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Livro de analise para pesquisa

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  1. 1. h PIERRE BOURDlEU JEAN-CLAUDE CHAMBOREDON JEAN-CLAUDE PASSERON A profissio de sociologo preliminares epistemologicas Tradu~ao de Guilherme Joao de Freitas Teixeira 2' Edi~iio iiiEDITORA Y VOlES Petropolis 2000 4
  2. 2. SUMARIO prefcicio da segunda edi¢o, 7 INTRODU~O: EPISTEMOLOGIA E METODOLOGIA, 9 PRIMElRA PARTE - A RUPTURA 1. 0 fato econquistado contra a ilusiio do saber imediato, 23 1.1. preno~oes e tecnicas de ruptura, 23 1.2. A ilusiio da transparencia e 0 principio da niio-consciencia, 25 1.3. Natureza e cultura: substdncia e sistema de rela~oes, 30 1.4. A sociologia espontdnea e os poderes da linguagem, 32 1.5. A tenta~iio do profetismo, 36 1.6. Teoria e tradi~iio teorica, 39 1.7. Teoria do conhecimento sociologico e teoria do sistema social, 42 SEGUNDA PARTE - A CONSTRU~O DO OBjETO 2. 0 fato econstrufdo: asformas da demissiio empirista, 45 2.1. "As abdica~oes do empirismo", 48 2.2. Hipoteses ou pressupostos, 52 2.3. Afalsa neutralidade das tecnicas: objeto construfdo ou artefato, 54 2.4. A analogia e a constru~iio das hipoteses, 64 2.5. Modelo e teoria, 68 ..
  3. 3. TERCEIRA PARTE - 0 RACIONALISMO APLICADO 3. 0 Jato econquistado, construido, constatado: a hierarquia dos atos episte- mol6gicos, 73 3.1. A implica~ao das opera~6es e a hierarquia dos atos epistemol6gicos, 73 3.2. Sistema de proposi~6es e verifica~ao sistematica, 80 3.3. Os pares epistemol6gicos, 83 CONCLUSAo: SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO E EPISTEMOLOGIA, 87 TEXTOS DE ILUSTRA~Ao, 99 LISTA DOS TEXTOS, 289 LEITURAS COMPLEMENTARES, 297 iNDICES - Onomastico, 303 - Analitieo, 307 - Geral, 325 Os textos de ilustra~ilo que se encontram no segundo bloco desta obra (p. 99-288) devem ser lidos paralelamente as analises no decorrer das quais silo utilizados ou explieados. AS chamadas para esses textos silo indicadas, ao longo do primeiro bloeo do livro, por uma anota~ilo em italico entre colchetes, que compreende 0 nome do autor e 0 mimero do texto - Para identifica-Ios, pode-se recorrer a lista de textos p. 289s, ou ao indice geral, p. 325
  4. 4. prefacio da segunda edi~ao A preparm;:Cio desta segunda edil;Cio resumida constituiu 0 pretexto para modificar 0 projeto inicial de dar continuidade ao volume dedicado as Preliminares epistemol6gicas com urn segundo tomo que teria tratado da constru~Cio do objeto sociologico e com urn terceiro que teria apresentado urn repertorio critico das ferramentas, tanto conceituais quanto tecnicas, da pesquisa. No final de contas, pareceu-nos que nCio teriamos a possibilidade de realizar nesses campos 0 equivalente do trabalho de constru~Cio que se tornou possivel e necessario pela inexistencia de uma epistemologia das ciencias sociais: impossibilitados de nos limitarmos, em urn terreno tCio manifestamente ocupado, ate mesmo atravancado, a opiniCio preconcebida da ingenuidade, tambem nCiofoi possivel resignar-nos a discussCio moderada das teorias e conceitos em vigor, cuja tradi~Cio universitaria estabelece as condil;oes previas de qualquer discussao teorica. Estariamos, de preferi'mcia, inclinados a submeter tais Preliminares epis- temol6gicas a uma revisao que visasse subordinar, deforma mais completa, o discurso a inten~ao pedagogica que, no estado atual da obra, estava bern longe de ter sido alcan~ada. Assim, cada urn dos principios teria sido trans- formado em preceitos ou, pelo menos, em exercicios de interioriza~ao da posturaj por exemplo, para colacar em evidencia todas as virtualidades heuristicas que estCio implicadas em urn principio tal como 0 do primado das rela~oes, teria side necessario demonstrar com trabalhos praticos - como e possivelfaze-Io em urn seininario, ou melhor, em urn grupo de pesquisa, ao ser examinada a constru~ao de uma amostra, a