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SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

RAÍZES DO BRASIL

26' edição
N” veímpmnada

m' PANPHADKS LETRAS
Cnpyrlglll t) 1936, 1947. 1955 by Sergio Buarque de Holanda
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o SIGNIFICADO
DE “RAÍZES DO BRASIL"

A certa altura da vida.  vai ficando possível dar balanço no pes-
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der.  sobretudo em face dos rumos tomados posteriormente pelo seu
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POS 718 CRIPIUM

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quanto viverem de trabalhos mecânicos.  A comida do povo - de-
clara ainda - não se distinguiu muito da dos cavalheiros no...
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Pioneiros da conquista do lrópico para a civilização,  tiveram
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Nas formas de vida coletiva podem nsrinalar-ac dois principios
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Sérgio buarque de holanda   raízes do brasil
Sérgio buarque de holanda   raízes do brasil
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  1. 1. nnwu um¡ clrunnu~uuln IvuIÍIIHHH' qua' / fu/ :rnx «lu / ›'ru. v// ¡¡¡~<'| :~«- ~V'1'III| |1›HIII: | nim t'll| .ltlv'ilil~ «Jun» Iu1¡r| ;ulnruu| :¡ IINNÍPFIIH h¡~| ur'§u: I;¡I›; I u ¡¡›k-|1u'¡: ¡~ ~HFÍJII~| Il': l~¡l1'ÍI': |~ Innln nn ¡¡n›|4uía› uh' . nuilm- <¡n. nnu nn vqilu 41;¡ m. ¡i| .¡ Idlllu na ~I'II~ÍI›ÍIÍII. HII“ ¡nnun : ¡ xwruHIu «Im n-nnn qlmnm11.¡c-ulnligwívcA-pmm ill' Ívollllàlrvlllrl-. I. Iu~r| :¡~~¡- u | Ii~humn| ur 11;¡ rullnm 1' "Il-Jihlàl nrlliru um¡ IzIII-Illm vxiclrnlnw : |1- : mnnlu- 1*~¡'I'ÍII›I' irlr: n¡›au<-inl: uulr- w-ruku* Jr* «r'¡I; ¡r: ¡1'1nrI~ Íllél [bllllllilúl n' itlu prhxulu. I'IIII'I'1›IIH'4|~lrlllàh4Í4'›(. |¡I'¡I'1l. ¡ljlllinHvlllrllllrl Iunim ¡ln- »vu . nlml IIII| 'I1'~= I', I. il* num» gn-¡uurñn- ; «Iu- Iniwnluclnruw rHIIIÍIIIIJHII n-n. uununnln. Inc-ln. fumv uhpnxnlnuu Air nnwgnluu-I ¡I: ¡|1r| .u| <-. IhzLh n-~~:1~ quuliuhnrhw | '|'llll¡(i. l~ li/ vmlv¡ <| ¡*~In~ÍÍ| ”n_rumI': t/. ÍvI. IIU1|i/ r1th* nlmlio (EuuÍiÀn. ' um rláwiru ¡Ic- IIJI~I'I^XI1_'JIH Prw/ Éiru: r/ r ÍHIUIIÍU (ímr/ ¡r/ u / 'u, »_'/ Íirír› th' / ru/ r/u (lr/ UNI I/ v' l/ u// u Ranzes do Bras: : HÍIIMIIÂMIIHIIZIK ISBN 8511644489 ' . :mu 9'78BS71"ó4Á7482 anna: : HrrÍ/ cu ¡Ín “mu” **'I1|<I(! wI: ¡NI m Hu! x(u xHq-x m ~ Slímzlc)B11›I«_›L'Ia D1; I*I()J. _.x1); x Raízes do Brasil , ___ '_/ /_ t k mmxu¡ x l ). ~' L1 rrk x'
  2. 2. Se ae poda aplicar a expressão "obra fundadora" a alguns autores c. livroa do a-. nnsaísvnn lnrusilcirav no século . XX. 11min: do Brasil estará PPJlJIIlIP-Illl? Ífl: llllfF, Nil lñlllll 4.! ! melhor tradição do movimento mo- ¡ ma. que ¡onrjitlnnva n11 : :rir e re-milhecer opaísq esLe pequeno ¡gnmtllt erlnniu. (mia primuim tsliçãr¡ dam de 1936. já teu-luva. «lataria logo, que as altas qualidades de hie- luriuilm' cultural e ele: nzrívi¡ m lñrni- rio sintcrlzuvnnl-se. nesta» página: na talento da um grande nacrimr. nmu pmsa cancisa a dfspremn- sima, clegnnl: t: Ilumina. plniziliru m¡ análise conceitual c historiogrãíica. mula na# : :aliam nua : :quit-lutam . até intemncional na amplitude do! u-. Ivuus, flanízmc da Bruni! ñgnrml. lado de outros emaios e ensaís - nnm- cala-a aaa uibrau dc Paulo PIII- da, (Zilberlu Fraga: e Caiu Prada Jr. -. roma cxcmplo (lcstauado dos mlnrçuas rctlloxívlm Alt' imln : mu: gr- raçño e, no mesmo iempo. como : rm de catilo mamadamtntc pcs- . mnl r: clífc-. Itlluirulu. Quem su¡ Ín- : niliuindn cam_a escrita historio- grñfilta l' 0 Innrln l riaçãt¡ emu¡ Is- rita do aum: em naum aluna¡ nata¡- ruhctcrã em ! faísca do Brad! sua ! nutrir estilislica e invesiigativa. Enlamrlczncltn o "lmvm 001m) exacerbação da alem - uma: pam a fra-mação dc laços communi- ¡ ounlial" ñas quunlu para¡ sun ruplum viu- lenna - o livro pontua, com íinn sz-zvlsibnlidnrle, algumas das nmxnlaa de : massa vida social, política e afe- Úw. mm elas¡ incapacidade se- cular para separar a espaço público RAÍZES DO BRASIL
  3. 3. SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA RAÍZES DO BRASIL 26' edição N” veímpmnada m' PANPHADKS LETRAS
  4. 4. Cnpyrlglll t) 1936, 1947. 1955 by Sergio Buarque de Holanda Copyricm © 1995 by EsoóLio de Séuio Huamue de Holanda copyrigm a: "o siyiiñcado de Rufus do hai! " e) 1967 by Antonio (fanaido Copyright de "Past-scriptum” © 1906 by Antonio Candido Copyright da "Rather da BMJ! ? c depois" © 1995 by Evaldo Cabral de Mello Capa: Vidar Bintan sobre Abaporu. óleo sobre (el: de Tanita do Amaral. 1923. 85 x73 cm, colação Raul de Souu Dunas Forbes. São Paulo Preparado: Morto¡ Luiz Fernandes Rzvizãn: OIac/ üo Numa! Júnior Carlos Albano ! nada Agradmrmau a Rm¡ Fome: apena? sermão dou direito: de reprodução da ilustração da copa Unha Ivungmnú de anulando n¡ hmm/ ao ! C10 (Clair: Biarluln do um. m nm! !! amam. mm. : 61:. tom-tm. um : como x sarau Barça: u: llulnllar. _ 15. ai. - SIDTIMJD Z Cnlllànllil rlz¡ Lar-nn. HIS. . SIN BNM-«IQ "T. 801m1 _ üriliuãn u. um». 95067! _ Luv! !! rmaoa #MIURA SUMARE 1.11M. Rua amem Paulina. 702. ci. 32 04532-002 _um Paulo - . w Telefone: (li) JIKvOBOI Paxrülnlm-ORIA wuvawnrpurlriarlaslunrnmbv SUMÁ RIO 0 significado de Raúcs do Brasil (Antonia Candido] Post-Scñplum (Antonio Candido). Prefácio da 2! edição . ... .. . Nota da 3? edição RAÍZES DO : :msm I-'Ronmms DA EUROPA. . Mundo novo e velha civilização - Personnllsmo enragera- do e suas conseqüincias: tibiem do espirito de organiza- do. da solidariedade, dos privilégios hereditária - Falta de coesão na vida social - A volta à tradição, um artifício - Sentunenlo de inacíonalidade específica dos privilégios e das hierarquias- Em que sentido anraáparam os povos ibéricos a mentalidade moderna - 0 trabalha manual e mmãnico, inimigo da personalidade - A obediência co- mo fundamento de disciplina TRABALHO & AvBNnmA Portugal e a colonizado das uma tropicais - Dois prin- cipios que regulam divcrsamentc a. : atividades dos horncns - Plasticidade social dos portugueses - Civilização agri- oola? - Carência de orgulho racial -- 0 labêu associado aos trabalhos vis - Organização do artesanato; sua relati_ va debilidade na América portuguesa - Incapacidade de livre e duradoura associação - A "moral das seuzzlas" c sua influência - Malogro da experiencia holandesa Not¡ ao capitulo 2: Pcrsislêucia da lux-cura de lipo predatória. .. . .4 29 66
  5. 5. 3 HERANÇARURAL. ... ... ... .. A Aboliçlo: mama divisória entre duas épocas - Incom- paribílidade do trabalho escravo com a civilização burgue- sa e o capitalismo moderno - Da Lei Eusébio à crise de 64. 0 caso de Mauá - Patriarcalísmo e espírito de facção - Causas da posição suprema conferida às virtudes da ima- ginação e da inteligência - Caim e suas ideias - Decore aristocrático - Ditadura dos domínios agrário¡ - Con- traste entre a pujança das terras de lavoura e a mesquinhez das cidades. na em colonial o serrana¡ E o LADRILHADOR A fundação de cidades como instrumento dc dominação - zelo urbanístico dos castclhanos; o rriunfo completo da li- nha reta - Marinha t: interior - A rotina contra a razão abstrata. O espirito da expansão portuguesa. A nobreza no- va do Quinhentos - 0 realismo lusitano - Papel da Igreja 'Notas ao capítulo 4: 1. Vida intelectual na América espanhola e no Brasil . 2. A língua-geral em São Paulo . 3. Aversâo às virtudes econômicas. 4, Natureza e : me OHOMEM CORDIAL. .. . .l . .. Antígona t: Croontc - Pedagogia moderna e a: vtrludcs anlifnmiliares - Patrimoniniislno - O "homem cordial" - Avcrsio ao: ritualisrnos: como se manifesta ela na vida social, na linguagem, nos negócios - A religião e a exalta- ção dos valores cordiais Eni: operando' - 0 emitido do hacharclismo - Corno se pode explicar o bom íacito dos positivista» - As origens da democracia no Brasil: um malememlído -- Elos e Ema_ Norsos românticos - Apego binntino aos livro¡ - A mi- ragem da alfabetização - O desencamu da realidade NUSSA rusvorução. .. As agiracôes politicas na America Lanna - Ibensmo e ame rieanismo - Do senhor de engenho ao fazendeiro -- O apa- 'll 93 119 12.2 133 137 139 153 169 relhamento do Estado no Brasil - Politica e sociedade - O cnudilltismo e seu avesso - Urna revolução vertical - Aa oligarquia: : prolongamento: do penonaüsmo no espa- ço e no tempo - A democracia e a formação nacional - A: novas ditaduras - Perspectivas Posfácio: Raízes do Brasil e depois (Evaldo Cnbmlde Mel- Notzs. ... ... ... ... .. Índice remisrivo .
