Manual de bolso da Produção Musical - por Dennis Zasnicoff

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Manual de Produção Musical - por Dennis Zasnicoff. Guia com os primeiros passos e dicas importantes da atividade de produção musical.

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Manual de bolso da Produção Musical - por Dennis Zasnicoff

  1. 1. Índice Apresentação............................................................................................................3 Como Escolhemos Nossas Músicas Favoritas?.......................................................4 A Influência de Cada Parte no Todo........................................................................5 Apresentando a Escala “Musipontos”......................................................................6 As Etapas (e truques) da Produção Musical ...........................................................7 1.Criação........................................................................................................8 2.Registro Original.......................................................................................10 3.Análises.....................................................................................................11 4.Experimentações.......................................................................................13 5.Gravação-Guia..........................................................................................15 6.Captação da Base......................................................................................16 7.Captação da Cobertura..............................................................................18 8.Overdubs e Rough Mix.............................................................................19 9.Mixagem....................................................................................................21 10.Masterização............................................................................................24 A Produção está Concluída!...................................................................................26 Por Dentro da Escala Musipontos..........................................................................27 Cenário Musical - A Verdade Nua e Crua..............................................................29 Avaliando Músicas com Musipontos.....................................................................31 O Papel da Tecnologia...........................................................................................33 Para se Aprofundar no Assunto..............................................................................34 Glossário................................................................................................................35 © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 2 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  2. 2. Apresentação Conceber uma música é deixar um rastro de existência. Uma marca no mundo, dizendo quem você é e o que pensa. Para muitos um hobby, para outros uma profissão. Nossa criatividade não tem limites, mas nem sempre está pronta para trabalhar, depende de inspiração e estado mental. Costuma aparecer nas crises ou presentear mais uns do que outros. Muitas pessoas que conheço começam a fazer música e nunca terminam. Talvez porque nunca fiquem satisfeitas com o resultado, ou estejam esperando um estalo de criatividade. Esse é um caminho difícil. Tantas outras têm idéias fantásticas, mas não conseguem transformá-las em música – formatada, clara e consumível. Já ouvimos que a arte é "1% inspiração e 99% transpiração". Este manual de bolso ensina técnicas de produção musical, trazendo à tona o funcionamento do mercado e os mecanismos por trás da percepção dos ouvintes. Nesta leitura, você aprenderá: ● Quais são as variáveis que determinam o impacto de uma música ● Onde devemos concentrar esforços durante a produção musical ● Como avaliar uma música ● As particularidades de cenário atual ● A tecnologia no processo produtivo ● Os “truques” do produtor musical ● Conceitos básicos e avançados ● Termos e linguagem da Produção Musical Se a inspiração aparecer durante a produção musical, ótimo! Mas não deixe de fazer música porque acredita que não tem talento. Talento pode ser alcançado, com estudos, prática e consistência. Este pocket guide pode ser um grande aliado nos momentos de bloqueio criativo. Recomendo sua leitura integral como ponto de partida para o planejamento da sua produção. Posteriormente, utilize-o como consulta para tópicos particulares e reforço das técnicas. Estas técnicas são universais e não foram criadas para um estilo musical em particular. Se você deseja fazer música, é amador ou profissional, esta leitura irá ajudá-lo! Ao longo do texto, os termos sublinhados estão definidos no Glossário das últimas páginas. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 3 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  3. 3. Como Escolhemos Nossas Músicas Favoritas? Nossa percepção de uma música depende de vários fatores. Sem dúvida, o gosto pessoal tem grande influência sobre o que escutamos, compramos e recomendamos - memórias da infância, situações, hábitos, amigos e familiares. A mídia também exerce um poderoso papel: a exposição constante a determinadas músicas e artistas, de certa forma, força a nossa aceitação e cria referências. O poder dos principais canais de comunicação é tão grande, que pode-se popularizar virtualmente qualquer conteúdo: programas, histórias, políticos, músicas, filmes, seriados. Com raras exceções, tudo aquilo que é bombardeado pela mídia acada sendo aceito e valorizado. Há problemas neste cenário. O espaço e o tempo destes canais são limitados – há muitos outros conteúdos de alta qualidade, que teriam todo o potencial de se tornarem populares, mas não conseguem aparecer. “Pop” deixou de ser sinônimo de “bom”. Pelo contrário, na música, tenho descoberto muito mais originalidade, canções e artistas interessantes fora do circuito tradicional. Essa discussão merece um capítulo à parte, e a intenção deste livro é tratar sobre a produção musical. Mas algo me parece verdadeiro: quanto mais elevarmos a qualidade das produções, mais elas voltarão a ficar em evidência. Conforme nos afastamos da euforia da fama efêmera, no longo prazo, as músicas que permanecem na nossa lista particular de favoritas têm algumas características em comum, que podem ser identificadas. Características que não dependem de massiva exposição para serem apreciadas. Essas mesmas músicas que sobrevivem por gerações, não saem de moda e sempre nos emocionam, são também as mais tocadas nas rádios, as que mais vendem e conquistam o grande público – ano após ano. Elas vieram para ficar e não é por acaso que se destacam da média. Se uma música é interessante, cansativa ou energética, podemos encontrar quais os fatores que fizeram surgir esta avaliação. Isto é, na verdade, o "segredo" por trás da Produção Musical. Às vezes nos lembramos de um filme por causa do final surpreendente. Gostamos de outro que tem uma cena de ação muito bem feita. Ou desistimos no início porque ele é "muito parado". O mais comum, no entanto, é simplesmente gostar ou não do filme - do conjunto, do todo. É interessante perceber como rapidamente fazemos uma avaliação. Quando nos perguntam o que achamos da estréia de ontem, podemos facilmente comparar com outros filmes e inclusive detalhar os critérios: roteiro, direção, efeitos especiais. Na música, não temos este hábito. Sim, alguns detalhes podem fazer toda a diferença e consagrar uma obra. Mas isto é a exceção, não a regra! Cada parte tem influência no todo - fotografia, trilha sonora, atuação - e se todas forem produzidas cuidadosamente, as chances de sucesso serão bem maiores do que concentrar-se em apenas um elemento, tentando com que ele supere todas as expectativas e ofusque os demais. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 4 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  4. 4. A Influência de Cada Parte no Todo Como produtor musical, ouvinte e amante da música, sempre senti falta de uma escala de avaliação que auxiliasse músicos e técnicos no processo de produção musical. Algo que pudesse avaliar objetivamente uma música, como a escutamos, não somente a composição, ou a interpretação do artista. Que considerasse tanto a qualidade de áudio quanto os outros recursos técnicos e artísticos – gravação, mixagem, masterização. Uma escala que pudesse ser utilizada por diferentes profissionais, sem a necessidade de se fazer cursos ou especializações. O mundo do vinho conta com diversas escalas de avaliação. Talvez a mais conhecida e respeitada seja a escala de Robert Parker. Profundo conhecedor de vinhos e dotado de uma capacidade gustativa única, Parker é capaz de analisar diversos critérios de um vinho e pontuá-lo com uma nota que varia até 100 pontos. Embora sua nota sirva de referência para muitos consumidores, influenciando diretamente no consumo, preço e popularidade de um produto ou produtor, sempre haverá aqueles que discordam de sua avaliação, alegando que é impossível se comparar todos os vinhos em uma mesma escala. Que haveria diferentes produtos para diferentes propósitos – situações, públicos, culturas e faixas de preço (é claro que as reclamações nunca se originam daqueles que receberam boas notas). Polêmicas à parte, a maioria da indústria, comércio e imprensa especializada parece concordar que um vinho bem pontuado é de fato um grande produto, merecedor de tal avaliação. Suas notas são explicitamente divulgadas nas lojas, revistas e websites. Outras escalas similares existem, com menos popularidade. Na minha opinião, lamento que esse método de avaliação não possa ser utilizado por outras pessoas, refletindo em uma mesma pontuação. Claro, primeiramente estas outras pessoas precisariam conhecer todos os critérios e ter a capacidade de avaliar. Mas no fundo, o grande valor da nota é ela ter sido dada pelo próprio Robert Parker. Na música, seria muito útil aos profissionais e consumidores a possibilidade de se avaliar uma canção de uma maneira mais objetiva. Afinal como dissemos, no longo prazo, as músicas consideradas como as “melhores” possuem algo em comum. Seria possível listar e categorizar essas variáveis? Qual o peso de cada quesito? Criei a escala musipontos originalmente para meu próprio uso, para facilitar o diálogo com os artistas e evitar que o gosto pessoal, tanto meu quanto deles, pudesse interferir demasiadamente nas decisões. Com tempo e uso, os critérios de avaliação e a influência de cada parte no todo se tornaram mais claros. Este método avalia uma produção de 0 a 10, notas tradicionais, para facilitar interpretações e comparações. Naturalmente, a “nota” sempre dependerá de quem está avaliando, mas a metodologia procura minimizar os julgamentos subjetivos, espelhando-se no comportamento médio da população e em aspectos objetivos, tanto artísticos quanto técnicos. A idéia é que muitas pessoas possam entendê-la e utilizá-la. A escala musipontos não pretende ser infalível e nem referência de mercado, mas pode ser uma boa ferramenta para suas produções. Ela é apresentada a seguir e aprofundada em detalhes no final do livro. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 5 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  5. 5. Apresentando a Escala “Musipontos” Na produção musical, costumo repartir as prioridades da seguinte maneira: de tudo que podemos fazer para contribuir no resultado final de uma música: ● 40% provém da Composição ● 30% da Pré-Produção ● 20% da Gravação ● 10% da Mixagem / Masterização --------- 100% Total De onde tirei esse modelo de proporções? É justamente essa resposta que você deverá encontrar nos capítulos que seguem. Ao final, você deverá concordar com os critérios ou pelo menos compartilhar da visão, criando seu próprio método de avaliação que não deverá ser muito diferente. Ele surgiu da análise de músicas durante anos de trabalho como produtor musical. De maneira alguma representa a verdade absoluta, mas tem funcionado muito bem para muitas produções. É, portanto, a base da escala musipontos. Nesta escala, cada uma das etapas acima pode contribuir com um número limitado de pontos, somando o máximo de 10 musipontos. A composição é avaliada de 0 a 4, a pré-produção pode ter de 0 a 3 pontos, gravações recebem até 2 musipontos e 1 para a mixagem/masterização. Tenha em mente que 1 ponto é uma GRANDE melhoria. Cada musiponto adicional requer bastante esforço. Conseguir melhorar uma composição de 3 para 4 ou uma gravação de 1 para 2, requer investimento, know-how e tempo. Mais adiante, entraremos em detalhes sobre a Escala Musipontos e sua relação com o mercado. Por hora, para facilitar o entendimento das etapas da produção musical, podemos utilizar a seguinte classificação para musipontos: 1. Muito Fraca 2. Fraca 3. Abaixo da Média 4. Razoável (média do mercado) 5. Acima da Média (potencial de rádio) 6. Notável 7. Muito Boa 8. Ótima 9. Clássico 10. Referência © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 6 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  6. 6. As Etapas (e truques) da Produção Musical Cabe ao produtor e ao artista (compositor, intérprete ou banda) entenderem as limitações de cada etapa e priorizarem os aspectos mais importantes. Primeiro as primeiras coisas! E o resultado será satisfatório, com bom aproveitamento de tempo, energia e recursos. As 10 fases principais da produção musical estão explicadas em detalhes na seqüência: Composição 1. Criação 2. Registro Original Pré-produção 3. Análises 4. Experimentações 5. Gravação Guia Produção 6. Captação da Base 7. Captação da Cobertura 8. Overdubs e Rough Mix 9. Mixagem 10. Masterização A terminologia aqui usada pode ser diferente daquela existente em outras literaturas. A divisão que faço entre Composição, Pré-Produção e Produção visa facilitar o entendimento de cada etapa, além de reforçar alguns conceitos importantes de cada fase: Composição: intimamente ligada ao artista, ao compositor, não depende necessariamente de outros profissionais e não tem se modificado muito ao longo dos anos – escrever uma música, antes de mais nada, significa ordenar notas musicais e letras. Os estilos de trabalho variam consideravelmente de compositor para compositor, mas nunca deixaram de ser uma atividade especializada, para poucos. Pré-produção: possivelmente a fase menos conhecida e explorada, ao mesmo tempo que é essencial para o resultado final de uma música. É o momento de planejamentos e decisões, que requer técnicas e disciplina. Está normalmente associada a um produtor musical e não necessariamente precisa se utilizar de estúdios e instrumentistas profissionais. Produção: relacionada às interpretações e performances dos músicos. Ocorre dentro de estúdios e salas de controle, englobando gravações, mixagens e masterização. Aqui começa o registro definitivo do áudio, a valorização de salas, equipamentos e técnicos. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 7 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  7. 7. 1. Criação Tudo começa com uma boa matéria prima. O fundamento de uma música sempre foi e sempre será o seu conteúdo lírico e musical. Existem inúmeras escolas de ensinamento, teorias e cursos superiores de Música, conseqüentemente, sobre a arte de compor, reger, arranjar e interpretar músicas. Algumas dos conhecimentos essenciais de um bom compositor são: ● Harmonia ● Contraponto ● Ritmo ● Arranjos ● Ouvido absoluto e/ou relativo ● Familiaridade com instrumentos ● Vocabulário ● Rimas Este manual não entrará em detalhes sobre a arte da composição, mas posicionará esta etapa como o ponto de partida fundamental de qualquer produção, definindo o seu papel e algumas técnicas utilizadas por compositores. Acho importante aproveitar este tema para colocar a idéia principal deste texto: esta, e todas as demais etapas que veremos a seguir, exigem dedicação e uma ampla faixa de conhecimentos e habilidades. Muitas pessoas que conheço imaginam que compor é um dom, algo com que nascemos. De fato, muitos artistas parecem ter o toque divino que os separam dos demais, mas muito provavelmente esses mesmos artistas possuem experiência e domínio, usaram e abusaram das técnicas de composição para que um dia pudessem fazer uso de sua inspiração e originalidade. Sempre me lembro do caso de Pablo Picasso. Quando tive o primeiro contato com suas obras mais famosas, não fiquei convencido das suas qualidades como pintor. “Rabiscos grotescos? Parece coisa de criança!”, pensei. Tenho certeza que muitos também tiveram esta impressão. Depois soube que Picasso nem sempre pintou com aquele estilo. Era um estudioso nato e tinha domínio sobre muitas técnicas da pintura, podia retratar com perfeição e caminhou por diversos ramos das artes plásticas até desenvolver seu próprio estilo e genialidade. Qualidades que ainda não consigo apreciar por completo, mas que são inegáveis, haja visto o valor de suas pinturas e o reconhecimento mundial de sua obra. Compor é um processo técnico e repetitivo. A criatividade é importante e pode ser desenvolvida com exercícios diários. No Brasil, temos dezenas de milhares de compositores. Destes, alguns milhares dedicam boa parte do dia para a atividade de compor. Deste grupo, várias centenas fazem exercícios regulares, estimulando as regiões do cérebro responsáveis por imagens, analogias e descrições, escrevendo horas a fio. Finalmente, deste pequeno universo, algumas poucas dezenas de compositores consagrados (com composições de 3 ou 4 musipontos) são responsáveis por mais da metade do que ouvimos todos os dias. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 8 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  8. 8. Quando o artista concentra-se na concepção da obra, sem pensar nas fases seguintes, está fazendo o melhor uso de suas habilidades. Quero mostrar que compor é um trabalho árduo e especializado. Se este é seu objetivo, vale a pena estudar as técnicas e se dedicar. Suas composições podem começar a atingir notas 2 ou 3 antes do que você imagina. Não estou me restringindo ao aspecto lírico ou musical da composição, vale para os dois. Se você acha que nunca vai atingir 3 ou 4 (nota máxima) na composição e não está satisfeito com 2 ou 3 musipontos, talvez seja mais interessante procurar composições de terceiros e participar da produção como instrumentista, arranjador, produtor ou técnico de som. As editoras são um bom ponto de partida para buscar compositores e composições. Elas são responsáveis pelo registro, divulgação e coleta de remuneração para compositores. Diversas gravadoras e produtores buscam talentos nas editoras. Se pretende especializar-se em composição, procure estudar como funciona a legislação de direitos autorais, quais são os editores mais influentes no seu mercado e o que fazer para registrar e divulgar o seu trabalho. E escreva muito! Rabisque, apague, recomece. Antes de fazer sucesso com uma canção, um compositor normalmente já terá escrito centenas. As melhores composições possuem algo em comum: ● Representam sentimentos ou situações universais, facilmente identificadas pelos ouvintes. ● São específicas, não sendo objetivas. O grande segredo do compositor é conseguir passar uma mensagem clara através de uma descrição única e rica. ● Estão centradas sobre uma idéia genuína, um tema. ● Utilizam técnicas musicais e poéticas para ganhar interesse (teoria da informação, sentidos do corpo humano, surpresa, recompensa, humor) Procure registrar suas idéias assim que elas acontecem. Muitas vezes, isso ocorre pela manhã, quando nossa cabeça ainda está "vazia" e despreocupada. Tenha sempre à mão lápis e papel, ou um gravador portátil (muitos celulares possuem esta função). Este estalo é quase sempre o ponto de partida de uma grande composição. Como as pessoas se comportam? O que as interessa? Como VOCÊ enxerga uma determinada situação? Provavelmente há muitas outras pessoas que se identificam com o seu ponto de vista. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 9 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  9. 9. 2. Registro Original A música concebida precisa ser registrada de alguma maneira. Tanto para fins de direitos autorais quanto para a produção - revisitar, estudar ou comunicar para outros profissionais. O registro pode acontecer de várias formas, sendo que as mais comuns são: partituras, tablaturas, cifras, letras ou uma simples gravação do áudio que registra apenas letras, harmonia e/ou melodia. Em futuras reuniões com o produtor musical, o compositor ou intérprete discutirá objetivos, expectativas, cronogramas, custos, alternativas, referências e repertório. Além de ser utilizado como ponto de partida para a pré-produção, o registro também servirá para comunicar ao produtor e sua equipe a essência da música – sua mensagem, conteúdo lírico e musical. Trata-se, portanto, do primeiro registro objetivo do compositor. Quando foi gravado em formato de áudio, possui uma particularidade de extrema importância – capturou intenções espontâneas e interpretações do artista, que não devem ser esquecidas durante as próximas fases. É costume revisitar o registro original durante a produção para não se distanciar do objetivo inicial. Um produtor experiente saberá identificar quais os elementos principais do registro original que devem ser trabalhados e não o julgará como uma produção final - afinal, ela só está começando. A gravação original normalmente é composta de voz e violão, voz e piano ou algum instrumento de maior familiaridade para o compositor. Muitos artistas preocupam-se em gerar um registro com boa qualidade de áudio. Gravam várias versões, fazem alterações e colocam instrumentação. Essas etapas deveriam ser deixadas para depois. Na verdade, o resultado pode até ser negativo – o registro perde a intenção original e a essência da composição, que é base para a pré-produção que se inicia agora. O registro original não deve ser confundido com a gravação-guia, que será explicada adiante. O registro original, para todos os efeitos, é a expressão do compositor. A avaliação e quantidade de musipontos de uma composição pode ser feita através dele. Curiosidade: como podemos avaliar uma composição isoladamente, quando a música já está produzida? Experimente cantá-la ou tocá-la no violão. Uma boa composição soará interessante, mesmo sem produção! As composições com 3 ou 4 musipontos são as primeiras candidatas a remixes e versões acústicas. