ROMANCE OS TRAIDORES - DIANA NEVES

1.192 visualizações

Publicada em

Aos trinta e nove anos, Laura Alves tem todos os motivos para ser uma mulher feliz. Vive um casamento de sonho, é mãe de duas crianças maravilhosas e possuí uma carreira brilhante enquanto Neurocirurgiã.
No entanto, a chegada do cunhado irá pôr em causa tudo o que conquistou. Envolvida num tórrido caso extra-conjugal, ela mergulha num ciclo vicioso do qual não consegue sair, e quando o pior acontece, vê-se intimada a pagar pelos seus erros e a avaliar pela primeira vez o que é realmente importante para si.

Publicada em: Diversão e humor
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.192
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
15
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
27
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

ROMANCE OS TRAIDORES - DIANA NEVES

  1. 1. 1 DIANA NEVES "Um romance sexy e intrigante que desvenda todas as fragilidades humanas... " - Diana Neves, autora do romance UM MAR DE ROSAS OS TRAIDORES 2ª EDIÇÃO DIANA NEVES
  2. 2. 2 OS TRAIDORES Aos trinta e nove anos, Laura Alves tem todos os motivos para ser uma mulher feliz. Vive um casamento de sonho, é mãe de duas crianças maravilhosas e possuí uma carreira brilhante enquanto Neurocirurgiã. No entanto, a chegada do cunhado irá pôr em causa tudo o que conquistou. Envolvida num tórrido caso extra- conjugal, ela mergulha num ciclo vicioso do qual não consegue sair, e quando o pior acontece, vê-se intimada a pagar pelos seus erros e a avaliar pela primeira vez o que é realmente importante para si.
  3. 3. 3
  4. 4. 4 OS TRAIDORES
  5. 5. 5 "Este romance é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e factos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, acontecimentos e lugares é mera coincidência." Todos os direitos reservados. 2ª Edição/2014
  6. 6. 6
  7. 7. 7 1 Laura Mendonça e Leonardo Alves viviam numa grandiosa moradia a poucos quilómetros de Lisboa. Um espaço agradável, com dois pisos bem decorados e um jardim idílico à volta. Quando se casaram, ele era ainda um arquitecto em início de carreira com vontade de crescer na empresa onde começara a trabalhar. Ela, por seu turno, era uma jovem médica promissora, dedicada de corpo e alma à sua profissão. Conheceram-se num jantar de amigos no ano de 1996 e desde então nunca mais se largaram. Foi amor à primeira vista, ele confessou anos mais tarde. Assim que chegou ao restaurante Leonardo ficou imediatamente encantado pela presença de Laura. Dona de uma estatura elevada - 1,77m de altura - a médica exibia lábios finos, cabelos loiros compridos e um atributo especial que o arrebatou desde o primeiro momento em que a viu. Olhos tão verdes como duas esmeraldas. Laura também se deixou seduzir pelo jeito cordial do arquitecto. Achou-o particularmente atraente, embora na altura tivesse tentado esconder o seu interesse a todo o custo. Leonardo era um homem bonito, alto e elegante. Possuía cabelos castanhos e olhos escuros, cobertos por um par de óculos transparentes que usava desde os tempos da adolescência nunca pensando em desfazer-se deles sob pena de não conseguir enxergar um palmo à frente do nariz. O arquitecto tinha consciência de que os seus óculos não eram um chamariz às raparigas. Conferiam-lhe um ar demasiado sério e intelectual, e na altura, finais dos anos noventa, as raparigas queriam tudo, menos um namorado sério e intelectual. Queriam aventuras, queriam namorar o rapaz mais giro da turma e cometer loucuras típicas de adolescentes. Laura parecia ser a excepção à regra. Após alguns romances fracassados e desilusões amorosas, Leonardo agradeceu aos céus a sorte de a ter encontrado naquela noite. Bela, discreta, inteligente e inconscientemente sedutora. Nunca mais a largou. Nunca mais ficou um dia sem a ver. Seis meses após terem começado a namorar, ainda que nunca se tivessem tocado intimamente, ele já sabia que queria passar o resto da vida ao lado dela.
  8. 8. 8 Laura era uma mulher muito bonita, brilhante e dinâmica, mas sempre faltara algo nela. Talvez uma certa ternura e gentileza. Não se podiam utilizar tais palavras para a descrever. Ambicionava mais da vida do que ser apenas uma simples médica ou a perfeita dona de casa. Tinha vinte e quatro anos quando conheceu Leonardo, era virgem e nunca namorara ninguém. Ele estranhou tal facto. Ela dissera-lhe que andara demasiado ocupada a realizar o seus objetivos e a atingir os seus fins. Prometera a si própria, confessara-lhe um dia que aos quarenta anos seria uma Neurocirurgiã de sucesso. Leonardo encarou a frieza dela como um desafio. Aos seus olhos, Laura parecia uma mulher de extrema inteligência e competência com um perfeito controlo sobre todos os aspectos do seu mundo. Cada sorriso, cada gesto mais efusivo era como que uma vitória para si pois Laura não demonstrava afabilidade com qualquer outra pessoa. O pedido de casamento surgiu dois anos depois num fim-de-semana romântico à Serra da Estrela. Foi aceite na hora. Laura sabia que não encontraria ninguém melhor. Casaram-se numa cerimónia civil, simples e descomprometida contando apenas com a presença de amigos próximos que de antemão já sabiam qual seria o final daquela história. Chovia torrencialmente naquela tarde de Sábado, mas isso não foi motivo suficiente para estragar o dia mais feliz das suas vidas. Ela foi com um vestido simples em tons de bege, os cabelos presos abaixo da nuca e um pequeno ramo de lírios nas mãos. Ele, por seu lado, apareceu de fato e gravata sem se preocupar com nenhum outro detalhe a não ser com a presença dela. Financeiramente independentes, partiram de lua-de-mel para Toscana, Sul de Itália. Permaneceram duas semanas num clima de total romance e quando regressaram a Lisboa alugaram um apartamento no centro da cidade a poucos metros do hospital onde Laura trabalhava. A casa não era muito grande. Possuía apenas dois quartos mas uma vista esplêndida sob a cidade. No entanto, era um pouco impessoal aos olhos de Leonardo, que sempre sonhou adquirir para si e para a sua família um espaço amplo onde não faltassem os churrascos aos Domingos e um grandioso jardim à volta onde os filhos pudessem brincar. Ele desejava ter filhos. Queria ver os quartos cheios de risos e de ruído, mas Laura mostrava-se relutante em aceitar a ideia. Ela gostava de morar no centro da cidade, de ter tudo ali ao pé e um apartamento pequeno que não desse muito trabalho a limpar. Talvez fosse egoísta da sua parte pensar dessa forma, mas a verdade é que após dois anos de casamento, completamente mergulhada no seu Internato e sem tempo para respirar, tudo o que ela não desejava na altura era organizar churrascos aos Domingos e muito menos em ter filhos que pudessem brincar num jardim inexistente.
  9. 9. 9 Os seus objectivos eram outros e estavam traçados desde há muito. Medicina. Era isso que a movia, era apenas nisso que pensava e era isso que se via a fazer para o resto da vida. Mas as cobranças de Leonardo foram surgindo de forma subtil. Aos trinta e um anos crescia-lhe o desejo de ser pai e formar uma família - um sonho que o acompanhou desde os tempos da adolescência - altura em que perdeu os seus progenitores num terrrível acidente de viação e se viu obrigado a viver numa casa de acolhimento até aos dezoito anos. Foram tempos difíceis, ultrapassados a muito custo, mas que deixaram marcas irreparáveis. O término da família biológica provocou em si a vontade de querer formar uma nova e recuperar tudo o que havia perdido após a morte dos pais e o afastamento súbito do seu irmão mais novo. Nunca mais soube nada dele. Separaram-se ainda jovens e cada um seguiu o seu caminho. A última vez que se viram foi com o intuíto de se despedirem. O irmão iria sair do país e tentar uma vida nova no estrangeiro sem intenções de algum dia regressar a Portugal. Leonardo não fez absolutamente nada para o impedir. Achou que não valia a pena. De qualquer maneira, não tinham nada em comum e as suas vidas há muito que haviam tomado rumos diferentes. As primeiras insinuações surgiram três anos após o casamento, a príncipio algo espaçadas no tempo, mas depois cada vez mais impertinentes e acutilantes. Leonardo mostrou a sua vontade em ser pai, mas Laura negou-lhe veemente o pedido dizendo que ainda era muito cedo para pensarem nisso. Ele ainda tentava consolidar a sua carreira e ela lutava por terminar o seu Internato. Não era tempo de cometer precipitações apenas por um desejo ou um capricho, ela dizia. Chegaram ao ponto de uma possível ruptura quando por indicação do seu Orientador, Laura recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar num centro hospitalar em Londres. Ao saber disso, Leonardo encostou-a contra a parede e disse-lhe em poucas palavras: ou eu ou esse trabalho. Ainda que não tivesse a certeza de qual seria a escolha da mulher, o arquitecto respirou de alívio quando ela decidiu recusar o convite. Laura resignou-se à ideia de exercer funções médicas numa clínica privada no centro de Lisboa e oito meses depois descobriu que estava grávida. Foi um acidente. Não contava com isso e nem conseguiu esconder a sua contrariedade por ter cometido o deslize de esquecer a pílula numas malditas férias de Verão no Douro. Já Leonardo não poderia ter ficado mais radiante com a notícia. A alegria tornou- se ainda maior quando descobriu que a mulher estava grávida, não de uma, mas de duas crianças. Gémeos. Dois rapazes que dentro de pouco tempo iriam correr pela casa e enchê-la de alegria, tal como ele sempre sonhou. A vida seria um pouco agitada com a profissão que tinham, mas seria compensador no final das contas. Conseguiriam criar os filhos, manter o casamento e ser felizes para sempre.
  10. 10. 10 Podia até parecer romântico demais, mas era o que Leonardo achava que iria acontecer sempre que tocava na enorme barriga da mulher e projectava um futuro risonho para os quatro. Os nove meses que se seguiram foram clinicamente complicados. Laura deixou de trabalhar no quinto mês de gestação, engordou quinze quilos e sentiu uma enorme dificuldade em manter-se de pé. Os gémeos deveriam nascer no começo de Setembro e no último mês ela só saía da cama para ir à casa de banho. Comia como uma leoa, passava os dias a ver televisão no quarto e não deixava sequer que o marido a tocasse. Havia algumas semanas que seu colo uterino começara a adelgaçar e ela já apresentava alguma dilatação. Cada vez que se levantava, nem que fosse por pouco tempo, sentia contracções. Estava farta de ficar deitada e tinha medo que alguma coisa corresse mal. Uma semana antes da data marcada, começou a sentir as primeiras contracções. Estava sozinha em casa, o marido tinha ido trabalhar e por isso ela achou melhor levantar-se da cama e andar pelo apartamento durante algum tempo só para ajudar. Telefonou também à sua médica avisando-a que possivelmente chegara a hora. No final da tarde, quando Leonardo chegou a casa, as dores tornaram-se mais intensas. Era impossível saber o que era pior. Estar sentada, estar deitada ou estar de pé. O marido quis levá-la imediatamente para o hospital, mas Laura aguentou firme as dores parecendo muito menos nervosa que ele. Ao longo da noite foi mantendo contacto com a sua médica. Falaram sobre todas as possibilidades e a médica surpreendeu-se com a frieza dela. Nunca antes tinha visto uma grávida tão calma e despreocupada. Perto das quatro da manhã, quando chegou ao hospital, Laura parecia estar a fazer força há horas e nada acontecia. Leonardo olhou para o relógio e perguntou- se quanto tempo mais a mulher iria resistir àquela prova de fogo sem perder a razão. E de repente, o quarto encheu-se de gente. Dois médicos, um deles a obstetra que a acompanhou durante todo o período de gestação, uma enfermeira e um auxiliar de serviço. Apareceram duas pequenas bacias de metal e o círculo de máscaras se fechou em volta da parturiente. Leonardo posicionou-se ao lado da mulher e ofereceu-lhe a mão esperando que ela a apertasse com força. Infelizmente, foi isso que aconteceu. Em vez de gritos e lágrimas naturais em todas as grávidas, Laura concentrou todas as suas energias em apertar as mãos do marido, esmagando-as com força. Ele encorajou-a, beijou-a nos cabelos e pediu para que ela se mantivesse calma. Perdeu a conta das vezes que o fez. E então todos estavam a gritar, estimulando-a e encorajando-a. Leonardo viu a cabeça do primeiro bebé a sair para o mundo. É um menino, a médica disse e ele ficou apavorado com a cor roxa da criança. A enfermeira acalmou-o dizendo que era normal e logo levou o bebé para os braços da mãe. Mas Laura estava tão exausta que nem sequer prestou atenção àquele ser inofensivo que agora era seu filho.
