aluna a possibilidade de conhecer o Brasil como um país complexo, multifacetado e algumas vezes paradoxal” 48Ao abordar o tema da Pluralidade Cultural em sala de aula, com vistas ao seureconhecimento, valorização e superação de discriminações, se está atuandosobre um dos mecanismos de exclusão e, com isso, caminhando na direção deuma sociedade mais democrática - tarefa primordial do trabalho educativovoltado para a cidadania em sua plenitude.Hoje, há o esforço de assegurar o Ensino Religioso como disciplina regularintegrante do sistema escolar, onde não pode ser visto como o ensino de umareligião, ou das religiões, mas sim como disciplina centrada na antropologiareligiosa.49A escola deixa de ser um espaço unitário e coerente de um grupo, rompe comparadigmas e conceitos vigentes de educação, acolhendo novas possibilidadese manifestações.47 Ibidem. p. 23.48 Ibidem. p. 19.49 MARKUS, Cledes. Monografia de Culturas e Religiões: Implicações Para o Ensino Religioso,apresentada para a Pós-Graduação Lato Sensu, Especialização em Ensino Religioso, do InstitutoEcumênico de Pós-Graduação em Teologia, da Escola Superior de Teologia. São Leopoldo, RS, 2002. p.33.
  27. 27. 27Nesse contexto, o Ensino Religioso também busca a sua redefinição comodisciplina regular do conjunto curricular.O artigo 210, parágrafo 1º da Constituição garante: “O Ensino Religioso, dematrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolaspúblicas de ensino fundamental”50.No dia 20 de dezembro de 1996 foi sancionada a nova LDB sob o nº9.394/12/96 onde consta o texto sobre o Ensino Religioso, mas recebeu novaredação em 22 de julho de 1997, sob a lei nº 9.475, sendo esta a que está emvigor hoje: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante daformação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais dasescolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidadecultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo” 51.1º - Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definiçãodos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para ahabilitação e admissão dos professores.2º - Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentesdenominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso.Com a nova LDB, houve avanços significativos em termos de reconhecimentodo Ensino Religioso como disciplina curricular normal do sistema de educação.Porém, a sociedade ainda está muito dividida em sua aceitação como tal,desencadeando os mais variados debates.Em geral, encontramos duas concepções divergentes, uma a favor e outracontra a sua inclusão no currículo escolar, ambas, no entanto, com a mesmaalegação de que estão salvaguardando o direito democrático da liberdadereligiosa. Entre aqueles que defendem a inclusão, ainda se encontramcompreensões diferentes nos termos em que este ensino dever ser50 BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, p. 85.51 CARON, Lurdes (org.) e Equipe do GRERE, O Ensino Religioso na nova LDB, p. 27.
  28. 28. 28concretizado. Alguns ainda o defendem como Ensino de uma Religião ouCatequese52.Da parte das Igrejas, também há posições contrárias. Algumas tendênciasconcebem o Ensino Religioso não mais como elemento eclesial na escola, mascomo uma oportunidade de um diálogo entre os educandos e as educandas dediversas denominações religiosas, em respeito mútuo e evitando oproselitismo.Dentro dessa visão, o conhecimento religioso começa a sair do âmbito dasigrejas, para adquirir espaço e reconhecimento como conhecimento humanodisponível para todos. Por isso, a escola, mais especificamente o EnsinoReligioso, deve ser um espaço para a construção e sociabilização doconhecimento religioso53.Nesse sentido, os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religiosoapresentam a seguinte fundamentação: “Entende-se também que a Escola é oespaço de construção de conhecimentos e principalmente de socialização dosconhecimentos historicamente produzidos e acumulados. Como todo oconhecimento humano é sempre patrimônio da humanidade, o conhecimentoreligioso deve também estar disponível a todos os que a ele queiram teracesso”54.O Ensino Religioso, portanto, não está separado das demais áreas deconhecimento e por isso deve estar relacionado com os demais componentescurriculares do sistema de ensino numa proposta de interdisciplinaridade, ondecontribui, de forma ativa e crítica, para o diálogo e construção conjunta daprática educativa55.Nesse sentido, ele pode contribuir para uma visão e uma prática maisintegradas dos conhecimentos humanos, onde a religiosidade não é maisdissociada dos demais saberes e onde acontece uma íntima relação entre fé evida.52 MARKUS, p. 36.53 Ibidem, p. 37.54 BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso, p. 21.55 MARKUS, p. 37.
