A historia-do-historiador

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A historia-do-historiador

  1. 1. Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez A História do Historiador
  2. 2. Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez USP UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor Prof. Dr. Jacques Marcovitch Vice-Reitor Prof. Dr. Adolpho José Melfi FFLCH FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS Diretor Prof. Dr. Francis Henrik Aubert Vice-Diretor Prof. Dr. Renato da Silva Queiroz DH DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA Chefe Profª. Drª. Laura de Mello e Souza Suplente Prof. Dr. Jorge Luís da Silva Grespan CONSELHO EDITORIAL ASSESSOR DA HUMANITAS Presidente Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento (Filosofia) Membros Profª. Drª. Lourdes Sola (Ciências Sociais) Profª. Drª. Maria das Graças de Souza do Nascimento (Filosofia) Profª. Drª. Sueli Angelo Furlan (Geografia) Prof. Dr. Elias Thomé Saliba (História) Profª. Drª. Beth Brait (Letras) Endereço para correspondência Comissão Editorial Compras e/ou Assinaturas DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA HUMANITAS LIVRARIA – FFLCH/USP Av. Prof. Lineu Prestes, 338 Rua do Lago, 717 – Cid. Universitária 05508-900 – São Paulo-SP – BRASIL 05508-900 – São Paulo-SP – Brasil Fone: + 55 (0)11-818-3760 Telefax: (011) 818-4589 Fax: 55 (0)11-818-3150 e-mail: pubflch@edu.usp.br e-mail: flh@edu.usp.br http://www.usp.br/fflch/fflch.html SERVIÇO DE DIVULGAÇÃO E INFORMAÇÃO Tel.: 818-4612 – e-mail: di@edu.usp.br Copyright 1999 da Humanitas FFLCH/USP É proibida a reprodução parcial ou integral, sem autorização dos detentores do copyright Humanitas Publicações – FFLCH/USP – maio 1999 FFLCH
  3. 3. Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez ISBN: 85-86087-??-?Tereza Aline Pereira de Queiroz Zilda Márcia Grícoli Iokoi A História do Historiador PUBLICAÇÕES FFLCH/USP 1999
  4. 4. Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez 4 QUEIROZ, Tereza da Humanitas/FFLCH/USP & IOKOI, Zilda M.Grícoli. Copyright 1999 Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoli QUEIROZ, Tereza A. Pereira de É proibida a reprodução parcial ou integral, sem autorização prévia dos detentores do copyright SERVIÇO DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO DA FFLCH/USP FICHA CATALOGRÁFICA: MÁRCIA ELISA GARCIA DE GRANDI CRB 3608 Q 42 Queiroz, Tereza Aline Pereira A História do Historiador / Tereza Aline Pereira de Queiroz, Zilda Márcia Gricoli Iokoi. – São Paulo: Humanitas / FFLCH/USP, 1999. 116 p ISBN 85-86.087-54-8 1. História 2. Historiografia 3. Historiadores I. Iokoi, Zilda Márcia Gricoli II. Título. CDD 901 HUMANITAS PUBLICAÇÕES FFLCH/USP e-mail: editflch@edu.usp.br Tel.: 818-4593 Editor responsável Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento Coordenação editorial e Diagramação M. Helena G. Rodrigues Capa Joceley Vieira de Souza Revisão Autoras / Simone Zaccarias Montagem Charles de Oliveira / Marcelo Domingues
  5. 5. Arquivo Upado por MuriloBauer - FileWarez 5 SUMÁRIOIntrodução ......................................................................... 7As Antigüidades ............................................................... 13As Idades Médias ............................................................. 37As Idades Modernas ......................................................... 53A Modernidade ................................................................. 69O Historiador Contemporâneo ........................................... 87Bibliografia .................................................................... 113
  6. 6. INTRODUÇÃO 7 INTRODUÇÃO “Quando eu evoco um arco, cheio de beleza e simetria, (...) uma certa realidade que o espírito conheceu através dos olhos e que foi transmitida à memória, suscita a visão imaginária.” Agostinho, De Trinitate, IX, xi, 6. Passado e memória dão conteúdo, identidade e espessuraa todos os humanos. Por mais isolado que se encontre um gru-po, uma comunidade ou mesmo um só indivíduo, todos estãoimbuídos de um passado, de uma memória e de uma história. Ahistória de si mesmos é também a história da vinculação comdeterminado tempo e espaço. Embora a individualidade se ela-bore dentro de uma dinâmica, onde se relacionam o vivido e oconcebido, isso não torna todos os homens historiadores. A his-tória pessoal de cada um inevitavelmente terá raízes numa his-tória externa, mais ampla, mais difusa, imbricada com o social,o econômico, com as estruturas da cultura, nem sempre per-ceptível no plano da consciência individual. É justamente datradução dessas histórias através de narrativa coerente, elabo-rada a partir de elementos concretos, não ficcionais, com bases
  7. 7. 8 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolinum múltiplo e complexo inter-relacionamento entre tempo, es-paço e a expressão dos grupos humanos, que se ocupará ohistoriador. O historiador não será guardião da memória indivi-dual, ou memorialista, mas aquele que ao indagar capta o sen-tido da construção de uma memória social no tempo, criandouma imagem do passado. Neste sentido a memória é documen-to e não produto final. Apesar de o indivíduo existir na história, não será ele o ob-jeto principal do historiador. Mesmo em períodos onde se privile-giou uma história de heróis, foi impossível caracterizar aheroicidade isoladamente; o herói sempre precisou de um mo-mento adequado para demonstrar sua habilidade e, principal-mente, de uma identificação com um objetivo suprapessoal, comum grupo e com idéias por este concebidas. As relações interpes-soais, a construção mental e física do mundo, o exercício do po-der de uns sobre os outros, os encontros entre diferentes estão nabase daquilo que Virginia Woolf definia como “fantasma imenso ecoletivo, incapaz de ser exorcizado” ou seja, o passado, ao qual ohistoriador dará forma para que ele se transforme em história. Assim como o conteúdo da história não é o indivíduo isola-do, tampouco o historiador expressará uma subjetividade ilimi-tada na sua captação do passado. Pelo simples fato de partici-par de um passado realizado no presente, de pertencer ou seprojetar num determinado grupo social, seu trabalho expressa-rá uma historicidade intrínseca na escolha de temas, na abor-dagem, na leitura da documentação, no processo de reflexãoconvertido em texto. Paradoxalmente, nesta condenação do his-toriador ao presente situa-se a eternidade de um passado quenunca se esgota. Caso contrário, a história da Grécia, por exem-plo, teria sido escrita por Heródoto e ponto final. No entanto,cada século reelaborou a história grega dentro de suas perspec-tivas e possibilidades. Nos limites entre a “consciência possível”e a “consciência real” próprias e de seu tempo, o historiadorbusca no passado a consciência de seu próprio tempo.
  8. 8. INTRODUÇÃO 9 Devemos considerar também que nem sempre o termo his-toriador foi utilizado para identificar aquele que se ocupa dopassado. Tampouco existiu uma profissão ou uma carreira dehistoriador em todos os tempos e todas as sociedades. Pessoascom os mais diferentes perfis e formações desempenharam fun-ções de destrinchar, refletir, falar ou escrever sobre o passado,tendo em vista as mais variadas preocupações e múltiplas per-cepções de tempo. O historiador, diante da necessidade de organizar seu pen-samento, seu entendimento, cria medidas e categorias de tem-po, organiza esse tempo em função de fatos, de ciclos, de épo-cas, de estruturas. Com isto acrescenta uma noção de tempodiversa daquela vivida pelas comunidades; na antigüidade, porexemplo, foi Timeu da Sicília, no século IV a.C., que introduziuum sistema numérico estabelecendo uma correlação entre ascrônicas das diversas cidades-estados, dado que cada uma es-tabelecera uma cronologia a partir das listas de dignatários quea cada ano as governavam. O tempo jamais é único no estudoda história, pode ter uma predominante qualitativa ou quanti-tativa, é desigual e particular a cada sociedade, a cada momen-to e a cada espaço. É físico e metafísico. Pode até mesmo nãoexistir. Dependendo de suas crenças, é possível a uma sociedadeconceber o mundo sem passado, num eterno presente em quepassado e futuro se fundem. No Egito, na China, na Índia, emAztlán, há deuses que significam o próprio tempo, um tempocontínuo, sem fraturas, sem imperfeito ou mais-que-perfeito;predomina então uma idéia do não-tempo divino que interpenetrao cotidiano. Na cultura do cristianismo, forjadora de uma forte estru-tura conceptiva no ocidente, ocorre o inverso, o tempo existe naesfera do humano, fora da divindade, que é eterna. No século V,
  9. 9. 10 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria GrícoliSanto Agostinho atribuiria ainda ao tempo cristão uma nuancepsicológica; o presente torna-se uma experiência na alma; opassado é uma imagem memorial da alma; o futuro existe comoexpectativa psíquica; o tempo comum é passageiro e sem senti-do e cessará no momento em que a alma se unir com Deus – ofora do tempo. A noção personalizada do tempo de Agostinhocoincide, num outro plano de conjectura, com a percepção deAlbert Einstein de que as indicações de tempo eram sempre re-lativas à posição do observador; assim, dois fatos simultâneospodem ser vistos tanto simultaneamente como numa seqüênciatemporal. Para Einstein espaço e tempo formam um contínuoquadridimensional, exatamente como os astecas haviam conce-bido o deus Omotéotl, com os quatro Tetzcatlipocas nos quatrocantos do espaço, criando o espaço e o tempo simultaneamente. Em virtude da crença numa determinada idéia do tempo– cíclico, por exemplo, como uma cobra mordendo seu própriorabo, como o ritmo das estações, ou linear, como um rio queflui, como a areia da ampulheta – o narrador da história busca-rá seus conteúdos e o próprio espírito da narrativa de maneirasdiversas. Se baseada no eterno retorno, no cíclico, na idéia denascimento, desintegração e renascimento, a história assume opapel de mestra, pois conhecendo o passado descortina-se umfuturo sem surpresas. Na visão linear, judaico-cristã por exce-lência, com um início, meio e fim assegurados, a ênfase recairáno processo de aperfeiçoamento do mundo até atingir seu pontoculminante representado por seu próprio fim; a esta concepçãoliga-se uma idéia intrínseca de progresso, de progressão contí-nua, de propósito divino, excluindo a noção de ruptura. Em 1830,Hegel propõe a seus alunos a construção de uma história filosó-fica plena de necessidade, de totalização e de finalidade, queevocaria “a manifestação do processo absoluto do Espírito emseus mais elevados aspectos: a marcha gradual através da quala humanidade atingiria sua verdade e tomaria consciência de
  10. 10. INTRODUÇÃO 11si. Para ele, os povos históricos, com as características determi-nadas de suas éticas coletivas, de sua constituição, de sua arte,de sua religião, de sua ciência, constituiriam as configuraçõesdesta marcha gradual (...) Os princípios dos espíritos dos povos(Volksgeist), na série necessária de sua sucessão definidas ape-nas como momentos do único Espírito universal: graças aoshomens, Ele se eleva na história a uma totalidade transparentea si mesma e traz a conclusão.” Nada mais distante da práticahistórica das últimas décadas do século XX, que leva em contadiferenças, descontinuidades e descompassos. Estas diferenças, as descontinuidades, que por vezes sótravestem a própria continuidade, estão na base deste trabalho,uma análise suscinta das idéias que nortearam as diversas cons-truções do passado elaboradas pelos historiadores no ocidente.A partir de uma pré-história da história na antigüidade grega eromana até a contemporaneidade observaremos quão variávelfoi o papel da história e do historiador nas sociedades. No interiordo discurso histórico poderemos perceber as injunções do poderna escolha dos temas evocados, a ausência quase total ou adetratação e estigmatização dos elementos que não partilhavamdesse poder – artesãos, camponeses, escravos, índios, mulheres,crianças, incapacitados, desocupados, doentes –, as ideologiasdo poder religioso que muitas vezes emprestaram suas estraté-gias para o poder temporal. Observaremos quão útil pode ser opassado na criação de mitos destinados à mobilização de po-vos para a guerra e a conquista, à criação das nações e nacio-nalidades, de culturas hegemônicas, de despotismos e imperia-lismos, mas também de um senso de libertação e justiça atravésdo conhecimento e da consciência de um estar no mundo eiva-do pela dinâmica do passado. Também a análise da vida pessoal, dessa individualidaderelacionada com o todo, e dos móveis particulares que guiam oshistoriadores mencionados no corpo do trabalho, nos auxilia a
  11. 11. 12 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolivislumbrar a importância maior ou menor desta especializaçãodo saber nos diferentes tempos e espaços, bem como suas fun-ções ideológicas, políticas e culturais. Mas, sobretudo, a enun-ciar uma história dos historiadores.
