Memorial convento

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Memorial convento

  1. 1. MEMORIAL DO CONVENTO JOSÉ SARAMAGOJOSÉ SARAMAGO nasceu na Golegã em 16 deDezembro de 1932, no seio de uma família de trabalhadores rurais. VeioparaLisboa muito novo, onde fez o curso secundário. Foi director literárionuma editora, colaborou na revista Seara Nova,no vespertino Diário de Lisboa e foi director- adjunto do matutinoDiário deNoticias (de Abril a Novembro de 1975). A partir de 1976 dedicou-secompletamente à literatura. Os seus romancestêm sido publicados no Brasil, Espanha, Itália,Alemanha, Rússia, França, etc. Principais prémios:Levantado do Chão (1980), Prémio Cidade deLisboa; Memorial do Convento (1982), PrémioLiterário Município de Lisboa; Ano da Morte deRicardo Reis (1984), Prémio Pen Club Português.Reside actualmente em Espanha.Editorial Caminho, SA. Lisboa, 1982© Editores Reunidos, Lda., Lisboa,1994, para a presente ediçãoD. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já semurmurana corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é maldoshomens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai napraça.Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ouimpedimentofisiológico, duas vezes porsemana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem apaciência ehumildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total.depois de retirar-se de si e da cama o esposo, paraque se não perturbem em seu gerativo acomodamento
  2. 2. os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, ecristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se esperade umhomemque ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nemaquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. MariaAna. Mas Deus é grande. Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei estáa levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta emtampode mesa que não precisaria ser tão sólido para a cargaque suporta, miniatura de basílica dispersa em pedaçosde encaixar, segundo o antigo sistema de macho efêmea, que, à mão reverente, vão sendo colhidos pelosquatro camaristas de serviço. A arca donde os retiramcheira a incenso, e os veludos carmesins que os envolvem,separadamente, paraque se não trilhe o rosto daestátua na aresta do pilar, refulgem à luz dos grossíssimos brandões. Aobravai adiantada. Já todas asparedes estão firmes nos engonços, aprumadas se vêemas colunas sob a cornija percorrida de latinas letrasque explicam o nome e o título de Paulo V Borghesee que el-rei há muito tempo deixou de ler, emborasempre os seus olhos se comprazam no número ordinaldaquele papa, por via da igualdade do seu próprio.Em rei seria defeito a modéstia. Vai ajustando nosburacos apropriados da cimalha as figuras dos profetas e dos santos, eporcada uma fez vénia o camarista, afasta as dobras preciosas do veludo,aí estáuma estátua oferecida na palma da mão, um profetade barriga para baixo, um santo que trocou os péspela cabeça, mas nestas involuntárias irreverênciasninguém repara, tanto mais que logo el-rei reconstituia ordem e a solenidade que convêm às coisas sagradas,endireitando e pondo em seu lugar as vigilantes entidades. Do alto dacimalhao que elas vêem não é aPraça de S. Pedro, mas o rei de Portugal e os camaristas que o servem.Vêem osoalho da tribuna as gelosiasque dão para a capela real, e amanhã, à hora da primeira missa, seentretantonão regressarem aos veludose à arca, hão-de ver el-rei devotamente acompanhando O santo sacrifício, com o seu séquito, de que já nãofarão parte estes fidalgos que aqui estão, porque se acaba a semana e entram outros ao serviço. Por baixodesta tribuna em que estamos, outra há também velada de gelosias, mas sem construção de armar, capela fosse ou ermitério, onde apartada assiste a rainha ao ofício, nem mesmo a santidade do lugar tem sido propícia à gravidez. Agora só falta colocar a cúpula de Miguel Ãngelo, aquele arrebatamento de
  3. 3. pedra aqui em fingimento, que, por suas excessivas dimensões, está guardada em arca à parte, e sendo esse O remate da construção lhe será dado diferente aparato, que é o de ajudarem todos ao rei, e com um ruídoretumbante ajustam-se os ditos machos e fêmeas nos mútuos encaixes, e a obra fica pronta. Se o poderoso som, que ecoara por toda a capela, pôde chegar, por salas e extensos corredores, ao quarto ou câmara onde a rainha espera, fique ela sabendo que seu maridovem aí. Que espere. Por enquanto, ainda el-rei está a preparar-se para anoite.Despiram-no Os camaristas, vestiram-no com o trajo da função e doestilo,passadas as roupas de mão em mão tão reverentemente como relíquias de santas que tivessem trespassado donzelas, e isto se passa na presença de outros criados e pagens,este que abre o gavetão, aquele que afasta a cortina, um que levanta a luz, Outro que lhe modera o brilho, dois que não se movem, dois que imitam estes, mais uns tantos que não se sabe o que fazem nem por que estão. Enfim, de tanto se esforçarem todos ficou preparado el-rei,um dosfidalgos rectifica a prega final,outro ajusta O cabeção bordado, já não tardá um minuto que D. João V se encaminhe ao quarto da rainha. - O cântaro está à espera da fonte. Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscanovelho. Entre passar adiante e dizer o recado há vénias complicadas, Eloreios de aproximação, pausas e recuos, que sãoasfórmulas de acesso à vizinhança dorei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado,vista a pressa que traz o bispo e considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e oinquisidor, eeste diz, Aquele que além está é freiAntónio de S. José, a quem, falando-lhe eu sobre atristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos arainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossamajestade a Deus para que lhe desse sucessão, e eleme respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e entãoperguntei-lheque queria ele significar comtão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhosquer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavrasenfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar umconvento navila de Mafra, Deus lhedaria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nunoe fez um aceno ao arrábido. Perguntou el-rei, E verdade o que acaba de dizer-me sua eminência,que seeu prometer levantar umconvento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu,Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-
  4. 4. rei,Como sabeis, e frei Antóniodisse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas aboca de que a verdade se serve para falar, a fé não temmais que responder, construa vossa majestade o convento e terábrevementesucessão, não o construa eDeus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábidoque se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno daCunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Nãohá outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João,o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o méritodo empenho, levantou a voz para que claramente oouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade ereino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir umconvento defranciscanos na vila de Mafra sea rainha me der um filho no prazo de um ano a contardeste dia em que estamos, e todos disseram, Deusouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iriaser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude defrei António, se a potência do rei, ou, finalmente, afertilidade dificultosa da rainha. D. Maria Ana conversa com a sua camareira-morportuguesa, a marquesa de Unhão. Já falaram das devoções do dia, davisitafeita ao convento das carmelitas descalças da Conceição dos Cardais, edanovenade S. Francisco Xavier, que amanhã principiará emS. Roque, é um falar de rainha e marquesa, jaculatório e ao mesmo tempolacrimoso quando proferemos nomes dos santos, pungitivo se houver mençãode martírios ou sacrifícios particulares de padres emadres, mesmo não excedendo uns e outros a simples maceração do jejumou aoculta fustigação docilício. Mas el-rei já se anunciou, e vem de espíritoaceso, estimulado pela conjunção mística do devercarnal e da promessa que fez a Deus por intermédioe bons ofícios de frei António de S. José. Entraram com el-rei doiscamaristas que o aliviaram dasroupas supérfluas, e o mesmo faz a marquesa àrainha, de mulher para mulher, com ajuda doutradama, condessa, mais uma camareira-mor não menosgraduada que veio da Áustria, está o quarto umaassembleia, as majestades fazem mútuas vénias, nuncamais acaba o cerimonial, enfim lá se retiram os camaristas por umaporta, asdamas por outra e nas antecâmaras ficarão esperando que termine afunção,paraque regresse el-rei acompanhado ao seu quarto, quefoi da rainha sua mãe no tempo de seu pai, e venhamas damas a este aconchegar D. Maria Ana debaixo docobertor de penas que trouxe da Áustria também e semo qual não pode dormir, seja Inverno ou Verão. E é
  5. 5. por causa deste cobertor, sufocante até no frio Fevereiro, que D. JoãoV nãopassa toda a noite com arainha, ao princípio sim, por ainda superar a novidadeao incómodo, que não era pequeno sentir-se banhadoem suores próprios e alheios, com uma rainha tapadapor cima da cabeça, recozendo cheiros e secreções.D. Maria Ana, que não veio de um país quente, nãosuporta o clima deste. Cobre-se toda com o imensoe altíssimo cobertor, e assim fica, enroscada comotoupeira que encontrou pedra no caminho e está adecidir para que lado há-de continuar a escavação dagaleria. -Vestem a rainha e o rei camisas compridas, quepelo chão arrastam, a do rei somente a fímbria bordada, a da rainha bommeiopalmo mais, para quenem a ponta dos pés se veja, o dedo grande ou osoutros, das impudicícias conhecidas talvez seja estaa mais ousada. D. João V conduz D. Maria Ana ao leito,leva-a pela mão como no baile o cavaleiro à dama, eantes de subirem os degrauzinhos, cada um de seulado, ajoelham-se e dizem as orações acautelantes necessárias, para quenãomorram no momento do actocarnal, sem confissão, para que desta nova tentativavenha a resultar fruto, e sobre este ponto tem D. João Vrazões dobradas para esperar, confiança em Deus e noseu próprio vigor, por isso está dobrando a fé com queao mesmo Deus impetra sucessão. Quanto a D. MariaAna, é de crer que esteja rogando os mesmos favores,se porventura não tem motivos particulares que osdispensem e sejam segredo do confessionário. Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holandaquando a rainha veio da Áustria, mandada fazer de propósito pelo rei, acama,a quem custou setenta e cincomil cruzados, que em Portugal não há artífices detanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariammenos. A desprevenido olhar nem se sabe se é demadeira o magnífico móvel, coberto como está pelaarmação preciosa, tecida e bordada de florões e relevosde ouro, isto não falando do dossel que poderia servirpara cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta earmada ainda não havia percevejos nela, tão nova era,mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migrações no interior dopalácio, ou da cidade para dentro,donde este bichedo vem é que não se sabe, e sendo tãorica de matéria e adorno não se lhe pode aproximarum trapo a arder para queimar o enxame, não há maisremédio, ainda não o sendo, que pagar a Santo Aleixocinquenta réis por ano, a ver se livra a rainha e anós todos da praga e da coceira. Em noites que vemel-rei, os percevejos começam a atormentar mais tardepor via da agitação dos colchões, são bichos que gostam de sossego egenteadormecida. Lá na cama do