  29. 29. 29Outro aspecto importante que os Parâmetros Curriculares Nacionais do EnsinoReligioso abordam é a integração do aspecto religioso à cultura: “Cada culturatem, em sua estruturação e manutenção, o substrato religioso que acaracteriza. Este o unifica à vida coletiva diante de seus desafios e conflitos” 56.Neste sentido, cada cultura vai responder e expressar a religiosidade a suamaneira e produzir conhecimentos diferentes.O Ensino Religioso necessita cultivar o respeito por todas as manifestaçõesreligiosas, não privilegiar certas expressões, mas ressaltar a alteridade.É importante ressaltar que o fenômeno religioso como elemento inerente atodas as culturas tem como pressuposto não só o transcendente, mas tambéma experiência do cotidiano onde acontece a vida em suas relações com omundo, com a natureza, com a sociedade e consigo mesma.A religiosidade perpassa a vida concreta das pessoas e das culturas,influenciando suas relações, concepções, valores, conceitos, atitudes,pensamentos e emoções.No entanto, muitas vezes é acentuado o seu aspecto transcendente. Tambémos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso em muitosmomentos colocam este acento, esquecendo que valores como transcendênciae imanência fazem parte da visão dualista do mundo ocidental, inexistente emoutras culturas57.Desta forma, precisa-se superar uma visão que acentua a transcendência dofenômeno religioso, para assumir uma postura em que a religiosidade seefetiva na construção da realidade vivencial, na vida concreta58. 2.3. Ética e o Ensino ReligiosoA palavra Ética pode ser definida como:56 BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso, p. 19.57 MARKUS, p. 38.58 MARKUS, Ibidem.
  30. 30. 30Ética s.f. (gr. ethike) 1. Parte da Filosofia que estuda os valores morais e osprincípios ideais da conduta humana. É a ciência normativa que serve de baseà filosofia prática. 2. Conjunto de princípios morais que se devem observar noexercício de uma profissão.59Em Filosofia “A ética ou moral (...) é o estudo da atividade humana com relação 60a seu fim último, que é a realização plena da humanidade”.De um modo geral, a Ética caracteriza um conjunto de normas, regras a seremseguidas por qualquer profissional, de qualquer área, quando do exercício desuas funções.Em se tratando do professor de Ensino Religioso, a Ética deve, além deevidenciar um conjunto de princípios que norteiam seu trabalho, ser um pontode partida na busca do sucesso dos alunos, aqui considerados cidadãos dedireitos e deveres comuns.Para Aguiar, “a ética enxerga o trabalho como sendo algo que deve serrealizado com amor e consciência (...) Em nível individual, devemos enxergarno trabalho a maior fonte de autoridade moral” 61.Para Savater “o professor deve ser esse fomentador, mostrando ao grupocomo participar de controvérsias e como buscar posições que não tenhamdono. Ele pode ser um exemplo, tendo firmeza em suas posições, masdisposto a debatê-las”62.Ora, como contrabalançar prática pedagógica com vivência religiosa? Comoinserir e reafirmar valores morais?Meksenas, afirma: Entre professores, o que é certo ou errado; bem ou mal;justo ou injusto acaba determinado pela grande moral ou ideologia. Porém econtraditoriamente, a moralidade do professor pode adquirir formas de maior59 BARSA PLANETA INTERNACIONAL LTDA. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo:Melhoramentos, 2001.60 MONDIN, Battista. Introdução à Filosofia. São Paulo: Paulus, 1980.61 AGUIAR, Emerson Barros de. Professor vê a Ética na vida do profissional. Disponível em:<http://www.catho.com.br>. Acessado em 09 nov. 2007.62 SAVATER, Fernando. Da Ética como método de trabalho. Revista Nova Escola. São Paulo: Editora AbrilCultural, Julho/2002. p. 46.