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 10 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  10. 10. 3. Análises Esta fase inicia a Pré-Produção. A Pré-Produção tem uma função muito clara no processo: otimizar a composição por um ponto de vista alheio, fazer com que ela tome uma forma musical e esteja pronta para ser produzida (gravada, mixada). São planejados cronogramas, recursos e alternativas. A princípio, as etapas que seguem a pré-produção não deveriam voltar atrás e trabalhar letras, instrumentação, forma ou estilo. Estes aspectos podem e devem ser decididos agora, na pré-produção, justamente para se evitar erros e frustrações futuras. Como compositores, é muito fácil termos uma visão bastante particular da nossa obra. É como um filho. Nós o protegemos e não queremos enxergar seus defeitos. Na pré-produção, é altamente recomendado que uma outra pessoa comece a participar das decisões. Um produtor musical normalmente começa a agregar nesta fase. Este profissional possui um distanciamento natural da composição e tende a julgar com maior clareza o possível impacto da música no público. As análises mais comuns realizadas nesta fase são: ● Identificar qual o "estilo de produção" e concentrar-se nele. Uma música pode ser mais instrumental, com um elemento repetitivo (Riff), pode querer destacar um ritmo ou levada (Groove), possuir um forte conteúdo poético e narrar uma história (Letras), ou caminhar para um clímax musical (Hook). ● A complexidade da produção é estudada para se estimar custos e prazos. ● Eventuais profissionais, técnicos e músicos são escalados e contratados. ● Os elementos principais são analisados quanto à clareza e eficiência (título, tema, forma, início, recompensa). ● Julga-se aspectos psico-acústicos, como equilíbrio, economia, variedade, contraste e foco. ● Equilíbrio tonal: uso do espectro sonoro (instrumentação e arranjo), congestionamento e inteligibilidade. Planejamento da distribuição espacial e temporal - elementos próximos e distantes, panorama horizontal, "tamanho" de cada instrumento, profundidade, intimismo, punch, naturalidade. ● Tomada de decisões conscientes para que se possa seguir adiante e não voltar mais ao assunto. Saber produzir é saber quando parar. O processo pode nunca ter fim, sempre haverá dúvidas e possibilidades. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 11 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  11. 11. O papel do produtor é visualizar o resultado final da música, que provavelmente só estará claro ao término da produção, estimulando decisões que contribuam para o objetivo. Portanto, uma relação de confiança entre artistas e produtor é fundamental para o sucesso das próximas etapas. Uma ferramenta muito útil durante as análises é o uso de referências. A grande maioria das composições baseia-se em algum elemento já existente. É praticamente impossível ser 100% original. As referências escolhidas pelo artista, intérprete ou sugeridas pelo produtor, guiam a produção e ajudam a manter o foco. Obviamente, as referências devem ser usadas com cuidado para não caracterizarem plágio. São músicas previamente lançadas que possuem algum elemento bastante marcante – um timbre, uma levada, um instrumento, uma maneira de se cantar, um efeito sonoro ou estilo musical. Muitos produtores que conheço não seguem um padrão durante as análises. Em alguns casos, porque já desenvolveram a habilidade de escutar uma composição e poder visualizar o resultado final de sua produção. Em outros casos, eu diria até na maioria deles, acreditam que analisar cada detalhe seria uma perda de tempo. Minha dica: tempo de pré-produção nunca é tempo perdido! Aproveite que o “taxímetro” do estúdio não está rodando, que ainda não há pressão das gravadoras e que tudo pode ser modificado com facilidade. Seguir um roteiro de análises é talvez a melhor maneira de se desenvolver o que chamo de “diagnóstico da primeira audição”. Pode parecer um paradoxo: pessoas envolvidas na produção levando horas para analisar os diferentes aspectos de uma composição, enquanto os ouvintes simplesmente a escutarão sem ouvidos críticos. Isso é talvez a maior resistência de alguns produtores: “Os ouvintes não pensarão nisso! Não sabem analisar esses critérios.” Ingênuo engano, o público é bastante crítico, embora não pense conscientemente na avaliação. Apreciar ou criticar é fácil – gosto ou não gosto. Como consumidores, desenvolvemos nossos critérios de avaliação durante anos, através de inúmeras experiências, lembranças e referências. Já como criadores, não tivemos a mesma possibilidade. Ainda que trabalhe como produtor musical, durante a maior parte do dia você estará escutando e não produzindo – aprendendo a julgar e não a ser julgado. Quando faço uma avaliação no meu site, nem sempre sigo o mesmo procedimento, afinal, trata-se de uma “audição crítica” e não um serviço de produção musical. Procuro identificar rapidamente os pontos fortes de uma música, como faria um ouvinte, mas explicá-los pelo ponto de vista do produtor. Da mesma forma, realçar eventuais deficiências que a maioria dos ouvintes perceberá mas que talvez não saibam explicar ou passaram despercebidas pelos artistas. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 12 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  12. 12. 4. Experimentações Neste momento, as análises estão documentadas e diversas decisões já foram tomadas. Até agora, o processo ocorreu através de reuniões e discussões entre artista e produtor. A próxima fase começa a fazer uso de áudio no estúdio e/ou técnica. Versões são gravadas para se testar tonalidade, andamento, complexidade e alternativas. É uma espécie de ensaio da gravação e da mixagem, para que músicos e técnicos possam experimentar arranjos, formas e variações, retirando qualquer dúvida ainda existente após as análises. Ao mesmo tempo, são feitas gravações que serão úteis durante o desenrolar do processo. O registro original da composição (em áudio) pode ser utilizado como base para as versões experimentais, economizando-se tempo. Por questões de agilidade, o próprio produtor ou outra pessoa da equipe pode tocar instrumentos e cantar nas versões guias. O artista não deve se sentir "traído" de maneira alguma. Na verdade, se o compositor não é exatamente um bom intérprete, sua música seria muito melhor valorizada se interpretada por outros músicos. Outras vezes, a formação original da banda pode ser modificada durante as gravações, para o bem da Música - este é o objetivo maior. Existem excelentes músicos de estúdio que não se saem muito bem ao vivo. E vice versa. Ser um artista é muito mais do que a performance: composição, imagem pública, presença de palco, visual, histórico – aspectos não necessariamente relacionados com a produção musical. As experimentações são uma oportunidade de testar o entrosamento da equipe e a confiabilidade de equipamentos e processos. Já que a qualidade do áudio não é prioridade, a equipe pode se concentrar na mensagem musical. Durante os experimentos, traçar o contorno emocional da música é outro recurso muito valioso. O contorno emocional indica graficamente como as informações musicais entram e desaparecem ao longo da música. Está bastante conectado a arranjo, Teoria da Informação e Teoria Gestalt. Que emoções e intensidade cada sessão da música oferece? O contorno é estável e cansativo ou apresenta variações, clímax e respiros interessantes? A quantidade de testes pode se tornar grande rapidamente, assim é muito importante documentar as versões: data, equipamentos usados, principais variações, duração, andamento, tonalidade, forma, letras, harmonia. Com os recursos atuais, o áudio pode facilmente ser picotado e misturado com outros elementos para agilizar os testes. São utilizadas batidas diferentes, estilos modernos, elementos datados ou timbres originais. Se o artista ainda não possui uma identidade musical, este é um bom momento de construí-la. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 13 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  13. 13. Quando ouvimos Santana, sabemos que é Santana. The Police, Dire Straits, Steely Dan, Iron Maiden, Elvis Presley, Bach, Jack Johnson e Norah Jones. São todos exemplos de grande personalidade musical que muitas vezes surgiram com o auxílio de experimentações. Está cada vez mais difícil se criar uma identidade musical. Um melhor caminho pode ser encaixar-se num estilo ou nicho de mercado. Mais uma vez, as referências podem se tornar grandes aliadas: “gostaria que soasse como U2", "adoro a percussão daquela música do Jethro Tull", "queria um ritmo marcante como 'Down on The Corner' do Creedence". As referências ajudam produtor e equipe a eliminarem alternativas e entenderem as intenções do artista. No mais, auxiliam o público a se identificar e aceleram a adoção da música. Durante esta fase, é muito prático e eficaz utilizar programação MIDI, bibliotecas de loops e samples. Os timbres e ritmos rapidamente são alterados e "votados". Convide amigos e desconhecidos para testes de audição e tenha uma boa idéia do que a música está passando, antes que as horas de estúdio sejam agendadas. A mensagem está clara? Parece plágio? É muito alternativo e de difícil digestão? Qual a primeira reação do público? A primeira reação pesa muito no sucesso de uma música e infelizmente tende a desaparecer para os envolvidos na produção, cada vez que escutam mais uma vez. Ao final das experimentações, o produtor deverá ter diagnosticado profundamente alguns critérios como: clareza, simplicidade, ênfase, coerência, especificidade e repetição. Elementos importantes, embora inconscientes, para a percepção (e avaliação) dos ouvintes. Durante os experimentos, deve-se tomar o cuidado para que o artista não interprete as versões-teste como uma produção final. Por diversas vezes, tive dificuldades para explicar ao cliente que aquilo que ele estava ouvindo não deveria ser julgado pelo ponto de vista de produção – que ainda estávamos na pré- produção. Os timbres que soam como karaokê, as notas fora de tempo e loops “baratos” somente estão ali para o estudo das possibilidades. É uma questão de recursos: por que gastar tempo buscando o melhor timbre na sua biblioteca de loops ou quantizando todas notas no groove se provavelmente aquilo não será reaproveitado? No outro extremo, é preciso um mínimo de “realismo” para que se possa entender a proposta. Para cada versão, faça um mixdown do áudio e salve a sessão do seu software com um nome diferente. Envie o áudio para o artista (ou produtor) e peça para ele comentar. Ele pode usar o próprio áudio para gravar outro instrumento em cima ou editar sessões e testar vocais. Em várias situações, utilizei 90% do tempo total de uma produção somente para a pré-produção. Essa é a hora de explorar instrumentos e idéias que estão engavetadas. É muito provável que em algum momento a equipe dirá: “É isso!”