  11. 11. 11 Tocou-o no rosto ao de leve, mas logo sentiu uma enorme contracção que a obrigou a contorcer-se na cama. As dores continuaram e foi preciso o uso de um fórceps para corrigir a posição do outro bebé. Leonardo nem podia olhar para o que estavam a fazer com a sua mulher. No meio de toda aquela aflição apenas rezava para que tudo corresse bem. Às onze da manhã já nem a reconhecia. Com os cabelos molhados, a testa encharcada de suor e a face vermelha de tanto esforço, Laura não parecia sequer estar consciente. O outro bebé era bem mais teimoso que o primeiro. Manteve-se no útero da mãe durante uma hora ainda que ela o tentasse expulsar a todo o custo. Se o outro menino não sair em poucos minutos, temos que partir para uma cesariana, a médica avisou. Mas Laura recusou terminantemente tal procedimento. Ele vai sair, ela gritou desesperada. Ele vai sair. Quando estavam todos prestes a desistir, o bebé moveu-se e começou a descer lentamente. Era quase meio-dia e Laura estava praticamente inconsciente. E então, de um momento para o outro, lá estava o outro rapaz, a gritar em plenos pulmões, olhando ansioso à sua volta como se estivesse à procura da mãe. Nesse momento, quase instintivamente, Laura ergueu a cabeça e viu-o. Agradeceu aos céus e voltou a cair com a cabeça sobre a almofada, rindo e chorando ao mesmo tempo enquanto o marido lhe cobria o rosto de beijos, parabenizando-a por ter conseguido ultrapassar aquela verdadeira prova de fogo. Para Laura foi como se todas as suas dores e todo o seu sofrimento tivessem tido um fim no minuto em lhe foram colocados nos braços os dois seres mais preciosos da sua vida. O epítome da felicidade ocorreu aquando da primeira fotografia tirada por Leonardo. Exausta pelas oito horas do parto que foi obrigada a suportar, Laura segurou os gémeos em cada um dos seus braços e abriu um sorriso radiante que contrastou com o choro compulsivo das suas crianças. André e João foram os nomes foram escolhidos pelo pai. Duas crianças irriquietas e saudáveis que em pouco tempo cresceram e se tornaram dois seres distintos. Vestiam-se de maneira diferente, comportavam-se de maneira diferente e lidavam com as situações de forma diferente. André era dono de uma personalidade forte e vincada, tal como a mãe. Amuava com facilidade e queria que tudo fosse feito à sua maneira. Recusava os carinhos do pai e desobedecia frequentemente às ordens da mãe. João, era o oposto. Doce, carinhoso e calmo, aceitava tudo o que lhe era dito. Parecia trazer a bondade nos olhos e no coração. O apartamento onde viviam passou a ser demasiado pequeno para abrigar tanta agitação. Quando as crianças completaram três anos, Laura e Leonardo foram obrigados a adquirir uma grandiosa moradia nos arredores de Lisboa. Uma casa com dois pisos, um jardim gigantesco e a inexistência de vizinhos próximos que se pudessem queixar dos churrascos organizados aos fins-de-semana.
  12. 12. 12 Sete anos se passaram e a rotina instalou-se na família. Laura regressou ao seu trabalho na clínica logo após o nascimento dos filhos. Esperou o período de amamentação, mas pouco mais do que isso. De qualquer maneira o seu leite era fraco e secou ao fim de seis meses. Durante esse tempo estava cansada de ficar em casa a tomar conta das crianças, a trocar fraldas oito vezes por dia, a preparar seis biberons e quatro banhos diários, a adormecer um dos filhos e logo a seguir a ver o outro acordar, a passar noites e noites em claro, a esfalfar-se para andar pelas ruas e edifícios da cidade com um carrinho duplo quando todos se derretiam com os seus filhos e a sua única vontade era cortar os pulsos. O marido ajudava-a de todas as formas que podia, mas não era a mesma coisa. Por uma sobrecarga total de horários, três anos após o nascimento dos filhos, Laura e Leonardo resolveram a contratar uma empregada para tomar conta das crianças. Chamava-se Alicia, tinha vinte e cinco anos, vinha do Brasil, era algo obesa, com cabeleira negra farta, olhos castanhos e pele excessivamente clara. Uma moça simples sem muita instrução ou familiares próximos mas que rapidamente se apegou aos gémeos e eles a ela. Fora contratada por ter sido a única candidata a responder exactamente o que Laura queria ouvir. Não gosto de sair à noite. Não fumo. Não bebo. Não tenho namorado. Sou evangélica e adoro crianças. As suas tarefas consistiam em limpar a casa, buscar as crianças ao colégio e às aulas de natação, deixar o jantar pronto e aguardar a chegada dos donos da casa - quase sempre o patrão - já raras vezes tinha o privilégio de se encontrar com Laura, a não ser de manhã, na cozinha, a poucos minutos da médica sair para ir trabalhar. Laura trabalhava praticamente sessenta horas por semana, não porque fosse necessário, mas porque o exercício da Medicina continuava a ser um dos aspectos mais importantes da sua vida e o oxigénio que a impulsionava a querer superar-se todos os dias. Na clínica onde trabalhava era reconhecida pela sua competência extrema, mas para ela isso era muito pouco. Queria bem mais do que o reconhecimento dos outros. Queria o seu próprio reconhecimento, ainda que isso parecesse impossível sempre que se via confrontada com o seu perfeccionismo doentio. Leonardo, por seu lado, subiu a pulso no escritório de arquitectura onde começou a trabalhar logo após o final do seu Doutoramento. Cinco anos depois assumiu a gestão dos projectos e o comando de uma equipa de jovens arquitectos. Trabalhava cerca de dez horas por dia - bem menos do que a mulher - mas todas as semanas era confrontado com reuniões fora de hora ou viagens esporádicas que o impediam de estar com a família o tempo que desejava. Eram raros os momentos em que todos se sentavam à mesa e partilhavam uma refeição agradável sem pressas de realizar outras tarefas em simultâneo.
  13. 13. 13 Quando a mulher regressou ao trabalho, Leonardo passou a ser uma figura presente não só em casa mas também na vida dos filhos. Era um óptimo pai e não se coibia de tomar para si tarefas normalmente destinadas às mães. Para ele não era sacrifício nenhum. Fazia-o por gosto e também por nutrir pelos filhos um amor incondicional. Agradecia todos os dias a dádiva que era tê-los na sua vida e agradecia também o facto de ser casado com uma mulher que continuava a amar mais do que tudo. Apesar da gravidez, para ele, Laura continuava a ser uma mulher extraordinariamente bonita, longilínea, elegante, com um corpo perfeito e mãos graciosas. Muitos consideravam a sua personalidade intragável, mas ele não. Gostava do seu modo de pensar, das coisas que dizia e do modo como as fazia. O relacionamento de ambos era construído com base no respeito mútuo e carinho. Eram muito bons na cama. Sempre o foram. Às vezes, ele até achava que depois de onze anos, eram melhores ainda. Numa noite particularmente friorenta de início de Novembro, depois de pôr os filhos na cama, Leonardo regressou ao quarto e colocou uma música inebriante no leitor de CDs. Ouviu-a pela manhã na rádio. Uma espécie de world music com um toque de blues e nuances africanas. Ele sabia que Laura gostava daquele género musical. Fazia-a relaxar após um dia extenuante de trabalho e esquecer-se nem que fosse por alguns minutos a enorme responsabilidade que a sua profissão acarretava. Quando ouviu os primeiros acordes da guitarra, deitada na banheira da casa-de- banho, enquanto a espuma branca cobria toda a água, Laura sentiu subitamente as suas pernas balançarem ao sabor da música. Pouco tempo depois, a porta da casa de banho abriu-se e por detrás dela surgiu a figura descontraída do marido trazendo nas mãos duas taças de cristal e uma garrafa de vinho tinto. Ao vê-lo, Laura sorriu calorosamente e ele correspondeu de forma igual. Conhecia-o bem. Onze anos, mas a técnica para a seduzir continuava a mesma. Uma casa de banho praticamente às escuras, uma música insinuante e duas taças de vinho com o único objectivo de a libertar de inibições. - Onde é que descobriste esta música? - ela perguntou. - Na rádio, hoje de manhã. Gostas? Laura acenou positivamente. - Há espaço para mais um? - ele perguntou. - Claro...
  14. 14. 14 A voz sensual da mulher foi o impulso que Leonardo necessitou para se livrar das roupas que trazia consigo. Sem hesitações, ele despiu a velha e larga camisola de malha cinzenta e as suas calças de ganga azuis. Também não mostrou cerimónias em desfazer-se dos boxers e do par de meias pretas, atirando-as para o chão. Enfiou-se na banheira. Sentiu a água quente acariciar-lhe o corpo desnudo e o toque das pernas da mulher quase lhe provocaram um choque térmico. A garrafa de vinho, tal como as duas taças que trouxe da cozinha, ficaram do lado de fora, junto à banheira. Ele alcançou-as sem muito esforço e encheu-as até ao topo. Entregou uma taça a Laura e a outra deteve-a na sua mão direita, enquanto a poucos metros de distância, no quarto, o leitor de CDs fazia o favor de voltar a música ao início. Laura bebeu então o primeiro gole e Leonardo acompanhou-a. Quando o líquido amargo entranhou-se-lhes na garganta, ela inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Ele, por seu lado, acariciou-lhe os joelhos perfeitos e beijou-os com devoção. O cheiro a sabonete e o sabor da água salgada impeliram-no a estender o braço e a puxá-la para o seu colo. Deu-se o primeiro beijo, as primeiras carícias e a vontade alucinante de cometer loucuras no interior de uma banheira que em momentos similares parecia minúscula. Após longos minutos de um prazer, Laura soltou um longo gemido, cravou as unhas nas costas do marido e enterrou os lábios húmidos no seu pescoço. Tudo pareceu ganhar um novo sentido. A respiração acalmou, o coração retomou a batida e o cansaço apoderou-se do seu corpo. O mesmo aconteceu com Leonardo, que muito gentilmente a manteve apoiada sobre o seu ombro e lhe acariciou os cabelos molhados até ter a certeza de que o acto havia terminado para os dois. - Acho que a água arrefeceu. - Tens razão – Leonardo concordou e os dois riram-se baixinho. - Vou sair. - Não! Fica! Vamos terminar o vinho. - Tenho frio. - Fica – ele insistiu, tomando-lhe o rosto com as mãos. - Não! Tenho frio… - Vais-me deixar aqui sozinho?
  15. 15. 15 - Tenho frio, já disse! Leonardo soltou um longo suspiro de resignação e permitiu que Laura saísse nua da banheira. Ela alcançou o robe sobre o lavatório e vestiu-se de costas a fim de fugir ao seu olhar desconfiado. Ele sentia que nos últimos tempos ela lhe vinha escapando por entre os dedos sempre com desculpas de que estava cansada, de que tinha sono, de que tinha frio ou até mesmo de que tinha que acordar cedo. Qualquer desculpa servia para manter aquela barreira invísivel e intransponível entre os dois que já se vinha arrastando há vários meses. - Vais ficar aí? – ela perguntou, apertando o cinto do seu robe de seda. - Um pouco mais – Leonardo alcançou a garrafa de vinho junto à banheira. – Já que não me queres fazer companhia. - Estou cansada. Leonardo sorriu, encolheu os ombros e balançou a cabeça como se estivesse à espera daquela resposta. - O que foi!? - ela perguntou, desconfiada. - Isso pergunto eu! O que foi? - Nada. - Está tudo bem? - Está! Porquê?! - Por nada - Leonardo sorriu inigmaticamente. - Apenas perguntei se está tudo bem. - E eu respondi que está! Encontras-me na cama... Quando a mulher abandonou a casa de banho, Leonardo engoliu o resto do vinho que tinha no copo e permitiu que os seus sentidos se perdessem no interior daquela habitação ainda aquecida pelo vapor da água.
  16. 16. 16 A música que vinha tocando desde há vários minutos foi subitamente desligada e o silêncio voltou a apoderar-se da atmosfera. Sem pressas de sair da banheira e sem olhar para o relógio de pulso que deixou sobre o lavatório, o arquitecto permaneceu ali, de olhos fechados, com um copo vazio nas mãos, submerso num quotidiano que tão bem conhecia. Não pensou em nada. Não pensou em ninguém. Pela primeira vez, desde o início da semana, pensou apenas em si. Congratulou-se em silêncio por aqueles escassos minutos de paz.
