Folha maçônica 529

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Folha maçônica 529

  1. 1. FOLHA MAÇÔNICA Desde 11 de setembro de 2005 Revista semanal distribuída por e-mail aos cadastrados e dedicada aos assuntos de interesse dos iniciados na Arte Real. Edição 529 31 de outubro de 2015 Serve este para informar que o décimo programa MÚSICA E MEMÓRIA EM UMA HORA, UMA VIAGEM AO PASSADO, que vai ao ar nesta quarta- feira, 04/11/2015, está 'SUPIMPA' como se dizia no tempo da brilhantina e do Gumex! Blues e afins como tema musical. Para o programa, já confirmaram presença Ray Charles, Louis Armstrong (irmão de fé), Wynton Marsalis, Nina Simone, Mahalia Jackson e, encerrando, Franz Liszt. Um programa produzido por mim, Aquilino Leal, e apresentado por Robson Granado. Ilustração para o livro Vikram e o vampiro, pelo Irmão Sir Richard Francis Burton. Leia sobre esse grande irmão em Grandes Iniciados.
  2. 2. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 2 ...................................................................................................................... PÁG. GRANDES INICIADOS....................................................................................3 SÍMBOLOS ......................................................................................................3 A POLÊMICA NA FOLHA ...............................................................................4 MEDITE............................................................................................................7 CONVERSA AO PÉ DO OLVIDO....................................................................8 COLUNA DO DIREITO ...................................................................................12 DICA................................................................................................................13 DOCUMENTOS E FOTOS ANTIGAS ............................................................16 EUREKA (TUREKA E NÓSREKA) ................................................................16 UNIVERSIDADE DAS RUAS .........................................................................18 ENQUETE INÚTIL ..........................................................................................20 MURAL............................................................................................................21 Nos anos de minha juventude, li alguns livros de alguém que era um total mistério para mim até então. O nome do autor, Sir Richard Francis Burton, inicialmente foi confundido por mim com o famoso ator inglês, que fora casado com Elizabeth Taylor, Richard Burton. Mas a leitura logo desfez o equívoco. Tratava-se de experiências fascinantes no oriente. Um de seus livros que muito me impressionou foi “Vikram e o vampiro”, a história de um espírito do mal que possuía e animava cadáveres. A história era uma velha lenda hindu escrita em sânscrito, precursora das “Mil e uma noites”. A lenda inspirou o “Asno de ouro” de Apuleio, o “Decameron” de Bocccacio, entre outros textos famosos. Duas descobertas foram muito estimulantes para mim, a de que Sir Richard Francis Burton estivera no Brasil e a de que ele foi maçom. Pensando bem, no século XIX, ser maçom era parte da formação de qualquer homem que se destacasse ou que desejasse ter em sua vida uma aura de mistério e poder. A leitura dos livros do Irmão Sir Richard Francis Burton é muito interessante. Nesta edição, ainda, temos uma versão da cisão de 1927 no Grande Oriente do Brasil, movimento que estimulou a criação das Grandes Lojas estaduais. Trata-se de uma abordagem histórica a partir do ponto de vista do GOB e como o contraditório estimula a busca do conhecimento, boa leitura. Tenham uma ótima semana. Robson Granado Colaboradores:  Aquilino R. Leal  Francisco Maciel  Gilberto Ferreira Pereira  Heitor Freire  José A. Argolo Editor: Robson Granado Registro Profissional MTb.: 21.195 Política editorial da Folha Maçônica A Folha Maçônica publica textos curtos sobre assuntos de interesse iniciático ou de cultura geral. A leitura na tela de um computador é desconfortável, se demorada. Acreditamos que nosso informativo tem maior chance de ser lido em função da brevidade dos textos que publicamos. O objetivo é sempre o enriquecimento espiritual dos leitores. Não fazemos campanhas de qualquer espécie, não usamos nosso espaço para atacar ou promover politicamente ninguém, não interferimos em assuntos internos de lojas ou Potências. Não aceitamos publicidade, mas divulgamos os eventos das Lojas ou Potências. Não apresentamos nossos princípios religiosos. Nos reservamos o direito de não publicar as colaborações que não se enquadrem na política editorial deste periódico. Questionamentos quanto ao conteúdo poderão ser ou não publicados. Visite nossa página online: Site para download das edições da Folha Maçônica: http://sdrv.ms/QobWqH
  3. 3. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 3 GRANDES INICIADOS Richard Francis Burton - Explorador, antropólogo, linguista e escritor da cidade de Torquay - Devonshire. Falava 25 idiomas. Foi o 1o. Europeu a descobrir o Lago Tanganika. Publicou 43 volumes de suas explorações. A primeira tradução de Kama Sutra e Arabian Nights, é de sua autoria. Fonte: http://www.lojasaopaulo43.com.br/ilustres.php#franca Das explorações e aventuras como agente e estudioso na Ásia e África aos escândalos e controvérsias que permearam sua vida, Burton é sem dúvida uma das personalidades mais extraordinárias e fascinantes do século XIX. Falava 29 idiomas e vários dialetos, sendo perito na arte do disfarce, o que lhe possibilitou em seus anos de militar na Índia e em Sindh viver entre os povos do Oriente, os quais registrou em uma série de livros. Estudou os usos e costumes de povos asiáticos e africanos, sendo pioneiro em estudos etnológicos. Viajou a cidade sagrada de Meca, mortalmente proibida a não muçulmanos, disfarçado de afegão, e também a Harar, capital da Somália, de onde nenhum outro homem branco havia saído com vida. Junto com John Haning Speke explorou a região dos Grandes Lagos africanos e descobriu o lago Tanganica. Serviu como cônsul em Fernando Pó, atual Bioko, Damasco, Santos e Trieste. Percorreu, também, o rio São Francisco, passando longo período em Minas Gerais e na Bahia. Traduziu uma versão não censurada de As mil e uma noites, acrescentando uma série de notas a respeito de pornografia, homossexualidade e sexualidade feminina. Sob o risco de ser preso, traduziu manuais eróticos, entre eles o Kama Sutra, e mandou imprimi-los. Sua postura liberal e interesses eruditos contribuíram para torná-lo uma figura polêmica e controversa na Inglaterra, pois despertou a fúria e o puritanismo vitoriano. Casou-se com Isabel Arundell, uma católica inglesa. Recebeu o título de Cavaleiro da rainha Vitória do Reino Unido em 1886. Faleceu na cidade de Trieste, onde recobria o cargo de cônsul britânico, em 1890. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Francis_Burton SÍMBOLOS Morte e iniciação Historicamente, as provas iniciáticas de morte e renascimento ofereciam a base do relacionamento dos humanos com o divino. Isto pode ser claramente visto naquele que é considerado o mais importante e amplamente conhecido dos Mistérios da Antiguidade — os Mistérios de Eleusis. Os Mistérios de Eleusis, como os ritos de iniciação chegaram a ser conhecidos, foram continuamente clebrados por quase dois mil anos (c.1500 a.C. – 400 d.C.) e vivenciados por dezenas de milhares de pessoas, incluindo figuras influentes como Platão, Aristóteles, Cícero, Epicteto, e Píndaro. As iniciações perduraram, certamente aplacando a sede das mentes e corações de muitos, até Theodosio I bani-las em um esforço para impor a recém nascida doutrina cristã como religião do Estado. Os ensinamentos transmitidos durante uma iniciação tinham a ver com o aspecto imortal dos Deuses e Deusas que se acreditava serem compartilhados por toda a humanidade. Desse modo, a parte imortal que agora chamamos “alma” ou “psiquê”, com a capacidade de sobreviver além dos limites da existência material, era tida como sendo a própria essência humana. Por ter algum tipo de natureza divina, a verdadeira morada da alma era nos mundos mais elevados e assim parecia estar confinada e aprisionada, incapaz de se expressar “embaixo” no mundo físico. Aprisionados na ilusão da matéria, os humanos poderiam esquecer de sua natureza imortal e perder a oportunidade de ampliar seu potencial oculto. A alma perante as limitações da existência física lamenta e sofre enquanto expressa a falta que lhe faz recuperar sua natureza transcendente. Fonte: http://living-flames.com/writings/deathinitiation/