  6. 6. o SIGNIFICADO DE “RAÍZES DO BRASIL" A certa altura da vida. vai ficando possível dar balanço no pes- ado sem cair em autooomplacémtía, pois o nosso testemunho se toma registro da experiência de muitos. de todos que, pertencendo ao que ae denomina uma geração. julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos. ficando tão iguais. que acabam desapare- cendo como indivíduos para se dissolvezem nas característica; go- rais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tpo qu: se deseja evocar. Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinqüenta anos aprenderam e refletir e a seimeresux pelo Bruíl sobretudo em termos de passado e em função de três livros: Casar grande e Senzala. de Gilberto Freyre, publicado quando mlúvamos no ginásio; Rafzes do Brasil. de Sergio Buarque de Holanda, publi- cado quando estávamos no curso complementar; Fon-viação do Brasil conremporñneo. de Caio Prada Júnior. publicado quando estávamos na escola superior. São estes os livros que podemos considerar cha- ves. os que parecem exprimir a : actualidade ligada ao sopro de radi- calismo intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi. apesar de tudo, abafado pelo Estado Novo. Ao v lado de tais livros. :obra por tamos aspectos penetrante e antecipa- dora de Oliveira Viana já parecia superada, cheia de preconceitos ideológicos e urna vontade excessiva de adaptar o real a desígnios convencionais. Era justamente um intuito anticonvendonal que nos parecia ani- mar a composiçio Iíhêrrima de Cam-grande e senzafa. com a sua franqueza no tratamento da vida sexual do panriarcalismo e a impur- táncia decisiva atribuida ao eseravona fonnuio do nosso modo de ser mais íntimo. 0 jovem leitor de hoje não poderá talvez emagreci¡- 9
  7. 7. der. sobretudo em face dos rumos tomados posteriormente pelo seu autor. n força revolucionária, o impacto libertador que teve me yan- de livro. Inclusive pelo Volume dc informação, resultante da tecnica expositiva, a cujo bombardeio as noções iam brorando como numa improvisação de talento, que ooordcnnva os dados conforme pon- tos de vista totalmente novos no Brasil de enlâu. Sol: est: aspecto. Cam-grande e : mula é uma ponte emrc o tlaturalisitto dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclidn da Cunha e mesmo Oliveira Viana. e os pornos d: : vixtu mais especif- camettte sociológico: que se imporitrm a partir de 1940. Digo isso em virtude da preocupação do autor com os problemas de fundo bio- lógico (raça, aspectos sexuais da vida familiar, equilibrio ecológico. alimentação), que serviam de custeio a um tratamento inspirado pela antropologia cultural dos noneameticanos, por ele divulgada em nm- . so país. Três anos depois aparecia RIIÍZES do Brasil. concebido e escrito dc mudo completamente diverso. Livro curto, discreto, de poucas citações. atuaria Inenos sobre a iotaginaçãn dos motos. No entanto, o seu exito de qualidade foi imediato e ele se tornou um clássico de nascença. Daqui a pouco, veremos at¡ característica: a que isso foi devido. Por enquanto, registramos que a sua inspiração vinha de ou- tras fontes e que as suas perspectivas eram difcremes. Aos jovens forneceu indicações importantes para compreenderem o sentido de certas posições políticas daquele momento, dominado pela descrença no liberalismo tradicional e n busca de soluções novas; seja. à direita. no integrnlismo, seja, à esquerda. no socialismo e no comunismo. A atitude do autor, aparentemente desprendida e qua: : remota, era na verdade condicionada por casas tensões oomemporáuwa, para, cujo enlertdimcnto oferecia uma análise do passado. O seu respaldo teó- rico prendia-se 'a nova ltistória social dos franceses. à sociologia da cultura dos alemães, a certos elementos deteoria wciológlm e etnolú- gica também inéditos entre nós. No tom geral, uma. parcimoniosa elegância, um rigor de compondo escondido pelo ritmo despreocupa- do e às vezes sutilmeme digresslvo. que faz lembrar Simmei e nos parecia um corretivo à abundância nacional. Diferente dos anteriores, Formacão da Brasil contemporâneo surgiu nove anos depois do primeiro. seis depois do segundo, em ple- no Estado Novo repressivo e renovador. Nele se manifatava um au- mr que nán disfarçavn o labor da composição nem se preocupava ! O com a beleza ou expressividade do estilo. Trazendo para n linha de frente os informantes coloniais de mattnlidadc monômica mais aú- lida e pratica, dava o primeiro grande exemplo de interpretação do passado em função das realidades basicas da produção, da distri- buição e do consumo. Nenhum romantismo, nenhuma disposição de ntxiLar categorias banhados em certa aut¡ qualitativa - como "feudztlistno" ou "família patxiarcal" -. mas odesnudmumw opo rosa dos substratos materiais. Em conseqüência. uma exposição de tipo factual, inleimmenLe afastada do euselamo (marcante nos dois anteriores) e visando a convencer pela massa du dado e do argumen- to. Como linha interpretativa. o nlaterialismo histórico. que vinha sendo em nossa maio uma extraordinária alavanca de renovação in- telecrual e politica: e que. nessa obra, :parecia pela primeira vez como forma de captação e animação do real, desligado de compromisso partidário ou desígnio prático imediatista. Ao seu autor. já devía- mos um pequeno livro de 1934. que atuar: : como choque revelador. por ter sido a primeira tmtativa de síntese da nossa história hauada no marxismo: Evolução politico do Email. Ao evocar esses impactos intelectuais sobre os moças de entre 1933 e 1942, talvez eu esteja focalizando de modo algo restritivo os que adotavam posições de esquerda, como eu próprio: comunistas e socialistas coerenterneme militantes. ou participando apenas pela: idéias. Para nós. os três autores citados foram trazendo elementos de uma visão do Brasil que parecia adequar-se ao nosso ponto de vista. 'Ftazziam a denúncia do preconceito de raça. a valorização do elemento de cor, a crítica dos fundamentos "petriamnis" e agrárioe. o disçemimenro das condições econômicas. a desmislificaçâo da rc- tórica liberal. Mas talva significzuscm outra coisa para os jovens da direita, que em geral, se bem me lembro. tendiam n rejeita-los. olhá-Ios com desoonfianca ou. m: medida do possivel, ajustar ao mr- nos o primeiro nos seus desígnios. Esses nossos antagonistas prefe riam certos autores mais antigos, com orientação metodológica de tipo naturalista ou (no sentido amplo) positivista. como Oliveira Via- na e Alberto Torres, dos quais tirarem argumentos para uma visão hierárquica e atrtorimrin da sociedade. justamente atlue Sergio Buar- que de Hoiandn criticava em Raízes do Brasil. (Taberia aqui. aliás. uma reflexão desapaixonada sobre este¡ ad- versários da mesma geração, em geral iutegralisms. Apesar da estima pessoal que tínhamos eventualmente por alguns deles, nos os reputâ~ II
  8. 8. vamos representantes de uma filosofia politica e social perniciosa. sendo. como era. manifestação local do fascismo. No entanto. a dia- tlrwia mostra que u integralismo foi, para varios jovem, mais do que um fanatismo e uma fan-na de resistência reaeionária. Foi um tipo de interesse fecundo pelas coisas brasileiras. uma tentativa de substituir a platibanda liberaloide por algo mais vivo. Isso explica o número de integrolistas que foram tramitando para posições de esquerda - da cisão precoce de Jeová Mota as abjurações do deoê nio de 1940, durante a guerra e depois dela. Todos sabem que nas tentativas de reforma social semeadas pelo golpe de 1964 participa- ram antigos integralístns identificados às melhores posições do mo- mento. Ex-tegralistas que chegaram aos vários matizes da esquer- da, dude a "positiva", batizada assim por um dos mais brilhantes dentre eles. até às atitudes abertamente revolucionárias - enquan- to, de outro lado, alguns dentre os que antes formavam à esquerda acabaram por virar espeletas ativíssimos da rção. &IVHIII esta¡ no- tas para ilustrar o balance: que é o destino das gerações e sugerir a atmosfera intelectual em que apareceu e atuou Raizes do Brasil. No perlsalnenlo latino-americano. a reflexão sobre a realidade social foi marcada. dude Sanz-alento, pelo senso dos contrastes e mes» nto dos contrários - apresentados como condiçoes antagmiícas em função das quais se ordena a história dos homens e das instituições. “Civilicão e barbárie" formam o arcabouço do Facundo e, decê- nios mais tarde. também de Os sertões. Os pensadores descrevem as duas ordens para depois mostrar o conflito decorrente; e nos vemos os individuos se disporem segundo o papel que nele despenham. Na literatura romântica, a oposição era interpretada freqüentemente às avessas: o homem da natureza e do instinto parxia mais autênti- co e representativo, sobretudo sob a forma extrema do índio; mas na literatura regional de tipo realista. o escritor acompanha o aquema dos pmsadores. Domo Rómulo Gallegos no medíocre e expressivo Doria Bárbara, que desfecho no triunfo ritual da civilização. Rañzes do Email é construido sobre uma admirável metodolo- sis dos contrários. que : larga e aprofunda a velho dicotomia da re- flexão latino-americana. Em vários niveis e tipos do real, nos vemos o pensamento d o autor se constituir pela exploração de conceitos po- lares. O esclarecimento não decorre da opção prática ou teórica por i2 um deles. como em Sarmiento ou Euclides da Cunha; mas pela jugo dialético entre ambos. A visao de um determinada aspecto da reali- dade histórica é obtida. no sentido forte do temo. pelo enfoque si- multâneo dos dois: um suscita o outro. ambos se interpenetram e o resultado possui uma grande fem-ça de esclarecimento. Neste pro- cesso. Sergio Buarque de Holanda aproveita o criterio tipologia! de Mai¡ Weber: mas modificando-o, na medida em que focaliza pares, nào pluralidade¡ de tipos. o que lhe permite deixar de lado o modo descritivo. para trata-los de maneira. dinamica. ressaltando princi- palmente a sua ínreraçào no processo histórico. O que haveria. de esquemático na proposição de pares mutuamente exclusivos se tem- pera, desta forma, por uma visão mais compreensiva, tomada em parte a posições de tipo hegeliano: " [. ..] a historia jamais nos deu o exemplo de um movimento social que não contivesse os germes de sua negação - negação essa que se faz, necessariamente, dentro do mesmo âmbito" (p. 180]. Com este instrumento. Sergio Buarque ele Holanda analisa os fundamentos do nosso destino historico, as "raizes", aludida: Dela metáfora do titulo. mostrando a sua manifestação nos aspectos mais diversos, a que somos levados pela maneira ambulante da rmnposi- çio, que não recusa as deixas para uma digessão ou um parêntese, apesar de a concatenação geral ser tão rigorosa. Trabalho e aventu- ra; metodo e capricho; rural e urbano; burocracia e caudilhismo; nor- mz impessoal e impulso afetivo - são pares que o autor destaca¡ no modo-de-ser ou na estrutura social e politica, para analisar e nom- preenoer o Brasil e os brasileiros. O capitulo l. "Fronteirasda Europa' ' - que já evidencia o gosto Delo enfoque dinâmico e o senso da complexidade -. fala da Iberia para engloba: Espanhuc Portugal numa mudado quesedesmanchará depois em parte. Ao analisar. por explo, a colonização da Améri- ea, mostra as diferenças resultantes dos dois paises, completando uma visão do múltiplo no seio do uno. Nesse prelildio estão as origens mais remotas dos traços que estudará em seguida; é o caso do tradicional personalismo. de que provêm a frnnidão das instituições e a falta de coesão social. E ai fa: umareflexão deimeresse atual, quando lembra que se estes traços. consideradas defeitos do nosso tempo. existiram dsde sempre, não tem sentido a nostalgia de un: passado liipotetioa- mentemais bem ordenado: e observa que “as épocas realmente vivas turno¡ foram lrttdicionalistas por deliberação" (p. 33). ! J