  12. 12. AS ANTIGÜIDADES 13 AS ANTIGÜIDADES “Vocês gregos são apenas crianças, falantes e vãs, que nada sabem do passado.” Sacerdote egípcio falando com Solon. Antes da história havia as lendas, as cosmogonias. A me-mória coletiva dos ancestrais era narrada por homens sábiospara toda a coletividade. O passado, quase nunca interpretadocom o distanciamento próprio à racionalidade ocidental, contri-buía com medidas e parâmetros, certezas e temores, para umsentido de enraizamento, de identidade dos grupos. A sofistica-ção intrínseca à construção dos passados míticos é enorme. Aimportância dos narradores na sociedade, primordial. Estasnarrativas tinham uma ligação profunda também com o nãoverbal, danças, rituais, elementos arquitetônicos, pinturas, pa-drões téxteis, cerâmicos etc...; inseriam-se numa totalidade semdistinções entre a “história”, a “geometria”, a “literatura”, a “re-ligião” ou os afazeres cotidianos da vida. Hoje em dia, na África,ainda encontramos comunidades onde os velhos detêm a me-mória de acontecimentos ocorridos no século XV ou mesmo antes;na Albânia, há poucas décadas, ainda podiam ser vistos poetas
  13. 13. 14 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolique, de vilarejo a vilarejo, narravam epopéias evocativas de umatradição homérica. A relação interno-externo, humano-divino, alto-baixo,cheio-vazio, direito-esquerdo, portanto, a relação entre opostosnorteia as narrativas míticas, que tendem a horizontalizar umdiscurso, abrandar os lapsos entre duas ações consecutivas,estabelecer laços. Assim, Deus criou o céu e a terra; a terra erainforme e vazia, mas antes dela deveria existir o grande vaziosobre o qual a Bíblia nada fala, mas que encontramos no textode uma pirâmide egípcia: “quando o céu não havia nascido,quando a terra não havia nascido, quando o homem não havianascido, quando os deuses não haviam sido concebidos, quan-do a morte não havia nascido...”. A idéia do vazio para o cheio,do antes para o depois, da seqüência de atos, da detecção dosmomentos de mudança, da vontade de preservação dos diferen-ciais, serão algumas das formas da mitologia adotadas pelo dis-curso histórico escrito. Esta história escrita, no entanto, não é de imediato aceitasem resistências, mesmo entre as elites e os intelectuais. NoPhaedrus de Platão (428 a.C. - 348 a.C.), Sócrates lamenta aexpansão do texto escrito e da leitura, que fariam esmorecer amemória e suas faculdades críticas. A nostalgia da tradição oralpode ser sentida na época de Tucídides (c. 470 - c.395), quandogregos cultos se lembram do tempo em que a história era pre-servada pela memória do povo. Heródoto (c. 484 a.C. - 425 a.C.) declara no início de suasHistórias – este título, aliás, é posterior, pois na época as obrasnão vinham com denominação – seu desejo de expor suas pes-quisas (historíé) para impedir que os feitos de gregos e bárbarosse apagassem da memória, principalmente as razões de terementrado em conflito. Estão aí presentes, portanto, as noções dememória, identidade, seqüência de acontecimentos e confronta-ção entre opostos como apresentadas pela tradição mítica. Ago-
  14. 14. AS ANTIGÜIDADES 15ra, no entanto, centrados no mundo da ação, com pouca ênfaseou nenhuma nas correspondências entre universo e humanida-de, separando as esferas do sagrado e do profano. Esta tentativa de distinção, na verdade, já fora concebidaantes de Heródoto, nas Genealogias de Hecateu de Mileto (c.540 a.C. - 480 a.C.). Situada na costa da Ásia Menor, Mileto eraum dos maiores centros comerciais internacionais na época e,portanto, aberta a contactos muito diversos. O aristocrataHecateu cresce durante os primeiros tempos da ocupação persa(a partir de 546 a.C.), num momento que corresponde tambéma uma mudança de atitude nas indagações e explicações sobreo mundo, sua origem e natureza, a um ensaio de afastamentoem relação às tradições legendárias e mitológicas pela chamadaescola jônica de filósofos. Após suas viagens pelo Egito e Pérsia,Hecateu chega à conclusão de que as tradições históricas vigen-tes na Grécia tinham algo de ridículo e deveriam ser discutidas.Este processo de separação do mito e do fato concreto é seme-lhante àquele ocorrido no âmbito da passagem do pensamentomítico à razão e à construção da pessoa, como analisa JeanPierre Vernant em Mito e pensamento entre os gregos. Por outrolado, esta nova história escrita, ao implicar uma desconfiançafrente à memória e à oralidade comum, privilegiará uma elitealfabetizada, público alvo desta nova memória. O registro escrito grego, no entanto, é relativamente tardioquando comparado com o de outras culturas, como a judaica. OPentateuco data de c. 900 a.C. Por volta do ano 80, o historiadorjudeu Josephus ironizava a crença de que os mais antigos fatosestariam ligados aos gregos e que estes fossem a única fonte daverdade; considerava que a história grega era muito recente, “deontem ou ante-ontem” e que a idéia de compilar histórias eraainda mais recente; diz ainda que os próprios gregos estavamcientes de que os egípcios, caldeus e fenícios, para não falar dosjudeus, teriam preservado a memória das tradições mais anti-
  15. 15. 16 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoligas. Josephus argumentava também que os gregos não tinhamum sentido do passado enraizado e que um acontecimento comoa guerra de Tróia (c. 1250 a.C) era considerado legendário e nãohistórico. Apesar de não ser o primeiro e nem o único, é a figura deHeródoto que assombra o imaginário dos historiadores de todasas épocas. O republicano Cícero (106 a.C. - 43 a.C.), aotransformá-lo em “pai da história”, acabou por despertar emtodos um sentido de filiação, de dependência em relação a umaautoridade. Em vista disso, Heródoto foi tripudiado, acusado dementiroso, louvado, protegido, perdoado, imitado, tratado comcondescendência, com eqüidade, mas inevitavelmente acaboupor estar sempre presente numa espécie de raiz de uma árvoregenealógica fantasmagórica dos historiadores. Muito pouco sabemos sobre Heródoto. As informações deque dispomos são indiretas e por vezes tidas como fictícias. Nas-cido em Halicarnasso por volta de 480 a.C., tornou-se cidadãode Thourioi na Itália do sul. Foi exilado em Samos, viajou peloOriente Médio, sobretudo no Egito, conheceu a região do marNegro, a Grécia continental e a Itália do sul. Parece ter vividoalgum tempo em Atenas, mas segundo tradições diversas teriamorrido em Thourioi, ou em Pella na Macedonia ou em Atenasmesmo. Viveu numa época atormentada, entre o fim das guer-ras médicas e o início da guerra do Peloponeso. Hoje em dia conhecemos as Histórias de Heródoto dividi-das em nove livros – cada um correspondendo a uma musa.Este formato, no entanto, parece ter sido criado na épocahelenística. Num estudo publicado em 1980 sobre a representa-ção do outro na obra de Heródoto – a questão do outro é funda-mental na historiografia da segunda metade do século XX, comovocê verá mais adiante – o historiador francês François Hartogconsidera que a associação das narrativas das Histórias com asmusas demonstraria que a obra deveria então ser vista em
  16. 16. AS ANTIGÜIDADES 17proximidade com a poesia e a ficcão. O mesmo sentimento sur-ge num comentário de Voltaire, em 1768, em que Heródoto élouvado pela novidade de seu empreendimento e sobretudo porsuas fábulas. Voltaire une duas tradições contraditórias; de umlado reforça o mito fundador de Heródoto como modelo dos his-toriadores e de outro aponta para o caráter ficcional da obra. Atradição de que a obra de Heródoto é fabulosa, portanto menti-rosa, reporta-se a Tucídides, que não acreditava na possibilida-de de se escrever uma história do passado, mesmo próximo.Mais tarde, Plutarco (c.46-49 - c. 125) reitera as acusações defalsidade e acusa ainda Heródoto de philobárbaros – admiradordos bárbaros – e traidor da Grécia. Os primeiros quatro livros das Histórias falam dos não gre-gos – lídios, persas, babilônios, massagetas, egípcios, citas, líbios,etc., enquanto que os demais narram principalmente as guer-ras médicas. A escrita da história nascia então sob o signo daguerra, pois o Heródoto historiador durante muito tempo foiassociado a esta parte da obra, em contraponto com o Heródotoviajante – dicotomia hoje superada pela semântica histórica. Heródoto trabalhou com um material diverso e enorme.Com fontes orais ao interrogar pessoas com quem se encontra-va, com a experiência visual obtida nas viagens ao observar,classificar e medir costumes, edifícios, santuários, esculturas,monumentos, rios, mares, caminhos – ver com os próprios olhosera então considerado mais importante do que o ouvir com ospróprios ouvidos – e também com textos e inscrições. Registradepoimentos conflitantes, indica o que prefere e deixa ao leitorsua escolha final. Documenta as crenças populares, a maneiracomo o povo egípcio, por exemplo, via seu próprio passado.Embora desconfie de muitas de suas informações, não hesitaem transcrevê-las. Mostra-se discreto em relação a mistériosreligiosos – “sobre a metempsicose há gregos (os pitagóricos)que defendem certas idéias; eu os conheço, eu nada falarei so-bre isso”.
