87Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.IntroduçãoA elaboração de um método de aná...
88MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
89MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
90MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
91MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
92MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
93MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
94MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
95MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
96MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
97MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
98MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
99MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia ...
100MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
101MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
102MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
103MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
104MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
105MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
106MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
107MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
108MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
109MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
110MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
111MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

O potencial interpretativo das análises tecnológicas um exemplo amazônico

213 visualizações

Publicada em

Publicada em: Negócios, Tecnologia
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

O potencial interpretativo das análises tecnológicas um exemplo amazônico

  1. 1. 87Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.IntroduçãoA elaboração de um método de análise dacerâmica arqueológica depara com o difícil desafiode interpretar vestígios materiais que são resultadosde processos dinâmicos de manufatura, utilizações,reciclagens e descartes num contexto sistêmico. Talinserção sistêmica lhe confere uma dupla posiçãode significado e significante nesse universo, aomesmo tempo refletindo aspectos fundamentais dasociedade que o produziu e produzindo novossignificados nessa mesma sociedade.Tal dinamismotem que ser entendido e levado em consideração naescolha do método de análise. No entanto, oentendimento da cultura material se dá através dapercepção de padrões de recorrência de atributosobservados que podem ser significativos tanto dopapel dessa na sociedade, quanto o inverso o papelda sociedade na sua produção. Mas a percepçãodesses padrões se dá através da observaçãosistemática de uma amostragem quantitativamentesignificativa, para tanto é necessário objetivar aforma de observação através do estabelecimentode um guia de análise.Aamplitude dos aspectosobserváveis nos fragmentos cerâmicos faz com quecada ficha de análise corresponda diretamente aoproblema de pesquisa que se queira resolver. Noentanto, na maior parte dos casos a categorizaçãose torna necessária para o entendimento dospadrões de semelhanças e diferenças entre osatributos correlacionados. O antagonismo de difícilsolução se encontra justamente aí, a percepção dodinamismo do processo de significação e anecessidade de categorizações estanques para omapeamento e compreensão dessas mesmas.O POTENCIALINTERPRETATIVO DASANÁLISESTECNOLÓGICAS:UMEXEMPLOAMAZÔNICOJuliana Salles Machado*MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico.Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.RESUMO: O presente trabalho pretende enfatizar a importância da utilização decorrelatos fisico-químicos na compreensão do significado das escolhas tecnológicasrealizadasnodecorrerdoprocessodeproduçãocerâmica.Olevantamentobibliográficodasdistintascaracterísticasdeperformanceobtidasapartirdaescolhadosantiplásticose argilas na produção cerâmica serviu de parâmetro comparativo aos resultadosobtidos na utilização conjugada de análises petrográficas e tecnológicas em umacoleçãocerâmicaprovenientedemontículosartificiaisdosítioHatahara,AmazôniaCentral.Aaplicação dessa abordagem visa fornecer subsídios para mapear as distintasprioridades de escolha em cada cadeia operatória, compreendendo melhor asespecificidades tecnológicas de cada conjunto artefatual.UNITERMOS: Análise cerâmica – Tecnologia –Amazônia Central – Correlatosfísico-químicos.(*) Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.Doutoranda emAntropologia no Programa de Pós-GraduaçãoemAntropologiaSocial.julianasallesmachado@gmail.com
  2. 2. 88MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.Tendoemvistatalambigüidadepropomosumaforma de análise que apesar de não fugir dascategorizaçõesanalíticastradicionais,possibilitaumdiálogomaiorcomoprocessodinâmicoportrásdoobjeto analisado. Como pressupostos para aconstruçãodessaanálisebuscamosumamisturadeliteraturasentreestudosetnográficosearqueológicosdofuncionamentodacadeiaoperatóriadeproduçãocerâmicaedoprópriosistematecnológicoesistemasdeclassificaçãoarqueológicatradicionaiscomoosmanuaisdeanálisemétricadosartefatosquelevamemconta apenas aspectos do contorno formal dos potes.A coleção amazônicaAfimdecompreendermosacerâmicaarqueológicaénecessárioquetenhamosemmentetantoosprocessossistêmicosenvolvidosnasuaprodução,circulação,usoedescarte,quantoosprocessospós-deposicionaissofridosnasuamatriznatural.UtilizaremoscomoestudodecasoumaanálisedevestígioscerâmicosprovenientesdeummontículoartificiallocalizadonosítioarqueológicoHatahara,naAmazôniaCentral(Neves2000;Machado2005).Constituídaprincipalmentedecerâmicaeterrapreta,essaestruturaapresentaaltadensidadedevestígioscerâmicosarticuladoshorizontalmente–compondoumcontextoquesediferenciadeoutrosencontradosnaregiãoouatémesmonosítio.AcerâmicaencontradanessesítiopodeserclassificadacomopertencenteàchamadafaseGuarita(Fig.1),nosníveismaissuperfici-ais,faseParedão(Fig.2)nosníveisintermediáriosefaseManacapuru(Fig.3),nosníveismaisprofundos(MeggerseEvans1961;Hilbert1968).Taisclassifica-çõesestãorelacionadasàcronologiadaocupaçãodaAmazôniaCentralporgruposceramistaspropostaporMeggerseEvans(1961)eposteriormenterefinadaporHilbert(1968),aqualidentificaostrêsconjuntoscerâmicos,respectivamenteàTradiçãoPolicrômicadaAmazônia e à Tradição Borda Incisa – tanto a faseManacapuru,quantoafaseParedão.AmetodologiaempregadanaelaboraçãodessacronologiaconsistianumaseriaçãocerâmicasegundoométodoquantitativocriadoporJamesFordeadaptadoporMeggers(Machado2005;Meggers1971).Atualmente,essacronologiarelativaestásendorevistaatravésdeumasériededataçõesabsolutasfeitaspeloP.A.C.(ProjetoAmazôniaCentral),quesituamasocupaçõescerâmicasda fase Manacapuru entre os sécs. IV e IX d.C.[atualmentedivididanasfasesAçutuba(300a.C.a360d.C.) e Manacapuru (600 a 1000 d.C.)], da faseParedãoentrefinsdoséc.VIIeiníciodoséc.Xedafase Guarita do séc. X ao XVI (Hilbert 1968;Heckenbergeretal1998,1999;Neves2000;Lima,NevesePetersen2006).AcronologiadaocupaçãoceramistadaregiãoapresentadapeloP.A.C.atéomomentocorroboraapropostadeHilbert(1968)eMeggerseEvans(1961).Fig. 1 – Fragmento em argila branca-rosada compintura policrômica proveniente do sítio Hatahara,AM, associada à fase Guarita – Tradição Policrômicada Amazônia.Fig 2 –Exemplos de decoração plástica acanaladana superfície interna de pedestal, fragmento pro-veniente do sítio Hatahara, AM, associado à faseParedão – Tradição Borda Incisa.
  3. 3. 89MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.Os sítios arqueológicos encontrados naregião da Amazônia Central são, na sua maioria,multicomponenciais comsobreposição,respectiva-mente,decerâmicasdasfasesManacapuru,ParedãoeGuarita.Noentanto,estruturascomoosmontículosartificiaisapresentamestratigrafiasbastantecomplexas,nasquaisastrêsocupaçõescerâmicasacimaapontadasemalgunsmomentosseentrecruzamaparecendoporvezesdeformaconcomitantenoperfilestratigráfico.Distintosmétodosdeclassificaçãocerâmicavêmsendoutilizadosafimdepermitirummelhorentendimentodosdistintosepisódiosdeformaçãodocontextoarqueológicoescavado,assimcomomelhorcompreenderavalidadeeamplitudedascategoriasanalíticasacimamencionadas.Tendoemvistaocaráterrestritivoedecertaformadeficientedascategoriasclassificatóriasdefinidasparaosvestígioscerâmicos(Machado2005),nopresentetrabalhoprocuraremosabordaressasdistintascerâmicasdeformadiversa.Paratantofoicriadaumafichadeanálisebaseadanasetapasdacadeiaoperatória(Leroi-Gourhan1971),visandocompreendermelhorasprioridadesdecadaconjuntono que diz respeito às características de performance(SchiffereSkibo1992,1997),aindaquedeformapreliminar.Autilizaçãodetalabordageméimportanteparaentenderediferenciarasetapasdeconstruçãodomontículoartificial,verificando,porexemplo,sehouveescolhaspreferenciaisnomaterialconstrutivoeaté se podemos considerar todas as cerâmicas quecompõemomontículocomomaterialconstrutivo.Tambémpretendemosdessaformadestacarasdiferençasnomaterialcerâmicoassociadoaumapossívelocupaçãohabitacionalanteriorasuaconstrução,assimcomoentenderquetipodeocupaçãoocorreuposteriormenteàconstruçãodomontículo.Os vestígios cerâmicos tal qual os encontramosnas camadas formadoras do montículo, represen-tam materiais de construção estando, portanto,despojados de suas funções primárias (Machado2005). Contudo, o conhecimento de todo o ciclode vida desses artefatos até atingirem a forma edisposição na qual foram encontrados é de extremaimportância para entendermos os processos deformação desse montículo artificial (Schiffer 1983,1972). Nos concentraremos principalmente nosprocessos envolvidos na produção dos vestígios,mas também mencionaremos aspectos relevantesde seu uso e descarte.Asatividadessistêmicasenvolvidasnasuaprodução perpassam basicamente as seguintesetapas (Silva 2000): escolha das fontes de matéria-prima, tanto de argila como de antiplásticos epigmentos, coleta e processamento dessas matérias-primas,inclusãodeantiplásticosnaargila,manufaturade sua estrutura através de técnicas de roletagem,moldageme/oumodelagem,alisamentoeoutrostratamentosdesuperfície(comoautilizaçãodetécnicasimpermeabilizantes),secagemeautilizaçãode técnicas decorativas (plásticas ou pintadas) antesou depois do processo de queima. Essas atividadescompõem conjuntamente a cadeia operatória deprodução cerâmica.Arealização dessa seqüência deoperações é perpassada por uma série de escolhastecnológicas, que uma vez mapeadas podem nosfornecer um quadro explicativo de tudo o quechamamos de conjuntos técnicas (Lemonier 1992).A compreensão da articulação dessas atividades edo conjunto de escolhas tecnológicas que ascompõem é de fundamental importância para oentendimentodoscomportamentoshumanosquegeraramaconfiguraçãoartefatualanalisada.Premissas classificatórias e os métodos deanáliseAanálisedomaterialcerâmicofoifeitaemduasetapas,aquantitativaeaqualitativa.Naanálisequantitativaobservamosatributosassociadosàmatériaprimacomoaargilaeoantiplástico,àstécnicasdemanufatura,aoambientedequeima,acaracterísticasdocontornoformal(comoasvariáveismétricas),atratamentosdesuperfície,adecoraçãoplásticaepintadaeamarcasdeutilização.Atravésdetaisatributosbuscamosrecorrênciasnascombinaçõesdeatributosqueindiquemcertosmodosdesefazer.Fig. 3 – Exemplo de aplique cerâmico zoomorfomodelado proveniente do sítio Açutuba, AM , asso-ciado à Fase Manacapuru – Tradição Borda Incisa.