  9. 9. A isto se ligada ainda, na península Ibérica. a ausência do prin- VÍDÍO d? hierarquia c a exaltação do prestígio pessoal com relação _ ao privilégio. Em conseqüência, a nobreza permaneceu . aberta au mg'- ritn ou no êxito. não se eltquistaltdo, conto noutros países: e ao se tomar aesível com certa facilidade, favmeceu a mania geral de fi- dalguia. ("Em Portugal somos todos fidalgos". diz Fradique Men- des numa das cartas. ) Com esta reterencin a um velho sestro_ o au- tor alude pela primeira vez a um dos temas fundamentais do livro: a repulsa pelo trabalho regular e as atividades utilítarias, de que de com: por sua vu a falta de organização, porque o ibérico não n: - nuncia às Veleidades em beneficio do grupo ou dos princípios, Fiel ao seu método, mostra-nos uma consequência paradoxal: a renún- cia à personalidade por meio da cega obediência, única alternativa para os que 'não ooneebem disciplina baseada nos vínculos nuns-enti- doa. nascida em geral da tarefa executada com senso do dcvcr. “A vontade de mandar r: a disposição para cumprir ordens sào-lhes igual. mente vce-Liliana [aos ibeticosl. As ditaduras e o Santo Ofício pare- cem constitui¡ iouuas tão típicas de seu caráter como a inclinação à anarquia e a desordm" (p. 39). No capitulo seguinte, "Trabalho à. aventura", surge a tipolo- gia hásim do livro, que distingue : :trabalhador e o aventureiro, rc. presenteado duas elis-as opostas: uma. busca novas experiências, acomoda-se no provisório e prefere descobrir u consolidar: outra, estima a segurança e o esforço. aceitando as compensações a longo prazo. “Entre esses dois tipos não há, em verdade, tanto uma opo- sição absoluta como uma incompreensão radical, Ambos participam, em maior ou menor grau, de múltiplas combinações e e elaru que, em estado puro. nem O aventureiro, trem u trabalhador possuem exis- tência real fora do mundo das idéias" (p. 44), Para a interpreta- ção da nossa história. interessa notar que o continente americano foi colonivado por homens do primro tipo, cabendo ao " “tt-at”. lhador', no sentido aqui compreendido, papel muito limitado, qua- sc nulo" (p. 45). Aventureiros, sem apreço pela¡ virtudes da perti- nácia e do esforço apagado. foram os espanhóis. os portugueses e os próprios ingleses, que só no século xtx gnnharium o perfil can- veneional por que os conhecemos. Quanto ao Brasil. diz o autor que essas caruciaísticaa foram positivas, dadas us rircunslíncias, ttcgzlntlu qu: os holandeses pudessem ter fcitu aqui o oue alguns sonhadores imaginam possivel. O português Inanifestou uma adaptabilidade ex- H cepcional. mesmo funcionando “cum dcsleixo e certo abandono" (p. 43): em face da diversidade rcinantc, o espírito do aventura foi “o elemento orquestradur- por excelência" (p. 46). A lavoura de cana seria, nesse sentido, uma fuma de ocupação aventureira do espaço, nao correspondendo a "um civilização típicammtc agricola" (p. 49). mas a uma adaptação antes primitiva ao meio. revelando baixa ca- pacidade técnica e docilidade àa condições naturais. A escravidão. rcquisiro necessário deste estado de coisas, agravou a ação dos fato- res que se apanham ao espirilo de trabalho. ao matar no homem livre a necessidade de cooperar e organizar-re, submetendo-o, ao mes- mo tempo, à influência amolecedora de um povo primitiva. “Herança rural", o terceiro capítulo, parte da deixa relativa à agricultura. analisa a marca da vida rural na formação da sociedade brasileira. Repousundo na escravidão, ela entre em crise quando esta declina: baseando-sc cru ¡ralorcs c práticas ligadas aos estabelecimen- tos agrlcolas. suscita conflitos com a mentalidade urbana. A essa a1- tura, define-se no livro uma segunda dicotomia básica. a relação ru- ral-urhann, que marca em várias niveis a tisionomia do Brasil. Tudo dependia, no passado. da civiliuçán mark-a_ sendo os pro- pricu intelectuais e politicos um prolongamento dos pais fazendei- ros e acabando por "dar-se ao lturo" de sc oporem à tradição. Da sua atividade provém muito do progresso social que acabaria por liquidar a sua asse ao tlesiruir-ilte ll base. isto é, u trabalho wra- vo. E o caso da febre de realizações materiais do det-átrio de 1850, quando, em virtude da Lei Eusébio. que proibia o tráfico di: escra- vos, os capitais ociosoa foram cnnnlizados para os melhoramentos tecnicos próprios da civilização das cidades. ounstituindn uma pri- meira etapa para o "triunfo decisiva dos ntercadores e especulado- res urbanos" . 0 malogro desse primeiro ímpeto, como do de Maua. deveu-st: à “radical incompatibilidade entre as formas de vida cn- piadas de nações socialmente mais attançadas, de um lado. e o pa- triarcalisruo e personalismo fixados entre nós por uma midia-io de origens seculares" (p. 79). A grande importância dos grupos rurais dontinnmes, encosto lados na autarquia oconômieu c m1 autarquia familiar, manifesta-se no plano mental pela supervaloriznçãe do "talenuf ', das atividades intelectuais que não se ligam ao trabalho material r parecem brotar de uma qualidade inata, wma seria a lidaiguia. A esse respeito. Sérgio ¡ Buarque de Holanda desmascarar a posição exlremantente reacioná- -' IS
  10. 10. ria de José du Silva Lisboa. que um singular engano tem feito consi- derar como pensador progressista. A paisagem natural c social fica marcada pelo prcdomu-tio da fazenda sobre a cidade, mero apêndice daquela. A fazenda se virtcu- lava a uma idéia de nobrua e constituía o lugar das atividades per- Inauentes, ao lado de cidades vazias - rurnlismo extremo, devido a um intuito do oolonizador e não a uma ímpnsicán do meio. A alusão a cidade estabelece a conexao com o capitulo 4. "O semeador e o ladrilhador", que começa pelo estudo da importância da cidade como instrumento de dominação e da circunstância de ter sido fundada neste sentido. Aqui chegamos a um dos : nomentos em que se Itola a diferença entre espanhol I: português, depois da caras tcriutçào comum do princípio_ "admirador", o apanho¡ acentua o caráter da cidade como empreaa da razão, contrária à ordem natural, prevendo rigorosamente o plano das que fundou ua América, ao moda dc um triunfo da linha reta, e que nu maioria buscavam as regiões internas. A isso corres- pondia o intuito de estabelecer um prolongamento estável da meu-c» pole. enquanto os portugueses, norteador: pm uma política de feitor-ia, agarrados ao limral, de que só se desprenderiam nn século XVIII, fo- ram "semdores" de cidades irregulares. nascidas e cresciáas ao dem-dará. rebeldes à norma abstrata. Esse tipo de aglomerado ur- bano “nao chega a contradizer o quadro da natureza. esua silhueta se enlaça na linha da paisagem" (p. 110). isso parece ao autor o resultado de um realismo chão. que foge du irnaginações e dar regras. salvo quando elas viram rotina e po- dem ser aceitas sem esforço. Daí o caráter prudente, desprovido dc arruubus du expansão portuguesa - instalando (pensamos nós) um novo elemento de corttrudigão uu espirito de uvrulum antes dctinidu e dando um aspecto peculiar de "desdobra" ao capricho do semea- dor. O interesse do portugués pelas suas conquistas foi sobretudo apego a um meio de fazer fortuna rápida, dispensando o trabalho regular, que nunca foi virtude própria dele. A facilidade de ascen- são social deu à burguesia lusitam aspirações e atitudes da nobreza, à qual desejava equiparar-se. desfazendo os anseios de formar uma mentalidade espcuíñca, a exemplo dc outros paíscs. O capítulo sobre "o homem cordial" aborda características que nos são próprias, como coltseqüéltcia dos traços apontado¡ unter. Formado nos quadros da : :slrutura Iautiliar, o brasileiro recebeu o 16 peso das “relações de simpatia". que dificultam a incorporação nor mal a outras agrupamentos. Por isso, não acha agradáveis as rela- çoes impessoais. caracteristicas do Estado, procurando reduzi-las ao padrão pessoal e afeiiv . Onde pa: a familia. sobretudo cm seu mol- de tradicional, dificilmente se forma a sociedade urbana de tipo mu- derno. Em nosso país. o desenvolvimento da urbanização criou um "dcsmtrilíbrío social, cujos eftos permanecem vivos ainda hoje" (p. 145). E u em¡ altura, Sérgio Buarque dc Holanda emprega. penso que pela primeira vez no Brasil, os conceitos de “patrimoninlismo" e "burocracia", devidos a Max Weber, a fim de elucidar o problc- rua e dar um fundamento sociológico à caracterização do "homem cordial", expressão tomada a Ribeiro Conto. 0 “homem cordial" não pressupõe bondade. mas somente o predomínio dos Oümponarrtcrttos dc aparência afetiva, mclusive suas : rtartifcstações externas, não ncocssarianrente sinceras nem profun- das, que se opõem aos ritualísmos da polidez. O “homem cordial" é visceralmente inadequado às relações intpessoais que decorrem da posição e da funcão do indivíduo, c não da sua marca pessoal e fa- miliar, das afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários. O capitulo 6, "Novos lcmpor". estuda certas conseqüências dm anteriores na configuração da sociedade brasileira, a partir da vinda da família real. que causou o primeiro choque nos velhos padrões coloniais. Ao que se poderia chamar "mentalidade cordial" estão Ligados vários trapos importantes, como a . sociabilidade apenas aparente, que na verdade não se impõe ao individuo c não exerce eleito positivo na est: atuação de uma ordem coletiva. Decorre deste fato o indivi- dualismo, qu: aparece aqui localizada de outro ângulo e se ¡nani- festa como relutância em face du lei que o contraria. ligada a ele. a falta de capacidade para aplicanse a um objetivo exterior_ Retomando o problmm dos intelectuais. o autor assinala agora a satisfação com o saber aparente, cujo Fim esta' em st mesmo e por issu deixa de aplicar-se a um alvo concreto, sendo procurado sobre- tudo como fator de prestígio para quem sabe. J á que a natureza dos objetivos é secundária, os individuos mudam de atividade com uma freqüência que desvenda : :sua busca da: satisfação meramente pessoal. Daí valorizarem-ce as profissões liberais que. alem de pcnnitircm 8.! manifestações de independência individual, presIant-se 30 saber de fachada. Devido à crise das velha» instituições agrárias. os membros i7
  11. 11. das classes dominantes transitam facilmente para tais proñssões, nes- Iigadas du necessidade do trabalho direto sobre as coisas. que Iem- bra a condição srrvil. Relaeionando a tais circo nstâncias o nosso culto tradicional pe las formas impressionantes. o exibicionismu. a improvisação e . a falta de aplicação seguida, o autor interpreta a voga do positivismo no Brasil como decorrência desta (ultima característica - pois o espíri- to rcpousavn satisfeito nos seus dogmas indiscutiveis, levando ao má- ximo a confiança nas idéias. mesmo quando inaplicávcls. Na vida politica, a isso correspondem o liberalismo ornamen- tal (que em realidade provém do desejo de negar uma autoridade incomoda) e a ausütuia de verdadeiro espírito democrático. "A de- mocracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifendal importou-a e tratou de acomoda-la. onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios. os mesmos pri- vilégios qnt: tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta dzt bur- guesia contra os arisrocraras" (p. 160). Os nossos movimentos "apa- rentemente reformadores” teriam sido. de fato, impostos de cima para baixo pelo! grupos dominantes. O capítulo 7, “Nossa revolução". é bastante compacto e preci- sa ser lido cum senso dos subertlertdidos. pois a composição reduz ao minimo os elementos expositivos. O seu movimento consiste em sugerir (mais do que mostrar) omnn a dissolução da ordem tradicio- nal ocasiona contradições não resolvidas, que nascem no nível da estrutura social e se manifestam no tias instituições e idéias políticas. Um dos seus pressupostos, talvez o fundamental, é a passagem do rural ao urbano, isto e, ao predomínio da cultura das cidades, qu: tem como conseqüência. a passagem da tradição iberica ao novo tipo de vida. pois aquela dependia essencialmente das instituicoes agrá- rins. Til processo consiste rm "aniquilamenlo das raízes ibérieas de nossa cultura para a inauguração de um estilo novo, que crismarnos talvez ilusoriamente de amerieunu, porque seus traços se ¡centuam com maior rapidez cm nosso ltcntisfério" (n. 172). Esta transforma- ção tem como episódio importante a passagem da cana-de-açúcar ao cafe, cuja exploração e mais ligada aos modos de vida modernos. Os modelos politicos do passado continuam como sobrevivência, pois ante» se adetruavam à estrutura rural e agora não moontram apoio na hase economica. Daí o aspecto relativamente