  17. 17. 18 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoli A história grega é construída com testemunhos orais, crô-nicas locais e inscrições. A primeira invasão da Grécia pelospersas ocorrera pouco antes de Heródoto nascer, a segundaquando ainda era criança. A cronologia geral da obra, no entan-to, é confusa; passa por vezes abruptamente de uma série deacontecimentos para outra, indo e voltando no tempo. Por outrolado, não consegue apreender claramente as transformaçõesadvindas com o tempo na história dos povos. Quanto ao espaço, grandes deslocamentos marcam as His-tórias; Heródoto faz da Grécia o centro do mundo em relação àsoutras terras. A geografia é fundamental para toda a obra, daífrases como “o Egito é a dádiva do Nilo” etc. Nesse sentido tam-bém, ao descrever os usos e costumes de cada país, as formasde poder dos não gregos, reforça a idéia da diferenciação entre ogrego e o bárbaro, ao mesmo tempo em que diferencia um bár-baro de outro; um egípcio não é um persa, que não é um cita etc.No todo, é tolerante em relação às diferenças. Apesar de ter sidoapontado como um instrumento de propaganda do poder deAtenas, não pode ser considerado como um tradutor oficial des-te poder; nunca trabalhou para o governo e não poupa críticasaos próprios atenienses. A vontade dos poderosos aparece comouma determinante na engrenagem da história, mas o Destinoprevalece sobre tudo e sobre todos. Heródoto acredita nos orá-culos, nos presságios. A história nascia também sob o signo da prosa. Por setratar de uma obra que iria também ser lida para o públicoaparecia como uma grande novidade. Algumas fontes, emboradiscutíveis, atestam o êxito e a popularidade da obra lida emAtenas, Corinto, Tebas e Olímpia. Há até mesmo uma anedotaem que Tucídides ainda criança acaba chorando de emoção aoouvir Heródoto. A história, ainda sem muita definição, deveriaoscilar entre estória e história. O modelo épico ainda se encon-tra na base da narrativa e o historiador ainda não existe comoprofissão.
  18. 18. AS ANTIGÜIDADES 19 Tradicionalmente considera-se Tucídides (c.470 - c.395a.C.) como o sucessor de Heródoto. Tucídides detesta o passa-do. É o historiador do presente e da Grécia. O passado e o mun-do além de suas fronteiras lhe parecem completamente destitu-ídos de interesse. Para ele os gregos antigos deveriam viver comoos bárbaros seus contemporâneos, o que torna o conhecimentodo passado grego e do bárbaro inúteis. Paradoxalmente, o sécu-lo XIX tornar-se-á o século da história positivista, da históriasomente do passado que será considerado um grande modelo aser seguido, objetivo e científico. Nascido num meio aristocrático, como Heródoto, prova-velmente foi aluno de Anaxágoras, dos sofistas Gorgias eAntiphon. Foi eleito estratego em 424 a.C. Comandou uma ex-pedição naval de Atenas na Trácia, mas, como não pôde impedira tomada de Amphipolis pelo espartano Brasidas, foi acusadode traição. Para escapar à pena de morte, refugiou-se durantevinte anos na Trácia, onde sua família explorava minas de ouro.Voltou a Atenas em 404 a.C., por ocasião da anistia impostapelos espartanos, morrendo logo depois, talvez assassinado porseus inimigos políticos. A História da guerra do Peloponeso – a luta entre Esparta eAtenas – cobre o período do início da guerra (431 a.C.) até 411a.C., com a queda dos 400. Tucídides considera esta guerra amais importante de toda a história, mesmo diante das guerraspersas ou da guerra de Tróia. Enxergava nela um embate diretoentre sistemas políticos e desempenhos políticos, entre modosde vida irrenconciliáveis. A obra não foi acabada; a atual divisãoem oito livros tampouco corresponde à composição original. Oartifício cronológico usado por Tucídides é o da divisão da açãoem invernos e verões, tentando superar a confusão causada pelosdiferentes calendários das cidades gregas. Não utiliza nenhumadata. O tempo é construído de uma maneira lógica, não cronoló-gica.
  19. 19. 20 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoli A documentação básica advém de textos transcritos (pazde Nicias), das viagens realizadas pelo próprio Tucídides na Itá-lia, na Sicília e no Peloponeso, de informantes com os quaismantinha contacto em várias cidades e do testemunho pessoaldo autor. Ao contrário de Heródoto, descarta totalmente a idéiade destino, de um curso da história. Considera que os fatosocorrem em virtude dos interesses e das paixões dos homens. Amoral guia a vida privada, não dos Estados; a vontade de poderatua como força motriz do mundo. Ecos de Tucídides permeiamas obras de Machiavel e de Nietszche. Tucídides considerava que a inteligência seria o único ins-trumento passível de ser utilizado para o entendimento da his-tória; queria uma história sem estórias, com um estrito encade-amento de fatos políticos e militares, onde a verdade fosse ex-posta, não somente versões múltiplas dos fatos. Seu objetivo –escrever uma história do presente para o futuro, útil para aque-les “que queiram entender claramente os acontecimentos quetiveram lugar no passado e que (a natureza humana sendo oque é) mais dia menos dia, quase que da mesma forma, serãorepetidos no futuro. “Assim, tendo em vista a imutabilidade danatureza humana, a história tenderá a se repetir; o que supõeque a natureza humana pode moldar a história, mas que a his-tória não pode afetar a natureza humana. Num estilo denso esóbrio, tenta revelar as razões e a psicologia das partes envolvi-das no conflito entre atenienses e espartanos e, diante da docu-mentação, pretende ser imparcial; no entanto, não conseguedeixar de imprimir suas próprias idéias filosóficas e preferên-cias políticas no decorrer da narrativa, de adorar algumas per-sonagens, execrar outras. Utiliza discursos para expor opiniõescontraditórias e antíteses como a do interesse e do direito. Umdos tradutores de Tucídides, o filósofo Thomas Hobbes (1588-1679), pensador do poder absoluto, considerava-o “o maior his-toriógrafo político” jamais visto.
  20. 20. AS ANTIGÜIDADES 21 Tucídides está do lado de Atenas e Péricles e a história daguerra do Peloponeso é uma obra plena de suas paixões. Mesmoconsiderando os argumentos contra a expansão ateniense, asdiscussões sobre o direito, a justiça ou a nobreza de exercer seupoder sobre outros, nunca vacila em defender a causa de Ate-nas, a superioridade de suas instituições e de sua cultura. En-cara como uma tragédia a deterioração moral do mundo gregoem guerra. É um historiador engajado politicamente com limi-tes de tolerância mais estreitos em relação a Heródoto. Seumundo é fechado, centrado na natureza humana, e desligadoda história da natureza. Tucídides constrói uma história con-temporânea perene, imune ao processo histórico e ao exterior. Xenofonte (c. 430 a.C. - c.352 a.C.), aristocrata e rico comoTucídides, freqüentou os sofistas e foi aluno de Sócrates, massegue uma trilha política totalmente diversa. A desintegraçãoprogressiva da democracia no século IV e o aumento dos encar-gos para os ricos fazem com que as críticas ao regime se tornemconstantes entre os próprios atenienses. A hostilidade à demo-cracia faz com que Xenofonte entre para um exército de merce-nários gregos recrutados por Ciro, o Jovem para uma expediçãocontra seu irmão Artaxerxes II. Após a derrota de Cunaxa con-duziu a retirada dos Dez Mil. Como chefe de mercenários lutouao lado do rei de Esparta, Agesilas, contra os persas na ÁsiaMenor. Banido de Atenas e despojado de seu bens acaba lutan-do contra Tebas e os próprios atenienses. Após 394 a.C. retira-se numa propriedade doada pelos espartanos. Por volta de 367a.C., é anistiado e volta para Atenas. Sua vontade era a de ser um continuador de Tucídides,mas o espírito de seus escritos é diverso. Traduzem o clima dedesarvoramento e desintegração política das cidades gregas. NasHelenicas estende a narrativa de 411 a 362 a.C., e em Anabasenarra a expedição dos Dez Mil. Prossegue, portanto, com a ela-boração da história do presente, instantânea. Acredita, no en-
  21. 21. 22 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolitanto, que os deuses têm um enorme papel no desenrolar dosacontecimentos. Em seus livros chamam atenção seus conheci-mentos militares e a tradução do gostos e das preocupações daaristocracia da época, sua paixão pela caça, pelos cavalos, aomesmo tempo em que fala dos estranhos costumes dos povosque conhecera; a pretensa objetividade de Tucídides está au-sente. Da subjetividade de Xenofonte, de uma certa desconexãointrínseca ao seu texto, de sua naturalidade sem retórica, dasexplicações desconcertantes que atribui aos fatos, fluemdesveladamente sua parcialidade mas também uma traduçãomenos intelectualizada da representação do mundo dos quepartilhavam do poder. Em geral, a historiografia o descreve des-favoravelmente em relação a Tucídides. Isto se explica pelo seumenor brilho, pela sua falta de “objetividade”, de inteligênciahistórica, mas talvez também pelo fato de ter tomado o partidode Esparta contra Atenas, o que choca o imaginário europeucom sua idealização das virtudes atenienses. Com a perda da liberdade, as cidades gregas integram-seao império de Alexandre, aos reinos de seus sucessores e final-mente ao império romano. Da época alexandrina restaram nar-rativas sobre as conquistas e descrições das terras invadidas,que retomam a etnografia de Heródoto. Nearco (séc. IV a.C.),companheiro de Alexandre, descreve a Índia como Heródoto fi-zera com o Egito, plena de espaço, geografia, etnografia, cor lo-cal, anedotas, diferenças. Restam fragmentos de vários autoresda época. De Filisto de Siracusa – que se ocupa das cidadesgregas do ocidente e da Sicília, ausentes na obra de Xenofonte.De Ctesias, que elabora a história dos impérios assírio e meda edos reis da Pérsia até 395, e também uma Indica com relatosfabulosos e descrições de plantas, animais e homens imaginári-os. De Teopompo, talvez o mais importante historiador do sécu-lo IV; protegido de Alexandre, para louvar seu senhor Felipe daMacedônia escreveu uma obra caudalosa e barroca de cinqüen-
  22. 22. AS ANTIGÜIDADES 23ta e oito livros, introduzindo assim um elemento pessoal deter-minante – não mais a guerra, a cidade ou o império, mas o líder.A louvação a Alexandre transborda nos escritos de historiado-res como Calístenes de Olinto, e é mais velada nas histórias deAlexandre de Ptolomeu e Aristóbulo. No geral, continua prevale-cendo o presente como tema historiográfico e de maneira cadavez mais clara e aberta impera o elogio do poder. Políbio (c. 202 a.C. - 120 a.C.), grego de origem, permane-ceu dezesseis anos em Roma como refém. Amigo de ScipiãoEmiliano, conheceu vários políticos e teve acesso a arquivos.Viajou pela Itália, Espanha, Gália, e acompanhou Scipião emsuas campanhas contra Cartago e Numância. Apesar de grego,era um admirador incondicional dos romanos – “que homemseria tão indiferente ou preguiçoso a ponto de não querer sabercomo e sob que forma de governo quase todo o mundo habitadose submeteu ao governo único dos romanos, em menos de cin-qüenta e três anos ?”. Suas viagens, portanto, são mui distintasdaquelas de Heródoto. Não mais incursões de um homem isoladoem mundos diversos, mas de alguém identificado com as idéiashegemônicas de Roma, pisando num terreno “universal” – “Háanalogia entre meu plano da história e o maravilhoso espírito daidade de que me ocupo...a fortuna fez todos os assuntos huma-nos convergirem para um só e mesmo fim; assim, é minha in-tenção de historiador colocar diante dos leitores uma visão ge-ral...” . Várias obras que têm por base suas experiências, comouma sobre a guerra na Numancia e um tratado de tática foramperdidas. Restaram os quarenta livros de suas Histórias, com-preendendo o período de 220 a.C. até 146 a.C., mas com refe-rências a épocas anteriores. Políbio faz a apologia do poder deRoma. Sua hegemonia dever-se-ia à moral, à superioridade daconstituição romana e à capacidade desse povo. No entanto, foium dos primeiros escritores a deplorar a corrupção moral exis-tente em Roma, o que se tornaria um tema corrente durantemais de seis séculos.