  4. 4. 90MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.Taisobservações,acrescidasaoscorrelatosfísico-químicos,podemnosajudaraentendermelhorquaiseramasprioridadesselecionadasemcadamomento,nosajudandoadiferenciareentenderasdistintascamadasdeformaçãodomontículoassimcomosuasinterligações.A análise qualitativa, por sua vez, agrupa essasrecorrências em conjuntos. Esses conjuntos sãoentão descritos a fim de se identificar o que lhes dáunidade. Esta pode ser decorrente tanto de umapadronização formal, quanto de uma seqüência demanufatura. O objetivo de tal análise é proporconjuntos hipotéticos que devem ser contrapostosàs análises quantitativas.Para a realização das análises tecnológicas,utilizamos uma definição genérica de cadeiaoperatória, que a tem como uma seqüência deoperações para a realização da transformaçãoda matéria em artefato (Pfaffenberger 2001). Aaplicação de tal conceito em uma forma declassificação de conjuntos cerâmicos deve,portanto, considerar uma ampla gama de atributosrelacionados às diferentes etapas dessa cadeiaoperatória.Acriação de categorias classificatóriasdeve ser fruto da percepção de combinações entredistintas escolhas tecnológicas no momento damanufatura,incluindoasmatériasprimasselecionadas,as técnicas de manufatura e tratamentos desuperfície, os resultados formais, as técnicasdecorativas empregadas e até as atividades de uso.Já quando nos referimos às característicasformais estamos nos referindo ao seu contorno eproporções finais, resultantes tanto da cadeiaoperatória que o produziu quanto das açõesrelacionadas a suas utilizações e descarte que oalteraram. Para sua classificação nos baseamosprincipalmente na análise simplificada das caracte-rísticas do contorno e da comparação de formasespecíficas às de figuras geométricas.Apesar deadotarmos uma nomenclatura por vezes distinta,nossas observações a respeito das formas estãobaseadas no sistema de classificação cerâmica deBirkhoff (1933) adaptado por Shepard (1965).AclassificaçãodeBirkhoff(apud Shepard1965)baseia-se na observação e descrição de pontosconsiderados chaves do contorno do pote, a partirdosquaisépossívelseterumaidéiadasdimensões.Autilizaçãodetalsistemadepontos-chavetambémnospermiteentendermelhoraformageraldovaso,facilitandoasuaprojeçãoapartirdefragmentosespecíficos.DeacordocomShepard(1965:226),devemserobservados:1)opontofinaldacurva,nabaseoulábio;2)ospontosquemedemodiâmetromáximoemínimodacurvatura;3)opontoquemarcaumamudançaabruptanacurvatura;e4)opontoquemarcaainversãodadireçãodacurvatura.Na análise cerâmica proposta, tais categoriasforam simplificadas em apenas duas: os pontosfinais da curvatura – borda e base, e os pontos deinflexão. Tal simplificação se deve ao fato deestarmos lidando majoritariamente com fragmentose não com potes inteiros, o que dificulta até certoponto a observação, por exemplo, da relação entreos pontos de diâmetro máximo e mínimo.Para a análise empregada, é também importan-te termos em mente uma das formas de classifica-ção proposta por Shepard (1965:230), principal-mente ao analisarmos fragmentos de bordas.Aautora classifica a estrutura do pote em: 1) orifíciosirrestritivos (“unrestricted orifice”); 2) orifíciosrestritivos (“restricted orifice”) e 3) pescoço ougargalo (“neck”). Os restritivos são normalmentedefinidos como tendo o diâmetro de seu orifíciomenor que o maior diâmetro do pote. Já osirrestritivos têm nos seus orifícios o maior diâmetrodos potes. Essas definições, no entanto, não levamem consideração paredes verticais, que sãoclassificadas com irrestritivas. Os gargalos sãomarcados por um ponto de inflexão abrupto quemarca o fim do corpo do pote e o início do gargalo.Apesar de essas divisões não implicarem necessari-amente em funções específicas, cada uma dessasformas se adapta melhor a diferentes utilizações.Dessaforma,ospotescontendoorifíciosirrestritivospodem ser amplamente utilizados para ações queexigem um manuseio de seu conteúdo, ou para queesse fique a mostra ou seque. Isto se deve ao fácilacesso e visibilidade que tais potes proporcionamao seu conteúdo. Os que contêm orifícios restritivosdificultam o acesso ao seu conteúdo retendo-omelhor, sendo mais adequado na armazenagem. Jáos potes que apresentam um gargalo, têm aqualidade de impedir que o liquido contido espirreou derrame para fora e ainda têm seu manuseiofacilitado. Apesar de Shepard tornar ainda maiscomplexas tais divisões, nos detivemos apenas naprimeira em função da fragmentação de nossaamostra.Apartir desse sistema de classificação,podemos explorar melhor alguns fragmentosespecíficos de borda, entendendo tanto sua posiçãono vaso como as implicações de tal posicionamentoe forma nas utilizações das vasilhas.
  5. 5. 91MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.As matérias primas: a argila e o antiplásticoAs escolhas culturais envolvidas na manufaturade um artefato cerâmico iniciam-se na escolha daargila. Os componentes predominantes são a sílica,o alumínio e a água – mas também podem estarpresentes ferro e terra alcalina (Shepard 1965:6;Rye 1981:16).Aseleção da argila mais adequadapelo ceramista leva em consideração tanto aspectosgeográficos – de disponibilidade da matéria prima –, quanto aspectos culturais – como o tratamentoque se pretende dar àquela argila até a forma finaldo pote ser obtida. Nesse sentido, os ceramistasnão coletam sua matéria prima aleatoriamente, massim selecionam uma determinada porção de umúnico depósito que lhes parece mais homogênea(Silva 2000).As propriedades mais relevantes daargila para o ceramista são a plasticidade, quandomolhada, a capacidade de contração, quandosujeita ao calor (Shepard 1965:6), ou comporta-mento com relação ao choque térmico.Os estudos etnográficos indicam que existeuma recorrência na localização das fontes dematéria prima de argilas em relação aos locais dehabitação (Dietler e Herbich 1989), correlação quenão ocorre, por exemplo, com as fontes de matériaprima de pigmentos. Tal recorrência se deveprincipalmente pela grande quantidade de argila queuma comunidade necessita e, portanto, peladificuldade de seu transporte. Tal constatação nemsempre é verdadeira, principalmente se estivermostratando de comunidades que não produzem seuspróprios artefatos cerâmicos assim como quandoocorrem redes de troca de bens cerâmicosconsiderados de prestígio (Hayden 1998).A área pesquisada pelo Projeto AmazôniaCentral (Neves 2000; Donatti 2002; Lima 2004;Machado 2005), na qual o sítio arqueológicoHatahara está inserido, é bastante rica em fontes dematéria prima argilosa de boa qualidade, sendo,portanto, provável que as fontes de matéria primautilizadas tradicionalmente para a fabricação depotes cerâmicos sejam próximas dos sítios arqueo-lógicos estudados. Segundo Soares et al. (2000), aregião daAmazônia Central na qual se localiza osítio Hatahara é formada por:“rochas silicilásticas da Formação Alterdo chão do Cretáceo Superior (Dino et al.1999), sobre as quais desenvolveu-se todasedimentação fluvial quaternária, compostaprincipalmente por argilas. Estes depósitosargilosos juntamente com latossolos amare-los que recobrem a Formação Alter do Chão,são utilizados como matéria prima naindústria cerâmica vermelha e também naagricultura. (...) [Os depósitos argilo-areno-sos,] posicionados em cotas abaixo de 60cm,são compostos principalmente de materialargilo-síltico arenoso, coloração cinzaesbranquiçado a cinza médio, apresentandomesclas avermelhadas e amareladas naspartes mais superiores dos perfis.”O próximo passo na fabricação dos potes é opreparo da argila. Essa etapa é dividida em duaspartes: o processamento da matéria prima e opreparo da pasta.Aprimeira consiste da remoção deinclusões grosseiras, como pedregulhos e restos deplantas na argila recém retirada. Já a segunda, quepara nossa análise é de extrema importância, é oacréscimodeantiplásticoàargilaaindaúmida.Otermoantiplásticoéutilizadonumsentidogenéricopara indicar quaisquer inclusões contidas na pasta,podendo vir de origens indeterminadas. Quando taisinclusõessãointencionais,aescolhadoantiplásticoéfundamentaljáquemateriaisespecíficosestãonormalmentecorrelacionadosafunçõesespecíficas.Isto porque as propriedades físicas inerentes adeterminados antiplásticos é que vão permitir ou nãoo exercício de determinadas funções ao “produtofinal”(Rye1981:26).Osantiplásticosencontradosna argila podem variar enormemente de acordo como local estudado. No caso daAmazônia, é comumencontrarmosinclusõesdecauixi,cariapé,hematita,quartzo grosso e fino, caco moído e, em algunscasos, conchas, como na cerâmica da fase Mina(Simões 1981:13).Tais inclusões podem, no entanto, ter diferentesorigens.Nessepontoédifícildiferenciarasinclusõesadvindas de atividades não humanas, das querealmente o foram, os assim chamados temperos.Taldistinção é segura quando se trata de um comporta-mentoouescolhaconhecidohistoricamentenaregião, como é o caso do cauixi e do cariapé, ouainda, quando a forma geral das inclusões demonstrauma rígida regularidade, como se essas tivessem sidocortadas antes de acrescentadas à argila.AOs antiplásticos, em geral, têm a finalidade dereter a umidade da argila, tornando seu processode secagem mais lento e estável, diminuindo o riscode o pote rachar, comum durante esse processo.Além disso, eles tendem a diminuir a plasticidadeda argila, melhorando, portanto seu manejo (Rye