  4. 4. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 4 A POLÊMICA NA FOLHA A história da cisão de 1927 - saiba detalhes Fato: Enquanto o ambiente político nacional estava agitado, no inicio da década de 20, diante da nova eleição presidencial e dos episódios que, supostamente, envolviam o candidato Arthur Bernardes, a situação do Grande Oriente do Brasil também não era tranquila, pois iniciava a década com uma nova cisão, provocada por uma eleição fraudulenta. Com a morte, a 28 de janeiro de 1921, do Grão-mestre Adjunto Luiz Soares Horta Barbosa, realizaram- se novas eleições, a 25 de abril daquele ano, para o preenchimento do cargo vago, quando se apresentaram duas candidaturas: a de Mário Marinho de Carvalho Behring e a do general José Maria Moreira Guimarães. Com o apoio de São Paulo, o general Moreira Guimarães obteve a maioria dos votos (2.770 contra 2.124 dados a Behring). Manipulando, todavia, os dados, a junta apuradora anulou votos de ambos os lados, mas principalmente os do general, de tal maneira que Mário Behring acabaria sendo eleito com 1.410 votos. Os elementos que ambicionavam o Grão-mestrado, estavam ligados ao Ministério da Justiça, então ocupado pelo Ir. João Luiz Alves, partidário da soma de forças maçônicas, pelo menos aparentemente, em torno do novo Presidente da República, cujo governo se iniciava. Numa antiga biografia do Ir. Everardo Dias - jornalista, escritor e líder de movimentos operários em São Paulo, nas décadas de 10 e 20 - o autor (desconhecido) e testemunha da Editoria, afirma: "Foi, então, elevado ao Grão-mestrado Geral da Ordem, Mário Behring, figura medíocre na Ordem, mas insinuante em conquistar posições, substituindo o general Cavalcante: Sendo amanuense da Biblioteca Nacional, conseguiu com o ministro João Luiz Alves, a aposentadoria do diretor da Biblioteca e sua nomeação, pelo presidente, para esse cargo importante e bem remunerado, prejudicando outros funcionários mais antigos e capacitados". Tendo ocorrido, nesse mesmo ano, o centenário do GOB, precedendo, de pouco, o centenário da independência, não houve, estranhamente, nenhuma festividade - houve, apenas, cunhagem de medalhas - embora já tivesse sido nomeada, em 1916, uma "comissão de festejos" do centenário e embora, para esse fim, tivesse sido aumentada a capacidade do Templo Nobre do Lavradio, com a construção de duas galerias laterais, que proporcionavam lugar a mais cento e vinte pessoas. No ano de 1924, o Grão-mestre Mário Behring comprometia o patrimônio do GOB, ao hipotecar o Palácio do Lavradio, para obter um empréstimo de 300:000$000 (trezentos contos de réis), com que pretendia construir um orfanato maçônico em terreno no Méier, no Rio de Janeiro, pertencente à Associação Mantenedora do Asilo Henrique Valadares, constituída a 9 de janeiro de 1904, sob os auspícios do GOB e aprovada pela Assembleia Geral, a 22 de setembro de 1904. Embora o GOB não fosse dono do terreno, o Grão-mestre lançou a pedra fundamental do orfanato a 16 de março do 1924; por desentendimentos com o construtor, com a obra quase pronta, em junho de 1925, o projeto inicial acabou sendo abandonado e o edifício teve diversas destinações, principalmente não maçônicas, convertendo-se numa dor de cabeça constante - pela irregularidade inicial - a qual duraria muitos anos, até à sua desapropriação, cerca de cinquenta anos depois de construído. Behring estava licenciado desde 21 de maio, mas reassumiu a 21 de junho, diante da celeuma provocada em torno da eleição para o Grão-mestrado, ocorrida a 20 de maio. Ocorre que Behring venceu Pedro Cunha, mas houve fraude, pois, das 315 Lojas, só 176 participaram da eleição e só 16 mostraram mapas eleitorais corretos assim, a Assembleia Geral, em Sessão extraordinária de 5 de junho admitia a vitória de Pedro Cunha. Diante do impasse, em nova Sessão, no dia 8 de junho, os três candidatos propõem, à Soberana Assembleia, a anulação do ato e a convocação de nova eleição. Behring, vendo sua reeleição em perigo, retornou, então, no dia 23, dissolvendo o Conselho Geral da Ordem. No dia 13 de julho, perante a Soberana Assembleia, ele renunciava ao cargo, diante das provas contundentes de manipulação da eleição. Assumiria, então, como Grão-mestre Interino, o Adj. Ir. Bernardino de Almeida Senna Campos, amigo e seguidor de Behring. Em Sessão especial da Assembleia Geral, a 21 de dezembro de 1925, para apuração da nova eleição das GGr Dignidades, realizada de 31 de agosto e 6 de setembro, nos termos do decreto no. 815, de 9 de junho, eram proclamados e reconhecidos os mais votados IIr Vicente Saraiva de Carvalho Neiva, para o cargo de Grão-Mestre e João Severiano da Fonseca Hermes para o cargo de Adj. O Ir. Carvalho Neiva recebera 3.179 votos, enquanto o Behring recebia apenas 117, num real julgamento plebiscitário. Apesar de renunciar ao cargo de Grão-mestre, Behring manteve o de Sob. Gr. Comend. do Supr Cons, contrariando o disposto na lei maior do GOB a qual previa a ocupação dos dois cargos pelo Grão-mestre, já que a Obediência era mista fato que fora totalmente aceita nos Congressos Internacionais de 1907, 1912 e 1922, sem implicar qualquer dúvida em torno da regularidade de GOB. Isso foi feito com a total conivência de Senna Campos. Nessa ocasião, Behring já começava a tramar a cisão que viria a ocorrer em 1927, pois tratara, a 11 de novembro de 1925, de registrar os estatutos de c embora já houvesse um registro do GOB - como Obediência mista - englobando o Supremo Conselho, feito por ocasião da promulgação da Constituição de 1907. Esse registro de 1925, portanto, era
  5. 5. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 5 totalmente nulo, mas serviria, posteriormente aos desígnios de Behring. A 18 de fevereiro de 1926, falecia o Grão-mestre Vicente Neiva, assumindo o Adj. Fonseca Hermes, com quem Behring assinaria um tratado, a 17 de junho de 1926, estabelecendo que no Rito Escocês Antigo e Aceito, os Graus Simbólicos ficariam com o GOB enquanto que os Altos Graus ficariam com o Supr. Conselho. A assinatura do tratado, por parte de Fonseca Hermes fora arbitrária, pois usara poderes que a Assembleia Geral concedera a Vicente Neiva. Por isso, a Assembleia revogou o tratado e insistiu com Fonseca Hermes, no sentido de que este o anulasse. Não concordando com a exigência e não suportando as pressões, Hermes licenciou-se do cargo, a 6 de junho de 1927, assumindo, então, o Adj., Octavio Kelly, que fora eleito para o cargo e empossado a 21 de março do mesmo ano. A primeira iniciativa de Octavio Kelly, no sentido de sanar a irregularidade, aconteceu através do decreto n. 859, de 21 de junho de 1927, que revogava, para todos os efeitos, o decreto n. 858, que Fonseca Hermes assinara a 23 de fevereiro, no sentido de transformar a Assembleia Geral em Constituinte, a ser Instalada a 24 de junho, para colocar a Constituição do GOB de acordo com o tratado celebrado com o Supr. Conselho. Behring, todavia, sabendo, antecipadamente, o que iria ocorrer, promoveu, no dia 17 de junho de 1927, fora do Lavradio - e, portanto, às escondidas - na Rua da Quitanda, n. 32, uma reunião extraordinária do Supr Cons, que contou com a presença de apenas treze membros efetivos e declarou a sua separação do GOB, sem ter esquecido, antes, de subtrair todos os papéis e documentos dos arquivos do Supr Cons, no Lavradio, transportando-os para a Rua da Constituição, n. 38, num flagrante delito maçônico, pois os papéis não lhe pertenciam. Defendendo a posição do Grão-mestre, Mário Bulhões diz que a situação era corolário de tudo o que vinha se passando desde 1921 e, principalmente, a partir de 1925, quando Behring renunciou ao Grão-mestrado, mas permaneceu como Soberano Gr. Comendador, a despeito da Constituição, em seu artigo 25, parágrafo 2°, dispor que o Grão-mestre era o Sob. Gr. Comend., outros Conselheiros também defenderam a integridade do GOB, porém, sem sucesso pois a coisa já estava consumada. Behring, pedindo a palavra, refere-se às eleições procedidas no Supr Cons desde 1921 e que se tornou necessário votar o tratado entre o Supr Cons e o GOB; e, considerando que vinha pedindo a reforma da Constituição, sem êxito, o Supr Cons deliberara, por unanimidade - (unanimidade de apenas 13 dos 33 membros?) - denunciar, à Confederação Internacional do Rito, a situação, e, consequentemente, o tratado de 1926. E termina por anunciar que se desliga do Conselho Geral. Behring, entretanto, já havia programado essa cisão, criando um substrato simbólico para o seu Supr Cons na figura de GGr LLoj Estaduais. A primeira delas, a da Bahia, já havia sido fundada a 22 de maio de 1927, recebendo, do Supr Cons a Carta Constitutiva n. 21; outras duas, fundadas logo depois de declarada a cisão, foram: a do Rio de Janeiro e a de São Paulo. Em sessão de 24 de junho, da Assembleia Geral, o Grão-mestre Fonseca Hermes, que se licenciara do cargo, a 6 de junho, renuncia a ele, entregando o comando, definitivamente, a Octavio Kelly. Este, numa inflamada mensagem, aplaudida, longamente, expunha a sua posição e a situação em que os dissidentes haviam deixado o Grande Oriente do Brasil: "Digníssimos IIr. Representantes do Povo Maçônico na Sob. Assembleia Geral. Em obediência ao exposto no art. 39, n. 12 da Constituição em vigor, cumpro o dever de dar-vos noticia, em breve relato, da minha curta gestão administrativa e dos assuntos que, durante ela, merecem exame e atenção. O germe da dissociação minava, fundo, o nosso organismo, de norte a sul e, mesmo no Poder Central, graves divergências mantinham em hostilidade e suspeita figuras de brilhante representação na Ordem, esquecidas dos nossos mais próximos interesses, na hora em que as paixões lhes acerbavam os espíritos. A difícil situação financeira, agravada pelo enfraquecimento das rendas do Grande Oriente, dia-a-dia ferido na sua grandeza de outrora, pela separação de Oficinas que adotavam os exageros de estranha e errônea concepção de um radicalismo impenitente, ou se insurgiam contra as exigências de sua aplicação imoderada e áspera, comprometida pelos fortes encargos que pesam sobre o nosso quase falido patrimônio, esgotado e sujeito a obrigações que sobem de trezentos e cinquenta contos de réis (ao débito contraído por Behring com a aventura do Orfanato Maçônico), favorecera se não estimulara, a criação de dissídios a que, de começo, me referi, para conjugar-se numa marcha macabra, com aspectos dissolventes da nossa antiga unidade e dos nossos velhos propósitos de harmonia e solidariedade, de progresso e de paz. [...] Aos que me inquiriam das providencias inadiáveis e medindo a extensão da minha responsabilidade, entendi, então, deveria francamente responder-lhes com a bandeira do respeito à Constituição. Se, dentro dela, a ordem não poderia alcançar sua finalidade e seus altos desígnios, a solução seria não desobedecer- lhe, mas corrigi-la, infiltrando-lhe nos textos os meios de remover as dificuldades prementes. Enquanto tal se não fizesse, o dever elementar de todos os corpos, sujeitos à superintendência da sua autoridade e dos seus poderes expressos, seria o de segui-la sob a fé dos seus juramentos e a de respeitá-la, para honra de seus compromissos.