  17. 17. 17 2 Todos eram unânimes em curvar-se perante a figura imponente de Eduardo Lima. O seu estatuto enquanto um dos melhores Neurocirurgiões do país conferiam-lhe esse privilégio. Eduardo era um profissional de saúde dedicado e competente, mas com um temperamento extremamente difícil e implacável. Era temido por todos, nunca admitindo falhas, falta de profissionalismo e muito menos atrasos. Por esse motivo, quando foi convidado a juntar-se à equipa cirúrgica liderada por Laura Alves – a melhor aluna que alguma vez teve em sua posse enquanto leccionava a disciplina de Neurofisiologia Clínica na faculdade de Ciências Médicas de Lisboa – foi a primeira pessoa a chegar ao local marcado. Fê-lo pontualmente às nove horas da manhã seguindo pelos corredores da clínica, trajado com a sua bata branca habitual. Eduardo jamais aceitou o papel de mero médico assistente numa sala de operações, mas o convite de Laura para fazer parte de uma das cirurgias mais estimulantes da sua carreira, obrigou-o a engolir o seu orgulho e dar o braço a torcer. De facto, não era todos os dias que um Neurocirurgião tinha a oportunidade de extrair dois tumores do cérebro de um paciente. O caso que iriam operar era particularmente complexo. O paciente não possuía apenas um, mas dois tumores malignos em cada hemisfério cerebral. Laura não pensou duas vezes em aceitar o desafio. Passou semanas em inúmeras videoconferências com vários Neurologistas e Neurocirurgiões do país, estudando e traçando o melhor plano cirúrgico. Todos os profissionais que contactou foram unâmimes em confirmar a complexidade do caso e quase todos se mostraram interessados em participar na cirurgia. Laura sabia que o planeamento e a escolha da equipa médica que a iria acompanhar no bloco operatório eram vitais para o sucesso da cirurgia. Por esse motivo, escolheu os melhores profissionais - sendo um deles o seu ex-professor e ex-orientador, Eduardo Lima. O único Neurocirurgião a quem ela reconhecia maior competência que a sua.
  18. 18. 18 A duas semanas da cirurgia, Laura realizou uma biópsia estereotáxica ao crânio do paciente. Baseada na imagem do exame, fez os cálculos com o auxílio do computador, determinando com precisão a localização dos tumores. O paciente foi levado para o centro cirúrgico e sob anestesia local foi submetido a uma pequena incisão no couro cabeludo. Laura abriu o orifício no osso do crânio e introduziu o instrumental cirúrgico guiado com exactidão para alcançar as lesões cerebrais. Finalizou a cirurgia, retirando a agulha e fechando a pequena incisão na pele com pontos simples. Mais tarde, informou ao anestesista destacado para o caso as constatações a que chegou através dos exames médicos. O Anestesiologista, por sua vez, não escondeu todas as contra-indicações, bem como quaisquer suspeitas que pudessem gerar dificuldades ao acto operatório colocando em causa a segurança do doente. Como em todos os procedimentos cirúrgicos, a cirurgia apresentava riscos e complicações. Infecções, sangramentos, convulsões ou a perda parcial ou total de algumas funções cerebrais podiam ser os piores resultados. Mas Laura estava decidida a avançar, ainda que isso significasse a morte do paciente na mesa de operações. - Preparada?! – Eduardo bateu à porta e entrou no consultório sem sequer ser anunciado. - Dr.º Eduardo – Laura cumprimentou-o com um aperto de mão firme. – Como está? - Muito bem! E a Dr.ª? - Expectante! Estava aqui a analisar a última ressonância magnética do paciente. - Posso ver? - Claro. Eduardo colocou os seus óculos de leitura e aproximou-se do ecrã onde se encontravam expostos os últimos exames. - É visível um maior inchaço no segundo tumor – Laura acendeu a luz interna do ecrã. – O líquido cefalorraquidiano está a aumentar no encéfalo e a obstruir estes vasos sanguíneos... - Nada que já não estivessemos à espera.
  19. 19. 19 - Corremos riscos em realizar esta cirurgia, mas não pretendo recuar. - Esta cirurgia é de vida ou de morte! Não há meio termo - a afirmação de Eduardo provocou um frio na barriga de Laura. - A equipa que nos vai acompanhar está formada e o bloco operatório preparado. O paciente irá ser levado para lá dentro de duas horas. - Qual é o plano cirúrgico? - Começaremos primeiro com uma Craniotomia para obtermos o acesso às meninges. Depois faremos uma série de trepanações até chegar à dura-máter. Nessa altura, iremos brocar todas as estruturas dentro da marcação para conseguirmos visualizar os tumores. Sei que vai ser impossível numa primeira etapa removermos completamente as células cancerígenas, por isso, iremos retirá- las parcialmente, e num segundo tempo, após a estabilização do paciente, retiraremos o restante. A biopsia por agulha guiada irá ajudar-nos a extrair o máximo de células por aspiração enquanto monitoramos o nervo facial para que não existam riscos de lesão. Depois de extrairmos a maior parte dos tumores, utilizaremos a gordura do abdómen para fechar a cavidade e para prevenir a formação de fístula. A cola biológica também nos ajudará neste processo... - O importante é não corrermos o risco de destruir as estruturas nervosas do paciente. - É o que eu também acho - Laura voltou a fechar a luz do ecrã. - Queria vê-lo antes de entrarmos no bloco. Está acordado? - Sim! Está no quarto acompanhado por familiares. Mas se quiser, podemos ir até lá. Conversamos um pouco com ele e explicamos mais detalhadamente todo o processo da cirurgia. Infelizmente o senhor está um pouco assustado com tudo isto. - O que é perfeitamente normal para quem tem dois tumores em cada hemisfério cerebral. - Mas estou confiante de que iremos obter um bom resultado - Laura apressou-se a abrir a porta do seu consultório. - Podemos ir?!
  20. 20. 20 - Dr.ª Laura! Antes de irmos gostaria de falar consigo sobre um assunto pessoal... - Diga – a médica manteve-se expectante sobre a porta. - Tenho uma sobrinha prestes a começar o primeiro ano de Internato. Ela decidiu fazer a sua especialização em Neurocirurgia. Algo que confesso ter o meu dedo de culpa… Laura sorriu secamente. - Candidatou-se e acabou por conseguir uma colocação nesta clínica. Foi uma feliz coincidência. - De facto - a expressão de Laura denunciou uma outra resposta. - E quando é que ela começa? - Dentro de poucos dias! Virá falar consigo. - Para quê?! - Laura fingiu não entender quais os objectivos do médico. - Porque será necessário - Eduardo respondeu. - Acho que já deve ter percebido que quero que seja a Orientadora da minha sobrinha, Dr.ª Laura. - Dr.º Eduardo, há três anos que pedi para não ter internos sob a minha responsabilidade. Não tenho a disponibilidade necessária para dar a orientação e o apoio que os Internos necessitam, especialmente durante o primeiro ano de Internato. - Considere este favor como sendo pessoal! De um velho professor… Eduardo sabia exactamente como pedir favores impossíveis de serem recusados e Laura sabia que a poucas horas da cirurgia mais importante da sua carreira, não se podia dar ao luxo de contrariar o seu mentor. Infelizmente, ele soubera escolher o timing na perfeição. - Peça à sua sobrinha para vir falar comigo. Foi a última resposta de Laura após o olhar desafiador que Eduardo lhe lançou.
  21. 21. 21 O paciente deu entrada no bloco operatório completamente anestesiado com a sala operatória composta por dois Neurocirurgiões de renome, um anestesista, três enfermeiros destacados especificamente para as funções de instrumentação, um auxiliar de acção médica e dois assistentes internos. A partir daquele momento, já não havia espaço para falhas ou hesitações. O couro cabeludo do paciente foi totalmente rapado por um dos enfermeiros. A cabeça foi limpa e esterilizada antes da operação. Laura realizou uma grande incisão na cabeça do paciente e repuxou a pele para revelar o crânio. Precisou remover uma grande área a fim de ter espaço suficiente para trabalhar. Numa sala silenciosa e com um ambiente pesado, a médica localizou os tumores e as suas bordas com a ajuda de imagens de ressonância magnética e tomografia computadorizada, estimulando electricamente as funções do cérebro do paciente. Uma pequena parte do tumor foi removida através de uma agulha com um sistema de vácuo, mas ela necessitou também de colocar um tubo fino e comprido, denominado de shunt, num ventrículo cerebral. O tubo foi ligado por baixo da pele e o líquido em excesso retirado do encéfalo e drenado para o interior do abdómen. Neste procedimento pequenas amostras de tecido foram analisadas pelo patologista de serviço. Efectuou-se um diagnóstico preliminar. O definitivo só seria feito alguns dias mais tarde em laboratório. Cinco horas após o início da cirurgia, Laura deu por concluída a primeira etapa. Um assistente limpou o suor que escorria da sua testa e ela inclinou ligeiramente a cabeça para trás a fim de se recuperar da dormência que estava a sentir no pescoço. - Sente-se bem, Dr.ª Laura? – Eduardo perguntou. - Sim, Dr.º Eduardo - os olhares dos dois Neurocirurgiões cruzaram-se atrás das máscaras. - Vamos continuar... Durante a manhã, Leonardo visitou as obras do seu novo projecto imobiliário. Um RESORT de luxo na vila de Cascais, situado num dos melhores pontos turísticos da cidade, com cerca de seis mil e oitocentos metros quadrados e uma vista priviligiada sobre a praia. As construções foram financiadas por um grupo espanhol interessado em apostar no turismo em Portugal. A Leonardo coube a tarefa de conceber, apresentar o conceito e estruturar os planos de construção. Um trabalho extenuante concretizado graças à ajuda de uma equipa competente que o acompanhou durante todo o processo. Por ser um dos arquitectos mais experientes do escritório e também dono de uma parte das acções, Leonardo encarava o seu trabalho de uma forma séria. Sempre
  22. 22. 22 que podia, visitava o local das obras, trajado com o equipamento de protecção, munido de plantas e maquetes e falava com os construtores a fim de planear atempadamente as várias etapas do processo de construção. As reuniões fora de hora também eram uma constante na sua vida profissional, deixando pouco tempo livre para antecipar tarefas tão rotineiras como jantar com os filhos em casa. Sempre que isso acontecia, ele recorria ao telefone para tentar falar com a mulher e juntos arranjarem uma solução. Mas nem sempre ela se encontrava disponível para o atender. - Leo! Não consigo falar com a Laura... Marta, a secretária, tentou pela vigésima vez estabelecer contacto com a mulher do seu chefe. Mas tal como sempre, o telemóvel de Laura encontrava-se desligado. Leonardo recordou-se então que ela lhe havia falado de uma cirurgia muito importante que iria realizar naquela tarde e para a qual tinha passado várias semanas a estudar. Mas eram tantas as cirurgias, tantos os plantões e tantos os atrasos que se tornava praticamente impossível lembrar-se de todos eles. - Lembrei-me agora que ela deve estar numa operação - Leonardo largou os óculos de leitura sobre a secretária e passou as mãos pelo rosto cansado. - Queres que volte a tentar? - Marta manteve-se junto à porta. - Não! Não adianta! Liga antes à Alicia e pede para que ela fique mais umas horas com os miúdos até eu me conseguir despachar da reunião. - Podes deixar! Ligo já... A tarde terminou chuvosa e friorenta, assim como a longa jornada de trabalho de Leonardo após se ter despachado de uma reunião inoportuna com dois novos clientes do escritório.O arquitecto foi o último a abandonar o edifício e a desligar as luzes da sala principal. Pelo caminho ainda tentou uma nova chamada para a sua mulher, mas tal como sempre, o número dela encontrava-se indisponível. Minutos depois ele saiu à rua e despediu-se do segurança de serviço. Chovia torrencialmente e o vento soprava forte. Motivos que o obrigaram a caminhar apressadamente em direcção ao carro imobilizado no parque de estacionamento. Quando lá chegou, ouviu o estalar de um relâmpago. Efectuou um novo telefonema, desta vez à empregada lá de casa e pediu novamente desculpas pelo seu atraso informando-a de que se estava a dirigir para casa dentro de momentos.