  6. 6. 92MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.1981: 31). No caso específico dos antiplásticosorgânicos, como é o caso do cariapé, que é umaentrecasca de árvore rica em sílica, além damelhora na plasticidade há uma diminuição nacapacidade de redução da argila. Isto se deve àdesintegração desses antiplásticos durante oprocesso de queima do pote, deixando espaçosvazios na pasta que permitem uma melhor expansãoe retração da mesma quando posta em contantodireto com o fogo repetidas vezes – como é o casodas panelas. Processo semelhante se dá com ocauixi, esponja de água doce da qual os ceramistasutilizam as espículas para temperar a argila, queforma uma rede altamente porosa capaz desuportar e absorver grande capacidade de pressão,como a resultante da ação do calor do fogo direto.No decorrer da análise foram feitas váriasobservações a respeito da associação entre o usode determinados antiplásticos e determinadasargilas, técnicas de manufatura ou padrões decora-tivos.Arecorrência de tais associações pode nosindicar questões importantes a respeito dasescolhas tecnológicas realizadas pelas sociedadesprodutoras. É possível, por exemplo, compreenderse a associação de determinado tempero adeterminadaargilafoiexclusivamentefuncional,testando quimicamente a plasticidade dessa argila ea eficácia ou não desse determinado antiplásticonesse contexto.Através dessa abordagem preten-demos realçar a importância do antiplástico comoindicador de uma série de escolhas tecnológicasdecorrentes de etapas iniciais da cadeia operatória,ao invés de o utilizarmos como uma espécie de“fóssil guia” de tradições cerâmicas.Para a análise do material cerâmico encontra-do no sítio Hatahara diferenciamos cinco colora-ções distintas de argilas: 1) branca, 2) laranjaA, 3)laranja B, 4) preta/cinza e 5) vermelha. Taisdiferenciações correspondem a observaçõesmacroscópicas e podem refletir variações noprocesso de queima, no entanto, tais divisõesapresentaram-se relevantes no decorrer da análisepor indicarem padrões recorrentes de associaçõescom antiplásticos específicos em alguns casos, comconjuntos de potes específicos.Adiferença entre ascolorações de laranja Ae B são decorrentes daassociação clara entre uma tonalidade de laranjabem distinto do restante (B) e um conjunto depotes, tradicionalmente chamado de fase Paredão.Nas de coloração laranja tipoAincluímos todo orestante de argilas de colorações variadas delaranja. Essa categoria é extremamente ampla ecomporta bastante variabilidade, provavelmentefruto de uma mistura em tipos de argila distintos queobtém uma coloração semelhante após a queima.A padronização no uso de determinadasargilas é importante, pois pode nos indicarescolhas culturais. Se percebermos uma grandedisponibilidade de matérias primas argilosas e depossibilidades de associações com diferentesantiplásticos obtendo o mesmo resultado físico-químico podemos corroborar a hipótese de oantiplástico ser nesta região um marcador cultural.Por outro lado, se percebermos a existência dediferenças qualitativas no uso de diferentesantiplásticos, através do mapeamento tanto deseus usos quanto de sua disponibilidade, podemosmapear as prioridades de escolhas relacionadas acertas características de performance valorizadaspor cada grupo ao longo do tempo.Ao observarmos o gráfico apresentado (Fig.4.1) notamos que a presença de argilas brancas émuito pequena em todos os níveis se concentrandonos níveis mais superficiais e encerrando-se quasetotalmente no nível 20-30cm.Aargila de coloraçãolaranjaA, ao contrário, apresenta-se em grandequantidade ao longo de todos os níveis indicandoum pico no nível 20-30cm. Já as argilas decoloração preta, cinza, vermelha e laranja tipo Bapresentam uma baixa freqüência relativa, manten-do-se, no entanto, constante nos níveis correspon-dentes ao montículo (20-80cm). Se extrairmos aargila de coloração laranjaAdesse gráfico pode-mos visualizar melhor a relação entre as outrascolorações de argila (Fig. 4.2).A partir desse gráfico podemos ver a prepon-derância da argila Laranja B em relação às outrascolorações tendo seu pico no nível 20-30cm. Logoem seguida temos também em grande quantidade asargilas de coloração cinza e preta, que apesar dadiminuição entre os níveis 50 e 70cm, apresentamgrande quantidade em toda a seqüência estratigráficaanalisada.Se associarmos as colorações da argila aosdiferentes tipos de antiplásticos (Fig. 5.1 e 5.2)podemos perceber algumas recorrências em seususos.Aargila branca apresenta uma associaçãomuito grande com o cariapé, apesar de ocorrertambém com cauixi como antiplástico primárioassociado a secundários como caco-moído, argila,mineral e cariapé.As argilas laranjasAe B, cinza /preta e vermelha apresentam uma forte associação
  7. 7. 93MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.Fig. 4.1 – Gráfico contendo as variedades de argila por nível da unidade N1152 W1360. Legenda: (1)Branca, (3) Laranja B, (4) Preta e Cinza e (5) Vermelha.Fig. 4.2 – Gráfico contendo as variedades de argila por nível da unidade N1152 W1360, exceto a argilade coloração laranja tipo A. Legenda: (1) Branca, (3) Laranja B, (4) Preta e Cinza e (5) Vermelha.
  8. 8. 94MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.com o cauixi como antiplástico primário e caco-moído e argila como secundário.Ao associarmos tais observações a algumasobservações qualitativas da análise podemosesmiuçar melhor tais recorrências. Como vimos, osfragmentos cerâmicos temperados com cariapéocorrem majoritariamente com argilas de coloraçãobranca ou laranja tipoAbem clara. Na maioria dosfragmentos nos quais esse tempero é predominanteou não tem cauixi ou sua quantidade é muitopequena, em qualquer um dos casos, não se utilizacaco moído nem argila como antiplásticos secundá-rios. Já a quantidade de hematita é bem superior àencontrada nos fragmentos temperados com cauixi,estando esse mineral, assim como os grãos dequartzo muito fragmentados. Nos fragmentos queapresentavam tanto cariapé quanto cauixi, aquantidade de cauixi era sempre muito inferior doque a que encontramos nos fragmentos em que ocariapé não está presente. Isso pode ocorrerdevido a ambos desempenharem a mesma funçãona pasta. Notamos também que os fragmentostemperados com cariapé apresentam uma pastamuito mais porosa que os temperados com cauixi,que parecem ter pastas mais densas. Outro pontoobservado na análise diz respeito ao acabamentodas superfícies. Os fragmentos temperados comcariapé são mais bem alisados chegando a parecerum polimento. Percebemos uma associação dessetempero a argilas de coloração branca. Essas sãotemperadas majoritariamente com cariapé nãoapresentando nem cauixi nem cariapé B.Apesar deapresentarem caco moído como antiplásticos estessão encontrados em extraordinária menor quantida-de do que nos fragmentos temperados com cauixi.Nesses últimos vemos cacos nos quais o temperoparece ser 50% de cauixi e 50% de caco moído.Nos fragmentos que apresentavam decoraçãopolicrômica, associados tradicionalmente à faseGuarita, encontramos uma mistura de cariapé,hematita, argila e quartzo grosso, extremamentemoídos. Nesses fragmentos a presença de cauixiocorre em quantidades muito pequenas.Já entre os fragmentos temperados predominan-tementecomcauixiencontramosoutrasrecorrências.Diferente do cariapé, ele é encontrado em algunsfragmentoscomoúnicotemperoemquantidadeabundante. Quando associado, o cauixi é acompa-Fig. 5.1 – Gráfico exemplificando as associações entre distintas argilas e antiplásticos. Legenda –Antiplásticos: (1) cariapé; (2) cauixi; (3) caco moído; (4) mineral; (5) hematita; (6) argila; (7) cariapé B.Legenda – Argilas: (1) Branca; (2) Laranja A; (3) Laranja B; (4) Cinza/ Preta; (5) Vermelha.
  9. 9. 95MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.nhado majoritariamente por caco moído e argila. Ocauixi é encontrado na quase totalidade das argilas,concentrando-se nas diversas tonalidades da argilalaranja.As argilas laranja B estão associados namaior parte das vezes a uma grande quantidade decauixieargilacomoanti-plásticosecundário.Jádentre as argilas laranjas tipoA, o cauixi é associadoa quantidades variadas de combinações entre argila ecaco-moído. Por vezes, porém, o cauixi apresentauma baixa quantidade, assumindo o caco moído e/ouaargilagrandeimportânciacomoantiplástico.Aimportância desses antiplásticos pode ser vista nasuautilizaçãotambémcomoantiplásticospredomi-nantes, o que ocorre bastante em argilas de colora-ção laranja / marrom. Nesses casos, os cacosmoídos são extremamente pequenos e bem moídos,nãocausandoirregularidadesnasuperfície.Ascerâmicas que têm o caco moído predominante nãopossuem qualquer tipo de decoração, sendo, porémbem alisadas e com brunidura na sua face externa.Como vemos no gráfico abaixo (Fig. 6) agrande maioria (81%) dos fragmentos apresentamantiplásticos orgânicos, associados ou não aelementos não-orgânicos, como os minerais, cacoFig. 5.2 – Gráfico exemplificando as associações entre distintas argilas e antiplásticos (exceto Argila laran-ja A). Legenda – Antiplásticos: (1) cariapé; (2) cauixi; (3) caco moído; (4) mineral; (5) hematita; (6) argila;(7) cariapé B. Legenda – Argilas: (1) Branca; (2) Laranja A; (3) Laranja B; (4) Cinza/ Preta; (5) Vermelha.Fig. 6 – Gráfico com variedade de antiplásticosencontrados na cerâmica do sítio Hatahara.