  31. 31. 31independência frente à ideologia, pois aquela pequena moral profissional, aooriginar-se da prática cotidiana do experimentar a profissão, permite concordarou discordar com os prepostos da grande moral ou ideologia 63.Ideologias à parte, o Ensino Religioso, nas escolas, assumindo-se como laico enão proselítico, respeitando o direito que cada indivíduo deve primar pelo nãoprivilégio de umas religiões em detrimento de outras e pelo despertar deconsciências, reflexões e reconstruções que se mostram urgentes naatualidade.Assim como o Estatuto da Criança e do Adolescente visa defendê-los, tambémos professores, como todas as profissões, deveriam ter um código de ética,não para ser usado como escudo moral, mas para ser parâmetro ético deconduta na relação com alunos, escola, comunidade, pais64.Na ausência de um código que delimite a metodologia de trabalho do professorde Ensino Religioso, dentro de sala de aula, na escola, no convívio com seuscolegas de profissão, é impossível compreender a complicada relação entre osvalores a serem discutidos, transformados ou inseridos, entre a moral e asdiversidades existentes nestes contextos e entre as possibilidades ouimpedimentos que ocorrem durante o processo de ensino e aprendizagem.E, aqui, quando falamos em código, pensamos tão somente na necessidadepremente da instituição de leis que possam reger a complexa rede que cercaas determinações do ato de ensinar, formar pessoas, instruir, conduzir.Estas leis devem considerar que o educador primeiro perceba-se como tal,aceite sua condição de formador de opiniões, novas concepções e releituras demundo, permitam-se apresentar suas visões, questionando, provocando ealertando os indivíduos quanto aos seus papéis na construção diária de ummundo melhor e intervenha, a todo instante, no intuito de cumprir com osobjetivos centrais desta disciplina, quais sejam redimensioná-la, estruturá-lasob o ponto de vista dos anseios e necessidades do educando enquanto63 MEKSENAS, Paulo. O lugar na Ética no trabalho do (a) professor(a). www.espacoacademico.com.br.Disponível em 10/11/2007.64 LIMA, Raymundo de. Falta um código de ética ao professor. Disponivel em:<http://www.observatorio.ultimosegundo.ig.com.br>. Acessado em: 10 nov. 2007. p 3.
  32. 32. 32participante e transformador da sociedade na qual está inserido, propor que secomunguem os mesmos pensamentos em prol do bem da coletividade.Enquanto esta legislação não existe, e por causa disso, cabe ponderar que aprática pedagógica utilizada nas aulas de Ensino Religioso deve contemplarsuas diretrizes, se pautando na consciência, capacidade e profissionalismo doprofessor.65As aulas de Ensino Religioso devem abranger as experiências de cada aluno, apluralidade existente dentro de sala de aula. Para isso acontecer, o profissionalda educação poderia fazer um levantamento das crenças religiosas existentesem sala, para depois elaborar seu plano de aula de forma a impetrar esteobjetivo.Esta prática deve ser baseada em uma Ética própria da profissão.Fundamentados em pressupostos que deveriam compor um código,professores de Ensino Religioso devem procurar se qualificar, se capacitar. Aprópria inserção desta disciplina na Constituição Federal já implicou namovimentação destes profissionais ou daqueles que pretendiam sê-lo. Oprofessor, neste caso, deve ser um mediador, mais do que um interventor66.Os conteúdos a serem trabalhados devem ir além das dimensões básicas.“Sabendo que na escola convivem sujeitos totais e não apenas mentes semhistória, sem corpo, sem identidade, também são equacionadas comoconteúdos de docência formar a curiosidade, a paixão de aprender, a emoçãoe vontade de conhecer, de indagar a realidade que vivem, sua condição declasse, raça, gênero, sua idade, corporeidade, memória coletiva, suadiversidade cultural e social”6765 BARBOSA, Flávio Henrique; PORCÍNIO, Renilda Aparecida Lemes e PARREIRA, Tatiana Maria Vital.Revista da Católica, Uberlândia, a ética e o ensino religioso: reflexões sobre o trabalho do professor.Disponível em www.catolicaonline.com.br/revistadacatolica Acessado em: 06 set. 2011.66 BARBOSA, Flávio Henrique; PORCÍNIO, Renilda Aparecida Lemes e PARREIRA, Tatiana Maria Vital.Revista da Católica, Uberlândia, a ética e o ensino religioso: reflexões sobre o trabalho do professor.Disponível em www.catolicaonline.com.br/revistadacatolica Acessado em: 06 set. 2011.67 ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre. Petrópolis: Vozes, 2000.p 120.