  23. 23. 23 Após uma conversa rápida, Leonardo voltou a guardar o telemóvel no bolso do casaco. Abriu as portas do seu BMW e enfiou a sua pasta de trabalho lá para dentro ansioso por terminar um dia que parecia interminável. Mas na altura, ouviu-se um novo relâmpago e uma voz rouca ecoar no meio do parque de estacionamento. - Continuas o mesmo... Leonardo reconheceu a voz de imediato apesar de não a ouvir há muito tempo. A mesma rouquidão, o mesmo sarcasmo e a mesma amargura, misturada com uma doçura fingida. Depois de se recompor do susto, o arquitecto voltou-se para trás e surpreendeu-se com a figura do seu irmão. Ricardo Alves. Também ele continuava o mesmo. Alto, muito mais magro, com os cabelos escuros lisos, a barba ligeiramente por fazer, trajado com umas calças pretas, um casaco de cabedal da mesma cor e um olhar abatido de alguém que parecia não dormir há vários meses. Os dois irmãos ficaram inertes a olhar um para o outro sem saberem o que fazer. Era a primeira vez que se encaravam após quinze anos de uma distância inexplicável. E a chuva tornou-se mais forte. - Ainda te lembras de mim? - É claro - Leonardo sentiu a chuva escorrer-lhe pela face. - Anda! Vamos entrar no carro. - Não, eu... – Ricardo recuou dois passos. - Anda! Pago-te um copo! Vamos… Entraram no veículo em silêncio, completamente encharcados e nenhum dos dois proferiu palavra. Enquanto conduzia pelas ruas da cidade, sem conseguir enxergar o aslfato ou um palmo à frente do nariz, Leonardo manteve-se atento à condução numa tentativa desesperada de não ser obrigado a encarar o rosto do seu irmão mais novo. A sua presença deixava-o constrangido e sem jeito. Não era fácil ver-se na companhia de alguém que desaparecera da sua vida sem qualquer motivo plausível e que agora voltava a ela também sem nenhuma razão válida. Eram dois estranhos. Dois seres humanos que nada tinham em comum apesar de terem nascido do mesmo ventre. Não seria irónico tal facto? Nascer do mesmo ventre e não ter absolutamente nenhum assunto sobre o qual conversar?
  24. 24. 24 Ricardo parecia igualmente nervoso. Distante e frio, tal como sempre fora, mas nervoso. Não falou uma única palavra nem mesmo quando Leonardo estacionou o carro em frente a um luxuoso edifício no centro da cidade. Quando entraram no bar praticamente vazio de clientes, escolheram uma mesa recôndita junto à janela para se sentar. A chuva abrandou, mas os metereologistas já haviam anunciado um enorme temporal para as próximas horas. - Queres beber alguma coisa? – Leonardo perguntou, chamando o empregado do bar com um sinal de dedos. - Pode ser um whisky sem gelo. Enquanto o irmão fazia os pedidos ao empregado de mesa, Ricardo não teve cerimónias em procurar um maço de tabaco no bolso das calças. Acendeu um cigarro e fumou a primeira passa, permitindo que o fumo lhe atravessasse o rosto e as narinas. Pouco tempo depois, o funcionário levou as bebidas à mesa e afastou- se com discrição. Leonardo foi o primeiro a servir-se. Ricardo repetiu-lhe os passos. Enquanto bebiam o primeiro trago, os dois irmãos permaneceram em silêncio provavelmente à espera que o álcool lhes fornecesse alguma coragem para iniciar uma conversa que se adivinhava difícil e constrangedora. Porque tinham passado tanto tempo sem se ver? Porque nunca quiseram saber um do outro? O que os impedia de terem uma relação considerada normal entre dois irmãos? Estas eram algumas das perguntas que permaneciam sem resposta numa mesa onde durante alguns minutos apenas se ouviram o tilintar dos copos. - Por onde tens andado todos estes anos? - Leonardo inquiriu finalmente. - Aqui e ali – Ricardo fumou uma passa do seu cigarro. - A fazer o quê? - Nada de especial. E tu? O que tens andado a fazer? - Casei-me, tive filhos … - Que bom – Ricardo franziu o sobreolho com algum sarcasmo e voltou a fumar um trago do seu cigarro, indiferente à chuva que ainda continuava a cair lá fora. - Tens sítio para ficar? – Leonardo interceptou-lhe o olhar perdido.
  25. 25. 25 - Cheguei hoje de manhã e instalei-me num hotel aqui em Lisboa. - Estás num hotel? - Sim! Mas não pretendo ficar muito tempo. Só tirei umas férias para espairecer a cabeça. - Pois eu faço questão que fiques em minha casa nestas férias. Ricardo demorou algum tempo a acreditar na oferta generosa do seu irmão. - Em tua casa?! - Sim! Há tantos anos que não nos vemos, não conversamos, não sabemos nada a respeito um do outro. E no entanto somos irmãos. Era bom aproveitarmos esta oportunidade, não achas? Além disso, quero que conheças a minha mulher e os meus filhos... O olhar trocado por Leonardo e Ricardo disse tudo. De facto, nenhum dos dois sabia nada a respeito do outro. Após a morte dos pais, vítimas de um terrível acidente de viação, os dois irmãos foram levados para uma casa de protecção de menores. Foram tempos difíceis, tempos de incertezas quanto ao futuro, de privações e de medos. Anos depois foram obrigados a afastarem-se abruptamente. Leonardo, por ser o mais velho, conseguiu uma vaga na Universidade de Arquitectura em Coimbra. A escolha de abandonar a instituição que o viu crescer e consequentemente o seu irmão – o único familiar que ainda lhe restava – ou de prosseguir os seus estudos, consistiu num verdadeiro dilema que o arquitecto se viu obrigado a solucionar sozinho. Um ano após a sua escolha, Leonardo voltou a procurar Ricardo na mesma instituição. Mas na altura foi-lhe dito que o seu irmão já não se encontrava lá. Fugiu meses antes. Fugiu e ninguém se dignou a procurá-lo. Anos depois os dois irmãos trocaram um novo e último contacto. Uma feliz coincidência quando Ricardo assistiu a uma reportagem televisiva feita a um grupo de estudantes de arquitectura. Leonardo era o único português e falava para a câmera com um à-vontade fora do normal. Tinha acabado de vencer o prémio IberFAD em Barcelona com apenas vinte e seis anos de idade. Provavelmente teria sido o orgulho dos pais caso ainda estivessem vivos, mas Ricardo não conseguiu sentir nada mais de um ódio irracional que lhe tomou conta das veias enquanto servia a mesa dos clientes no restaurante onde trabalhava. Soube onde o irmão estava a estagiar pois o jornalista fez questão de lhe perguntar durante a reportagem.
  26. 26. 26 No dia seguinte, Ricardo despediu-se do restaurante onde havia passado os últimos três meses a trabalhar e saiu do Porto com uma mochila às costas. Regressou a Lisboa e procurou Leonardo, não para se aproveitar dele ou para lhe pedir algum dinheiro emprestado, mas sim para se despedir. Para sempre. Estava farto daquela vida medíocre, de contar os tostões ao final do mês e não ver uma luz ao fim do túnel. Em Portugal, contrariamente ao irmão, ele nunca seria ninguém na vida. Ricardo aventurou-se pelo mundo, viajou por quase todos os países da Europa e trabalhou sazonalmente em vários restaurantes e casas nocturnas. Quando completou vinte e três anos meteu-se num avião e viajou para os Estados Unidos a fim de atingir o tão proclamado sonho americano. De qualquer maneira não tinha nada que o prendesse a lugar nenhum. Nem pais, nem família, nem mulher e nem filhos. Em Nova Iorque - uma cidade que nunca dormia - ele de tudo fez. Serviu às mesas, trabalhou numa fábrica alimentar, nas limpezas, entregou correspondências e num rasgo de sorte conseguiu um cargo administrativo numa empresa de telecomunicações. Foi aí que voltou a ganhar o gosto pelos estudos e formou-se em Marketing e Publicidade. Após oito anos de trabalho árduo ganhou uma promoção merecida e passou a chefiar a equipa de Marketing da sua empresa. Viajava quase todas as semanas por entre os estados mantendo contacto regular com as várias delegações e ganhando o triplo do ordenado que auferia aquando do seu primeiro cargo na empresa enquanto office-boy. Ricardo nunca pensou que a sua vida pudesse mudar tanto. Após uma infância miserável e infeliz, parecia ironia do destino não ter de pedir moedas aos turistas na rua, dividir o seu quarto com cerca de dez rapazes da sua idade ou vestir roupas oferecidas por instituições de caridade. O destino, irónico como sempre, encarregou-se de fazer de sua própria justiça. - Vamos?! Passamos primeiro pelo teu hotel para apanhares as tuas coisas. Leonardo levantou-se da mesa quando terminaram as bebidas e vestiu o seu sobretudo ainda molhado da chuva. Ricardo seguiu-lhe os movimentos embora sem muita vontade. Estava exausto devido ao fuso-horário e às nove horas de voo. Chegaram a casa duas horas depois. Leonardo estacionou o carro em frente à sua moradia e Ricardo saiu calmamente do banco da frente sentindo um frio gélido soprar-lhe no rosto. Aguardou a saída do irmão e esperou que este o ajudasse a retirar as malas do porta-bagagens. Eram duas e traziam no seu interior apenas o essencial para umas férias que se adivinhavam curtas e descomprometidas. Ainda sem certeza se havia tomado a decisão certa, Ricardo seguiu o irmão até ao portão principal. Reparou na grandiosidade do jardim bem cuidado, nos três
  27. 27. 27 degraus que levavam à porta principal e na carpete castanha estendida sobre o alpendre com a palavra "WELCOME" inscrita em letras garrafais. De resto, estava escuro demais para ver o que quer que fosse. As luzes da entrada apenas permitiam visualizar a fechadura da porta. Leonardo enfiou as chaves na ranhura e girou a maçaneta. Abriu diante dos olhos do irmão um novo mundo e um extenso corredor às escuras. - Entra – ele disse. – Fica à vontade! Ricardo acedeu ao convite sem esconder um certo desconforto nos passos que o que o levaram até à sala. Reparou na habitação enorme, muito bem decorada e com uma sofisticação fora do normal. Reparou também nos móveis modernos, na parede que abrigava vários quadros abstractos e no tapete bege impecavelmente limpo e aspirado. Os sofás estendiam-se ao longo da habitação em frente a uma televisão repleta de fios e cabos desordenados. Mas para além disso, não havia qualquer outro indício de desarrumação. A sala cheirava a rosas e mostrava-se acolhedora com a luz do candeeiro acesa perto das janelas frontais que davam acesso directo ao jardim. Não havia dúvidas de que tinham sido feitas obras ali. O gosto pela construção e pela arquitectura influenciaram Leonardo a reconstruir grande parte da moradia, tornando-a mais funcional e adaptada às necessidades da sua família. - Boa noite, Sr. º Leonardo... - Boa noite, Alicia! Como estás? - o arquitecto reconheceu a figura simpática e sorridente da sua empregada. - Bem, obrigada. - O João e o André?! Ainda estão acordados? - Não! Os meninos já estão na cama. Jantaram, fizeram os trabalhos de casa, tomaram banho e foram dormir. - E a minha mulher? - A D. Laura ainda não chegou e o telefone dela continua desligado - Alicia lançou um olhar curioso a Ricardo. Não o reconheceu de parte nenhuma. - Há mais alguma coisa que eu possa fazer? O jantar está no forno. É só aquecer...
  28. 28. 28 - Queres comer alguma coisa, Ricardo? - Leonardo interrompeu os pensamentos longínquos do seu irmão. - Não - o último esboçou um ligeiro sorriso. - Estou bem assim. - Então nesse caso podes ir andando para casa, Alicia! Se precisarmos de alguma coisa, por aqui nos arranjamos. Desculpa mais uma vez a demora e obrigado por teres ficado a tomar conta dos miúdos. - Não precisa agradecer, Sr. º Leonardo! Eu adoro ficar com as crianças. A empregada voltou a abandonar a sala perante o olhar atento dos dois irmãos. Nessa altura, Ricardo aproximou-se de um porta-retratos sobre a mesinha da sala. Segurou-o com alguma cautela e encontrou o retrato de uma família feliz. O seu irmão, dois rapazes pequenos e uma mulher especialmente intrigante, dona de uma beleza que ele achou hipnotizadora e que adivinhava ser a cunhada. Mas não foi apenas essa beleza que o impeliu a querer continuar a olhar para ela. Foram antes aqueles olhos verdes que mais pareciam duas estacas prontas a atacar alguém a qualquer momento. Indiferente aos pensamentos absortos do irmão, Leonardo dirigiu-se à janela e fechou as persianas, premindo um botão electrónico atrás dos cortinados. Em seguida, perguntou se este não aceitava uma outra bebida. Ricardo respondeu que sim. Já passava das dez, nenhum dos dois havia jantado, mas a fome pedia um alimento líquido. Mais um whisky. O terceiro da noite. - Aqui tens - Leonardo entregou a bebida ao irmão. - Obrigado! Tens uma bela casa. - Confesso que deu algum trabalho a pôr tudo exactamente como queria, mas acho que o resultado final ficou bastante bom. - A tua família? - Ricardo voltou a segurar o porta-retratos sobre a mesinha. - Sim! A minha mulher e os meus filhos. - Ela não está em casa? - Não! Provavelmente deve ter ficado presa no hospital.
