Crise e desagregação do socialismo daniel aarão reis filho

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Crise e desagregação do socialismo daniel aarão reis filho

  1. 1. Crise e desagregação do socialismo Daniel Aarão Reis Filho Professor titular de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense
  2. 2. impor, mais cedo ou mais tarde, não principalmente pelo poder de convenci- c mento de seus argumentos, embora isto também contasse, mas porque forças econômicas, sociais e políticas, de modo objetivo, trabalhavam em favor de sua vitória. Assim como os iluministas haviam imaginado a sociedade humana numa 'espécie de ascensão linear, expressa na crescente afirmação da razão e dos di- reitos humanos, e no triunfo das luzes sobre as trevas, e do progresso como . uma espécie de fatalidade, da mesma forma, os socialistas, que se considera- vam, e com razão, herdeiros dos ideais da Grande Revolução Francesa, acre- ' dítavam no triunfo certo da justiça e da igualdade. E extraiam alento, mesmo _em meio a eventuais derrotas políticas, da convicção, profundamente enrai- zada, de que a História apontava para a alternativa socialista. Eles cultiva- vam um aforismo, muito comum entre todas as correntes socialistas, que lhes , dava energia e determinação: o nnmdo ; nara/ Ja para o socialismo. Não se _tratava de uma conclusão derivada de sonhos, ou de desejos, mas de uma previsão cientifica. Esta era, com efeito, uma novidade - poderosissima - apertada pelo socialismo teorizado por K. Marx e F. Engels - a sociedade socialista não era fruto de uma construção baseada na imaginação, mas uma 'certeza baseada no, e autorizada pelo, conhecimento de leis científicas que regiam o movimento da sociedade. Cabia aos seres humanos apenas adaptar- se a estas leis, ou, no máximo, propiciar sua realização. A metáfora da revo- lução como a Parreira da História era perfeitamente cabível nesta formula- ção. A sociedade humana estava grávida de seu futuro - o socialismo. »Restava aos revolucionários apenas promover as condições para que o parto pudesse acontecer da melhor forma. O desdobramento da História, até avançado o século XX, apesar de 163
  3. 3. o SÉCULO xx muitos percalços, de sucessos imprevistos e de interpretações inusitadas do pensamento dos teóricos fundadores, parecia dar foros de verdade a estas propostas. Vozes mais criticas, certamente, poderiam argumentar que era cada vez mais difícil conseguir um consenso, entre os próprios marxistas, a respeito do »verdadeiro sentido das palavras e das previsões de Marx. Elas ha- viam passado por tantas adaptações, releituras e redefinições, na longa via- gem da Europa Ocidental à Ásia Oriental, passando pelas Rússias e pelo Caribe, que se tornara praticamente impossível almejar uma ortodoxia reco- nhecida por todos os adeptos do socialismo marxista. A partir de certo mo- mento, houve, inclusive, enfrentamentos armados, de alguma envergadura, entre Estados socialistas (URSS X China; China X Vietnã; Vietnã X Cam- boja), sem contar experimentos socialistas esmagados a ferro e fogo. .. por outros socialistas. .. em nome do socialismo, naturalmente (Hungria/1956 e Tchecoslováquia/1968, entre outros). Diante de tal diversidade de pontos de vista, alguns chegaram a propor uma expressão algo tautológica que ga- nhou, contudo, muita notoriedade: o socialismo realmente existente não fora » previsto, nem talvez desejado, muito menos correspondia às elaboradas construções teóricas do século XIX, mas estava lá, teimoso como os fatos; como gostava de dizer um grande revolucionário, V. Lenin. Assim, apesar de constituido por propostas muito distintas, e, com fre- j qüência, mutuamente hostis, o socialismo realmente existia - e se expandia. De sorte que, até meados dos anos 70 do século XX, partidários e inimigos' das formulações de K. Marx, os primeiros com esperança, os segundos com receio, ainda podiam dizer -- e diziam: o mundo marc/ aa - está marc/ mudo - para o socialismo. Ao longo dos anos 70, contudo, e sobretudo na virada para os anos 80, si- nais precursores de uma crise maior começaram a ser observados e apontados. Em primeiro lugar, entrou em questão a capacidade dos paises socialistas em garantir taxas crescentes de desenvolvimento econômico. Tal fora o gran- de trunfo do socialismo soviético nos anos 30, quando a URSS, impulsiona- da pelos Planos Qüinqüenais, e ignorando a crise que abalava as economias liberais, avançara celeremente em direção à sua modernização, em ritmos alucinantes, queimando etapas. Depois da Segunda Guerra Mundial, e ape- sar de devastada, surgira no cenário internacional como uma grande super- potência, rivalizando econômica e militarmente com a maior potência mun- dial - os EUA. Mais tarde, as demais economias socialistas - na Europa Central, na
  4. 4. cause E DESAGREGAÇÃO no SOCIALISMO , das do Ásia Oriental, no Caribe - apresentariam, sobretudo nos anos imediata- › a estas . mente posteriores à conquista revolucionária do poder, estas mesmas carac- lue em eristicas virtuosas, atribuidas por muitos a estatização da economia e ao ¡Sras! a. planejamento centralizado - grande dinamismo economico e invulgar capa- l nas ha_ cidade de automodernização. ga vía_ Ora, a partir dos anos 70, justamente, começaram a surgir novos e im- e pelo previstos indícios, como se estivesse havendo uma espécie de inversão de a taco, temperatura e pressão. A princípio, de uma forma quase que sub-repticia, ê to mo_ apenas do conhecimento dos serviços de espionagem e de contra-espionagem z A adum, ou de alguns especialistas refinados. Depois, cada vez mais claramente, apa- Cam_ recendo em conferências acadêmicas, transbordando para os veiculos de co- . por municação de massa: os paises socialistas já não estavam mais conseguindo ç 9 56 e fazer avançar a economia nos ritmos anteriores. O mais grave é que o pro- : Í tos de cesso nao se referia apenas a ¡izdices quantitativos - que declinavam de 'j , e ga_ forma visivel, embora ainda fossem positivos - mas, principalmente, a índí- o , com es qualitativos - relativos aos produtos, aos procedimentos tecnológicos ¡adas dotados, aos métodos de organização da gestão administrativa e do traba- E fatos, ho. Enquanto os grandes paises capitalistas, sobretudo os EUA, até como resposta à crise econômica dos anos 70, ingressavam firmemente numa nova n fm_ revolução cientifico-tecnológica, descobrindo novas fronteiras econômicas mdia_ í-a informática, as telecomunicações, a robótica, a biotecnologia, a produ- njgos 'ção de novos materiais -, transformando a produção e a sociedade, anun- ¡ com tiando mutações ciuilizatórias (Dreifuss, 1997), os Estados socialistas pare- , mda ciam incapazes de sequer acompanhar o processo. As contradições -- alguns ja falavam em impasses - nao se limitavam a V ~ O, si_ economia. Cada vez se tornava mais dificil manter padrões centralistas e di- ldos_ tatoriais de dominação - dos partidos comunistas e/ ou de líderes carismáti- mas' cos - sobre sociedades crescentemente urbanizadas, instruídas e informadas ; mm › = (Lewin, 1988). O discurso igualitária transmudava-se em retórica vazia em j ma_ 1 face das desigualdades gritantes que separavam os membros do partido e das mas ' lites politicas e econômicas e o resto da população. Instaurava-se uma pro- É mas ç funda crise de referências, o desinteresse, a apatia e o cinismo num contexto ape_ ç de defasagem entre valores proclamados - nos quais as próprias elites, visi- Par_ 'velmente, já não acreditavam mais -- e valores reconhecidos e praticados. mn_ Mesmo entre os países socialistas, para além dos conflitos ideológicos, í políticos e armados, já referidos, reproduziam-se, na normalidade de suas re- ¡ _ na lações, mecanismos de subordinação estranhos à teoria do internacionalísnzo › i i l l l l t 165