. Uma descoberta ou detalhe que parece dar forma à música e torna a visualização do resultado final bem mais clara. Hora de fazer uma gravação-guia! © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 14 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  14. 14. 5. Gravação-Guia Naturalmente, as experimentações caminham para uma gravação, que será a versão final da pré-produção. Às vezes, a gravação-guia consegue atingir um bom resultado, tanto artístico quanto técnico, e passa a fazer parte do CD demo (demonstração) do artista / banda. Principalmente se não há orçamento para seguir adiante com a produção ou existe uma necessidade de rápida divulgação. O CD demo deverá incluir de 3 a 5 canções e o repertório deve ser cuidadosamente escolhido para representar o artista da melhor maneira possível – estilo, versatilidade e técnica. Uma demo é amplamente utilizada na divulgação para rádios, casas de show, editoras, gravadoras e investidores. O problema é que centenas de CDs são enviados diariamente para estes caçadores-de-talentos. Frequentemente, acabam esquecidos numa pilha, ou são rapidamente descartados se os primeiros segundos da música principal não se mostram interessantes e muito bem produzidos. É por isso que hoje em dia, uma demo está mais para uma produção final do que para uma gravação-guia. Melhor é seguir adiante e acabar a produção de sua música. O CD demo certamente irá se destacar! Com a gravação-guia em mãos, fica mais fácil conseguir opiniões de outras pessoas, profissionais ou amadores, e expor o trabalho para atrair gravadoras. No final do dia, a gravação-guia comunica as intenções do artista e da equipe de produção, permitindo que selos e editoras tenham uma boa idéia do potencial da canção. A gravação-guia, e toda a documentação que a acompanha, pode ser utilizada pelo compositor (intérprete ou banda) para gravar, mixar e masterizar num outro momento, em outro estúdio ou cidade. Eventualmente, até com outra equipe de produção. Se uma gravadora se interessar pela música, ela poderá oferecer adiantamento dos custos de produção e fornecer estúdios e técnicos. Neste momento, a pré-produção está finalizada e garantirá uma produção sem falhas e frustrações. É hora de seguir para o estúdio. Na fase de captação, artistas e técnicos podem se concentrar na performance e muito provavelmente gastarão menos tempo e dinheiro dentro do estúdio, atingindo resultados surpreendentes. Utilize a gravação-guia para avaliar a Pré-Produção, todas as decisões e informações musicais devem estar contidas nela. Quanto musipontos você daria? © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 15 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  15. 15. 6. Captação da Base Aqui começa a Produção propriamente dita, na forma de gravações no estúdio e/ou programações no computador. Quanto maior o domínio sobre os aspectos técnicos, maior a relevância da interpretação – que é o grande foco das fases de captação. O intérprete pode fazer toda a diferença em uma produção, como é comum acontecer com cantores que parecem ter o “timbre perfeito” para uma determinada canção. Lembre-se, a seleção dos intérpretes, os testes e decisões devem ter sido feitos durante a pré-produção. Com exceção de alguns estilos musicais e situações, o processo de gravação é do tipo multi-pista e seqüencial. Cada instrumentista ou grupo de instrumentistas registra sua parte, que será então usada como fundo musical para a gravação do próximo e assim por diante. Então quem começa e qual o fundo musical do primeiro músico? As bases costumam ser os primeiros elementos gravados. Muitas vezes, chamadas de "cozinha", constituem os elementos rítmicos, de tempo e marcação, como bateria, baixo e violão. A gravação das bases independe dos solistas (vocais e instrumentos melódicos). No entanto, são essenciais para a boa performance dos mesmos, que virá a seguir. Como um vocalista conseguiria gravar sem escutar ritmo e harmonia? Qual o momento exato para a entrada do solo de saxofone? O solista precisa escutar a base da música para poder encaixar sua execução no ritmo e na harmonia. A base rítmica inicia a fase de gravações, podendo utilizar um click, ou metrônomo, como referência de tempo. Está difícil? Utilize a gravação-guia como base para a gravação! Mais uma utilidade para ela. Se tudo correu bem na pré- produção, a guia está exatamente no tempo, tonalidade e forma final da produção. Em diversos estilos musicais, a base precisa ser orgânica. A gravação seqüencial pode soar artificial, portanto é comum que baterista, baixista e demais instrumentistas da base gravem juntos, buscando uma maior naturalidade na performance. A qualidade acústica da sala e o conhecimento dos técnicos pesam muito. Isso vale para todas as captações, incluindo cobertura e overdubs (explicados a seguir). O estúdio e a sala de controle devem ser encarados como mais um equipamento – a diferença é que ele está funcionando o tempo todo, não tem controles e não pode ser desligado! O som que escutamos interage diretamente com a sala e pode sofrer grandes alterações. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 16 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  16. 16. O tratamento acústico adequado cria um ambiente propício para uma audição precisa e crítica, permite maior controle sobre gravações e equilíbrio sonoro. Por outro lado, uma sala problemática esconderá todo o potencial de suas novas caixas-acústicas ou microfones que não custaram barato. Melhor gastar tempo dentro do estúdio, testando posições, colocações, instrumentos e equipamentos, do que perder ainda mais tempo na técnica durante a mixagem, com o risco de não se atingir o resultado esperado. As técnicas de microfonação tem um impacto enorme no resultado da produção. Faça o teste: caminhe pelo estúdio enquanto está falando. Cada posição gera um som distinto, as diferenças são tão notáveis que parecem uma equalização. Mudam como se estivéssemos aplicando efeitos durante a mixagem. Antes de experimentar modelos de microfones ou planejar equipamentos e plugins que serão aplicados ao áudio, escolha cuidadosamente a posição do instrumento e do microfone. Obviamente, a qualidade acústica da sala determinará as possibilidades. Já experimentou gravar sua voz no banheiro? Em outras palavras, a microfonação equivale a utilizarmos diferentes equipamentos nas etapas subseqüentes. Captar o timbre que se deseja neste momento é a melhor maneira de se evitar adaptações futuras que não serão tão eficientes quanto uma acústica realista e natural. Produtor e técnicos devem estar muito familiarizados com o estúdio e seus equipamentos para que possam se concentrar na sonoridade, utilizando o know- how de gravação. No final das contas, os equipamentos têm um peso muito menor do que se imagina, ficando bem atrás da acústica e até mesmo da qualidade de energia elétrica das instalações. No Brasil existe um super-valorização de equipamentos e softwares. Não caia nesta armadilha! Primeiro vem o conhecimento, depois as instalações (acústica e elétrica), por último, os equipamentos. Você ficará surpreso em saber que muitas das grandes produções que escutamos foram feitas com equipamentos extremamente simples e em salas menos do que ideais. Porém o know-how dos músicos e técnicos falou mais alto. Você saberá se a base está bem captada quando os outros instrumentistas não tiverem dificuldades para acompanhá-la, tocando suas partes. A levada é compatível com a intenção da música? Os tambores da bateria foram afinados? (acreditem, é raro que se lembrem disso!) A harmonia é facilmente identificada e conhecida por todos? Todas as sessões possuem os acordes cifrados, em uma partitura, tablatura ou qualquer outra forma de representação? Durante as captações subseqüentes, um novo arranjador poderá participar do processo, adicionar ou substituir instrumentos, talvez pela disponibilidade de músicos ou problemas com algum instrumento. Muitos solistas que não participaram da pré-produção precisarão de todas as informações musicais necessárias para guiar suas performances. Uma base bem gravada é a fundação da música e irá sustentar as demais performances. É normal encontrarmos na literatura especializada que o tripé fundamental da música pop é composto por Caixa-Bumbo-Baixo. Dedique especial atenção à captação destes elementos. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 17 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  17. 17. 7. Captação da Cobertura Solistas e instrumentos melódicos podem agora registrar suas partes com naturalidade e emoção, encaixando-as perfeitamente na base. Como o esqueleto da música já está gravado, outros estúdios e até instrumentistas de outras localidades podem participar das gravações de cobertura, com maior flexibilidade de horários. Isso é especialmente verdade para instrumentos mais raros e especializados, orquestração e naipes, que requerem salas especiais e artistas muito solicitados. Vocais podem ser gravados em uma sala enquanto a guitarra registra um solo delicado e demorado em outra. Elementos menos fundamentais, que trazem "tempero" e personalidade para a música, também são registrados nesta fase. Pads de fundo (conhecidos como "cama"), percussão complementar, backing-vocals, violinos, sintetizadores. Para que possam escutar a base dentro do estúdio e gravar suas linhas, os solistas receberão um mix de fundo nos seus headphones ou monitores. É essencial que este mix esteja no volume adequado e destaque os elementos mais importantes para aquele solista. Um percussionista pode querer escutar o bumbo da bateria claramente, já o vocalista, ouvir o piano um pouco mais alto. Um erro comum é enviar um mix muito baixo ou muito alto para o vocalista, que tenderá a cantar desafinado. O mesmo acontece quando o músico não consegue escutar a si próprio (“aumenta o retorno!”). Poucos técnicos gastam o devido tempo preparando mixes que influenciarão diretamente nas performances dos artistas. Sempre que possível, recomenda-se gravar as coberturas no mesmo estúdio das bases. Isso irá garantir uma homogeneidade acústica, difícil de ser percebida durante as gravações, mas bastante óbvia nas próximas etapas. No mundo ideal, todos os instrumentistas tocariam juntos e um par de microfones captaria a “mixagem” natural e final em estéreo. Não precisaríamos dividir as gravações em etapas e nem realizar mixagens. Na prática porém, esta situação é muito difícil e até impossível para alguns estilos musicais. Perde-se o controle das partes, exige-se uma performance perfeita dos músicos, há problemas de vazamentos entre microfones ou falta de acústica adequada na sala. Este estilo de produção “minimalista” ainda é bastante comum em algumas gravações audiófilas de jazz e música erudita, conferindo uma naturalidade incrível. Vale lembrar que não só os artistas, mas técnicos e produtores, precisam ter domínio total sobre o processo para fazer uma gravação audiófila. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 18 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  18. 18. 8. Overdubs e Rough Mix Frequentemente, ajustes precisam ser feitos em algumas das trilhas gravadas. Uma audição detalhada pode revelar pequenas falhas na captação, erros de tempo ou notas desafinadas. Talvez o vocalista estivesse resfriado ou pouco inspirado. A pele de um tambor da bateria desafinou ou um cachorro aparece latindo bem no meio da bridge. Os overdubs são regravações de passagens que precisam ser melhoradas. Corrigem erros de captação e permitem a “colagem” de partes para a composição de uma frase musical perfeita. Quando a linha melódica é complexa ou rápida demais para ser executada com perfeição em um só take, o processo de overdub permite que um trecho seja gravado repetidas vezes, em loop. Posteriormente, técnico e produtor podem montar um take perfeito com as melhores partes de cada trecho gravado. Esta técnica é conhecida como comping. Uma sessão de overdub oferece atenção especial ao solista. Grande parte da equipe está concentrada em uma só performance. Vários takes podem ser gravados em loop, enquanto há comunicação em tempo real com o artista - comentários, avaliações, sugestões. Um perigo do overdub é ele soar fora de contexto. Normalmente, os takes são gravados em salas (acústicas) diferentes da original, com grande espaçamento de tempo. O uso de fones de ouvido e a ausência de outros instrumentistas na sessão de gravação podem criar um “isolamento” para o músico, dificultando sua performance. Quanto mais acostumado com o ambiente de estúdio, melhores as chances do artista desenvolver sua gravação sem dificuldades. O mix que o artista escuta durante o overdub está agora bem completo, com base e cobertura. Mas ainda não se trata da mixagem final, que tomará bastante tempo na próxima fase. Assim, este “mix rascunho”, ou rough mix, simula a mixagem e como a gravação que está ocorrendo neste momento se encaixa no contexto. Os efeitos aplicados sobre a gravação (como compressão e reverberação) são ouvidos pelo músico em tempo real, nos seus headphones, e ajudam a melhorar sua interpretação. O rough mix, ou “mixagem rascunho”, auxilia na gravação dos overdubs e ainda tem outras utilidades. Este rough mix é o resultado de uma mixagem rápida, simples e intuitiva, com participação de muitos técnicos e artistas. Portanto, registrou o sentimento espontâneo da equipe durante as gravações. Por este motivo, o rough mix deverá ser revisitado regularmente durante a mixagem para que conceitos e idéias importantes não sejam perdidos. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 19 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  19. 19. Durante os takes, é essencial que o músico tenha total conhecimento da forma da música, entradas e saídas, letras e harmonia, para que o processo não se prolongue e se torne cansativo. A boa comunicação entre técnico e artista agiliza bastante as gravações. Para tanto, são utilizados gestos previamente combinados, microfones de talkback ou a própria técnica funcionando como estúdio. Conforto, um ambiente agradável e criativo retiram a pressão sobre artista e técnico, favorecendo a música. Técnicos devem ter especial cuidado para não interferir na performance do artista com erros de operação, preocupando-se em testar e instalar equipamentos com antecedência. Da mesma forma, artistas devem respeitar as limitações tecnológicas e entregar uma performance ensaiada, de alta qualidade – raramente, “consertar na mixagem” é a melhor saída – há um limite do que se pode fazer durante a mixagem. Vamos lembrar que a captação tem maior influência no resultado final do que as etapas seguintes. Nem sempre as etapas de captação (base, cobertura e overdubs) precisam ser encaradas como processos independentes. Quanto mais complexo o arranjo ou maior a dificuldade de cada frase instrumental, melhores os resultados quando cada uma das gravações é feita isoladamente. O aluguel do estúdio de gravação pode ser planejado para cada etapa. Somente os músicos essenciais para cada take precisam estar presentes. Produtor e artistas podem realizar um mixdown das trilhas já gravadas para escutarem em casa ou no próprio estúdio. Inclusive exportar a sessão do software de gravação para o desenvolvimento de rough-mixes fora do tempo de estúdio. O setup de gravação - conexão de cabos e equipamentos, preparação da sessão no computador, microfonação, posicionamento de instrumentos e amplificadores, seleção de microfones – frequentemente toma muito tempo. O ideal seria que um assistente de gravação da banda (ou do próprio estúdio) já conheça as necessidades de cada take e esteja preparado através de uma reunião prévia com o produtor. Alguns estúdios oferecem uma tolerância de tempo para a montagem e desmontagem. Outros permitem a realização do setup na noite anterior. Informe-se com o seu estúdio e certifique-se de que o produtor está a par de todos os detalhes que envolvem a operação – horários de funcionamento, taxas especiais em horários alternativos, pausas para refeições, políticas de acesso de pessoas, equipamentos disponíveis e seu estado de funcionamento, disponibilidade de um técnico de gravação, formatos de áudio, vazamento de ruídos, backup de arquivos e transferência de dados. Lembre-se, a música deve soar relativamente bem antes da mixagem final. Todas as trilhas foram analisadas por inteiro? O áudio foi registrado em 24 bits? Há consistência nos takes, principalmente entre aqueles de um mesmo instrumento ou voz? A avaliação das gravações pode ser feita pela audição do rough mix. Elas merecem 0, 1 ou 2 musipontos? (quando a música já está produzida, é mais difícil isolar a gravação da mixagem para se fazer uma avaliação, embora seja possível, com treinamento e experiência) © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 20 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  20. 20. 9. Mixagem Esta etapa só deveria começar quando todas as captações estiverem concluídas, editadas e compiladas. Mixar, na verdade, nada mais é do que misturar. Cada gravação foi registrada em uma trilha (dentro do computador, num gravador de rolo ou fita digital). Durante a mixagem, todas as trilhas tocam ao mesmo tempo e o técnico mistura a proporção (volume) e a posição no panorama (esquerda-centro-direita) de cada uma delas, juntamente com outros efeitos que ajudam a criar destaque e clareza. O interessante da mixagem é que ela não precisa ser estática! Um instrumento podem variar de intensidade durante a música, mudar de posição, parar de tocar ou soar diferente em algumas partes. Essa imensa gama de possibilidades faz com que cada mix seja diferente do outro. A grande lei da mixagem é que cada elemento precisa ter um propósito bem claro, para se evitar congestionamento de informações. Frequentemente, menos é mais. Nossa tendência é adicionar para enriquecer, enquanto que retirar pode ser o melhor caminho para se criar variedade e interesse. Durante as gravações, provavelmente técnico e produtor fizeram alguns rough mixes para facilitar a gravação de coberturas e overdubs. Estes mixes possuem um grande valor e podem ser usados como referência durante a mixagem, assegurando que a idéia original não seja desvirtuada. Se o rough mix não estiver suficientemente desenhado para servir de base para a mixagem que se inicia, o produtor criará um neste momento. Um excelente indicador da qualidade da pré-produção e das gravações é conseguir fazer um rough mix rapidamente, onde todas as trilhas estejam audíveis e claras, sem a necessidade de explorar intensamente recursos como panorama, reverberação, compressão e equalização (explicados a seguir). Se o rough mix está soando bem, provavelmente as trilhas estão perfeitas para serem mixadas. Se houver tempo, peça que cada músico da banda faça uma mixagem. Os resultados podem ser surpreendentes! Há diversos casos de produções que acabaram utilizando um rough mix como versão final da mixagem, porque não foi possível criar uma mais interessante posteriormente. Mixar é um processo tanto artístico como técnico. O engenheiro (técnico) de mixagem, juntamente com o produtor, pode levar a produção para caminhos totalmente distintos e até irreconhecíveis. Por isso é importante revisitar de tempos em tempos o registro original, gravação-guia, referências fornecidas pelo artista e rough mix. Quatro diferentes domínios são explorados durante a mixagem: Volume, Espectro, Panorama e Profundidade. Qualquer atividade realizada durante o mix, inevitavelmente vai interferir em um ou mais destes domínios. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 21 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  21. 21. A mixagem merece um capítulo à parte e muitas vezes é confundida com a gravação, ou até mesmo com a produção musical. Trata-se apenas de uma etapa e deveria ser feita na ordem proposta neste manual. Se a mixagem começar a modificar forma ou instrumentação, estará na verdade fazendo o papel da pré- produção. Aí sim poderá influenciar muito mais no resultado final. Normalmente, de uma maneira negativa. Um dos aspectos mais importantes da mixagem é a correta monitoração. Técnico e produtor farão muitas decisões baseadas no que estão ouvindo. Aquilo que escutam deve representar com fidelidade o que está gravado e sendo reproduzido. Pode parecer óbvio, mas é muito freqüente que o sistema de monitoração (sala, amplificadores, monitores, posição de audição) seja menos do que aceitável, refletindo em erros que serão revelados somente na masterização. Uma monitoração deficiente modifica a percepção de timbres, profundidade, panorama, detalhes de fundo, ruídos, entre outros. Mais uma vez, o desempenho acústico da sala é a variável mais importante, juntamente com ouvidos treinados. O técnico tem papel crucial no fluxo da mixagem. Um profissional experiente conhece as linguagens do meio e pode se comunicar facilmente com artistas e produtor. A economia de tempo e esforço é grande, ainda mais se há domínio sobre os equipamentos. Sua atenção deve estar voltada para os aspectos técnicos da produção, e não ao funcionamento de hardware e software. A familiaridade do técnico com a sala e as características acústicas da monitoração tem grande peso no resultado, principalmente se existem problemas conhecidos (como modos ressonantes) que são compensados intuitivamente. Há produtores que sempre trabalham com o mesmo técnico, pois reconhecem as vantagens de uma integração total dentro da sala de controle. Além de volumes (níveis) e panorama (esquerda-centro-direita), os processamentos mais comuns durante a mixagem são: ● Equalização – corretiva e criativa. Modifica o equilíbrio entre as freqüências (graves, médios, agudos), destacando elementos, corrigindo timbres ou evitando o congestionamento no espectro sonoro. Nossos ouvidos têm dificuldades para separar informações e a mixagem tem a função de auxiliar neste processo. ● Compressão – controle das variações de volume de uma trilha ou conjunto de trilhas. Alguns estilos musicais pedem maior uniformidade, diminuindo as distância entre sons baixos e altos. Daí, o nome “compressão”. Compressores são comumente mal-utilizados e podem acabar com a dinâmica natural da música ou partes dela. ● Reverberação – todos os sons naturais que escutamos é resultado da soma do som direto com um campo reverberante, composto das reflexões do ambiente. Estas informações psico-acústicas influenciam a nossa percepção de naturalidade, tamanho da sala, distância da fonte sonora, etc. A reverberação artificial pode ajudar a colocar instrumentos no mesmo espaço virtual e melhorar o realismo. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 22 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  22. 22. O mix final é avaliado pelo produtor e artistas numa sessão de audição. Profissionais da gravadora também costumam participar desta sessão. O áudio final, normalmente em estéreo, é gravado com alta qualidade em um formato seguro, de fácil manipulação pelo engenheiro da masterização. Antigamente, o mixdown ou bounce da mixagem era realizado em tempo real, através de um console de mixagem. As trilhas, já editadas e sincronizadas entre si, eram tocadas simultaneamente enquanto o engenheiro de mixagem, previamente instruído pelo produtor, operava os inúmeros controles de volume, panorama, mandadas de efeitos, equalizadores e compressores. Com a evolução dos consoles, várias destas operações passaram a ser automatizadas. As variações dos controles durante a música, sobretudo os faders de volume, podiam ser planejadas e programadas antes do mixdown. Durante a gravação do mix final, estes controles moviam-se “sozinhos”, através de motores, facilitando muito o trabalho e a precisão do mix. Hoje em dia, não só é possível automatizar virtualmente qualquer controle dentro do computador, como também não é mais necessário que se utilize um console de mixagem grande, caro e dependente de manutenção regular. Há quem ainda prefira fazer a mixagem “out of the box”, ou fora do computador. Nesses casos, o computador funciona apenas como um gravador multi-pista (fornecendo as trilhas para o console) e um gravador estéreo (recebendo o mix de volta). As razões para se utilizar um console externo podem ser variadas. Muitos engenheiros trabalharam anos e anos com um determinado console e, de fato, tendem a ser muito mais práticos, rápidos e precisos quando utilizam suas mãos, ao invés de mouse e teclado. Outros alegam que a qualidade do áudio é incomparável e recusam-se a mixar digitalmente. Particularmente, não acredito na diferença de qualidade de áudio. Como dito anteriormente, outros fatores têm influência muito maior no resultado final do que apenas uma das etapas, ou um equipamento em particular. Minha sugestão é que o técnico utilize o método com o qual se sente mais confortável. Também é possível utilizar superfícies de controle externas que “simulam” um console de mixagem e trazem os benefícios dos dois mundos. Este registro da mixagem final, copiado e arquivado, chama-se de “master mix”. No futuro, as eventuais remasterizações para formatos variados, ou que ainda nem existem, serão feitas através dele. Quanto melhor a qualidade de áudio do master mix, maiores as possibilidades de masterização para diferentes formatos: CD, SACD, LP etc. Um dos erros mais comuns na mixagem é adiantar-se e “masterizar” o mix final na mesma etapa. Assim como não é recomendado cortar o próprio cabelo, a masterização deve ser feita por um outro profissional que esteja menos envolvido no processo de produção e ofereça uma visão externa, mais objetiva e sem influências. Não se preocupe se a mixagem não está soando tão alta quando um CD comercial. Evite utilizar compressores e limitadores, sobretudo no barramento master L+R. Às vezes o som está bom no estúdio mas não soa tão bem no carro. Melhor do que tentar corrigir estas deficiências, o que pode tomar muito tempo e até prejudicar o áudio ainda mais, encare-as como algo normal do processo e siga para a próxima etapa. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 23 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  23. 23. 10. Masterização Se a sua produção caminhou bem até este momento, este último musiponto (mixagem+masterização) pode fazer toda a diferença! A masterização é talvez uma das atividades menos compreendidas na produção musical. Alguns acreditam que ela é a principal responsável pela sonoridade final de um CD. Outros imaginam que é uma etapa desnecessária, da qual somente as grandes produções de beneficiem. Relacionando-a com a escala musipontos, percebemos que ela não é tão importante quanto as etapas anteriores, mas pode ser fundamental para elevar uma produção de 4 para 5 musipontos, ou de 7 para 8, o que representa um salto enorme. Em outras palavras, é como se um sofisticado prato da culinária francesa fosse servido em um marmitex de alumínio - não faz o menor sentido e certamente desvaloriza o produto na sua apresentação, interesse, experiência de consumo e percepção de sabores. A masterização tem várias funções, algumas das principais são: ● Uniformizar faixas de um disco para que soem como partes de uma mesma obra, sem transições abruptas. Ex.: volumes e equilíbrio tonal. ● Aumentar inteligibilidade e punch, sem causar distorções. ● Preparar a mídia master para ser copiada, registrando códigos e informações técnicas. ● Verificar a confiabilidade e compatibilidade da mídia master com equipamentos dos consumidores. ● Testar a “tradução” do áudio em diferentes sistemas de reprodução, simulando a experiência de diversos usuários. ● Corrigir possíveis falhas de mixagem. ● Consertar erros de edição (ruídos, clicks, pops). ● Organizar a seqüência das faixas – contorno emocional do disco. ● Agregar fade-ins e fade-outs nos extremos das músicas. ● Converter o áudio para os formatos necessários com qualidade (CD, LP, MP3, SACD, DVD). ● Criar versões alternativas (rádio, club, Hi-Fi). Para realizar todas estas tarefas, o engenheiro de masterização precisa de sala e ferramentas especializadas, capazes de revelar todos os detalhes do áudio. Não vamos nos enganar – mesmo que possamos realizar todas as nossas próprias gravações e mixagens, dificilmente seremos capazes de masterizar com qualidade. Repare na quantidade de conhecimentos que o engenheiro precisa dominar. É uma atividade muito especializada, assim como deveria ser a de engenheiro de gravação e engenheiro de mixagem. Talvez por isso as produções antigas tivessem uma qualidade média superior. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 24 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  24. 24. Equipamentos próprios para a masterização oferecem a precisão “cirúrgica” que normalmente não existe nas salas de mixagem. E principalmente, ouvidos muito bem treinados, capazes de identificar problemas e encontrar soluções rapidamente. A isenção emocional do masterizador vem a calhar e torna-se uma das principais razões para se contratar um terceiro. Recomendo que a masterização seja entregue a um especialista. Como ele não esteve envolvido na produção, seus julgamentos serão mais objetivos, refletindo melhor a percepção do consumidor. O produtor pode e deve acompanhar a masterização, para garantir que as decisões técnicas não comprometam as intenções artísticas do projeto. De uma maneira simples, a masterização tem a função de fazer um CD soar “comercial”. Não no sentido pop da palavra, mas sim, conseguir uma sonoridade que costuma dividir os amadores dos profissionais. Poucos segundos de audição podem revelar se a masterização foi cuidadosa e precisa. A maneira mais fácil de fazer este julgamento é notar se o som é natural, favorecendo a música, sem interferir. Uma arte “transparente” que não deveria ser notada. Como dissemos no começo do livro, para nós é muito mais fácil e natural fazermos julgamentos do que criarmos produtos para serem julgados, tentando prever a reação do público. A masterização é um ótimo exemplo desse fenômeno. Não precisamos ser especialistas em dinâmica, equilíbrio tonal ou possuir um sistema Hi-Fi para perceber se uma música está soando “profissional” ou não. Mas a grande dificuldade está do outro lado: fazer as modificações necessárias com rapidez, sem comprometer outros elementos da música de modo que os ouvintes apreciem o resultado. Demorei muito tempo para entender e aceitar esse dilema. E foi só depois de projetar minha própria sala de masterização, fazer testes, ajustá-la e masterizar diversos trabalhos que percebi a importância dessa etapa. Há alguns anos aprendi uma técnica que foi provavelmente a mais reveladora sobre a masterização. Nossa audição é extremamente complexa a ponto de alguns fenômenos psico-acústicos ainda não estarem completamente explicados. Mas uma coisa parece ser unânime e bastante conhecida sobre o comportamento dos ouvintes: preferimos os sons mais altos! Trata-se de uma ilusão, um truque do cérebro. Após alguns segundos de audição, outros fatores começam a influenciar na percepção e eventuais distorções e problemas de equilíbrio podem gerar fadiga auditiva e retirar o interesse do ouvinte. O que aprendi é: sempre comparar dois trechos de áudio no mesmo volume! © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 25 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  25. 