  6. 6. rei estão outros à espera do seu quinhão de sangue,que não acham nem pior nem melhor que o restanteda cidade, azul ou natural. D. Maria Ana estende ao rei a mãozinha suada e fria,que mesmo tendo aquecido debaixo do cobertor logoarrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu o seu dever,e tudoespera do convencimento ecriativo esforço com que o cumpriu, beija-lha como arainha e futura mãe, se não presumiu demasiado freiAntónio de S. José. É D. Maria Ana quem puxa ocordão da sineta, entram de um lado os camaristasdo rei, do outro as damas, pairam cheiros diversosna atmosfera pesada, um deles que facilmente identificam, que sem o queaisto cheira não são possíveismilagres como o que desta vez se espera, porque aoutra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vezsem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus,quando quer, não precisa de homens, embora não possadispensar-se de mulheres. Ainda que insistentemente tranquilizada pelo confessor, tem D. MariaAna,nestas ocasiões, grandesescrúpulos de alma. Retirados el-rei e os camaristas,deitadas já as damas que a servem e lhe protegem osono, sempre cuida a rainha que seria sua obrigaçãolevantar-se para as últimas orações, mas, tendo deguardar o choco por conselho dos médicos, contenta-secom murmurá-las infinitamente, passando cada vezmais devagar as contas do rosário, até que adormeceno meio duma ave-maria cheia de graça, ao menoscom essa foi tudo tão fácil, bendito seja o fruto dovosso ventre, e é no do seu ansiado próprio que estápensando, ao menos um filho, Senhor, ao menos umfilho. Deste involuntário orgulho nunca fez confissão,por ser distante e involuntário, tanto que se fossechamada a juízo juraria, com verdade, que sempre sedirigira à Virgem e ao ventre que ela teve. São meandros doinconscientereal, como aqueles outros sonhosque sempre D. Maria Ana tem, vá lá explicá-los, quandoel-rei vem ao seu quarto, que é ver-se atravessando oTerreiro do Paço para o lado dos açougues, levantando a saia à frente epatinhando numa lama aguadae pegajosa que cheira ao que cheiram os homensquando descarregam, enquanto o infante D. Francisco,seu cunhado, cujo antigo quarto agora ocupa, algumaassombração lhe ficando, dança em redor dela, empoleirado em andas,como umacegonha negra. Tambémdeste sonho nunca deu contas ao confessor, e quecontas saberia ele dar-lhe por sua vez, sendo, como é,caso omisso no manual da perfeita confissão. FiqueD. Maria Ana em paz, adormecida, invisível sob a montanha de penas,enquantoos percevejos começam a
  7. 7. sair das fendas, dos refegos, e se deixam cair do altodossel, assim tornando mais rápida a viagem. Também D. João V sonhará esta noite. Verá erguer-se do seu sexo umaárvorede Jessé, frondosae toda povoada dos ascendentes de Cristo, até aomesmo Cristo, herdeiro de todas as coroas, e depoisdissipar-se a árvore e em seu lugar levantar-se, poderosamente, comaltascolunas, torres sineiras; cúpulase torreões, um convento de franciscanos, como se podereconhecer pelo hábito de frei António de S. José,que está abrindo, de par em par, as portas da igreja.Não é vulgar em reis um temperamento assim, masPortugal sempre foi bem servido deles. Bem servido de milagres, igualmente. Ainda é cedopara falar deste que se prepara, aliás milagre nãotanto, mas simples obséquio divino, descimento deolhar piedoso e propiciatório para um ventre sáfaro,qual há-de ser o nascimento do infante na hora própria, mas éjustamentetempo de mencionar veros ecertificados milagres que, por virem da mesma e ardentíssima sarçafranciscana, bem auguram da promessa do rei. Veja-se o célebre caso da morte de frei Miguel daAnunciação, provincial eleito que foi da ordem terceirade S. Francisco, cuja eleição, diga-se de passagem, masnão fora de propósito, se fez com acesa guerra quecontra ela e ele levantou a Paroquial de Santa MariaMadalena, por obscuros ciúmes, em tal sanha que àmorte de frei Miguel ainda corriam pleitos e não sesabe quando, de vez, seriam julgados, se é que teriamfim, entre sentença e recurso, entre conselho e agravo,até que a morte viesse encerrar o processo, como veioa suceder. É certo que não morreu o frade de coraçãodespedaçado, mas de maligna, que seria tifo ou tifóide,senão outra febre sem nome, remate comum de vidaem cidade de tão poucas fontes de água para bebere onde os galegos não se duvidam de ir encher osbarris à fonte dos cavalos, e assim morrem imerecidamente provinciais.Porém,era frei Miguel da Anunciação de tão compassiva natureza que, mesmodepois demorto, pagou o mal com o bem, e se vivo fizera caridades, defuntoobravamaravilhas, sendo a primeiradesmentir os médicos que temiam se corrompesse ocorpo aceleradamente e por isso recomendaram abreviada sepultura, quenão secorrompeu tal o carnaldespojo, antes por espaço de três dias inteiros embalsamou a igreja deNossaSenhora de Jesus onde esteveexposto, com suavíssimo cheiro, e não se lhe enrijeceuo cadáver, pelo contrário, brandamente os membrostodos se deixavam mover, como se vivo estivesse. Segundas e terceiras maravilhas, mas de valor primeiríssimo, foram os
  8. 8. milagres propriamente ditos tãoassinalados e ilustres que acorreu o povo de toda acidade a observar o prodígio e a aproveitar dele, poisse autentica que na dita igreja foi dada vista a cegose pés a mancos, e era tanta a afluência de mundo quenos degraus do adro se davam punhadas e punhaladaspara entrar, de que alguns perderam a vida, que depoisnem por milagre lhes seria restituída. Ou talvez sim,se, passados três dias, e sendo grande o alarme, dalinão tivessem levado o corpo, às ocultas, e às ocultaso enterraram. Privados da esperança de cura enquantonão constasse o passamento doutro bem-aventurado, nomesmo lugar se esbofetearam de desespero e fé lograda mudos e manetas,se aestes lhes sobrava mão,em gritos todos e invocações a quantos santos, atéque os padres saíram fora a benzer o ajuntamento, ecom essa suficiência, à falta de melhor, se foram unse outros. Mas isto, confessemo-lo sem vergonha, é uma terrade ladrões, olho vê, mão pilha, e sendo a fé tanta,ainda que nem sempre recompensada, maior é o descaro e a impiedade comque sesalteiam igrejas, comofoi ainda o ano passado em Guimarães, também nade S. Francisco, que, por tão vultosos bens ter desprezado em vida,tudoconsente que lhe levem na eternidade, o que vale à ordem é a vigilânciadeSantoAntónio, que esse resigna-se mal a que lhe rapemaltares e capelas onde estiver, como em Guimarães seviu e em Lisboa se há-de ver. Naquela cidade foram, pois, os ladrões a roubar,subindo para esse efeito a uma janela, aonde logo osanto lepidamente os veio receber com isso lhes pregando um tal sustoque fezcair desamparado o quemais alto na escada estava, é certo que sem nenhumosso partido, mas tolhidinho de tal maneira que nãose pôde mexer mais, e querendo os companheiroslevá-lo dali, que também entre ladrões não são rarosos corações generosos e abnegados, não o conseguiram,caso aliás não inédito, porque já sucedido a Inês,irmã de Santa Clara, quando ainda S. Francisco andavapelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em milduzentos e onze, mas não era de roubo o caso dela,ou de roubo seria, porque ao Senhor a queriam roubar.Ali ficou o ladrão, como se a mão de Deus o estivesseespalmando contra o chão ou a garra do Diabo o filassedas profundas, ali ficou até de manhã, quando deramcom ele os moradores e depois o levaram, já sem custoe com o seu peso natural, ao altar do mesmo santopara que o sarasse, milagre obrado por forma original,pois se viu suar copiosamente a imagem de SantoAntónio e. durante tanto tempo que deu para viremjuízes e escrivães autenticar juridicamente o prodígio,
  9. 9. que foi este de suar madeira e também de curar-se oladrão por lhe passarem na cara uma toalha humedecida do humor bento. Ecomisto ficou o homem são,salvo e arrependido. Porém, nem todos os delitos chegam a averiguar-se.Em Lisboa, por exemplo, não tendo o milagre sidomenos notório, ainda hoje está por apurar quem foio do assalto, embora sejam permitidas algumas desconfianças, porventuraabsolvidas, e quem delas forobjecto, pela boa intenção que derradeiramente o motivou. Foi o casoque noconvento de S. Franciscode Xabregas entraram gatunos, ou gatuno entrou, pelaclarabóia de uma capela contígua com a de SantoAntónio, e foi, ou foram, ao altar-mor, e as três lâmpadas que láestavam sesumiram pelo mesmo caminhoem menos de um credo. Despendurar as lâmpadasdos ganchos, carregar com elas às escuras por maiorcautela, arriscar tropeções, tropeçar mesmo e fazerruído sem que ninguém acudisse a indagar do rebuliço, seria suspeitoprodígioou cumplicidade de algum santo transviado se não fosse estarem, nessamesma hora, a campa e a matraca em seu costumadotumulto para se despertarem os frades e irem às matinas da meia-noite.Porisso pôde o ladrão escapar aseu salvo, e se mais barulho fizera, não lho teriamouvido, por aqui se vendo como o assaltante conheciabem os costumes da casa. Começaram os frades a entrar na igreja e deramcom ela às escuras. Já o irmão responsável se estavaconformando com o castigo que não deixaria de ser-lheaplicado por uma falta que não saberia explicar, quandose observou, e confirmou pelo tacto e cheiro, que nãoera o azeite que faltava, ali derramado pelo chão, massim as lâmpadas, cujas eram de prata. O desacatoainda estava fresco, se assim se pode dizer, pois ascorrentes de onde tinham estado suspensas as roubadaslâmpadas oscilavam devagarinho, dizendo, em linguagem de arame, Foi porpouco, foi por pouco. Saíram logo alguns religiosos às estradas de emtorno, repartidos em patrulhas, que se apanham oladrão não se sabe o que misericordiosamente lhefariam, mas não deram nem com o rasto dele, ou daquadrilha, se v era, caso que não devemos estranhar,porquanto passava já então da meia-noite e a lua estavaem seu minguante. Esbaforiram-se os frades a correras cercanias, a passo de carga, e enfim regressaram aoconvento, de mãos a abanar. Entretanto, outros religiosos, pensando quepodiao ladrão, por fina astúcia,ter-se escondido na igreja, deram-lhe uma volta completa desde v coro àsacristia, e foi quando andavamneste alvoroçado esquadrinhar, toda a congregaçãoatropelando sandálias e fraldas de hábito, levantando