  6. 6. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 6 Nesse impasse tormentoso, de queda em queda, como se um cataclismo pudesse envolver-nos a nós todos, o ambiente exigiu do espírito altamente conciliador do nosso II. e Pod. Gr. Mestre uma solução provisória da contenção ao movimento inicial que tinha por alvo o reconhecimento da independência do Supremo Conselho do Rito Escocês e, com o vosso referendum, firmou-se o tratado de 22 de outubro de 1926 - convenção de que não cogita a Constituição de 1907 – e que com esta colidia, subtraindo esse Alto Corpo Litúrgico aos deveres de subordinação administrativa ao Grande Oriente do Brasil [...] Devo, ainda, informar-vos que, em Sessão de 20 do corrente mês, tendo alguns PPod membros do Supr Cons do Rito Esc., também componentes do Cons. Ger. da Ord. declarado que aquele Alto Corpo Litúrgico deixava de pertencer à Confederação Maçônica que tinha como órgão diretor o Gr. Or. do Brasil, e, por isso, renunciado a seus cargos, nomeei, usando da atribuição conferida pelo art. 53 do Reg. Ger. da Ord., para substituí-los, os PPod e incansáveis Obreiros Francisco Prado e Agenor Augusto da Silva Moreira, para exercerem, interinamente, os cargos de Gr. Sec. e Gr. Tes. da Ord., e os dedicados IIr. Pedro da Cunha, Didono Agapito Fernandes da Veiga, Abel Waldeck, Carlos Castrioro Pinheiro e Anibal Medina Coeli Ribeiro, para completarem as vagas deixadas no Cons. Ger. pelos resignatários. Nesse propósito e para cumprir as leis maçônicas, aqui me encontrareis, IIr RRepres, sem tibieza nem tergiversações, sereno e decidido, disposto a dar à Ordem o máximo das minhas energias e a mais abundante messe dos meus esforços. No relatório apresentado pelo nosso prezado amigo e Pod Ir Grão-mestre efetivo encontrareis os dados complementares da exposição que ora vos faço. Sois dessa têmpera e, por isso, confio nas vossas luzes, na lealdade de vossas oficinas, no vosso concurso eficiente, no honesto empenho de ajudar-me nesse empreendimento, para que o Gr. Or. do Brasil continue a ser o pálio a cuja sombra terão que viver todos os Ritos da Maçonaria Universal, conjugados, fundidos e irmanados no desejo sincero de cultuar a Virtude ao serviço da Família, da Pátria e da Humanidade. Octávio Kelly 33. - Gr Mestre em exercício Conclusão: Sem os documentas básicos do Supr Cons, subtraídos por Behring, só a muito custo Octávio Kelly conseguiu reerguê-lo, no início de agosto de 1927. Para isso, a 18 de julho, pelo decreto n. 866 A, isentava do pagamento dos metais devidos os Obreiros que eram Investidos no 33° Grau, para a reconstituição do Supr Cons, diante das defecções havidas; isentava, também, os que fossem eleitos para funções que exigissem a colação nos mais Altos Graus dos diversos Ritos. No mesmo dia, ocorria uma Assembleia Ordinária do Supr Cons, com a presença dos Membros Efetivos Octavio Kelly, Virgilio Antonino de Carvalho, João Severiano da Fonseca Hermes, Ticiano Corregio Doemon, Cantidiano Gomes da Rosa e João de Sousa Laurindo; nessa ocasião, Octavio Kelly explica o motivo da reunião: a reconstituição do Supr Cons. A presença desses membros efetivos mostra que não houve defecção unânime e que, portanto, o legitimo Supr Cons permaneceu, nas pessoas desses membros. A 01 de agosto, com a eleição de novos membros efetivos, para os lugares deixados vagos pelos dissidentes, era reconstituído o Supremo Conselho. Finalmente, por ato de n. 864, de 13 de agosto de 1927, o Grão- mestre suspendia os direitos maçônicos de Mário Behring, Amaro Arthur Albuquerque e Amélio Dias de Moraes. Todavia, em 1929, Mario Behring se adiantaria e conseguiria que a 4a. Conferência Internacional de Supremos Conselhos, em Paris, impusesse, internacionalmente, a regularidade de seu Supremo Conselho dissidente. A 3 de agosto, o Supremo Conselho de Behring lançava um Manifesto às Oficinas Escocesas do Brasil e o Decreto n° 7 - que se tornaria famoso pela inusitada pretensão - que declarava, oficialmente, o GOB como Potência irregular no seio da Maçonaria Universal. O inusitado, no caso, é uma Obediência de Altos Graus de um Rito declarar irregular uma Obediência Simbólica. Apesar disso, Behring e seus seguidores não deixaram de cortejar a Grande Loja Unida da Inglaterra, no sentido de obter, dela, o reconhecimento para as suas Grandes Lojas, vendo, todavia, frustrados os seus intentos, em 1935, quando a Grande Loja Unida da Inglaterra assinou tratado de Aliança Fraternal com o GOB, o que é, na Maçonaria atual, o maior atestado de regularidade, pois afirma representar “uma intima e indissolúvel aliança entre as duas Potências.” Há dois detalhes que impressionam, nesse episódio da cisão: a cisão do Supremo Conselho, operado por Mário Behring, se deu no dia 17 de junho. Não foi, porém, realizado em SESSÃO regular no edifício do Lavradio e sim em uma REUNIÃO extraordinária, diz a ATA, realizada fora da sede do Lavradio, num escritório particular, presentes, com Mário Behring, 13 (treze!) Soberanos Grandes Inspetores Gerais (é bom lembrar que um Supremo Conselho se compõe de 33 membros). Outro detalhe: na sessão de 3 de agosto, os mesmos treze e na sessão de eleição para os cargos do Sacro Colégio e Comissões, em 1 de setembro, Mário Behring só reuniu, contando com ele, 15 (quinze) membros. Sempre um grupo reduzido. Assim, o que houve, de fato, em 17 de junho de 1927, foi uma cisão do tradicional Conselho do Rito Escocês fundado por Montezuma em 1832, que funcionava no Palácio Maçônico do Lavradio desde 1842 (quando o Grande Oriente inaugurou o imóvel) e que formalizara em 1864 uma união com a Potência Simbólica, criando-se uma Potência Mista, como ocorria então em vários países. Hoje existe no Rio de Janeiro, dois Supremos Conselhos: o Supremo Conselho de Mário Behring (sediado em Jacarepaguá), que é o dissidente e o Supremo Conselho de Montezuma (sediado em São Cristóvão - GOB), que é o preexistente, e que tem a legitimidade, isto é, a autenticidade. José Castellani “A vida não tem uma cor só, nem o poema um só leitor; cada página tem o seu momento.” (Decimus Magnus Ausonius [cerca de 310-395] poeta latino da Gália) Pelo M.·. I.·. Aquilino R. Leal, Fundador Honorário da Aug.·. e Resp.·. Loj.·. Maç.·. Stanislas de Guaita 165
  7. 7. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 7 MEDITE Dez atitudes sociocriativas Inteligência sociocriativa é a capacidade de utilizar nossos potenciais criativos de forma sistêmica para criar juntos uma mudança desejada. O termo “sistêmico” refere-se a compreender um problema ou situação pensando o todo em relação às partes envolvidas e pensando cada parte em relação às demais e ao todo. Ou seja, no sentido contrário de um mundo onde diferentes “verdades” políticas e culturais entram em conflito e geram cada vez mais violência e exclusão, a inteligência sociocriativa propõe a conexão da diversidade de olhares e pensamentos, inclusive opostos, para criar realidades mais inclusivas e sustentáveis. Há muitas formas de ser sociocriativo. Sem querer propor uma cartilha, reuni 10 dicas, pensadas a partir de meus aprendizados pessoais, convivendo com empreendedores culturais, criativos e sociais de norte a sul do Brasil. Atitudes muito simples que podem fazer uma enorme diferença para mudar essas realidades observadas e narradas ao nosso redor e que tanto nos têm angustiado. 1. Ame. Alimente e siga seus desejos criativos. Deixe-se ”inflamar” por eles. Ânimo, do latim animus, significa “sopro de vida”, alma. Pense no que anima você, no que coloca você ou seu grupo em movimento, naquelas coisas que fazem verdadeiramente sentido colocar energia porque produzem em você uma inexplicável sensação de plenitude. O que você cria com prazer? O que cria você? Músicas? Tecnologias? Cidades? Relações? Processos? Ambientes? Ideias? 2. Estude seu viver, observe sua deriva. Cada passo dado, situação vivida, reação sua e, principalmente, cada nova forma de pensar que surgiu entre um aprendizado e outro. Empreender é aprender. Sua experiência de vida é o nutriente da sua imaginação. Observe seus processos e o jeito como a vida vai lhe ensinando a ser feliz. Aceite crises. Evite julgar. Aprenda a escolher o que deve ser conservado. Ajuste o que for preciso para sentir-se cada vez mais em harmonia e no melhor proveito de seus potenciais. 3. Acredite em um mundo melhor, tenha e compartilhe propósitos. Seja empático, otimista, não fuja das utopias. Desaprenda a odiar, o ódio é paralisante. Sonhe e seja um intérprete-criador da realidade ao seu redor. Como disse George Bernard Shaw: “Imaginar é o princípio da criação. Nós imaginamos o que desejamos, queremos o que imaginamos e, finalmente, criamos aquilo que queremos.” 4. Polinize e deixe-se polinizar. Compartilhe conhecimento. Interconecte-se. Seus desejos, suas ideias e sua experiência, ao entrar em contato com as de outras pessoas, criam novas possibilidades, mais inclusivas e sustentáveis. Aprenda a ouvir e a transformar conflitos em sabedoria. Você e suas convicções são apenas uma pequeníssima parte de um todo, validar o olhar do outro é sempre uma atitude inteligente. 5. Observe e compreenda o mundo e a vida de forma interdisciplinar. Pense além do modelo binário e fragmentário que geralmente utilizamos no cotidiano. Aprendemos que há uma disciplina para solucionar cada tipo de problema, mas não a pensar as inter-relações entre elas. Tendemos a ponderar a partir de uma lógica “ou/ou”. Ou certo ou errado, ou amigo ou inimigo, ou idealista ou prático etc. Este modelo mental é o mesmo que gera impasses como “sucesso comercial ou rigor artístico” e “viabilidade econômica ou sustentabilidade socioambiental”. Tente pensar mais complexo, com mais lógicas “e/e”, apoiadas em mais disciplinas do conhecimento, expandindo a compreensão dos fatos, descobrindo novos fenômenos e novas possibilidades de conciliação. O projeto pode e deve ser economicamente viável, artisticamente consistente, culturalmente legítimo, democrático, não-violento, tecnológico, humano, uma relação não exclui a outra. 6. Pense dinergeticamente. Os opostos fazem parte de um mesmo sistema, busque harmonia entre eles. Entre o valor feminino e a atitude masculina. Entre resiliência e força realizadora. Entre o que pode e não pode controlar. Entre seu ecossistema interior e o meio ambiente. Entre o que você já viveu e o que você sonha viver. Entre o que realiza você e os efeitos que você pode gerar no mundo. A sociocriatividade brota no equilíbrio. 7. Encontre sua fractalidade, padrões do novo que você deseja produzir lá fora, mas em você mesmo e dentro de sua casa, de seu projeto. Se deseja democracia, crie mecanismos para que todos se expressem e participem em suas iniciativas. Se busca diversidade, aceite as distintas formas de pensar dentro do seu próprio quintal. Se quer justiça social, respeite os direitos de seus parceiros. Se quer ser ético, respeite seu pior inimigo. Obtenha tecnologias para colocar valores em prática. 8. Pesquise jeitos de realizar, rackeie técnicas, invente suas próprias metodologias. O método é o caminho para alcançar um propósito. “O instrumento que você precisa para “aterrar” seus sonhos e fruir seus sentidos no universo do possível. Suficientemente estruturado para permitir o controle dos recursos e o alcance dos propósitos,