25. A Produção está Concluída! Com o produto em mãos, o artista pode agora divulgar e vender seu trabalho. As etapas que seguem a Produção (conhecidas como Pós-produção) estão relacionadas ao marketing e distribuição do produto. Eventualmente, podem ser gerenciadas por agências especializadas, departamentos das gravadoras ou produtores executivos. Lembre-se, seu produto precisa ser divulgado, com criatividade e consistência. Antes de mais nada, informe-se sobre os procedimentos de registro do fonograma. Possivelmente, as composições já estão registradas para que não haja debates futuros sobre a autoria. Agora estamos lidando com uma nova expressão da composição, uma produção específica, com um determinado arranjo e interpretação, onde participaram diversos profissionais, músicos e técnicos. Essa master pode e deve ser registrada, inclusive recebendo um número único de identificação, conhecido como ISRC (International Standard Recording Code). Os créditos precisam estar moralmente e legalmente explícitos. Muitos artistas se esquecem de dar os devidos créditos à equipe de produção, seja no encarte do CD, no site ou requerimento de registro. Legalmente, é importante que as porcentagens de participação das rendas e demais discussões que envolvem os direitos conexos estejam claras e aprovadas em um contrato entre todas as partes – autor, intérprete, técnico, produtor, gravadora etc. Advogados especializados em direitos autorais podem ajudar nestas questões, nem sempre claras. No meu entendimento, mais do que garantir as merecidas rendas para cada participante da produção, a clareza contratual e o incentivo às discussões de direitos e deveres deixará todos os envolvidos confortáveis com as decisões. Isso é muito importante para trabalhos futuros, confiança e dedicação. A pós-produção deve se concentrar na exposição do produto. De nada adianta ter um CD em mãos, com produções de alto nível de qualidade técnica e artística, se poucas pessoas terão acesso. Ofereça downloads gratuitos, talvez de uma música ou trecho de várias. Distribua CDs gratuitos. Faça com que seu produto seja escutado por pessoas influentes que trabalham em rádios e gravadoras. Ele precisa de uma boa apresentação gráfica, um release do artista com mais informações e vias claras para contato. O que pode ser adicionado à música para se criar diferenciação? Encartes, fotos, convites para um show? Quais são as revistas, publicações, sites e programas de TV que poderiam se interessar? A Internet é democrática e precisa ser utilizada com sabedoria. Se por um lado os meios digitais criaram uma concorrência sem precedentes, bombardeando os consumidores com todo tipo de informação, produtos e qualidades variadas, por outro, permitiu que artistas e produções que estão fora do circuito mainstream pudessem expor seus trabalhos e encontrar um público interessado. O grande segredo está em buscar esse público, conseguir sua atenção e ter uma chance de ser escutado. Na seqüência, mais detalhes sobre a Escala Musipontos e o gráfico das músicas atuais. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 26 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  26. 26. Por Dentro da Escala Musipontos Discutidas as etapas da produção, acredito que seja mais intuitivo entender os pesos de cada fase e sua influência na avaliação final da música. Como vimos, do resultado final: ● 40% provém da Composição ● 30% da Pré-Produção ● 20% da Gravação ● 10% da Mixagem / Masterização --------- 100% Total Neste ponto, não deve ser difícil entender porque a composição pesa tanto, afinal ela é a matéria prima da música. A pré-produção infelizmente não costuma ser tratada com uma etapa isolada e pode acontecer parcialmente durante a composição, gravação ou até mixagem. Como vimos neste manual, sugiro que ela seja encarada como um processo à parte. Os benefícios são imediatos e podem contribuir em peso. Durante a leitura, a importância e o funcionamento da pré-produção deverão ter ficado bastante claros. A fase de gravação pode enriquecer uma produção, através das nuances da interpretações, qualidade do áudio e procedimentos que focam na performance dos artistas. Naturalmente, o que foi criado (composição) e ajustado (pré- produção) é mais importante do que o registro em si. O peso da mixagem / masterização pode parecer pequeno. Primeiramente, deve-se notar que a mixagem somente deveria “mixar”, e não realizar atividades que foram esquecidas ou mal feitas nas fases anteriores. E ainda, veremos que um ponto a mais na avaliação de uma música pode fazer toda a diferença e colocá-la em um grupo seleto de produções. Seguindo a ordem de prioridades, uma boa pré-produção e uma gravação bem feita pesam mais e podem facilitar consideravelmente a execução da mixagem e masterização. Lembrando, cada etapa tem um peso na avaliação final: ● Composição – 0 a 4 pontos ● Pré-Produção – 0 a 3 pontos ● Gravação – 0 a 2 pontos ● Mixagem / Masterização – 0 ou 1 ponto ________________ Máximo: 10 pontos © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 27 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  27. 27. O estudo da escala nos faz perceber o seguinte: ● A composição é o elemento de maior peso no resultado final e que mais pode contribuir para a avaliação final da música. ● Ao mesmo tempo, depende das próximas etapas para atingir uma soma alta de musipontos. Isoladamente, uma composição não pode passar de 4 pontos. ● Cada etapa é menos importante que a anterior, embora seja fundamental para a avaliação final. ● A maior quantidade de esforço, tempo e investimento deve ser alocada às primeiras fases. Quando estas atingirem seu máximo potencial, é hora de seguir para a próxima, na tentativa de adicionar musipontos. ● Para uma determinada canção, deve-se conhecer o potencial e limite de cada etapa, conseguindo o melhor equilíbrio entre esforço e resultado. ● Quanto mais pontos uma etapa tiver, maiores as chances de uma boa pontuação na seguinte. Cada etapa influencia a próxima. Em outras palavras, uma pré-produção dificilmente atingirá 3 musipontos se a composição vale 1. Para fins práticos, vamos considerar que não existem notas quebradas. Assim, cada música tem 10 graus de avaliação (1, 2, ...10). Não consigo imaginar uma música que tenha 0 (zero) musipontos, embora você deva concordar comigo que algumas estão bem próximas! Exemplos: ● Uma composição primordial (4), que não foi pré-produzida (0), relativamente mal gravada (1) e bem mixada (1), somaria apenas 4+0+1+1=6 musipontos, o que é um grande desperdício de talento! ● Uma composição razoável (2) e bem produzida (2+2+1) atingirá uma nota 2+2+2+1=7, definitivamente se destacando na média de mercado. ● Uma composição fraca (0) pode até receber uma boa produção (4), mas nunca será mais do que "mediana". ● Uma canção top (7 ou mais musipontos) requer excelência técnica e artística em todas as etapas, não consegue se sustentar apenas por algumas. ● Quando uma excelente composição (4) é pré-produzida com alta qualidade (3), o resultado é ótimo (7), mesmo que não esteja muito bem mixada ou masterizada. Porém, um cuidado adicional nestas últimas etapas poderia consagrá-la como um clássico eterno. Aproveite para praticar, fazendo uma experiência agora mesmo. Ligue o rádio na sua estação favorita. Você consegue identificar músicas que se encaixam nos exemplos acima? Liste alguns exemplos abaixo: Uma composição primordial: __________________________________ Uma composição razoável que poderia ser melhor produzida: ________________ Uma composição fraca que se destaca pela produção: ______________________ © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 28 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  28. 28. Cenário Musical - A Verdade Nua e Crua A escala musipontos foi concebida de maneira que as notas sigam um padrão de Distribuição Normal. Este tipo de distribuição é bastante comum na estatística e representa com boa fidelidade diversos fenômenos naturais. Por exemplo, se estudarmos o peso de 1500 pessoas selecionadas ao acaso em uma população, teremos um gráfico parecido com este: A maior densidade (ou ocorrência) acontece em torno de 70kg, caindo simetricamente conforme nos afastamos da média (70kg). Esse tipo de curva ou decaimento caracteriza uma “distribuição normal”, um dos modelos estatísticos mais comuns e naturais. Uma distribuição normal, como esta, tem algumas particularidades: ● A grande maioria dos valores encontra-se em torno da média (88% das pessoas pesam entre 55 e 85kg). ● Existe uma pequena proporção de valores nos extremos, abaixo de 48kg (1,2%) e acima de 92kg (1%). ● Embora 70kg seja o valor mais comum (média), ele não é exatamente a “média aritmética” da população. Ou seja, o peso das pessoas não varia de 0 a 140Kg, há casos acima disso e nenhum abaixo de 20kg. Paralelamente, no caso da Música, existe uma nota média ao redor da qual a grande maioria das canções se encontra. Há poucas músicas com nota muito alta ou muito baixa e quanto mais distante da média, menor é a ocorrência. Qual seria esta nota média? Como vimos, não é porque as notas variam de 0 a 10 que a média é necessariamente “5”. Existe um valor que é o mais comum, onde há maior ocorrência de músicas. Minha teoria é que a nota média tem baixado consistentemente nas últimas décadas. Não seria o momento de reverter a situação? Ou seja, a qualidade média das músicas lançadas no mercado está cada vez menor. Não é difícil entender este fenômeno se nos dermos conta de que a cada dia, existem mais lançamentos, mais pessoas produzindo música e menos especialização. A conseqüência é que a média diminua, embora obviamente, ainda existam várias canções excelentes. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 29 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  29. 29. Se voltarmos à época de Mozart, os compositores, instrumentistas, arranjadores, maestros e demais profissionais da Música costumavam estudar muitos anos, dedicando-se integralmente à profissão. Relativamente, havia poucas pessoas produzindo música, baixo acesso à escolas e mestres, dificuldades para se encontrar músicos e instrumentos. A exigência do público era maior e grandes patrocínios e motivações incentivavam a criação de uma obra musical. Mesmo assim, boa parte da obra de Mozart não conseguiu destaque e é praticamente desconhecida até o presente. Hoje, qualquer pessoa com acesso a um computador pode aprender e criar música rapidamente, a quantidade de estilos e liberdade criativa é muito maior. Existem inúmeros nichos de mercado e graus de exigência, as músicas podem ser mais descartáveis e, proporcionalmente, poucos profissionais estudaram as técnicas de produção musical a fundo. O resultado é uma baixa qualidade média. Se você pedir para amigos e parentes criarem uma lista de músicas preferidas, é muito provável que a maioria delas seja da década de 60 ou até mais antigas, muitas dos anos 70 e 80, algumas dos anos 90 e poucas do século XXI. Isso explica também a quantidade de remixes de músicas famosas que estamos vivenciando. Repare no que é tocado nas festas de casamento e grandes eventos - os clássicos são eternos e dificilmente substituídos por músicas mais modernas. São raras as músicas atuais muito bem produzidas, com chances de se tornarem clássicos no futuro. Não acredito que este seja um problema particular da Indústria Musical. Se pensarmos em nutrição, provavelmente nos alimentamos com menos qualidade do que há alguns anos atrás. Temos menos tempo para nos dedicarmos a assuntos e projetos específicos. A cada dez filmes que alugo, recomendaria apenas um para meus amigos. O momento é de reflexão: continuar este movimento de banalizar as artes e a qualidade de vida (que parece ser cíclico na história da humanidade) ou resgatar valores e preparar o terreno para uma reviravolta nos próximos anos? Muitas vezes a dificuldade está em se avaliar. Como saber se algo é bom ou ruim quando não temos referências? Como um jovem de 14 anos pode julgar uma gravação se suas referências são MP3 tocados em fones de ouvidos baratos? Como avaliar uma composição, seus recursos musicais e poéticos, se as bandas que escutam tocam sempre os mesmos acordes, com o mesmo som e estilo? Na qualidade de apreciadores da música, temos a responsabilidade (ou mesmo a obrigação) de educar o próximo. Entregar referências e permitir que façam seu próprio julgamento. Certa vez me disseram: “sorte dos ignorantes, que se contentam com pouco e vivem sem aflições”. Talvez seja verdade... Mas para mim, sorte mesmo é ter a oportunidade de conhecer coisas novas, ser impactado por um livro, música ou perfume que marcou um momento. Porque transformar “vivência” em “sobrevivência”? Que tal começarmos a avaliar músicas por uma nova ótica, criando nossas próprias referências, julgamentos e incentivando debate e crescimento do mercado? Continue lendo! © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 30 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  30. 