  10. 10. tampas de arcazes, arredando armários, sacudindo paramentos, que umfradevelho, conhecido por virtuosavida e brava religião, reparou que o altar de SantoAntónio não fora tocado pelas gatunas mãos, apesarde ser nele abundantíssima a prata, rica de peso, lavore pureza. Estranhou o pio homem, e estranharíamvsnós se lá estivéssemos, porque, sendo manifesto quepor aquela clarabóia de além entrou o ladrão e aoaltar-mor foi roubar as lâmpadas, teve de passar diante da capela deSantoAntónio que ao meio estava. Commais do que razão se achou então o frade, inflamadoem zelo, ao voltar-se para Santo Antóneo, increpando-ocomo a servo que descuidasse as suas obrigações, Evós, santo, só guardais a prata que vos toca, e deixaislevar a outra, pois em paga disso não vos há-de ficarnenhuma, e ditas estas violentíssimas palavras, foi-seà capela e começou a despi-la toda, tirando não só aspratas, mas as toalhas e adornos, e não só à capela,mas também ao próprio santo, que viu levarem-lhe aauréola de tirar e pôr, e a cruz, e que ficaria semo menino ao colo se outros religiosos não tivessemacudido, achando a punição excessiva e advertindo queo deixasse para consolação do pobre castigado. Meditou um pouco v fradenaadvertência, e rematou,Pois fique como seu fiador, enquanto não restituir oSanto as lâmpadas. E como isto já era pelas duasdepois da meia-noite, tempo gasto nas buscas e finalmente norecriminatóriolance relatado, recolheram-seos frades e foram dormir, alguns temendo que viesseSanto António a tirar desforra do insulto. Ao outro dia, aí pelas onze horas dele, bateu àportaria do convento um estudante, cujo convém dizerlogo que desde há tempos andava pretendendo v hábitoda casa, frequentando com grande assiduidade os fradesdela, e esta informação se dá, primeiro, por ser verdadeira e sempreservir averdade para alguma coisa,e, segundo, para auxiliar quem se dedique a decifraractos cruzados, ou palavras cruzadas quando as houver,enfim, bateu v estudante à portaria e disse que queriacalar ao prelado. Levaram-no à presença, beijou-lhe amão ou v cordão do hábito, se não a fímbria, isto não seaveriguou bem, e declarou ter ouvido dizer na cidadeque as lâmpadas estavam no mosteiro da Cotovia,dos padres da Companhia de Jesus, além no BairroAlto de S. Roque. Duvidou o prelado, logo pela manifesta insuficiênciadoportador da notícia, um estudanteque só não era bargante por tanto aspirar a ser frade.embora não seja assim tão raro encontrar-se nistoaquilv, e depois pela inverosimilhança de se ir restituir à Cotovia oque sefurtara em Xabregas, sítivs
  11. 11. tão opostos e distantes, ordens tão pouco parentes, nadistância quase uma légua a voo de pássaro, e no restouns de preto, outros de castanho, ainda isso seria omenos, pela casca não se conhece o fruto se lhe nãotivermos metido o dente. Mandava porém a prudênciaque se averiguasse o aviso, e assim foi um religiosograve, acompanhado do dito estudante, de Xabregasà Cotovia, ambos a pé, entrando na cidade pela Portade Santa Cruz, e se para completa ciência do casoimporta saber que outro caminho tomaram até ao destino, diga-se entãoquepassaram rente à igreja deSanta Estefânia, depois ao lado da igreja de S. Miguel,e depois da igreja de S. Pedro entraram a porta quelhe tem o nome, posto o que desceram na direcção dorio pelo Postigo do Conde de Linhares, depois a direito,pela Porta do Mar, ao Pelourinho Velho, são nomese lugares de que só ficou recordação, evitaram a RuaNova dos Mercadores por ser grave o religioso e deprática usurária o sítio até hoje, e tendo passado àilharga do Rossio, foram dar ao Postigo de S. Roque,e enfim à Cotovia, onde bateram e entraram, e sendoconduzidos ao reitor disse o frade, Este estudante queaqui vem comigo foi dizer a Xabregas que estão cáas nossas lâmpadas, ontem à noite roubadas, Assim é,pelos sinais que me foram dados, eram aí umas duashoras bateram à portaria com muita força, e perguntando o porteiro dedentroo que queriam, respondeuuma voz que abrisse logo a porta porque se dariaali uma restituição, e tendo o porteiro vindo a dar-menotícia do insólito caso, mandei abrir a porta e achámos as taislâmpadas,se.u tanto amassadas e partidasnas guarnições, aqui estão, se lhes falta alguma coisa,já estava faltando quando foram deixadas, E viramquem foi o da chamada, Isso não vimos, ainda forampadres à estrada, mas não encontraram ninguém. Regressaram as lâmpadas a Xabregas, e agora pensecada um de nós o que quiser. Terá sido o estudante,afinal tunante e bargante, que delineou o estratagemapara poder entrar as portas e vestir o hábito franciscano como de factoveioa vestir, e por isso roubou efoi entregar, com muita esperança. de que a bondadeda intenção lhe perdoasse a fealdade do pecado no diado juízo final. Terá sido Santo António que, tendocometido até hoje tantos e tão variados milagres,também podia ter feito este, ao ver-se dramaticamentedespojado das pratas pelo furor sagrado do frade, quebem sabia a quem intimava, como igualmente o sabemos barqueiros e marinheiros do Tejo, que quando osanto lhes não satisfaz as vontades nem lhes premeiaos votos o castigam mergulhando-o de cabeça parabaixo nas águas do rio. Não será tanto pela incomodidade, porque umsantomerecedor desse nome é tão
  12. 12. capaz de respirar a pulmões o ar de nós todos comoa guelras a água que é céu dos peixes, mas a vergonhade saber expostas as plantas humildes dos pés ou odesânimo de ver-se sem pratas e quase sem MeninoJesus, fazem de Santo António o mais milagroso dossantos, mormente para encontrar coisas perdidas. Enfim, saia oestudanteabsolvido desta suspeita, se nãovier a achar-se noutra igualmente duvidosa. Com tais precedentes, sendo tão favorecidos osfranciscanos de meios para alterarem, inverterem ouacelerarem a ordem natural das coisas, até a matrizrenitente da rainha obedecerá à fulminante injunçãodo milagre. Tanto mais que convento em Mafra o andaa querer a ordem de S. Francisco desde mil seiscentose vinte e quatro, ainda estava rei de Portugal umFilipe espanhol, que, apesar de o ser e portanto deverdar-lhe só cuidado mínimo a fradaria de cá, pelos dezasseis anos queconservou a realeza nunca deu consentimento. Não cessaram por isso asdiligências, meteu-se no empenho o valimento dos nobres donatáriosda vila, mas parecia que andava exaurida a potênciae embotada a pertinácia da Província da Arrábida, queao convento aspirava, pois ainda ontem, que tanto sepode dizer do que apenas há seis anos aconteceu, emmil setecentos e cinco, deu parecer desfavorável oDesembargo do Paço a nova petição, e com não pequenoatrevimento se exprimiu, se não desrespeito pelos interesses materiaiseespirituais da Igreja, ousando considerar não ser conveniente apretendidafundação porestar o reino muito onerado de conventos mendicantes,e por muitos outros inconvenientes que a prudênciahumana sabe ditar. Lá saberiam os desembargadoresque inconvenientes ditava a prudência humana, masagora vão ter de engolir a língua e digerir o mau pensamento, que jádissefrei António de S. José queconvento havendo, haverá sucessão. A promessa estáfeita, a rainha parirá, a ordem franciscana colherá apalma da vitória, ela que do martírio tantas colheu.Cem anos à espera não será excessiva mortificação paraquem conta viver a eternidade. Vimos como em instância final saiu absolvido oestudante da suspeita do roubo das lâmpadas. Agoranão se vá dizer que, por segredos de confissão divulgados, souberam osarrábidos que a rainha estavagrávida antes mesmo que ela o participasse ao rei.Agora não se vá dizer que D. Maria Ana, por ser tãopiedosa senhora, concordou calar-se o tempo bastantepara aparecer com o chamariz da promessa o escolhidoe virtuoso frei António. Agora não se vá dizer queel-rei contará as luas que decorrerem desde a noitedo voto ao dia em que nascer o infante, e as acharácompletas. Não se diga mais do que ficou dito. Saiam então absolvidos os franciscanos desta suspeita, se nunca seacharam
  13. 13. noutras igualmente duvidosas. No geral do ano há quem morra por muito tercomido durante a vida toda, razão por que se repetemos acidentes apoplécticos, primeiro, segundo, terceiro,e às vezes um basta para levar à cova, e se o acidentadoprovisoriamenteescapou, fica leso de um lado,de boca à banda, sem voz se o lado foi esse, e tambémsem remédios que lhe acudam, tirando as sangrias, quese receitam às meias dúzias. Mas não falta, por issomesmo falecendo mais facilmente, quem morra por tercomido pouco durante toda a vida, ou o que dela resistiu a um tristepassadiode sardinha e arroz, mais aalface que deu a alcunha aos moradores, e carnequando faz anos sua majestade. Quer Deus que o rioseja pródigo de peixe, louvemo-los aos três por isso.E que a alface, mais as outras hortaliças, venham nasburricadas do termo, ceirões repletos, a toque de saloios e saloias,queneste trabalho não se distinguem.E que o arroz não falte além do tolerável. Mas estacidade, mais que todas, é uma boca que mastiga desobejo para um lado e de escasso para o outro, nãohavendo portanto mediano termo entre a papada pletórica e o pescoçoengelhado, entre o nariz rubicundoe o outro héctico, entre a nádega dançarina e a escorrida, entre apançarepleta e a barriga agarrada àscostas. Porém, a Quaresma, como o sol, quando nasce,é para todos. Correu o Entrudo essas ruas, quem pôde empaturrou-se de galinha e decarneiro, de sonhos e de filhós,deu umbigadas pelas esquinas quem não perde vazaautorizada, puseram-se rabos surriados em lombos fugidiços, esguichou-se águaà cara com seringas de clisteres, sovaram-se incautos com réstias decebolas,bebeu-se vinho até ao arroto e ao vómito, partiram-sepanelas, tocaram-se gaitas, e se mais gente não se espojou, portravessaspraças e becos, de barriga para oar, é porque a cidade é imunda, alcatifada de excrementos, de lixo, decãeslazarentos e gatos vadios, elama mesmo quando não chove. Agora é tempo depagar os cometidos excessos, mortificar a alma paraque o corpo finja arrepender-se, ele rebelde, ele insurrecto, estecorpoparco e porco da pocilga que é Lisboa. Vai sair a procissão de penitência. Castigámos acarne pelo jejum, maceremo-la agora pelo - açoite.Comendo pouco purificam-se os humores, sofrendoalguma coisa escovam-se as costuras da alma. Os penitentes homenstodos, vão
  14. 14. à cabeça da procissão, logoatrás dos frades que transportam os pendões com asrepresentações da Virgem e do Crucificado. Seguintea eles aparece o bispo debaixo do pálio rico, e depoisas imagens nos andores, o regimento interminável depadres, confrarias e irmandades, todos a pensarem nasalvação da alma, alguns convencidos de que a nãoperderam, outros duvidosos enquanto se não acharemno lugar das sentenças, porventura um deles pensandosecretamente que o mundo está louco desde que nasceu.Passa a procissão entre filas de povo, e quando passarojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham acara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões todos,e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para estelado e para aquele, enquanto um acólito balouça oincensório. Lisboa cheira mal, cheira a podridão, oincenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos,que a alma, essa, é perfumada. nas janelas só há mulheres, é esse o costume. Ospenitentes vão de grilhões enrolados às pernas, ousuportam sobre os ombros grossas barras de ferro,passando por cima delas os braços como crucificados,ou desferem para as costas chicotadas com as disciplinas feitas decordões emcujas pontas estão presas bolas de cera dura, armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibemverdadeirosangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tantopelosmotivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos senãosoubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo. Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo ama, dor sofredor,se nãotambém de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambeardesacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens,adivinhará aomenos pela fitinha cor-de-rosa ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar berra como o toiro em cio, mas se às mais mulheres ,da rua, e a ela própria, pareceu que faltouvigorao braço do penitente ou que a