elabora~ao de urn questio- nario ou a analise de uma serie de quadros estatisticos - a maneira como esse principio orienta as escolhas tecnicas do trabalho de pesquisa (constru- I;ao de series de popula~oes separadas por diferenl;as pertinentes no que diz respeito as relal;oes consideradas, elaboral;ao das perguntas que, secundarias para a sociografia da propria populal;ao, permitem situar 0 caso considerado em urn sistema de casos em que 0 mesmo adquire todo seu sentido, ou ainda, mobilizal;Cio das tecnicas graficas e mecanograficas que permitam apreender, de forma sinoptica e exaustiva, 0 sistema das relal;oes entre as rela~oes reveladas por urn conjunto de quadros estatisticos). Entre outras razoes, abandonamos 0 projeto com receio de que tal esforl;o de c/arifica~ao peda- 7
  5. 5. I I " If ,'I' gogica levasse, em decorrencia dos limites da comunica~ao por escrito, a propria nega~ao do ensino da pesquisa como pedagogia da inven~ao, enco- rajando a canoniza~ao dos preceitos banalizados de uma nova metodologia ou, pior ainda, de uma nova tradi¢o teorica. 0 risco nao e Jicticio: a critica do empirismo positivista e da abstra~ao metodologica, considerada em seu tempo como heretica, tern todas as possibilidades de ser, hoje, conJundida com os discursos eternamente preliminares de uma nova vulgata que ainda consegue diJerir a ciencia, substituindo a obsessao da impecabilidade meto- dologica pelo ponto de honra da pureza teorica. Setembro de 1972 8 U ' -------------------------
  6. 6. r INTRODUC;Ao EPISTEMOLOGIA EMETODOLOGIA "0 metodo, escreve Auguste Comte, nao podeserestudadoseparadamen- te das pesquisas nas quais e utilizadoj ou, pelo menos, nao passa de urn estudo morto, incapaz de fecundar 0 espirito que se entrega a ele. Tudo 0 que se pode dizer de real, quando 0 consideramos abstratamente, reduz-se a generalidades de tal forma imprecisas que estas nao poderiam exercer qualquer influEmcia sobre 0 regime intelectual. Quando estabelecemos firme- mente, como tese logica, que todos os nossos conhecimentos devem ser baseados na observa~ao, que devemos procedera partirdos fatos para chegar aos principios ou a partir dos principios pata chegar aos fatos, e alguns outros aforismos semelhantes, ficamos conhecendo 0 metodo muito menos nitida- mente do que aquele que, de maneira urn pouco aprofundada, estudou uma (mica ciencia positiva, mesmo sem inten¢o filosofica. Epor ter desconhecido esse fato essencial que nossos psicologos sao levados a considerar seus deva- neios como ciencia, acreditando ter compreendido 0 metodo positivo por terem lido os preceitos de Bacon ou 0 Discours de Descartes. Ignoro se, mais tarde, sera possivel fazer a priori urn verdadeiro curso de metodo completamente inde- pendente do estudo filosofico das cienciasj mas, estou bern convencido de que, hoje, isso e inexeqiiivel, na medida em que os grandes procedimentos logicos ainda nao podem ser explicados com a precisao suficiente, separadamente de suas aplica~oes. Alem disso, ouso acrescentar que, mesmo sendo possivel realizar, posteriormente, tal empreendimento - 0 que, com efeito, e concebivel f_ e somente gra~s ao estudo das aplica~oes regulares dos procedimentos cientificos que sera possivel chegar Ii forma¢o de urn born sistema de habitos Lintelectuaisj alias, esse e 0 objetivo essencial do metodo"'. t. A. Camte, Cours de philosophie positive, t.I, Bachelier, Paris, 1830 (titado a panir da edic;ao Gamier, 1926, p. 71-72) [N.T.: ct. A. Camte, Curso de filosofia positiva, trad. de Jose Arthur Giannotti, col. "OS Pensadoresb , Abril Cultural, sao paulo, 1978, p. 151. Com G. canguilhem, poderiamos observar que nao e facil superar as solidtac;6es do vocabuUtrio que "nos levam, incessantemente, a conceber a metoda como suscetivel de seT separado das pesquisas em que estil em ac;ao: lA. Camte1 ensina na primeira Jic;ao do Cours de philosophie positive que '0 metoda nao pode ser estudado separadamente das pes- 9