harmonioso do 18 Imperio, ao contrario da República, que não possuí um substrato íntegra, corno era o de tipo colonial. Cria-sc cntào um impasse, que é resolvido pela mu¡ substituição dos governantes ou pela confecção de leis formalmente perfeitas. Osuilautdo entre um extremo e outro, Lcndmnos de maneira corttroditúüa para uma organização adminis- trativa ideal. que deveria fundunar automaticamente ncln virtude im- pessoal da lei. e para o mais extremo personalismo. que a desfaz a cada Passo. Chegado a este ponto, Sérgio Buarque de Holanda completa o seu pensamento : l respeito das condições de uma vida democrática no Brasil, dando ao livro uma atualidade que, em 1936, o distinguiu dos outros estudos sobre a sociedade tradicional e o aproximava de autores que respondiam em parte no nosso desejo de ver claro na realidade presente, como Virginia Santa Rosa. Para ele, a "nossa revolução" é a fase mais dinâmica, iniciada no terceiro quartel do século xrx. do processo de dissolução da velha sociedade agrária. cuja base foi suprimida de uma vez por todos pela Abolição. Trata-sc dc liquidar o passado, adotar o ritmo urbano e propiciar a entergêneia das camadas oprimidas da população, únicas mm capacidade para revitalizar a sociedade e dar um rtovo sentido à vida politica. O seu texto tl: : apoio, no caso, são us considerações ltlcidas de um viajante estrangeiro. Herbert Smith. que ainda no tem- po da monarquia falava da necessidade de urna "revolução ¡xeni- cal". diferente das reviravoltas meramente de cúpula, que "trouxesse à tona elementos mais v-igornms, destruindo para semp? ! (ts velhos e incapazes" , pois embora fossem estima veis os senhores dos grupos dominantes. os membros dos grupo! dominados “fisicamente nio há dúvida que são melhores do que a classe mais elevada. e mental- mente também o seriam se lhes fossem favorávs as oportunidades". E Sérgio Buarque de Holanda pensa que os acontecimentos do nosso tempo na America Latina sc orientam para esta ruptura do predo~ mínio das oligarquias, com o advento de novas camadas. condição única para vermos "finalmente revogada u velha ordem colonial e patriarcal, com todas as conseqüências morais. sociais e políticas que eia aarretuu e continua a acarretar" (p. 180). E ajunta: “Contra sua cabal realização é provável que se ergn. e cada w: : mais ohstina- da. , a resistencia dos adeptos de um passado que a distância já vai ringindn de cores idñicas. Essa resistencia podera. segundo seu grau de intensidade, manifestar-sc em certas expansões de tirado semi- 19
  12. 12. mental e : místico limitada ao campo literário, ou pouco mais. Não é impossivel, porém. que se traduza diretamente em formas de ex- pressão social capazes de restringir ou contpronteter as esperanças de qualquer transformação profunda" (p. 181). Estas tendências de tipo reeeionária bem poderiam, para o au. tor. mcnmar-«e na propensão sul-americana para o caudilltisxno. que intervém no processo dunocralico como forma strprema do perso- nalismo e do arbítrio. No entanto, parece-lhe que há entre nós con- dições que permitem a convergência rumn a democracia - como : t repulsa pela hierarquia, a relativa ausencia dos preconceitos de raça t! cor, a próprio advento das formas contemporâneas do vida. Para nós, há trinta anos atrás, Raízes do Brasil trouxe elemen- tos como estes. ñmdamenmndo uma reflexão que nos foi da maior importância. Sobretudo porque o seu método repousa sobre um jo- go d: oposições e contrastes, que impede o dogmarismo e abre cam- po para a meditação de tipo dialético. Num : xtomemo em que os intérpretes do rtosso passado ainda se proucupavam sobrando com os aspectos de natureza biológica, manifestando. mesmo sob aparência do contrário. a fascinação pe- la "raça". herdada dos evolucionistas. Sérgio Buarque de Holanda puxou a sua analise para o lado da psicologia c da história social, com um senso aguda das estruturas. Num tempo ainda banhado de indisfarçável saudosismo patriarcalisw. sugerir¡ que, do ponto de viste metodoloyco, o conhaimmto do passado deve estar vincula- da aos problemas do presente. B. do ponto de vista politico. que. sendo o nosso passado um obstáculo, a liquidação das ' 'raizer' era um imperativo do desenvolvimento histórico. Mais ainda: em plena voga das componentes ! usas avaliadas sentimcnlalmente, percebeu o sentida modcrnoda evolução brasileira. mostrando que ola sc pro- cessada conforme uma perda crescente das caracteristicas ibericas, em benefício dos rumos abertos pela trivíliacâo urbana e Immanu- lita. expressa pelo Brasil do intigranle. que na quase três quartos de seculo vem modificando . as linhas tradicionais. Finalmente, deu-nos instrumentos para discutir os problemas da organização sem cair nu louvor do autoritarismo e atualizou a interpretação dos caudilhis- mos, que então se misturavarn à¡ sugestoes do fascismo, tanto entre _ ns integrnlistas [contra os quais é visivelmente dirigida uma parte do 10 livro) quanto entre outras tendências, que dali a pouco se : :concretiza- riam no Estado Novo. Cum segurança, afirmou estarmos entrando naquele instante na fase aguda. da crise de decomposição da socie- dade tradicional. O ano era 1936. Em 37, vo o gnlvv dc 5918110 e o advento da fórmula ao mesmo tampo rígida e conciliatória. que encaminhou a transformação das estruturas econômicas pela indus- trialiutçào. 0 Brasil de agora dcitava os seus galhos, :ijeirando a sci- va que aquelas raizes tinham recolhido. São Paulo. dezembro de 1962' Antonio Candido 21
  13. 13. POS 718 CRIPIUM Cinqüenta anos depois Itu/ aos do Brasil continua um grande lí- vro chrib do sugestões e originalidade. Nesse prefácio, escrito há quase vinte anos, procurei definir o que ele foi para a minha geração. co- mo um dos guias no conhecimento do pais. Hoje continuo achando o mesmo e mais alguma coisa. Em artigo posterior desenvolvi um aspecto que me parece : tão ter sido ressaltado: a mensagem política. Retomando conforme essa óptica o grande Lriu mencionado. cn diria qui: Casagrande e Senzala representa uma etapa avançada do liberalismo das nossas classes dominantes. com o seu movimento our¡- Lradirorio entre posições conservadoras e certos ímperos avançados. Formação do Brasil contemporâneo rcprrscnla : ideologia mania. ta. que tem como referência o trabalhador. Na caso. fecunda mar- xirmo à brasileira, que Iicaria melhor esclarecido cm obras poste- riores do mesmo autor. Ralzar do Brasil, caro diferente e curioso, exprime-um veio pouco conhecido, pouco localizado e pouco aproveitado do nosso pensa- mento politico-social. em cuja massa predominantemente liberal e conservadora ele aparece dc manra rcocssiva, anti-manda ou e» oepcional. Palo do que se poderia chamar o radicalismo potencial das classes médias, que no caso de Sérgio adquire timbre diferencia- dor. ao 'editar-se decididamente para o povo. Talvez tenha sido : :le o DIÍITICÍIO pensador brasileiro une abandonou a posiçao "ilustra- da". segundo a quai cabe a Lnclaretzidw ínlclucluais. poliliws, go- vernantes administrar os interesses e orientar a ação do povo. Há meio século. neste livro, Sérgio deixou claro que só u próprio povo. tomando a iniciativa. poderia cuidar do seu destino. Isto far. dele um coerente radical democrático, autor de contribuição que deve ser explorada e derenvolvida no sentido de uma politica popular ade- quada às condições do Brasil. segundo principios ideologicns dei¡- nidos. 23
  14. 14. Por isso. repito com realce o que escrevi no Prefácio de 19672 uma das forças de Raízes do Brasil foi ter mostrado como o estudo do passado, longe de ser operação saudosisla. modo de legitimar as estruturas vigentes_ nu simples verificação. pode ser uma arma para abrir caminho aos grandes movimentos democráticos integrais, isto é, os que contam com a iniciativa do povo trabalhador e não o mn- finam ao papel de massa de manobra. como uso. São Paulo. agosto de 1986 › A. C. 24 PREFÂCIO DA 2:' EDIÇÃO Publicado pela primra vez em 1936. este livro sai considera- velmente modificado na presente versão. Reproduzi-lo m: sua forum originária. »Em ¡Illuluuer retoque. seda. reediur opiniões e pensamen- tos que em muitos pontos deixaram de satisfazxr-mc. Sc por vezes live o receio de ousar uma revisão verdadeiramente radical do texto - mais valeria. nesse caso, escreva um livro novo - não hcsitcí, contudo. em alterei-lo abundantemente onde pareceu necessario re- tificar. precisar ou ampliar sua substancia. Entretanto, fugt deliberadamente à tentação de examinar. na par- te final da obra, alguns problemas especíticos sugeridos pelo: suces- sos deste último deoânio. Em particular aqueles que se relacionam com a circunstância da implantação, entre nos, de um regime di: di- tadura [terrena] de inspiração tnralitáría. Seria indispensável. para i¡- so, desprezar de modo arbitrária a situação histórica que presidiu e de algum mada provocou a elaboração da obra, e isso não me po- receu possível, nem desejável. Por outro lado, tenho a pretensão de julgar que a análise aqui esbocadn de nossa vida social e política do passaria e do presente não necessilaria ser reformada à luz dos alu- didos sucessos. sobre as mudanças simplesmente exteriores ou formais agora introduzidas no livro, cabem ainda algumas palavras. Dois capítu- los. o 3 e o 4, que na primeira edição traziam um titulo comum - "O passado agárío" -- passaram a chamar-se, respectivamente. "Herança rural" e “O semeador e o lndrilhador". denominações estas que melhor se ajustam aos cotareúdos, pelo menos ao¡ conzeú- dos atuais. dos mesmos capitulos. As notas complementares. ou des- tinadas a Esclarecimento de passagem do texto, foram rlirposlas, de preferência. no pe das respectivas páginas. Somente as mais extensas, 25
  15. 15. e que, dc algum modo. podem sur lidas indetnttdententcntc. ficaram para o fim dos capítulos correspondentes, Para o fim do vohtmc fo- ram todas aa simples referencias bibliográficas. São Paulo. junho dt: 1947 S. B. H. 26 NOTA DA 3." ! ELDIÇÂO Com algumas alterações que não the afetam essencialmente o conteúdo. nmnLém-se. na presente, c¡ texto da segunda ediçao de Ra¡- zes dv Brasil. A : :se (um: acrescentaram-ac, cm apêndice, as duas peças' principais do debate que a expressão “homem cordial" su- geriu ao st . Cassiano Ricardo. As objeções do ilustre escritor, tanto quanta as explicações que, em resposta, 1h: : forum dada», serviria, talvez. para esclarecer um assunto diversamettte interpretado pelos críticas qu: s: ocuparam Liu livro. Ettriqumcu-se, além disso, este volume. de índices unumastico e de assuntos. Por outro lado pareceram plausíveís. e foram adotadas. as su- gestões do editor no sentido de se : estabeleceram em pe de página : u simples referências bibliográficas. Abandonou-se, pois. nesse caso, o sistema introduzido nn segtmrta edição. e que aparentemente se pres- ta a equívocos! * Conservrtratn-se, entretanto, tmttc ia' se achavam, isto e ao fim de cada um dos capítulos respectivos, as notas que. da- da a sua natureza e extensão, podem ser lidas separadamente das pas- sagens que lhes correspondem. São Paulo. outubro de 1955 S. B. H. P) Rztirana ' lt da .12 edicao. :t de Cassia no Ricardo. mnscrwnrtrtn n Amor spent¡ a sua cms. n da ZS! ediçin] t") . Nesta Iñf ediciu. foi 'mania 2¡ ürlíl th¡ Autor a Cassiano Rimrrtn, e watts. retidas todas as reíattt: cia¡ hibliogrlfielt 1m¡ o fiml da livro, mb o mula 'Num' '. (N. EJ 27
  16. 16. J FRONTEIRAS DA EUROPA 0 . Mundo novo e velha civ' 'zação 0 Persona/ msmo exagerado e . mas conseqüência: : fibíeza do ESpÍ/ 'Ífíl de nrgunfzagüo. da solidariedade. dos privilégios hereditária: o Falta de coesão na vida social' O A volta ã tradição, um artifício ' Sentimento de irracionafídade : wet-afim das' privilégios e das hierarquias 0 Em que sentido nnlcripamm os povoa- íbérícos a mentafídade moderna 0 O . trabalha manual e mecânico. inimigo da personalidade - A obediência como fundamenta de disciplina