  15. 15. vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está openitentediante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ouprimaou aia, ou tolerante avó, ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por experiência fresca ou recordaçãoremota, que Deus não tem nada que ver com isto, é tudo coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao espasmo debaixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpesfuriosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando osolhospara o macho derrubado,abrindo a boca para lhe beber o sangue e o resto.Parou a procissão o tempo bastante para se concluiro acto, o bispo abençoou e santificou, a mulher senteaquele delicioso relaxamento dos membros, o homempassou adiante, vai pensando, aliviadamente, que daquipara a frente não precisará vergastar-se com tantaforça, outros o façam para gáudio doutras. Assim maltratadas as carnes, alimentadas de magro,parece que se haveriam de recolher as insatisfações atéà libertação pascal e que as solicitações da naturezapoderiam esperar que se limpassem as sombras dorosto da Santa Madre Igreja, agora que se aproximamPaixão e Morte. Mas talvez que a riqueza fosfórica dopeixe atice o sangue, talvez que o costume de deixarque as mulheres corram as igrejas sozinhas na Quaresma, contra o uso dorestodo ano, que é tê-las emcasa presas, salvo se são populares com porta para arua ou nesta vivendo, tão presas aquelas que se dizsaírem, se são de nobre extracção, para ir à igrejasomente, e apenas três vezes na vida, a ser baptizada,a ser casada, a ser sepultada, para o resto lá está acapela da casa, talvez que o dito costume mostre, afinal, quanto éinsuportável a Quaresma, que todo otempo quaresmal é tempo de morte antecipada, avisoque devemos aproveitar, e então, cuidando os homens,ou fingindo cuidar, que as mulheres não fazem maisque as devoções a que disseram ir, é a mulher livreuma vez no ano, e se não vai sozinha por não o consentir a decênciapública,quem a acompanha levaiguais desejos e igual necessidade de satisfazê-los, porisso a mulher, entre duas igrejas, foi a encontrar-secom um homem, qual seja, e a criada que a guardatroca uma cumplicidade por outra, e ambas, quando se
  16. 16. reencontram diante do próximo altar, sabem que aQuaresma não existe e o mundo está felizmente loucodesde que nasceu. Pelas ruas de Lisboa, cheias demulheres que vestem por igual, com os seus biocos,a saia de cima pela cabeça, uma nesga apenas a abrirpara o sinal de olhos ou de beiços, código geral aprendido naclandestinidadedos sentimentos e das volúpias proibidas, por estas ruas, com uma igreja a cada esquina, um conventoporquarteirão, corre um vento dePrimavera que dá volta à cabeça e, não correndo o vento, fazem os suspiros as vezes dele os que se desabafam nosconfessionários ou em lugares escusos, propícios a outras confissões, as da carne adúltera, oscilando na beirada do prazer e do inferno, ambos gostosos nestes dias de mortificação, de altares despidos, de lutosrituais, de pecado omnipresente. Entretanto, se é dia, estarão dormindo a sesta o_ maridos ingénuos, ou que fingem sê-lo, e se noite _, quando soturnamente as ruas e as praças se enchem de multidões que cheiram a cebola e a alfazema, e ú murmúrio das orações sai pelas portas escancaradas das igrejas, se é noite, mais descansados se sentem, porque assim a demora não será tanta, já se ouviu bater a porta, soaram os passos na escada, vêm falando familiarmente a ama e a criada, pudera não, ou a escrava preta, se alevou,e pelas frinchas dançam as luzes da palmatória ou do candil, finge o marido que acorda, finge a mulher que o acordou, e se ele pergunta, Então, já sabemos o que ela responderá, que vem morta de canseira, moidinha dos pés, arrastadinha dos joelhos, mas consolada a alma, e diz o misterioso número, Sete igrejas visitei, tão apaixonadamente o disse que ou foia devoção muita ou muita a falta dela.De tais desafogamentos se vêem privadas as rainhas,principalmente se já estão grávidas, e do seu legítimo senhor, que por nove meses não voltará a aproximar-sedelas, regra aliás comum ao popular, mas que vai sofrendo as suasinfracções.D. Maria Ana, como razões acrescentadas de recato, tem a mais a maníaca devoção com que foi educada na Áustria, e a cumplicidade que deu ao artifício franciscano, assim mostrando ou dando a entender que a criança que em seu ventre se está formando é tão filha do rei de Portugal como do próprio Deus, a trocode umconvento. D. Maria Ana deitou-se muito cedo, rezou antes deir para a cama, em murmurado coro com as damas que a servem, e depois, coberta já pelo seu cobertor de penas, torna a rezar, reza infinitamente, começamas damas a cabecear, mas resistem como sábias, se nãocomo virgens, e enfim se retiram, fica apenas a luz dolampadeiro vigiando, e a dama que ali passará a noite,
  17. 17. num leito baixo, não tarda que adormeça, sonhe sequiser, que importância hão-de ter os sonhos que portrás das suas pálpebras se estão sonhando, a nós o quenos interessa é o trémulo pensamento que ainda seagita em D. Maria Ana, à beira do sono, que na Quinta-Feira Santa há-deir àigreja da Madre de Deus, ondeestá um Santo Sudário que as freiras desdobrarãodiante dela antes de o exporem aos fiéis, e nele serãoclaramente vistas as marcas do corpo de Cristo, esteé o único e verdadeiro Santo Sudário que existe nacristandade, minhas senhoras e meus senhores, comotodos os outros são igualmente verdadeiros e únicos,ou não seriam à mesma hora mostrados em tão diferentes lugares domundo, mas,porque está em Portugal, éo mais vero de todos e único mesmo. Quando, aindaconsciente, D. Maria Ana se vê a si própria inclinando-se para o panosantíssimo, não se chega a saber se oia beijar devotamente, _ porque de repente adormecee acha-se dentro do coche, recolhendo-se ao paço noitejá escura, com a sua guarda de archeiros, e subitamente um homem acavalo,que vem da caça, comquatro criados em mulas e animais de pêlo e penapendurados dos arções, dentro de redes, rompe ohomem em direcção ao coche, de espingarda na mão,o cavalo raspando lume nas pedras e deitando fumopelas ventas, e quando como um raio rompe a guardada rainha e chega à estribeira dificilmente sofreandoa montada, dá-lhe na cara a luz das tochas, é o infanteD. Francisco, de que lugares do sono veio ele e porquevirá tantas vezes. Espantou-se-lhe o cavalo, não podiater sido outra coisa, com o tropear do coche e dosarcheiros sobre as pedras da calçada, mas, comparandosonho e sonho, observa a rainha que de cada vez chegao infante mais perto, que quererá ele, e ela que quererá. L a Quaresma sonho de uns e vigília de outros.Passou a Páscoa, que acordou toda a gente, mas reconduziu as mulheres àsombra dos quartos e ao carregodas saias. Em casa há mais uns tantos maridos cucos, mas bastanteferozespara o caso de outras quedas fora da estação. E porque andando, andando, acabámos por falar deaves, éaltura de ouvirmos os canários que, dentro das igrejas, em gaiolas enfeitadas de fitas e de flores, cantam loucos de amor, enquanto no púlpito o frade pregao seusermão e fala de coisas quepresume de mais sagradas. É Quinta-Feira de Ascensão, sobe para as abóbadas o canto dos pássaros, subirão ou não as preces ao céu, se eles as não ajudam nãohaverá esperança, talvez se nos calássemos todos. Este que por desafrontada aparência, sacudir daespada e desparelhadas vestes, ainda que descalço,parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi
  18. 18. mandado embora do exército por já não ter serventianele, _depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nódo pulso, estraçalhada por uma bala em frente deJerez de los Caballeros, na grande entrada de onze milhomens que fizemos em Outubro do ano passado e quese terminou com perda de duzentos nossos e debandadados vivos, acossados pelos cavalos que os espanhóisfizeram sair de Badajoz. A Olivença nos recolhemos,com algum saque que tomámos em Barcarrota e poucogosto para gozar dele, que não tinha valido a penamarchar dez léguas para lá e correr outras tantas paracá, deixando no campo tanta gente morta e metadeda mão de Baltasar Sete-Sóis. Por muita sorte, ougraça particular do escapulário que traz ao peito, nãogangrenou a ferida ao soldado nem lhe rebentaram asveias com a força do garrote, e, sendo hábil o cirurgião,bastou _desarticular-lhe as juntas, desta vez nem foipreciso meter o serrote ao osso. Com ervas cicatrizantes lhealmofadaram ocoto, e tão excelente era acarnadura de Sete-Sóis que ao cabo de dois mesesestava sarado. Por ser pouco o que pudera guardar do soldo, pediaesmola em Évora para juntar as moedas que teria depagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o ganchode ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão. Assimpassou o Inverno, forrando metade do que conseguiaangariar, acautelando para o caminho metade da outrametade, e entre a comida e o vinho se lhe ia o resto.Já era Primavera quando, pago aos poucos por conta,o seleiro, com a última verba, lhe entregou o gancho,mais o espigão que, por capricho de ter duas diferentes mãos esquerdas,Baltasar Sete-Sóis encomendara.Eram asseadas obras de couro, ligadas perfeitamenteaos ferros, sólidos estes de malho e têmpera, e as correias de doistamanhos,para atar acima do cotoveloe ao ombro, por maior reforço. Começou Sete-Sóis asua viagem ao tempo de se saber que já o exército daBeira se deixava ficar pelos quartéis e não vinha ajudar ao Alentejopor sera fome muita nesta província,sobre ser geral nas outras. A tropa andava descalçae rota, roubava os lavradores, recusava-se a ir à batalha, e tantodesertavapara o inimigo como debandavapara as suas terras, metendo-se fora dos caminhos,assaltando para comer, violando mulheres desgarradas,cobrando, enfim, a dívida de quem nada lhes devia esofria desespero igual. Sete-Sóis, mutilado, caminhavapara Lisboa pela estrada real, credor de uma mão esquerda que ficaraparte emEspanha e parte em Portugal, por artes de uma guerra em que se haveriadedecidir quem viria a sentar-se no trono de Espanha, seum Carlos austríaco ou um Filipe francês, portuguêsnenhum, se completos ou manetas, se inteiros ou mancos, salvo se deixar