  7. 7. Nada haveria a acrescentar a esse texto que, recusando estabelecer uma dissocia¢o entre metodo e pratica, rejeita de antemao todos os discursos do metodo, se nao ja existisse urn verdadeiro discurso em volta do metodo que, na falta de contesta~ao seria, amea~a impor aos pesquisadores uma imagem desdobrada do trabalho cientifico. Como profetas que invectivam a impureza original da empiria - mas nao se sabe se consideram as mesqui- nharias da rotina cientifica como atentados a dignidade do objeto que pre- tendem abordar ou do sujeito cientifico que pretendem encarnar - ou sumos sacerdotes do metodo que, naturalmente, levariam todos os pesquisadores, durante a vida, a ficar presos aos bancos do catecismo metodologico, os que dissertam sobre a arte de ser sociologo ou a marieira cientifica de fazer a ciencia sociologica tern em comum, muitas vezes, a caracteristica de estab'e- lecer a dissocia~ao entre 0 metoda, ou a teoria, e as opera~oes da pesquisa, quando nao e entre a teoria e 0 metoda ou entre a teoria e a teoria. Surgido da experiencia da pesquisa e de suas dificuldades cotidianas, nosso objetivo limita-se a explicitar, como prova, urn "sistema de habitos intelectuais": destina-se aqueles que, "tendo embarcado" na pratica da sociologia empirica e nao precisando que Ihes seja lembrada a necessidade da medida e de tocta a sua parafernalia teorica e tecnica, concordam, de imediato, conosco sobre aquilo em que estamos de acordo - porque isso e evidente - por exemplo, na necessidade de levar em considera~ao todas as ferramentas conceituais ou tecnicas que permitem dar todo 0 seuvigore toda a sua for~a averifica~ao experimental. Somente aqueles que nao tern ou nao pretendem fazer a experiencia da pesquisa poderao ver nesta obra, que visa colocar a priltica sociologica em questao, urn questionamento da sociologia empirica2 • Se e verdade que 0 ensino da pesquisa requer - tanto dos seus idealiza- dores, quanto dos seus receptores - uma referencia direta e constante a quisas nas quais e utiJizado', a Que subentende Que a utiliza~o de urn metoda pressupoe que este seja, previamente, conhecido" (G. canguilhem, Theorie et technique de "experimentation chez Claude Bernard, Colloque du centenaire de la publication de I'Introduction a "etude de la medecine experimen- tale, Masson, paris, 1967, p. 24). 2. A divisao do campo epistemolOgica, segundo a 1000ca dos pares (cf. 3! parte), e as tradi~oes intelectuais que, identificando tada reflexao com pura especula~o, impedem a percep¢o da fun~o tecnica de urna refJexao sabre a rela~o as tecnicas e conferem ao mal-entendido, contra 0 Qual tentamos 3qui nos precaver, urna probabilidade muito forte: com efeito, nessa organiza~o dualista das posic;oes epistemologicas, qualquer tentativa feita no sentido de reinserlr as operac;oes tecnicas na hierarquia dos atos epistemologicos sera, quaseinevitavelmente, interpretada como uma acusa~o contra atecnica e os tecnicosj a despeito do que tern sido nossa postura e reconhecerrnos, aqui, a contribuic;ao capital dos metodologos - e, em particular, Paul F. Lazarsfeld - no sentido da racionalizac;a,o da pratica sociologica, sabemos que corremos 0 risco de sermos classificados ao lado de Fads and Foibles oj American Sociology e mio ao lado de The language oj Social Research. 10
