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França - 1927 e 1937 -, quando dele podia dizer Mário de Andrade, num artigo escrito em1929:- Ele tem calungas que não são...
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Dias, cícero

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Dias, cícero

  1. 1. DIAS, Cícero (1908). Nascido em Jundiá (PE). Em 1925 achava-se no Rio de Janeiro,matriculado no curso de Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes, que cedo trocou pelode Pintura. Inconformado porém com o tipo de ensinamento acadêmico ali ministrado,abandonou em 1928 a Escola. Nesse mesmo ano, realizou sua primeira individual, não semsuperar diversas dificuldades:- Fui procurar o Graça, e o Graça me disse que eu fosse, com uma carta dele, procurar oMoura Brasil, que havia um salão da Policlínica defronte da Galeria Cruzeiro. Não encontrava oMoura Brasil, aí o Graça conhecia muito bem o Juliano Moreira, psiquiatra muito importante, efui procurar Juliano Moreira lá no hospital, mostrei o desenho e ele me disse: "Está muito bem,porque lá no hospício está havendo um congresso de Psiquiatria mundial"... Fiz a exposição nosalão da Politécnica, quando houve esse congresso. Foi um escândalo. Até consegui venderquadros. O público não aceitava aquilo de maneira nenhuma, só professores alemães,franceses, estrangeiros que naturalmente já estavam senhores de tudo aquilo.Interrompido o curso de Belas Artes, Cícero partiu de volta ao Nordeste, expondo em 1928 emRecife e logo depois em três cidades do interior de Pernambuco:- Em 1928, fiz uma exposição em Recife, depois fiz três exposições no interior do Estado, parajustamente sentir a receptividade do povo para a pintura moderna, diante da expressãomoderna. O povo não estranha; quem estranha o novo é o mal instruído, o burguês, mas opovo não. Em Recife, a repercussão foi horrível, fui perseguido pelo ambiente cultural, apesarda apresentação de Gilberto Freire.Nessa apresentação, o grande sociólogo dizia, entre outras coisas:- Das novas relações e proporções é que sai avivado pelo mais brasileiro dos azuis, pelo maispernambucano dos encarnados, o lirismo profundo como em nenhum outro pintor que euconheço, de Cícero Santos Dias. Esse pintor não tem requintes de colorido nem luxos, masquase só azul e encarnado como os pintorezinhos pobres - de barcaças e de ex-votos e decasas de porta e janela.Esse lirismo de base popular e autenticamente brasileiro nutriria de então por diante asmelhores obras de Cícero, ao tempo em que praticava uma pintura ingenuamente surrealista,quando, rústico Chagall dos Trópicos, externava com simploriedade suas reminiscências esensações de menino de engenho impregnado de fortes odores de frutas e do colorido doscanaviais, com medo de assombração e despertando para a sexualidade. "Pintura é poesia,qual técnica!" costumava dizer então aos que lhe censuravam o desleixo no acabamento dasaquarelas e dos óleos. Desleixo que aliás não passou desapercebido a um crítico como RubemNavarra, o qual assim caracterizou sua produção entre 1928 e 1937:- Ele se dava a todas as liberdades no terreno da técnica. Tinha horror à virtuosidade linear e àlógica do espaço natural - a composição era uma montagem de símbolos e imagens - poemase não arquiteturas. De maneira que não havia questão de exercitar nem forma nem matéria: oque importava era figurar um determinado sentido de evocação, por meio de imagens em geralsoltas e mal construídas, onde tudo se encontrava na idéia de produzir um choque poético,através de uma linguagem como a dos primitivos ou a das crianças.Esse desleixado, muito mais artista do que artesão, paradoxalmente chegaria a lecionarTécnica da Pintura em 1935, do mesmo modo como, desorganizado sempre, foi um dosorganizadores do Congresso Afro-Brasileiro de Recife, em 1929...Em 1931, no Salão Nacional de Belas Artes que Lúcio Costa pela primeira vez franqueava aartistas de orientação não-acadêmica, Cícero expôs um enorme quadro, Eu vi o mundo, elecomeçava no Recife, que causaria sensação:
  2. 2. - Eu expus um quadro enorme, esse meu quadro hoje tem 15 metros por dois metros e pouco.Mas ele era maior, ele devia ter mais ou menos vinte e tantos metros, e toda parte do quadroque tinha cenas eróticas desapareceu. Rasgaram o quadro, tiraram tudo isso, desapareceu...O quadro, devidamente restaurado, e após ter integrado durante anos, em comodato, o acervodo Museu Nacional de Belas Artes, pertence hoje a um colecionador de Rio de Janeiro. Em1937, após executar décors para um balé de Villa-Lobos na versão de Serge Lifar, Cícero Diasembarcou para Paris, pretendendo ali permanecer alguns meses, o suficiente para se esquecerdo Estado Novo recém-implantado por Getúlio Vargas. Terminaria por se radicardefinitivamente na capital francesa, da qual só se ausentou durante os anos da II GuerraMundial, entre 1939-45 (quando viveu em Lisboa), e nas rápidas escapadas ao Brasil, aliáscada vez mais freqüentes para os últimos anos.Pode-se imaginar o impacto da pintura de Cícero, tão logo chegado a Paris, sobre ossurrealistas aos quais logo se ligou! Não admira assim tivesse sido acolhido com efusão porartistas e intelectuais do porte de Picasso e de Éluard. No ano seguinte ao da chegada, 1938,efetua com sucesso duas exposições em Paris. Mas é tempo de guerra, e após curta prisãosob os nazistas, nosso artista decide prudentemente fixar-se em Lisboa. Só retornará em 1945,deixando para trás não apenas o doce exílio lisboeta como toda uma fase pictórica marcadapelo improviso e pelo lirismo.De fato, o Cícero de meados da década de 1940 não é mais o das imagens da infância, masalguém preocupado com problemas formais e de relacionamentos cromáticos. Umabstracionista, em suma, que reduz o mundo a um conjunto de abstrações coloridas darealidade, despreocupado com a duplicação das formas naturais e sobretudo com o conteúdoanedótico ou literário ainda tão marcante em obras anteriores. Integrado, portanto, ao grupoabstracionista, freqüentador da Galeria Denise René, membro do Grupo Espace em 1946,Cícero deixa de ser um pintor regionalista e se insere na arte internacional de seu tempo.Numa curta visita ao Brasil, em 1948, executa, em Recife, aquele que é geralmente tido como oprimeiro mural abstrato sul-americano. E em 1952 é um dos artistas selecionados por LeonDegand para figurar em sua obra Temoignages pour lArt Abstrait, ao lado de Arp, Calder,Poliakoff, Magnelli e tantos outros. No mesmo ano sua exposição em São Paulo desperta emOswald de Andrade o seguinte comentário inesperado:- Cícero acaba de expor em São Paulo e entusiasmou-me. Julgo-o o maior pintor brasileiro detodos os tempos. Sim, o maior, digo e repito. E ninguém poderá imaginar que estou falandoisso por camaradagem, uma vez que as minhas relações com Cícero são geladas.Se a temática regionalista do primeiro Cícero Dias esvaiu-se, substituída pelas relaçõesmatemáticas entre formas e cores, não há como deixar de perceber, mesmo aí, uma atmosferaque é Nordeste, Pernambuco, o Brasil: afinal, não escreveu com acuidade Gilberto Freyre, háquase 60 anos, que Cícero usava em seus quadros "o mais brasileiro dos azuis, o maispernambucano dos encarnados"?Cícero realizou diversas exposições individuais, não apenas no Rio de Janeiro e em Recife, emSão Paulo e Paris, como também em Lisboa (1942, com prefácio de Paul Eluard), Londres(1945), Bruxelas (1966) etc; também participou de importantes coletivas, como a XXV Bienal deVeneza (1950), o Salão de Maio, de Paris (1951, 1958), Jovens Pintores Abstratos da Escolade Paris (Bruxelas, 1951), Klar Form (Dinamarca, Suécia e Finlândia, 1952), e um sem-númerode outras. Em 1965, a VIII Bienal de São Paulo dedicou-lhe uma sala retrospectiva, tornando afazê-lo em 1994, no âmbito da exposição "Brasil Bienal Século XX". Desde aquele ano temvindo assiduamente ao Brasil, para realizar individuais em São Paulo e Rio de Janeiro,Salvador e Recife, sempre com grande sucesso de vendas. É bem verdade que os quadrosmais recentes, e que tentam reproduzir a antiga temática das evocações infantis em Jundiá, jáagora vazada num desenho e num colorido nada espontâneos, não sustentam o cotejo quercom as aquarelas da primeira fase, quer com os grandes esquemas abstratos que se lheseguiram. Na verdade, o grande Cícero Dias, aquele que se incorporou em definitivo à históriada pintura brasileira, é o dos anos que medeiam entre a primeira individual e a partida para a
  3. 3. França - 1927 e 1937 -, quando dele podia dizer Mário de Andrade, num artigo escrito em1929:- Ele tem calungas que não são nem cachorro, nem boi, nem burro. Tem aves que não sãobem pombas, nem urubus, nem galinhas. É o Animal. É a Ave. Mulher e soldado, guache, 1928; 0,31 X 0,30, Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Estátua e o monstro, guache, 1928; 0,55 X 0,38, Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Eu vi o mundo, começava no Recife, detalhe, óleo s/ papel, 1929; 2,50 X 1,50. Moça com sombrinha, óleo s/ tela, s/ data; 0,74 X 0,61, Palácio Bandeirantes, SP. Ilustração para o livro Ciclo da Moura, água-forte, 1966-67; 0,34 X 0,26, Museus Castro Maya, RJ. Sem título, óleo s/ tela, 1951; 0,80 X 0,53, Museu de Arte Contemporânea da USP.

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