  29. 29. 29 - Enfermeira? Leonardo balançou negativamente enquanto bebia o primeiro trago do seu whisky. - Não! Médica! Neurocirurgiã... Apesar de não ter conseguido remover a totalidade dos tumores por estes se encontrarem em partes que poderiam danificar o cérebro do paciente, Laura fez tudo o que estava ao seu alcance para extrair o máximo de células cancerígenas que conseguisse. Quando a cirurgia finalmente teve fim, às vinte e duas horas e trinta e cinco minutos, Eduardo Lima cobriu a abertura do crânio com uma peça metálica especial para o efeito, procedendo ao último passo com o fecho da incisão do couro cabeludo. Minutos depois o paciente foi levado para a sala de recobro e a equipa médica dispersou-se. O paciente manteve-se em vigilância apertada na unidade de cuidados intensivos, rigorosamente monitorado para que a pressão intracraniana não aumentasse e colocado temporariamente em máquinas que o auxiliaram na respiração. Já passava das vinte e três horas e a chuva continuava a cair lá fora. Agora mais intensa. Após a primeira visita ao paciente desacordado, Laura refugiou-se no seu consultório com uma chávena de café quente nas mãos. Impressionante como aquele líquido já não lhe fazia qualquer efeito, pensou. Não lhe dava e nem lhe retirava o sono. Era quase como água. Uma bebida energética que ingeria desde os quinze anos de idade sempre amarga e sem açúcar. Bebeu-a em goles precisos, mas lentos, observando através da janela o movimento das ambulâncias junto às Urgências. Exausta, passou a mão esquerda pelo pescoço dorido e alcançou um nervo, massajando-o firmemente de forma a aliviar toda a tensão que estava a sentir após ter passado tantas horas de pé. Raios, lembrou-se. Tinha passado doze horas longe de casa, do marido e dos filhos e nem sequer se lembrou de lhes oferecer um único telefonema. Seria normal esquecer-se da sua própria família? Ninguém se esquecia da própria família. Porque é que ela teimava em fazer isso todos os dias? Minutos antes de ir para casa, Laura realizou a segunda visita à unidade dos cuidados intensivos onde o paciente ainda se mantinha anestesiado a recuperar da cirurgia. Falou com alguns enfermeiros de serviço e deu ordens expressas para que a contactassem a qualquer hora da noite caso o quadro clínico do paciente se alterasse. Vendo-se finalmente livre para ir para casa, Laura abandonou outra vez o seu consultório e premiu o botão do elevador ao fundo do corredor. Arranjou os cabelos desalinhados, ajeitou a mala sobre os ombros e manteve a sua gabardina cinzenta debaixo do braço à espera que o elevador chegasse ao terceiro piso. Quando isso aconteceu, as portas abriram-se com um rosto conhecido lá dentro.
  30. 30. 30 - Por favor! Diz-me que só agora vais entrar de plantão! Laura sorriu ao ouvir a declaração de Rita Azevedo, a Enfermeira-Chefe da clínica, mas na altura não foi capaz de fazer muito mais. Estava demasiado cansada para se aventurar em conversas de circustância. - Como é que correu a cirurgia? – Rita continuou a preencher as primeiras fichas de atendimento. – Ouvi dizer que foi um sucesso, mas só acredito ouvindo isso da tua boca. - Correu como o previsto. - Nunca és capaz de dizer que correu bem - Rita sorriu e Laura fez o mesmo. - O Leo? Como é que ele está? - Bem. - E os miúdos? - Também! Apesar de já não os ver há mais de vinte e quatro horas. - Não te preocupes! Eles não se vão esquecer da tua cara só por causa disso. Os risos de Laura e Rita cessaram no minuto em que chegaram ao primeiro piso. Nessa altura, as duas amigas saíram do elevador numa conversa animada. Rita, que se encontrava sempre bem disposta, esbanjando felicidade e humor para todos os que a rodeavam, era a antítese de Laura. Ninguém compreendia como é que duas mulheres tão distintas eram tão amigas. Na clínica poucos ousavam dirigir a palavra a Laura quando ela passava pelos corredores levando no rosto uma expressão altiva e aterradora. O seu temperamento autoritário e arrogante era muitas vezes insuportável aos olhos dos demais. Não era nem um pouco simpática, alegre ou bem-disposta. Na verdade, era a profissional mais seca e desumana que alguma vez trabalhara naquela clínica. Quando jovens, Laura e Rita possuíam amigos comuns e sonhos de se tornarem bem sucedidas. Rita seguiu Enfermagem, e Laura, decidida, aventurou-se numa das áreas mais difíceis de Medicina. Neurocirurgia. Consumidas pelos estudos, as duas amigas afastaram-se sem nenhuma razão aparente. Pouco tempo depois, Laura casou-se e Rita continuou à espera da chegada de um príncipe encantado que na verdade nunca chegou a aparecer.
  31. 31. 31 Após o término do seu Internato e a recusa de uma proposta de trabalho em Londres, Laura conseguiu entrar directamente para o quadro interno da clínica. A sua ascenção meteórica começou aos trinta e três anos apesar de uma breve interrupção aquando da sua gravidez. Mas desde essa data ela nunca mais parou. Aos trinta e nove poucos duvidavam de que se pudesse tornar na sucessora de Eduardo Lima. Tinham o mesmo temperamento, a mesma figura e a mesma sede de vencer. Fora moldada por ele na perfeição. Rita Azevedo também trilhava um caminho de sucesso quando alcançou o merecido cargo de Enfermeira-Chefe. Tinha uma postura profissional diferente de Laura, de certo, mas nem por isso lhe era reconhecida menos competência. Especializou-se na área de Enfermagem Clínica Médica. Era responsável por todo o corpo de enfermeiros e formava as equipas destacadas para os procedimentos cirúrgicos escolhendo a dedo todo os enfermeiros, assistentes e instrumentistas que diariamente entravam no bloco operatório. Duas semanas após Laura ter começado a trabalhar na clínica, as duas amigas esbarraram-se no elevador de serviço. Foi uma surpresa agradável para ambas. Em poucos dias retomaram uma amizade antiga e construíram uma aliança forte num local onde as paredes pareciam ter ouvidos. Rita era a única pessoa em quem Laura confiava cegamente, e vice-versa. - Estive a ver no plano de folgas e sei que no próximo fim-de-semana não vais estar a trabalhar. O que achas da ideia de, eu, tu e o Leo sairmos os três para jantar? - Seria óptimo - Laura assinou o livro de ponto sob o olhar atento de Rita. - Mas não te esqueças que eu e o Leo temos filhos. E os filhos não costumam tirar folgas aos fins-de-semana. - Deixa-os em casa da tua mãe. - A minha mãe não é a melhor pessoa a quem eu possa pedir favores. - Deixa-os com a vossa empregada. - Já andamos a abusar com tantos horários alargados. - Por isso é que nunca vou ter filhos - as duas amigas riram-se alegremente. - Fazes bem - Laura voltou a entregar a caneta nas mãos da recepcionista. - Eu também não teria se pudesse.
  32. 32. 32 O temporal acalmou com o passar das horas, deixando apenas uma chuva miudinha irritante a bater sobre o pára-brisas. Enquanto conduzia o seu jipe pelas ruas da cidade, Laura não afrouxou o pé do acelerador um minuto sequer. Estava desejosa chegar a casa, tomar um banho e cair na cama. Tinha também a clara certeza de que não iria abrir os olhos antes de o amanhecer. E por falar em abrir os olhos, começava a sentir-se sonolenta. Era quase uma da manhã e as estradas encontravam-se praticamente vazias. Se fechasse os olhos, nem que fosse por um minuto, provavelmente não voltaria a acordar. Ela precisava manter-se desperta até chegar a casa. Para isso, aumentou o volume da rádio. Vinte minutos depois, Laura estacionou o jipe em frente aos portões da sua moradia. Não teve forças para enfiar o carro na garagem. Para isso teria que fazer uma série de manobras, colocar o veículo em marcha-atrás, ir para a frente, ir para trás, desfazer o volante, endireitar as rodas e ainda desviar-se do carro do marido para caberem os dois lá dentro. Estacionar era uma tarefa bem mais trabalhosa do que passar doze horas a operar o cérebro de um paciente, ela chegou a essa conclusão quando parou o carro na rua principal e puxou o travão de mão ao mesmo tempo que se desfazia do cinto de segurança. Pronto. Estava feito. Tudo o que não precisava na altura era de mais complicações na sua vida. Quando entrou em casa, largou as chaves sobre a mesinha do corredor. Desfez-se da sua gabardina cinzenta num movimento lento e contínuo e reparou na luz pálida proveniente da sala de visitas. Seguiu até lá, curiosa. Ouviu duas vozes amenas enredadas numa conversa despreocupada. Enquanto caminhava pelo corredor praticamente às escuras, ela reconheceu a voz do marido. A outra? Nunca a tinha ouvido até à data. - Já chegaste?! Leonardo observou a figura da mulher sob o alpendre da porta. Sorriu carinhosamente mas Laura foi incapaz de corresponder ao cumprimento quando se viu confrontada com a presença de um absoluto estranho esparramado no seu sofá. Não soube muito bem porquê, mas a presença daquele homem desconhecido causou-lhe um certo arrepio. Os seus rostos cruzaram-se de uma forma violenta na imensidão daquela sala. Ela sentiu-se ligeiramente desconfortável quando ele lhe mergulhou nos olhos sem pedir permissão. - Demoraste. - Fiquei presa na clínica - Laura cedeu um beijo ao marido sem conseguir desviar os olhos do homem que se encontrava na sua sala.
  33. 33. 33 - Já comeste? - Sim...- ela mentiu. - E tu? - Como demoraste a chegar, fizémos um lanche na cozinha com os restos do jantar que a Alicia deixou no forno. - Os miúdos?! - Já estão a dormir - Leonardo acariciou o rosto da mulher. - Tentei ligar-te várias vezes hoje. - Vi as tuas chamadas agora há pouco, mas tinha o telemóvel desligado. - Bem, tenho a certeza que vocês ainda não se devem conhecem - o arquitecto lembrou-se de fazer as apresentações. - Laura, este é o Ricardo, o meu irmão! Ricardo, apresento-te a Laura! A minha mulher… Ricardo levantou-se calmamente do sofá com um olhar avaliador. Aparentemente aprovou o que viu. Sim, ela era bonita. Na verdade, impressionante. Trajada com umas simples calças de ganga, uma camisola preta com um decote em V e os cabelos ligeiramente desalinhados presos por um rabo-de-cavalo, para Ricardo não havia nenhuma mulher que se assemelhasse tanto à perfeição. Reparou na sua figura esbelta e na beleza natural que o seu rosto desprovido de maquilhagem exibia. A fotografia não lhe mentira. Era inevitável um ser humano não se perder por aqueles olhos verdes. - Prazer! Como estás? - ela estendeu a mão direita. Ele agarrou-a com a mesma formalidade. Era quente, longa e macia. - Bem, obrigado! O prazer é todo meu. - O Ricardo estava a viver nos Estados Unidos e veio passar umas férias a Portugal. Convidei-o para ficar cá em casa. Lembraste de eu ter-te falado várias vezes sobre ele, não? - Leonardo encontrou os cabelos da mulher e mexeu neles com carinho. - Há muitos anos que não nos víamos. - Sim! Lembro. - Convidei-o para ficar cá em casa.
  34. 34. 34 Ricardo pressentiu o desconforto latente no rosto da cunhada. - Já disse ao Leo que não queria incomodar. - Não é incómodo nenhum - Laura não conseguiu desviar os olhos dele. - Podes ficar o tempo que quiseres. Laura mentia categoricamente acerca de tudo. Ricardo percebeu isso no momento em que ela abriu a boca. Seguiu-se uma nova troca de olhares. Intensa. Asfixiante. Tão submerso na alegria de conseguir reunir a família pela primeira vez, Leonardo não se deu conta do profundo fascínio que transbordou dos olhos do seu irmão quando este encarou o rosto da sua mulher e o dissecou até à exaustão. Também não percebeu a respiração suspensa de Laura, a sua face vermelha e o nervosismo por se ver diante de um homem que parecia despi-la a cada minuto com um novo olhar. - Peço desculpas, mas estou mesmo muito cansado - Ricardo disse. - Eu levo-te até ao quarto de hóspedes - Leonardo apontou-lhe o caminho em direcção às escadas. - Lá vais poder tomar um banho, descansar e pôr-te mais à vontade. Ricardo não se coibiu a lançar um último olhar insidioso à cunhada e a desejar-lhe boa noite, mas ela não respondeu. Quando ele abandonou a sala na companhia do irmão, Laura sentiu um cheiro intenso a tabaco. Um aroma tóxico que a inebriou durante alguns instantes e que permaneceu entranhado na sua sala como se de uma praga se tratasse. O marido havia-lhe falado muitas vezes no irmão. Contava como havia sido a infância dos dois, a obrigatoriedade da separação, o último contacto telefónico a poucos dias de Ricardo se perder no mundo e a tristeza de nunca ter tido quaisquer notícias dele. Contudo, com o passar dos anos as referências tornaram-se dispersas, e nos últimos tempos, praticamente inexistentes. Laura também nunca se interessou em saber mais detalhes acerca daquela história ou os motivos que levaram os dois irmãos a seguir caminhos diferentes. Não era algo que a entusiasmasse ou que lhe dissesse respeito. Também não pensou que um dia fosse conhecer o cunhado ou vê-lo em sua casa. Uma figura abstracta, sempre o viu assim. Uma figura abstracta que a partir daquela noite se tornou real.