  5. 5. O SÉCULO XX proletário e típicos dos laços estabelecidos entre potências capitalistas e pa ses ditos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Assim, o mundo socialista surpreendeu-se em profunda crise intern agravada pelas pressões agressivas do mundo capitalista, animado por se êxitos econômicos e pela renascente onda neoliberal, nucleada pela Ingla terra de Margaret Thatcher e pelos EUA de Ronald Reagan. Tal é o contexto em que se desdobram as tentativas de reforma empree didas pelo socialismo contemporâneo que passaremos agora a narrar: a a censão de M. Gorbachev e a politica da perestroika (reestruturação) sovié ca; os estremecimentos e a derrocada do socialismo na Europa Central e, u pouco mais tarde, da própria URSS, a política das Quatro Modernizações n China e, finalmente, as tentativas desesperadas de Cuba e demais períferi do mundo socialista, incluindo-se aí o euroconzunismo. A URSS E A PERESTROIKA A eleição de M. Gorbachev para o cargo de secretário-geral do Partido, Comunista da União Soviética, em março de 1985, exprimiu um consenso g nérico favorável a reformas, embora ainda não houvesse um programa clara mente definido em relação a metas, prazos e ritmos. Uma coisa era certa URSS não poderia mais continuar sendo governada por aquela gerontocra que se havia constituído nas altas cúpulas do Estado e do partido e da qua! eram genuínos representantes os antecessores imediatos do novo secretário ” ral: L. Brejnev, I. Andropov e K. Chernenko, aptos, no melhor dos casos, apt# nã: *a bretudo em relação à corrida arnmmentista: moratória unilateral dos testes nucleares, redução de 50% dos armamentos estratégicos, diminuição do mísseis intermediários, destruição dos arsenais nucleares até o ano 2000 controles estritos sobre as armas convencionais. Por outro lado, advogav desativação dos conflitos regionais, inclusive levantando, sem constrangl mentos, a delicada questão do Afeganistão. i No mundo capitalista houve espanto e incredulidade. Sabia-se que URSS estava disposta a fazer concessões para se aliviar do chamado fará CRISE E DESAGI
  6. 6. CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOCIALISMO ; tas e p _ andas de sua população cada vez mais urbanizada e sofisticada. Mas não í esperava tanta ousadia. Alguns críticos, inclusive, denunciariam orbachev como um perigoso farsante, prometendo o que não tinha condi- çoes de cumprir. As comparações com N. Kruchev eram inevitáveis. Também . este último pretendera inovar, mas acabara preso nas malhas do sistema e li- quidado por ele. Entretanto, e rapidamente, o lider soviético afirmou-se na cena interna- cional, ganhando simpatias, quebrando resistências e preconceitos, conquis- e interna', › por seus' ela Ingla_ empreen- rar: a as- r) soviéti- Fal e, um' tando, com suas propostas e seu charme, a atenção dos lideres e das popula- : ações na 4 ções dos principais países capitalistas, assim como do resto do mundo. ieriferias' No plano interno, porém, prevaleciam os apelos tradicionais à discipli- nn, .ao trabalho e à necessidade de se conseguir um novo equilíbrio entre o pesado centralismo estatal e a autonomia das empresas. O mote do novo go- verno, num primeiro momento, resumia-se numa palavra: acelerar (ttskorie- tie). Acelerar a produção (Féron, 1995), romper a pasmaceira, superar a es- rgnação, termo inventado para designar os regimes anteriores e a era de L. rejnev, em particular. Partido Em outubro de 1985 apareceu uma nova palavra, que se tornaria mun- : nso ge- íalmente conhecida: perestroika, ou seja, recolocar as coisas em construção, a Clara. - econstruir, reestruturar. Tratava-se, portanto, de algo bem mais profundo certa: a' . do que apenas pôr o pé no acelerador, era preciso considerar fatores de or- : ocracia idens diversas, estruturais, imaginar reformas que pusessem em questão as es- ia qual tinturas econômicas do país. ÍIÍO-ge- O livro escrito por M. Gorbachev, com o título, justamente, de 35s HPE- Perestroilaa (Gorbachev, 1987), virou campeão de vendas na URSS e em todo : s desa- omundo. Fazia uma análise sem concessões dos males mais evidentes da eco- avam. iiomia soviética: desperdícios, negligência ante as demandas dos consumido- 35, S0- res, preocupação exagerada com a quantidade e subestimação de critérios ; testes qualitativos, centralismo excessivo. E apontava para novos horizontes: uma ão _dos sociedade produtiva, autônoma, harmônica, comprometida com a paz e a 2000: prosperidade. Bava a A questão era saber como transitar do socialismo realmente existente ? rangí- para a nova sociedade que se almejava construir. Do homem velho, empare- dado nos métodos e conceitos superados, para o Homem Novo, portador de que a todas as virtudes. Em suma, como sair do Presente para o Futuro. fardo O XXVII Congresso do Partido Comunista, reunido em fevereiro de 167
  7. 7. O SÉCULO XX 1986, quase um ano depois da eleição de M. Gorbachev, pouco avanço En neste sentido, indicando a existência de indecisões, dúvidas, divergências . mas se Enquanto uns preferiam denunciar as carências do sistema, mas reconheceu p 'ma de do os aspectos positivos, outros, ao contrário, defendiam as conquistas, res . gmaçã salvando a existência de contradições. No conjunto, porém, os debates per-f 'l-falênc¡ maneciam num plano geral, não tendo sido possível definir programas con- das en cretos de enfrentamento e superação dos problemas. Todos eram a favor de uma p acelerar (uskoriezzie). Ninguém era contra reestruturar (perestroilea). Mas as se mas coisas não saiam do lugar. Como se houvesse ali resistências que não ousa- M vam aparecer claramente. das m Houve então o desastre da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Pela crítica primeira vez, desde a revolução pelo alto em fins dos anos 20, a URSS expu» pena nha de modo tão evidente suas feridas. Para os soviéticos e para todo o “ d ' mundo. Os partidários das reformas utilizaram-se então do acontecimento . Pie a' para reforçar as criticas às mazelas do sistema. E fizeram surgir um outro sum? termo