  8. 8. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 8 suficientemente aberto para surfar no acaso da vida, polinizar e aprender. A inovação encontra-se mais nos métodos do que nas ideias. Sem métodos, nenhuma boa ideia é capaz de produzir o novo. 9. Erre. Sem erro não há aprendizado. Administre riscos e frustrações que podem exaurir sua energia empreendedora e vá em frente. Repense sempre seus modelos de sucesso. O mais importante é o conhecimento que você produz a cada nova tentativa. 10. Mantenha a roda da vida girando. Se você não der o primeiro passo, nada, nunca, vai acontecer. *André Martinez em seu curso Inovação em Projetos Culturais. Tags: andré Martinez Pela transcrição: Heitor Freire Ir.·. Heitor Freire – Past Grão-Mestre (GLEMS) - Obreiro da Aug.·. e Resp.·. Loja Simbólica Amor e Caridade nº 65 CONVERSA AO PÉ DO OLVIDO O Big Brother do Grande Irmão Fala-se muito da solidão do poder. Parece que estar no topo da cadeia alimentar do poder é se descobrir Robinson Crusoe numa ilha imaginária, um astronauta perdido em Marte. Alguns desses solitários escrevem diários, que são garrafas lançadas no mar de tempestades do momento para contatos nada imediatos nem tranquilos com a posteridade. Getulio Vargas escreveu um diário de 3 de outubro de 1930 a 30 de abril de 1942. “A minha sorte não me interessa e sim a responsabilidade de um ato que decide o destino da coletividade.” (3/10/30) – “Eu fico só trabalhando. Não me queixo nem maldigo a sorte. Sorrio apenas dos que supõem que este posto seja um gozo, e eu esteja aqui para servir-me e não para servir.” No dia 3 de outubro de 1930 ele registra: “Como se torna revolucionário um governo cuja função é manter a ordem? E se perdermos? Eu serei depois apontado como o responsável, por desfeito, por ambição, quem sabe? Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso.” No dia 11 de novembro do mesmo ano ele repisa: “Quantas vezes desejei a morte como solução da vida. E, afinal, depois de humilhar-me e quase suplicar para que os outros nada sofressem, sentindo que tudo era inútil, decidi-me pela revolução, eu, o mais pacífico dos homens, decidido a morrer.” Quase 24 anos depois, ele escreverá em sua carta-testamento: “Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.” Esse “sacrifício da vida” e esse “a morte como solução da vida” soam como premonição, como resolução e coerência; mas juntar essas duas pontas – a ascensão e a queda; a morte imaginada e a morte real – e dar um nó, isso é tarefa para biógrafos como o jornalista e escritor Lira Neto, autor de uma premiadíssima trilogia, lançada pela Companhia das Letras, sobre o “pai dos pobres” [e “mãe dos ricos”, acrescentam seus opositores], baseada nos diários íntimos, cartas pessoais, memorandos oficiais, autos judiciais, boletins de ocorrência, notícias de jornal, anúncios de publicidade, charges, hinos, marchinhas, livros de memórias, entrevistas, depoimentos. É um trabalho de garimpeiro. É procurar agulha em palheiro. Elio Gaspari, autor de As ilusões armadas (A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada) e O sacerdote e o feiticeiro (A Ditadura Derrotada, A Ditadura Encurralada), todos publicados pela Companhia das Letras, conta: “Em agosto de 1984 terminara o prazo de uma bolsa que recebi do Wilson Center for International Scholars. Durante três meses tive uma sala naquele castelinho vermelho da esplanada de Washington, com a biblioteca do Congresso à disposição e os quadros da National Gallery à distância de uma caminhada. Minha idéia tinha sido usar paz e tempo para concluir um ensaio, coisa de cem páginas, intitulado ‘Geisel e Golbery, o Sacerdote e o Feiticeiro’. O propósito era simples: tratava-se de explicar por que os generais Ernesto Geisel (o Sacerdote) e Golbery do Couto e Silva (o Feiticeiro), tendo ajudado a construir a ditadura entre 1964 e 1967, desmontaram-na entre 1974 e 1979. Já havia escrito umas trinta páginas quando percebi que sua única utilidade era a de me mostrar que, ou eu trabalhava muito mais, ou era melhor esquecer o assunto.”
  9. 9. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 9 E segue em frente: “De volta ao Brasil, comecei a recolher material e a aprofundar algumas entrevistas. Falava com Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, secretário de ambos. Em diversas ocasiões perguntei a Golbery se ele tinha um arquivo, e ele sempre negou. Um dia, em 1985, a sorte levou mofo à garagem do sítio de Golbery, nos arredores de Brasília. Lá estavam guardadas algo como 25 caixas de arquivo morto, cheias de papéis. Ele e Heitor resolveram confiar-me sua custódia temporária. Era verdade que Golbery não tinha arquivo, mas também era verdade que passara a Heitor milhares de documentos, bilhetes e até rabiscos. Heitor, por sua vez, sempre tinha uma daquelas caixas debaixo de sua mesa, no palácio do Planalto, e nela ia atirando papéis. Assim, numa pilha onde está uma lista de diplomatas que deveriam ser cassados em 1964, está também uma folha de bloco com os tópicos do que deve ter sido uma conversa telefônica entre João Goulart e o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, às 10h05 do dia 5 de setembro de 1961, no fragor da crise provocada pela renúncia de Jânio Quadros. Intocadas, essas caixas foram-me entregues. Formam um acervo de 5 mil documentos cuja denominação correta deve ser Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva e Heitor Ferreira (APGCS/HF), visto que nele se misturaram documentos de um e de outro. Durante o governo de Geisel, Heitor organizou o arquivo do presidente. Em 1981, remeteu-lhe todos os papéis. Em 1998, atendendo a um desejo do pai, Amália Lucy Geisel doou-os ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC), da Fundação Getulio Vargas, onde somam atualmente 4 mil documentos textuais.” Gaspari e Golbery: “Este livro não existiria sem a decisão de Golbery de entregar-me seu arquivo e sem a paciente colaboração de Ernesto Geisel. Convivi com ambos. Com Golbery, de 1969 até sua morte, em São Paulo, em setembro de 87. Sua ajuda prolongou-se até as horas anteriores à cirurgia de câncer de pulmão depois da qual não retornaria à sua casa de Brasília. No quarto do hospital Sírio Libanês contou-me mais uma vez a queda do ministro do Exército, Sylvio Frota, em outubro de 1977. Quando lhe perguntei se era verdade que alguns coronéis apareceram no quartel-general em roupa de campanha, respondeu: ‘É, parece que houve um pessoal que se fantasiou’. Lastimava não ler o livro para o qual contribuíra. Nunca pediu para ver os capítulos já escritos.” Gaspari e Geisel: “Com Geisel, tive dezenas de demoradas e profícuas conversas a partir de 1979, quase sempre numa mesa de canto do falecido restaurante Rio’s, no Aterro do Flamengo. Em 1994, depois de quinze anos de insistência, ele concordou em gravar um depoimento de sua vida. Realizamos perto de vinte sessões, sempre às terças-feiras, na sala de seu apartamento de Ipanema, todas com duração de noventa minutos. Interrompeu-as quando adoeceu, no início de 1996. Pelo trato, as fitas ficavam em seu poder, para que lhes desse o destino que bem entendesse. Depois da morte do pai, Amália Lucy Geisel gentilmente enviou-me doze fitas que encontrou num armário de sua casa.” Gaspari e Heitor Ferreira: “Tão relevante quanto a ajuda de Geisel e Golbery foi a de Heitor Aquino Ferreira. Mais que isso: devo-lhe o reconhecimento de uma coautoria naquilo que um livro pode ser consequência do acesso a documentos e à memória de um período. Uma amizade de quase trinta anos acompanhou a sua atenção e prestimosidade. Heitor foi secretário de Golbery de 1964 a 1967 e de Geisel de 71 a 79. Catapultado como capitão, aos 27 anos, para o centro do poder, manteve por mais de duas décadas um diário manuscrito que em 1985 somava dezessete cadernos escolares com cerca de meio milhão de palavras, suficiente para formar uma obra de 1500 páginas. Deu-me cópias do período que vai de 1964 a 1976. Daí em diante, forneceu-me excertos e deu-me vista em outros casos. Naqueles cadernos, parcialmente lidos por Geisel, está o mais minucioso e surpreendente retrato do poder já feito em toda a história do Brasil.” “Somam cerca de duzentas as pessoas com as quais busquei informações ao longo de dezoito anos”, conta Gaspari. E reafirma: “Em nenhum momento passou pela minha cabeça escrever uma história da ditadura. Falta ao trabalho a abrangência que o assunto exige, e há nele uma preponderância de dois personagens (Geisel e Golbery) que não corresponde ao peso histórico que tiveram nos 21anos de regime militar. O que eu queria contar era a história do estratagema que marcou suas vidas. Fizeram a ditadura e acabaram com ela.” A tetralogia de Gaspari pode ser lida como um romance, e romance dos bons, goste-se ou não dos personagens e de suas circunstâncias. [Seria interessante uma futura conversa tendo apenas como foco as ilusões armadas, o sacerdote e o feiticeiro.] Num pé de página, abordando a intervenção americana na política brasileira, Gaspari informa: “Entre 1940 e 1973 todos os presidentes americanos gravaram conversas que tiveram na Casa Branca. Alguns, como Franklin Roosevelt e Harry Truman, fizeram poucos registros. Kennedy foi o primeiro a gravá-las extensivamente. Entre julho de 1962 e sua morte, em outubro de 63, deixou pelo menos 248 horas de reuniões e doze de conversas telefônicas.” Essas gravações foram publicadas em 2008 e no prefácio a elas, Philip Zelkikow e Ernest May escrevem: “Estes três volumes das Gravações Presidenciais da série do Miller Center cobrem os três meses depois que Kennedy primeiro começou a gravar as reuniões. Antes e depois de tornar-se presidente, Kennedy tinha feito uso de um equipamento de gravação chamado Dictaphone, mais para ditar cartas ou notas. No verão de 1962, ele pediu ao agente do Serviço Secreto Robert Bouck para esconder os aparelhos de gravação na Sala do Gabinete, no Gabinete Oval e na
  10. 10. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 10 biblioteca da Mansão. Sem explicar a razão, Boucker conseguiu gravadores de fita de carretel Tandberg, consideradas máquinas de alta qualidade para a época, do Signal Corps do Exército dos Estados Unidos. (...) Tais equipamentos eram ativados por interruptor no lugar do Presidente na mesa do Cabinet Room, facilmente confundido por um botão de campainha. Dos microfones do Oval Office, um estava à altura do joelho embaixo da mesa do presidente, e o outro escondido numa mesa de café situada em frete dela. Cada um podia ser ligado ou desligado com um simples pressionar de dedos sobre um botão encoberto.” Em agosto de 2013, foram divulgadas pela Biblioteca Presidencial Nixon as últimas gravações de conversas secretas do ex-presidente Richard Nixon durante seu período na Casa Branca. Trata-se de um total de 94 fitas com mais de 340 horas de áudio que cobrem um período que vai desde 9 de abril de 1973 até 12 de julho desse mesmo ano e nas quais se escuta o líder falando sobre temas que vão desde a situação no Vietnã, as relações com a União Soviética e o caso Watergate. Descoberto pelo jornal The Washington Post, Watergate revelou o roubo de informação confidencial na sede do Comitê Nacional Democrata para ser utilizado pela campanha de reeleição de Nixon, que veio a ser o único presidente americano a renunciar ao cargo, em 1974. Nixon faz comentários nada agradáveis sobre irlandeses e italianos (“Os irlandeses não podem beber. Praticamente todos os que conheço ficam agressivos quando bebem. Os italianos, claro, não regulam bem da cabeça, são pessoas maravilhosas, mas...”), judeus ("têm uma personalidade agressiva, dura e detestável”; “a maior parte dos judeus são inseguros e é por isso que estão sempre a tentar provar coisas”). Numa conversa com a sua secretária pessoal, Rose Mary Woods, ele discordava de uma opinião do secretário de Estado William Rogers sobre os negros: “Diz que estão a evoluir e que vão ser importantes para o país porque são fisicamente fortes e alguns inteligentes. Acredito que tenha razão se falarmos num prazo de 500 anos, mas engana-se se disser que isso acontecerá nos próximos 50 anos”. Nixon errou o Obama que, aliás, andou gravando filmando grampeando meio mundo e meio. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi rápido no gatilho ao publicar neste ano as experiências que contou a um pequeno gravador entre 1995 e 2002. Em entrevista ao Fantástico, ele revelou que gravou o diário em áudio, por sugestão de uma amiga. A transcrição dessas gravações virou o livro, Diários da Presidência, editado pela Companhia das Letras, cujo primeiro volume chegou às livrarias em 29 de outubro. “A essa altura da vida, revelação é o quê? É o que aconteceu. Pelo menos como eu percebi o que aconteceu”, disse ao programa. Os registros orais de FHC foram transcritos por Danielle Ardaillon, curadora do acervo da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso, revistos pelo autor e pela editora, e serão organizados em quatro volumes bianuais (1995-6; 1997-8; 1999-2000; 2001-2). Os dois primeiros anos compreendem quase noventa horas de gravação, decupadas a partir de 44 fitas cassete, que renderam mais de novecentas páginas. No prefácio, FHC avisa que “amenizou alguns qualificativos” porque, segundo ele, no momento usou palavras que não são as mais adequadas. E justifica a publicação em vida de diários que deveriam ser póstumos: “Talvez porque quisesse desfrutar do prazer e dos incômodos de ver as reações, talvez porque ache que passados mais de doze anos do exercício da Presidência não justifique deixar trancadas não diria informações (quase todas são conhecidas) mas descrições e visões de como se desenrola o processo de governar”. Numa entrevista à revista Veja (28.10.15) afirmou: “Ele (o poder) é solitário nos momentos de crise, nos mais difíceis. Você pode estar cercado de gente, mas é solitário, porque a decisão tem de ser sua. Tem de ter a capacidade de resistir sozinho, tem de se conter muito. Não é uma função banal”. E disse ainda: “Quem entra para a vida política tem de ter muita firmeza interior. Quando você entra para a política, você é responsável pelos seus atos. Fiz com boa intenção, não roubei, não censurei, não protegi, não persegui. O julgamento da história vai se formando, e ele muda”. E disse mais: “Se você é um homem político, mais do que de partido, de Estado, tem de entender que é responsável pelas consequências dos seus atos, que você tem de fazer com que as coisas aconteçam. Não são as suas verdades íntimas, não é a sua convicção, a sua ética pessoal. Qual é o efeito que você conseguiu para a sociedade, a despeito de ela ser como ela é. Ela tem interesses. Se você não é um homem de Estado, um homem político, pode simplesmente não lidar com os interesses, levar uma vida virtuosa. A virtude do político não é pessoal, é a virtude de colocar um objetivo que seja aceito democraticamente e fazer com que ele aconteça. Isso tem um preço, e esse preço muitas vezes contaria o que você gostaria de fazer. Mas, se você não fizer, a realidade é triste”. Na sua trajetória, FHC se viu “cercado de corvos buscando o fedor da carniça que exala de sua própria consciência”. A leitura dos seus diários não dará o mesmo prazer do texto de Elio Gaspari, mas pelo menos ele teve a coragem (ou vaidade? ou cálculo político? ou selfie midiática? ou vontade de aparecer? ou cara de pau? – há munição para um intenso tiroteio) de se apresentar, vivo, como um objeto de estudo, diante do “julgamento da história” - e só a História irá dizer se ele, FHC, foi um estadista ou não.
  11. 11. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 11 Quanto às pressões impressões maquinações do poder, nada mais revelador que a leitura de um texto publicado na Folha de S. Paulo de 03.11.11 pela jornalista Eliane Cantanhêde: “Itamar Franco foi o ousado e divertido protagonista de um gesto político antológico deste quarto de século desde a redemocratização. Um gesto exemplar. Presidente por um desses acasos da vida e da política, num momento em que os brasileiros tentavam dividir o mundo entre ‘os bons’ e ‘os maus’ pelo ângulo da ética, Itamar chamou o então senador Antonio Carlos Magalhães em palácio. Queria explicações para o que ele dizia em público contra a honra do ministro Jutahy Magalhães, amigo pessoal de Itamar e inimigo político do lendário ACM na Bahia. ACM estufou o peito, pôs um bojudo ‘dossiê’ debaixo do braço e lá se foi para o Planalto, pronto para acabar com a carreira política de Jutahy. Abriram-se as portas para a multidão de fotógrafos, espocaram os flashes. E Itamar: ‘Pode continuar!’. ACM, subitamente desnorteado: ‘Mas com eles aqui?’. Sim, com toda a imprensa ali, para expor de vez a tática maliciosa de ACM contra adversários e salvar não apenas a carreira, como a honra e a imagem pública de Jutahy. Não deu outra. A montanha pariu um rato. Aberto o tal ‘dossiê’, o que havia era um punhado de papéis inúteis e cópias de reportagens da imprensa carlista da Bahia.” [Itamar e ACM ganharam biografias.] A imprensa, o quarto poder, “a voz dos sem vozes...” De qualquer forma, até mesmo a luz direta não ilumina todo o poder; a própria luz produz sombras. O poder sempre terá os seus podres. Assim, vale tentar uma virada radical nesse jogo de cartas marcadas. Está lá no 1984, de George Orwell (São Paulo: Companhia Editora Nacional, tradução de Wilson Velloso): “Winston encaminhou-se para a escada. Inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a eletricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha de economia, preparatória da Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada acima do tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da portado elevador, o cartaz da cara enorme o fitava da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte. O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI, dizia a legenda. Dentro do apartamento uma voz sonora lia uma lista de cifras relacionadas com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica retangular semelhante a um espelho fosco, embutido na parede direita. Winston torceu um comutador e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. (...) A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Qualquer barulho que Winston fizesse, mais alto que um cochicho, seria captado pelo aparelho; além do mais, enquanto permanecesse no campo de visão da placa metálica, poderia ser visto também. Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que frequência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Era concebível, mesmo, que observasse todo mundo ao mesmo tempo. A realidade é que podia ligar determinada linha, no momento que desejasse. Tinha-se que viver - e vivia-se por hábito transformado em instinto na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro.” Além de sua vigilância panótica, dos seus marqueteiros proclamando GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É FORÇA (a apoteose do duplipensar, da dupla consciência sem o contraditório), o Grande Irmão tinha apenas quatro Ministérios, que entre si dividiam todas as funções do governo: “o Ministério da Verdade, que se ocupava das notícias, diversões, instrução e belas artes; o Ministério da Paz, que se ocupava da guerra; o Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem; e o Ministério da Fartura, que acudia às atividades econômicas. Seus nomes, em Novilíngua: Miniver, Minipaz, Miniamo e Minifarto.” Por que não inverter esse jogo? Instaurar um Big Brother do Big Brother? Dizer ao Grande Irmão: Sorria, você está sendo filmado! Lembrar ao Grande Irmão: Você é meu representante. Lembrar mais fundo ao Grande Irmão: Você é meu empregado e está temporariamente a meu serviço! E, presta atenção: se o poder é um teatro, você não é ator de si mesmo, você é coisa pública, nosso representante, nós somos os autores da peça, nós somos o teu Shakespeare, teu Nelson Rodrigues, teu Dias Gomes, você é o nosso cúmplice canalha cafajeste vira-lata escolhido a dedo, você é nosso devoto branco nulo zulu, o nosso pagador de promessas! Ou citando Hannah Arendt (Da Violência. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1985, tradução de Maria Claudia Drummond): “É o apoio do povo que confere poder às instituições de um país, e esse apoio nada mais é que a continuação do consentimento que deu origem às normas legais. De acordo com o governo representativo, é o povo que detém o poder sobre aqueles que o governam. Todas as instituições políticas são manifestações e materializações do poder; estratificam-se e deterioram-se logo que o poder vivo do povo cessa de apóia-las.” Mais: “O ‘poder’ corresponde à habilidade humana de não apenas agir, mas de agir em uníssono, em comum acordo. O poder jamais é propriedade de um indivíduo; pertence ele a um grupo e existe apenas enquanto o grupo se mantiver unido. Quando dizemos que alguém está ‘no poder’ estamos na realidade nos referindo ao fato de encontrar-se esta pessoa investida de poder, por um certo
  12. 12. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 12 número de pessoas, para atuar em seu nome. No momento em que o grupo, de onde originara-se o poder (potestas in populo, sem um povo ou um grupo não há poder), desaparece, ‘o seu poder’ também desaparece.” [E não importa, aqui entre nós, que o povo seja uma ilusão, uma emanação, uma filosofia sociologia distopia, um socialismo utópico, uma massa de manobra, um exército de reservistas redundantes, enfim, que se perceba, aqui, numa esforçada tese que pode ser acusada de fisiologismo, o povo são as células cidadãs do corpo soberano da nação... É o menu do momento. E dá para ouvir daqui o brado retumbante do cangaceiro Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol: “Mais fortes são os poderes do povo!”] Rumo ao projeto final: todas as reuniões presidenciais seriam gravadas ao vivo, com acesso direto do cidadão eleitor. As decisões e indecisões, as mais e as menos importantes, deveriam ser transmitidas para todas as telas (TVs, computadores, celulares) e mostradas em telões nas praças públicas, nas margens das rodovias, nos mares, nos rios, nas montanhas. Teletelas em cada canto e recanto da pátria! Com isso estaria decretado o fim de todos os segredos e sigilos, inclusive os bancários e orçamentários, do poderoso senhor sentado no trono. Esse gesto levaria ao limite da transparência absoluta a constatação de que homens (e mulheres) públicos não têm vida privada enquanto estiverem cumprindo o seu mandato, contribuindo, quem sabe, para o fim das reeleições continuadas, das tentativas de perpetuação no cargo, da ganância de nunca largar o osso. E, como efeito colateral, concorrendo para acabar de uma vez por todas com a tal solidão do poder. Estão lançados os dados. Nessa hora é preciso lembrar do positivista Auguste Comte: “Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados pelos mortos”, e, rindo, discordar dele com o Barão de Itararé: “Os vivos são cada vez mais governados pelos muito vivos”. Um bom Dia de Finados. Podres poderes: https://www.youtube.com/watch?v=2cwR2-h9Dv4 1984: https://www.youtube.com/watch?v=6yQH5KeyXOU O pagador de promessas: https://www.youtube.com/watch?v=CgVKYRyAnIU Frost/Nixon: https://www.youtube.com/watch?v=Qh5ZvdBd7FU Estado de sítio: https://www.youtube.com/watch?v=kW3OmH5g0N4 Pra frente Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=pERQg9Vk41U Líder solidão: https://www.youtube.com/watch?v=ejsa6UQKYO8 Positivismo: http://www.vagalume.com.br/noel-rosa/positivismo.html Coluna assinada pelo Ir.·. Francisco Maciel, membro da Aug.·. e Resp.·. Loj.·. Maç.·. D’Artagnan Dias Filho 148 – GLMERJ COLUNA DO DIREITO Arrependimento posterior e crime impossivel 1 – Arrependimento Posterior Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. 2 – Crime Impossível Ligada ao assunto da tentativa encontra-se a teoria do crime impossível. Não se pune a tentativa, quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime.