  8. 8. f , experiencia na primeira pessoa, "a metodologia em moda que multiplica os programas em favor de uma pesquisa sofisticada, mas hipotetica, os exames criticos de pesquisas feitas por outros [...Jou os veredictos metodologicos,,3, nao poderia tomar 0 lugar de uma reflexao sobre a justa rela~ao as tecnicas e de urn esfor~o, ate mesmo arriscado, para transmitir principios que nao podem se apresentar como simples verdades de principio porque sao 0 principio da busca das verdades. Alem disso, se e verdade que os metodos se distinguem das tecnicas, pelo menos, no sentido em que sao "bastante gerais para terem valor em todas as ciencias ou em uma parte importante delas"', essa reflexao sobre 0 metoda ainda deve assumir 0 risco de encon- trar, de novo, as rnais c1assicas analises da epistemologia das ciencias da natureza; no entanto, talvez seja necessario que os sociologos estejam de acordo a respeito dos principios elementares que sao considerados truismos pelos especialistas das ciencias da natureza ou da filosofia das ciencias para abandonar a anarquia conceitual a qual sao condenados por sua indiferen~a em rela~ao a reflexao epistemologica. Na realidade, 0 esfor~o para interrogar uma ciencia particular com a ajuda dos principios gerais, fornecidos por esse saber epistemologico, justifica-se e impoe-se, em particular, no caso da so- ciologia: aqui, tudo se inclina, com efeito, para ignorar tal conhecimento adquirido, desde 0 estereotipo humanista da irredutibilidade das ciencias humanas ate as caracteristicas do recrutamento e forma~ao dos pesquisado- res, passando pela existencia de urn conjunto de metodologos especializados na reinterpreta~ao seletiva do saber das outras ciencias. Portanto, e neces- sario submeter as opera~oes da pratica sociologica a polemica da razao epistemologica para definir e, se possivel, inculcar uma atitude de vigilancia que encontre no conhecimento adequado do erro e dos mecanismos capazes de engendra-Io urn dos meios de supera-Io. Ainten~ao de dar ao pesquisador os meios de assumir por si proprio a vigilancia de seu trabalho cientifico opoe-se as chamadas a ordem dos censores, cujo negativismo peremptorio so pode suscitar 0 terror em rela~ao ao erro e 0 recurso resignado a uma tecnologia investida da fun~ao de exorcismo. 3. R. Needham, Structure and Sentiment A Test~case in Social Anthropology, University of Chicago press, Chicago, Londres, 1962, p. VII. 4. A. Kaplan, The Conduct of Inquiry, Methodology of Behavioral Science, Chandler Publishing Company, San Francisco, 1964, p. 23 [N.T.: A. Kaplan, A conduto no pesquisa, MetodoJogia para as ciencias do comportamento, tTad. de LeOnidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota, Editora Herder I Editora da Universidade de Sao paulo, Sao Paulo, 1972]. 0 mesmo autar deplora que 0 terma Utecnologia" ja tenha recebido urn sentido especializado, observando que 0 mesmo se aplicaria com exatidao a inumeros estudos ditos Qmetodol6gicosn (ibid., p. 19). 11 .t
  9. 9. --rrI Como mostra toda a obra de Gaston Bachelard, a epistemologia distin- gue-se de uma metodologia abstrata por se esfor~ar em apreender a logica do erro para construir a logica da descoberta da verdade como polemica contra 0 erro e como esfor~o para submeter as verdades proximas da ciencia e os metodos que ela utiliza a uma retifica~ao metodica e permanente [G. canguilhem, texto n° 1]. No entanto, nao seria possivel dar toda a for~a a a~ao polemica da razao cientifica sem prolongar a "psicanillise do espirito cientifico" por uma am'ilise das condi~oes sociais nas quais sao produzidas as obras sociologicas: 0 sociologo pode encontrar urn instrumento privilegiado da vigilimcia epistemologica na sociologia do conhecimento, meio de aumen- tar e dar maior precisao ao conhecimento do erro e das condi~oes que 0 tornam possivel e, por vezes, inevitavel [G. Bache/arel, texto n° 2]. Na seqiiencia, 0 que pode sobrar aqui das aparencias de uma polemica ad hominem tern aver unicamente com os Iimites da compreensao sociologica das condi~oes do erro: uma epistemologia que faz apelo a uma sociologia do conhecimento tern menos condi~oes do que qualquer outra para atribuir os erros a sujeitos que nunca sao totalmente seus autores. Se, para parafrasear urn celebre texto de Marx, "nao pintamos de cor-de-rosa" 0 empirista, 0 intuicionista ou 0 metodologo, tambem nunca pensamos nas "pessoas a nao ser pelo fato de que sao a