  17. 17. A tentativa de implantação da cultura européia em extenso ter- riroric, dotado de condições narurais, se nào adversas. largamenre : :aranhas à ma tradição milenar, t, nas origem da xudcdadc brasi- leira. o fato dominante e mais rim em conseqüências. Tranndn de paises distantes nossas formas de convivio. nossas instituições. nossas idéias, e limbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, sumos ainda hoje uns desterradm em nossa 'I terra. Podemos construir obras excelentes. enriquecer nossa huma- nidadc de aspectos novos e imprevistos, eleva: à perfeição o tipo d: a civilização que representantes: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de ' evolução próprio dc outro clima e de outra paisagem. _ Assim, antes dc perguntar até que ponto poderá alcançar born 'v êxito a tentativa. caberia averiguar até onde lemos podido represen- tar aquelas formas de convívio. insliwições e idéias de que somos lncrdcíros. ' , =' É significativa, em primeiro lugar, a "rcunslàncía de termos n» cabide a herança atraves de uma nação ibéríca. A Espanha e Portugal são, com a Rússia c m países balcânicmc (c em cmo sentido também a Inglaterra). um dos territórios-ponte pelo¡ quais a Europa se comu- nica com os outros nnundcs. Assim. :les constituem uma nona fra-rui- ríça_ de transição, menos carregada, em alguns casos, desse euro- peísmo que, não obstante. mantêm como um património necessário. Fui a partir da época dos grandes deswbrímentosmarítimos que os dois países entraram mais decididamente no coro europeu. Essein- gresso tardio dtvtria rcpcrcutir inlmsamcmccm seus dcslinos , deter- minando muitos aspectos peculiares desua históríae de sua form-ração espiritual. Surgiu. assim. um L¡ po de sociedad: que se deseuvolvería. em algun: sumida». nuns: à margem das cungêncrc: curupéías, c sem delas receber qualquer incilamcnlu que já não Lruuxcssc rm gcrmc. 3¡
  18. 18. Quais os fundamentos : :m que assentam de preferência as for- mas de vida social nessa região indecisa entre a Europa e a África. que se estende dos Pireneus a Gibraltar? como explicar muitas da- quelas Iormas, sem reonrrcr a indicações mais nu menos vagas e. que jamais nos cunduziriam a uma estrita objetividade? Prccisarucmc a comparação cnlrc elas c as' Liu Europa de além- Pircneus faz ressaltar- uma característica bem peculiar : l geme da pe- nínsula Ibérica, uma caracteristica qu: ela. está longe de partilhar. - pclo menos na mesma intensidade. com qualquer de seus vizinhos do tmnlinenre. É que nmhum desses vizinhos soube cicscm-'olvcr a tal extremo essa cultura d. : personalidade. que parece constituir o - traço mais decisivo na evolução da gente luspãnica, desde tempos ímemnriais. Pode dizer-se, realmente, que pela importância parti- cular que atribuem ao valor proprio da pessoa humana. à autono- mia Lie traria um dos 110mm. ; em relação aos semelhantes na tempo e na espaço, devem ns espanhóis e portugueses muito de sua origi- nalidade rlacional. Para eles, o indicado valor de um homem infern- ase. antes de tudo. da extensão em que não precise depender dos de- muix, em que não necessite de ninguém, em que sc baste. Cada qua] é filho de s¡ mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes. .. - C as virtudes soberanas para essa mentalidade . são tão impetativas, que: Chegam pur vezes u marta: t) purlc pcssoui e alí: u fisionomia dos hoiueus. Sua mauilcstação mais contplelajá tinha sido expressa no esto srno que. com pouca corrupção, tem sido a filosofia na- cional dos espanhóis desde o lanpo de Sêncca. Essa concepção espelha-se fielmente em uma palavra bem his- pânico › "sobrancerizw , palavra que indica inicialmente a idéia de superação. Mas a luta e emulação que ela implica eram Lacita- mente admitidas e admirados, engrandecidas pelos poetas, recomen- dadas pelos morulistas e sancionada: : pelos governos. É dela que resulta largamente a singular libieza das formas de orynjzação. de rodas ss associações que impliquem solidariedade e ordenação entre esses povos. Em terra onde todos são barões não é possivel acordo coletivo durável, a não ser por irma força extcriur respeitável e temida. Os privilégios hercdilárlos. que. a bem dizer, jamais, tiveram in- fluência muito decisiva nos países d: estirpe íbóríca, pelo menos tão 32 decisiva e intensa como nas terras onde criou funda¡ raizes o fenda- lismo, não precisaram ser aboliclos neles para que se firmam o prín- cípio das competições individuais. À frouxidâo da estrutura social, à falta de hierarquia organizada deveui-se alguns dos episódios mais singulares da história das nações hispãnicas, incluindcm: nelas Por- tugal e o Brasil. Os elementos anârquicos sempre frutiñcaram aqui f acílmente, com a multiplicidade ou a iudolência displíoente das ins- titlliçñex e costuma. As iniciativas, mesmo quando se quiseram cons- trutivas, lotam continuamente no sentido da separar os homens, não dc os unir. Os decoro¡ dos governos nasceram em primeiro lugar da necessidade di: se contarem e de se refrearem as paixões partiu¡- lares momentâneas, só raras vacas da pretensão de se associaram pcr- manentemente as forças ativas. A falta dr: coesão cm nossa vida social não representa, assim, um fenomeno moderno. E e' por isso que erram profundamente aque- les que imaginam navolta à tradição, a certa tradição. a única defesa possivel contra nossa desordem. Os mandamentos e as ordenaçües que elaboraram esses eruditos são. em verdade, criações engenhosas do espírito. destacadas do mundo e contrárias a ele. Nossa anarquia, * . nossa incapacidade de orgnniacâo sólida não representam. a seu ver. mais do que uma ausência da ÚIlÍCl ordem que lhes parece necessá- ria e eficaz. Se a consideramos bem. a hierarquia que exaltam é que Precisa de tal anarquia para se justificar e ganhar prestígio. E será legítimo, em todo caso. ess-c recurso ao passado em busca de um estímulo para melhor organização da sociedade? Não aignitir catia. ao contrário. apenas um indice de nossa incapacidade de criar espontaneamente? As épocas realrn ente vivasnunca foram tradicio- nalistus Por deliberação. A cscolásliua nz: Idade Média foi criadora porque foi atual. A hiururu uitl do permuta-lento suhorzlinava-se a uma hierarquia cosmogõnica. A coletividade dos homens na letra cru uma simples parábola e espelhava palidamertte a cidade de Deus. Assim. na filosofia tomísta_ os anjos que compõem as três ordens da pri- meira luerarquía. os Querubim. os Serafim cus Trono! , são equipa- rados nos homens que formam o enxoumge imediato de um monar- ca medieval: assis-Lam o soberano nu que ck: rcalint por si mesmo, são os seus ministros e coitselhcíms. Os da segunda ltierarqiúa, as Du- 33
  19. 19. ntinações. as Potências e as Virtudes, são, em relação a Deus', aquí- lo que para um rei são os governadores por ele íncumbidos da admi- nistração das diferentes províncias do reino. Finalmente. os da ter- ceira hierarquia correspondem, na cidade tempural, arm agentes dn poder, os funcionários snbaltemot' Se a vid¡ medieval aspira-xa a uma bela harmonia e repousava sobre um sistema hierárquico. nada mais natural. pois que até no Céu existem graus de heatitude, segundo informa Bean-i: ao Dante. A ordem natural é tio-somente uma projeção imperfeito e longín- qua : ln Ordem eterna c explica-ae por ela: . Le (me rrrtre quanta Itauna ardida tra tom e questo forma the Putin/ ao a Dio _Ia . iimigliunlr. Assim. a sociedade dos homens na terra não pode ser um ñm eu¡ si. Sua disposição hierárquica, push) que rigorosa, nâu visa it per- manência. nem quero bem-estar no mundo. Não na, nessa socieda- de. lugar para as criaturas que procuram a paz terrestre nos bens e vantagens deste mundo. A comunidade dos justos e estrangeira na terra, ela viaja e vive da fé no exílio e na mortalidade. "Assim", diz santo Agostinho, "a cidade terrestre que nâo vive da fé aspira à paz terrena e u fun que ela atribui à missão da autoridade e da sujeição, entre cidadãos, é que haja. quanto aos interesses desta vi- d¡ mortal, um com: concerto das vontades humanas. " A Idade Média mal wnhcocu as asniracõa cnnsciemes para uma reformar da stxiedndt: dviI. O mundo era organizado segundo leis eternas indiscutíveís. impostas do outro mundo pelo supremo orde- nador de todas as mistas. Por um paradoxo singular, n princípio Ior- mador da sociedade era, em sua expressão mais nítida, uma força inimiga. inimiga do mundo e da vida. Todo o trabalho do: pensa- dores, dos grandes construtores dc sistemas, não signiñcava outra coisa senão o empenho em disfarçar, quanto possivel, esse antago- nismo entre o Espírito e a Vida (Gratia natumm non com? .rrdperji- cir). Trabalho de certa ntatteira fecunda e venerável, nuas cujo sentido nossa época já não quer compreender em sua essência. 0 entusias- mo que pode inspirar hoje essa grandiosa concepção hierárquica. tal como a conheceu : t Idade Media, é em realidade uma paixão de professores. 34 No fundo, o próprio princípio de hierarquia nunca chegou a im- portar de modo cabal entre nós. Toda hierarquia funda-se necessa- riamente em privilégios. E a verdade é que, bem antes de triunfarem no ¡nundo as chamadas idéias revolucionárias. pomtguesrs ecspanhóis parecem ter sentido vivamente airracionalidade especificar, a injustiça social de curtos privilégios, sobretudo dos privilégios hereditários. 0 prestígio pessoal. independente do name herdado, manteve-se conti- nuamente nas épocas mais gloriosa: da história das nações ibéricns. Nesse ponto. ao menos. elas podem BOIIEÍCÍGTQTAW legítimas piu- ncíras da mentalidade moderna. Toda gente rabo que nunca chegou a ser rigorosa e impermeável a nobreza Iusitarut. No era dos grande. : descobrimentos marítimas, Gil Vicente podia notar' como a rtitida separacão das classes sociais que prevalcrzia : m outros países era quase ¡IIBXÍSÍCRÍB Clllfl' GOES COHÍCÍIÊIICUS¡ . ..em Frames z Alemanha, em tada Franca e VBHt-'C-l. que vivem pe! .riso e aranha, por não river en¡ trinta, não he como nesta ten¡ porque 017m0 do lavrador cam It¡ com lavrador-a, t nunca sobem nuns' nada; e o filho do narrador mm com a' brosiadora: irm per Ie¡ ordmurluÊ Cm dos pesquisadores mais notáveis da história antiga de Por- tugal salientou. com apoio em ampla documentação, que a nobre- za, por maior que fosse a sua preponderância etn certo tempo, ja- mais logrou constituir ali uma aristocracia fechada; a generalização dos mesmos nomes a pessoas das mais diversas condições - obser- va - não e um fato novo na sociedade portuguesa; explica-o assaz a troca constante dt: indivíduos. de um que se ilustram, de outros que voltam à massa popular donde haviam saído! r Acentua ainda Alberto Sampaio como a lei consignada nas Or- denaçrães cnnfesxa que havia hnmens da linhagem dos ülhox d'algo - em tortas as profissões, desde as oficiais industriais, até os arrenda- tárim de bens rústicos; unicamente lhes são ncgadtls as honras eri- 35