30. Avaliando Músicas com Musipontos Considerando-se as músicas existentes e dividindo a linha de tempo entre passado e presente, a distribuição de musipontos poderia ser aproximada pelos gráficos abaixo. A curva preta representa a densidade (ou ocorrência) de músicas com uma determinada nota. Repare, por exemplo: no passado, 40% das músicas tinham nota 6. Hoje em dia, apenas 5% delas atingem esta pontuação na escala. A região destacada como “TOP 20%” é o grupo das melhores músicas existentes em uma determinada época. São os hits. Veja que este grupo engloba todas as músicas a partir de uma determinada nota, até o máximo de 10 musipontos. No gráfico de baixo (época presente), pode parecer que não existem músicas com mais de 7 pontos. Elas existem, mas a porcentagem é muito pequena para ser visualizada nesta escala. As top 20% têm uma particularidade importante: representam a grande maioria do que é exposto ao público, pelas rádios, TVs, lojas etc. São os famosos hits, que hoje em dia costumam durar apenas 2 meses, por não terem uma nota suficientemente alta. Este fenômeno é conhecido como Lei de Pareto. Esta lei diz, por exemplo, que 20% do seu tempo de trabalho gera 80% dos resultados. Ou que 20% dos produtos de uma loja geram 80% da sua receita. Um fenômeno comum em diversas áreas da ciência que também funciona para a música. O espaço existente para exposição e veiculação de canções é limitado. É por isso que as rádios tocam em média 20% do repertório durante 80% do tempo. Este grupo de alta exposição ao público está em constante mudança, variando conforme a época. Estar entre as top 20% aumenta consideravelmente as chances de sucesso, mas não significa que a música é excelente ou que sobreviverá por muito tempo. Repare no gráfico como as top 20% de antigamente possuíam notas melhores. Ao mesmo tempo, estar fora do topo não é necessariamente ruim. Muitas canções menos conhecidas encontram seus nichos e geram bastante lucro e reconhecimento para o artista. Estatisticamente, as canções com 8 ou mais musipontos (região verde do gráfico) tendem a se tornar clássicos, de grande público e tempo de vida. Aquelas com 3 ou menos pontos podem ser consideradas fracas. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 31 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  31. 31. Embora a média tenha baixado um pouco nos últimos anos, as conseqüências são muito maiores do que parecem: ● No passado, as top 20%, ou 200 em cada 1000 músicas, possuíam 7 ou mais musipontos. Atualmente, apenas 0,2% (duas em cada 1000) têm esta nota e podem gozar de alta repercussão, atraindo o interesse de gravadoras e volume de vendas. Vender mais do que 1 milhão de cópias hoje em dia é raríssimo, uma vez que essa parcela campeã de audiência começa em 5 musipontos. Nossa referência, aquilo que escutamos todos os dias, baixou de nível. ● Antes, um clássico (com 8 ou mais musipontos) surgia a cada 200 músicas produzidas. Hoje são necessárias mais de 335.000 músicas para que uma se torne um clássico (0,0003% das produções). Dependendo do mercado, isso pode significar meses e meses de lançamentos até que uma produção histórica apareça. Quantas músicas lançadas no último ano estão entre as suas favoritas? ● O ritmo da produção aumentou, mas não dá conta de criar mega- produções com a mesma freqüência de antes. O volume de lançamentos duplicou ou triplicou nos últimos anos. Em 2005, foram 60.000 títulos (álbuns). E destes, quase 50.000 por selos independentes. A venda média de CDs para cada título era de 18.000 (majors) e 789 (independentes) cópias. ● Apenas 0,5% costumava ser considerado muito fraco. Nos tempos atuais, 30% dos lançamentos teriam avaliação 3 ou inferior na escala musipontos. De fato, não é um exagero dizer que 1 em cada 3 músicas atuais é bastante descartável. Concluímos que uma pequena queda da nota média implica numa ocorrência MUITO menor de músicas com alta avaliação. Lojas, sites, TVs e rádios contam hoje com um acervo de qualidade inferior. Conseguir um ponto a mais pode significar sair de um grupo onde estão 70% das músicas e colocá-la entre as 30% melhores. E ainda, um ponto extra irá posicioná- la no seleto clube das top 5%, com muita exposição, renda e tempo de vida! Lembre-se: ● 5 musipontos já é um bom resultado! Este deveria ser o objetivo de qualquer produção levada a sério. ● Conseguir avaliar uma música com precisão não é objetivo da escala, sempre haverá um pequeno fator pessoal e contextual. Ainda assim, a margem de dúvida deveria estar em 1 ponto. ● Mesmo que uma faixa de trabalho seja avaliada por você como 5 e por um amigo como 6, a disciplina durante os processos de produção terá uma grande chance de adicionar pelo menos mais um ponto, fazendo uma grande diferença. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 32 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  32. 32. O Papel da Tecnologia A tecnologia não deveria ajudar na qualidade das músicas? Eu entendo que sim, mas o fato é que ela não tem conseguido realizar essa missão com tanta freqüência. Acredito que muitas pessoas envolvidas na produção musical encaram a tecnologia como um substituto para criatividade e trabalho. Este é um grande engano. A tecnologia é apenas uma ferramenta, que acelera processos. Os livros não estão melhores porque existem impressoras a laser ou corretores ortográficos. Ter acesso à Internet não nos faz especialistas em todos os assuntos. Ainda precisamos estudar, praticar, desenvolver técnicas e talentos. Algumas gravações de décadas atrás emocionam e soam tão bem quanto se pode esperar. Talvez um dia a tecnologia melhore nossa audição ou seja “inteligente” a ponto de ser criativa, mas ainda não chegamos lá. Ao invés de comprar, baixar, instalar e experimentar diversos softwares e plugins de produção musical, procure se especializar naqueles que você já tem familiaridade. A imensa oferta de tecnologias, microfones, interfaces de áudio e DAWs é tentadora! O problema é o tempo que gastamos para selecionar e aprender cada uma delas. Procure adquirir software e hardware profissional, que atenda o mínimo de qualidade e funcionalidades, sem dar um passo maior que a perna. Falo por experiência própria. No passado, comprei algumas coisas que não eram prioridade, me tomaram um bom tempo de aprendizado e acabaram deixadas de lado, substituídas por equipamentos ou programas mias intuitivos que também oferecem uma boa qualidade. Um Home Studio deveria possuir um bom par de microfones multi-uso a condensador. Não economize nos cabos, eles devem durar muito tempo, com conectores confiáveis. Armazene-os com cuidado, evitando torcer a trama dos fios. Alguns pedestais, um filtro anti-pop, uma interface com duas entradas MIC e um teclado MIDI pequeno. Este kit básico já permite uma grande variedade de trabalhos, sobretudo na pré-produção. Escolha um pacote DAW e insista nele! A familiaridade com seus recursos e atalhos pode ajudar muito na criatividade e fluxo de trabalho. Em algum momento, você sentirá falta de algo a mais e muito provavelmente saberá o que comprar. A maioria dos seus equipamentos continuará sendo útil. Invista na acústica de sua sala! Este é o principal equipamento e pode custar menos do que um simples microfone. Controle de ruídos e modos ressonantes, difusão do campo sonoro, absorção de reflexões primárias, ajuste do tempo de reverberação e um bom par de monitores. Um fone de ouvido de boa qualidade pode ser um grande aliado na edição e audição de trilhas, principalmente quando a acústica da sala é muito deficiente. © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 33 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.
  33. 33. Mais do que nunca, as técnicas da Produção Musical devem ser utilizadas para se conseguir destaque e longevidade. O cenário é promissor. Uma boa produção tem maiores chances de aparecer do que antigamente. Resgatar o nível médio significa criar mais espaço para as grandes produções e menos exposição para o conteúdo de baixa qualidade que compete por nossa atenção. Você está pronto para participar dessa missão? ***** Espero que esse Manual tenha sido uma boa leitura! Continue estudando sobre a Produção Musical para desenvolver cada vez mais as suas habilidades. Para dúvidas, críticas e sugestões, por favor entre em contato comigo através do AudicaoCritica.com.br Para se Aprofundar no Assunto 1. Grave, grave mais e depois grave de novo. Os melhores produtores e artistas que conheço estão sempre fazendo música. Arriscando, experimentando, errando e aprendendo. 2. Acompanhe revistas e sites especializados. Infelizmente não há muita literatura nacional, tanto em qualidade quanto em quantidade, embora eu tenha reparado em um avanço significativo nos últimos anos. 3. Faça cursos que ofereçam prática e não se prendem a equipamentos e receitas-de-bolo. Conceitos sólidos permitirão aplicar seu conhecimento a qualquer situação de produção musical. 4. Visite http://AudicaoCritica.com.br para ler mais sobre o assunto e receber informações sobre os meus Cursos de Áudio e Produção Musical, que oferecem bastante prática, aulas individuais ou para grupos, com flexibilidade de horários. 5. Envie sua música para uma análise gratuita, através do serviço disponível no meu website. Publicarei um breve artigo com impressões e dicas para sua produção (serviço sujeito à disponibilidade na fila). 6. Conheça os meus serviços acessíveis de projeto acústico e produção musical online, com relatório de dicas para ganhar musipontos em todas as etapas da produção. 7. Assine minha Newsletter e acompanhe o Blog de Produção Musical (http://AudicaoCritica.com.br/blog) para ler artigos do meio e adquirir conteúdos exclusivos. Boas produções e obrigado pela atenção! Dennis Zasnicoff Produtor Musical dennis@audicaocritica.com.br © 2008 Dennis Zasnicoff | www.zasnicoff.com | Alguns direitos reservados | p. 34 Proibida a comercialização e criação de obras derivadas. Cite o autor quando utilizar o texto. O autor não renuncia aos seus direitos morais.

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