  23. 23. 24 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoli Ciente do papel utilitário que a história poderia desempe-nhar nesta sociedade expansionista, a concebe como matériaisolada da eloqüência, da erudição ou da poesia, porque a ver-dade deveria prevalecer sobre a forma literária. Para Políbio ahistória deve ser universal – como o domínio romano –, pragmá-tica – narrando as ações dos estadistas ou chefes militares, asdecisões tomadas por assembléias e as revoluções políticas, numperíodo recente –, fundamentada nas experiências política e mi-litar, lastreada pela geografia e iluminada pela filosofia. Estabe-lece que as causas determinantes dos acontecimentos não sãofatos imediatos, mas sim o conjunto das instituições, das reli-giões, a organização militar e o poder econômico; o historiadordeve sempre escolher um começo, uma causa, para explicar oque diz. Estuda os regimes políticos para situar o regime roma-no entre os outros e fazer o elogio de sua constituição. Ao estu-dar o mecanismo das instituições, Políbio pretende estabelecerleis que seriam úteis para prever o futuro, dado que cada regimeseria uma espécie de organismo vivo sujeito às leis biológicas.Apesar disso, não deixa de atribuir um papel importante à per-sonalidade dos grandes homens e ao próprio destino. Segundodiz, nunca a fortuna havia obtido tal triunfo como o do estabele-cimento do Império Romano. A força romana era irresistível eseria um crime qualquer rebelião contra ela. Políbio representaum exemplo acabado de historiador trabalhando para o poder.A posteridade viu em Políbio uma noção racionalista da história– o pensamento precede a ação, o individualismo domina –, etambém o construtor de uma grande síntese. Entre os escritores de origem grega, mas já imersos nacultura romana, Plutarco ocupa um lugar singular pela reper-cussão que terá durante séculos no ocidente. Para termos umaidéia, entre 1450 e 1700, suas obras tiveram 62 diferentes edi-ções. Nascido em Cheronéia, na Beócia, por volta do ano 46,viajou para Roma, onde conheceu políticos e intelectuais, e parao Egito. Dividiu a maior parte de seu tempo entre suas funções
  24. 24. AS ANTIGÜIDADES 25de arconte em Cheronéia e a de sacerdote de Apollo em Delfos.Morreu por volta do ano 120. Os remanescentes de seus inúme-ros escritos estão reagrupados em duas obras, as Vidas parale-las – biografias de homens ilustres organizadas em pares, umgrego e um romano, com exceção de quatro – e as Obras Morais– uma miscelânea de escritos sobre assuntos os mais variados,como o porquê dos velhos lerem melhor de longe do que de per-to, o porquê da existência de um rosto na face da lua e muitosoutros, que bem retratam o ócio da paz romana. Plutarco éeclético, acreditando na imortalidade da alma, nas práticasdivinatórias e na justiça da Providência. Grande analista da psi-cologia humana, moralista, considera como grandes virtudes apiedade, a moderação e o bom senso. Foi um dos ídolos deMontaigne: “Plutarco, eis o meu homem”. A produção biográfica de Plutarco deriva de uma longatradição de anedotas e de reminiscências mais ou menos histó-ricas que remonta aos tempos de Xenofonte e Platão. Apesar denão se considerar historiador – distingue biografia e história –,de não ter qualquer gosto pela pesquisa de documentos, de ob-ter suas informações somente através de livros, durante séculosPlutarco serviu de fonte e de inspiração para os historiadores.As vidas paralelas, ao criarem um quadro moral idealizado dos“grandes homens” como Alexandre e César, Demóstenes e Cícero,entre outros, centram a história em torno de personalidades esubsidiam o individualismo e a heroicidade presentes duranteséculos na historiografia política. Numa sociedade conservadora como a romana, a históriaencontrou um terreno favorável, expresso numa vasta produção.Em relação à história grega haverá mudanças. Embora os his-toriadores romanos não sejam menos subjetivos, haverá umdeslocamento temporal acentuado para o passado e espacial-mente a história do mundo será a história de Roma. A subservi-ência ao poder, ainda tênue na Grécia, torna-se uma constante.Considerada um genero literário privilegiado, animada por um
  25. 25. 26 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoliideal patriótico, a forma da história podia ser mais importanteque seu conteúdo. A questão da memória parece ter tido sempre importânciapara os romanos. Já no século IV a.C., o grande pontífice escre-via num album, uma tábua embranquecida, os acontecimentosdiários. As famílias tradicionais guardavam recordações de seusantepassados; a tradição oral era forte, as imagens preserva-vam rostos e as inscrições funerárias exaltavam os feitos dosmortos. Canções épicas narravam as vidas de heróis comoRômulo, Coriolano, os Horácios e Curiácios e muitos outros. Noséculo III, as guerras púnicas fundamentam um tipo de históriaépica como o Bellum punicum de Nevio, que misturava mitologiagrega e história romana. No século II, os Anais de Ennio, emversos, remontam às origens troianas e se estendem até a guer-ra da Istria (178-177), louvando o heroísmo e a superioridademoral de Roma. Durante a segunda guerra púnica surgem anais em pro-sa, como um instrumento de propaganda anti-cartaginesa. Re-montando às fundações de Roma, os primeiros analistas comoFabio Píctor e Cincio Alimento escreviam em grego. Esta pro-dução patriótica toma impulso com Catão (234 a.C. - 149 a.C.),que vê na história uma atividade apropriada à velhice e à apo-sentadoria. Nas Origens remonta à fundação de Roma e desen-volve sua história até o presente; apresenta a conquista romanacomo um feito do povo romano e não só das famílias aristocráti-cas. A tradição dos analistas sobrevive durante séculos. Cícero(106 a.C. - 43 a.C.) os vê apenas como cronistas, não escritores.Embora não tivesse escrito nenhuma obra histórica, Cícero, aolongo de sua obra, irá refletir sobre o papel da história na políti-ca e sobre as formas que deveria assumir. Para ele o conheci-mento da história nacional, da história dos povos conquistado-res e daquela dos homens ilustres era um instrumento funda-
  26. 26. AS ANTIGÜIDADES 27mental para os estadistas e oradores. Cícero atribui à históriaum caráter utilitário. É uma fonte de exemplos morais e podedar uma estrutura de discernimento para o estadista, além desituar todos numa tradição. Para isto então torna-se necessárioo respeito a uma ordem cronológica. Insiste em dizer que a his-tória não é epopéia e nem poesia, embora seja um gênero retórico,pois possui uma verdade objetiva e que são necessários méto-dos para chegar a esta verdade. Cícero concebe uma história ideal baseada na veracidadee na imparcialidade, com uma base cronológica, assentada nageografia, destacando o relato dos fatos com suas causas e con-seqüências e as imbricações entre as ações humanas e os aza-res da fortuna; julga importante tecer o retrato moral e cívicodos grandes homens. Investe contra a busca de um passadoremoto, preferindo as narrativas do contemporâneo. O contemporâneo, a paixão e o comprometimento políticobasearão a obra do historiador Salústio (c. 86 a.C - 35 a.C.).Excluído do Senado em 50 a.C., por adultério com a filha deSila, retorna no ano seguinte pela intermediação de César, dequem é partidário incondicional. Enriquecido pela prática dacorrupção no posto de governador da África Nova (Numídia) em46 a.C., fica no entanto sem qualquer futuro político após amorte de César em 44 a.C. Decide então tornar-se historiador.Com a Conjuração de Catilina, a Guerra de Jugurtha e as Histó-rias, das quais só restam fragmentos, pretende demonstrar aruína progressiva do regime aristocrático instaurado após a der-rota dos Gracos. Para Salústio o trabalho como historiador foi um prolon-gamento de sua vida política. Em suas obras destila seus ódiose convicções. Na base da história romana estaria uma luta se-cular entre o patriciado e a plebe. Findo o cesarismo só restavaa decadência dos tempos em que vivia. Em suas obras critica avida ativa – tão elogiada por Cícero – e enaltece a nobreza e a
  27. 27. 28 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolidignidade do espírito, o que denuncia seu platonismo. Em Catilinafaz a apologia do passado, dos tempos gloriosos dos inícios darepública, idade de ouro estóica, em que a virtude, a justiça, afrugalidade reinavam tanto na paz como na guerra; a este tem-po ideal contrapõe a Roma contemporânea, poço de todos osvícios, escravizada pela oligarquia detentora de magistraturas eriquezas, assentada na demagogia. É um texto todo permeadopor uma violência concentrada e retratos bem lavrados das per-sonagens. A Guerra de Jugurtha também trata da história contempo-rânea. Para além da pintura do caráter de Jugurtha, das descri-ções exóticas, deixa entrever a inquietação de Roma após a re-volução dos Gracos. Nas duas obras há dramaticidade, vivacidade, painéis des-critivos da geografia, do passado, da etnografia, uma escolhadeliberada de alguns episódios em detrimento de outros paracriar o efeito desejado, uma ênfase no peso da personalidade nacondução dos acontecimentos, a relação das pessoas com suasorigens e seu meio social para explicar suas condutas. Salústioé inevitavelmente comparado a Tucídides no que tange à forma,à brevidade do discurso, à língua densa e difícil. Seus discursoscaracterizam as personagens importantes, descrevem sistemaspolíticos, preparam os acontecimentos. À medida que narra, in-terpreta. Sua grande precisão nos temas – o maior episódio deque se ocupa cobre apenas dez anos – reproduz-se também naanálise minuciosa, na explicação daquilo que conhece como tes-temunha. Para Salústio cabia ao historiador não somente nar-rar, mas ver as causas sob os efeitos das ações. Seu trabalhoreitera uma concepção de história profundamente associada àexperiência, ao vivido. O patriotismo do reino de Augusto fará com que também ahistória se transforme. Há, portanto, uma diferença de fundoentre Salústio e Tito-Lívio (c. 64 a.C. - 10 A.D.), autor de uma
  28. 28. AS ANTIGÜIDADES 29história de Roma (Ab urbe condita libri) em cento e quarenta edois livros, de suas origens até o ano 9 a.C. Movido por umpatriotismo exacerbado e não por uma convicção política deter-minada como Salústio, o burguês, republicano e sedentário Tito-Lívio procura as causas da grandeza de Roma na moral roma-na; constrói o retrato de um romano ideal, heróico, trabalhador,justo, uma figura una que corresponde à unidade do império econtribui para sua propaganda; o homem romano é o bem maisprecioso da nação. Fundamentada numa pesquisa livresca, em fontes secun-dárias, sem um espírito crítico agudo – muitas vezes Lívio citafontes contraditórias e somente aponta o que lhe parece maisplausível, outras vezes se contradiz fragorosamente –, convenci-do de estar cheio de razão, com gravidade, em tons dramáticosou épicos, a obra expressa um sentido de grandeza provavel-mente vivo na mente dos romanos. A história seria uma mani-festação do espírito ético romano. Os cento e quarenta e doislivros nos chegaram divididos em décadas, estabelecidas prova-velmente a posteriori. Tito-Lívio rompe com a história em moda na sua época, ahistória contemporânea de Salústio. Tampouco quer fazer umahistória universal, mas sim nacional, negando-se a tratar detemas alheios à história romana. A base de sua história é a vida,política e coletiva, e suas paixões, passíveis de serem controla-das pelos princípios tácitos aceitos por todos para a condutaindividual e coletiva. Os grandes homens seriam os instrumen-tos da história, os guias do povo, encarnando os interesses su-premos da pátria, dando os grandes exemplos, dominando cadaperíodo; são geralmente caracterizados através de discursos. Masé tão pessimista quanto Salústio no que concerne ao presente; agrandeza estava no passado. Por outro lado, representa um ou-tro tipo de personagem. Não é o homem experiente, político,diplomata ou militar que no fim da vida resolve fazer história.