  13. 13. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 13 Exemplos de ineficácia absoluta do meio: ministrar açúcar, pensando tratar-se de arsênico; tentar disparar revólver totalmente imprestável. Exemplo de impropriedade absoluta do objeto: atirar num cadáver, pensando tratar-se de pessoa viva; manobras abortivas em mulher não grávida. Coluna assinada pelo Ir.·. Gilberto F. Pereira, Fundador da Aug.·. e Resp.·. Loj.·. Maç.·. Stanislas de Guaita 165 DICA Datas comemorativas Colaboração do Irmão Marcelo Castelo Branco, da Loja Maçônica Comendador Affif Georges Farah nº 135 - GLMERJ 01 de Novembro Dia de Todos os Santos 02 de Novembro Dia de Finados 03 de Novembro Dia do Cabeleireiro Instituição do Direito e Voto da Mulher (1930) 04 de Novembro Dia do Inventor 05 de Novembro Dia da Ciência e Cultura Dia do Cinema Brasileiro Dia do Radioamador e Técnico em Eletrônica Dia Nacional do Designer 06 de Novembro Dia Nacional do Amigo da Marinha do Brasil Dia Nacional do Riso 07 de Novembro Dia do Radialista http://www.datascomemorativas.me/2015/outubro#sth ash.ApZx8KXH.dpuf Fontes: http://www.brasilescola.com/datas- comemorativas/dia-natureza.htm http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/pw dtcomemorativas/default.php?reg=1&p_secao=18 Novembro na história 01 de Novembro 1512 - As pinturas de Michelangelo no teto da Capela Sistina são exibidas ao público pela primeira vez. 1604 - O autor teatral inglês William Shakespeare apresenta pela primeira vez ao público uma de suas tragédias: Otelo. 1860 - Abraham Lincoln é eleito presidente dos Estados Unidos. 1922 - Morre, no Rio de Janeiro, o escritor brasileiro Lima Barreto, autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. 1960 - John F. Kennedy vence Richard Nixon nas eleições presidenciais norte-americanas. 1962 - A URSS lança a primeira nave espacial com destino a Marte. 1964 - O Muro de Berlim, construído em 1961, é aberto para a passagem de pessoas acima de 65 anos. 1979 - O presidente João Figueiredo regulamenta a Lei de Anistia. 1992 - Retorna à Terra a nave norte-americana Columbia com seis astronautas.
  14. 14. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 14 1993 - Entra em vigor o Tratado de Maastricht, que estabelece união monetária, econômica e política da Europa. 1995 - O Congresso nacional africano, do presidente Nelson Mandela, vence com 58% dos votos as primeiras eleições municipais multirraciais da África do Sul. 1997 - O presídio de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, desativado em 1993, virou um dos maiores centros de pesquisa ambiental da América Latina. 02 de Novembro 1470 - Nasce Eduardo V de Inglaterra. 1907 - Rudyard Kipling recebe o prêmio Nobel de Literatura. 1917 - O governo britânico, através da Declaração Balfour, promete aos judeus um lar nacional na Palestina. 1920 - A KDKA, de Pittsburg vai ao ar como a primeira rádio comercial do mundo. 1948 - Contrariando todas as pesquisas eleitorais, o democrata Harry Truman é reeleito presidente dos Estados Unidos. 1955 - Os norte-americanos Carlton-Schwerdt e Schaffer conseguem visualizar de forma nítida o vírus que causa a poliomelite. 1960 - Bélgica, Holanda e Luxemburgo assinam o Tratado de Benelux, abolindo barreiras alfandegárias entre os três países. 1976 - O democrata Jimmy Carter é eleito presidente dos Estados Unidos com 50,1% dos votos. 03 de Novembro 1507 - Leonardo Da Vinci é contratado para pintar o quadro futuramente conhecido como a Mona Lisa. 1534 - O parlamento inglês nomeia o rei Henrique VIII líder da Igreja inglesa, um título que pertencia ao Papa. 1615 - Portugueses expulsam os franceses do Maranhão 1907 - Fundado no Rio de Janeiro o Hospital Souza Aguiar, considerado o maior pronto socorro da América latina. 1930 - Getúlio Vargas é empossado como chefe do governo provisório pela junta militar que depós o Presidente Washington Luís. 1936 - Os republicanos obtém a maioria no Congresso dos Estados Unidos e o democrata Franklin Roosevelt é reeleito para a presidência. 1954 - Linus Pauling obtém o prêmio Nobel de Química. 1955 - O presidente brasileiro Café Filho sofre um distúrbio cardiovascular e é substituído por Carlos Coimbra da Luz, presidente da Câmara dos Deputados. 1957 - Os soviéticos lançam, a bordo da espaçonave Sputnik, o primeiro ser vivo ao espaço: a cachorra Laika. 1958 - É inaugurado em Paris a sede da ONU para a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO). 1970 - Salvador Allende assume a presidência do Chile. 1992 - O democrata Bill Clinton é eleito presidente dos Estados Unidos pela primeira vez. 04 de Novembro 1649 - Primeira frota da Companhia Geral do Comércio do Brasil deixa Portugal. 1918 - As forças militares aliadas na Primeira Guerra Mundial concordam com os termos de um acordo de paz para a Alemanha. 1949 - A Companhia Cinematográfica Vera Cruz é fundada em São Bernardo do Campo, em São Paulo. 1952 - Dwight D. Einsenhower, general norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, é eleito presidente dos Estados Unidos. 1966 - Uma grande enchente atinge a Itália, destruindo Florença, tesouros e obras de arte de diversas cidades históricas. 1969 - Carlos Marighella é assassinado em São Paulo. Guerrilheiro, ele foi líder da luta armada contra a ditadura militar.