  19. 19. membros cortados no campo ouvidas perdidas não é apenas sina de quem tiver de nomesoldado e para se sentar o chão ou pouco mais. SaiuSete-Sóis de Évora, passou Montemor, não leva porcompanhia e ajuda frade ou diabinho, e para mãofurada já lhe basta a sua. Veio andando devagar. Não tem ninguém à suaespera em Lisboa, e em Mafra, donde partiu anos atráspara assentar praça na infantaria de sua majestade, sepai e mãe se lembram dele, julgam-no vivo porque nãotêm notícias de que esteja morto, ou morto porque asnão têm de que seja vivo. Enfim, tudo acabará porsaber-se com o tempo. Agora faz sol, não tem chovido,e os matos estão cobertos de flores, os pássaros cantam. Baltasar Sete-Sóisleva os ferros no alforge porquehá momentos, horas inteiras, em que sente a mãocomo se ainda a tivesse na ponta do braço e não querroubar a si próprio a felicidade de se achar inteiro ecompleto como inteiros e completos se hão-de sentarCarlos e Filipe em seus tronos, afinal haverá para osdois, quando a guerra acabar. A Sete-Sóis basta-lhe,para seu contentamento, e desde que não olhe ondelhe falta, a comichão que sente na ponta do dedo indicador, e imaginarqueestá coçando com o polegar osítio onde lhe come. E quando esta noite sonhar, sea si próprio se olhar no sono, ver-se-á sem que nadalhe falte e poderá apoiar a cabeça cansada nas palmasdas duas mãos. Também por outra interesseira razão traz Baltasaros ferros guardados. Aprendeu rapidamente que comeles postos, em particular o espigão, lhe escusam aesmola, ou dão-lha sovina, ainda que a alguma moedasempre forçados pela espada que leva à cintura, descaída sobre a anca,apesarde que espada toda agente a usa, até os pretos, porém não com este perfeitoar de quem aprendeu a servir-se dela, agora mesmose for preciso. E se o número de viajantes não equilibra a desconfiançacausada por aquele vulto que nomeio do caminho, cortando a passagem, pede auxíliopara um soldado a quem cortaram a mão e só pormilagre não a vida, se quem vem teme que a súplicapossa mudar-se em assalto, a esmola sempre cai namão que resta, é o que vale a Baltasar, ter ainda amão direita. Passado Pegões, à entrada dos grandes pinheiraisonde começa a terra de areia, Baltasar, ajudando-secom os dentes, ata ao coto o espigão, que fará, urgindoa necessidade, as vezes de adaga, em tempo que foiesta proibida por ser arma facilmente mortal. Sete-Sóistem, por assim dizer, carta de privilégio, e, duplamente armado deespigão eespada, mete-se ao caminho, na penumbra das árvores. Matará adiante umhomem, de dois que o quiseram roubar, mesmo tendo-lhes ele gritado quenão
  20. 20. levava dinheiros, porém, vindonós de uma guerra onde vimos morrer tanta gente,não é este caso que mereça relato singular, salvo terSete-Sóis trocado ·depois o espigão pelo gancho paramais facilmente arrastar o morto para fora do caminho, assim ficandoexperimentados os préstimos deambos os ferros. O salteador safo seguiu-o ainda pormeia légua entre os pinheiros, por fim desistiu, e sóde longe lhe lançou palavras de insulto e maldição,porém, como quem não acreditava que umas empecessem e outrasofendessem. Quando Sete-Sóis chegou a Aldegalega, estava anoitecendo. Comeu umassardinhas fritas, bebeu uma tigela de vinho, e, não lhe chegando odinheiropara apousada, tão-só, à escassa, para a passagem amanhã,meteu-se num telheiro, debaixo de uns carros, e aídormiu, enrolado no capote, mas com o braço esquerdode fora e o espigão armado. Passou a noite em paz.Sonhou com o choque de Jerez de los Caballeros, queos portugueses desta vez irão vencer porque à frentedeles avança Baltasar Sete-Sóis segurando na mão direita a mão esquerdacortada, prodígio para que osespanhóis não têm escudo nem esconjuro. Quandoacordou, não havia ainda então luzeiro de madrugadano levante do céu, sentiu umas grandes dores na mãoesquerda, nem era para admirar, com um espigão deferro ali espetado. Desatou as correias, e, podendotanto a ilusão, muito mais sendo noite, e espessa atreva debaixo dos carros, não ver Baltasar as suasduas mãos, não significava que não estivessem láAmbas. Aconchegou com o braço esquerdo o alforge,enroscou-se no capote e tornou a adormecer. Ao menoslivrara-se da guerra. Com menos um bocado, mas vivo. I_Ia claridade do primeiro alvorecer, levantou-se.O céu estava muito limpo, transparente até às últimase pálidas estrelas. Era um bonito dia para entrar emLisboa, com bom tempo para lá ficar ou continuarviagem, logo veria. Meteu a mão ao alforge, tirou asbotas arruinadas que em todo o caminho ,do Alentejonunca calçara, e calçasse-as ele nesse mesmo caminhoteriam ficado, e pedindo à mão direita habilidades novas, com o frouxoamparoque o coto, ainda em primeira aprendizagem, podia oferecer, conseguiuacomodar os pés, se pelo contrário não ia sacrificá-los embolhas e roeduras, tão antigo era o hábito de andarem descalços, em sua vida de paisano, ou, no tempo militar, quando aimpedimenta nem para jantar tinha sola, quanto mais para botas. I_Ião há pior vida que a do soldado. Quando chegou ao cais, era já sol-fora. Começara a vazante, o mestre da barca gritava que ia largar não tarda, Está a maré boa, quem embarca para Lisboa, e Baltasar Sete-Sóis correu pela prancha, tilintavam -lhe os ferrosdentrodo alforge, e quando um gracioso disse que o maneta levava as ferraduras no saco, se
  21. 21. calhar para as poupar, olhou-o de revés, meteu a mão direita e tirou o espigão, onde, agora bem se via, se não era aquilo sangue seco, era o diabo que o fingia. O gracioso desviou os olhos, encomendou-se a S. Cristóvão, quedefende demaus encontros e acidentes de viagem, e dali até Lisboa não abriu mais o bico. Umamulher que calhou ir sentada ao lado de Sete-Sóis, com o marido, desatou o farnel do almoço, e se à vizinhança ofereceu por comprazer, mas nenhuma vontade de repartir, com osoldadoinsistiu tanto, que ele aceitou. Baltasar não gostava de comer diante de gente, com aquela sua mão direita que sozinha parecia canha, o pão que escorregava, o conduto que caía, mas a mulher ajeitou-lhe acomidaem cima duma larga fatia e assim, alternando o uso dos dedos com aponta da faquita que tirara do bolso, pôde comer com descanso e suficiente asseio. A mulher tinha idade para ser suamãe, o homem para ser seu pai, não se tratava ali denenhum namoro sobre as águas do Tejo, nas barbas de involuntário ou consentidor pau-de-cabeleira. Apenas algumafraternidade, dó de quem vem da guerra aleijado para sempre. O mestre levantara uma pequena vela triangular, o vento ajudava a maré, e ambos o barco. Os remadores, frescos danoitedormida e da aguardente bebida, remavam certo e sem pressa. Quandodobraram a ponta de terra, a barca foi apanhada na força da corrente e da vazante, parecia uma viagem para oparaíso, com o sol relampejando na superfície da água e duas famílias de toninhas, qual uma, qual outra, cruzando à frente da barca, escuros os seus lombosluzidios, arqueados como se imaginassem o céu pertoe lhe quisessem chegar. Na outra margem, assentesobre a água, ainda longe, Lisboa derramava-se parafora das muralhas. Via-se o castelo lá no alto, as torresdas igrejas dominando a confusão das casas baixas,a massa indistinta das empenas. E o mestre começoua contar, Boa foi a que sucedeu ontem, quem querouvir, e todos queriam, sempre era um modo de passaro tempo, que a viagem não é curta, Então foi assim,começou o mestre, chegou aí uma frota inglesa, queestá além, em frente da praia de Santos, e traz tropasque hão-de ir para a Catalunha, para a guerra, com asoutras que cá estavam à espera, mas veio também comela um navio que trazia uns casais de facinorosos desterrados para ailha dasBarbadas, e umas cinquentamulheres de má vida que para lá também iam, a fazerem casta, que emterrasdessas tanto monta honradacomo desonrada, mas o capitão do navio entendeu,diabo do homem, que em Lisboa a poderiam fazermelhor e assim se aligeirou da carga, mandou pôr as
  22. 22. mulheres em terra, com o corpinho que têm, quealgumas vi-as eu, não era nada má a inglesia. Riu-sede gosto antecipado o mestre, como se estivesse fazendo seus própriosplanosde navegação carnal ecalculando os proveitos da abordagem, riram grossoos remadores algarvios, Sete-Sóis espreguiçou-se comoum gato ao sol, a mulher do farnel fez que não ouvira,o marido estava sem saber se havia de achar graça àhistória ou ficar sério, justamente porque históriasdestas já a sério as não podia tomar, se alguma vezpudera, vivendo longe, em terra de Pancas, onde, donascer ao morrer, é sempre o mesmo rego da charrua,a própria e a figurada. E, pegando numa ideia, depoisnoutra, por alguma razão desconhecida as ligando, perguntou ao soldado,Evossemecê, que idade tem, e Baltasar respondeu, Vinte e seis anos. Lisboa ali estava, oferecida na palma da terra,agora alta de muros e de casas. A barca aproou à Ribeira, fez o mestremanobra para encostar ao caisdepois de ter arreado a vela, e os remadores levantaramnum só movimento os remos do lado da atracação, osdo outro lado harpejaram a amparar, mais um toqueno leme, um cabo lançado por cima das cabeças, foicomo se se tivessem juntado as duas margens do rio.Estando vaza a maré, ficava alto o cais, e Baltasarajudou a mulher do farnel e o seu homem, de peitofeito pisou o gracioso que não tugiu nem mugiu, e,alçando a perna, num só impulso se achou em firme. Havia uma confusão de muletas e caravelões quedescarregavam peixe, os olheiros gritavam e maltratavam de palavras ealgumsafanão os carregadores pretos que passavam ajoujados, encharcados pelaáguaque escorria das grandes alcofas, com a pele dos braçose da cara salpicada de escamas. Parecia que tinhamvindo juntar-se no mercado todos os moradores deLisboa. A Sete-Sóis crescia-lhe a água na boca, era comose uma fome acumulada em quatro anos de campanhamilitar estivesse saltando agora os diques da resignação e dadisciplina.Sentiu o estômago aos torcegões,inconscientemente procurou com os olhos a mulher dofarnel, onde é que ela já iria, mais o seu sossegadomarido, este provavelmente a mirar as fêmeas quepassavam, a adivinhar se eram inglesas e de má vida,um homem precisa de fazer a sua provisão de sonhos. Com pouco dinheiro no bolsilho, umas só moedasde cobre que soavam bem menos que os ferros doalforge, desembarcado numa cidade que mal conhecia, tinha Baltasar deresolver que passos daria aseguir, se a Mafra onde não poderia a sua única mãopegar numa enxada que requer duas, se ao paço ondetalvez lhe dessem uma esmola por conta do sangueperdido. Alguém lhe tinha dito isto em Évora, mastambém lhe foram dizendo que era necessário pedirmuito e por muito tempo, com muito empenho de
  23. 23. padrinhos, e apesar disso muitas vezes se apagava avoz e acabava a vida antes que se visse a cor ao dinheiro. Na falta, aíestavam as irmandades para aesmola e as portarias dos conventos que proviam aocaldo e ao tassalho do pão. E um homem a quem faltea mão canhota não tem muito de que se queixar seainda lhe ficou a destra para pedir a quem passa. Ouexigir com um ferro aguçado. Sete-Sóis atravessou o mercado do peixe. As vendedeiras gritavamdesbocadamente aos compradores,provocavam-nos, sacudiam os braços carregados debraceletes _de ouro, batiam juras no peito onde sereuniam fios, cruzes, berloques, cordões, tudo de bomouro brasileiro, assim como os longos e pesados brincos ou argolas,arrecadasricas que valiam a mulher.Mas, no meio da multidão suja, eram miraculosamenteasseadas, como se as não tocasse sequer o cheiro dopeixe que removiam às mãos cheias. A porta dumataberna que ficava ao lado da casa dos diamantes,Baltasar comprou três sardinhas assadas, que, sobrea indispensável fatia de pão, soprando e mordiscando,comeu enquanto caminhava em direcção ao Terreirodo Paço. Entrou no açougue que dava para a praça,a regalar a vista sôfrega nas grandes peças de carne,nos bois e porcos abertos, quartos inteiros penduradosdos ganchos. A si próprio prometeu um festim deviandas quando lhe desse o dinheiro para isso, nãosabia então que ali viria a trabalhar, um dia próximo,e que deveria o emprego, a padrinho sim, mas tambémao gancho que trazia no alforge, tão prático para puxaruma carcaça, para escoar umas tripas, para arredarumas mantas de gordura. Tirando a sangueira, o lugaré limpo, com as paredes forradas de azulejos brancos,e se o homem da balança não enganar no peso, comoutros enganos ninguém dali sai, porque em qualidades de macieza esaúde émuito verdadeira a carne. Aquilo além é o palácio do rei, está o palácio, o reinão está, anda a caçar em Azeitão, com o infanteD. Francisco e os seus outros irmãos, mais os criadosda casa, e os reverendos padres jesuítas João Seco eLuís Gonzaga, que decerto não foram só para comere rezar, talvez quisesse el-rei refrescar as lições dematemáticas e latinidades que deles, quando príncipe,recebeu. Levou também sua majestade uma espingardanova, que lha fez João de Lara, mestre de armas dosarmazéns do reino, obra fina, adamasquinada de pratae ouro, que se a perder em caminho tornará prestesa seu dono, pois tem ao comprido do cano, em boaletra romana embutida, como a do frontão de S. Pedrode Roma, estes dizeres explicados SOU DE EL-REINOSSO SENHOR AVE DEUS GUARDE DOM JOAMO V, todos em maiúsculas, como se copia, e aindadizem que as espingardas só sabem falar pela bocae em linguagem de pólvora e chumbo. Essas são ascomuns, como foi a de Baltasar Mateus, o Sete-Sóis,