  29. 29. 30 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria GrícoliSem participar da vida pública é um dos primeiros historiado-res do gênero intelectual de gabinete. Não pertencia a qualquerseita filosófica, respeitava a religião e via nela um meio paramanter a ordem e a disciplina entre o povo; acreditava na im-portância da Fortuna no desenrolar da história e, particular-mente, num crescimento de Roma como manifestação de umavontade divina. Achava natural que, após tantas provações, osromanos fossem senhores do universo. Afinal, haviam pratica-do todas as virtudes: a piedade em relação aos deuses, a fé, aconcórdia, a moderação, a prudência, a clemência. Tito-Lívioproclama o conservadorismo e a moral ecoando o programa deregeneração do mundo romano de Augusto. Veleio Patérculo (c. 19 a.C. - 31 A.D.) é de novo um homemde ação que se engaja na construção do passado romano. Lega-do de Tibério na Germânia, fez uma brilhante carreira militarantes de se tornar o historiador do imperador. Suas Historiaetentam descrever toda a história do mundo greco-romano desdea guerra de Tróia e inserir a história de Roma na história uni-versal. Na base de seus escritos, porém, está a louvação dos pri-meiros césares – César, Augusto e Tibério – e uma panfletagemrasgada do próprio Tibério. Este aparece como um herdeiro pre-destinado de Augusto; é bem nascido, é belo, é culto, é virtuoso,é bravo, é prudente etc. É o grande continuador da missãoregeneradora de Augusto. Veleio acredita que a causa da gran-deza dos césares reside numa conjunção do sobrenatural com avirtude; os grandes homens, no entanto, não concentram todo opoder sobre o devir histórico, pois existem também mecanismosinvisíveis, determinantes, absolutos e coletivos que levam ospovos à decadência. A produção laudatória terá vários seguidores. Após amonumentalidade de Lívio, a historiografia tendeu por outro ladoa se diluir em gêneros menores, biografias, memórias, anais,
  30. 30. AS ANTIGÜIDADES 31ensaios. Em meio a este panorama destaca-se a obra de Tácito(c. 55 - 120). Originário do meio eqüestre e possivelmente provincial,entrou na carreira administrativa durante o governo de Vespa-siano; foi cônsul (97), procônsul da Ásia (110 - 113). Sua gran-de eloqüência já era notória antes de se dedicar à história.Diálogo dos oradores, Vida de Agrícola e a Germânia precedemsuas obras propriamente históricas, as Histórias e os Anais.Os Anais tratam do passado não vivido pelo autor, o reino dosjúlios-cláudios: Tibério, – Calígula e Cláudio – Nero; as Históri-as da contemporaneidade, das guerras civis de 69 e do reinadodos flavianos. Tácito objetiva fazer uma obra moral; diante da miséria,da crueldade e do deboche da época, quer salvar as virtudes doesquecimento, execrar os vícios. É um grande leitor de almascomplexas, de povos estrangeiros – como os germanos. Sua filo-sofia da história é totalmente pessimista; em sua obra transpareceuma obsessão pela tirania, pela discórdia, um desejo de liberda-de de expressão e de restauração do poder da palavra. Seu estiloconciso, rápido, quase sem verbos, transmite violência, inquie-tação, amargura, brutalidade, de uma forma compacta, dandoum tom totalmente diverso em relação à historiografia praticadaaté então. Para Tácito a história não é um campo para louvações pes-soais, não se presta a floreios oratórios como em Tito-Lívio, nãoé uma lição política como em Tucídides e Políbio. A história deveproceder a uma análise moral, avaliar as mudanças, as defor-mações da alma humana quando pressionada por circunstân-cias externas. O historiador deve comparar, analisar, levar emconta detalhes mínimos que podem indicar a essência de umapessoa ou de uma época. A explicação dos fatos deve ser maiscompleta e extensa do que a narração dos fatos. Uma das carac-terísticas mais interessantes nos retratos humanos criados por
  31. 31. 32 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria GrícoliTácito é que nunca se repetem – Cláudio é fraco e inerte, mani-pulado por suas mulheres e seus libertos, atravessa as maisaterrorizantes tragédias sem agir e sem compreender o que sepassa; Nero é um louco romanesco, extravagante, desequilibra-do, com sede do impossível e do extraordinário; Messalina temsede de escândalo e luxúria; Agripina pende para o crime, émais viril, mais decidida, ambiciosa. Estas personagens tam-bém se modificam sob as circunstâncias. Da mesma forma sãoanalisados os sentimentos coletivos: o medo e a fraqueza doSenado ao aclamar Tibério, a tristeza dos soldados diante deseus companheiros mortos, a apatia do povo após o principadode Augusto, os rompantes de violência popular no teatro, osmotins militares, o saque de Cremona, o incêndio do Capitólioetc. Tácito utilizou fontes orais e escritas para construir suahistória; ouvia os rumores do Senado e os das ruas e consultavaarquivos oficiais e crônicas divergentes; brada contra o servilis-mo de cronistas como Veleio Patérculo. Acredita na intervençãodos deuses no processo histórico, mas ataca a superstição, eprocura decifrar o quanto há de vontade e liberdade naqueleprocesso. Embora não fosse alheio aos mecanismos coletivos,econômicos e sociais da história – analisa as relações entre osdesmandos dos imperadores e o déficit nas finanças públicas, acrise do ano 33 – é certo que constrói uma história dramática,centrada em tragédias, pessoais e coletivas. Sua obsessão pelaviolência e as regiões mais sombrias da psique faz dele um com-panheiro de historiadores cristãos tão diversos como Agostinhoe Gregório de Tours. A partir do século XVI, principalmente, quando as refle-xões sobre a tirania são freqüentes, a obra de Tácito será muitovalorizada na Europa; Guicciardini (1483 - 1540) dizia que Táci-to ensinava muito bem as pessoas a viverem sob o jugo dastiranias, ao mesmo tempo em que ensinava aos tiranos como
  32. 32. AS ANTIGÜIDADES 33fundar suas tiranias. Muito já se escreveu sobre o tacitismo deMachiavel. Na época de transição entre a historiografia antiga e amedieval destacam-se Suetonio (75 - c.140) e Amiano Marcelino(330 - c. 391), considerado o último historiador da antigüidadepor ser pagão. Suetonio, originário da ordem eqüestre, dedicou-se à carreira administrativa, onde chega a trabalhar como se-cretário de Adriano; suas funções fazem com que tenha acesso aarquivos e documentos secretos. De grande erudição, amigo dePlínio, mantém a crença na religião tradicional, na adivinhação,e desconfia profundamente dos cultos orientais, como o cristia-nismo. Sua paixão era a pesquisa, os livros, a escrita. A maiorparte de sua obra, incluindo uma enciclopédia de história natu-ral, foi perdida. Restaram as Vidas dos doze Césares (c. 120),Sobre os homens ilustres (c. 113), De gramáticos e retóricos euma Vida de Terêncio. Além de pesquisar em livros e arquivos,utilizava fontes orais para escrever seus trabalhos, o que lhesdá um tom anedótico e escandaloso muito acentuado. Os Doze Césares tratam do mesmo período estudado porTácito; mas o nome deste e muito menos seu espírito não estãopresentes. Obedecendo a uma ordem cronológica, Suetonio ela-bora as biografias dos doze primeiros césares romanos; preferese estender mais sobre a reconstituição das vidas dos mais an-tigos, ao contrário do hábito de carregar a pesquisa nos temposmais próximos. Mesmo assim não quer ser considerado histo-riador. Seus contemporâneos o vêem como um gramático. Suaproximidade com a história pode ser detectada principalmentepela massa de documentação presente nas biografias, emborahaja pouca crítica, nenhum julgamento de valor muitos silênci-os e nenhuma visão de conjunto. A opção pela biografia suben-tende sua convicção no poder pessoal sobre a história, mas tam-bém uma concepção dinástica de poder. Apesar disso, os DozeCésares fizeram uma longa carreira no ocidente.