personifica~o" de posi~oes epistemologicas que se deixam compreender completamente apenas no campo social no qual elas se afirmam. A pedagogia do pesquisa o objetivo desta obra e exatamente definir sua forma e conteudo. Urn ensino da pesquisa que tenha como projeto expor os principios de uma pn'itica profissional e inculcar, simultaneamente, uma certa atitude em rela~ao a essa pratica, isto e, fornecer os instrumentos indispensaveis ao tratamento sociologico do objeto e, ao mesmo tempo, uma disposi~ao ativa para utiliza-Ios de forma adequada, deve romper com as rotinas do discurso pedagogico para restituir a for~a heuristica aos conceitos e opera~oes mais completamente "neutralizados" pelo ritual da apresenta~ao canonica. E a razao pela qual esta obra que visa ensinar os atos mais praticos da pratica sociologica come~a com uma reflexao que se esfor~a por lembrar, sistemati- zando-as, as implica~oes de qualquer pratica, boa ou rna, e especificar em preceitos praticos 0 principio da vigilancia epistemologica (Primeiro Livro)'. 5. Cf. supra, 0 prefacio da segunda edi¢o. 12
  10. 10. r , Em seguida, poderemos tentar definir a fun~ao e as condi~oes de aplica~ao dos esquemas teoricos aos quais deve recorrer a sociologia para construir seu objeto sem pretender apresentar esses primeiros principios da interro- ga~ao propriamente sociologica como uma teoria acabada do conhecimento do objeto sociologico e, menos ainda, como uma teoria geral e universal do sistema social (Segundo Livro)". Apesquisa empirica nao tern necessidade de investir em tal teoria para escapar ao empirismo, com a condi~ao de realizar efetivamente, em cada uma de suas opera~oes, os principios que a consti- tuem como ciencia, dando-Ihe urn objeto dotado de urn minimo de coerencia teorica. Com tal condi~ao, os conceitos ou metodos poderao ser tratados como Jerramentas que, arrancados de seu contexto original, se oferecern para novas utiliza~oes (Terceiro Livro)7. Ao associar a apresenta¢o de cada instrumento intelectual a exemplos de sua utiliza~ao, empenhar-nos-emos em evitar que 0 saber sociologico possa aparecer como uma soma de tecnicas ou como urn capital de conceitos, separados ou separaveis de sua utiliza~ao na pesquisa. Se decidimos extrair da ordem das razoes na qual os principios teoricos, assim como os procedimentos tecnicos legados pela historia da ciencia sociologica, se encontravam inseridos, nao foi somente para quebrar os encadeamentos de natureza didatica que so renunciam a complacencia erudita em rela~ao com a historia das doutrinas ou dos conceitos para se submeterem ao reconhecimento diplomatico dos valores consagrados pela tradi~ao ou sagrados pela moda, nem tampouco para Iiberar virtualidades heuristicas, quase sempre, mais numerosas do que poderiam levara acreditar os costumes academicosj mas, antes de tUdo, em nome de uma concep~iio da teoria do conhecimento sociologico que a transforma no sistema dos principios que definem as condi~oes de possibilidade de todos os atos e <Ie todos os discursos propriamente sociologicos e somente destes, sejam quais forem as teorias do sistema social peculiares dos que produzem ou produzi- ram obras sociologicas em nome de tais principios·. Aquestao da filia~ao de uma pesquisa sociologica a uma teoria particular do social - por exemplo, a de Marx, Weber ou Durkheim - e sempre secundaria em rela~ao aquestao de saber se tal pesquisa tern a ver com a ciencia sociologica: com efeito, 0 6. Idem. 7. Idem. 8. Cf. infra. 13