  24. 24. agora desarmado e parado no meio do Terreiro doPaço, a ver passar o mundo, as liteiras e os frades, osquadrilheiros e os mercadores, a ver pesar fardos ecaixões, dá-lhe de repente uma grande saudade daguerra, e se não fosse saber que não o querem lá, aoAlentejo voltaria neste instante, mesmo adivinhandoque o esperava a morte. Meteu-se Baltasar pela rua larga, em direcção aoRossio, depois de ter entrado na igreja de Nossa Senhora da Oliveira,ondeassistiu a uma missa e trocousinais com uma mulher sozinha que dele se agradou,divertimento aliás geral, porque, mulheres a um lado,homens ao outro, recados, gestos de mão, movimentosde lenço, trejeitos de boca, piscadelas de olhos, nãofaziam mais, se não é pecado fazer tanto, que transmitir mensagens,combinarencontros, pactuar acordos,mas vindo Baltasar de tão longe, afalcoado do caminho, sem dinheirosparamanjares-do-céu e fitas deseda, não foi por diante com o namoro, e, saindo daigreja, meteu pela rua larga, em direcção ao Rossio.Era este um dia de mulheres, como se confirmavapela dúzia delas que vinham saindo duma rua estreita,rodeadas de quadrilheiros pretos que as tocavam paraa frente, com um corregedor de vara na mão, e eramquase todas louras, de claros olhos, azuis, verdes, cinzentos, Quem sãoestas, perguntou Sete-Sóis, e quandoum homem cerca lho disse, já ele estava acertando queseriam inglesas levadas ao navio don_de por fraude docapitão haviam sido largadas, e que remédio agorasenão irem para as ilhas Barbadas, em vez de ficaremnesta boa terra portuguesa, tão favorecedora de putasestrangeiras, ofício que se ri das confusões de Babel,porque nas oficinas dele se pode entrar mudo e saircalado, desde que antes tenha falado o dinheiro. Maso mestre da barca dissera que eram ao todo umas cinquenta e ali não iammaisque doze, Que é das outras,e o homem respondeu, Já apanharam umas tantas, masnão as levam todas, porque algumas se esconderammuito bem escondidas, se calhar a esta hora já sabemse há diferença entre ingleses e portugueses. SeguiuBaltasar o seu caminho, fazendo a S. Bento promessade um coração de cera se lhe pusesse adiante, ao menosuma vez na vida, uma inglesa loura, de olhos verdes,e que fosse alta e delgada. Se no dia da festa daquelesanto vai a gente bater-lhe à porta da igreja a pedirque não falte o pão, se as mulheres que querem arranjar bons maridosmandamrezar-lhe missas às sextas-feiras, que mal tem que peça um soldado a S.Bentouma inglesa, ao menos uma vez, para não morrer ignorante. Baltasar Sete-Sóis girou pelos bairros e praças durante toda a tarde.Foibeber um caldo à portaria do
  25. 25. convento de S. Francisco da Cidade, informou-se dasirmandades mais generosas na esmola, retendo trêsdelas para ulterior averiguação, a de Nossa Senhorada Oliveira, onde já estivera, que era a dos confeiteiros,a de Santo Elói, dos ourives da prata, e a do MeninoPerdido, por alguma semelhança que consigo encontrava, mesmo lembrando-se tãopouco de ter sido menino, perdido sim, se me acharão um dia. Caiu a noite, e Sete-Sóis foi procurar onde dormir.Já então se tinha ligado de amizade com outro antigosoldado, mais velho de anos e experiência, chamava-seeste João Elvas, agora com modo de vida na rufiagem,que justamente se acoitava para a noite, estando suaveo tempo, nuns telheiros abandonados, rentes com osmuros do convento da Esperança, para o lado do olival.Fez-se Baltasar hóspede de ocasião, sempre era umamigo novo, uma companhia para a conversa, mas,pelo sim pelo não, dando como desculpas convir-lhemuito aliviar o braço são do peso do alforge, encairou o gancho nocoto, nãoquerendo ofuscar JoãoElvas e mais quadrilha com o espigão, arma mortal,como sabemos. Ninguém lhe fez mal, e eram seis debaixo do telheiro, eele nãofez mal a ninguém. Enquanto não adormeceram, falaram de crimesacontecidos. Não dos seus próprios, cada qual sabe desi, Deus saberá de todos, mas dos de gente principal,sem castigo quase sempre quando conhecidos os autores, e sem escrúpuloextremo da justiça nas averiguações se fora misterioso o acto.Ladrãozito,briguento, matador de a real e meio, se não havia perigo de soltareste a língua para denunciar o mandante, esses malhavam com os ossos noLimoeiro, e ainda assim tinhamas sopas garantidas, tanto como a merda e o mijo emque viviam. A pontos de há pouco tempo terem soltadouns cento e cinquenta de culpas menos pesadas, queentão estavam no Limoeiro, por junto, mais de quinhentos, com as muitaslevasde homens que vierampara a Índia e que acabaram por não ser necessários,e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta, que sedeclarou uma doença que nos ia matando a todos porisso soltaram aqueles, um deles sou eu. E outro disse,Isto é terra de muito crime, morre-se mais que naguerra, é o que diz quem lá andou, e tu que dizes,Sete-Sóis, e Baltasar respondeu, Vi como se morre naguerra, não sei como se morre em Lisboa, por isso nãoposso comparar, mas que fale aí o João Elvas, tantosabe de praças de guerra como de praças de gente, eJoão Elvas só encolheu os ombros, não disse nada. Tornou a conversa ao ponto primeiro, e foi contadoo caso do dourador que deu uma facada numa viúvacom quem queria casar, e não queria ela, que por castigo de não coroarodesejo do homem ficou morta,e ele foi-se meter no convento da Trindade, e também
  26. 26. aquela desventurada mulher que tendo repreendido omarido de descaminhos em que andava, lhe passou eleuma espada de parte a parte, e mais o que aconteceuao clérigo que por história de amores levou três formosas cutiladas,tudo emtempo de Quaresma, que ésazão de sangue ardido e humor retraído, como se temaveriguado, Mas Agosto também não é bom, comoainda o ano passado se viu, quando aí apareceu umamulher cortada em catorze ou quinze pedaços, nuncase chegou a saber a conta, o que se percebia é quetinha sido açoitada com muita crueldade nas partesfracas, como traseiras e barriga das pernas, cortadas fora, separadasdosossos, os pedaços foram deixados na Cotovia, metade postos nas obras docondede Tarouca, e os outros abaixo nos Cardais, mas tãomanifestos que facilmente foram encontrados, nem osenterraram, nem os deitaram ao mar, parecia que depropósito os deixavam à vista, para que fosse geral ohorror. Tomou então a palavra João Elvas, que declarou,Foi grande chacina, e deve ter sido feita em vida dainfeliz, porque teria sido rigor demasiado tratar assimum cadáver, e porquê, quando o que _ali se via era oretalhado das partes sensíveis e menos mortais, sóalguém de coração mil vezes danado e perdido podeter praticado tal crime, nunca na guerra viste umacoisa assim, Sete-Sóis, mesmo não sabendo eu o que naguerra viste, e o que começara a contar o caso pegounesta vírgula e continuou, Depois foram aparecendoas partes que faltavam, ao outro dia achou-se naJunqueira a cabeça e uma mão, e um pé à Boavista,e por mão, pé e cabeça se viu ser pessoa mimosa e bemcriada, mostrava o rosto ter de idade não mais quedezoito, vinte anos, e no saco onde apareceu a cabeçavinham as tripas e mais partes interiores, e os seios,cortados como laranjas, e com eles uma criança quemostrava três ou quatro meses, estrangulada com umcordão de seda, em Lisboa tem-se visto muito, nuncaum caso assim. Tornou João Elvas, acrescentando o que do sucessosabia, El-rei mandou pôr cartéis com promessa de quese dariam mil cruzados a quem descobrisse os culpados, mas já lá vaiquase umano e nunca se descobriram, pudera, que logo toda a gente viu quedeviam serpessoas com quem se não havia de entender, que ostais homicidas não eram sapateiros nem alfaiates, queestes só nas bolsas fazem cortes, e os da tal mulherforam feitos com tal arte e ciência, sem se errar nenhuma junta detantaspartes do corpo que se lhecortaram, c_uase osso por osso, que os cirurgiões chamados à vistoriadisseram que aquilo fora feito porpessoa peritíssima na arte anatómica, só não confessaram que nem elessabiam
  27. 27. tanto. Por trás do murodo convento ouviam-se ladainhar as freiras, mal sabemelas do que se livram, parir um filho e tão violentamente pagar porele,então Baltasar perguntou, E nãoveio a saber-se mais, nem quem fosse a mulher, Nemdela nem dos homicidas houve notícia, puseram-lhe acabeça na porta da Misericórdia para ver se alguéma conhecia, foi o mesmo que nada, e um dos que aindanão tinham falado, de barbas mais brancas do quenegras, disse, Deviam de ser de fora da corte, se fossemmoradores nela dava-se pela falta da mulher e começavam a murmurar,terá sidoalgum pai que determinou matar a filha por causa de desonra e a mandoutrazer, espedaçada, em cima de mula ou escondidaa carniça numa liteira, para a espalhar na cidade, secalhar, lá onde mora, enterrou um porco a fingir queera a assassinada, e disse que a sua pobre filha tinhamorrido de bexigas, ou de humores corruptos, paranão ter de abrir a mortalha, ele há gente capaz de tudo,até do que está por fazer. Calaram-se os homens, indignados, das freiras nãose ouvia agora um suspiro, e Sete-Sóis declarou, naguerra há mais caridade, A guerra ainda está umacriança, duvidou João Elvas. E não havendo mais quedizer depois desta sentença, puseram-se todos a dormir. D. Maria Ana não irá hoje ao auto-de-fé. Está de luto por seu irmão José, O imperador da Áustria, queem pouquíssimos dias o tomaram as bexigas, verdadeiras, e morreu delas,tendosomente trinta e três anos, mas a razão porque ficará no resguardo dos aposentos não é essa, muito mal andariam os Estadosquando uma rainha afracasse por esse pouco se para tão grandes e maiores golpes são educadas. Apesar de já ir no quinto mês, ainda sofre dos enjoos naturais, que, no entanto, também não bastariam a desviar-lhe a devoção e os sentidos de vista, Ouvido e cheiro da solene cerimónia, tão levantadeira das almas, acto tão de fé, a procissão compassada, a descansada leitura das sentenças, as descaídas figuras dos condenados, as lastimosas vozes, O cheiro da carne estalando quando lhe chegam as labaredas e vai pingando para as brasas a pouca gordura que sobejou dos cárceres. D. Maria Ana não estará no auto-de-fé porque, apesar de prenha, três vezes a sangraram, e isso foi-lhe causa de grande debilitação, em acréscimo dos afrontamentos de que vem padecendo há muitos meses. Demoraram-lhe as sangrias como lhe tinham demorado a notícia da mortedo irmão, que queriam os médicos segurá-la mais, sendo de tão pouco tempo a gravidez. Que, em verdade, os ares não andam bons no paço, como ainda agorase averiguou ao dar a el-rei um flato rijo, de que pediu confissão elogo lhaderam, pelo bem que sempre fazà alma, mas terão sido imaginações suas, que tudo se