russo, que também daria a volta ao mundo: glasnost, ou seja, publici _ Sumld dade dos atos de interesse público ou, numa outra versão, transparência. Se ÊÊdPSf tivesse havido transparência na gestão da usina, argumentaram os reformis . idlwei tas, o desastre teria sido certamente evitado. fora f As reformas pareceram ganhar alento. Em novembro de 1986, aprovou df” el se uma lei sobre o trabalho individual privado. Em maio de 1987, um nov 0135 i estatuto para as cooperativas. Em ambas as iniciativas, a intenção de auto~ 311103 nomizar as atividades econômicas, enfraquecendo os controles centralistas' métoi tradicionais. Mas os receios ainda eram muito grandes, de modo que a nova ÍatO C legislação veio marcada por urna série de restrições e sanções, desestimulan-j' gistra do, na prática, aquilo que se queria, na teoria, encorajar. Em meados de Saúdi 1988, não havia mais do que 370 mil pessoas legalmente habilitadas para o . dez vn trabalho individual, autônomo, e mais 246 mil nas cerca de 20 mil coopera- side: : tivas em funcionamento. Para um país de 280 milhões de habitantes, não das¡ fazia muita diferença. 'desig Em junho de 1987, mais um avanço formal: aprovou-se uma lei sobre a geme autonomia da empresa, para vigorar a partir de janeiro do ano seguinte. M. j: Gorbachev dizia que era preciso substituir métodos essencialmente adminis¡ bom¡ trativos por métodos essencialmente econômicos, conferindo às empresas ( autonomia para estabelecer contratos com fornecedores e clientes, admitir e a Soc demitir funcionários, estabelecer metas e beneficiar-se com os ganhos ohti- dos dos. O Plano Qüinqüenal tenderia a assumir caráter indicativo, limitando-se va a fixar índices de produtividade a serem considerados pelas empresas. Na v 165
  8. 8. CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOCIALISMO p* , W Vançm' Entretanto, como pretender que as empresas pudessem se tornar autôlno-n: - ' ' çências; ihecen- 1 / ma de preços, até então fixados arbitrária e administrativamente, sem uma le- É, r islação prevendo »- e regulando -- a demissão dos trabalhadores, sem lei de l _ alências? Ora, nada disso fora debatido ou votado, de sorte que a autonomia' -i das empresas ficava suspensa no ar, expressão mais de um desejo, do que de. í uma politica, sem condições de fixar-se na realidade. E assim a economia não ' sereestruturava. l à i i Mas a glasnost fazia progressos. Aproveitando-se das brechas abertas, e “r » das margens de liberdade garantidas, começou um processo impiedoso de -' _ 1 críticas ao sistema. Nada parecia escapar àquela sociedade subitamente des- m , A _q p parta. O arco das denúncias não podia ser mais amplo. O meio ambiente de- jin, l predado, comprometendo a atual e as futuras gerações; o alcoolismo e o con- - umo de drogas em geral; a má qualidade dos produtos oferecidos aos con- , sumídores, evidenciando a subestimação dos interesses dos cidadãos; os mé- i todos burocráticos e autoritários de gestão e administração; as penosas con-, M_ ições das mulheres, obrigadas a cumprir estafantes jornadas de trabalhei- Í _ _j fora do lar, e ainda a desincumbir-se do trabalho doméstico (sem o auxílio i 'dos eletrodomésticos, caros e de baixa qualidade), e aturar as intermináveis filas e o machismo renitente do homem soviético. Como se não bastasse, ainda eram carentes de educação sexual e/ ou de suficiente disponibilidade de [métodos anticoncepcionais. Entre outras estatísticas alarmantes, citava-se o fato de que a URSS, com o equivalente a 5 ou 6% da população mundial, re- gistrava 25% dos abortos no mundo, segundo a Organização Mundial da 7 Saúde, duas a quatro vezes mais do que nos demais países socialistas, seis a dez vezes mais do que nos países capitalistas. Nem a educação e a saúde, con- sideradas até então setores modelares do socialismo soviético, eram poupa- das, acusadas de equipamento obsoleto e pessoal mal treinado. Sem falar nas desigualdades irritantes que privilegiavam os comunistas, sobretudo os diri- entes, estes seres mais iguais entre os iguais (Orwell, 1984). Finalmente, mas não menos importante, a corrupção, invadindo e trans- bordando por todos os poros da sociedade. O escândalo do tráfico do algodão no Usbequistão, entre outros, chocou a sociedade: 4 milhões de toneladas em cerca de dez anos haviam sido desvia- dos. A fraude envolvia altas autoridades, inclusive em Moscou, mas implica- va milhares de pessoas. Não havia como colocar toda aquela gente na cadeia. 'Na verdade, tratava-se de uma prática largamente disseminada. Para escapar ía. Pela 5 expu- todo o presas~ nitir e , ; obti- ido-se 169
  9. 9. O SÉCULO XX dos rigores e da ineficácia do centralismo excessivo, constituíam-se na URSS Cons redes autônomas de poder para impulsionar atividades, negócios, autoprote- avol ção, como se fossem feudos, embora o conceito fosse impróprio. Na própria s) cúpula do poder não existira durante anos o grupo (que as más línguas cha- rênc mavam de máfia) de Diziepropetrovsk (formado em torno da construção da gad¡ grande hidrelétrica do mesmo nome), cujo chefe era o próprio L. Brejnev? men Voltara também com grande ênfase o debate sobre o stalinismo, agora não timi mais restrito, como nos tempos de N. Kruchev, aos anos 30 e ao âmbito do partido. Questionava-se agora a coletivização forçada. A questão dos campos de trabalho. As antigas dissidências, os líderes apagados da memória como rios Bukharin e Zinoviev. O próprio Trotslci, figura maldita, emergia do passado. Solicitava-se, agora, sua reinclusão no panteão das lideranças revolucionárias. ~ Um grupo de jornais e revistas, entre os quais se destacavam Ogoiziola (V. Korotitch) e Notícias de Moscou (E. Ialcovlev), abria espaço para denúncias, críticas e artigos heréticos. As edições e reedições esgotavam-se, disputadas nas ruas. Havia uma atmosfera de ajuste de contas. Uma ânsia de tábula ra- sa, como um messianismo às avessas. Em parte alguma, argumentava-se, houvera tantos desastres e tanta ignomínia como na URSS. Os chefes, tira- nos. Os gênios, imbecis. O paraíso socialista, um inferno. O Homem Novo, muaíAzLMa_ V uma farsa. [gv U¡ i' ' A resistência começou a se explicitar, rejeitando com violência as criticas, ii-“lll numa reação de ex-combatentes. O receio da mudança: aonde aquilo tudo iria parar? Afinal, tratava-se de renovar ou de destruir o socialismo? Todos ainda se diziam favoráveis à perestroilea e à glasnosz, mas o que significavam exatamente aquelas palavras? Na alta cúpula, sob o fogo contraditório de reformistas (partidários de rar rat, dicalizar a perestroi/ ea) e conservadores (receosos de que o processo pudesse no¡ perder o rumo), instalava-se a dúvida. Duas reuniões do Comitê Central, rea- ' lizadas em junho e outubro de 1987, evidenciaram uma atmosfera de oscila- ções. Na primeira, efetuaram-se mudanças importantes, reforçando as corren- tes reformistas. Contudo, na segunda, demitiu-se B. Yeltsin, que dirigia então o partido em Moscou e que se notabilizara na denúncia às resistências à pe- restroilza, convertendo-se, em função de sua ação e de seus discursos, numa espécie de líder da corrente reformista. Nas duas reuniões, como se fosse um pêndulo, dando no cravo e na ferradura, fortalecia-se, sempre, M. Gorbachev, numa posição de liderança, distante de extremos considerados igualmente equivocados. internacionalmente, seu prestígio continuava alto, ascendendo, uac-, molmo e culta: Q_. ›:_= W_. ;»M. RMQ. _E, ,._1 ; ,- , ___o ___*_g___ “ ________gã___ã” 170