  11. 11. (mico criterio para respondera tal pergunta reside na aplica~ao dos principios fundamentais da teoria do conhecimento sociologico que, como tal, nao estabelece qualquer separa~ao entre autores que, em principio, estariam separados no terreno da teoria do sistema social. Se a maior parte dos autores foram levados a confundir com suateoria particular do sistema social a teoria do conhecimento do social que utilizavam - pelo menos implicitamente - em sua prifltica sociologica, 0 projeto epistemologico pode servir-se dessa distin- ~ao previa para aproximar autores cujas oposi~6es doutrinais dissimulam 0 acordo epistemologico. o receio de que 0 empreendimento leve a urn amalgama de principios extraidos de tradi~6es teoricas diferentes ou aconstitui~ao de urn conjunto de formulas dissociadas dos principios que as fundamentam e uma forma de esquecer que a reconcilia~ao - cujos principios temos inten~ao de explicitar - opera-se realmente no exercicio autentico da profissao de sociologo ou, mais exatamente, na "profissao" do sociologo, esse habitus que, sendo urn sistema de esquemas mais ou menos controlados e mais ou menos transpo- niveis, e simplesmente a interioriza~ao dos principios da teoria do conheci- mento sOciologico. Atenta¢o sempre renascente de transformar os preceitos do metodo em receitas de cozinha cientifica ou em engenhocas de laboratorio, so podemos opor 0 treino constante na vigilancia epistemologica que, :/subordinando a utiliza~ao das tecnicas e conceitos a uma interroga~ao sobre . !as condi~6es e Iimites de sua validade, proibe as facilidades de uma aplicac;ao automatica de procedimentos ja experimentados e ensina que toda opera- ~ao, por mais rotineira ou rotinizada que seja, deve ser repensada, tanto em I si mesma quanto em fun~ao do caso particular. Esomente por uma reinter- I preta~ao magica das exigencias da medida que podemos superestimar a, " importancia de operac;6es que, no final de contas, nao passam de habilidades ,profissionais e, simultaneamente - transformando a prudencia metodologica I: em reverencia sagrada, com receio de nao preencher cabalmente as condi- c;6es rituais -, utilizar com receio, ou nunca utilizar, instrumentos que apenas deveriam ser julgados pelo seu uso. Os que levam a preocupa~ao metodolo- gica ate a obsessao nos fazem pensar nesse doente, mencionado por Freud, que passava seu tempo a Iimpar os oculos sem nunca coloca-Ios. Levar a serio 0 projeto de transmitir metodicamente uma ars inveniendi ever que ele implica uma coisa completamente diferente e muito mais do que a ars probandi proposta por aqueles que confundem a mecanica logica, desmontada posteriormente, das constata~6es e provas com 0 funcionamen- to real do espirito de inven~ao; ever tambem, com a mesma evidencia, que existe uma grande diferen~a entre as trilhas, ou melhor, os atalhos que, atualmente, possam ser tra~ados por uma reflexao sobre a pesquisa e a 14
  12. 12. , progressao lenta, sem lamentos nem rodeios, proposta por urn verdadeiro discurso do metodo sociologico. Diferentemente da tradi~ao que se limita it logica da prova, nao consen- tindo por principio entrar nos arcanos da inven~ao e que, assim, fica conde- nada a oscilar entre uma retorica da exposi~ao formal e uma psicologia Iitenfiria da descoberta, gostariamos de fornecer os meios de adquirir uma disposi~ao mental que e a condi~ao, tanto da inven~ao quanto da prova. Por nao termos operado tal reconcilia~ao, renunciamos a fornecer qualquer ajuda ao trabalho de descoberta e encontramo-nos reduzidos, em companhia de tantos metodologos, a invocar ou evocar, como e costume invocar os espiri- tos, os milagres da i1umina~ao criadora, veiculados pela hagiografia da descoberta cientifica, ou os misterios da psicologia das profundezas·. Se e evidente que os automatismos adquiridos podern permitir a economia de uma inven~ao permanente, devemos nos abster de deixar crer que 0 sujeito da inven~ao cientifica e urn automaton spirituale, obedecendo aos mecanis- mos bern ajustados de uma programa~ao metodologica constituida uma vez por todas, e confinar dessa forma 0 pesquisador na submissao cega ao programa que exclui 0 retorno reflexivo ao mesmo, condi~ao da inven~ao de novos programas'o. "Da mesma forma que 0 conhecimento da anatomia nao e a condi~ao suficiente