  35. 35. 35 - Nem fazia ideia de que ele estava em Portugal – Leonardo terminou de escovar os dentes sob o lavatório da casa de banho. – Apareceu-me hoje no escritório e eu não tive outro remédio a não ser convidá-lo para ficar cá em casa. Fiz mal? - Quanto tempo é que ele vai cá ficar? – Laura passou um creme pelas pernas sem se mostrar particularmente interessada na conversa do marido. - Não sei! Algumas semanas, penso eu - Leonardo fechou a torneira e limpou a boca à toalha. - Porquê? Não queres que ele fique? Laura pensou várias vezes em dizer a verdade, mas na altura tudo o que conseguiu oferecer foi uma resposta politicamente correcta. - É o teu irmão. - Não gostaste de o ver cá em casa, não foi? Percebi isso pela tua cara lá em baixo. - Imagina chegares a casa e encontrares a minha irmã esparramada no teu sofá. - Tu não tens irmãs - Leonardo brincou. - Percebeste o que quis dizer. - São só algumas semanas! Nem sequer vais dar pelo tempo a passar – Leonardo agachou-se perante a mulher e beijou-a carinhosamente na face. – Além disso, é importante para mim tentar recuperar a relação que um dia tive com ele. Quem sabe não voltamos a ser amigos? - Tudo bem, Leo - Laura desviou-se dos braços do marido. - Vamos dormir!? - Vai tu primeiro! Ainda vou tomar banho. - Queres companhia? - Um banho rápido - Laura empurrou os ombros do marido depois de este a ter beijado nos lábios contra a sua vontade. - Vai! Encontramo-nos na cama... - Não demores! Vou estar à tua espera.
  36. 36. 36 Intenso e tóxico. Podia ser sentido a quilómetros de distância. Ela teve essa impressão quando voltou a passar as mãos pelo rosto e pelos cabelos molhados. Subitamente foi como se o perfume do cunhado se tivesse entranhado no seus braços, no seu pescoço e nas suas mãos. Cheirou-se como para ter a certeza que estava enganada, mas sentiu o mesmo odor a tabaco tão ou mais forte do que nunca. Num rasgo de insanidade, voltou a atirar-se para debaixo do chuveiro a fim de retirar de si aquele cheiro hediondo. Lavou o rosto, as mãos, os braços e as pernas. Saiu da cabina, enrolou-se numa toalha branca e passou um creme perfumado pelo corpo. Minutos depois já se encontrava pronta para ir dormir, mas contrariamente a todas as outras noites, o seu primeiro pensamento não foi para o marido e nem para a vontade incontrolável de o encontrar na cama. Pela primeira vez foi o cunhado quem preencheu os seus pensamentos mais secretos e ela não teve outro remédio a não ser odiar-se por isso quando apagou a luz da casa de banho. - Estás cansada? - Leonardo sussurou-lhe aos ouvidos e abraçou-a por trás quando ela se enfiou na cama. - Muito - Laura respondeu, sem entusiasmo. - Pois eu não! Tenho saudades tuas... O marido usava sempre as mesmas frases quando queria fazer amor. Tenho saudades tuas. Preciso de ti. Amo-te. Às vezes, Laura desejava que ele mudasse o repertório, que lhe dissesse palavras obscenas aos ouvidos ou a possuísse sem pedir permissão. Mas Leonardo não era assim. Até na cama era cerimonioso e educado. Começou por colocar a mão na sua coxa e subiu a sua combinação de dormir até à zona do abdómen. Tocou-a devagar, com carinho e soprou-lhe um hálito quente no pescoço. Ela virou o rosto e ele encontrou-lhe a boca, beijando-a com sofreguidão. Apertou-lhe os seios, mordiscou-lhe os ombros adocicados e disse em voz baixa que a amava e que ela era a mulher da sua vida. Sentindo-se culpada por não ter conseguido responder o mesmo, Laura desfez-se das suas cuecas brancas e permaneceu de costas voltadas, permitindo que o marido a penetrasse por trás. Não era a primeira vez que fazia aquele sacrifício. Também não era a primeira vez que olhava para os ponteiros do relógio sobre a mesinha de cabeceira contando os minutos e desejando que o marido terminasse aquela tarefa o mais depressa possível. Porque para ela, nos últimos tempos, fazer amor tinha-se tornado numa enorme e difícil tarefa. O único problema é que o marido nem sequer desconfiava disso.
  37. 37. 37 3 Guilherme de Oliveira E Prado, apelidado na clínica como o paciente dos dois tumores, abandonou a ala dos cuidados intensivos e foi encaminhado para um quarto particular com uma óptima vista sobre um dos poucos parques naturais da cidade. Não era toda a gente que conseguia pagar um quarto daqueles ou um tratamento tão diferenciado. Apenas banqueiros como era o seu caso. A clínica São João de Deus orgulhava-se de receber pacientes destes, do mais alto calibre, dispostos a gastar as fortunas que roubavam ao Estado a fim de realizar tratamentos médicos para poderem salvar a própria pele. E o hospital agradecia a gentileza ao ver cerca de cem mil euros a entrar em caixa numa única transferência bancária. Mas para Laura não era o dinheiro que estava em causa. Também não lhe importava ter operado um dos homens mais ricos do país, mas sim os resultados dessa operação. A recuperação de Guilherme surpreendeu até os mais cépticos. Em apenas três dias saiu dos cuidados intensivos e deixou de respirar artificialmente. O pós operatório decorreu sem intercorrências. Manteve drenagem ventricular externa de segurança até ao terceiro dia e o TAC cerebral não revelou complicações hemorrágicas ou hidrocefalia. Sentia-se apenas sonolento e algo fatigado, mas isso eram sintomas absolutamente normais, a médica avisou. Guilherme recebeu a visita da mulher e dos filhos. Recebeu também a visita da amante. Nos primeiro dias realizou exercícios de respiração para ajudar a manter os pulmões limpos e começou a movimentar algumas partes do corpo. Na última semana de Novembro, Laura surgiu-lhe no quarto acompanhada por uma enfermeira de serviço. A médica efectuou novos exames de rotina a fim de avaliar a sua orientação. Observou-lhe o interior dos olhos, a locumoção dos braços e das pernas, pediu para que soletrasse algumas letras apenas para se certificar de que a fala não havia sido afectada pela cirurgia, e por fim, recebeu os exames das mãos de uma assistente. Os resultados não poderiam ser mais animadores.
  38. 38. 38 - Tenho uma boa notícia para si, Sr.º Guilherme - Laura enfiou uma caneta no bolso frontal da sua bata. - Consegui finalmente arranjar-lhe um óptimo fisioterapeuta para o ajudar a restabelecer o equilíbrio e também a desenvolver algumas das suas atividades diárias. Falei com ele ainda há pouco. Chama-se Rafael Assunção e é um profissional bastante competente. Tenho a certeza que vai gostar dele e de que se vão dar muito bem. - Podia ter escolhido uma mulher – Guilherme não resistiu a fazer a observação enquanto oferecia o seu braço à enfermeira de serviço para que esta lhe medisse a tensão. - Não me importava de ter uma fisioterapeuta parecida consigo. Laura lançou um olhar aterrador àquele homem hediondo que passava a vida a assediar todas as mulheres que atravessavam o seu caminho. Ele gelou de medo. Nunca se sentiu tão intimidado por um ser do sexo feminino. - Perdão, Dr.ª! Foi uma brincadeira - Guilherme percebeu imediatamente o risco que havia pisado. - Ainda não sabe quando é que posso sair daqui? - Dentro de três semanas. Mas ainda vamos falar melhor sobre isso – Laura voltou- se para a enfermeira e num tom seco e formal perguntou-lhe: – Então, Sara?! Como é que está a tensão? - Normal! 12/7... Laura despediu-se formalmente de Guilherme e abandonou o quarto em seguida. Aquele homem provocava-lhe náuseas, ela pensou. O seu ar propotente era o antídoto perfeito para o seu bom-humor e deixava-a com um síndrome de irritabilidade aguçado. Mas infelizmente não havia nada a fazer. Iria ter que o aturar por mais algumas semanas até se ver finalmente livre dele. E a única boa lembrança seriam apenas aqueles benditos tumores que lhe retirou da cabeça. Pelo caminho, enquanto caminhava apressada em direcção ao elevador, Laura anotou alguns dados clínicos na ficha de Guilherme. Informações básicas que poderiam ser escritas de pé com uma letra desajeitada que mais ninguém compreendia a não ser ela própria. Quando entrou no elevador, alcançou o seu relógio de pulso e viu que nele estavam assinaladas treze horas e vinte minutos. Infelizmente naquela tarde tinha muito pouco tempo para almoçar. Quinze minutos apenas. - Drª Laura…!
  39. 39. 39 Laura ouviu uma voz de uma auxiliar de serviço chamar por si ao fundo do corredor. - Diga! - Tem uma menina à sua espera - a auxiliar afirmou, afogueada. - Diz que veio falar consigo. Pedi para que a aguardasse junto ao seu consultório. - Quem é?! - Laura perguntou rispidamente. - Esqueci-me de perguntar o nome. Desculpe, Dr.ª... Ao aproximar-se do seu consultório, Laura avistou uma jovem rapariga sentada no banco de espera. A mesma exibia cabelos lisos, escuros, pelos ombros, olhos castanhos e uma fisionomia ligeiramente pálida. Vestia umas calças de ganga justas ao corpo, camisola cinzenta e um blazer preto de mangas arregaçadas. Encontrava-se agarrada a uma pasta castanha e olhava incessantemente para o relógio como se estivesse à espera de alguém. Neste caso, de Laura. Quando a avistou de longe, a jovem pulou da cadeira e colocou-se em posição recta. Reconheceu Laura sem que esta precisasse sequer abrir a boca. A sua fama já corria em seminários, conferências, outros hospitais e até mesmo nos corredores daquela clínica. A sua presença era temida por todos havendo inclusive quem a chamasse secretamente de Rainha do Gelo tamanha a sua frieza perante situações adversas. Era também mais bonita ao vivo do que nas fotografias. Apesar dos cabelos desalinhados presos por um gancho de madeira e da sua bata branca largueirona que lhe cobria grande parte do corpo, Laura era uma mulher capaz de chamar a atenção de qualquer ser humano que se aproximasse de si. Até mesmo de uma mulher. - Dr.ª Laura Alves!? - Sim. - Olá! Muito prazer! Meu nome é Joana Lima. - Prazer – Laura aceitou o aperto de mão após um longo minuto de pausa. - Não me está a reconhecer, pois não?! - Era suposto?
  40. 40. 40 - Sou a sobrinha do Dr.º Eduardo Lima. Já tinha vindo duas vezes esta semana à sua procura, mas diziam-me sempre que a Dr.ª andava ocupada. Hoje resolvi a arriscar novamente. - Tenho quinze minutos! Entra... A resposta de Laura saiu seca e autoritária, mas ainda assim, Joana acedeu ao seu convite entrando no consultório com alguma cautela e com um brilho no olhar próprio de uma jovem prestes a iniciar o seu primeiro ano de Internato. O espaço não era grande, ela reparou. Abrigava dois cacifos, um bengaleiro junto à janela coberto por uma gabardina cinzenta e um pequeno divã encostado à parede desprovida de quadros ou outros adereços desnecessários. Aliás, de certa forma, todo o consultório de Laura não parecia conter qualquer objecto desnecessário. Era frio e impessoal. Tal como ela. Sobre a secretária cheia de pastas, arquivos e livros, Joana vislumbrou dois porta- retratos que exibiam os rostos de um homem elegante na casa dos quarenta e de duas crianças praticamente idênticas. Era o único objecto com algum simbolismo ou que transmitia qualquer tipo de humanidade. Joana imaginou em silêncio quem seriam aquelas três pessoas. O marido? Os filhos? No entanto, enquanto os seus pensamentos mundanos vagueavam por assuntos que não interessavam a ninguém, a voz imponente da sua futura Orientadora trouxe-a de volta à realidade. - Senta-te - Laura apontou uma cadeira. - Obrigada. - Joana! Joana o teu nome, não é?! - Sim - a jovem abriu um sorriso radiante que não foi de todo correspondido. - Joana, vou-te ser sincera! Eu apenas aceitei ser a tua Orientadora porque o teu tio me pediu um favor pessoal. Mas tal como já deves ter reparado, o meu tempo é escasso. - Eu sei. - Por isso ainda estás a tempo de escolher um outro Orientador que te possa dar uma melhor preparação.