  10. 10. 96MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.Descrição FonteTABELA1CorrelatosTempero fibraTempero orgânicoAnti-plástico: cauixiTempero mineralTempero caco moídoAumentopermeabilidadedaágua(criagrandesporosempotesjáqueimados,mantémfrescaaágua);estruturalaminada(análisepetrográfica)resultadodepreparaçãoinadequadadaargila–falhanamisturadeargilaetemperoocorridanaargilaaindamolhada;secagemrápidadeargilasexecessivamentemolhadasouplásticas–emáreasúmidasoucomgrandequantidadedechuvasaargilacostumasermuitomolhadaparaaamanufaturados potes. O acréscimo de tempero reduz o excesso deáguaediminuiaplasticidadeasvezeschegandoaopontodaargilapodersertrabalhadaimediatamente.Seasecagemdaargilaeraocritérioprincipaldousodotemperofibrosoentãoaquantidadedefibrasdevevariarenormemente de pote para pote dependendo daumidadeoriginaldaargilautilizada.Ousodessetemperodiminuiotempodesecagematétalvezopotepoderserfeitodeumasóvez.Poros também oferecem boa resistência ao impacto;grupos com mobilidade residencial usam temperoorgânico; escolha do tempero fibroso pode ter sidoem funçãodamelhoranaresistênciadoimpactoeportabilidade.Melhora plasticidade da pasta e ritmo de secagem;melhora a resistência a paredes curvas resultante desua textura fibrosa e leve, maior força na argilamolhada em potes pequenos possibilitando umaconstrução mais rápida; maior esforço e tempo gastono processamento (moagem). Tempero orgânicoaumenta resistência de materiais ainda não queimados(chamados argilas verdes).– Melhor queima – uniformidade– Melhor resistência ao choque térmico– Melhor resistência impacto– Melhor resistência ao choque térmico (segurançadurante o processo de cozimento e da secagem)– melhor resistência impacto (maior solidez)Alta resistência a choque térmico, maior capacidadede aquecimento, diminuição da resistência ao impacto;secagem mais rápida que a do tempero orgânico.Diminuiaresistênciadematériasaindanãoqueimados.DiminuiaresistênciademateriaisaindanãoqueimadosSchiffer e Skibo 1992: 61Reid 1984 in Schiffer eSkibo 1992: 61Schiffer e Skibo 1992: 61Hilbert 1955:35 ementrevistacomceramistasdoOriximináLinné em Hilbert sobreSantarémSchiffer e Skibo 1992: 52Correlatos físico-químicos
  11. 11. 97MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.moído ou argila.Ao analisarmos os correlatoscerâmicos encontrados para os antiplásticosorgânicos (Tabela 1) e fibrosos, percebemos quetais elementos ao serem submetidos ao processo dequeima proporcionam um aumento no tamanho dosporos da pasta (Schiffer e Skibo 1992).De forma genérica tal fato acarretaria em umaumento na permeabilidade do pote. Outracaracterística apontada para os antiplásticosorgânicos ou fibrosos é a secagem rápida de argilasexcessivamente molhadas ou plásticas (Schiffer eSkibo 1992). Em áreas úmidas ou com grandequantidade de chuvas como aAmazônia Central, aargila costuma ser muito molhada para a manufaturados potes. O acréscimo desses temperos reduz oexcesso de água e diminui a plasticidade às vezeschegando ao ponto de a argila poder ser trabalhadaimediatamente (Schiffer e Skibo 1992). O usodesses antiplásticos em grande quantidade tambémdiminui o tempo de secagem uma vez que retêm olíquido presente na argila, permitindo em algunscasos que o pote seja feito de uma só vez (Schiffere Skibo 1992). Segundo esses autores (Schiffer eSkibo 1992), se a secagem da argila era o critérioprincipal do uso do tempero fibroso ou orgânicoentão a quantidade de fibras deve variar enorme-Descrição FonteTABELA1 (cont.)CorrelatosEspessura da paredePorosidade pasta(argila e anti-plástico)Forma arredondadapoteRedução tamanhotemperoQueimaCapacidade deresfriamentoAquecimentoCapacidade de aquecimento:– Paredes finas: alta capacidade de aquecimento ebaixa resistência ao impacto– Paredes grossas: alta resistência ao impacto e baixacapacidade de aquecimentoCapacidade de aquecimentoAumenta resistência ao impactoAumenta resistência ao impactoQuanto mais úmido o ambiente mais devagar a queimaTempero fibra: resiste ao choque térmico da queima,mas são mais suscetíveis a quebra na queima rápidaem decorrência da retenção de umidade. O quepode ser evitado com queimas muito lentas ou opreaquecimento dos potes.Diminuição da temperatura pela evaporaçãoMaior permeabilidade do tempero de areia do que doorgânicoIgual capacidade de resfriamento – permeabilidadesuficienteTempero de fibras: normalmente utilizado em potespara cozinharTempero areia: maior condutividade térmica, aumentoda capacidade de transferir calorSchiffer e Skibo 1992: 52Schiffer e Skibo 1992: 52Schiffer e Skibo 1992: 61Schiffer e Skibo 1992: 61Schiffer e Skibo 1992: 61Schiffer e Skibo 1992Schiffer e Skibo 1992Schiffer e Skibo 1992Schiffer e Skibo 1992Correlatos físico-químicos
  12. 12. 98MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.mente de pote para pote, dependendo da umidadeoriginal da argila utilizada. Na coleção cerâmicaanalisada tal variabilidade ocorre exclusivamentecom o cauixi. Esse antiplástico é encontrado emproporções bem variadas não parecendo havernenhuma correlação positiva com outros fatores,como por exemplo, a argila.Aúnica exceçãodentre os fragmentos analisados é a associação docauixi com a argila de coloração laranja B, na qualé sempre abundante e associado à argila comoantiplástico secundário. O restante dos antiplásticosprimários, como o cariapé e o caco-moído,apresenta regularidades nas suas quantidades.Os resultados das análises petrográficasPara a corroboração dos aspectos relaciona-dos à composição e possíveis correlatos físico-químicos da pasta de argila e antiplásticos quecompõem a cerâmica arqueológica, assim comopara testar as hipóteses levantadas a partir daanálise tecnológica do repertório cerâmico, foramrealizadas análises petrográficas de oito amostrasno laboratório do Instituto de Geociências da USP(R. Paes deAlmeida e L. Janekian), provenientesde diferentes conjuntos cerâmicos relacionados àstrês ocupações do sítio Hatahara. Esboçamosalgumas conclusões preliminares que, comoveremos, corroboram os resultados da análisetecnológica aplicada anteriormente.Um dos resultados mais significativos daimplementação das análises petrográficas estárelacionado à diferenciação de possíveis fontes dematérias primas argilosas.Através do mapeamentodos principais elementos da pasta e sua freqüência,pudemos perceber uma correlação entre o tamanhoe a freqüência das inclusões de quartzo e óxido deferro nas matrizes. Essa correlação é importante,pois pode nos servir como marcador genérico dedistintas fontes de argila, nesse sentido podemosapontar pelo menos três fontes distintas: 1) argila“suja”, com inclusões variadas de minerais como amuscovita, em grande quantidade, e o plagioclásio,em pouca quantidade; 2) argilas com grãos dequartzo de origem vulcânica de tamanhos equantidades variadas, sempre acima de 0,2mm. e3) argila “fina”, com grãos de quartzo extremamen-te finos ou praticamente ausentes.Outroaspectointeressanteenvolveaescolhaetratamentodosantiplásticosutilizadosnaproduçãocerâmica.Atravésdaanálisedasamostraspudemosobservarumapadronizaçãonodiâmetroeorientaçãodasespículasdecauixiemcadafragmentocerâmico,sejanofragmentoemsi,sejanosfragmentosutilizadoscomoantiplástico(caco-moído).Talpadronizaçãoéassociadaaindaàrecorrênciadeassociaçõesentreespículascomdiâmetrosmenoresnasargilascomapresençadegrãosdequartzofinos,eespículasdediâmetrosmenoresassociadasaargilas“sujas”ecomgrãosdequartzomaiores.Taisfatoresindicam-nosacoleta de uma esponja específica para cada tipo deargilae/outipodepotefabricadoenãoumcomporta-mentodecoletaearmazenagemgeneralizadasparaautilização“aleatória”naproduçãode“quaisquer”potescerâmicos.Outropontoimportantepercebidoduranteaanálisedizrespeitoàsdiferentesperformancesdosantiplásticosnoqueserefereàcondutividadetérmica.Comofoiobservadoanteriormente,SchiffereSkibo(1992, 1997) propõem, através de uma série deexperimentações,queosantiplásticosmineraisseriammelhorescondutorestérmicosdoqueosantiplásticosorgânicos,noentantosendoocauixieocariapéambosorgânicos,amboseramclassificadosdamesmamaneira.Apesardeambososantiplásticosapresenta-remumacomposiçãoquímicasemelhantebaseadaemsílica,nessecaso,éasuaformaqueinfluenciaadistinçãoemsuacaracterísticadeperformance.Sendoocauixiumaespículaocaeoarumisolantetérmiconatural,esseantiplásticoapresenta-secomopéssimocondutortérmico.Jáaformarelativamentemaisagregadadaentrecascadeárvore(cariapé)permitequeesseantiplásticoassumaumaperformanceintermediáriaentreocauixi(isolante)eosgrãodequartzo(condutores).As prioridades de performance e os indicado-res de especializaçãoComo observamos anteriormente, o cauixi éabundante na região. Segundo Paes de SousaBrasil (apud Hilbert 1968), o cauixi é um:“... espongiário silicoso de água doce,que prolifera nas águas estacionárias, presoao solo inundado, aos troncos das árvores,aos cascos das embarcações, das madeiras,ou mesmo às folhas caídas, com a condiçãode estarem em água permanentemente.O exame microscópico do materialcalcinado acusou a existência de sílica e
  13. 13. 99MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.regular porcentagem de areia silicosa eoutras impurezas. Medem os espículos emmédia ¼ de milímetro. Têm a forma decrescente, quase retos, sendo os cornospontas bastante agudas, com belo aspectodo cristal de rocha, perfeitamente hialino,superficialmente lisos e polidos”.Aorigem de seu uso segundo Gordon Willey(apud Hilbert 1968) é da região do baixoAmazo-nas, sendo utilizado no Guaporé, Orenoco eSantarém, entre os Carajá, os Canichana e osWaurá, do Xingu (Hilbert 1968).Afacilidade deobtenção desse tempero e a variabilidade naquantidade na qual é encontrado nos fragmentoscerâmicos podem ser indícios de seu uso emcondições semelhantes às apontadas por Schiffer eSkibo (1992, 1997). Nessa hipótese o cauixi teriasido utilizado em proporções variadas nos potes afim de se obter a plasticidade necessária para amanufatura do pote cerâmico de acordo com aumidade das argilas coletadas. O mesmo nãoocorreria com o cariapé nem com o caco moído(este quando utilizado como antiplástico primário),já que apresentam porcentagens regulares de uso.Se nossa hipótese estiver correta, a manufatura depotes com esses temperos necessitaria de argilascom menor umidade. Tendo em vista a grandeumidade do clima e, portanto, das fontes de matériaprima argilosa podemos apontar duas possibilida-des. Na primeira possibilidade, como o cariapéestá quase totalmente relacionado a argilas decoloração branca, essa argila poderia apresentaruma plasticidade distinta das outras que nãonecessitariam de variações na quantidade deantiplásticos para apresentar condições boas demanufatura. O mesmo ocorreria com as argilaslaranja-marrom associadas a antiplásticos de caco-moído. Na segunda possibilidade, as argilasutilizadas para a manufatura de potes temperadoscom cariapé ou caco-moído seriam preparadasantecipadamente através de diferentes técnicas desecagem. Se a segunda possibilidade estiver corretaa diferenciação entre o uso desses antiplásticospoderia nos indicar distintos graus de especializa-ção nos processos de manufatura.Sugerimos que a variabilidade encontrada naquantidade de cauixi (com exceção da sua associa-ção a argilas de coloração laranja B) presente nosfragmentos cerâmicos analisados aliado à falta decorrelação entre tais quantidades e outros elemen-tos observados possa ser um indicador do uso nãoespecializado desse antiplástico.Apartir dessahipótese tais argilas receberiam pouco preparoanterior à sua utilização, estando muito úmidas eplásticas para a manufatura do pote. O acréscimodo cauixi aceleraria o processo de secagem,diminuindo a plasticidade da argila.Aquantidade decauixi acrescentada seria, portanto, variável deacordo com a umidade da argila utilizada. De modoinverso, sugerimos que a associação encontradaentre o cariapé como antiplástico preponderante ea argila de coloração branca seja indicadora de umprocesso mais apurado e regular de manufatura.Nessa hipótese, a argila branca seria coletadaantecipadamente, talvez até de fontes de matériaprima mais distantes, sendo armazenada e passan-do por diversos procedimentos de secagem atéadquirir a plasticidade necessária para o acréscimodo cariapé em quantidades previamente estipuladaspara sua manufatura.A utilização desses conceitos para entender-mos a variabilidade das cerâmicas encontradas nosítio Hatahara não está associada ao local deutilização do artefato. Sendo lento o processo demanufatura do artefato cerâmico, especialmentecerâmicas formalmente complexas, sendo neces-sárias diversas etapas de secagem e queima, o usodo artefato não é imediato e portanto seu local defabricação não é necessariamente seu local deuso. Nos referimos aos processos de manufaturanão especializada ou especializada no que serefere a um tratamento prévio das matérias primase uma maior rigidez nos procedimentos demanufatura em contraposição a uma utilização damatéria prima bruta sem tratamentos prévios, oque gera uma maior variabilidade nos procedimen-tos de manufatura.Outra característica relacionada genericamenteao uso de antiplásticos orgânicos é a resistência aoimpacto. Segundo Reid (1984, apud Schiffer eSkibo 1992: 61) o aumento no tamanho dos porosna pasta oferece boa resistência ao impacto. Esseautor aponta o uso de antiplásticos fibrosos entregrupos com mobilidade residencial decorrente deum melhor desempenho na portabilidade dos potes.Outro fator que aumentaria a resistência ao choquedos potes cerâmicos é o tamanho reduzido dotempero. Na coleção cerâmica analisada a maiorresistência ao impacto é decorrente de umacombinação de escolhas: o antiplástico orgânico/fibroso e o tamanho reduzido dos antiplásticosdecorrente de um apurado processo de moagem.