de urn procedimento correto", assim tambem a metodologia, dizia Weber, "nao e a condi~ao de urn trabalho fecundo"l1. No entanto, se e inutil esperar descobrir uma ciencia da maneira de fazer a 9. Ao definir 0 objeto da logica das ciencias, a Iiteratura metodol6gica toma sempre cuidado em afastar explicitamente a considera¢o dos ways 0/ discovery em beneficia des ways of validation (cf., por exemplo, C. Hempel, Aspects oj Scientific Explanation and Other Essays in the Philosophy of Science, Free press, Nova York, 1965, p. 82-83). K.R. popperretoma, frequentemente, a essa dicotomia que parece abranger, para ele, a oposi¢o entre a vida pilblica e a vida privada: qA questa.o 'como descobriu, pela primeira vez, sua teolial' toea, por assim dizer, uma questao extremamente pessoal, contrariamente a questao 'como verificou sua teorial'n (K.R. Popper, Misere de I'historicisme Itrad. H. Rousseau], PIon, paris, 1956, p. 132). Ou ainda: "Nao existe nada que se par~a com urn metodo logico para ter ideias ou com uma reconstitui¢o logica desse processo.,S_egundo a minha opiniao, Qualquer descoberta contem 'urn elemento irracional' ou uma 'intui¢o criadora' no sentido de Bergson" (K.R. Popper, The logic of Scientific Discovery, Hutchinson, Londres, 1959, p. 32). Pelo contraria, desde que, por excec;ao, tomamas explicitamence como objeto 0 "contexto da descoberta" (por oposi-¢o ao "contexto da prova"), somas obrigados a romper com inumeros esquemas rotineiros da tradi¢o epistemologica e metodol6gica, e, em particular, com a representac;ao do procedimento da pesquisa como sucessao de etapas distintas e predeterminadas (cf. P.E Hamond, [ed.], sociologist at Work, Essays on the Craft ofSocial Research, Basic Books, Nova York, 19641, 10. Basta pensar, por exemplo, na facilidade com a qual a pesquisa pode se reproduzir a si mesma sem nada produzir, segundo a 16gica da pump-handle research. 1I. M. Weber, Essais sur la theorie de la science (trad.J. Freund), Pion, paris, 1965, p. 220. 15
  13. 13. ciencia e esperar da logica algo diferente de uma forma de controlar a ciencia em vias de se fazer ou validar a ciencia ja constituida, ocorre que, como observava Stuart Mill, "a inven~ao pode ser cultivada"j 0 mesmo e dizer que uma explicita~ao da logica da inven~ao, por mais parcial que seja, pode contribuir para a racionaliza~ao da aprendizagem da aptidao para inventar. Epistemologia das ciencias do homem e epistemalogia das ciencias da natureza A maior parte dos erros a que esta exposta tanto a atividade sociologica quanto a reflexao sobre tal atividade encontra sua raiz na representa~ao falsa da epistemologia das ciencias da natureza e da rela~ao que ela mantem com a epistemologia das ciencias do homem. Assim, epistemologias tao opostas em suas afirma~oes patentes quanto 0 dualismo de Dilthey - que so consegue apresentar a especificidade do metoda das ciencias do homem, opondo-o a uma imagem das ciencias da natureza suscitada pela mera preocupa~ao de estabelecer distin~oes - e 0 positivismo que se esfor~ por imitar uma imagem da ciencia natural fabricada pela· necessidade dessa imita~ao, tern em comum 0 fato de ignorar a filosofia exata das ciencias exatas. Semelhante equivoco levou nao so a forjar distin~oes for~adas entre os dois metodos para agradar as nostalgias ou aos desejos piedosos do humanismo, mas tambem a aplaudir ingenuamente as redescobertas que se ignoram como tais, ou ainda participar da supervaloriza~ao positi- vista que, de forma escolar, copia uma imagem redutora da experiencia como copia do real. No entanto, podemos nos aperceber de que 0 positivismo so retoma por sua conta uma caricatura do metodo das ciencias exatas sem ter acesso ipso facto a uma epistemologia exata das ciencias do homem. E, de fato, trata-se de uma constante da historia das ideias que a critica do positivismo mecani- cista sirva para afirmar 0 carater subjetivo