  10. 10. CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOCIALISMO 1a URSS consagrado como o The man of the year, da revista Time. Na URSS, porém, toprote- avolumavam-se as contradições. própria Convocou-se, então, no intuito de resolver os impasses, a XIX Confe- uas cha- rência Pan-Soviética do Partido Comunista. Congregando milhares de dele- ução da gatlos, eleitos num processo de grandes debates a respeito de teses previa- ínev? mente publicadas, esperava-se que dali pudesse se constituir a requerida legi- ; ora não timidade democrática para fixar rumos e avançar na sua consecução. ibito do Mais uma vez, fez-se o consenso sobre generalídades: críticas ao centra- campos , lismo, ao quantitativismo, ao autoritarismo, elogio da autonomia, dos crité- a como rios qualitativos, da democracia. A principal decisão, contudo, foi a de. .. ›assado. convocar uma outra assembléia, a ser eleita por toda a sociedade, um Con- anárias. gresso dos Deputados do Povo, formado por 2.250 eleitos. Eles debateriam 'rio/ a (V. uma agenda e elegeriam um Soviete Supremo, com cerca de 500 deputados, iúncias, ij. que, por sua vez, através do voto secreto, elegeria um presidente com amplos mtadas y poderes para implementar as deliberações tomadas. ›ula ra- Mudanças politicas importantes, sem dúvida. Na prática, o partido esta- ava-se, a va passando à sociedade os poderes para eleger deputados que decidiriam o as, tira» i umo do pais. O presidente a ser eleito não seria mais responsável perante o Novo, artido, mas perante a assembléia que o elegera. No entanto, em termos de programas concretos para fazer avançar a perestroi/ aa, salvo a legislação já Irítícas, provada, de efeitos escassos, as coisas continuavam empacadas. o tudo Seguiu-se a campanha para a eleição do Congresso. Os debates, acalora- Todos idos, contraditórios, públicos, mobilizaram intensamente uma sociedade Ícavam acostumada ao silêncio, mas que parecia tomar gosto por aquela agitação. “Nunca jornais e revistas venderam tanto suas edições, nem as emissões de ¡Cle ra- : rádio e televisão foram tão ouvidas e vistas quanto naqueles meses do inver- udesse no de 1988-89. Todos os termas foram debatidos: desde questões relativas à al, rea- organização geral da sociedade, como, por exemplo, de que modo poderiam oscila- ser combinadas as virtudes do mercado e do plano, até assuntos atinentes ao : orren- cotidiano, como as questões do aborto, das drogas, dos hospitais, dos salá- então rios. M. Gorbachev aparecia em toda a parte, incentivando, suscítando o de- ; à pe- bate e a crítica, visitando minas, fábricas e Ieol/ abozes. Permanecia como o numa grande líder do processo, galvanizando as vontades, consagrando-se. Tudo se um aquilo começara em 1985, há quase quatro anos, mas, agora, finalmente, achev, havia a esperança de que as reformas, devidamente respaldadas por amplas mente maiorias, se convertessem em realidade palpável. lendo, Entretanto, certas dissonâncias começaram a surgir, formuladas, com 171
  11. 11. V" o SÉCULO xx “ . freqüência, pelas pessoas comuns. Corria a anedota de que as pessoas, ao bat i abrirem a geladeira, não encontravam a peresrroika. As filas aumentavam de fm¡ tamanho. Reapareceu o racionamento de alguns produtos, como a gasolina, a manteiga, a carne e o açúcar. A colheita de cereais, em 1988, fora um fra- casso, quase 20% a menos do que o patamar alcançado dez anos antes. G01* . em bachev responsabilizava o passado, naturalmente. Mas aquele passado esta- ria¡ va custando a passar. Afinal, a perestroílea viera para melhorar ou para pio- 13K'. rar a vida das pessoas? se 4 Uma outra catástrofe, um terremoto na Armênia, em dezembro de 1988, m¡ uma espécie de novo Chernobyl, contribuiu para estimular as incertezas, evi- çã( denciando as carências técnicas, a precariedade do socorro, a falta de medi »nai camentos, os erros grosseiros no planejamento da construção dos prédios. A m¡ URSS, superpotência, mostrava, mais uma vez, suas chagas e elas pareciam estranhamente, com as dos países Subdesenvolvidos. os, Apesar de tudo, a participação nas eleições foi maciça. Contudo, os ré- n15_ , resultados geraram apreciações diversas. De um lado, os partidários da acele fe? iíllJZÊl-iiãção das reformas foram vitoriosos nos grandes centros urbanos. B. Yeltsin l 'w' por exemplo, embora tendo sido expurgado do Bureau Político em finsd 1/987, teve quase 90% dos votos em Moscou. De outro lado, na URSS pra funda, em 25% das circunscrições, houve candidaturas únicas, embora ale facultasse múltiplos candidatos. Nas 17 regiões do Casaquistão, re 'bliç soviética da Ásia Central, os primeiros-secretários do partido foram Candida tos únicos e, naturalmente, vencedores. Um outro aspecto que se evidenciou no processo eleitoral: o reforço d identidades nacionais, sobretudo nos chamados países bâlticos (Lituâni Letônia e Estônia), onde se constituíram, e foram vitoriosas, as autodenorm / nadas frentes populares, que já começavam a advogar a separação da URS n A arrastão nacional, largamente subestimada pelas elites dirigentes sovi cas, tenderia, desde então, a se afirmar no centro da cena política. O primeiro alarme soara em dezembro de 1986, no Casaquistão. A te * tativa, contrariando as tradições, de impor um russo como primeiro-secret ^ " ; rio do partido desencadeara a cólera popular na capital do pais, Alma-Am ; lili obrigando Moscou a recuar. No ano seguinte, no centro do sistema, na pr i A pria Rússia, surgira urna organização ultranacionalista, Panziat (Memória) Poucos meses depois, ainda em 1987, uma grande manifestação nacionalís em Riga, capital da Letônia, reivindicou autonomia e respeito pela identida de do país. Ainda naquele ano, em Kiev, na Ucrânia, houve uma verdade' "U t:
  12. 12. CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOCIALISMO batalha campal entre russos e ucranianos. O estopim fora um banal jogo de futebol, mas foi possível perceber a força dos ódios nacionais latejaihdo. _jñlu/ * l: › Como se o vírus do nacionalismo estivesse à solta. um fra' Em fevereiro de 1988, veio à luz o conflito entre armênios e azerbaijanos ai** _ 55- G01' em torno da região do Alto Karabach. Tratava-se de um território majOrita-JiVÉW C10 est? " tiamente povoado de armênios encravado na República do Azerbaijão. O im- am Pio , bróglío fora criado ainda no periodo de Stalin. Ora, os armênios queixavam- se de discriminação e de perseguições. E solicitavam a transferência do terri- [3 1938: tório para a jurisdição da República da Armênia. No Azerbaijão, a popula- Zass @Vl “ ção sentiu-se ameaçada e reagiu com massacres (pogroms), a arma tradicio- le med¡ ? nal do nacionalismo exacerbado. Os armênios deram o troco e se instaurou BÓÍOS-'A uma verdadeira guerra civil, que não foi possível debelar até o fim da URSS. treciam Assim, desenharam-se múltiplos focos de tensão. No Extremo Ocidente, os países bálticos e a Moldávia. Em novembro de 1988, o Parlamento esto- niano proclamou o primado das leis da república sobre as leis soviéticas. Em - fevereiro do ano seguinte, a Lituânia anunciou seu direito à autodetermina- i ção. No Cáucaso, as nacionalidades não paravam de se engalfínhar, suceden- , ulifdo-se grandes manifestações nacionalistas nas capitais da região. Numa delas, em Tbilissi, na Geórgia, em abril de 1989, o exército soviético abriu fogo contra os manifestantes, matando 16 pessoas. Na Ásia Central, a iden- ' tidade muçulmana surgia das sombras. Até os ucranianos e bielo-russos, es- tes últimos sem nenhuma tradição estatal nacional, formulavam programas nacionalistas. Entre os próprios russos apareciam vozes pregando a idéia de que talvez fosse o caso liquidar com aquele império, que cada um seguísse o seu caminho. Entretanto, o Congresso dos Deputados do Povo instalara-se. Grandes Yeltsin, . fins de í SS pro'- ›ra a lei pública indicia- rço das i tuânia, r ! p URSS. maiorias aprovaram todas as reformas propostas por Gorbachev, elegendo-o ; sovié- presidente do Parlamento com 94,35% dos votos. Todos os poderes lhe foram concedidos. Aparentemente, contudo, as coisas não melhoravarn. Em A ten- julho, um amplo movimento grevista nas minas de carvão espalhou-se pela lui* ecreta- Ucrânia. Durou duas semanas e estimulou uma série de outras manifestações u l *a*Ata; por toda a URSS. As prateleiras das lojas continuavam vazias. A escassez e as fbúígú la PIÕ' í filas, o racionamento e o mercado negro atormentavam o cotidiano das pes- , ~ . 1ÕIÍH - soas comuns. Até os preços do petróleo, principal produto de exportação e mu; 'talista gerador de divisas, despencavam nas cotações internacionais, aumentando *HSM* os déficits e provocando inflação. A impressionante popularidade de a erra Gorbachev no mundo, que, em toda uma primeira fase, legitimara com o A L9 ¡lêaxàu de» rlãrüv U-l= ?*"** l. . i m. a E ' , « ; lu ¡vv-- l C_ç¡, .x. 5:5- Íjm-. M. &ígñhlyã v* CJLM/ PÉ» , tcc-axei NV# x ualfab'
  13. 13. o SÉCULO xx selo internacional suas promessas e ousadias, pesava cada vez menos em face do descalabro que passara a dominar a sociedade e a economia soviéticas. De que adiantava todo o prestígio do líder da perestroika, se os capitais interna- cionais teimavam em não afluir? Quanto aos empréstimos e aos financia mentos das agências internacionais, aportavam a conta-gotas, não conse- guindo alterar o quadro crítico. Sucediam-se as equipes econômicas e as propostas mais originais e inte- ressantes. Contudo, nada, ou quase nada, funcionava. As reformas, os decre5 tos e as leis eram anunciados, mas não passavam à realidade, como se traga* dos por mal definidas resistências. . Em 1989, o socialismo desapareceu na Europa Central. Um prenúncio? Na Polônia, o Solidariedade assumira o poder. Na República Democrática_ Alemã, apresentada como o mais próspero país socialista do mundo, grandes manifestações tinham levado à queda do todo-poderoso E. Honecher e, um pouco mais tarde, à do Muro de Berlim, erguido em 1961, e que parecia eter- no. Na Hungria, eleições livres eram convocadas e nenhum analista previa a vitória dos comunistas locais. Pouco depois, uma revolução pacífica, dita de veludo, na Tchecoslováquia e uma outra, violenta, na Romênia, apearam os _. comunistas do poder. Indagado sobre como a URSS reagiria a esta debanda _ da, o porta-voz de Gorbachev cantarolou os versos de My way, ou seja, como na canção, cada um seria livre para traçar o próprio destino. Desta vez os tan ques permaneceriam tranqüilas nos quartéis. Como não poderia deixar de ser, o processo fulminante de desmantela mento das mal chamadas democracias populares reforçou as correntes que e estavam apostando na desagregação da URSS. Os parlamentos dos países bálticos, eleitos em 1989, aprovavam leis que apontavam para a secessão. De i um lado, criavam símbolos típicos de estados-nações, como bandeiras e* hinos próprios. De outro lado, estabeleciam legislações que garantiam auto~ nomia em assuntos fiscais e culturais, enfatizando sempre que as leis das re- públicas deveriam primar sobre as da União, num desafio claro às tradições, centralistas soviéticas. Na Lituânia, num gesto ousado, em março de 1990, ow Parlamento local proclamou a independência do pais. M. Gorbachev reagiu”- com dureza ao ato e até mesmo lideres politicos ocidentais, como F. j Mitterrand e H. Khol, aconselharam prudência aos lituanos. No Cáucaso, assim como na Ásia Central, generalizava-se uma situação ; de guerra civil. As tentativas conciliatórias eram recusadas num contexto de massacres de caráter étnico. As contradições radicalizavam-se e pareciam' 174
  14. 14. CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOClALISMO . enos em face oviéticas. De itais interna-l : os financia- , não conse-_ fugir do controle. Em toda a parte, os parlamentos locais proclamavam a res- pectiva soberania, ou seja, somente admitiam as leis da União quando não çntrassem em desacordo com a própria legislação. Na prática, era um pro- cesso de secessão que ainda não dizia o seu nome. Contudo, e apesar das evi- dências, quase ninguém ainda ousava dizer o indizivel: a URSS estava pres- es a desaparecer. Das próprias nações eslavas (Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia), considera- as até então como os mais sólidos baluartes da União Soviética, desponta- am forças desagregadoras. Em junho de 1990, depois de eleger triunfalmen- eB. Yeltsin seu presidente, o Parlamento russo aprovou a soberania. No mês eguinte, os parlamentos da Ucrânia e da BieIo-Rússia tomaram, por ampla aioria, a mesma decisão politica. M. Gorbachev, apoiando-se na tradição, aparentava ainda estar nos con- oles. Em julho de 1990, quando do XVIII Congresso do Partido Comu- ista, conseguiu aprovar todas as suas propostas. Em setembro do mesmo ; inais e inte- as, os decrei mo se traga- prenúncio? kmocrática . do, grandes echer e, um iarecia eter- fta PF°VÍ3 a no, o Soviete Supremo voltou a lhe conferir poderes extraordinários para Lica: dita de mplementar as reformas consideradas necessárias por decreto. Mas de que &Pearam 05 e servia concentrar poderes, se, visivelmente, não sabia como exerce-los? 