  41. 41. 41 - Fui eu que pedi ao meu tio para ser a minha Orientadora. Nestes últimos anos tenho seguido atentamente o seu percurso profissional. Sei que a Dr.ª pertence ao quadro de honra desta clínica e que é a cirurgiã com mais horas em bloco operatório. Soube também que ganhou três prémios de excelência nos últimos cinco anos, que já publicou vários artigos em revistas da especialidade e que teve um papel importante numa investigação internacional sobre tratamento da Doença de Parkinson, premiada pela BIAL! Além disso, o meu tio contou-me que ele foi o seu Orientador durante o Internato que fez no hospital Santa Maria. A melhor Interna que teve até hoje, segundo as palavras dele. Também soube da cirurgia que fizeram ao paciente dos dois tumores. Foi um sucesso. Portanto, acho que isto tudo me basta para a querer como minha Orientadora. Não quero mudar. Vou ficar consigo - o sorriso de Joana saiu debochado. - Vejo que estás muito bem informada a meu respeito - Laura cerrou os olhos, irritada com a petulância daquela jovem. - Pode-se dizer que sim. - Vamos ao que interessa? - Claro - Joana acedeu com um sorriso. - Quando concorreste ao Internato Médico, espero que te tenham dito que o primeiro ano iria ser aquilo a que costumamos chamar de Ano Comum... - Sim, eu… - Ouve-me e não me interrompas – a voz autoritária de Laura obrigou Joana a calar-se de imediato. – Neste primeiro ano em que vou ser a tua Orientadora, irás ter uma formação generalista dada por mim e também por outros médicos da clínica. O que é pretendido com este ano é garantir a tua capacitação profissional não só na especialidade que pretendes seguir mas em toda a Medicina. Por outras palavras, não irás apenas aprender a especialidade de Neurocirurgia mas um rol muito mais vasto de conhecimentos. Só muito depois, no último trimestre, é que irás concorrer para uma fase de Internato na área profissional de especialização ao lado de outros internos que também entraram este ano. Por isso é bom que tenhas uma boa nota nesse exame para que consigas seguir a especialização que escolheste. - Vai-me ajudar nesse exame?
  42. 42. 42 - Como tua Orientadora, essa é uma das minhas obrigações - Laura ignorou a sinalização do seu BIP sobre a secretária. - Mas agora deixa-me falar-te sobre o Ano Comum. Este ano irá prolongar-se por doze meses e será composto por vários estágios diferentes. Os primeiros quatro meses destinam-se à Medicina interna. Os três meses seguintes aos cuidados primários, dois meses na cirurgia geral, mais dois meses na pediatria, e por fim, um mês na obstetrícia. Mas durante estas fases não serás autónoma. Existirá sempre alguém a supervisionar-te, e na maioria das vezes, essa pessoa serei eu. Como já deves saber, não estás apta a tomar quaisquer decisões sem a consulta prévia de um supervisor ou de um médico graduado. Se o fizeres serás punida pela OM e acredita que irás arranjar muitos sarilhos, quer para mim, quer para a clínica. Por isso um conselho que te dou é que contes até cem sempre que pensares em tomar qualquer decisão aqui dentro. - Eu só não queria passar o ano todo a preencher fichas de pacientes - a afirmação de Joana soou impertinente. - Não me leve a mal, Dr.ª! Mas é que tenho uma amiga que também está a fazer o Internato em Cardiologia Pediátrica no Hospital São José, começou o ano passado e até hoje a única coisa que faz é preencher fichas... - À medida que os anos do teu Internato forem passando irão ser-te concedidas mais competências e uma aquisição gradual de autonomia - Laura ignorou as declarações infantis e desajustadas da sua nova Interna. - Irás também ter mais responsabilidades para além de preencher fichas de pacientes. Mas se queres realmente que te diga, também é importante saber como se devem preencher estas fichas pois um simples erro de caligrafia pode ditar a morte de um paciente. Joana calou-se, esmagada pela resposta de Laura. - Sempre que tiveres uma dúvida, por mais estúpida e inútil que pareça, e já vi que tens muitas, não hesites em perguntar-me. Eu vou estar aqui para te esclarecer e não vou descansar até ter a certeza que percebeste bem aquilo que te expliquei. - Tudo bem. - Tens alguma dúvida? - Por enquanto não. - Óptimo – Laura levantou-se da secretária e permitiu que Joana também fizesse o mesmo. – E com isso já se passaram os quinze minutos que tinha para almoçar.
  43. 43. 43 - Desculpe, Dr. ª! Não queria ocupar a sua hora de almoço. - Vem comigo – Laura alcançou o seu BIP sobre a secretária. - Mas eu não ia começar o meu Internato só na segunda-feira? - Não! Começas hoje... Laura abandonou o consultório sem esperar que Joana se recuperasse do susto em iniciar o Internato sem qualquer preparação psicológica. Nervosa, a jovem saiu e aguardou que a médica fechasse o gabinete à chave. Minutos depois as duas seguiram em silêncio pelo corredor e entraram no elevador de serviço, aguardando que este descesse ao primeiro piso. Laura manteve-se de costas com as mãos enfiadas nos bolsos da sua bata, escassos metros mais à frente, indiferente ao olhar curioso da sua Interna. Não lhe dirigiu a palavra e nem sequer fez questão de lhe olhar no rosto. Durante breves instantes Joana sentiu-se absolutamente invisível e continuou a sentir-se assim quando Laura a levou para a ala das Urgências. O recinto encontrava-se repleto de crianças, adultos e os gemidos de um senhor jogado numa maca ao fundo do corredor. Não foi uma visão paradisíaca mas ainda assim Joana encheu o peito de coragem e continuou a seguir os passos apressados da sua Orientadora. Era ali que iria trabalhar nos próximos doze meses e agarrar com unhas e dentes a profissão que parecia destinada a todas as pessoas da sua família. O pai era Cardiologista, a mãe Pediatra, e o tio, simplesmente o melhor Neurocirurgião do país. Joana não queria desiludir ninguém e nem defraudar as expectativas depositadas em si. Sonhava um dia ser como o seu tio e tornar-se na sua substituta. Sempre o admirou desde pequena e na família havia o orgulho de ser a sobrinha do grandioso Eduardo Lima. O fascínio por ele aumentou de uma forma exponencial com o passar dos anos, chegando ao ponto de Joana optar por seguir a mesma área de especialização do tio apenas para ter um pouco da sua atenção e admiração. A mesma admiração que Eduardo parecia nutrir por Laura. A melhor Interna que me passou pelas mãos até hoje, dizia constantemente sem conseguir esconder o brilho que lhe atravessava os olhos sempre que se referia à médica e se dava conta de que possivelmente havia formado a sua futura substituta. Sempre que o nome da médica surgia de forma espontânea nos almoços ou jantares de família, o queixo de Joana tremia de raiva. Ainda que nunca a tivesse conhecido pessoalmente já a odiava por achar que ela ocupava um lugar que deveria ser seu.
  44. 44. 44 Nos últimos três anos passou a investigar a sua carreira de forma compulsiva através de artigos publicados em revistas da especialidade, de vários sites na Internet, seminários e conferências a que era convidada a participar. Viu-a pela primeira vez em cima de um palco trajada com um fato preto formal e os óculos sob a ponta do nariz falando num tom monocórdico, mas seguro. A sala inteira parecia ouvi-la com atenção. Laura tinha o dom da palavra e sabia expressar-se exemplarmente. Aquando do término da conferência, Joana bem tentou aproximar-se, mas na altura não teve coragem. Uma força maior impediu-a de cometer tamanha ousadia e obrigou-a a manter-se à distância enquanto Laura desaparecia por entre a multidão, acompanhada por um médico Cardiologista e uma funcionária do hotel que os encaminhou até ao elevador. Antes das portas se fecharem, Joana viu a última imagem de Laura a rir-se às gargalhadas com uma piada contada pelo seu colega. Concerteza seria uma pessoa muito simpática e feliz, houve essa ligeira impressão. Mas agora que a conhecia pessoalmente, Joana começava a duvidar disso. Dentro da clínica, durante o horário de trabalho, Laura era tudo menos uma pessoa simpática e feliz. - Dr.ª! Ainda bem que a encontro... - uma enfermeira de serviço interceptou Laura a meio do corredor e obrigou-a a abrandar os passos. - Uma criança com sintomas de traumatismo craniano. Os pais foram vítimas de um acidente de automóvel, mas foi o filho a sofrer lesões porque não levava o cinto de segurança no banco de trás. Precisamos de um médico para o analisar. - Onde está a criança? - Sala três. Cama quatro. Espero que não esteja muito ocupada. - Vamos – Laura voltou-se para Joana e num tom seco ordenou-lhe: – Vem comigo! Enquanto ouvia discurso nervoso e confuso dos pais da criança acidentada, Laura realizou um exame físico completo dando especial atenção ao nível de consciência, à mobilidade, aos reflexos, aos ouvidos, pulso, pressão arterial e a frequência respiratória do menino. Mais tarde, analisou o diâmetro das pupilas, a sua reacção à luz e o interior dos olhos com um oftalmoscópio para determinar se houve ou não um aumento da pressão intracraniana. Por sorte o traumatismo não havia sido grave e o TAC pôde comprová-lo. - Vamos mantê-lo em observação até amanhã só para ter a certeza que está tudo bem e que o hematoma não sofreu qualquer tipo de evolução – Laura concluiu após o resultado dos exames.
  45. 45. 45 - Mas ele está bem, Dr.ª?! – a mãe da criança mostrou-se aflita durante todo o processo. - Em príncipio está! Mas quando se trata de traumatismos cranianos, especialmente em crianças, todo o cuidado é pouco. Ele ainda tem um pequeno inchaço na parte superior do crânio e algumas dores, mas os antibióticos que vou receitar vão diminuir esse inchaço e fazê-lo sentir-se melhor. - Obrigada, Dr.ª... O primeiro dia de Internato correu tudo, menos bem. Joana atrapalhou-se em algumas situações e percebeu que trabalhar activamente num hospital era bem mais complicado do que fazer pequenas experiências em laboratórios ou analisar tecidos mortos através de um microscópio. Trabalhar num hospital era cansativo, extenuante, desafiador e aterrorizante. E trabalhar ao lado de Laura, era tudo isso e muito mais. O ódio que um dia sentiu por ela passara por várias fases, agora tinha-se estagnado numa admiração extrema quase obsessiva. Era impossível ignorá-la ou manter-se indiferente à sua presença. A sua simples presença. Impossível ignorar-lhe as costas bem formadas, a maneira imponente como se movimentava nos corredores da clínica ou como se apresentava perante os demais. Enquanto conhecia todos os cantos do hospital onde iria trabalhar, Joana deu-se muitas vezes consigo a olhar para aquela criatura que agora lhe causava um certo fascínio. Queria privar da sua companhia. Queria conhecer todos os detalhes da sua vida. Queria ser como ela. E para isso, tinha todo o tempo do mundo.
  46. 46. 46 4 O Inverno chegou em força. As chuvas torrenciais continuavam a cair na cidade de Lisboa, inundando casas, ruas e estradas. O vento também soprava forte e não havia previsões de melhorias para os próximos dias. Laura estacionou o carro em frente ao colégio dos filhos debaixo de uma chuva avassaladora. Saiu mais cedo do hospital, após um plantão de vinte e quatro horas que a manteve longe de casa e a obrigou a perder a prova de natação dos filhos. Para se redimir de mais uma falha imperdoável, ela telefonou ao marido e informou-o de que iria buscar as crianças à escola. Leonardo agradeceu o gesto. Congratulou-se com a ideia dos filhos passarem pelo menos algumas horas na companhia da mãe já que eram raros aqueles momentos. Laura passava a vida a trabalhar e sobrava-lhe muito pouco tempo para estar com a família. Mas ver as suas crianças através do espelho retrovisor, a brincarem entre si e a enorme algazarra que faziam enquanto contavam todos os detalhes do seu dia na escola, conferia-lhe um sentimento de paz. Como se apesar de tudo ela não estivesse a ser penalizada pelo pouco tempo que passava com eles ou por estar a perder grande parte do seu crescimento físico. Regressaram a casa uma hora depois. Laura abriu as portas do seu jipe e as crianças saltaram do banco de trás depois de se desfazerem dos respectivos cintos de segurança. A chuva continuava a cair forte e intensa, motivo pelo qual os pequenos correram em direcção aos portões sem olhar para trás ou sem ajudar a mãe com os sacos das compras e as mochilas deixadas no porta-bagagens. Coube-lhe a tarefa de trazer tudo nas mãos e ainda abrir a porta para que os filhos entrassem pelo corredor adentro aos gritos. Com o tempo, ela habituou-se a bloquear a mente e a ignorar-lhes o barulho ensurdecedor. Um mecanismo de defesa que criou e que actualmente a impedia de enlouquecer.