  14. 14. 100MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.No entanto, o contexto no qual tais cerâmicasestão inseridas parece divergir do apontado porReid. A densidade dos sítios e a duração dasocupações de aproximadamente duas gerações(até 80 anos) indicam-nos que a mobilidaderesidencial não deveria ser um fator predominantena seleção das performances dos artefatoscerâmicos. Apesar de não termos indicaresconclusivos, o acréscimo do antiplástico orgâniconesse contexto não parece estar ligado a suaportabilidade, talvez nesse caso a importância daresistência ao impacto se dê por razões exatamen-te opostas, a um prolongamento de sua vida útil.Em ambientes úmidos como os amazônicos, acerâmica costuma ser feita nos tempos de seca(julho), quando os potes secam mais rápido epodem ser queimados (Deboer & Lathrap 1979).Uma maior resistência ao impacto pode serdecorrente de uma preocupação em manter a vidaútil do pote até a próxima estação seca, quandoos potes são novamente feitos.Outro fator interessante apontado pelosautores como sendo correlato ao uso de antiplásticosorgânicos e/ou fibrosos é a resistência da pastaainda plástica em paredes curvas (Schiffer e Skibo1992). Esse fator é extremamente importante paraentendermos a cerâmica proveniente do sítioHatahara, uma vez que a variabilidade formal dospotes analisados é muito grande. Mapeada porHilbert na década de 50, a cerâmica encontradanessa região apresenta contornos formais bastantecomplexos com diversos pontos de inflexão,gargalos restritivos, formas quadradas, apêndicese/ou apliques modelados etc.. Amanufatura detais formas além de trabalhosa deveria levar muitotempo já que as curvas acentuadas exigiriamprocedimentos de secagem antes da continuaçãodo restante do pote. Com uma resistência plásticamaior, fornecida pelo acréscimo do antiplásticoorgânico, o tempo de manufatura diminui eampliam-se as possibilidades de contornosformais.Como vemos, a escolha do antiplásticoorgânico no contexto daAmazônia Central e maisespecificamente no sítio Hatahara deve ser entendi-da como decorrente de uma série de fatores. Entreeles, a abundância dessa matéria prima e as suasqualidades físico-químicas que aceleram o processode manufatura e secagem permitem maior resistên-cia na manufatura de curvas no contorno formal dopote e ao impacto, prolongando sua vida útil.As técnicas de manufaturaO próximo passo é a técnica de formaçãopropriamente dita do pote. NaAmazônia encontra-mos basicamente três variações: o modelado, omoldado e o acordelamento ou roletado. Oprimeiro, dificilmente utilizado para a construção dopote inteiro, consiste em modelar diretamente (comas mãos) a argila, como vemos no caso do altoXingu. Essa técnica é normalmente utilizada namanufatura de apêndices, apliques e em algumasbordas. Ela é utilizada desse modo nas trêsvariedades cerâmicas encontradas na região daAmazônia, mas mais amplamente durante a faseManacapuru, associada à Tradição Borda Incisa(Hilbert 1968:122; Meggers e Evans 1983).O moldado consiste em prensar a argila aindaplástica diretamente entre as mãos produzindoformas discoidais planas. NaAmazônia esta técnicaé utilizada para a manufatura das bases, as quaisservem de suporte para a aplicação dos roletes quecompõem as paredes.Outra técnica de manufatura dos potescerâmicos é o acordelado, normalmente aplicada àconstrução da própria estrutura do pote. Essatécnica consiste na sobreposição de roletes deargila.Adotaremos aqui a definição inclusiva deShepard (1965:57), que utiliza o termo para sereferir tanto ao posicionamento espiralado dosroletes, como a uma sucessão de anéis. Esseprocedimento tem ampla difusão no mundo inteiro,chegando a ser considerado o método clássico demanufatura de potes cerâmicos. Essa técnica éutilizadaparaatotalidadedopote,sendocomumenteassociada a outras técnicas, como a sua aplicaçãosobre uma base plana, feita através de váriastécnicas de manipulação manual. Após oposicionamento dos roletes na forma desejada, aespessura do pote é reduzida através de váriosprocessos distintos nos quais a sua parede éadelgada. Já sobre uma pasta firme, a superfíciepode ser alisada, ou ainda afinada mais uma vez.No decorrer da análise cerâmica percebemoscertos padrões nas maneiras de se fazer certosconjuntos cerâmicos. Essa padronização confereunidade ao conjunto criado.Aobservação dadistribuição desses diferentes modos de se fazer naestratigrafia assim como suas mudanças ao longodo tempo nos permitem entender melhor ossistemas tecnológicos. Podemos perceber granderigidez nas técnicas de manufatura no que chama-
  15. 15. 101MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.mos de Conjunto 1: sobre uma parede quase secaé aplicado um rolete na face externa próxima àborda. Depois ambos são alisados puxando a argilado rolete aplicado em direção ao lábio, recobrindo-o. O acabamento é dado com um acanalado nabase do rolete aplicado (sentido parede) (Fig. 7).Atécnica se mantém a mesma em todas asbordas desse conjunto em todos os níveis nos quaisse manifesta (de 0-10cm a 20-30cm), ao mesmotempo em que temos uma variação no uso dadecoração pintada. Essa é composta por vezes porengobos (branco) e pintura, esta última possuindosempre variações com vermelho e branco.Apintura é restrita ao lábio e à face externa, só seapresentando na face interna em potes bem abertos(nos quais não se apresenta na face externa).Dentre as diferentes formas das basesencontradas podemos observar a preponderânciadas bases planas (92%) em relação a outras formasde bases como as convexas e côncavas. Essasbases são bastante comuns na cerâmica amazônicacomo um todo. Diferenciamos genericamentequatro formas distintas dentre as bases planas.Aschamadas planas, as com pedestal plano, a planarestrita e as planas com reforço externo.Alémdessas foram observadas bases com pedestalconvexo. Não foram encontrados exemplares combase côncava.Duranteaanálisenotamostambémmaneirasdistintas de se manufaturar as bases. Dentre essas,os assadores são os que possuem maior inflexibilida-de nos padrões de manufatura. Os assadores sãobases planas feitas sobre uma superfície coberta comfolhas ou esteiras (Fig. 8). Sobre uma argila aindaplástica moldada em forma discoidal são aplicadosroletes na extremidade que, uma vez alisados,formamumaparede/bordairrestritivaouvertical(Fig. 9). Por vezes é feito um reforço na junção dabase com a parede através da aplicação de umrolete na face interna ou externa. Os assadoresapresentamnormalmenteângulosabruptosnajunçãoda parede interna com a base, uma altura reduzida,ângulo de posicionamento da borda igual ou superiora 90°, entre 90° e 135°, tendo suas bordas maisespessas na parte inferior (junção com a base) doque na região próxima ao lábio.A colocação de folhas e esteiras numasuperfície plana para a manufatura dos assadores éimportante, pois só ocorre na confecção desseconjunto cerâmico. O restante dos potes é feitosobre suportes lisos, provavelmente madeiras. Essadiferença deve ocorrer em função das grandesdimensões dos assadores, que diferem enormemen-te do restante dos conjuntos cerâmicos, nos quaismesmo os potes de diâmetros maiores possuemdiâmetros de base relativamente reduzidos.Já entre as bases com pedestal podemosdistinguiralgumasmaneirasdistintasdemanufatura(Fig. 10). O pedestal plano é feito a partir de umabase plana moldada de forma discoidal sobre aqual são acrescidos roletes nas extremidades finaispara a manufatura das paredes (Fig 10-1). Tambémentre os pedestais planos encontramos paredesroletadas formando uma primeira camada da baseFig. 7 – Seqüência de aplicação de rolete ao lábio para reforço externo da borda característica doconjunto cerâmico 1. Desenho: Malu Prado.
  16. 16. 102MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.sob a qual é aplicada uma nova camada moldadaem forma discoidal (Fig.10-2). Entre os pedestaisconvexos encontramos três possibilidades demanufatura. Na primeira o pedestal é feito a partirde roletes que são aplicados e alisados junto a umabase plana moldada em forma discoidal (Fig.10-3).A essa forma pode ser acrescida uma parederoletada na sua extremidade final (Fig.10-3b), ou auma segunda camada de base, roletada de formacontínua com a parede (Fig.10-3a).Ainda outrapossibilidade de manufatura é o pedestal compostopor apenas um rolete aplicado e alisado sobre umacamada de base roletada de forma contínua àparede do pote (Fig.10-3c).É interessante notar em alguns potes ademarcação das partes constituintes dos potesatravés do reforço das áreas de transição, como éo caso da transição entre bases e paredes. Essa émarcada usualmente através de pedestaisacanalados, incisões, pinturas ou ainda acréscimosde roletes na face interna. Tal necessidade demarcação pode ser observada dentre diversastradições tecnológicas brasileiras. Entre gruposceramistasAssurini (Silva 2000) foram observa-dos paralelos entre os potes cerâmicos e o corpohumano feminino. As partes dos potes eramcomparadas às partes do corpo feminino, como olábio, o pescoço e o corpo. Nesse mesmo grupoo alisamento dos potes era entendido como umaforma de tornar a superfície semelhante à pele deseu corpo. O polimento e a decoração tornavamseus “corpos” mais belos. Apartir de tais concep-ções as transições eram acentuadas a fim demarcar sua correspondência às transições docorpo humano. Paralelos semelhantes podem serencontrados entre os Tupi e outros ceramistas doBrasil Central.Fig. 8 - Projeção do contorno formal dos assadores.Desenho: Malu Prado.Fig. 9 – Seqüência hipotética de manufatura dos assadores, característicos do conjunto cerâmico 10.Desenho: Malu Prado.