'a debanda- ão definia um programa claro de enfrentamento das crises. Oscilava entre iselaz 50H10 eformistas e conservadores. Ve¡ 05 tan' j No segundo semestre de 1990, passou a chamar para o governo homens mais decididos a preservar, a qualquer custo, a URSS de um processo de de- ESmi-'íntela' sagregação, do que conduzi-la no rumo das reformas tão anunciadas mas -Tentes que lque não se concretizavam. No Ministério do Interior (B. Pugo), no KGB (V. d°5 Países Kríuchkov), no cargo de primeiro-ministro (V. Pavlov), no comando das re- "555550- De lações externas (A. Bessmertnykh), no novo posto de vice-presidente da Êndeíras e URSS (G. Ianaev), instalavam-se personagens estranhos às perspectivas da tlfim aum' perestroiIaa/ glasrzost. Ao mesmo tempo, seus aliados mais fiéis, como E. te” dÊS re' Chevarnadze, ex-ministro de Relações Exteriores, e A. Iakovlev, ex-respon- l tradições sável pelas questões ideológicas no Partido Comunista, afastavam-se do cen- : le 1990›_° tro do palco, denunciando conspirações golpistas, favoráveis à restauração b” “a3” da ditadura do Partido Comunista. I °°m° F- A muito custo, conseguiu-se formular a proposta para um novo pacto fe- _ derativo. Teria o nome de União das Repúblicas Soberanas e seria levado a a 5m1a9ã° referendo em todas as repúblicas soviéticas. 'M659 de As correntes mais radicais, porém, sobretudo entre as nações não-russas, pareciam recusavam-se sequer a participar do referendo, preferindo a solução do des- 175
  15. 15. o SÉCULO xx compromisso total com a URSS. Na Lituânia, onde o processo independe tista fora mais longe, sucediam-se as manifestações. Em janeiro, choqu com tropas especiais enviadas por Moscou resultaram em mortes de manife tantes, radicalizando os antagonismos. Gorbachev desautorizou os coma dantes locais, deplorou os excessos e mandou instaurar inquéritos. A perestroíka aproximava-se do fim? Em 17 de março de 1991, afinal, houve o referendo tão anunciado. Ma uma consulta à população. Seis repúblicas não participaram do vot (Lituânia, Letônia, Estônia, Geórgia, Moldávia e Armênia). A grande mai ria, 76,4%, votara pela manutenção da União. Mas o voto era carregadod ambigüidades porque, no âmbito de várias repúblicas, como na Ucrâni votou-se também, e também por ampla maioria, em favor da soberania loc e regional, o que relativizava em muito o sim dado à União Soviética. De sorte que, uma vez mais, todas as ilações eram possíveis. A Geórgia, por exemplo, proclamou sua independência, em abrild 1991. O mesmo já fizera a Lituânia, reafirmando sua independência em fa vereiro, através de um referendo, com 90,5% dos votos favoráveis. Foi nesta atmosfera Oscilante que se abriram as conversações a respei de um novo Tratado da União. Um novo pacto, capaz de reconhecer a aut nomia das repúblicas, porém, mantendo a União. Foi uma barganha dura. Participaram as três repúblicas eslavas (Rússí Ucrânia e BieIo-Rússia), as cinco da Ásia Central (Turcomenistão, Tadjiqui tão, Casaquistão, Usbequistão e Quirguistão) e a do Azerbaijão, no Cáucas Formulou-se um texto que agradou a todos mas completamente inócuo. Nã seria possível reconstruir uma União em bases tão indefinidas. Nessa ocasião, em eleições diretas, inéditas na história da URSS, realizad em junho de 1991, B. Yeltsin foi eleito presidente da República da Rússia, lo no primeiro turno, com 57,3% dos sufrágios. Ao mesmo tempo, aliados se foram eleitos, também pelo voto direto, prefeitos das principais cidades russ como Leningrado e Moscou. Rapidamente, B. Yeltsin e seus simpatizantes, e decorrência da legitimidade democrática adquirida, começaram a radicali seus propósitos favoráveis à soberania da Rússia. Neste sentido, cabia ao no governo russo exerce-la, em todos os niveis (controle das riquezas, arrecadaç de impostos, política externa, organização das forças armadas etc. ). Se o fize se, de fato, que poder restaria à União e a M. Gorbachev? Em agosto de 1991, afinal, foi possivel chegar a um texto de comprornis sobre uma nova União, renovada. Mais uma vez, contudo, nada ficava clat 176 . .. '.. _.. ._. _.__. ___. _'. ___. m_n; _1._, mm. '.. e=a_. _
  16. 16. CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOCIALISMO mente definido: impostos, jurisdições respectivas, forças armadas, diplomacia, _ prevaleciam as declarações genéricas, exprimindo indecisões, divergências. l M. Gorbachev parecia desorientado. No plano internacional, seu prestí- gio não mais rendia dividendos para seu pais. Os investimentos tardavam. Os empréstimos pingavam devagar. A ida de Gorbachev à reunião do Grupo dos 7, reunindo os principais capitalistas do mundo, em julho, foi patética. Inquirido por G. Bush, presidente dos Estados Unidos, como um mau aluno por um severo mestre-escola, não teve forças para se impor. Como se os paí- ses mais ricos do planeja já estivessem desconfiando de seu poder real, apos- lttlltando numa outra alternativa (B. Yeltsin). ?ll Foi então que sobreveio o golpe restrmrador. p I p / Aproveitando-se da ausência de M. Gorbachev, em férias nofMar Negro, 'os golpistas o prenderam em sua casa de veraneio, anunciaram que estava enfermo e desferiram o movimento de sua deposição. Em suas declarações, não falavam em nome do socialismo, nem do comunismo, mas na necessida- de de salvar a União. Faltou-lhes, contudo, força para alcançar seus objetivos. A cadeia de co- mando simplesmente não funcionou. As ordens, recebidas, não eram cum- pridas. B. Yeltsin tomou o comando da oposição, mas nem foi necessário lutar porque o golpe desagregou-se por si mesmo, sem alento, sem organiza- ção e sem consistência. Um fiasco. M. Gorbachev, liberado, ainda tentou se equilibrar, mas era terrível seu desgaste, inclusive porque todos os golpistas eram seus homens de confian- ça, ocupando altas posições de mando, nomeados por ele. Acelerou-se o desmoronamento. Às duas repúblicas, que já haviam proclamado a independência (Li- tuânia e Geórgia), se seguiram as demais: Estônia (20 de agosto), Letônia (21 V *de agosto), Ucrânia (24 de agosto), Bielo-Rússia (25 de agosto), Moldávia (27 de agosto), Casaquistão e Quirguistão (28 de agosto), Azerbaijão (30 de agosto), Usbequistão (31 de agosto), Tadjiquistão (9 de setembro), Armênia (21 de setembro) e Turcomenistão (26 de outubro). Em rápidos movimentos, B. Yeltsin dissolveu o Partido Comunista e o KGB, recebendo do Parlamento russo plenos poderes para implementar as decantadas reformas. No começo de dezembro, os dirigentes das três repúblicas eslavas, reuni- dos em Minsk, capital da Bielo-Rússia, anunciaram a fundação de uma Comunidade de Estados Independentes, aberta às repúblicas que formavam ilizadas ia, log 177 Li