  15. 15. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 15 1977 - A romancista Raquel de Queiroz é eleita para a Academia Brasileira de Letras. É a primeira vez que uma mulher ingressa na Academia. 1980 - Ronald Reagan é eleito presidente dos Estados Unidos. 05 de Novembro 1414 - Começa o Concílio de Constança, que dura quatro anos. Seus participantes acabam com a cisão na Igreja e condenam, por causa de heresia, João Wiclef, João Hus e Jerônimo de Praga a morrerem na fogueira. 1826 - É inaugurada no Rio de Janeiro a Escola de Belas Artes, a primeira instituição brasileira para ensino das artes plásticas. 1897 - O presidente Prudente de Morais sofre um atentado em uma cerimônia militar. 1911 - Woodrow Wilson é eleito presidente dos Estados Unidos. 1928 - O monte Etna, situado na região da Sicília, na Itália, entra em erupção e destrói completamente a vila de Mascali. 1940 - Franklin Delano Roosevelt é reeleito presidente dos Estados Unidos pela terceira vez. 1982 - A usina hidrelétrica de Itaipu é inaugurada. 1996 - O defeito que provocou a queda do Fokker-100 da TAM, em 31 de outubro do mesmo ano é identificado: falha no reversor. O acidente matou 99 pessoas em São Paulo. 1996 - Bill Clinton é reeleito presidente norte-americano com 49% dos votos, contra 41% do seu rival, o republicano Bob Dole. 1998 - O cantor e compositor Chico Buarque lança o CD As cidades, depois de cinco anos sem gravar músicas inéditas. 06 de Novembro 1860 - Abraham Lincoln é eleito presidente dos Estados Unidos. 1875 - A Escola de Minas é solenemente instalada em Ouro Preto, então capital da Província de Minas Gerais, 1913 - Mahatma Gandhi, líder nacional e espiritual indiano, é preso por liderar a marcha dos mineiros indianos no sul da África. 1916 - O compositor Ernesto Joaquim Maria dos Santos, Donga, registra o primeiro samba a ser gravado no Brasil que é chamado Pelo Telefone. 1964 - O Congresso Nacional Brasileiro aprova um projeto de reforma agrária. 1984 - Ronald Reagan é reeleito presidente dos Estados Unidos. 1987 - Fim da moratória: Brasil paga US$ 500 milhões ao FMI. 07 de Novembro 1822 - O poeta Manuel José Quintana inaugura a Universidade de Madrid. 1825 - É lançado em Recife o Diário de Pernambuco, o primeiro jornal da América Latina. 1972 - O presidente Richard Nixon é reeleito nos Estados Unidos. Seu governo encerra a guerra contra o Vietnã. Ele deixa o cargo em 1974 por causa do escândalo de Watergate. 1973 - A Petrobras anuncia a descoberta de uma jazida petrolífera em Campos, no Rio de Janeiro. 1984 - O governo brasileiro institui os juizados de pequenas causas. 1998 - A nave espacial Discovery retorna a Cabo Canaveral nos Estados Unidos após uma missão de nove dias. Esta compilação foi enviada pelo Irmão Marcelo Castelo Branco em versão completa. Por orientação dele, selecionei algumas datas tendo por base meu modesto conhecimento e minhas idiossincrasias. (Robson Granado)
  16. 16. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 16 DOCUMENTOS E FOTOS ANTIGAS Ordem Montezuma do Mérito do Supremo Conselho do Brasil para o Rito Escocês Antigo e Aceito EUREKA (TUREKA E NÓSREKA) Contestações, lances, bobagens, respostas, estudos, crendices, variados, ‘nóstícias’ fatos, curiosidades, sofismas, perguntas, humor, nostalgia, outros e... nós! Pensamentos caninos1 .. ... 1 Fonte: e-mail recibo (outubro/2012) do amigo de faculdade (UFF-anos 70) e último gerente (Centro de Reparos) que tivemos na ex-TELERJ: José Roberto Dantas. (Aquilino R. Leal)
  17. 17. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 17 ... . Colaboração do MI Aquilino R. Leal, Fundador Honorário da Aug e Resp Loj Maç Stanislas de Guaita 165
  18. 18. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 18 UNIVERSIDADE DAS RUAS Três estágios e o aforismo de Einstein José Amaral Argolo © Nenhuma reprodução, parcial que seja desse e dos demais textos assinados e já publicados na Folha Maçônica pelo autor está autorizada sem o seu prévio conhecimento e citação obrigatória da fonte. A mim, pessoalmente, não me agradava a presença de uma base militar soviética em Cuba, por uma razão de imagem de Cuba, de imagem da Revolução Cubana. Mas não o analisamos como uma questão de gosto ou não, senão desde um ponto de vista ético e moral (...): se desejávamos que os soviéticos nos apoiassem no caso de uma agressão, seria imoral que nos opuséssemos à presença dessas armas em nosso país, posto que elas fortaleciam também a União Soviética (...) Por isso demos uma resposta positiva. Fidel Castro Há poucos meses (no dia primeiro de fevereiro último, para ser mais preciso) o comando das Forças de Mísseis Estratégicos da Federação Russa desencadeou uma gigantesca missão de patrulha de combate disseminando 700 plataformas de lançamento dos artefatos intitulados Topol, Topol M e Yars em seis regiões do imenso país: Tver, Ivanovo, Kirov, Irkutsk, Altai (território) e Barcotostão (República Autônoma Socialista localizada ao sul dos Montes Urais e uma das mais industrializadas de todas as Rússias). Esse exercício de alta complexidade e potência de fogo (cada um dos Topol [22,7 m de comprimento, diâmetro de 1,86 m, peso de 47200 kg, impulsionado por propelente sólido, três estágios, transportando seis cabeças de guerra independente, alcance de dez mil km e margem de erro inferior a 180 metros do local de impacto. Projeto desenvolvido pelo Instituto de Tecnotecnia de Moscou], Por sua vez, os Yars RS 24, versão modernizada do Topol M, com 23 m de comprimento, dotado também três estágios, mínimo de quatro ogivas de 300 kilotons cada, primeiro lançamento dia 27 de maio de 2007, aglutinam componentes secretos inteiramente desconhecidos no Ocidente). Cinquenta e três anos após a Crise dos Mísseis de Outubro, em que o mundo esteve bem próximo da destruição caso as lideranças dos Estados Unidos da América (leia-se John Kennedy) e da antiga União Soviética (Nikita Khruschev, principalmente este) não tivessem acordado do pesadelo que poderia ter vaporizado centenas de milhões de seres humanos. Como todos (as) se recordam, Fidel aceitou abrigar em Cuba certo número de mísseis balísticos da URSS, projetar a força de dissuasão nuclear daquele país e, simultaneamente, confrontar os Estados Unidos da América em suas pretensões de domínio. Tudo isso está muito bem documentado em livros e artigos elaborados por pesquisadores de alto nível. O que veio a público esta semana, publicado no diário Granma, órgão oficial do Partido Comunista de Cuba, em três dias consecutivos e de autoria de Rubén G. Jiménez Gómez, Tenente-Coronel (Reserva) e fundador das Tropas de Foguetes e Antiaéreas, deixa claro que, apesar do bloqueio marítimo empreendido pelos EUA, do desmantelamento das bases para as plataformas móveis e reembarque dos lançadores de mísseis estratégicos nos navios transporte soviéticos; mesmo com o aparato de sensoreamento aéreo por conta das aeronaves U-2 (um desses aviões foi derrubado com um único disparo, morrendo o piloto: major Rudolf Anderson), o que restara do aparato militar soviético era muito. Muito maior. Inicialmente, apenas para registro, reproduzo as palavras do então coronel (posteriormente Tenente-General) Georgi Voronkov, chefe da Divisão de Foguetes Antiaéreos da Região Oriental. “Os aviões ianques sobrevoavam o céu cubano (...) meu critério era de que assim não podia continuar. Os norte-americanos se sentiam com direito a tudo. Em 27 de outubro me informaram que um U-2 cruzava o espaço aéreo da ilha. Logo voou sobre duas unidades que estavam sob meu comando e aproximava-se de uma terceira. Aí mesmo deu a ordem de combate. Com o primeiro projétil o derrubamos”. O quantitativo de homens e o poder de fogo das tropas soviéticas em solo cubano era impressionante. Senão vejamos, sempre segundo o tenente-coronel Rubén Jiménez Gómez: Tropas de Foguetes Estratégicos. Uma divisão equipada com foguetes nucleares de alcance médio e intermediário dos tipos R-12 e R14 (os primeiros capazes de atingir alvos a 2100 km; os últimos, com eficácia comprovada a até 4500 km. Enquanto os R-12 transportavam carga nuclear de um megaton (77 vezes mais forte do que a bomba lançada sobre Hiroshima) os R-14 levavam ogivas de 1,67 megatons (127 vezes mais potentes do que aquelas que atingiram a referida cidade japonesas). A dotação da URSS quanto aos R-12 totalizava 36 mísseis, mais 24 R-14 e dezenas (aproximadamente 40) de projéteis táticos nucleares de artilharia destinados a rechaçar prováveis ações de desembarque na ilha.
  19. 19. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 19 Consumada a disseminação desse armamento em Cuba e mantido o aprestamento das unidades em alerta vermelho, praticamente oitenta por cento da população do território dos EUA e mais da metade dos habitantes do Canadá estavam sob o risco de aniquilação. É claro que a resposta militar dos Estados Unidos da América seria devastadora, até mesmo porquanto o seu arsenal nuclear totalizava mais de cinco mil artefatos, enquanto a URSS dispunha de 300 capazes de atingir o solo americano. Proporção de 17:1, segundo os cálculos dos especialistas. Para as ações militares em território cubano, no ápice da crise, tinham sido desembarcados 43 mil soldados e oficiais especialistas. Também foi disponibilizado um esquadrão de aeronaves Iliuchin-28 capazes de transportar um artefato nuclear de seis kilotons a uma distância aproximada de mil km. As forças estratégicas terrestres eram compostas por cinco regimentos de infantaria motorizada (2500 efetivos cada). Três deles operavam foguetes de alcance médio R-12 e dois se ocupavam dos R-14. Cada regimento, assegura o tenente-coronel Rubén Jiménez Gómez no seu relato ao Granma, dispunha de oito rampas de lançamento e doze foguetes, para um total de 40 rampas e 60 foguetes. Para sorte das duas superpotências, o governo da URSS deixou de enviar (em setembro daquele ano) uma divisão (sete unidades) de submarinos de ataque cada um com três foguetes do tipo R-13 (ogivas nucleares e alcance de 540 km), bem como uma brigada de submersíveis do tipo regular cada um armado com um torpedo nuclear e os demais convencionais. Caso isso tivesse acontecido as iniciativas e retaliações de parte a parte resultariam num desastre ainda maior. Humano e de natureza ambiental. Tão-somente no último momento Nikita Kruschev decidiu suspender as ordens para romper o bloqueio naval imposto pelo presidente norte-americano e os navios de combate e de suprimentos retornaram às suas bases de origem. Para a consternação dos falcões do Pentágono e do Kremlin voltou (quase) tudo ao que era antes. Isto é: os EUA mantiveram o bloqueio econômico à Ilha, Cuba intensificou as missões internacionalistas tanto nas Américas Central e do Sul e também na África, a URSS se posicionou mais fortemente na Europa do Leste e o enclave de Berlim gerou discussões que se estenderam até o colapso da própria URSS. O aforismo dito por Albert Einstein, ao ser indagado sobre com que armas se desenvolveria a Terceira Guerra Mundial?: “Não creio que nada possa prever isso, mas estou seguro de que a quarta será com machados de pedra!”, chegou próximo do que poderia ter sido o holocausto integral da espécie