  17. 17. 103MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.escolhas relacionadas ao contorno formal do pote.Como mencionamos anteriormente, as cerâmicasencontradas nessa região apresentam grandevariabilidade formal, em parte desconhecida atéhoje devido ao número reduzido de trabalhos queanalisassem essa questão na região até o momento.Na coleção cerâmica analisada encontramos 57%de bordas irrestritivas (diâmetro da borda é maiordo que o diâmetro máximo do pote), 12% debordas restritivas (diâmetro da borda é menor doque o diâmetro máximo do pote) e os 31%restantes são verticais (diâmetro da borda é igualao diâmetro máximo do pote) (Shepard 1965).A partir da análise realizada com a quantidadede fragmentos pelo diâmetro e espessura daspeças, dividimos as espessuras das peças analisa-das em finas, médias ou grossas.As espessurasfinas vão de 0 a 1cm, as médias de 1 a 2cm e asgrossas são maiores do que 2cm. Quanto aosdiâmetros das bordas, dividimos em pequeno,médio e grande. O pequeno vai de 1 a 10cm, omédio de 11 a 40cm e o grande acima de 41 cm.Os fragmentos analisados que se enquadram naespessura fina têm predominantemente diâmetrospequenos e médios (de 10 a 30cm). Os fragmentosde espessura média possuem diâmetros médios eos de espessura grossa apresentam diâmetrosmédios e grandes. É interessante observarmos amaior rigidez que os fragmentos de espessuragrossa apresentam, associados a uma menorvariabilidade formal. Observamos, como seria dese esperar, uma correlação positiva entre formasrestritivas e diâmetros menores, assim como entreformas irrestritivas e diâmetros maiores. Já asformas verticais podem estar associadas a ambosos diâmetros, concentrando-se, porém, entre osfragmentos de diâmetro médio e grande.A preponderância de fragmentos cerâmicosadvindos de potes irrestritivos em todos os níveisanalisados não nos permite entender melhor aescolha de materiais construtivos nas diferentessubcamadas do montículo. No entanto, se nosdetivermos na análise qualitativa podemos perceberalgumas variações dentre os potes irrestritivos nasdiferentes camadas. Nos níveis mais superficiaisque recobrem a subcamada B do montículo, asformas irrestritivas aparecem na maior parte empotes de alturas médias a altas. Em menor quanti-dade encontramos tigelas e pratos fundos comalturas reduzidas e pequenas dimensões. Já asformas presentes na subcamadaA, apresentam emFig. 10 – Possibilidades hipotéticas de manufatu-ra de bases com pedestal encontradas no sítioHatahara. Desenho: Malu Prado.A escolhas das técnicas citadas acima permi-tem à ceramista uma maior ou menor liberdade nas
  18. 18. 104MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.grande parte fragmentos provenientes de tigelasrasas, pratos fundos ou assadores de grandes emédias proporções. Nessa camada tambémpercebemos um aumento no tamanho dos fragmen-tos. Sugerimos que a forma dos potes era mais umcritério de seleção na escolha do material construti-vo do montículo entre outros indicadores, comotamanho do fragmento nas distintas camadas queevidenciam a divisão de densidade e articulaçãodos fragmentos cerâmicos observados em campo.Os tratamentos de superfícieTendo seu formato geral pronto, são feitos ostratamentos de superfície – que podem ser tantosobre uma argila ainda úmida, quanto seca. Essaetapa pode ser chamada de fase de acabamento dovaso ou da superfície, já que é nela que as irregula-ridades, tanto da superfície quanto da própriaforma, podem ser corrigidas. Fazem parte da etapade acabamento o alisamento, o enegrecimento, opolimento (Rye 1981:40), a aplicação de resinas eem alguns casos o engobo (Shepard 1965:67). Oalisamento pode ser feito com as mãos ou pode-seutilizaruminstrumentocomoumcoquinho,umacabaça, uma semente ou uma lasca. Observamosque na maioria dos fragmentos analisados oalisamento é feito horizontalmente em toda asuperfície do pote.As plantas oferecem possibilida-des de pigmentação e tratamento da superfícieproduzindo um efeito negro sobre o pote, o quechamamos de enegrecimento. Tal coloração sedeve ao fato de os extratos vegetais aplicadossobre a superfície carbonizarem-se em contato como calor excessivo, como o sofrido durante o processodequeimadapeça,sejaesseprimárioousecundário.Aresinavegetalpodeserutilizadadediferentesmaneiras,possuindotantoumafunçãoestética(pordarbrilhoàsuperfícieeprotegeradecoração),quantoprática,impermeabilizandoasuperfíciedopote.Opolimentoéfeitoatravésdeprocedimentossemelhan-tesaodoalisamento,porémsobresuperfíciessecasecomautilizaçãodeinstrumentosarredondadoscomo,porexemplo,umseixo.Optamos por utilizar a definição de Rye, quenão inclui nessa etapa o engobo, como faz Shepard.Sabemos, no entanto, que, em muitos casos, o usodo engobo se dá como um acabamento funcionalda superfície do vaso com o objetivo deimpermeabilizá-lo; nossa escolha se dá pelaquantidade de fragmentos encontrados na regiãonos quais o engobo está associado e/ou servindode base a outras pinturas na superfície.Os fragmentos cerâmicos analisados apresen-taram todos alguma forma de tratamento desuperfície (99%), sendo que 93% dos fragmentosanalisados apresentam alisamento – foram incluídosos fragmentos com resina e polimento, uma vez quesua superfície é alisada antes da aplicação da resinaou do polimento. O alisamento desses fragmentos émuito apurado, sendo quase todas as superfíciesdestituídas de qualquer irregularidade.Tal qualidadedificulta a observação de técnicas de manufatura eos pontos de junção dos roletes. É interessanteobservar que, com exceção do alisamento, que seapresenta em todos os potes, as outras formas detratamento de superfície se concentram nosfragmentos sem decoração plástica ou pintada.Aresina é por vezes associada a técnicas decorativaspintadas, especialmente à policromia, dando brilhoe protegendo essa pintura. No entanto, ela tambémaparece em fragmentos sem decoração alguma,provavelmente assumindo um papel deimpermeabilizante.Técnicas decorativas: plástica e pintadaAs técnicas decorativas podem ser divididasem plásticas e pintadas. Fazem parte dessa etapavárias técnicas de manipulação como as incisões,excisões, acanalados, modelados e apliques, e deuso de pigmentos para a pintura e aplicação deengobos.Dentre as técnicas de decoração plástica, omodelado é o que permite ao ceramista maiorliberdade para explorar representações zoomorfase antropomorfas em relevo. Essa técnica utiliza amanipulação manual, sendo, no entanto, normal-mente associada a outras técnicas como o pontea-do e a incisão.A incisão foi largamente utilizada nas fasesManacapuru e Paredão, sendo seus diferentespadrões diagnósticos de uma ou outra cerâmica.Essa técnica consiste na composição de motivosgeométricos em linhas na superfície da pasta.Aqualidade da incisão depende da textura e rigidezda pasta assim como do tipo e qualidade deinstrumento utilizado. O instrumento escolhido parase fazer a incisão vai influenciar diretamente noresultado da decoração, já que alguns instrumentos
  19. 19. 105MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.permitem linhas extremamente curvas (como uminstrumento pontiagudo) e precisas, enquantooutros tendem a limitar o ceramista a curvas maisabertas e linhas retilíneas, como as feitas com umalasca. Normalmente é possível notar uma certaconsistência na decoração de um mesmo conjuntocerâmico, assim como de tradições dispersas porum amplo território como a conhecida TradiçãoPolicrômica da Amazônia.Com relação à decoração pintada podemosabordar aspectos relacionados aos pigmentosmatrizes e aos métodos de aplicação da tinta.Aescolha dos pigmentos matrizes gira em torno deduas questões centrais: a cor e a aderência dosmesmos. O pigmento deve manter uma coloraçãoatraente mesmo após a queima, ao mesmo tempoem que deve aderir (e se manter no local após aqueima) homogeneamente à superfície.Taiscaracterísticas limitam a escolha principalmente àutilização do vermelho, laranja, vinho, preto, brancoe marrom-escuro, além de algumas cores derivadasextraídas de óxidos de ferro. Dentre as cores acimamencionadas, exceto o branco que pode serproveniente de argila ou carbonato de cálcio, amaioria é derivada de matérias metálicas.Os pigmentos dessa origem possuem umaenorme variedade de tonalidades de acordo com acoloração da argila sobre a qual são utilizados, assimcomo o processo de queima ao qual são submetidos.Já a coloração branca, principalmente quando éusada no engobo, caso típico na fase Guarita, não édecomposiçãometálicaenormalmenteestáassociada a uma mistura de argila e água.Com relação aos métodos de aplicação dadecoração pintada, entendida aqui tanto como apintura como o engobo, podemos organizá-losquanto à ordem e aos padrões de sua aplicação.Para melhor compreender a ordem em que foramaplicados, buscamos principalmente indícios desobreposição visível entre as diferentes camadas dapintura. Para detectarmos padrões decorativos énecessário um mapeamento das recorrências entreas associações. Tais recorrências podem se dar emdois aspectos entre os elementos que compõem adecoração e entre a composição total e sualocalização em determinadas partes de um pote oudeterminados conjuntos cerâmicos.Durante nossa análise pudemos esboçaralgumas relações no que se refere às técnicas deaplicação tanto das decorações plásticas quantodas pintadas, assim como a respeito de algumasrecorrências quanto aos elementos e a localizaçãode sua composição, como pode ser observado nocatálogo de conjuntos cerâmicos. No entanto, asobservações nesse sentido são extremamentelimitadas, uma vez que não constituíram o foco denossa análise.Através da análise dos fragmentoscerâmicos notamos algumas padronizaçõesdecorativas refletidas em alguns dos conjuntosformados. O conjunto 1 (Machado 2005), porexemplo, é caracterizado, entre outras coisas, pelaaplicação de um rolete na face externa do lábiocom um acanalado como acabamento.Adecoraçãodesses fragmentos é feita através de acanalados emmotivos geométricos por vezes associados aengobo ou pintura – não foi observada policromianesse conjunto.Além de apresentarem granderigidez nas técnicas de manufatura do reforço dolábio, as técnicas decorativas das paredes tambémapresentaram bastantes recorrências. Os acanaladoscompõem motivos geométricos e são feitos deformaperpendicularaolábio.Atravésdesobreposiçõesdos traços decorativos percebemos que essadecoração plástica foi feita posteriormente aosacanalados que compõem o acabamento daaplicação do rolete no lábio.Após a manufaturados motivos geométricos é feito mais um acanaladoque contorna o motivo e o fecha (Figs. 11 e 12).Fig. 11 – Seqüência hipotética de manufatura da decoração plástica acanalada. Desenho: Malu Prado.