  33. 33. 33A Ética do profissional da educação, mais que uma legislação dentro de umcódigo a ser criado, deve ser contextualizada sob um conjunto de normas quenorteiem os seus trabalhos, com especificidades próprias da função.O resgate do prazer de ensinar supõe algo que vá além da construção deparâmetros e programas. Estes contêm os princípios básicos para o exercíciodo magistério.Professores de Ensino Religioso, à exceção de alguns corajosos que searriscam em inovações pedagógico-didáticas, ainda estão impregnados deposicionamentos tradicionais, que se destacam pelo teor carregado deindiferença e desrespeito à pluralidade religiosa brasileira.Ainda predomina a idéia de que somente as religiões que fazem parte doEcumenismo podem sustentar o que deve ser ensinado na escola,desconsiderando a atual diversidade observada entre os alunos.Em sala de aula estudam católicos, protestantes, espíritas, budistas,muçulmanos, ateus e outros seguimentos, incluindo as ramificações existentesem cada religião.Todos os indivíduos, homens e mulheres, professores e alunos, recebem aonascer uma sucessão de informações acerca de preceitos morais ou valoresque vão carregar em suas vidas pessoais e em sociedade. São ensinamentosque indicarão a que grupos eles pertencem, qual a cultura que seguem, de quemodo vivem e em que acreditam.Dentre estas indicações estará a percepção do lhe é sagrado, daquilo quecomanda seus atos, que rege suas intenções, que transcende, que não sepode explicar, em que se crê indiscriminadamente.É a ética que deverá orientar o trabalho do professor. Ao aceitar que existemfenômenos que transcendem as práticas coletivas, ele estará admitindo que,embora seja necessário e fundamental considerar os valores importantes parao todo, existem aqueles nos quais não se deve interferir, os individuais, osfamiliares, culturais e religiosos.
  34. 34. 34“O respeito pela vida religiosa dos outros, por suas opiniões e seus pontos devista, e um pré-requisito para a coexistência humana. Isso não significa quedevemos aceitar tudo como igualmente correto, mas que cada um tem o direitode ser respeitado em seus pontos de vista, desde que estes não violem osdireitos humanos básicos” 68Enfim, Ética e profissionalismo devem, fundamentalmente, caminharem juntos,quando o objeto em questão estiver intimamente ligado ao aprendizado, àaquisição e reafirmação de valores morais e religiosos e à transformaçãointerna e externa do homem, enquanto indivíduo social. 3.O Mito no Ensino ReligiosoTodo desenvolvimento integral de que o ser humano é protagonista ou não,passa por representações abstratas, as quais tornam possíveis a ele portar-sediante da vida de maneira a extrair da sua experiência terrena, uma fagulhaque o sustente para o sentido buscado como resultado das inquietações queestão encerradas desde antes de sua existência no mais profundo do seu ser.Toda pessoa mostra-se como que através de um véu. Traz em si parte demistério e Do Mistério, da Transcendência. Sua dinamicidade se move demaneira excepcional, que às vezes foge de um instante de vislumbramentodiante da maravilha que se é e que se pode vir a ser. E é com o objetivo deparar, entender-se, compreender os outros e o Outro que este momento dereflexão se faz propício.69Tal como já dissemos no primeiro capítulo, a reverência e o respeito à maneirado outro acreditar e manifestar sua fé, é um paradigma a ser estudado comcomprometimento, sem preconceitos, pois que este vem enfatizar não a visãosob determinado ângulo, mas sim, vem “desmistificar” o que foi se construindono sentido negativo em relação às tradições religiosas, enquanto ponto departida para um entendimento mais harmonioso entre as pessoas.68 GAARDER, Jostein, HELLERN, Victor, NOTAKER, Henry. O Livro das Religiões. São Paulo: Companhia dasLetras, 2005.p 17.69 BRASIL, Elizandra dos Santos e DMENGEON, Ivone de Lourdes, Ensino Religioso: o mito comocontribuição na educação humana. www.gper.com.br/documentos/00123_mito.pdf , acessado dia07/07/2011.