  33. 33. 34 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoli Amiano Marcelino, o último historiador antigo, era oficialmilitar. Nasceu em Antioquia em 330, começou sua carreira naguarda do Palatino, integrando um corpo do séquito imperialque realizava missões nas províncias. De 353 a 360 trabalhoucom Ursicino, participando da luta contra o rei Sapor da Pérsia.Em 363 fica sob o comando do imperador Juliano. Para compi-lar o material de sua História foi para Roma, estabelecendo-sedepois em Antioquia. A obra abrange desde o período do adven-to de Nerva (96) até a morte de Valente (378) em trinta e umlivros, os trezes primeiros perdidos. Amiano diz querer ser historiador imparcial, ater-se à ve-racidade, basear-se em documentos, negar o fantástico, procu-rar um meio termo entre vícios e virtudes para retratar osgovernantes, convencer. Não tem uma posição anti-cristã abso-luta; diz ser a virtude mais importante do que paganismo oucristianismo. Suas pesquisas e a transposição de suas experi-ências resultaram numa obra altamente patriótica, de fundobelicista, contrária aos germanos, laudatória das façanhas deum Juliano sábio e herói, plena dos fatos que considera dignosde memória, na linha de Políbio. Vivendo em pleno período dadesintegração do Império, Amiano faz a apologia da Roma eter-na, santa, venerável, mãe dos deuses, base da liberdade e dasabedoria, ao mesmo tempo em que canta as virtudes douniversalismo imperial romano. Flagrante de anacronismos emsua exaltação do agora inexistente, de uma ideologia exangue, aescrita de Amiano, no entanto, fecha um ciclo da história roma-na ufanista, centrada na saga deste povo eleito pelos deuses e aFortuna para dominar o mundo. Iniciava-se agora a saga dosoutros eleitos. Por Deus e sua Divina Providência. A crítica contemporânea, notadamente Alberto Momigliano,tem se preocupado em indagar qual seria o público da históriana antigüidade. Evocaremos aqui alguns resultados de sua pes-quisa. Ao contrário da poesia, das obras teatrais, da oratória, ahistória não era um genêro elaborado para ser ouvido. Por outro
  34. 34. AS ANTIGÜIDADES 35lado, os historiadores não formavam um grupo profissional enem mesmo um grupo distinto dentro da sociedade. Vários his-toriadores gregos viveram no exílio, vários romanos ocupavamcargos políticos, militares ou administrativos. A história, por-tanto, seria uma atividade marginal ou complementar à vidadas pessoas. Momigliano acredita que no princípio, no século V a.C.,deveria haver leituras públicas das obras, mas que com o tempodevem ter caído em desuso. Sabemos que Tucídides escreviapara ser lido. Entre os séculos III a.C. e IV A.D., porém, há umadocumentação esparsa sobre leituras de obras históricas.Amiano, por volta de 392, teria lido alguns trechos de seu livroem público. Temos alguma documentação sobre as persona-gens que leram obras históricas – Brutus lendo Políbio, Cláudiolendo Tito-Lívio etc. Sabemos também da existência de resumosde obras para o grande público. Dispomos de alguns indíciossobre a disponibilidade de algumas obras no mercado, sua exis-tência nas bibliotecas públicas do império, mas muito fragmen-tários. Na medida em que Roma, a história e o poder andavamjuntos, há fontes sobre as relações entre historiadores egovernantes; mas estas deveriam ser desiguais, Tácito como aris-tocrata deveria ter mais penetração na alta sociedade do queSuetonio, simples cavaleiro. Augusto não tolerava historiadoresfora de uma linha oficial, o que leva a pensar que a história podeser uma disciplina perigosa. Tibério queimou as obras do histo-riador Cremutius Cordus, que acabou se suicidando. A isto seacrescenta que na antigüidade não havia uma distinção clara euniversalmente aceita entre história e ficção. Na base de todas as indagações estaria uma grande incóg-nita. Segundo Momigliano, a de compreender o porquê da exis-tência da história em sociedades onde ela não fazia parte daeducação formal e onde a religião, a filosofia e os costumes de-terminavam a conduta dos homens.
  35. 35. AS IDADES MÉDIAS 37 AS IDADES MÉDIAS “O mundo é o conjunto de todas as coisas, que se compõem do céu e da terra. (...) No sentido místico, o mundo é propriamente o signo do homem. Pois da mes- ma maneira que aquele é constituído de quatro elemen- tos, este igualmente se compõe de uma mistura de qua- tro humores, cuja combinação forma um só ser exis- tente.” Isidoro de Sevilha, De natura rerum. A institucionalização do cristianismo como religião de es-tado em 313, a desintegração política e econômica do impérioromano e a ruptura de seu quadro geográfico estão na base dosurgimento de uma nova história e de um novo historiador. Embora a história não esteja enquadrada no trivium – gra-mática, retórica, dialética – ou no quadrivium – aritmética, as-tronomia, música, geometria –, que compõem a estrutura bási-ca da educação e nem o historiador tenha se profissionalizado,a História, com um grande H, será um elemento primordial nacomposição da identidade do homem cristão. A noção de história universal liga-se aos judeus cristiani-zados. No momento em que seguidores de Cristo, como S. Pau-
  36. 36. 38 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolilo, transformam sua crença, até então nacional, em uma reli-gião universal, absorvendo a ideologia política do império, dãomargem ao surgimento desta história universal. Assim o NovoTestamento, continuação do Testamento nacional, historiará asbatalhas e as conquistas dos apóstolos em terras estrangeiras;não mais conquistas militares, mas que utilizam ainda uma armados pagãos, a oratória e a discussão intelectual. Na medida emque cristãos estão imbuídos da verdadeira verdade, esta palavrapassa a ter um peso muito grande na maneira de refletir sobre omundo. No entanto, não devemos confundir verdade com obje-tividade. A verdade do passado terá fins utilitários, variados,como o de legitimar o poder, numa seqüência infinita, de Deusaté o mais obscuro dos príncipes. A verdade da história poderáser utilizada no momento de decisões, da tomada de atitudespolíticas. As teorias do poder divino do papa e do imperadordocumentam-se nos exemplos da história, no poder exercidopor Melchisedec ou no procedimento da passagem do poder deCristo para S. Pedro. A subjetividade presente na historiografiaantiga assumirá contornos diversos, em conformidade com ou-tros padrões. Uma imagem comum nas catedrais góticas francesas é ada seqüência de reis judeus e reis franceses. Numa linha reta.Assim muitos concebem a história cristã. Ordenada, olhandopara a frente, sem reviravoltas cíclicas. Uma história linear comcomeço – a Criação –, meio – a Encarnação – e fim – o JuízoFinal. Outros se voltarão para uma experiência do tempo orde-nada por cadências regulares – a cada mil anos, por exemplo,seria necessária uma purificação para que tudo renasça. Nummundo organizado por Deus, os fatos se legitimam automatica-mente e se amoldam sempre a uma explicação de ordem sobre-natural. A própria expansão do império romano seria um desíg-nio de Deus para facilitar posteriormente o trabalho apostólico.Nos primeiros séculos do cristianismo ocidental, a Igreja se apre-sentará como fiadora da ação de Deus na história; o historiador,
  37. 37. AS IDADES MÉDIAS 39nesse sentido, será uma testemunha da presença de Deus nomundo. A noção de tempo tornando-se primordial, o conhecimen-to do tempo, sua ciência, tomarão um aspecto religioso. Apoiadana astronomia e na matemática, a cronografia, que estabeleciadatas e computos, era considerada uma ciência cristã. Por ou-tro lado, acentua-se a diferenciação entre história “antiga” e con-temporânea. História passa a ser um termo empregado diantede uma visão geral e recuada dos fatos; para o contemporâneo,a presença de uma cronologia minuciosa passa a ser de praxe. Podemos constatar também uma enorme variedade de gê-neros históricos desde os primeiros séculos da Idade Média. Umainovação é a dos textos hagiográficos – história dos santos, nar-rativas sobre milagres, sobre o translado e a descoberta de relí-quias ou listas episcopais. Estas listas fundam uma pseudo-linhagem episcopal e legitimam o bispo como pai dos fiéis. Ashistórias de santos também podiam ocultar um propósito legiti-mista, que favorecia uma comunidade ao estabelecer uma anci-enidade, uma história para determinados locais. Além disso dis-pomos de inúmeros Anais e Crônicas; homens ligados à Igrejaou a administração dos reis eram responsáveis pela catalogaçãode fatos geralmente políticos, militares e extraordinários – pas-sagem de cometas, milagres etc. – considerados importantes du-rante o ano nos anais. As crônicas implicam uma maior ampli-tude cronológica e também uma análise dos acontecimentos noâmbito de desígnios políticos e religiosos. Ecos da historiografiaantiga, alusões a Tácito, a Salústio, a Tito-Lívio por exemplo,permeiam esta nova história, que, no entanto, trata o passadonuma perspectiva bem diversa. Conscientes das transformaçõesoperadas pelo cristianismo no mundo, tentam explicá-las à luzda religião. Uma reflexão sobre todos os cronistas, analistas, escrito-res que se referem ao passado e historiadores dos quinze pri-
  38. 38. 40 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolimeiros séculos do cristianismo seria muito extensa. Nos limita-remos a alguns exemplos nos quais a intenção de escrever umahistória é mais definida. Assim, Agostinho (354 - 430), por exem-plo, importantíssimo na definição da ideologia e das funções dahistória medieval – na Cidade de Deus defende a teoria de que aqueda de Roma era apenas uma pequena amostra dos infinitose universais poderes divinos – não será considerado como histo-riador. A tentativa de interpretar a história humana numa pers-pectiva cristã já se manifesta no panfleto de Lactâncio (c. 260 -c. 325) sobre a Morte dos perseguidores. Convertido ao cristia-nismo em 300, foi preceptor do filho do imperador Constantino;suas ligações com o poder – Constantino oficializa o cristianis-mo no império – e a paixão de neófito se confundem em seutrabalho, onde anuncia a vitória do Ponte Mílvio com violência. S. Jerônimo (c. 341 - 420) atribuirá à história um papeldecisivo na vida pessoal de cada um e no próprio cristianismo.Aristocrata convertido por volta de 366, buscou na pregação, noaconselhamento, no eremitismo, no celibato, as formas de vidacristã. Com uma sólida formação clássica, tendo sido secretáriodo papa Damásio e fundador de inúmeros conventos, deixouuma produção enorme em livros, panfletos, cartas, onde o tem-po presente é sempre avaliado em função da missão cristã; as-sim, numa carta a uma de suas amigas romanas que desejavase casar, argumenta que, diante do horror das invasões de “bes-tas ferozes” – os germanos – ao império romano, era inconcebí-vel pensar na felicidade pessoal e que a única atitude digna ecristã seria a do celibato. Jerônimo traduz do grego para o latim a Cronica de Eusébiode Cesaréia (265 - 340), considerado o pai da história eclesiásti-ca, e a atualiza até sua época. Nesta obra, Eusébio tratava dopassado longínquo, da vingança divina contra os perseguidoresda Igreja, da luta contra perseguidores e heréticos, das disputas