  17. 17. o SÉCULO xx a URSS, sem sequer consultar M. Gorbachev. Em 21 de dezembro de 1991 em Alma-Ata, capital do Casaquistão, formou-se a Comunidade com 11 ex- a repúblicas soviéticas. Um comunicado reiterou que a União Soviética deixa ea de existir. Foram ainda necessários quatro dias para Gorbachev assumir nova realidade e assinar sua renúncia. O verdadeiramente inacreditável acontecera: a União Soviética deixara de existir. A CRISE DO SOClALISMO CONTEMPORÂNEO A desintegração da União Soviética, que acompanhou a do socialismo na i Europa Central, pôs em evidência uma crise maior: a do socialismo contem-- porâneo. Ela teria outras incidências, afetando as principais propostas e experiên, cias revolucionárias que surgiram no século XX. Na China, desde os anos 70, e sobretudo após a morte de Mao Tsé-tung, em 1976, a preocupação e os debates a respeito do socialismo tenderam a dar lugar à preocupação e aos debates a respeito da modernização e do enrie quecinzerzto do país. A política dita das Quatro Modernizações (da indústria, da agricultura da ciência e da tecnologia e das forças armadas), sob a direção de Deng Xiao Ping, embora mantendo uma retórica de adesão ao socialismo, e mesmo ao comunismo, e apesar de reverenciar a pessoa do próprio Mao, na prática, eli minou gradual e firmemente todo o legado do nzaoísmo, enquanto estratégi de luta revolucionária pela tomada do poder politico e enquanto tentativad , - construção de um padrão próprio de socialismo. * O fracasso do Grande Salto para a Frente (1958-1959) - na verdade, um salto para trás -- e as enormes frustrações associadas ã Grande Revo- lução Cultural Proletária (1965-1969) prepararam um terreno fértil para a descrença nas utopias socialistas e, no mesmo movimento, para o investi- mento em métodos e processos unicamente voltados para o desenvolvimen- to econõmico e para o reforço do Estado nacional. Assim, desde 1979, liquidaram-se as Comunas populares, restabel do-se a família nuclear como unidade de produção básica, com a qual são as sinados contratos de responsabilidade de arrendamento e gestão de o n Éh i? 'U 55 l: rn 178
  18. 18. CRISE E DESAGREGAÇÃO DD SOCIALISMO nos lotes, válidos por quinze anos, prorrogáveis (segundo dados oficiais, 220 milhões de contratos, num universo de 900 milhões de pessoas). Um novo processo de reforma agrária descoletiuizozt o campo chinês, apostando na ambição de lucro e de realização pessoal e familiar dos pequenos campone- ses, ainda viva, apesar, ou por causa, dos experimentos (na maior parte, de- sastrados) de coletivização empreendidos (Pomar, 1987). Como resultado, houve um gigantesco crescimento da produção agríco- la, de 240 milhões de toneladas de cereais, em 1979, para quase 500 milhões de toneladas (dados de 1997), dinamizando o conjunto da economia. Por outro lado, e de forma controlada pelo Estado, abriram-se zonas econômicas especiais para o ingresso seletivo de capitais internacionais, promovendo-se o crescimento industrial e as exportações, além de importação de tecnologia. Um ritmo febril de negócios tomou conta do país, acentuado recente- mente pela incorporação de Hong Kong, onde se mantiveram íntactas as bases do desenvolvimento econômico anterior, do qual, aliás, já fazia parte, em larga medida, o Estado chinês. No plano politico, o Partido Comunista manteve firme o comando do Estado e da sociedade. Os sucessivos movimentos que pretenderam questio- nar esta Ordem foram reprimidos com violência, notadamente o processo . que levou, em 1989, ao massacre da Praça da Paz Celestial, quando, em ' nome do socialismo, mais uma vez, lutas pela liberdade e pela democracia oram silenciadas com tiros e tanques (Andrade e Favre, 1989). _ A repressão, passado um momento de constrangimento, quando se fize- am ouvir os protestos de praxe, não inibiu os negócios; ao contrário, eles , 'enderam a crescer e seguem em ritmo ascendente, constituindo a China uma r fronteira econômica e geográfica crucial para a atual prosperidade do capi- › talismo internacional. O interessante é que o marxismo e o socialismo continuam sendo ritual- mente invocados por um partido comunista que, na prática, rege o mais fre- ético desenvolvimento capitalista. A isto as autoridades chamam o socialis- ' no com características chinesas. As duas outras experiências socialistas da Ásia Oriental - a Coréia e o Vietnã - também não conseguiram afirmar-se como focos de irradiação de propostas inovadoras. Na Coréia, a longa ditadura pessoal de Kim Il-Sung, transmitida a seu filho, apresenta como saldo um país faminto e com reduzi- V díssima capacidade de sedução política. Já o Vietnã, que galvanizou imensas esperanças, mobilizando em seu favor a opinião pública internacional duran- aço 179 TE Hageau
  19. 19. , wl-. u ›'@ O SÉCULO XX te mais de uma década, até a vitória da guerra de libertação nacional, em 1975 , não soube, ou não pôde, manter o mesmo nível de solidariedade. A0 contrário, nas guerras travadas contra os vizinhos próximos (China e Camboja), ou na manutenção de um regime alérgico à democracia, perdeu e progressivamente a capacidade de entusiasmar, que era sua marca registrada = enquanto viveu o grande lider revolucionário nacional Ho Chi Minh. No outro extremo do mundo, a revolução cubana, depois de incendiar as ímaginações, e de ter se convertido num território onde disputavam-se a ou- sadia e a originalilidade, sobretudo ao longo dos anos 60, tendeu a perder au- tonomia no quadro de uma aliança cada vez mais dependente com a URSS. Nos anos da perestroi/ aa, percebendo a hipótese da falência que se avizi- _ nhava, o socialismo cubano recobrou uma certa vitalidade, enfatizando as tradições e as características nacionais (Bandeira, 1998). Entretanto, num i. - quadro de circunstâncias extremamente desfavoráveis, o país teve que se abrir para o capital internacional, para o turismo e para o dólar, e para as práticas e os valores associados -- o câmbio paralelo, a prostituição, o arri- vismo e os pequenos tráficos. Como na China, o Partido Comunista tenta se- gurar o rumo, mantendo e reforçando a estrutura centralizada e ditatorial do poder, apesar de algumas aberturas parciais. A resistência cubana tem algo de patético, consideradas as desproporção de forças e falta de alternativas imediatas. Mas conserva também um caráter épico, a dignidade desse pequeno povo, muito maior do que as suas circuns- tâncias, desafiando as armadilhas do destino. Não escaparam do terremoto que desagregou o socialismo soviético nem mesmo as correntes socialistas que lhe moviam oposição. As mais radicais, decididas a um enfrentamento aberto contra o capita- lismo, como os trotsleistas e os cansei/ natas, sem falar das diversas tendências anarquistas, esperavam prosperar à sombra da crise, ou do fim, do socialis- mo soviético. Nunca imaginaram, na perspectiva de que o mundo marchava para a frente, e para o auto-aperfeiçoamento, que o socialismo soviético pu- desse evoluir para o capitalismo. Entretanto, no contexto da crise geral de' confiança na alternativa socialista, viram os seus já reduzidos contingentes estreitarem-se ainda mais. Num outro extremo, os euroconzmzistas, que defendiam propostas de uma transição pacífica e institucional para o socialismo, e que chegaram, Pc_ num certo momento, a ganhar projeção, sobretudo em alguns paises da' soviéti Europa Ocidental (Itália, Espanha e França), também registraram queda gação. 180