  20. 20. 106MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.Como conseqüência da limitação técnica que oacanalado acarreta, as curvas dos motivos geomé-tricos são bem abertas, não ocorrendo mudançasabruptas na direção das linhas, como ocorre nadecoração incisa. É interessante observarmos, noentanto, que tal composição foi notada de formamuito semelhante em fragmentos de decoraçãopintada, apesar de essa técnica não oferecerrestrições técnicas como o acanalado. Estaobservação pode sugerir que a realização de talmotivo geométrico teve origem a partir da formadecorativa plástica, o qual foi utilizado posterior-mente também nas decorações pintadas.Observações semelhantes foram apontadaspor Lathrap (1973) em seu modelo cardíaco. Nabase de sua argumentação de inovação local dacerâmica naAmazônia Central, estava a mudançade uma decoração plástica (materializada nacerâmica da fase Manacapuru) para uma decora-ção pintada (materializada na cerâmica da faseGuarita). Não estamos sugerindo que a mudançaapontada acima seja um indício de inovação local,uma vez que a permanência dos motivos menciona-da acima se dá em um mesmo tipo cerâmico (faseGuarita). Nossa comparação visa apenas indicaruma possível ordem cronológica para a ocorrênciade tais motivos.Outro fator interessante de se referir é agrande semelhança entre os motivos geométricospintados em toda a chamada Tradição Policrômicada Amazônia. Nenhum estudo foi feito ainda nosentido de comparar sistematicamente a composi-ção dos motivos geométricos pintados de formapolicrômica ao longo daAmazônia. No entanto, asemelhança entre os motivos pintados é largamenteconhecida.Estudos que tivessem como objetivo omapeamento das semelhanças decorativas nasdiferentes regiões, assim como o mapeamentoregional de sua maneira de fazer e talvez até dealguma referência cronológica de sua origem,seriam de fundamental importância para o entendi-mento dessa grande padronização decorativa. Senossa observação em relação ao motivo policrômicoter vindo de motivos plásticos semelhantes estivercorreta,oquesignificarelacionarapinturapolicrômicaencontrada naAmazônia Central à de outrasregiões? Tal observação poderia nos encaminharpara hipóteses de dispersão como a proposta porLathrap, no entanto, as datações das cerâmicaspolicrômicas da Ilha de Marajó são bem maisantigas do que as obtidas na região central. Énecessário um estudo comparativo sistemático paraque possamos melhor entender tais questões.Ambientes de queimaO processo de queima inicia-se apenasquando o pote está completamente seco, doFig. 12 – Seqüência hipotética de manufatura da decoração plástica acanalada. Desenho: Malu Prado.
  21. 21. 107MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.contrário, a vaporização da água durante oprocesso de aquecimento e sua pressão podem vira quebrar o vaso. É apenas através do processo dequeima que a argila passa a possuir as característi-cas conhecidas da cerâmica, como a dureza, aporosidade e a estabilidade. Durante esse processoé possível que o ceramista controle a temperaturamáxima e mínima atingida através do tipo docombustível utilizado e do tipo de forno no qual elaé feita. Outro fator de controle é a atmosfera quecircunda as vasilhas. O controle é feito através daquantidade de ar disponível para queimar aquantidade de combustível disposta no forno. Umaquantidadeinsuficientedeoxigênioproduzirácondições redutoras. Se o ar for suficiente aocombustível, sem deixar excessos nem de um nemde outro, teremos um efeito neutro. Finalmente, seháexcessodeoxigênioteremosresultadosoxidantes.A coloração final da cerâmica deriva em grandeparte do seu processo de queima. Quanto maisoxidante foi a queima, mais claras as cores adquiri-das pela cerâmica. O inverso também é verdadeiro,quanto mais redutor foi o processo, a cerâmica iráadquirir tonalidades mais escuras de cinza.Na literatura a respeito de sociedadesceramistas tradicionais, pastas de coloração maisclaras, vinculadas a ambientes de queima oxidantes,eram tidas como indicadores de processos dequeima a céu aberto. No entanto, trabalhos deetnoarqueologia (Silva: comunicação pessoal) eexperimentação demonstraram a existência demicro-ambientes formados nos procedimentos dequeima a céu aberto criando tanto ambientesoxidantes quanto redutores. Tal constatação podeser comprovada nos potes que apresentamvariações nas colorações da pasta, indicando tantoambientes oxidantes quanto redutores.Acoloraçãoda pasta é alterada por diversos fatores comocomposição da argila, qualidade e quantidade doantiplástico, posicionamento do pote na fogueiraetc..Alguns trabalhos hoje têm indicado que aforma mais adequada de se entender o processo dequeima é a análise de alguns elementos componen-tes para se ter uma idéia da temperatura de queimae a partir daí inferir o procedimento utilizado.Segundo Shepard (1965:74) podemos dividiro processo de queima em três partes distintas: 1) operíodo de desidratação. Quando a cerâmica éexposta a um baixo e gradual aquecimento paraevitar a formação da pressão. 2) o período deoxidação. Quando as partículas carbonáceas sãoqueimadas e somem da argila e o ferro e outroscomponentes são completamente oxidados. 3) operíodo de vitrificação. Durante esse período oscomponentes da cerâmica integram-se, adquirindomaciez. Durante todo esse processo, a obtenção deuma coloração uniforme depende da proteção dopote do contato direto com o fogo. Para tanto eracomum entre os ceramistas pré-históricos autilização de grandes fragmentos de cerâmicadispostos entre os vasos e o fogo e recobrindo-os.No entanto, tal procedimento é dispensável se oobjetivo do ceramista é obter uma superfícieenegrecida.Ao falar das características técnicas e formaisda cerâmica é importante lembrar que a escolhados materiais utilizados, tanto para a formação,quanto para a queima, é essencial, já que esses équedelimitarãoaspropriedadesfísicasdovasilhame,garantindo determinado desempenho no exercíciode uma função específica. Segundo Rye (1981:26),materiais específicos estão normalmentecorrelacionados a funções específicas. Dessaforma, potes que devam ser utilizados para cozinharou aquecer repetidamente, devem possuir granderesistênciaachoquestérmicosebaixapermeabilidade.Num clima quente, por exemplo, um pote para oarmazenamento de água deve ter um grau depermeabilidade suficiente para a água atingir asuperfície externa do pote, evaporar e resfriar o seuconteúdo. Já o armazenamento de outros líquidosexige uma cerâmica com baixa permeabilidade, queminimize a perda do conteúdo. O meio encontradopelos ceramistas para utilizar os mesmos métodosde formação e queima para todos os potes e aindaotimizar sua aplicação a diversas funções, foi aredução da permeabilidade através da aplicação deum revestimento orgânico na superfície do poteapós a queima.ConclusãoAo final da análise cerâmica sugerimosalgumas hipóteses de entendimento de sua variabili-dade. Trabalhos de experimentação como os deSchiffer e Skibo (1992) indicam que o acréscimode antiplásticos orgânicos e/ou fibrosos aceleram asecagem da argila com relação a outros tipos deantiplástico, aumentam sua resistência ao impacto esua resistência nas paredes curvas. Propomos quetais correlatos possam ser aplicados também para a
  22. 22. 108MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.cerâmica encontrada na região daAmazôniaCentral, especificamente àquelas pertencentes aosítio Hatahara. Tal sugestão se deve, entre outrosfatores, ao uso recorrente de cauixi e cariapé comoantiplásticos orgânicos na fabricação das cerâmicasda região.No que se refere aos procedimentos desecagem, Schiffer e Skibo (1992) propõem queargilas coletadas em ambientes úmidos poderiamser secadas através do acréscimo abundante deantiplásticos orgânicos. Tal utilização, para osautores, poderia ser atestada pela grande variabili-dade nas porcentagens de antiplásticos encontradasnospotescerâmicos,variabilidadequecorresponderiaà umidade da argila no momento da coleta.Aoobservarmos tanto as argilas como sua associaçãoa determinados antiplásticos notamos, em primeirolugar, uma recorrência nessas associações. Dentreas cerâmicas pertencentes à fase Guarita, asargilas de coloração branca estão relacionadas aocariapé predominante, enquanto as argilas decoloração laranjaAe B, assim como as vermelhase pretas e cinzas, estão relacionadas ao cauixi.Nesse segundo grupo, os antiplásticos secundáriostambém assumem um papel diferenciador importan-te. Temos então a associação das argilas laranjas Bcom cauixi e argila, assim como entre as laranjasA,as laranja-marom se associam mais ao cauixi comcaco-moído. Como observamos anteriormente ogrupo de argila com coloração laranjaA é o maisvariado tanto pela própria variabilidade nos tonsdessa coloração, quanto na sua associação adeterminados antiplásticos, decoração, formasetc.. Tamanha variabilidade nos chamou a atençãopara um secundo aspecto, este relacionado adiferenças na porcentagem de antiplásticosacrescentados nas diferentes argilas.Além de umaforte associação entre a argila branca e o cariapé,notamos também uma rigidez na proporção de suautilização. Inversamente ao uso do cauixi nosfragmentos de argila laranja A, além da grandevariabilidade na utilização de antiplásticos secun-dários, notamos também grande variabilidade nasporcentagens de cauixi acrescentadas. Taisassociações poderiam ser indicadores de situa-ções semelhantes às apontadas por Schiffer eSkibo (1992). Se tal associação for correta,sugerimos que os distintos processos de tratamen-to das matérias primas poderiam estar relaciona-dos a procedimentos de manufatura especializadose não especializados.Como vimos anteriormente, a utilização desseconceito para os vestígios cerâmicos analisados sefundamenta no tratamento prévio e apurado daargila antes de sua manufatura em contraposição auma manufatura menos apurada, podendo atéocorrer imediatamente após a coleta da argila.Dessa forma, a argila de coloração branca seriacoletada e previamente a sua manufatura passariapor diversos processos de secagem até atingirplasticidade suficiente para o acréscimo de umaquantidade específica de cariapé. Já a argila laranjaA, após ser coletada, poderia ter sua plasticidade“corrigida” em pouco tempo através do acréscimode porcentagens variadas de cauixi, estando prontapara a manufatura de potes cerâmicos.É importante observarmos que a utilização decauixi como antiplástico não está necessariamenteassociada a procedimentos de manufatura nãoespecializada. Tal procedimento parece no casoem estudo estar relacionado a certos tipos deargila, como a laranjaA. Nas argilas laranja B, porexemplo, percebemos uma maior rigidez no uso docauixi como antiplástico e na associação secundáriade outra argila como antiplástico.Se aliarmos o processo de manufaturaespecializada – associado à argila branca e aocariapé – à utilização restrita desse antiplástico,apesar de sua abundância local, podemos sugerirque a sua utilização fosse um marcador cultural. Talhipótese é reforçada pela recorrência de associa-ções entre a argila branca, o cariapé e a decoraçãopintada policrômica.Apesar de ter sido tratadacomo tal pela historiografia, a utilização deantiplásticos como marcadores culturais era feita deforma direta. Como vimos, há diferentes formas desua utilização que refletem distintos aspectos dosistema social que o utilizou.O aumento da resistência ao impacto decor-rente também do acréscimo de antiplásticosorgânicos, foi entendido aqui não como associado àportabilidade – como é recorrente na literatura –mas sim a um aumento na vida útil dos artefatos.Apesar de, segundo Hilbert (1968), o cauixiaumentar a resistência ao choque térmico, talcaracterística de performance seria mais eficientecom antiplásticos minerais (Schiffer e Skibo 1992).Segundo experimentações comparativas, essesúltimos oferecem alta resistência a choque térmico euma maior capacidade de aquecimento. Noentanto, há uma diminuição da resistência aoimpacto.