  20. 20. quanto viverem de trabalhos mecânicos. A comida do povo - de- clara ainda - não se distinguiu muito da dos cavalheiros nobres, por isso que uns e outros estavam em mntinuas relações de intimi- dade; não só u: nobre! comiam uom us populares, ma¡ ainda lhes entregavam a criação dos ñlhos. Prova esta' na instituição do amd- digo pela qua] os nobres davam a educar seus ! ilhas aos vilãns, que tlcafrutavam, nesse caso, de alguns privilégio¡ e isentpñat. Se semelhantes característicos predominaram com notável con s- tância entre os povos íbéticos. não vale isto dizer que ptovenham de alguma inelutável fatalidade biológica ou que, como as estrelas. do céu, pudessem subsistir à margem e à distância das condições de vida terrena. Sabemos que, em determinadas fnscs de sua ltistóría, os povos da península deram provas dc singular vitalidade. de sur- Dreendente capacidade de adaptação a novas formar de existencia. Que especialmente em fins do seculo xv puderam mesmo adiantar- se aos demais Estados europeus, formando unidades políticas e eco- nômicas de expressão ntoderna. Mes não terá sido o próprio bom êxito dessa transformação súbita, e talvez prematura, uma das ra- zoes da obstinada persistencia, entre eles, de hábitos de vida tradi- cionais. que explicam em parte sua originalidade? No caso particular de Portugal, a ascensão, já ao tempo do mes» tre de Avis, do povo das masters; e das mercadores cítadinot pôde encontrar menors barreiras do que nas partes do mundo cristão onde o feudalismo imperava sem grande estorvo. Por isso, porque não teve excessivas dificuldades a vencer. por lhe faltar apoio econômi- co onde se assmsse de modo exclusivo, a burguesia mercantil n50 precisou adotar um modo de agir e pensar absolutamente novo. ou ¡mtítuir um¡ nova escala de valores, sobre os quais firmas: : perma- nentemente seu predomínio. Procurou. antes de associar-se às enti- gns rJasses dirigentes, assimilar muitos do¡ seus princípios! , guiar-sc Dela tradição. mais do que pela. razão fria e ealculistz. Os elementos arlstocratioos não foram completamente alijados e as foi-unas de vi- da herdadas da Idade Média conservaram, em parte. seu prestígio antigo. Não só a burguesia urbana mas as próprios Iabregoa deixavam- se contagiar pelo resplendor da eitistêrtcía palaciarta com seus titulos e honrarias. 3d Cedo não Im' de haver vilão: todos' fel Red', todo: d? ! RH', exclamava o pajem da Farsa doe almocreves. Por estranho que pa- 3 raça, a própria ânsia exibieiortiste dos brasões, a profusão de nobi- , liários e livros de linhagem oonstítuetn, em verdade, uma das faces da inwertrivel lettdência para o nivelamento das classes. que ainda tomam por medida certos padrões de prestígio social longamente es- tabelecidos e estereotípados. › presunção de fidalsttia e requerida por costuma artcestrais que, em substância. já não tesvortdent a con- dições do tempo, embora persistem nas suas extcriortdartes. A ver- dadeira. a autmtica nobreza já não precisa transcender ao indiví- duo; há dt: depender das suas forças e capacidades. pois mais vale a eminência própria do que a herdada. A abundância dos bens da fortuna, os altos feitos e as altas virtudes, Origen¡ e manancial de todas as grandezas. suprem vantaioaarttente a ptosápin dc sangue. E o circulo de virtudes capitais para n gente ibérica relaciona-se de modo direto com o sentimento da própria dignidade de cada indivi- duo. Comum anohres e plebeur, esse semimettw corresponde, sem embargo. a uma ética de fidalgos, não de vilãos. Para espanhois e portugueses, os valores que ele anima são universais e permanentes. 0 mérito pessoal. quando fundado em tais virtudes. me seru- pre importância panderável. Semelhante concepção êque. prolon- gada na teologia, iria ressuscitar, em pleno século xvt, a velha que- rela do pelagianismo, encontrando sua manifatação mais completa na doutrlnaçío molinistu. E nesta polêtníca iria ter o papel decisivo, _E contra os principios predeetinaeianos. uma instituicão de origem ni- ' tidamente iberica, a Companhia de Jesus. que nrocurou impor seu espírita an mundo católico, desde o Camillo de Trento. Eternamente, as teorias negadoras do Iivwarbítrin foram sem- pre encaradas com desconfiança e antipatia pelas espanhóis e por- tugueses. Nunca eles nc setttímrn muito s vontade em nm mundo onde o mérito e a responsabilidade individuais não enoontrassem pleno reconhecimento. Fo¡ essa mentalidade. justamente. que sc tomou o maior óbice, entre eles. ao esliíñlu de organização espontânea. tão característica de povos protestantes. e sobretudo de calvinistas. Poruun. nu verdu- de. as doutrinas que apregoam o livre-arbítrio e a responsabilidade ¡rettxnal sào tudo, menos favoreoedoras da associação entre os ho- 37
  21. 21. mens. Nas nações ibéricas. à falta dessa racionalização da vida, que tão cedo experimentaram algumas terras prorostantes, o principio um'- ficado: foi scmprc representado pelos governos. Nelas predominou, incessantemente, o tipo de organinçào política artificialmente mart- Iida por um força menor_ que, nos tempos modernos, encontrou uma das suas formas características nas ditaduras lttililares. Um fato que não se pode deixar de tomnr em consideração no . exame da psicologia desses povos é : :invencível repulsa que scmprc lhes inspirou toda mora] fundada no culto : to traballio. Sua aliludc normal e' precisamente o inverso da que. em teoria, corresponde' ao sistema do artesanato medieval, onde se arcar-eee o trabalho fisico, denegrindo o lucro, o "lucro torpe". Só muito recentementc, com o prestígio maior das instituições dos povos da None. é que essa eti- ca do trabalho chegou a conquistar algum terreno entre eles. Mas as resistências que encontrou e ainda encontra têm sido tão vivas e perseverantes, que é lícito duvidar de seu êxito completo. A “intrezzf”, o "ser". a "gravidade", o “termo honrado", o “proceder sisudo". esses atributos que amam e engrandeoem o nobre escudo, na expressão do poeta português Francisco Rodrigues Lobo, ¡tprcsmtam virtudes essencialmente inativos, pela; quais u ín- divtduo se reflete sobre si mesmo e renuncia a modificar a face do mundo. A ação sobre as coisas. sobre o ttniverso material, implica submissão a um objeto exterior, aceitação de uma lei estranha ao individuo. Ela não é exigida por Deus. nada acrescenta a sua glória e não aumenta nussa própria dignidade. Pode dizer-sc, ao uuritrá. rio. que a prejudica e a aviltz. O trabalho mnnuat e mecânico visa a um fim exterior ao homem e pretende conseguir a perlbição dc uma › obra distinta dele. É compreensível, assim. que jamais se tenha naturalizado entre gente ltispanica a moderna religião do trabalho e o apreço à ativida- de utilitário. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante. :t um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos. admiram como ideal é uma vida de grande senhor. exclusiva de qualquer esforço. da qualquer preocupação. E assim, enquanto povos protestantes pre- conizam e exaltarn o esforço manual, as nações ibéticas colocam-sc ainda largamente no ponto de vista da Antigüidade clássica. 0 que entre elas predomina e a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valium¡ que a contemplação e o amor. 38 t** Tambem 5g compreenda quc a carência dessa moral do imba- Iho se ajustasse bem a uma reduzida capacidade de organização so¡ cial. Efetivamcnle o esforço humildc, anônimo B dcsínlfmiiad° ° agente poderoso da solidariedade dos ínlcfêââes à 90ml¡ lala “tim-l” Lan organização racional dus homens e sustcma a 906550 6mm 91% Onde prevaloçn uma forma qualquer de moral do trabalho dificil- mcnte faltará a orrlrrn e a tranqüilidade entre os cidadãos. DOWN-W são necessarias. uma e outra, à harmonia dos interesses. O certo é que. entre espanhóis e portugueses. a moral do traballtofeprcscn- tou sempre fruto exúliw. Não &dmíli 1111C ¡Uüâtm PYWIUES- n°553 gente, as ideias de solidariedade. A bem dizgr_ essa solidariedade, entre Eita, Cxíslt 501mm( 0nd: há vinculação Lle sentimentos mais do ! We 19139595 4° “(39533 Í nn recinto doméstico nu entre amigos, Círculos forçosamente restri- tos. particularistas e antes inimigos que favoroctdores das associa- ções estabelecidas sobre plano mais vasto. gemia] uu itacionnl. À autarquia do individuo. à wait/ acao extrema da pcísollahdi' de, paixão fundamental c que nao tolera omnpronrtissos. só 130d# hj- ver uma alternativa: a renúncia a essa mesma ncrwzwlldade Um V15- ta de um bem maior. Por isso mesmn 11mm? E dificil: 3 05591.15" da 'aparece atgums vezes, para os povos ibéricos. como vim-ui! supre- ma entre todas. E não eestmnhávcl que essa obediência _- obedicrlt- cia cega, e que difere fundamente dos principios medievais ofçudats de lealdade - tenha sido até agora, para eles. 0 único ptmclnw P0- lítico verdadeirammtc forte. A vontade de mandar c a disPwFâu Pam 5mm¡ Orden¡ simula; igualmente peculiares. As ditaduras e o Santo Ofício pareceu¡ constituir formas tão t¡ casde seu caráter como : :inclinação à amrailiâ 3 à ÚEWÍÕW- N50 °*'~“°› 3 seu Ve'- outm ; ong dg disciplina perfeitamente concebível, alem da QM! 59 fundo na excessiva centralização do pode: e na obediência. _ Foram ainda os jesuítas qui: representaram, melhor de «JHC nm- guém, esse principio da disciplina pela obediência. h-íesmo em nossa América ao sul, deixaram disso exemplo memorável com suas re- duçõgs g doutrina_ Nenhuma tirania modermb “E1150” ¡EÓÚCÚ da ditadura do proletariado ou do Estado totalitário. Chem” 5301119¡ a vislumbrar n possíbilidndc dcssc prodígio de ranionalimcíiü QIIC C0"- SggujJ-au¡ og padres da Companhia de JCSUS em ? M35 "M5553- 39
  22. 22. Hoje, a simples obediência como prim-Ipio de disciplina parece uma fórmula caduca e impraticãvei e dai'. sobretudo, a instabilidade constante de nossa vida social_ Desaparecida a possibilidade desse freio. é em vão que temos procurado importar dos sistemas de ou- tros povos modernos, ou miar por canta própria, um suculârwo ade- quado, capaz de superar os efeitos de nosso natural inquieto e de- pordenado. A experiência e a “adição ensinam qu: toda cultura só ' absorve, assimíla e elabora em gem] as : :aços de outras culturas, quando estes encontram uma possibilidade de ajuste aos seus qua- ' dms de vida. Neste particular cumpre lmbrar o que se deu com as culturas européias transportadas no Novo Mundo. Nem o contato c n mistura com raca¡ indigcnas ou adventicias ñzcmm-nox ñ: : dife- rentes dos nossos avós de além-mar como às vezes gostariamos de sê-io. No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecer a alguns dos nossos patinhas, é qu: ainda nos associa à pc- nínsulu Ibérica, a Portugal esoecíaimenve. uma tradição longa e viva, bastante viva para nutrir. até hoje. uma alma comum. a despeito de tudo quanto nos separa. Podemos dlmr que de 1.4 nos veio a forma atual de nossa cultura; o resta foi matéria que se sujeitnu ma¡ ou bem a essa fonna. 40 2 TRABALHO & AVENTURA - Portugal e a colonizarão das : mu: tropicais v Dois princípios que regulam dlversammre as atividades dos homens O Plarücidade social dos pnrruguves o Civilização agrícola? o Carência de orgulho racial 0 O Iabéu associado aos : mbalhos vb' O Organização do artesanato; sua relativa debíüdade na Amírica portuguesa o Incapacidade de livre e dumdoum nsocíupão 0 A "moral das senzalas" e sua influência o Malogm da experiência holandesa - Nota ao capitulo 2.' Persistência da lavoura de tipo predatória
  23. 23. Pioneiros da conquista do lrópico para a civilização, tiveram os portugueses, nessa proeza, sua maior : nissan histórica. E sem em- bargo de tudo quanto se possa alegar contra sua obra, forçou) é re- conhecer que foram não somente os portadores efetivos como os por- tadores naturais dessa missão. Nenhum outro povo do Velho Mundo achou-se tão bem armado para se aventurar à exploração regular e intensa das terras próximas à linha equinocial, onde os homens de- pressa degeneram, segundo n conceito generalizado na era quinh en- tisla, c and: - dizia Ll. |'l'l viajante francês do tempo - "la chaleur s¡ vélrémenle de Fair leur tire deitar: !a chatear naturais el ! a díssípe; erpnr ainsi sont cftaulds . veulemení par debora' etjmíds en dedams” ', ao contrário do que sucede aos outros, os lmbimnres das terras frias. os quais "ont la thaleur nature-Ile serra* cr constrairrtc detidas par (e froíd extérieur qu¡ les read ainsi robusto: t! vaillam, car fa force e! facilite' de router ! rs partiu' da Corps dépend de cette Mmnellc dim leur-W' Essa exploração dos ITÓVÍCQS não se processou. em verdade. por um empreendimento mctódico c racional. não emarmu de uma vonta- de construtora c cnérgíca: fez-tv: antes com dcsleixo c certa abandono. Dir-seia mesmo que se fc: :apesar dc seus autores. E o rccarthccb mento desse fato não constitui menosaabo à grandeza do esforço por- tuguês. Se o julgar-mos conforme os critérios morais e políticos hoje dontínantes, nele encontraremos muitas e sérias falhas. Nenhuma. porém. que leve com justiça à opinião extravagante defendida por um número não pequeno de detratores da ação dos portugueses no Brasil, naruto: das quais optariam. de hum grado. e confessadamcnte, pelo triunfo da cxprríêrtcia : lc colonimçãt) holandesa, wnvictos de ' que nos teria levado amelhores e mais gloriosos rumos. Mas. antes ; de abordar esse tema, é preferível encarar certo aspecto. que parece : singularm eme instrutivo. das determinantes psicologia: do movimcn- ' to dc expansão colonial portuguesa pelas turns de nossa América. ,- 43