  20. 20. al, em le. Ao nina e rerdeu strada , liar as a ou- er au- (S5. avízi- do as num ue se ra as arri- ta se- al do ¡rção ráter : uns- nem CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOCIALISMO rústica de influência. Longe de se beneficiaram da derrota do socialismo so- ético, centralista, estatista e ditatorial, e apesar de todo o esforço em se tualizarem (a tentativa de aggionzanzento dos comunistas italianos), pro- l ando-se a encarnar um socialismo plural e democrático, os eurocomunistas ndcrarn a se enfraquecer, e até mesmo a desaparecer como alternativa ali, nde chegaram a adquirir força nos anos 60 e 70. Finalmente, as correntes social-democratas, antigas rivais, desde os anos O, sempre denunciando as derivas ditatoriais do socialismo soviético, passa- ram por um processo de crescente dissociação em relação ao socialismo (Przeworski, 1989). Na prática, abandonaram-no como perspectiva, aproxi- imando-se, gradativamente, das correntes liberais, adotando seus padrões de 'política econômica, formando com elas alianças que até hoje perduram e das iguais são expressão todos estes partidos social-democratas atualmente exer- ; tendo o poder em países europeus, mas que não ameaçam, nem teórica, nem ípraticamente, a ordem capitalista. i E assim, neste fim de século XX, inícios de um novo século, as revoluções *que assaltaram os céus, e desafiaram o Capitalismo, empreendendo a cons- trução de modelos alternativos, desagregaram-se (URSS e Europa Central), evocam apenas ritualmente o socialismo (China), abandonaram-no comple- tamente como proposta (correntes social-democráticas) ou, no limite, encon- itram-se numa resistência desesperada, mais associada à luta pela sobrevivên- a nacional-estatal (Cuba) do que a efetivas promessas socialistas. Não é possível, entretanto, negar o impacto que tiveram na aventura hu- mana do século que está terminando. E talvez a melhor maneira de avaliar as suas chances de futuro seja efetuar um balanço de suas heranças, construti- vas e destrutivas. A5 AMBÍG UAS HERANÇAS DO SOCIALISMO QUE REALMENTE EXISTIU 0 socialismo foi decisivo para a destruição do nazismo. Sem a URSS, a his- tôria da humanidade, dominada pela besta nazista, poderia ter sido radical- mente diferente. Pode-se dizer o mesmo dos impérios coloniais europeus. Sem a retaguarda soviética, política, nailitar, diplomática, moral, seria impensável a sua desagre- gação, pelo menos na velocidade em que se verificou. 181 l i f
  21. 21. o SÉCULO xx As referências socialistas também seriam de capital importância para a constituição das correntes nacional-estatistas na América Latina, na Ásia na África. Mais ou menos revolucionárias, elas foram muito importantes na afirmação das soberanias nacionais, na modernização das economias e no es tabelecimento de alianças com os interesses dos trabalhadores urbanos. O Estado do bem-estar social (zuelfare state), basicamente construído apó a Segunda Guerra Mundial, embora já esboçado no período entre as dua Guerras (Constituição de Weimar, Frente Popular na França etc. ), e que aten deu às demandas históricas dos trabalhadores, sobretudo na área da Europa Ocidental, deveu-se também, e amplamente, à existência do socialismo soviéti co e seus congêneres. A ameaça vermelha aconselhava à prudência e às conces sões. Em determinadas circunstâncias, mais valia perder os anéis do que o dedos, ou a cabeça. Finalmente, e apesar de todos os pesares, os regimes socialistas, freqüen temente, foram capazes, internamente, de afirmar a soberania das sociedade sob sua orientação, de modernizar as respectivas economias e de melhorar, às vezes substancialmente, os padrões das condições de vida e de trabalho d seus habitantes. l Como heranças destrutivas, o socialismo deixou, sem dúvida, um rastr de intolerância. A negação das liberdades e do pluralismo, a cultura do ceu tralismo e da ditadura, se, por vezes, pôde ser legitimada em face do cerco das ameaças dos paises capitalistas, nem sempre correspondeu a situações d perigo iminente. Ao contrário, o que se verificou, constantemente, foi que socialismo tendeu a apertar os laços do constrangimento e da repressão n medida mesma da força que adquiria. O que autoriza a hipótese de que a iu clinação ditatorial-repressiva esteja ligada, de certo modo, a algumas de sua referências fundadoras (a política como ciência, o messianismo operário, as); vanguardas iluminadas etc. ). O fato é que as ditaduras passaram a ser consideradas intoleráveis, priu cipalmente ali, onde o socialismo formou sociedades mais complexas, ins truídas e urbanizadas, como no caso da URSS. Do mesmo modo, se o estatismo centralista jogou papel dinâmico n processo da decolagem nzodemizante, ele se revelaria particularmente inca paz de assegurar ritmos ascendentes de desenvolvimento em sociedades ma' sofisticadas. Num plano mais geral, o socialismo que realmente existiu não foi capaz historicamente, de construir e de gestar uma alternativa ética, convincente, a 182
  22. 22. ia para a 1a Ásia e tantes na , s e no es? ” 1105. que aten- a Europa o soviéti~ “ , s conces- _ o que os' freqüen: í ncíedades_ horar, às: balho de 4 III IHSÉIO l do cena W 3 CEICO e . ações de: ? oi que o essão na que a in- « sde suas_ ' rário, as' ais, priné i xas, inse mico no' Ite inca- : les mais )i capaz, _ zente, ao lÍClO após'. a as duas- CRISE E DESAGREGAÇÃO DO SOCIALISMO capitalismo. Seus valores mais centrais - igualirarismo, solidariedade, coope- ração, coletivismo -, além do fato de que não eram levados a sério pelas pró- prias elites socialistas, acabaram associados à ineficiência e à ditadura. Talvez esteja aí- no enfraquecimendo de seus valores - um dos aspec- tos centraís do declínio do socialismo neste fim de século. Enquanto não for . possível extrair de suas ambíguas heranças uma reatualização destes valores, será difícil imaginar o renascimento do socialismo. BIBLIOGRAFIA Andrade, M. e Favre, L. 1989. A Conama de Pequim. São Paulo, Busca Vida. Bandeira, L. A. M. 1998. De Martín Fidel. A Revolução Cubana e a Anzérica Latina. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. Blackburn, R. (org). 1992. Depois da queda. São Paulo, Paz c Terra. Dreifuss, R. 1997. A época das perplexidades. Petrópolis, Vozes. Féron, B. 1995. La Russia, espoirs el dangers. París, Le Monde/ Marabout. Gorbachev, M. 1987. Perestroi/ cn. Rio de janeiro, Best-Seller. Gorender, J. 1992. Origens e fracasso da perestroika. São Paulo, Atual. LEWÍII, M. 1988. O fenômeno Gorbachev. Rio de Janeiro, Paz e Terra. Orwell, G. 1934. 1984, São Paulo, Ática. Pomar, V. 1987. O enigma chinês: capitalismo ou socíalisnzo. São Paulo, Alfa-Ômega. Przexvorskí, A. 1989. Capitalismo e social-dentocracia. São Paulo, Companhia das Letras. Reis Filho, D. 1997. Uma revolução perdida. São Paulo, Fundação Perseu Abramo. 183

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