  28. 28. desatou num bom sucesso quando o purgaram, afinalera só a tripa empedernida. Está o palácio triste, sobrea tristeza em que de costume está, com o luto queel-rei mandou dar a toda a sua casa, e ordem para queos títulos e oficiais dela o pusessem, como ele pôs,fechando-se oito dias e tomando seis meses de nojo,três de capa comprida e três de capa curta, por demonstração do grandesentimento da morte do imperador seu cunhado. Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura apalavra será imprópria, porque o gosto vem de maisfundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo desuas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendodos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar ajudeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, foraaqueles casos menos correntemente qualificáveis, comoos de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outrasmiuçalhas passíveis de degredo ou fogueira. São cento e quatro aspessoas quehoje saem,as mais delas vindas do Brasil, úbere terreno para diamantes eimpiedades,sendo cinquenta e um os homense cinquenta e três as mulheres. Destas, duas serãorelaxadas ao braço secular, em carne, por relapsas,e isto quer dizer reincidentes na heresia, por convictase negativas, e isto quer dizer teimosas apesar de todosos testemunhos, por contumazes, e isto quer dizer persistentes noserros quesão suas verdades, só desacertadas no tempo e no lugar. E estando jápassadosquase dois anos que se queimaram pessoas em Lisboa,está o Rossio cheio de povo duas vezes em festa porser domingo e haver auto-de-fé, nunca sé chegará asaber de que mais gostam os moradores, se disto, sedas touradas, mesmo quando só estas se usarem. Nasjanelas que dão para a praça estão as mulheres, vestidas e toucadas aprimor,à alemoa, por graça darainha, com o seu vermelhão nas faces e no colo, fazendo trejeitos coma bocaem modo de a fazer pequenae espremida, visagens várias e todas viradas para arua, a si próprias se interrogando as damas se estarãoseguros os sinaizinhos do rosto, no canto da boca obeijocador, na borbulhinha o encobridor, debaixo doolho o desatinado, enquanto o pretendente confirmadoou suspirante em baixo se passeia, de lenço na mão ecirculando a capa. E sendo o calor tanto, vão-se refrescando osassistentes,com a conhecida limonada, ogeral púcaro de água, a talhada de melancia, que nãoseria por irem morrer aqueles que se consumiriamestes. E se o estômago pede recheio mais substancial,não faltam aí os tremoços e os pinhões, as queijadase as tâmaras. El-rei, com os infantes seus manos esuas manas infantas, jantará na Inquisição depois determinado o acto de fé, e estando já aliviado do seu
  29. 29. incómodo honrará a mesa do inquisidor-mor, soberbíssima de tigelas decaldode galinha, de perdigões,de peitos de vitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar ecanela, de cozido à castelhana comtudo quanto lhe compete, e açafroado, de manjar-branco, e enfim docesfritose frutas do tempo. Masé tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque amelhor lição é sempre o bom exemplo, todos o tomam,o exemplo, o vinho não. Outro exemplo, mais do proveito da alma, se ocorpo tão repleto está, será dado hoje aqui. Começoua sair a procissão, vêm os dominicanos á frente, trazendo a bandeira deS.Domingos, e os inquisidoresdepois, todos em comprida fila, até aparecerem ossentenciados, foi já dito que cento e quatro, trazemcírios na mão, ao lado os acompanhantes, e tudo sãorezas e murmúrios, por diferenças _de gorro e sambenito se conhece quemvaimorrer e quem não, emboraum outro sinal haja que não mente, que é ir o alçadocrucifixo de costas voltadas para as mulheres que acabarão na fogueira,pelocontrário mostrando a sofredora e benigna face àqueles que destaescaparãocomvida, maneiras simbólicas de se entenderem todosquanto àquilo que os espera, se não reparassem noque trazem vestido, e isso sim, é tradução visual dasentença, o sambenito amarelo com a cruz de SantoAndré a vermelho para os que não mereceram a morte,o outro com as chamas viradas para baixo, dito fogorevolto, se confessando as culpas a evitaram, e a samarra cinzenta,lúgubrecor, com o retrato do condenado cercado de diabos e labaredas, o que,passadoa linguagem, significa que aquelas duas mulheres vãoarder não tarda. Pregou frei João dos Mártires, provincial dosarrábidos, ecertamente ninguém o estariamerecendo mais, se nos lembrarmos de que arrábidofoi o frade cuja virtude Deus coroou engravidando arainha, assim aproveite a prédica à salvação das almascomo aproveitarão a dinastia e a ordem franciscanaem sucessão assegurada e prometido convento. Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham asmulheresdebruçadas dos peitoris,alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enormeque não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvandocomose determinasse chegar ãtoda a parte ou oferecer o espectáculo edificante a todaa cidade, aquele que ali vai é Simeão de Oliveira eSousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo
  30. 30. Ofício declarava ser qualificador, e sendo secular diziamissa, confessava e pregava, e ao mesmo tempo que_isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viuconfusão assim, e para ser ela maior tanto se chamavapadre Teodoro Pereira de Sousa como frei Manuel daConceição, ou frei Manuel da Graça, ou ainda BelchiorCarneiro, ou Manuel Lencastre, quem sabe que outrosnomes teria e todos verdadeiros, porque deveria ser umdireito do homem escolher o seu próprio nome e mudá-lo cem vezes aodia, umnome não é nada, e aqueleé Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador quefoi em Portel, que fingia visões para ser tido por santo,e fazia curas usando de bênçãos, palavras e cruzes,e outras semelhantes superstições, imagine-se, como setivesse sido ele o primeiro, e aquele é o padre AntónioTeixeira de Sousa, da ilha de S. Jorge, por culpas desolicitar mulheres, maneira canónica de dizer que asapalpava e fornicava, decerto começando na palavrado confessionário e terminando no acto recato da sacristia, enquantonão vaicorporalmente acabar emAngola, para onde irá degredado por toda a vida, eesta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto decristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunalqueera fingimento, que ouçovozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei quepossoser santa como os santos osão, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entremim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável eorgulho monstruoso, desafio aDeus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que nãomeouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a seraçoitadaem público e a oito anos de degredo no reino de Angola,e tendo ouvido as sentenças, as minhas e mais dequem comigo vai nesta procissão, não ouvi que sefalasse da minha filha, é seu nome Blimunda, ondeestará, onde estás Blimunda, se não foste presa depoisde mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te vereise no meio dessa multidão estiveres, que só para tever quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, nãoos olhos, olhos que não te viram, coração que sente esentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimundaaí estiver, entre aquela gente que está cuspindo paramim e atirando cascas de melancia e imundícies, aicomo estão enganados, só eu sei que todos poderiamser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo,enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente ocoração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ái, ali está, Blimunda, Blimunda,Blimunda, filha minha, e já meviu, e não pode falar, tem de fingir que me não conheceou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda queapenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o
  31. 31. padre Bartolomeu_ Lourenço, não fales, Blimunda, olhasó, olha com esses teus olhos que tudo são capazes dever, e aquele homem quem será, tão alto, que estáperto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quemé ele, donde vem, que vai ser deles poder meu, pelasroupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeusBlimunda quenão te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, edepois,voltando-se para o homem alto que lhe estava perto,perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assimreconhecendo o direito de esta mulherlhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis. Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deuvoltainteira a procissão, foramaçoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas asduasmulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queriamorrerna fé cristã, outra assada viva por perseverança contumaz até ha horademorrer, diante das fogueiras armou-se um baile, dançam os homens e asmulheres,el-rei retirou-se, viu, comeu e andou, com ele os infantes, recolheu-seaopaço no seu coche puxado a seiscavalos, guardado pela sua guarda, a tarde desce depressa, mas o calorsufocaainda, sol de garrote, sobreo Rossio caem as grandes sombras do convento doCarmo, as mulheres mortas são descidas sobre ostições para se acabarem de consumir, e quando já fornoite serão as cinzas espalhadas, nem o Juízo Finalas saberá juntar, e as pessoas voltarão às suas casas,refeitas na fé, levando agarrada à sola dos sapatosalguma fuligem, pegajosa poeira de carnes negras,sangue acaso ainda viscoso s_ nas brasas não se evaporou. Domingo é odia doSenhor, verdade trivial,porque dele são todos os dias, e a nós nos vêm gastando os dias se emnome domesmo Senhor não nosgastaram mais depressa as labaredas, por duplicadaviolência, que é a de me queimarem quando por minharazão e vontade recusei ao dito Senhor ossos e carne,e o espírito que me sustenta o corpo, filho de mime de mim, cópula directa de mim comigo mesmo, infuso do mundo sobre orostoescondido, igual aomostrado e por isso ignorado. No entanto, é precisomorrer. Frias hão-de ter parecido, a quem perto estivesse,as palavras ditas por Blimunda, Ali vai minha mãe,nenhum suspiro, lágrima nenhuma, nem sequer o rostocompadecido, que ainda assim não faltam estes nomeio do povo apesar de tanto ódio, de tanto insulto
  32. 32. e escárnio, e esta que é filha, e ama·da como se viupelo modo como a olhava a mãe, não teve mais dizersenão, Ali vai, e depois voltou-se para um homem aquem nunca vira e perguntou, Que nome é o seu,como se contasse mais sabê-lo que o tormento dosaçoites depois do tormento do cárcere e dos tratos, eque a certa certeza de ir Sebastiana Maria de Jesus,nem o nome a salvou, degredada para Angola e lá ficar, quem sabe se consolada espiritual e corporalmente pelo padreAntónioTeixeira de Sousa, que muita pratica leva de ca, e ainda bem, para não ser tão infeliz o mundo,mesmoquando já tem garanti_da a condenação. Porém; agora, em sua casa,choram osolhos de Blimunda como duas fontes de água, se tornar a ver sua mãe será no embarque, mas de longe, mais fácil é largar um capitão inglês mulheres de má vida que beijar uma filha sua mãe condenada, encostar a umaface outra face, a pele macia, a pele frouxa, tão perto, tão distante, onde estamos, quem somos, e o padre Bartolomeu Lourenço diz, Não somos nada peranteos desígnios do Senhor, se ele sabe quem somos, conforma-te Blimunda,deixemos a Deus o campo de Deus, não atravessemos as suas fronteiras, adoremos deste lado _ de cá, e façamos o nosso campo, o campo dos homens, que estando feito há-de querer Deus vi_itar -nos, e então,sim,será o mundo criado. Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenasolhafixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, masBlimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não eranecessáriamelhor razão. Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Eleentrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete -Sóis delembrar-seda guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa. Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas,