  24. 24. Nas formas de vida coletiva podem nsrinalar-ac dois principios que se combatem e regulam diversamentc as atividades dos itomena. Em: : dois princípios encarnam-se nos tipos do aventureiro e do traba- lhador. Já. nas sociedades rudimerttares manifestam-se eles. segundo sua predominância, mt distinção fundamental : true os povos caçadores ou coletores e os povos lavradores. Para uns, o objeto final, a mira de 5 lodo eaforcD. 0 901110 de 53h08min. assume relevância tão capital. que chega a dispensar, por secundários, quase strperfluos. todosos proces- sos intermediários. seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore. ' Em tipo humano ignora as fronteiras. No mundo tudo se apre- senta a ele em generosa amplitude e, onde quer que se erija um obg. táculo a seus propósitos ambiciosos, sabe transforma¡ cggc pbgmcu. lo em Uampolim. Vive dos espaços ilimitados, rios projetos vastos, dos horizontes distantes. O trabalhador, ao contrário, é aquele que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. O esforço lmto, pouco onmpenaador e persistente, que, no entanto. mede todas as possibi- lidades de espcrdício e sabe tirar o máximo proveito do insignjrjmu. lt. tem sentido bem nítido para ele, Seu campo visual é naturalmen- te restrito. A parte maior tio que o todo, Existe uma ética do trabalho, como existe uma etica da aventu- ra. Assim. o individuo do tipo trabalhador só atrllruirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar e. inversamente. terá Por imoraís e detestáveis as qualidades proprias do aventureiro - audácia, imprevidência. irresponsabilidade. instabilidade, vagabun- dagem -- tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção gsm. com do mundo. caracteristica desse tipo. Por outro lado, as alergias e esforços que se dirigem a uma m- compensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; as energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e os esforços sem perspectiva de rápido proveito material passam. ao contrário, por vicioso: e despreziwis pura eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesqninho do que o ideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade. tanto uma oposição absoluta como uma iuwmpmmsãu nrdicaL¡ Ambos participam, em mlíur Ou mello¡ grau. de múltiplas combinações e é claro que, em : sudo puro. nem o aventnrro. nem o trabalhador possuem exis- 44 Lancia real fora do mundo das idéias. luas também não há dúvida que os dai¡ conceitos nos ajudam a situar e a melhor ordenar nmso conhecimento dos homen¡ e dos conjuntos sociais. B é precisamente nussa extensão superindividual que ele¡ assumem imvortânáa ¡n°8- Lirnável para o estudo da formação e evolução das sociedades. Na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao "trabalhador", no sentido aqui compreendido. papel muito li- mitado. quase nulo. A época predispunha aos gestos e façanhas au- datriosos. gelar-doando ban os homens de grandes voos. E não foi fortuna a circunstância de se terem encontrado neste continente, em- pcnhadas nessa obra, principalmente al nações onde o tipo do tra- balhador, ral como acaba de ser discriminada, encontrou ambiente menos propício. Se isso é verdade ramo de Portugal como da Espanha, não o é menos da Inglaterra. O rtrrto industrial poderoso que atingiu a na- ção britânica no decurso do século passado criou uma idéia que está longe de corresponder . i realidade, com relação ao povo inglês. e uma idéia de que os antigos não partilhnvam. A verdade é que o ingles típico não ó indusrrioao, nem possui em grau extremo o senso da eco- nomia. característico de seus vizinhos cmrtinentaís mais próximos. Tende, muito ao contrária, para a indnléncin c para a prodigalida- dc, c intima, acima de tudo, a “boa vida". Era essa a opinião cor- rente. quase unânime, tlns enlrangziros que visitavam a Gti-Bretanha antes da era vitoriana. E. não menos, a dos moralista: e economis- tas que buscavam os remedios para a condição de inferioridade em que durante longo tempo se encontrou o pais em f aoe de seus compe- tidores. Em 1664. no panfleto intitulado Engianrfs ! reason byfor- migne rmde, Biomas Mun cmsurava nos seus compatriotas a impre- vidência, o gosto da dissipação inútil, o amor desregrado aos prazeres e ao luxo, a ociosidade impudica - Iewd idlearzss -- "contrária à lei de Deus e aos usos das demais nações", e atributo a tais vícios : na impossibilidade de medir-se seriamente com os holandeses. ” Conceitos semelhantes a esses volta a exprimir, em nossos dias. esse born conhecedor e historiador do caráter inglês que ê William Ralph lnge. O dean da catedral de St. Paul observa, em livro rico de inte- ressantes sugestões. que o "inglês médio não rem presartemente ne- nhum gosto pela diligência infatigavel. lahoricsa. dos alunãcs, ou pela lrugaiidade parcinwniosa dos franceses". B acrescenta u essa observação mais esta. que a muito: deve parecer duconoertante e 15
  25. 25. nova: "A indolência é vicio que partilhamos com os naturais de ul- gumas terras qucntcs, mas não com qualquer outro pot-o do Norte ! l l da Europa . Essa pouca disposição para o traballio, uu mcnos lho sem compensação proxima. essa indolência, wma diz o dcâo ln- ge, não sendo evidentemente um estímulo às açües aventurosax, não deixa de constituir, com notável freqüência. o aspecto negativo do ânimo que guru as grandes empresas. Como explicar, sem isso, que us puros ibàricus ¡rruslrasscln lama aptidão para a caça 3.05 bens ma- reriais em outros continentes? “Um português”. conteutava certo viajante em fins do século xviu, "pode frear um navio para o Bra- sil com menos dificuldade do que llir: d preciso para ir a cavalo de Izishoa ao Porto. ” E essa ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoriticos. de posições c riquezas fáceis, :ao notoriamente característica da sente de nossa terra. não e bem uma das martifeslações mai! cruas do es- pirito de aventura? Ainda hoje convivcmos diariamente com a prole numerosa daquele militar do tempo dc Eschwege, que não se enver- gonhava de solicitar colocação na música do palacio, do amanuense que nâo receava pedir um cargo de governador, do simples aplica- dor d: ventosa; que : spírava às funções de cirurgião-mor do reino. . . Não raro nossa capacidade de ação esgota-se nessa procura inces sante, sem que a neutralize uma violência vinda de fora. uma reação mais poderosa: é um esforço que se desencnminha antes mesmo dc encontrar resistência, que se aniquilar no auge da força c que sc com- promctc sem motivo patente. E, rm entanto, o gosto da aventura. responsável por todas essas fraquezas, tcvc infiuêncía decisiva (não a única decisiva, é pmúso, Püféfm. flííet-SCJ Cm nossa vida nacional. Num conjunto de fatores tão diversos, como as raças que aqui se chocaram, os cosluurcs e pa- drões de existência que nos trouxeram, as condiçôes mesulúgicm c climatéricas que exigiam longo processo de adaptação, foi o : lt-mento orquestrador por excelência. Favorecendo a mobilidade social, esti- mulou os Iromens. além disso. a enfrentar com demitiu as asperezas ou resistências da natura: : e criou-lhes as condições adequadas a ta] empraa. Nesse ponto. precisamente. os portugueses e seus descendentes imediatos foram inexoedíveis. Procurando raia-im' aqui o meio de sua 46 origem, Harum-uu com uma facilidade que ainda não encontrou, talvez, segundo exemplo na 'rústóri. a. Onde lhes ialtassc o pão de trí- go. aprendiam a comer o da terra. e com ta] requinte, que - afir- mava Gabriel Soares - a gente d: tratamento so' consumia farinha : lc mzrntliuca fresca, fcita no dia. Huhiluaram-sc também a dormir em redes. à maneira dos indios. Alguns, como Vasco Coutinho, u donatario do Espirito Santo, iam ao ponto de bebere mascar fumo. segundo nos referem testemunhos do tempo. Aos indios tomaram ainda instrum : nto: de caça e pesca, embarcações de casca uu tranco escavado. que singravam os rios e águas do litoral. nrnndn de culti- var a lcrra arcando primeiramente fogo aus matos. A casa penínsu- lar, severa e sombria, voltada para dentro, ficou menos circunspoc- tu sob o novo clima, perdeu um pouco de sua asperezzi. ganhando a varanda cinta-ima: um acesso para o mundo de fora. Com essa nova disposição, importada por sua vez da Ásia uricntal c que substituir¡ _Í com vantagem, em nosso meio. o tradicional pátio mourisoo, for-f voaram o padrão primitivo e ainda hoje válido para as habitações européias nos trópicos. Nas suas plantações d: : cana, bastou qu: dc- senvolvessem em grande escala o processo já instituído, segundo to- das as probabilidades, na Madeira e em outras ilhas do Atlântico. onde a negro da Guiné era utilizado nas [ainas rurais. Não é certo que a forma particular assumida entre nós pelo la- tifúndio agrário fosse uma especie de manipulação original_ fruto da ! vontade criadora um pouco arbitrária dos colonos portugueses. Surgiu. em grande parte, de elementos adventicios e ao sabor das oonvcniênciu da prutlução c do marcado. Nem se pode uñançar que o sistema de lavoura. estabelecido. aliás. com estranha uniformida- de de organização, em quase todos os territórios tropicais e subtro- picais cla América. tenha sido. aqui. o resultado dc condições intrin- secas e especificas do meio. Foi a circunstância de não se achar a Europa indunrrializada ao tempo dos descobrimentos, de modo que produzia gêneros agrícolas em quantidade suficiente para seu pró- prio consumo, só carecendo efetivamente de produtos naturais dos climas quentes. que tornou possivel e famentou a expansão desse sis- tema agrário. É instrutivo, a propósito. o falo dc c mesmo sistema, nas colô- nias inglesas da América do Norte. ter podido fioresoer apenas em regiões apropriadas às lavouras do tabaco, do aITOZ e da algodão, maduros tipícamcntc "coloniais". Quanto às áreas do centro e às 47
  26. 26. da Nova Inglaterra, tiveram de contentar-se com uma simples agri- cultura de subsistência, enquanto não se abria passo a expansão co- mercial e Inanufatureira, fundada quase exclusivamente no traba- lho livre. O clima e outras condições físicas peculiares a regiões tro- picais só contribuíram. pois. de modo indireto para semelhante re- sultndo. Aos portugueses e, em menor grau, aos Castell-ramos, coube, sem dúvida. a primazia no emprego do regime que iria servir dc modelo à exploração latifundíáriae mnnocultora adotada depois por outros povos. E a boa qualidade das terms do Nordeste brasileiro para a lavoura altamente lucrativa da cana-de-açucar fez com que essas terras se tornassem o ontário onde por muito tenrpo, se rlubururiu cm seus traços mais níridos o tipo de organização agrária mais tarde caracte- rístico das colônias europüas situadas na zona tórr-i da. A abundância de terms férteis e ainda oral desbravadas fez com que a grande pr0~ pr-iedade rural se tornasse. aqui, a verdadeira unidade de produção. Cumpria apenas resolver o problema do trabalho. B verificou-se, frus- tradas as m-¡mcim tentativas dc emprego do braço indígena. que o recurso mais fácil estaria na introdução de escravos africanos. Pode dizer-se que a presença do negro representou sempre fator Ubrigmúrío no desenvolvimento dos Iatifúndios coloniais. Os antigos moradores da Lcrrn foram, eventualmente, prestimosos colaborado- res na industria atrativa. na caça. na pesca, em determinados nfrl cios mecânicos e na criação do gado. Dificilmente se acomodavam, porém. ao trabalho apurado e metódieo que exige a exploração dos canaviais. Sua tendênda espontânea em para atividades menos se- dentários e que pudessem exercer-sc sem regularidade forçada e sem vigilância e ñsculização de eslrunhus. versáteis ao extremo. eram- lhes inaocssíveis certas uoçõ: : de ordem, constância ecxzilidâo, que no europeu formam como uma segunda natureza e parecem requisi- tos fundamentais da existência social e civiLs O resultado eram in- compreensão¡ recíproca: que, depane dos indígenas. assumiam quase sempre a for-ma de uma resistência obsúnada. ainda quando silen- ciosa c passiva, ns imposições da raça dominante. Nisto assemelha- vam-se àqueles aruaqucs das Antilhas, dos quais diziam os colonos franceses. comparando-os aos negros: "Regnrder un sauvage de . rm- vcrs c'est ! e battle. Ie battrz c'est ie ! Ver - battle m¡ nêgre c'est te nourrirW? 4?