  23. 23. 109MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.NaAmazônia Central a disponibilidade deantiplásticos orgânicos, como o cauixi e o cariapé,é abundante em proporções semelhantes. Damesma forma, poderiam ser facilmente obtidosantiplásticos minerais, como, por exemplo, areia.Aescolha por antiplásticos orgânicos parece serdecorrente de uma priorização de um aumento davida útil do artefato, maior liberdade de contornoformal e aceleração do processo de secagem paraa manufatura em detrimento de uma maior capaci-dade de aquecimento e resistência ao choquetérmico. Essas características são, no entanto,bastante importantes para utensílios cerâmicos queservem para cozinhar, em função de seu aqueci-mento repetido.Tais escolhas podem nos indicar uma preocu-pação maior com os potes que não vão fogo (nãosendo potes para cozinhar), refletindo tanto umapriorização de seu longo uso como uma priorizaçãoestética, pelo aumento da resistência nas curvas nasparedes.Podemos concluir, portanto, que a análisetecnológicarealizadaapartirdosvestígioscerâmicosconstatou a presença de formas de especializaçãona produção do repertório artefatual associado aum período de ocupação do sítio. Tal inferência édecorrente de uma priorização de escolhastecnológicas relacionadas ao aumento da vida útildo artefato e maior liberdade na produção docontorno formal, em detrimento de uma melhorperformance de aquecimento e resistência aochoque térmico, possíveis indicadores de umapreocupação na elaboração de potes que não vãoao fogo. Tais evidências foram entendidas comoreflexos de uma priorização estética no repertórioartefatual analisado, principalmente ligada àpossibilidade de manufatura de curvas acentuadasnas paredes dos potes.Os dados a respeito do processo de manufatu-ra do material cerâmico apresentados acima são deextrema importância para o nosso trabalho, poissão os responsáveis por qualificar as distintascamadas de construção propostas através davariação na densidade do material cerâmico atravésdos níveis estratigráficos. No entanto, é importantelembrarmos que se nossa hipótese de utilização dacerâmica como material construtivo estiver correta,sua função naquele contexto arqueológico estádissociada, pelo menos diretamente, do seuprocesso produtivo.Aseleção de fragmentosconstituintes das camadas formadoras do montículofaz com que as características de performanceacima descritas assumam outro papel. Dessa forma,poderíamos ter, por exemplo, a decoraçãodeixando de ter um papel simbólico importante porsua determinada localização no pote, mas assumin-do um papel importante pela sua própria presença.Mais ainda, cerâmicas utilitárias sem decoração quepoderiam estar destituídas de valorização simbólicano uso cotidiano poderiam passar a possuir talvalor devido à sua forma e proporção apropriada àconstrução.A pesquisa realizada buscou entender acomplexidade dos processos de formação envolvi-dos na construção de aterros artificiais, na tentativade compreender o mosaico de atividades quegeraram esse vestígio arqueológico.Abordagenscomo as propostas por Schiffer (1972, 1975,1987) e outros autores abrem a gama de possibili-dades interpretativas, uma vez que levam em contao dinamismo tanto dos processos culturais quantonaturais na configuração do registro arqueológico.No entanto, é necessário que tenhamos maisestudos arqueológicos e etnoarqueológicos arespeito da variabilidade dos processos formativosvoltados para a questão das múltiplas funções queos artefatos assumem durante sua vida útil, assimcomo a respeito dos padrões de descarte eabandono para que possamos refinar nossosmodelos interpretativos, repensando, assim, avariabilidade artefatual e seus padrões de disper-são.As hipóteses interpretativas adotadas nessetrabalho em meio às inúmeras possibilidades deprocessos de formação associadas à construçãodos montículos artificiais, visaram a geração ecompreensão de novos dados a partir dos quaispodemos repensar os parâmetros de compreensãoda ocupação pré-colonial daAmazônia Central.
  24. 24. 110MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.MACHADO, J.S. The interpretative potential of the technological analysis: anAmazonianexample. Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.ABSTRACT:The present article attempts to emphasize the importance of theutilizationofphysical-chemicalcorrelatesinthecomprehensionofthemeaningsofthetechnological choices made along the ceramic production process. The bibliographyconcerning the distinct performance characteristics obtained from the choosencombinationoftempersandclayswithintheceramicproductionservedasacomparativeparameter to the results obtained from the combined usage of petrographic andtechnologicalanalysisinaceramiccollectionprovenientfromartificalmoundsinHathara site, centralAmazon.The aplication of this approach intends to offer new datafor mapping the distinct choice priorities in each chaine operatoire, in order to bettercomprehendtechnologicalespecifitiesofeachartefactualgroup.UNITERMS:CeramicAnalysis–Technology–CentralAmazon–Physical-Chemicalcorrelates.DIETLER,M.;HERBICH,I.1989 Tich Matek: the technology of Luo potteryproduction and the definition of ceramic style,World Archaeology, 21 (1): 148-154.DEBOER, W.; LATHRAP, D.1979 The making and breaking of Shipibo-Coniboceramics. C. Kramer (Ed.) Ethnoarchaeology:Implications of Ethnography for Archaeology.NewYork, Columbia University Press: 102-138.DONATTI, P.2002 Levantamento dos Sítios ArqueológicosLocalizados nas Margens Norte do LagoGrande. Estudo do Sítio Lago Grande.Dissertação de Mestrado. Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, Universidade de São Paulo.HAYDEN,B.1998 Practical and Prestige Technologies: Theevolution of material systems. Journal ofArchaeological Method and Theory, 5 (1): 1-55.HECKENBERGER,M.;PETERSEN,J.;NEVES,E.G.1999 Village size and permanence inAmazonia: twoarchaeological examples from Brazil. LatinAmerican Antiquity, 10 (4): 353-376.HILBERT,P.1968 Archäologische Untersuchungen am MittlernAmazonas. Berlin: Dietrich Reimer Verlag.INGOLD,T.,2001 Beyond art and technology: the anthropologyof skill. M.B. Schiffer (Ed.) AnthropologicalPerspectives on technology. Albuquerque,University of New Mexico Press.LATHRAP, D. ,1970 The Upper Amazon. London: Thames &Hudson.LEMONNIER,P.,1986 Elements for an Anthropology of Technology.Michigan, Museum of Anthropological Research(88), University of Michigan: 1-24 e 79-103.1992 The study of material culture today: towardna anthropology of technical systems.Journal of Anthropological Archaeology,5:147-186,LEROI-GOURHAN,A.[1965]1971 Evolução e Técnicas. I – O Homem e aMatéria. Lisboa: Edições 70.LIMA, H.P.2004 O significado da variabilidade da faseManacapuru. Relatório I de mestradoapresentado à FAPESP.LIMA,H.P.;NEVES,E.G.;PETERSEN,J.B.2006 A faseAçutuba: um novo complexo cerâmicona Amazônia Central. Revista ArqueologiaSul-Americana, 2 (1) janeiro: 53-71.MACHADO, J.S.,2005 Montículos Artificiais na Amazônia Central:um estudo de caso do sítio Hatahara,Amazonas. Dissertação de Mestrado. Museude Arqueologia e Etnologia da Universidadede São Paulo.MEGGERS,B.;EVANS,C.1961 An Experimental Formulation of HorizonStyles in the Tropical Forest of SouthAmerica. S. Lothrop (Ed.) Essays in Pre-Columbian Art and Archaeology. Cambridge,Mass: Harvard University Press: 372-388.1983 Lowland South America and the Antilles. J.D.Jennings (Ed.) Ancient South Americans. SanFrancisco:W.H.Freeman: 287-335.Referências bibliográficas
  25. 25. 111MACHADO, J.S. O potencial interpretativo das análises tecnológicas: um exemplo amazônico. Rev. do Museu de Arqueolo-gia e Etnologia, São Paulo, 15-16: 87-111, 2005-2006.MEGGERS,B.J.1996 Amazonia: man and culture in a counterfeitparadise (2nded.). Chicago:Aldine, [1ºed: 1971].1995 Amazonia on the Eve of European Contact:Etnohistorical, Ecological, andAnthropologicalPerspectives. Revista de ArqueologíaAmericana, 8: 91-115.1994 Archaeological evidence for the impact ofmega-niño events on Amazonia during thepast two millennia. Climatic Change, 28: 321-338.NELSON,M.C.1991 The Study of technological organization.M.B. Schiffer (Ed.) Archaeological Methodand Theory, 3: 57-100.NEVES,E.G.1998 Twenty Years of Amazonian Archaeologyin Brazil (1977-1997). Antiquity, 72 (277):625-632.1999 Changing Perspectives in AmazonianArchaeology. G. Politis; B.Alberti (Eds.)South American Archaeology. London:Routledge: 216-243.2000 Levantamento Arqueológico da Área deConfluência dos Rios Negro e Solimões,Estado do Amazonas. Relatório de Atividades.Museu de Arqueologia e Etnologia, Universi-dade de São Paulo, 93 p.2003 Relatório deAtividades. Relatório Científicoapresentado à FAPESP.PETERESEN,J.;HECKENBERGER,M.;NEVES.E.G.2001 A Prehistoric Ceramic Sequence from theCentral Amazon and its Relationship to theCaribbean. L.Alofs; R.A.C.F. Dijkhoff (Eds.)Publications of the Archaeological MuseumAruba, 9, XIX International Congress forCaribbeanArchaeology,Aruba, julho, Vol. I:250-259.PFAFFENBERGER,B.2001 Symbols do not create Meanings – ActivitiesDo: Or, Why Symbolic Anthropology Needsthe Anthropology of technology. M.B.Schiffer (Ed.) Anthropological Perspectiveson Technology. Albuquerque, University ofnew Mexico Press: 77-86.ROOSEVELT,A.1991 Moundbuilders of the Amazon: GeophysicalArchaeology on Marajó Island, Brazil. SanDiego:Academic Press.1992 Arqueologia Amazônica. M. Carneiro daCunha (Org.) História dos Índios no Brasil. S.Paulo, Cia. das Letras/ FAPESP/ SMC: 53-86.RYE,O.S.1981 Pottery Technology princples andreconstruction. Manuals on archaeology 4.Taraxacum Inc., Washington.SCHIFFER,M.B.;SKIBO,J.1992 Theory and Experiment in the Study oftechnical change. M.B. Schiffer (Ed.)Technological Perspectives on BehavioralChange. Tucson, University of ArizonaPress: 40-76.1997 The explanation of artifact variability.American Antiquity, 62 (1): 27-50.SCHIFFER,M.B.2001 The explanation of long-term technologicalchange. M.B. Schiffer (Ed.) AnthropologicalPerspectives on technology. Albuquerque,University of New Mexico Press: 215-236.1987 Formation Processes of the ArchaeologicalRecord. Albuquerque, University of NewMexico Press.1983 Toward the Identification of FormationProcesses. American Antiquity, 48: 675-706.1975 Archaeology as Behavioral Science.American Anthropologist, 77: 836-48.1972 Archaeological Context and SystemicContext. American Antiquity, 37 (2): 156-165.SHEPARD,A.O.1965 Ceramics for the archaeologist. Washington:Carnegie Institute of Washington (2° Ed. 1980).SILVA,F.A.2000 As Tecnologias e seus Significados. Tese deDoutorado. São Paulo, FFLCH-USP.SIMÕES, M.F.1977 Programa Nacional de Pesquisas Arqueológi-cas na Bacia Amazônica. Acta Amazônica, 7(3):297-300.SKIBO J.; SCHIFFER, M.B.2001 Understanding artifact variability and change:a behavioral framework. M.B. Schiffer (Ed.)Anthropological Perspectives on technology.Albuquerque, University of New MexicoPress: 139-150.Recebido para publicação em 6 de abril de 2006.

×