  33. 33. e quando ela ferveu .deitou uma parte para duas tigelaslargas que serviu aos dois homens, fez tudo isto semfalar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou,há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de opadre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminassepara seservir da colher dele, eracomo se calada estivesse respondendo a outra pergunta,Aceitas para a tua boca a colher de que se serviua boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora·tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes quese perca o sentido do teu e do meu, e como Blimundajá tinha dito que sim antes de perguntada, Entãodeclaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimundaacabasse de comer da panela assopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com elacobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lumena lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar.Depoissaiu. Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar.Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr algumalenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimundaespevitou o morrão da candeia que estava comendo aluz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sói_dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu,Porqueminha mãe o quis saber Equeria que eu o soubesse, Como sabes, se com el_não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não_faças perguntas a que não posso responder, faze comofizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Senão tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir paraMafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica,enquanto não fores, será sempre tempo de partires,Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso,Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar,vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forçasque me levem daqui, deitaste-me um encanto, Nãodeitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me pordentro, Juroque nunca te olharei por dentro,Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de queestás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, ondedurmo, Comigo. Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens,perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanoveanos, mas já então se tornara muito mais velha. Correualgum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedosmédio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez umacruz nopeito de Baltasar, sobre ocoração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviramvozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois osilêncio. Não correu mais sangue. Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda
  34. 34. deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados.Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, Edisse,Nunca te olharei por dentro. Levar este pão à boca é gesto fácil, excelente defazer se a fome o reclama, portanto alimento do corpo,benefício ,do lavrador, provavelmente maior benefíciode alguns que entre a foice e os dentes souberam metermãos de levar e trazer e bolsas de guardar, e esta é aregra. I_Ião há em Portugal trigo que baste ao perpétuoapetite que os portugueses têm de pão, parece quenão sabem comer outra coisa, por isso os estrangeirosque cá moram, doridos das nossas necessidades, queem maior volume frutificam que sementes de abóbora,mandam vir, das suas próprias e outras terras, frotasde cem navios carregados de cereal, como estes queentraram agora Tejo adentro, salvando à torre deBelém e mostrando ao governador dela os papéis douso, e desta vez são mais de trinta mil moios de pãoque vêm da Irlanda, e é a abundância tal, fome quefinalmente deu em fartura, enquanto em fome se nãotornar, que, achando-se cheias as tercenas e tambémjá os armazéns particulares, andam por aí a alugardepósitos por todo o dinheiro, e põem escritos nasportas da cidade para que conste às pessoas que ostiverem para alugá-los, com que _desta vez se vão arrepelar os quemandaramvir o trigo, obrigados peloexcesso a baixar-lhe o preço, tanto mais que se falaem próxima chegada de uma frota da Holanda carregada do mesmo género,masdesta virá a saber-se quea assaltou uma esquadra francesa quase na entradada barra, e assim o preço, que ia baixar, não baixa,se for preciso deita-se fogo a um celeiro ou dois, mandando em seguidaapregoar a falta que o trigo ardidojá está fazendo, quando julgávamos que havia tantoe de sobra. São mistérios mercantis que os de foraensinam e os de dentro vão aprendendo, embora estessejam ordinariamente tão estúpidos, de mercadoresfalamos, que nunca mandam vir eles próprios as mercadorias das outrasnações,antes se contentam comcomprá-las aqui aos estrangeiros que se forram da nossasimplicidade e forram com ela os cofres, comprandoa preços que nem sabemos e vendendo a outros quesabemos bem de mais porque os pagamos com línguade palmo e a vida palmo a palmo. Porém, morando o riso tão perto da lágrima, o desafogo tão cerca daânsia,o alívio tão vizinho do susto,nisto se passando a vida das pessoas e das nações,conta João Elvas a Baltasar Sete-Sóis o formoso passobélico de se ter armado a marinha de Lisboa, de Beléma Xabregas, por espaço de dois dias e duas noites, aomesmo tempo que em terra tomavam posições de combate os terços e acavalaria,
  35. 35. porque correra a novade que vinha uma armada francesa a conquistar-nos,hipótese em que qualquer fidalgo, ou plebeu qualquer,seria aqui outro Duarte Pacheco Pereira, e Lisboa umanova praça de Diu, e afinal a armada invasora transformou-se em umafrota debacalhau, que boa faltaestava fazendo, como não tardou a ver-se pelo apetite.De riso murcho souberam os ministros a notícia, deriso amarelo largaram os soldados ás armas e os cavalos, mas foramaltas eestrepitosas as gargalhadas dovulgo, assim desforrado de não poucas vexações. Enfim,pior que a vergonha de esperar o francês e ver chegaro bacalhau, seria contar com o bacalhau e entrar ofrancês. Sete-Sóis concorda, mas imagina-se na pele dos soldados que esperavamabatalha, sabe como bate entãoo coração, que irá ser de mim, se daqui a pouco aindaestarei vivo, apura-se um homem à altura da possívelmorte e depois vêm dizer-lhe que estão a descarregarfardos de bacalhau na Ribeira Nova, se os francesesvêm a saber do engano, ainda se rirão mais de nós.Vai Baltasar para ter outra vez saudades da guerra,mas lembra-se de Blimunda e lança-se a querer averiguar de que cor sãoosolhos dela, é uma guerra emque anda com a sua própria memória, que tanto lhelembra uma cor como outra, nem os seus própriosolhos conseguem decidir que cor de olhos estão vendoquando os têm diante. Desta maneira se esqueceu dassaudades que ia sentir, e responde a João Elvas, Deviaera haver maneira certa de saber quem vem e o quetraz ou quer, sabem-no as gaivotas que vão pousar nosmastros, e nós, a quem mais importaria, não sabemos,e o soldado velho disse, As gaivotas têm asas, tambémas têm os anjos, mas as gaivotas não falam, e de anjosnunca vi nenhum. Atravessava o Terreiro do Paço o padre BartolomeuLourenço, que vinha do palácio aonde fora por instância de Sete-Sóis,desejoso de que se apurasse se simou não haveria uma pensão de guerra, se tanto valea simples mão esquerda, e quando João Elvas, que davida de Baltasar não sabia tudo, viu aproximar-se opadre, disse em continuação da conversa, Aquele queali vem é o padre Bartolomeu Lourenço, a quem chamam o Voador, mas aoVoadornão cresceram bastanteas asas, e assim não poderemos ir espiar as frotasque querem entrar e as intenções ou negócios quetrazem. Não pôde Sete-Sóis responder porque o padre,parando arredado, lhe fez sinal para que se aproximasse, assim ficandoJoãoElvas na grande estupefacção de ver o seu amigo bafejado pelos ares doPaçoe da Igreja, e já pensando se disto poderia vir a tirar
  36. 36. proveito um soldado vadio. E para que alguma coisase fosse adiantando entretanto, estendeu a mão à esmola, primeiro a umfidalgo que de boa maré lha deu,depois, por distracção, a um frade mendicante quepassava exibindo uma imagem e oferecendo-a ao ósculodevoto, com o que João Elvas acabou por largar o quetinha recebido. Não me cair um raio em cima, serápecado praguejar, mas alivia muito. Disse o padre Bartolomeu Lourenço a Sete-Sóis,Falei com os desembargadores destas matérias, disseram-me que iamponderar oteu caso, se vale a penafazeres petição, depois me darão uma resposta, Equando será isso, padre, quis Baltasar saber, ingénuacuriosidade de quem acaba de chegar à corte e lheignora os usos, Não te sei dizer, mas, tardando, talvezeu possa dizer uma palavra a sua majestade, que medistingue com a sua estima e protecção, Pode falarcom el-rei, espantou-se Baltasar, e acrescentou, Podefalar a el-rei e conhecia a mãe de Blimunda, que foicondenada pela Inquisição, que padre é este padre,palavras estas últimas que Sete-Sóis não terá dito emvoz alta, só inquieto as pensou. Bartolomeu Lourençonão respondeu, apenas o olhou a direito, e assim ficaram parados, opadre umpouco mais baixo e parecendomais novo, mas não, têm ambos a mesma idade, vintee seis anos, como de Baltasar já sabíamos, porém sãoduas diferentes vidas, a de Sete-Sóis trabalho e guerra,uma acabada, outro que terá de recomeçar, a de Bartolomeu Lourenço, quenoBrasil nasceu e novo veiopela primeira vez a Portugal, de tanto estudo e memória que, sendo moçodequinze anos, prometia, e muitofez do que prometeu, dizer de cor todo Virgílio, Horácio, Ovídio,QuintoCúrcio, Suetónio, Mecenas e Séneca,para diante e para trás, ou donde lhe apontassem, edar a definição de todas as fábulas que se escreveram,e a que fim as fingiram os gentios gregos e romanos,e também dizer quem foram os autores de todos oslivros de versos, antigos e modernos, até ao ano demil e duzentos, e se alguém lhe dissesse uma poesia,logo responderia a propósito com dez versos seus alimesmo compostos, e prometia também justificar edefender toda a filosofia e os pontos mais intricadosdela, e explicar a parte de Aristóteles, ainda que extensa, com todosos seusembaraços, termos e meiostermos, e responder a todas as dúvidas da SagradaEscritura, tanto do Testamento Velho como do Novo,repetindo de cor, quer a fio corrido quer salteado,todos os Evangelhos dos quatro Evangelistas, para tráse para diante, e o mesmo das epístolas de S. Pauloe S. Jerónimo, e os anos de profeta a profeta e quantosde vida teve cada um deles, e o mesmo de todos os

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