  47. 47. 47 - Vieram com fome?! - a empregada perguntou, sorridente, recebendo um beijo de de João e André quando estes correram até à cozinha desejosos de encontrar um lanche delicioso à sua espera. - Sim - os pequenos gritaram em uníssono. - Então é só sentar aí que eu faço um chocolate quente e uma tosta mista para cada um. E as aulas como correram? - Alicia abriu as portas do frigorífico. - Bem - André respondeu, sentando-se à mesa. - A melhor parte foi o final. A resposta de André trouxe enormes gargalhadas a todos os que se encontravam na cozinha. Alicia adorava o seu jeito espontâneo e divertido. Apesar de traquinas, era uma criança adorável, tal como seu irmão gémeo. Mas as suas personalidades eram completamente diferentes. João era reservado, doce e estudioso. Assemelhava-se sobretudo ao pai, incapaz de cometer actos que os outros pudessem não achar certo. Muitas vezes a sua presença tímida era engolida pela capacidade inata do irmão em centrar todas as atenções para si. Mas os dois complementavam-se na perfeição e eram muito unidos. A vantagem de se ter um irmão gémeo era precisamente essa. A de nunca nos sentirmos sozinhos. Laura entrou na cozinha pouco tempo depois. Deixou as mochilas dos filhos junto às escadas e trouxe três sacos de compras adquiridos num supermercado perto de casa. Ao ver a sua patroa carregada de compras, Alicia apressou-se a ajudá-la. Tomou-lhe os sacos das mãos e depositou-os sobre a bancada. Desejou boa tarde e Laura respondeu ao cumprimento com um cansaço visível no rosto enquanto se desfazia da sua gabardina encharcada pela chuva. Sempre que se encontrava na presença da patroa, Alicia sentia-se constrangida. Laura não lhe dava qualquer espaço de manobra para tentar uma aproximação ou uma conversa menos formal. Contrariamente ao marido e aos filhos que a tratavam quase como um membro da família, Laura mantinha a mesma distância desde que ela começara a trabalhar lá em casa. Havia pelo menos três anos e Alicia continuava a estranhar o facto da patroa muitas vezes não se lembrar sequer do seu nome. - Chegaram estas cartas hoje para si e para o Sr. Leonardo - Alicia encontrou três envelopes em cima do microondas e entregou-os a Laura. - Obrigada. - O jantar está pronto. Deixei tudo na geladeira. É só tirar e aquecer...
  48. 48. 48 - Tudo bem - Laura manteve-se concentrada na leitura das cartas que haviam chegado durante a manhã. Apenas contas para pagar, reparou. - Vou preparar o lanche dos meninos. Alicia sorriu aos pequenos e afagou-lhes a cabeça enquanto se dirigia à despensa para buscar o chocolate em pó. André ligou o televisor sobre a bancada para ver com o irmão os últimos desenhos animados da tarde. Minutos depois, Alicia regressou à cozinha com uma embalagem colorida nas mãos. Tirou dois copos dos armários e encheu-os de leite, colocando no seu interior várias colheres de chocolate até o líquido se tornar castanho e homogéno. Em seguida, levou os copos em direcção ao microondas e aqueceu-os durante sessenta segundos. Quando os retirou, a fumegar, serviu-os aos pequenos levando também à mesa duas todas mistas acabadas de sair da torreira. - Esperem esfriar um pouco, meus amores - ela avisou às crianças. - Está quente - André tocou o copo com os dedos das mãos. - Quer que também lhe prepare um lanche, D. Laura? - Não, não é preciso - a médica largou os envelopes em cima da bancada com um longo suspiro. - E já te podes ir embora. - Não - André protestou de imediato. - Não vás, Alicia! Fica aqui! Ontem prometeste que nos ias ajudar a passar aquele nível no jogo. - E tem que ser hoje - João colmatou a resposta do irmão, cruzando os braços de uma forma mimada. - Eu sei, meninos! Mas... - A Alicia vai-se embora porque o horário dela acabou - Laura interceptou qualquer desculpa que a empregada pudesse fornecer aos seus filhos. - E depois do lanche, não vai haver jogo para ninguém. Depois do lanche, é subir, tomar banho, fazer os trabalhos de casa, jantar e cama. Entendido?! Alicia não deixou de se sentir surpresa com a dureza de Laura para com as crianças. Muitas vezes não havia cuidado nenhum por parte da médica em tratar os filhos como eram. Apenas e somente crianças.
  49. 49. 49 - Podes ir-te embora, Alicia! Amanhã vens à mesma hora. - Sim, senhora. A empregada fulminou as costas de Laura quando esta abandonou a cozinha com a sua gabardina cinzenta nas mãos. Em seguida, voltou-se para os gémeos e prometeu-lhes que os iria ajudar a terminar o jogo no dia seguinte quando ninguém estivesse em casa. Exausta pelas longas horas de plantão a que havia sido submetida, Laura enfiou- se no chuveiro e sentiu os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto. Inclinou a cabeça e ali se deixou ficar de olhos fechados sem pensar nada em concreto. Depois do banho, regressou ao quarto enrolada numa toalha branca. Sentou-se na cama e passou um creme pelo corpo, permitindo que os filhos corressem pela casa numa enorme algazarra. João e André pareciam ter energias inesgotáveis em contraste absoluto com a sua paciência. Se fosse só um seria muito mais fácil, passava-lhe muitas vezes essa ideia pela cabeça. Era difícil manter-se lúcida com duas crianças pequenas a correrem e a saltarem a cada minuto do dia. Já não era a mesma. Já não tinha a mesma vitalidade para fazer tarefas rotineiras como buscar os filhos à escola, tomar conta deles ou servir o jantar. Se a empregada não existisse, provavelmente já teria cortado os pulsos ou então já se teria mudado definitivamente para o hospital onde trabalhava. Apareceria somente aos fins-de-semana para saber como os filhos e o marido estavam. Ou quem sabe nem sequer apareceria. Quem sabe apenas utilizaria o telefone para se comunicar com eles e tornar-se-ia finalmente numa mulher livre e dona do seu próprio nariz. - André, pára - ela segurou o filho no braço e sacudiu-o com força, impedindo-o de continuar a saltar em cima da cama. - Desce daí! Não te vou avisar mais... - Eu não vou cair - ele disse, divertido. - Sai daí - Laura puxou o filho para fora da cama. - O pai já veio - João entrou no quarto a gritar. - Hei! Cuidado... - Leonardo esbarrou-se nos filhos quando entrou no quarto e eles saíram de rompante, correndo em direcção às escadas que davam acesso ao primeiro piso.
  50. 50. 50 Tinha acabado de chegar do trabalho e trazia uma expressão visivelmente cansada. Largou o casaco sobre o cadeirão e a pasta de trabalho sobre a cama. Surpreendeu a sua mulher a secar os cabelos em frente à cómoda do quarto, mas foi incapaz de lhe dizer muito mais do que boa noite. Estava exausto, cansado e com uma terrível dor de cabeça. Nos últimos dias era-lhe praticamente impossível manter horários ou promessas. A chegada dos sócios espanhóis intensificou as construções do RESORT e trouxe-lhe muito mais trabalho. Chegava a casa fora de horas, trabalhava a noite inteira no escritório e passava a vida ao telefone como se daquele projecto dependesse toda a sua carreira profissional. - Estás bem? – Laura observou uma expressão carregada no rosto do marido. - Nem um pouco! Estou a morrer de dores de cabeça. - Correu-te mal o dia? - Péssimo – Leonardo afrouxou o nó da gravata. – Um dos nossos trabalhadores sofreu um acidente. - Grave?! - Morreu. Laura voltou-se para o marido, surpresa. - Como é que foi isso? - Não levava o equipamento de segurança. Resolveu subir para arranjar o sistema de electricidade e acabou electrocutado. Caiu de uma altura de mais de dez andares. - Estavas lá? - Não! Estava no escritório. Mas corri para lá assim que me ligaram. - Que horror! - Ainda assisti ao translado do corpo. Parece que o velório vai ser amanhã. - E tu vais?
  51. 51. 51 - É a minha obrigação. Ainda por cima isto aconteceu na pior altura. Os espanhóis não gostaram nem um pouco do que se passou hoje e têm toda a razão. É inadmíssel que um encarregado de obra permita que qualquer trabalhador suba dez andares sem equipamento de protecção - Leonardo desabotoou os primeiros botões da sua camisa enquanto os filhos corriam ao longo do corredor fazendo um barulho ensurdecedor. - André! João! Já chega... - Amanhã estou de plantão - Laura continuou a escovar os cabelos molhados em frente ao espelho da cómoda. - Se fores ao velório quem é que fica com os miúdos? - Falamos com a Alicia. - Não podemos estar sempre a pedir que fique com as crianças à noite. Não é isso que está estipulado no contrato dela. - Então nesse caso o meu irmão pode ficar com eles. - Estás louco?! - Laura voltou-se para o marido, incrédula. - O teu irmão? - Porque não?! É só falarmos com ele. Não me parece que se vá importar de ficar a tomar conta dos sobrinhos. Além disso, eu não me vou demorar... - Eu falo com a minha mãe! Peço-lhe para ficar com os miúdos até te despachares do velório. - Porque é que não queres que o meu irmão fique com o João e o André? - Porque nós não o conhecemos, Leo! É por isso... A resposta de Laura foi preemptória e não deixou outra alternativa ao marido a não ser discordar dela em silêncio. - Então liga tu à tua mãe! Já sabes que quanto menos palavras trocar com ela, melhor... Leonardo refugiou-se na casa de banho e fechou a porta com força, sem a mínima paciência para aturar os ataques da mulher. Aliás, nos últimos tempos, estes ataques tinham-se tornado demasiado frequentes e perturbadores de uma relação outrora pacífica e feliz.
  52. 52. 52 Ele tentava convencer-se de que tudo não passava de uma fase. Mais uma crise que ia e vinha em casamentos de longa duração. Onze anos era um casamento de longa duração, não? Pelo menos aos seus olhos e comparando-se com a maior parte dos casais que conhecia, para Leonardo onze anos era uma vitória. Mas para Laura? Bem. Ela ainda não sabia. Não seria absurdo? Entre todos os homens do mundo ela foi-se casar com o único que era absolutamente perfeito. Leonardo não bebia, não saía à noite, não tinha vícios e nem um único dia para estar com os amigos. A sua vida resumia-se inteiramente à família e ao trabalho. Seria um sonho se não fosse um pesadelo, porque a responsabilidade para corresponder a isso era gigantesca. A perfeição do marido irritava-a. O jantar foi servido às nove horas em ponto. Laura levou à mesa o empadão de peixe cozinhado pela empregada. O marido foi o último membro da família a sentar-se, trazendo no corpo uma roupa confortável e os cabelos ainda molhados do banho. Os gémeos viram-se servidos pela mãe, enquanto a televisão debitava as últimas notícias do dia. Apesar do cansaço, Leonardo respondeu a todas as perguntas pertinentes dos filhos que surgiam a cada cinco segundos num turbilhão de ideias próprias de duas crianças de sete anos. A mulher visivelmente entediada continuou a comer em silêncio, pensando na próxima cirurgia que iria realizar dali a duas semanas. Por vezes, Leonardo rasgava-lhe olhares curiosos e pressentia-a a milhares de quilómetros dali. Nos últimos tempos, Laura andava especialmente estranha e distante. Mais fria do que o costume. Ele já havia pensado em interpelá-la outras vezes e passar de um simples "Está tudo bem?" para um "O que é que se passa?" No entanto, Laura não lhe dava margem de manobra para tocar no assunto ou tão pouco se mostrava interessada em abordá-lo. Para ela estava tudo bem. Sempre tudo bem, ainda que os seus olhos e os seus gestos dissessem o contrário. Leonardo sabia que o casamento passava por inúmeras fases. A descoberta. A paixão avassaladora. A cumplicidade. O companheirismo. A rotina. O tédio. A indiferença. Estariam eles naquele último estágio, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Ele queria acreditar que não. - Boa noite! Desculpem o atraso. A voz rouca de Ricardo quebrou o silêncio instalado na sala. Mais uma vez chegou tarde sem fornecer demasiadas explicações para o seu desaparecimento e mais uma vez lançou um olhar fulminante à cunhada, que incomodada enterrou os lábios na taça de vinho a fim de fugir à presença de um homem que lhe provocava verdadeiros arrepios sempre que olhava para si.

×