  35. 35. 35 As semelhanças com a religião mostram que o mito se refere; ao menos emseus níveis mais profundos, a temas e interesses que transcendem aexperiência imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e omal, o comportamento ético e a escatologia (destino último do mundo e dahumanidade). Crê-se no mito, sem necessidade ou possibilidade dedemonstração70.O mito colabora quando se trata também da religiosidade das pessoas, ele estáincutido na mente humana, é fato indispensável na existência humana.Dentre as grandes interrogações que o homem permanece incapaz deresponder, apesar de todo o conhecimento experimental e analítico, figura, emtodas as mitologias, a da origem da humanidade e do mundo que habita. Écomo resposta a essa interrogação que surgem os diferentes tipos de mitos.É comum encontrar nas várias mitologias a figura de um criador, um demiurgoque, por ato próprio e autónomo, estabeleceu ou fundou o mundo em suaforma atual. Os mitos desse tipo costumam mencionar uma matériapreexistente a toda a criação: “o oceano, o caos (segundo Hesíodo 71) ou aterra” (nas mitologias africanas).Ao lado da preocupação com o enigma da origem, figura para o homem, comogrande mistério, a morte individual, associada ao temor da extinção de todo opovo e mesmo do desaparecimento do universo inteiro.Analisemos o mito da criação de matriz afro, segundo a Cartilha diversidadereligiosa e direitos humanos72: “...no principio havia uma única verdade no mundo. Entre Orun (mundo invisível, espiritual) e o Aivê (mundo natural) existia um grande espelho, assim tudo que estava no Orun se materializava e se mostrava no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual se refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha menor dúvida em considerar todos os70 CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mi to. São Paulo: ed. Palas Athena.1990.71 Hesíodo foi um dos dois grandes poetas gregos da idade arcaica. Junto com a de Homero, sua obraconstitui um dos pilares sobre os quais se edificou a identidade helênica. Viveu por volta de 800 a.C. naBeócia, região situada no centro da Grécia.72 BRASIL. Cartilha Diversidade Religiosa e Direitos humanos, Nov. 2004.
  36. 36. 36 acontecimentos como verdades. E todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho da Verdade, que ficava perto do Orun e bem perto de Aiyê.Neste tempo, vivia no Aiyê uma jovem chamada Mahura, que trabalhava muito,ajudando sua mãe. Ela passava dias inteiros a pilar inhame. Um dia,inadvertidamente, perdendo o controle do movimento ritmado que repetia semparar, a mão do pilão tocou no espelho, que se espatifou pelo mundo, Mahuracorreu desesperada para se desculpar com Olorum (o Deus Supremo) Qualnão foi a surpresa da jovem quando encontrou Olorum calmamente deitado àsombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros). Olorum ouviu asdesculpas de Mahura com toda atenção, e declarou que, devido à quebra doespelho, a partir daquele dia não existiria mais uma verdade única. “E concluiuOlorum: „De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho emqualquer parte do mundo já pode saber que está encontrando apenas umaparte da verdade, porque o espelho espelha sempre a imagem do lugar ondeele se encontra.”73Assim, como este, existem inúmeros outros mitos que trazem ao entendimentoindagações a respeito do novo, da criação, da descoberta. É o ser humanoquerendo explicar-se e buscando explicação acerca do que não conhece, masdeseja conhecer e por que não tocar e ser tocado? O Ensino Religioso dará eserá oportunidade ao educando (a) para que este se encontre e busque o quepode saciar sua sede infindável do sentido da vida, do sentido a si mesmo e atudo que o rodeia, formando conceitos e tendo explicações para os seusquestionamentos.73 BRASIL, Elizandra dos Santos e DMENGEON, Ivone de Lourdes, Ensino Religioso: o mito comocontribuição na educação humana. www.gper.com.br/documentos/00123_mito.pdf , acessado dia07/07/2011.