  39. 39. AS IDADES MÉDIAS 41doutrinais e da sintonia entre a pax romana e o cristianismo,utilizando uma enorme documentação e poucos discursos; acitação, a “autoridade”, fundamental nas obras medievais, e nãoa retórica, se impunha. No Dos homens ilustres, Jerônimo traçaum quadro completo do desenvolvimento da Igreja, enumeran-do todas as grandes personagens desta história. As Vidas dosanacoretas Paulo de Tebas, Hilarion, Malchus, dão o tom paraas biografia santas medievais. Seu maior empreendimento foi atradução para o latim e revisão crítica da Bíblia (Vulgata), consi-derada por pagãos e mesmo veladamente pelos cristão comouma obra de padrão literário execrável. Seus prefácios e co-mentários sobre os livros das Escrituras objetivam melhorelucidar fatos, datas e seus encadeamentos. Sulpício Severo (c. 360 - c. 420) originário da Aquitânia,em sua História Sagrada pretende descrever a história do mun-do desde a criação até o ano 400 para instruir os ignorantes econvencer os cultos. Paulo Orósio (c. 390 -?), um padre espanhol que, em 414,foge das invasões germânicas e refugia-se em Hippo, tambémpensará na história como um amplo painel. Discípulo de Agos-tinho, escreveu vários trabalhos ligados à defesa da ortodoxia e,a pedido daquele, um suplemento histórico à Cidade de Deus. AHistória contra os pagãos (415 - 417) objetiva provar que o cris-tianismo não fora responsável pela queda de Roma, e que, aoanalisar a história humana evidencia-se um desígnio providen-cial; seu livro é um exaustivo catálogo dos males da humanida-de, detectados desde os mais antigos impérios do mundo. Du-rante séculos este trabalho, bem como o de Eusébio, servirão desubsídio para a escrita de crônicas universais como a de Otto deFreising, no século XII. Com a divisão do antigo império em reinos germânicos, oshistoriadores tendem a traduzir uma visão de mundo mais loca-lizada, focada num cotidiano mais limitado, numa nova lingua-
  40. 40. 42 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoligem, embora se digam herdeiros de Tácito ou da historiografiaantiga. É o caso da História dos Francos de Gregório de Tours eda História dos lombardos de Paulo Diácono. Gregório de Tours (c. 539 - 594), bispo de Tours, descendede uma família romana senatorial integrada ao reino franco. Noprefácio da História dos francos, Gregório deplora a inexistênciade um homem capaz de escrever sobre os acontecimentos atuaise decide assumir esta tarefa; de fato, vai além. Inspirado porEusébio, Jerônimo e Orósio e mais seu conhecimento da Bíblia,começa a narrativa nos dias da Criação. No livro I cobre 5596 anos da história da humanidade, deAdão até a morte de S. Martinho de Tours, em 397. Os outrosnove livros da história dos francos relatam os acontecimentosdesde a morte de S. Martinho até 591, pouco antes de sua mor-te. A partir do livro II, quando começa a mencionar os reis fran-cos, suas fontes forçosamente serão outras; as agora perdidasHistoria de Renatus Profuturus Frigeridus e a Historia deSulpicius Alexander, cartas de Sidonio Apolinário e de S. Avito,vidas de santos e de mártires, escritos de seus contemporâneosVenancio Fortunato, Sulpicio Severo e Ferreolo e muitos outros.Cita Virgílio e Salústio. Insere a transcrição de uma série dedocumentos originais, como a carta enviada a bispos por oca-sião da fundação do convento de Santa Radegunda em Poitiers;sete respostas a esta carta; o texto do tratado de Andelot assina-do entre os reis Guntram e Childeberto II em 587; a carta dopapa Gregório aos flagelados da peste de 590 em Roma, e ou-tros. A presença desta documentação demonstra o espírito queanima a escrita da história de Gregório; uma história baseadano documento, na autoridade e na discussão desta autoridade.Mas também as fontes orais e o testemunho ocular, a perspicá-cia de observação, a participação pessoal em vários aconteci-mentos, servirão de subsídio à narrativa. Além de descrever,Gregório tenta desvendar pontos obscuros, como o da primeira
  41. 41. AS IDADES MÉDIAS 43vez que um líder franco se transforma em rei, através de umainvestigação minuciosa. Apesar de se preocupar em ler nos acon-tecimentos os signos da intervenção divina no mundo, está atentoao real, ao visual. Um dos aspectos mais cativantes desta história dos fran-cos é a linguagem. Gregório escreve como deveria falar. Muitocriticado por não mais seguir os padrões antigos, é justamenteneste latim falado, menos conciso que o clássico, no seu estilosimples, que podemos desvendar inúmeros traços da mentali-dade, da visão de mundo de sua época. Gregório, ao contráriode muitos historiadores antigos, nunca saiu da Gália. Seu hori-zonte é fechado. Logo, pode descrever com minúcia cenas quejamais seriam consideradas dignas de nota pela historiografiaantiga. Sem enunciar qualquer julgamento, pinta com precisãoos horrores, as intrigas, a luxúria e a volúpia sanguinária dosmerovíngios. As fúrias encarnadas em Fredegonda, as misériasde Brunhilda, renascerão na historiografia romântica do séculoXIX, com as Narrativas dos tempos merovíngios de AugustinThierry, e no romance gótico. No século VII, numa distante região da atual Inglaterradominada pelos anglo-saxões, a história será uma das expres-sões da cultura religiosa de Beda (673 - 735), dito o Venerável.Aos sete anos de idade, órfão, foi ele encaminhado a um conven-to; com treze anos fixou-se na abadia beneditina de Yarrow e daínão mais saiu até sua morte. Educado tanto pela leitura dasobras cristãs como clássicas aí existentes, escreveu comentá-rios bíblicos, tratados de gramática, uma versão expurgada doDe rerum natura de Isidoro de Sevilha, dois trabalhos de histó-ria, A História do povo e da igreja dos anglos (731) – da conquistade Júlio César em 73 até o presente – e a Vidas dos abades, euma cronologia universal calculada pela era cristã e fundamen-tada em estudos astronômicos.
  42. 42. 44 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícoli No prefácio de sua história eclesiástica, Beda informa seusleitores sobre as fontes que utilizara e o tratamento a elas con-cedido. Procura sempre reunir a maior documentação possívelsobre todos temas, utilizando tanto testemunhos escritos comoorais e mesmo arqueológicos. Para isto estabelece uma intensacorrespondência no sentido de obter cópias ou originais de ma-nuscritos. Descarta o que não lhe parece adequado e não secontenta em somente arrolar o material utilizado, mas em fun-di-lo num todo coerente. “Como as leis da história exigem, tra-balhei honestamente para transmitir o que pude aprender dasfontes, para a instrução da posteridade”. Escrevendo como cris-tão, o maravilhoso e os milagres estão presentes no texto; come-tas, tempestades, curas, são apontadas como intervenções dire-tas de Deus no mundo. Assim, não somente a história dos povosque colonizam a ilha e da igreja é narrada, mas também aslendas, as crenças populares, que possam ser interessantes ouedificantes para seus leitores. Apesar das dificuldades que deveter tido em reunir sua documentação, a crítica moderna consta-ta uma grande precisão nos fatos arrolados em sua história. Poroutro lado, Beda representa bem tanto a dinâmica da culturaanglo-saxônica como a cultura eclesiástica quase profissionalque dominará a Europa por séculos. Um outro tipo de historiador, de formação religiosa, mastrabalhando para o poder temporal, é Eginhardo (c. 770 - 840),uma das estrelas da chamada renascença carolíngia. Nascidonuma família aristocrática, foi educado na abadia de Fulda, e,posteriormente admitido na escola palatina de Carlos Magno,em Aachen. Ingressa na política no reinado de Luiz, o Piedoso;foi secretário e amigo pessoal de Carlos Magno até a morte desteem 814, e posteriormente conselheiro de seu filho Lotário. Oconflito entre Luiz, o Piedoso e seus filhos o leva a prudentemen-te se afastar da política, em 828. É neste momento de sua vidaque decide escrever uma biografia de Carlos Magno. Em 830,
  43. 43. AS IDADES MÉDIAS 45retira-se na abadia de Selingenstadt. Além da vida de CarlosMagno, deixou cartas e obras hagiográficas. A Vita Caroli é um panegírico do imperador, seguindo fiel-mente os moldes da Vida dos doze Césares de Suetonio e, parti-cularmente, a biografia de Augusto. Este será um procedimentocomum durante vários séculos; os autores copiam a seqüênciade temas e mesmos os comentários dos autores latinos. Colo-cam suas personagens numa espécie de camisa de força. Ape-sar disso, as diferenças de sensibilidade acabam por aflorar. Hátambém um outro aspecto a ser considerado nesta imitação. Namedida em que a cultura cristã assume formas e conteúdospróprios e mais definidos no ocidente, parece haver um certoabandono da literatura latina profana, considerada imprópria;no entanto, as obras históricas não teriam sido afetadas porestas restrições; talvez porque a história edificasse. No prefácio da Vita Caroli, Eginhardo define suas metas:escrever sobre a vida pública de Carlos Magno e descrever suavida cotidiana. Aproveitava o fato de ter sido uma testemunhaocular dos dois aspectos da existência do imperador a partir de791, quando este estava com quarenta e nove anos de idade.Apesar desta proximidade, e de dispor de documentação para operíodo anterior, ao escrever de memória, Eginhardo cometeráuma série de imprecisões.z Algumas vezes deliberadamente, paracamuflar a verdade e proteger seu senhor. No todo, porém, tra-ta-se de uma obra surpreendente pelo seu estilo, concisão, etambém por ter como motivo um tema não religioso. Uma outra biografia de Carlos Magno seria escrita maistarde pelo chamado monge de S. Gall (c. 840 - c. 912), sobre oqual quase nada se sabe. Trata-se de uma obra com um carátermais mítico, legendário, recheada de anedotas saborosas, even-tualmente derivada das lendas populares sobre o imperador. Além da biografia cortesã, a época é pródiga em históriaseclesiásticas locais, de sedes episcopais, mosteiros, comunida-