humana. Fosse nos dias de hoje, todos aqueles textos precisariam ser (como já estão sendo, inclusive pela Folha Maçônica) reescritos. Os irmãos Fidel e Raúl Castro ainda estão vivos (o segundo ocupando a Presidência do Conselho de Estado, vice-presidente do Conselho de Ministros, vice-Secretário do Politburo, do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e Supremo General das Forças Armadas), o país reatou relações diplomáticas com os Estados Unidos da América, mediante a mediação discreta, pontual e eficaz do Papa Francisco, a Federação Russa avança com surpreendente agilidade comercial, política e diplomática por quase todos os quadrantes... E seu poderio militar surpreende a olhos vistos. Em todos os segmentos: Exército, Marinha, Força Aérea, Tropas Estratégicas de Mísseis, Tropas Aeroespaciais e Tropas Aerotransportadas (as três últimas atuando independente). Está atualmente no Iran, por intermédio de um número indeterminado de assessores, inclusos cientistas e engenheiros nucleares; na Síria (onde participa de ações de inteligência e de operações ofensivas contra os guerrilheiros contrários ao presidente Bashar al-Assad e aqueles outros pertencentes ao autoproclamado Estado Islâmico; na Ucrânia, após as ações que culminaram com a retomada e anexação da Criméia e do porto de Sebastopol mediante ações fulminantes. Aeroportos, bases militares, portos e estradas de ferro e/ou rodovias passaram ao controle russo, deixando o governo da Ucrânia em maus lençóis. O país, com maioria dos cidadãos de fala russa, está dividido. Mas a tendência é a do acirramento da crise. Tanto mais que, em 1997, a Ucrânia deixou de integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte, tornando-se apenas um aliado extra e desobrigando os demais países membros a entrar em conflito armado com a Rússia. E acaba de criar uma brigada de operações árticas destinada a ocupar e salvaguardar os interesses econômicos da Rússia em uma imensa área ainda não delimitada, mas que acabou de criar uma imensa dor-de-cabeça para as lideranças ocidentais. Avancemos um pouco mais: somente para este ano o orçamento militar russo somou US$ 84,5 bilhões (sete vezes menor que o dos EUA: US$ 610 bilhões e duas vezes e meia inferior ao da República Popular da China: US$ 216 bilhões). Mas o poder de fogo foi ampliado consideravelmente. Assim como as exportações de produtos e tecnologias muito específicas. Como a do sistema de lançamento de mísseis S-300 ao Iran (os contratos, já chancelados, implicam em quarenta sistemas ao preço total de US$ 800 milhões), o de três conjuntos de sistemas de defesa antiaérea Pantsir ao Brasil, conforme acordado desde 2012 mas para ser efetivado no ano que vem (ao custo de US$ 1,3 bilhão). E outras negociações, principalmente com a Índia. O poderio militar da Federação Russa é impressionante mesmo para os especialistas. Sabe-se, por exemplo, que o míssil balístico intercontinental SS-18 (denominado R36M2), conhecido no Ocidente como Satan não tem qualquer contrapartida. É a mais letal de todas as armas atômicas já produzidas. Capaz de transportar dez ogivas nucleares, com 750 kilotons cada ou uma com 20 mil kilotons, o SS-18 é praticamente indestrutível. Sua armadura é composta de titânio, pesa 209.600 kg, mede 32,2 m de comprimento, 3,05 m de diâmetro, atinge velocidade de 23 mach (isto é, vinte e três vezes a velocidade do som), utiliza propelente
  20. 20. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 20 líquido, as cabeças de guerra são lançadas em três estágios... e a margem de erro em relação ao ponto de impacto (o alcance máximo de 16 mil km) é de apenas 220 metros. Ou seja: nada! Inexistem sistemas de defesa capazes de detê-lo e até que isto aconteça a Federação Russa estará muitos anos à frente em parâmetros tecnológicos. Sabe-se, extraoficialmente, que o Ministério da Defesa russo mantém ativos e protegidos em silos especiais, 75 mísseis balísticos SS-18. Essa mesma preocupação quanto à qualidade, potência de combate etc se estende aos submarinos de ataque e aos tanques de batalha (bem mais robustos e eficientes que os produzidos no Ocidente). Somem-se as parcerias científicas (em número não revelado) com a República Popular da China e os resultados são e serão ainda maiores. Verifica-se, outrossim, que as forças de Defesa na Federação Russa são muito bem distribuídas e consolidadas. Trinta e cinco mil soldados e oficiais integram as Forças Aerotransportadas, com plena autonomia operacional e logística própria. Este é o grande diferencial que atinge o Brasil como um todo. E abala em definitivo a pretensão de conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por pura fragilidade intelectual (nada a ver com política orçamentária deste ou daquele Governo, seja ele atual ou pretérito) não dispõe de uma Guarda Costeira (indissociável à proteção das águas jurisdicionais do Brasil); não se preocupa em criar uma Guarda Nacional nos moldes existentes não somente nos EUA como em outros países; mantém-se atrelado a acordos/pactos que minidimensionaram o país no cenário internacional (a exemplo do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares [sabiamente rejeitado por Israel e outros países]), permanece com a frente voltada para o Atlântico e as costas para fronteiras a Oeste (justamente por onde fluem armas contrabandeadas e entorpecentes em escala, contaminando pela ação comissiva por omissão as relações com nossos tradicionais aliados, inclusive da Europa, África e Oriente Médio). Mais do que as ações coordenadas pela Polícia Federal, cujos efetivos estão aquém do desejável, a criação da Guarda Nacional contribuiria para blindar as fronteiras à infiltração de grupos extremistas, permitindo que os agentes federais possam atuar com maior desenvoltura em outros setores (principalmente investigação e condução de inquéritos). Dou exemplo: o lado brasileiro do Lago de Itaipu vem sendo patrulhado por intermédio de recursos exíguos. Poucas lanchas em condições operacionais, contingentes pouco numerosos ainda que tecnicamente preparados. A Marinha do Brasil é uma força cujo propósito maior é a projeção do Poder. Teríamos, portanto, que estar presentes em todos os oceanos e mares. E não apenas esporadicamente sob a forma de visitas protocolares. Com sua vocação trioceânica natural (Atlântico, Índico e Pacífico), o Brasil vem perdendo espaço lenta e gradualmente diante da ofensiva midiática e tecnológica. Reparem na Austrália, há até pouco tempo “esquecida” no miolo do noticiário, e hoje cada vez mais pujante. José Amaral Argolo é Jornalista e Professor da UFRJ, primeiro Orador da Loja Stanislas de Guaíta nº 165, é Soberano Grande Inspetor Geral, Gr. 33º. Exerceu atividades como Analista Sênior (dezembro de 2007-a dezembro de 2012) do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra. Colaboração do Ir José Amaral Argolo, Fundador da Aug e Resp Loj Maç Stanislas de Guaita 165 ENQUETE INÚTIL Pergunta: Amish é... Pergunta da edição anterior: Teocracia é... Termo composto pelas palavras gregas théos (deus) e krateia (“governo”, “poder”), empregado para caracterizar uma forma de governo cujos dirigentes consideram-se designados por Deus, sendo, como tal, seus representantes na Terra. Um dos exemplos mais extremados de teocracia foi a monarquia faraônica do Egito antigo e também o Império Romano, onde os governantes eram objeto de cultos próprios. Durante a Idade Média a doutrina que fundamentava a teocracia baseava-se na concepção segundo a qual reis e príncipes eram vassalos da Igreja e esta, responsável pela fé e pelo equilíbrio entre os homens, detinha os dois poderes, o secular e o espiritual. O apogeu teocrático situa-se no século XIII, na figura do papa Inocêncio III (1198/1216). Ao longo desse século a Igreja controlou a vida política europeia. No entanto, posteriormente, o antagonismo entre o papa Bonifácio VIII e o rei francês Felipe, o Belo, por causa das imunidades fiscais do clero provocou o declínio da teocracia e o seu enfraquecimento definitivo. Semana passada ficamos devendo três soluções do desafio de há duas semanas passadas... 1 1 1 = 6 8 8 8 = 6
  21. 21. Folha Maçônica Nº 529, 31 de outubro de 2015 Página 21 9 9 9 = 6 Aí estão elas. (1 + 1 + 1)! = 6 + + = 6 x - = 6 A dificuldade, gênio, é na primeira: 1 + 1 + 1 = 3  3! = 3 x 2 x 1 = 6. Recordemos que o fatorial (!) de um número natural não inferior a 2, se obtém multiplicando ele por todos os anteriores até 1 e se representa com o sinal de exclamação. Colaboração do MI Aquilino R. Leal, Fundador Honorário da Aug e Resp Loj Maç Stanislas de Guaita 165 MURAL A força do Capital e eleitores impotentes Eis o fulcro da globalização: transforma em palhaços bilhões de eleitores que passam a escolher governos impotentes diante da ditadura do capital. Tribunais "internacionais" - em geral americanos - julgam processos de multinacionais contra governos apenas teoricamente soberanos. O que garante suas decisões? O gigantesco exército dos Estados Unidos, a que se juntam os satélites aglomerados na Otan; a fabricação do dinheiro do mundo; o domínio tecnológico das comunicações, da energia nuclear e da informática; a imposição abusiva de patentes (nunca, efetivamente, dos criadores) e direitos do capital. Firma-se novo contrato social planetário. Nele, o domínio do 0,1% sobre os 99,9% dos homens é legitimado por instituições jurídicas inovadoras e de aplicação seletiva, das quais conhecemos muito bem duas exemplares: as "delações premiadas" e o "domínio do fato". Falta pouco para a aventura humana na Terra se resumir a isso. A maioria dos tratados internacionais sobre investimento e acordos de livre comércio garante a investidores estrangeiros o direito a ativar esse sistema, conhecido como Solução de Controvérsias entre Investidor e Estado (Investor-State Dispute Settlement, ou ISDS, em inglês), se querem contestar decisões que afetam os seus investimentos. Um campo obscuro mas cada vez mais poderoso do direito internacional, através do qual investidores estrangeiros podem processar governos em milhares de milhões de dólares, numa rede de tribunais. Desde 2000, centenas de investidores estrangeiros processaram mais de metade dos países do mundo, reclamando danos supostamente causados por um amplo leque de ações governamentais, que dizem ter ameaçado os seus lucros. “A questão fundamental neste caso é saber se um investidor estrangeiro pode forçar um governo a mudar as suas leis para agradar o investidor, ao invés de o investidor cumprir as leis existentes no país.” http://www.esquerda.net/artigo/assim-funcionam-os-tribunais-de-excecao-do-capital/39266 Nilson Lage Nilson Lage é jornalista, professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina desde 1992. É doutor em Linguística, Mestre em Comunicação e Bacharel em Letras. Foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal Fluminense e de instituições particulares. Uma Rádio criada por membros da Loja Maçônica Naphtali1619, com o intuito de trazer a harmonia dos Grandes Mestres, dos Grandes Gênios da Criação para te elevar às mais sutis vibrações te aproximando do Grande Arquiteto Do Universo.

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