¡ Niunn produção de índole semícapitalisra. orientada sobretudo para o consumo externo, teriam dc prevalecer por força critérios gros- seirarncnte quantitativos. Em realidade, só com alguma reserva se pode aplicar a palavra "agricultura" aos processos de exploração da tcrra que sc introduziram amplamente no pais com os engenhos de cana. Nessa exploração. a térmica curopêía saviu apenas para fazer ainda mais devastadores os métodos rudimentarea de que se valia u indígena. em sua: : plantações. Se tomou possivel, em certos casos, a fixação do Colono, não cabe atribuir tal fato a em zelo carinhoso pelo terra. tão peculiar ao homem rústico entre povos genuinamente agricultores. A verdade é que a grande lavoura, conlorme se prati- cou e ainda se pratica no Brasil, participa, pm sm¡ natureza perdu- lâria, quase Lanto da mineração quanto da agricultura. Sem braço escravo e terra farta, terra para gastar e arruinar. não para proteger Cinsamrente, ela seria irrealizável. O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas _' riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho. A mes- ma. em suma, que se 'Linha acostumado a alcançar na índia com as especiarias e os metais preciosos. Os lucros que proporcionou dc ini~ cio, o esforço de plantar a cana e fabricar o açaicar para mercados europeus. oompcruavnrn abundnnlcmcntc css: esforço - efetuado. de resto, com as mãos e os pés dos negros -, mu: era preciso que fosse ruuilo simplificado, restringindo-se ao estrito necessário às di- ferentes operações. Não foi. por conseguinte. uma civilizado tipicamente agrícola* o que instauraram os portugueses no Brasil com a lavoura açucarei- ra. Não o foi, em primeiro lugar, porque a tamo nào conduzia o gênio aventureiro que os trouxe à américa; em seguida, pnr causa da escassez da população do reino, que permitisse emigração em larga : :cala de trabalhadores rurais, e Fmalmenie pela circunstância de a atividade agricola não ocupar então, em Portugal. posição de pri- meirn grandeza. No mesmo aonde 1535, em que Duarte Coelho de- scmlmrcnva cm sua donataria perrmnrbucana, o humanista Clrnardc, eacrevendo de Lisboa a seu amigo Latorúo, dava noucia das miserá- veis condiçôes cm que jaámu no país as lides do campo: “Sc cm a1- gum lugar aagricultura foi tida em desprezo", dizia, "é inconresia- velmeme em Portugal. E antes de mui: nulla, um sabendo que o que faz o nervo principal de uma nação é aqui de uma debilidade extrema; para mais, sc há algum povo dado à preguiça sem ser o 49
  27. 27. portugues, então nào se¡ cmd: ele exista. Falo sobretudo de nos ou- tros que habiturnus além do Tejo e que respiramos de mais perto o : tr da África". E algum tempo mais tarde, respondendo às críticas dirigidas por Sebastião Münster aos habitantes da península hispâ- nina, Damíio dc Góis admitia que o labor agrícola era menos atraente Dara seus compatriotas do que as aventura: marítimas e as glórias da guerra e da conquista. " Quurulu lumcnlumos qui: a Lavoura, m) Brasil, (tnhu pcrrntmo ciclo tão longamente sferrada a concepções rotineira. sem progres- sos recuicos que elevassem o ¡ttvel da produção, e preciso não esque- cer scmclhsntc: fatores. E é preciso, alem disso. ter em canta que o meio tropical oferece muitas vezes poderosos e inesperados obstá- culos 'a implantação de tais melhoramentos. Se a técnica agrícola ado- tada aqui pelo¡ portugueses representou em alguns casos, cmnpara- da às da Europa, um retrocesso, em muito: pontos verdadeiramente milenar. é certo que para isso contribuíram as resistências da ¡tatu- reza, de uma natureza distinta da europeia, não menos do que a inér- cia e a passividade dos colonos. O escasso emprego do atado. por exemplo. em nossa lavoura de feição tradicional, tem sua explica- ção, em grande parte. nas dificuldades que ofcreciarn freqüentemente no seu manejo os resíduos ds pujantc vegetação florestal. É com. preensível assim que não se tivesse generalizado esse emprego, um¡- Io embora fosse tentado em épocas beu¡ anteriores àquelas qu: eus- tumam ser mencionadas em geral pura sua introdução. Há notícia de que. entre senhores de engenho mais abastados do Recüncsvo baiano, era corrente c uso do aradn em fins do sécu- lo xvin. Cumpre considerar, em todo a esto, que esse uso se res- tringe imicamente A lavoura Canavieiras. onde, para se obterem sa- fras regulares, já se faz necessário um terreno previamente limpo. destocado e arroteado. Sem embargo disso, sabemos por depoiment- tos da época que, para puxar cada srudo, era costume. entre fazen- deiros. empregarem juntas de dez. doze ou mais bois. o que vinha não só da pouca resistência desses animais no Brasil. como também de custaram as terras mais a abrir pela sua fortaleza? A regra era irem buscar os lavradores novas terras em lugares dr: mato dentro. e assim raramente decorriam duas gerações sem que uma mesma fazenda mudasse de sitio. ou de dono. Essa transitado- dade, oriunda, pm sua vez, dos costumes indígenas. servia apenas para corroborar o caráter rotineiro do trabalho rural. Como a nin- 50 guém ocorria o recurso de revigornr o¡ solos gastos par meio de fer- tilizantes, faltava estímulo a melhoramentos de qualquer natureza. A noção de que o trabalho de soraquá ou entrada e' o único que as nossas terras suportam ganhou logo credito. Em São Paulo, onde, como em outros lugares do Brasil, o emprego de processos menos iudinrentares chegara a ser tentado desde o segundo seculo da colo- nização, se nào antes - em inventário datado de 1637 já se assinala "hum ferro de atado" entre os deixados por cerw lavrador da zona de Parnaíba” -. a forca dessa convicção logo contagiar¡ os filhos do reino. conforme o atesta em 1766 um capitão-general. em carta ao então conde d: : Oeiras. Todos, dizia, sustentam que a terra, no Hrzsil. só tem sustância na starter-fieis, "que se não pode usar atado, que alguns já usaram dele, que tudo se lhes perdeu: e finalmente to- dos falam pela mesma lmcu". " Que assim sucedesse com relação aos portugueses não é de ad- mirar, sabendo-se que, ainda em nossos dias. os mesmos métodos predatória¡ e dissipadnres se acham em uso entre colonos de pura estirpe germânica. e isso. não só no meio tropical que constituam u: baixadas espirito-snntcnses, mas também em regiões de clima re- lativamente temperado como a: do Rio Grande do Sul. ? Deve-se. em todo caso, considerar que a origem principalmente mercantil e citadina da maioria desses colunas, seu número não muito conside- rável. os ! juntados recursos materiais de que diapunham ao se tram» plantarem do Velho Mundo explicam. em grande parte. a docilida- de com que se sttjeitaram a técnicas já empregadas por brasileiros de ascendência lusitana. ” Na ccononúa agrária. pode dizer-se que os metodos maus, im¡ e', rudimcntsrcs. danosos e orientados apenas para 0 'imoderado e imediato proveito de quem os aplica, tendem eonstantentc a expulsar os bons métodos. Acontece que. no Bra- sil. as condições locais quase ímpunham, pelo manos ao primeiro contato, muito: daqueles métodos "mnus' ' e que. para suplente-los. era mister uma. energia paciente n: stcmáticn. O que, com segurança, se pode afirmar dos portugueses e seus descendentes é que jamais se sentiram eficazmente estimulados a es- sa energia. Mesmo oomparados a colonizadores dc outras áreas on- d: : viria s predomina¡ uma wuuontía rural fundada. como a nossa. no trabalho escravo, na monocultura, na grande propriedade. sem- pre se distinguiram. em verdade pelo muiito que pediam à terra e o pouco que lhe davam em retribuição. Salvo se encarados por um cri- JI
  28. 28. térin : diamante quantitativo, os métodos que puseram em trigo: no Brasil não representar: : nenhum progresso essencial sobre os que, antes deles, já praLicnvam os indígenas do pais. O contraste entre as condições normais da lavoura brasileira. , ainda na segunda metade do século passado, e as que pela mesma época prevaleuiaut no su] dos Estados Unidos é bem mui¡ apreciável : lo que as semelhança! , tão cumplucurttamtlrtte assinaladas e exage- radas por alguns historiadores. Os fazendeiros oriundos dos estados confederados. que por volta de 1866 emisrnram para o Brasil, e a cuja influência se tem atrihuído. com ou : em rarã o. o desenvolvi- mento do empregn de andas, cultivadores, todos e grades nas pm- priedader rurais paulistas, estiveram bem longe de partilhar da mes- ma opinião. Certas depoimentos da épDn refletem. ao contrário. n pasmo causado entre muitos deles pelos processos alarmmmnezt- te primitivos que encontraram em uso. Os escravo¡ brasileiros. diz um desses depoimentos, plantam algodão exatamente como os (n- dios norte-americano¡ plantam o milho. " O principio que, desde D! tempos mai¡ remotos dl colonização. norteara a criação da riqueza no país não cessou de valer um só mc- mento para a produção agrária. Todos queriam extrair do solo ex- : Assim: bei-infinitas sem grandes sacrifícios. Ou, como já o : nais antigo dos nossos historiadores. queriam servir-se da terra, não co- mo senhores, mas como usutruruários, "só para a desfrutarem e a deixarem destruída" E5 Não cabia, nesse caso, modificar os rude¡ procuram dm indí- genas, ditados pela lei do menor esforço, uma vez. é claro. que se acomodassem às conveniências da produção cm Larga escala. Instru- mentos sobretudo passivos, nossos colonizadores acIimaram-ee facil- mente. cedendo às sugestões da terra. e dos seus primeiros habitantes, sem cuidar de humor-lhes normas fixas c indeléveís. Mesmo compu- rados aos castelhan os. destacaram-se eles por esse aspecto. Na maior pm: das suas possessôea da America, o castelhano raramente se iden- tificou a fa¡ ponto com n lena e a gente da terra: apenas iuperpôxs-se; com freqüência, a uma e outra. Entre nós, u domínio europeu foi. cm geral, brando e mole. menos Dbedimte a regra¡ e dispositivos do que à lei da natureza. A vida parece ter sido aqui incomparavelmen- te mais suave, mais acolhedora das dtssonnncias sociais_ raciais, e morais. Nossos colonizadores eram, antes de tudo, homens que sa- biam repetir o que estava fto ou o que lhes ensinara a rotina. Bem 52 assentes no solo. não tinham misturam mentais muito grandes e o Céu parecia-lhes l. l.l| ll realidade excessivamente espiritual, remota, póstuml, para interferir em seus negócios de cada dia. A isso cumpre acrescentar outra f aee bem tipica de sua extraor- dinária plasticidade social: a ausência completa. ou praticamente completa, cnlrc clu, dc qualquer orgulho de raça. Ao menus du ol- gulho obstínado e inimigo de compromissos. que caracteriza os po- vos do Norte. Essa modalidade de seu carátcr. que ou aproxima das outras nações de estirpe latina c, mais do que delas, dos muçulma- nos da África. explica-irc muito pelo fato de serem os portugueses, cm parto, c já no tempo do descobrimento do Brasil, um povo dc mestiços. Ainda em nossos días. um antropólogo distingue-os racial- mcntc dos seus próprios vizinhos e irmãos, os espanhóis, por osten- tarem um contingente mainr dc smguc negro. A isso atribui o fato de os indígenas da África Oriental os considerarem quase como seus iguais c dl! ns rcspeitarem muito menos de que aos outros civiliza- aos. Assim, afirma, para designar os diferentes povos da Europa. os suailes discriminam sempre: europeus c portugueses. ” Neste cuso o Brasil não foi teatro de nenhuma grande novida- '- de. A utistura com gente de cor tinha começado amplamente na pró- pria metrópole. Ia' antes dc 1500, graças ao trabalho de pretos trazi- ¡ dos das posseszõcs intimas-inss, fora possível, no reino. estender a porção do solo cultivado, desbravar matos. dessangrar pântanos c transformar chamem. ; em lavouras, com o que se abriu passo à fundação dc povoados novos. Os benefícios imediatos que de seu traballio decorriam fizeram com que aumentasse incessantemente a procura desses instrumentos de progresso mata-id, cm uma nação onde se meuoscabavam cada vez mais os ofícios servia. " As lumcnlsçóes de um Garcia de Resende parecem refletir bem, por volta de 1536, o alarme suscitado entre homens prudentes por usa silenciosa e sub-temida invasão. que ameaçava transtornar os próprios fundamentos biológcos onde descanaava tradicionalmen- 1: a sociedade portuguese: Vamu¡ no reina meter, Tantos corri-m crescer, E ¡NMJÍ a: naturais Que se arsffon serão mui¡ Elos que nós, a meu var. ” 53

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