  44. 44. 46 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolides, escritas por religiosos mais ou menos obscuros. Assim aHistória da Igreja de Reims de Flodoardo (894 - 966), a Históriado mosteiro de S. Bertin do abade Fulcuino (m. 990). A Cronicado religioso de Angoulême, Adémar de Chabannes, é mais am-pla, cobrindo a história do povo franco; a partir de 980 torna-seuma crônica da aristocracia da Aquitânia. Inúmeras são ascronografias universais como a de Reginono de Prum (906), a domonge Hermann, o curto, de Reichenau – retomando a divisãoagostiniana de seis épocas do mundo –, a do bispo Othon deFreising, entre outras. A produção de vida de santos também éconsiderável; servem a propósitos piedosos, políticos, e econô-micos ao propagandear os milagres de santos locais e atrair pe-regrinos: vida de Sta. Eulália (881), vida de S. Legério (950 -1000), vidas de Santa Foi (1000 - 1050) – santa que atrai milha-res de peregrinos, no caminho de S. Tiago –, vida de S. Alexis(1040). Há ainda a História dos normandos de Dudo, deão dacolegial de S. Quentin, as Histórias de Richer, monge de S. Rémide Reims, cobrindo o período de 888 a 995, e os textos das His-tórias do monge Raul Glaber, talvez findos por volta de 1048. O ano mil, segundo Georges Duby, parece ter passado quasedespercebido em vários anais e crônicas contemporâneos. Nadaou quase nada é dito sobre a data nos anais de Benevento, nosde Verdun e outros. O cronista Raul Glaber, no entanto, em suaobra dedicada a Odilon, abade de Cluny, talvez explique estaausência ao formular um outro cálculo do tempo, um outromilenio, relativo à morte de Cristo. Assim 1033, e não 1000,seria o outro milênio, dentro de uma cadência temporal religio-samente marcada. A história continua a ter grande importância para a cons-ciência cristã. Os méritos das obras históricas são definidosno livro Das Maravilhas do abade de Cluny, Pedro, o Venerá-vel (c. 1092 - 1156): “boas ou más, todas as ações produzidasno mundo, pela vontade ou pela permissão de Deus, devem ser-vir à glória e à edificação da Igreja. Mas se nós as ignoramos,
  45. 45. AS IDADES MÉDIAS 47como podem contribuir para a louvação de Deus e a edificaçãoda Igreja?” A partir dos séculos XI-XII, no entanto, a escrita da histó-ria passa a ser utilizada com maior freqüência pelos podereslaicos, que nela também vêem uma ocasião para cantar suasglórias e legitimar seus direitos. Uma série de crônicas familia-res, de biografias individuais de grandes personagens laicos ede histórias nacionais podem ser encontradas. Assim HenriqueII da Inglaterra (1133 - 1189) contrata clérigos para escrever ahistória de seus predecessores. Wace, cânone de Bayeux no sé-culo XII, traduz a Historia Regum Britanniae, de Geoffrey deMonmouth (c. 1100 - 1154), que ajuda a popularizar as lendasdo rei Arthur na França, e elabora o Roman de Rou (c. 1175),narrando a história dos duques da Normandia, com bases emfontes latinas. Um anônimo encarrega-se da biografia de Gui-lherme, o Marechal (c. 1145 - 1219), regente da Inglaterra du-rante a minoridade de Henrique III; o escritor é contratado pelofilho de Guilherme, o conde de Pembrocke, por volta de 1226. Surge assim um novo tipo de produtor da história. Nãomais preso a uma estrutura monástica ou episcopal, mas geral-mente de formação religiosa, e que passa a trabalhar a soldopara a aristocracia para escrever suas genealogias, algumas vezesmíticas. É o caso de Lambert d’Ardres, analisado por GeorgesDuby, que entre 1201 e 1206 termina sua História dos condesde Guines “à gloria dos altos senhores de Guines e de Ardres”.Lambert era um clérigo que servia no castelo de Ardres, parentedistante desse senhor; apesar de clérigo, era casado e tinha fi-lhos, também sacerdotes. Dizia-se “mestre”, tinha conhecimen-tos de retórica, da poesia antiga e das produções literárias cor-teses contemporâneas, além, certamente, de dispor de toda umabase religiosa de conhecimentos. Os deslocamentos para o oriente motivados pelas cruza-das dão margem ao surgimento de um outro tipo de história,
  46. 46. 48 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolimais heróica, próxima da epopéia. O beneditino Guibert deNogent (1053 - 1124) escreve sobre a primeira cruzada em seuGesta Dei per francos, a partir de Gesta anonimos, sem ter sidotestemunho direto. A Historia eclesiastica do monge OrdericoVitale (c. 1075 - 1143), que em princípio deveria contar a histó-ria da abadia de Saint-Evroul en Ouche, acaba abarcando umespaço geográfico bem mais amplo. Partindo dos documentosde que dispunha a abadia, além de construir sua história, narraa história de toda a vizinhança e da aristocracia normanda. As-sim, acaba seguindo estas personagens pela Inglaterra, a Itáliado Sul e o oriente das cruzadas. Escreve por meio de círculosgeográficos e cronológicos sucessivos, a partir do ponto fixo queé a abadia, utilizando todos os tipos de fontes disponíveis, escri-tas, orais, populares e canções. Um peregrino de Évreux, Ambrósio, companheiro deRicardo Coração de Leão, nos fins do século, narra a TerceiraCruzada (1188 - 1192). Sua História da guerra santa, em ver-sos, é trabalho de um profissional, que tem por fonte seu pró-prio testemunho ocular dos acontecimentos. Paradoxalmente, são as cruzadas que definitivamente con-solidam a história laica na Idade Média, nas crônicas de Geoffroyde Villehardoiun (c. 1150 - c. 1213) e Robert de Clari. Ambosparticiparam da quarta cruzada, mas o resultado das duas obrasé bastante diverso. Clari dá o testemunho do combatente co-mum, subordinado a chefes que o mantêm ignorante da razãode seus movimentos, alheiado da grande política. Ao contrário,Villehardouin, marechal da Champagne e um dos chefes daquarta cruzada, vê a cruzada de cima, do lado dos poderosos.Seu relato da Conquista de Constantinopla tende a ser muitoclaro, muito lógico, muito preciso, para ser considerado total-mente verossímil; na base de sua narrativa está a vontade dejustificar o porquê da mudança de rumo da quarta cruzada paraConstantinopla, que transformou os cristãos desta cidade em
  47. 47. AS IDADES MÉDIAS 49infiéis. Sem mentir abertamente, escamoteia a verdade sobretu-do através de seus silêncios. Além da história oriental, surge uma outra vertente, na-cional. A afirmação das monarquias nacionais fará com que ahistória submeta-se gradativamente ao serviço da política. Oabade de S. Denis, Mathieu de Vendôme, no século XIII organi-za a reunião de um vasto material de notícias necrológicas dosreis de França, há séculos redigidas pelos monges; traduzidaem francês a partir de 1274, esta compilação foi o ponto departida das Grandes crônicas de França, cuja redação prosse-gue até Luiz XI. Na História de S. Luiz (1309) de Joinville (c. 1224 - 1317),senescal da Champagne, há uma fusão da hagiografia com ahistória das cruzadas. Escrita sob encomenda para a rainhaJoana de Navarra, após a canonização de Luiz IX, a obra preten-de edificar seus leitores através das “santas palavras” e dos “bonsensinamentos” do grande rei. Admirador e amigo de Luiz IX,Joinville não poupa anedotas que enalteçam sua figura, mistu-rando o concreto e o maravilhoso. Narra sem preocupação comum encadeamento lógico de fatos ou idéias. No século XIV, a guerra dos Cem Anos fornecerá o mate-rial para a história nacional e política. Escrita em francês, oespírito cavalheresco e as proezas militares ocupam o primeiroplano. Dos cronistas da guerra, o mais considerado é Jean Frois-sart (c. 1337 - c. 1400), que, apesar de ser um clérigo de origemburguesa, admira a aristocracia e seu modo de vida. Froissart desde jovem trabalhará para a nobreza; vai paraa corte da Inglaterra, onde cai nas boas graças da rainha, suacompatriota Felipa de Hainaut, com um pequeno ensaio histo-riográfico sobre os fatos ocorridos desde 1356. Freqüenta a altasociedade inglesa, partindo depois para a Escócia e a Itália, ondeteria conhecido Petrarca em 1367. Com a morte da rainha, ficasob a proteção do duque Venceslau de Luxembourgo, e conti-
  48. 48. 50 QUEIROZ, Tereza Tereza A. Pereira de & IOKOI, Zilda M.Grícoli. QUEIROZ, Aline Pereira de & IOKOI, Zilda Maria Grícolinua seu trabalho de historiador. Com base em informações pes-soais escreve sobre a atualidade, mas tenta buscar um iníciopara seu texto nos anos entre 1325 e 1356, utilizando comofonte a crônica de João, o belo. Em 1388, vai para o sul paraobter informações para sua história e conhecer a corte do condede Foix, o famoso Gaston Phébus. De volta a Paris continua suacrônica, volta para Inglaterra, e daí em diante nada mais se sabede sua vida. Dos quatro livros de suas Crônicas, o primeiro erabastante favorável à Inglaterra, e por isso foi corrigido mais tar-de, quando Froissart se aproxima do círculo de Guy de Chati-llon. A partir daí, seu texto pende para a França e os Valois. Noterceiro livro, escrito já na velhice, mostra uma certa indepen-dência de julgamento. Froissart já encarna um historiador diferente deVillehardouin ou Joinville. Não escreve para manter viva a me-mória dos grandes acontecimentos de sua vida. Escreve profis-sionalmente como defensor dos aristocratas. Não participa dosacontecimentos que relata, e seu objetivo é o de agradar a no-breza que compra seus livros, e seus protetores que aí vêemseus nomes em destaque. Sua história tem um tom romanesco,era também poeta. Os temas de suas crônicas poderiam servirtambém para epopéias cavalherescas: as proezas, as festas, ostorneios, as grandes aventuras, a audácia dos mercenários oudos nobres, como Aymerigot Marcel ou Du Guesclin, e os peri-gos da guerra dos Cem Anos vividos nas grandes batalhas comoas de Crécy ou Poitiers. A guerra dos Cem Anos dará emprego a muitos outroshistoriadores. A luta interna na França, entre armagnacs eborguinhões, fará com que cada lado contrate seus próprios cro-nistas, encarregados de expor as visões adequadas a seus se-nhores. Huizinga dirá que os cronistas borguinhões “encenamum sonho”.
  49. 49. AS IDADES MÉDIAS 51 Dentro da cronologia tradicional, Felipe de Commynes(1447 - 1511) representaria o limite entre o medieval e o moder-no. Suas Memórias, escritas entre 1489 e 1498, expressam ummaior cuidado no estabelecimento de laços entre os aconteci-mentos e um julgamento mais ácido sobre os homens; não sãomais uma invocação das virtudes tradicionais e nem elogio oupanegírico. Em seu prólogo ao arcebispo de Viena, Commynes defineo objetivo de seu livro: “escrever o que eu soube e conheci dosfatos do rei Luiz XI”. Diz ter observado em seu herói coisas boase más, e portanto não quer mentir. Commynes nasceu na Flandres. Seu pai era governadorde Cassel e bailio de Gand. Destinado à vida militar, integroudesde cedo a corte de Felipe, o Bom, ficando depois a serviço doconde de Charolais, Carlos, o Temerário. Neste momento foi tes-temunho das primeiras lutas entre Luiz XI e a casa da Borgonha.Pouco depois muda de lado e, a partir de 1472, se torna confi-dente do rei, de quem recebe a senhoria de Argenton em trocade terras que possuía na Borgonha. Até a morte de Luiz XI par-ticipa de todos os acontecimentos a seu lado. Cai em desgraçapor um tempo com a morte do rei, mas acaba se reconciliandocom Carlos VIII; com ele parte para a Itália, onde é enviado comoembaixador a Veneza. As Memórias exploram os grandes desígnios da política. Oaspecto exterior dos acontecimentos não interessam aCommynes; observa, analisa, pesa, julga, compara a partir dointerior dos acontecimentos. Enquanto moralista e cristão, per-mite-se tecer considerações gerais sobre a natureza humana e opríncipe ideal. Como vemos, a escrita da história na maioria dos casoscontinua a ser um trabalho paralelo a outros. Monges cumpremfunções religiosas e fazem história, homens de estado traba-lham para o governo e fazem história, outros são poetas e retóricos

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