  37. 37. CONSIDERAÇÕES FINAIS
  38. 38. 38As tradições religiosas fazem parte da existência dos homens por seconstituírem na primeira ferramenta da nossa humanização. Desde sua origem,as religiões procuram humanizar os homens, é por meio da percepção dosagrado que a vida foi se estruturando, a religião foi a primeira a utilizar osmitos como ferramenta para a compreensão da vida, os mitos serviram de basepara os textos sagrados que estruturaram a organização pessoal e social doshomens, as religiões propiciaram a estes homens um processo de descobertas,primeiro da finitude, fazendo-os perceber que a morte faz parte da vida, e que avida propicia um processo contínuo de aprendizado, em que o ser religioso éaquele que sabe reconhecer seus potenciais e seus limites como meio demanter uma relação equilibrada com o seu semelhante, pois aquele queconhece seus potenciais não se sente ofuscado com o potencial do outro,aquele que reconhece seus limites, é mais compreensível com o limite dopróximo, não significando entretanto que ele tenha que aceitar esses limites,pois aí está a beleza das tradições, que orienta na superação constante desseslimites, tanto no plano individual como coletivo, objetivando a humanização dosindivíduos e, conseqüentemente, estruturando o grupo social para possibilitaruma vida digna e justa nos moldes do paraíso, que significa um lugar onde omal não existe.74Na sua função civilizadora, as tradições apontam as características do homemreligioso. Ser religioso é vivenciar a regra de ouro, comum a todas as tradiçõesreligiosas, „Não faças aos outros, o que não queres que te façam‟, o serreligioso é aquele que pratica o amor, a justiça, a caridade, a benevolência, acompaixão, a humildade, a alteridade... Ser religioso é reconhecer a beleza davida, é admitir a nossa condição de aprendizes, sendo que aprendiz é aqueleque descobre que a vida é extremamente dinâmica, que fazem parte dela aalegria e a tristeza, a saúde e a doença, perdas e ganhos, a felicidade e osofrimento, e que, se soubermos aprender com esses princípios contraditórios,estaremos mais bem preparados para esta longa jornada que é viver.74 MIRCEA, Eliade. Tratado de história das religiões. Lisboa: Cosmos, 1977.p 69-71.
  39. 39. 39É preciso que o profissional de Ensino Religioso esteja atento a importância deestudar e compreender os Mitos, assim como o seu processo, sua origem, suaestrutura, sua finalidade, pois estes estudos podem em muito contribuir nasaulas de Ensino Religioso assim como pra sua formação pessoal, docente ecultural Os mitos estão presentes em todas as culturas e tradições Religiosas,sendo necessária uma leitura histórica, antropológica, sociológica e filosófica,assim sendo só o senso comum não basta, é preciso analisar os mitos em suaconjuntura.A partir desses elementos, provocaremos uma releitura do ser religioso nocotidiano da sociedade, favorecendo a professores e estudantes da educaçãobásica uma compreensão mais ampla dos elementos que compõem aeducação do profano e do sagrado nas ações individuais e coletivas.
  40. 40. 40REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:AZEVEDO, M. C. Modernidade e cristianismo. O desafio à inculturação. SãoPaulo: Loyola, 1981, p. 336.BARSA PLANETA INTERNACIONAL LTDA. Dicionário Brasileiro da LínguaPortuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2001.BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 12. ed. São Paulo:Ática, 1995.BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Religioso. 3. ed. SãoPaulo: Ave-Maria, 1997.BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: pluralidade cultural, orientaçãosexual. Brasília: MEC/SEF. 1997CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: ed. Palas Athena.1990.CARON, Lurdes. (Org.) e equipe do GRERE. O Ensino Religioso na nova LDB.Petrópolis: Vozes, 1998.CARON, Lurdes. Entre conquistas e concessões: uma experiência ecumênicaem Educação Religiosa Escolar. São Leopoldo: Sinodal, 1997.DA SILVA, Eliane Moura, Religião, Diversidade e Valores Culturais: conceitosteóricos e a educação para a Cidadania, rever, pcsp, n 2, 2004.DURKHEIM, Émile, As formas elementares da vida religiosa, São Paulo, Abrilcultural, 1973.ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Edições 70, Lisboa, 1989. Pag. 12-13.ELÍADE, Mircea. Mito e Real idade Debate e Filosofia. São Paulo: Ed.Perspectiva. 1972.Enciclopédia Britânica do Brasil. Publicações Ltda. Rio de Janeiro, São Paulo,v. 10, 1997. Pag. 85.
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  42. 42. 42LIMA, Raymundo de. Falta um código de ética ao professor. Disponível em:<http://www.observatorio.ultimosegundo.ig.com.br>. Acessado em: 10 nov.2007.MEKSENAS, Paulo. O lugar na Ética no trabalho do (a) professor(a).Disponível em: www.espacoacademico.com.br. Acessado em 10/11/2007.SOBEL, Henry I. A tolerância religiosa, os direitos humanos e o século XX.Disponível em: www.interacaovirtual.com/Espiritualidade/tolerancia. Acessadoem 06/10/2011.

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