dos fatos sociais e sua irredutibi- lidade aos metodos rigorosos da ciencia. Assim, percebendo que "os metodos que os cientistas ou pesquisadores fascinados pelas ciencias da natureza tentararn, muitas vezes, aplicar a for~a as ciencias do homem nem sempre foram necessariamente os que os cientistas seguiam, de fato, em seu proprio campo, mas antes os que eles acreditavam utilizar,,12, Hayek conclui dai imediatamente que os fatos sociais diferem "dos fatos das ciencias fisicas t 2. F.A. von Haye~ Scientisme et sciences saciales, £Ssa; sur Ie mauvais usage de la raison (trad. M. Barre), Pion, paris, 1953, p. 3. 16 J
  14. 14. ,r,i'_ l porque sao cren~as ou opinioes individuais" e, por conseqiiencia, "nao devem ser definidos a partir do que poderiamos descobrir a seu respeito por meio dos metodos objetivos da ciencia, mas a partir do que a pessoa que age pensa a seu respeito,,13. A contesta~ao da imita~ao automatica das ciencias da natureza associa-se tao automaticamente acritica subjetivista da objetivi- dade dos fatos sociais que todo esfor~o para tratar dos problemas especificos, levantados pela transposi~ao do saber epistemologico das ciencias da natu- reza para as ciencias do homem, corre 0 risco de aparecer sempre como uma reafirma~ao dos direitos imprescritiveis da subjetividade14. A metod%gia e 0 des/ocamento da vigilancia Para ultrapassar esses debates academicos e as maneiras academicas de supera-Ios, e necessario submeter a pratica cientifica a uma reflexao que, diferentemente da filosofia c1assica do conhecimento, aplica-se nao aciencia ja constituida, ciencia verdadeira em rela~o aqual seria necessario estabe- lecer as condi~oes de possibilidade e de coerencia ou os titulos de legitimi- dade, mas aciencia em vias de se fazer. Semelhante tarefa, propriamente epistemologica, consiste em descobrir no decorrer da. propria atividade cien-I f tifica, incessantemente confrontada com 0 erro, as condi~oes nas quais e possivel tirar 0 verdadeiro do falso, passando de urn conhecimento menos .verdadeiro a urn conhecimento mais verdadeiro, ou melhor, como afirma Bachelard, "proximo, isto e, retificado". Transposta para 0 caso das ciencias do homem, essa filosofia do trabalho cientifico como "a~ao polemica inces- sante da Razao" pode propiciar os principios de uma reflexao capaz de inspirar e controlar os atos concretos de uma atividade verdadeiramente cientifica, definindo no que tern de especifico os principios do "racionalismo regional" peculiar aciencia sociologica. 0 racionalismo fixista que inspirava as interroga~oes da filosofia c1assica do conhecimento exprime-se, hoje, mais facilmente nas tentativas de certos metodologos que tendem a reduzir a 13. Ibid., p. 21 e 24. 14. E, no entanto, bastaria todo 0 projeto de Durkheim para mostrar que epassivel escapar aaltemativa da imita~o cega e da recusa, igualmente (ega, de imitar: "A sociologia surgiu asombra das ch~ncias da natureza eem cantata intimo com eJas. r,..l Eevidente que, entre as primeiros saciologos,alguns estavam enganados ao exagerarem tal aproxima¢o ao ponto de desconhecerem a origem das ciencias sociais eaautonomia de que eJas devemdesfrutarem rela¢o asQutras cilmcias queas precederam. No entanto, tais excessos nao devem levar a esquecer tudo 0 que hij, de fec.undo nesses nucleos principais do pensamento cientificon (E. Durkheim, "La sociologie et son domaine scientifiquen , in Rivista Italiana di Sociologio, tomo IV, 1900, p. 127-159, reproduzido in A. Cuvillier, Ou va la sociologiefron~isel, Marcel Riviere, Paris, 1953, p. 177-208). 17
  15. 15. -,. I ! reflexao sobre 0 metoda a uma logica formal das ciencias. No entanto, como observa P. Feyerabend, "qualquer fixismo semantico encontra dificuldades desde que se trata de justificarcompletamente 0 progresso do conhecimento e as descobertas que contribuem para 0 mesmo,,15. Mais precisamente, mos- trar interesse pelas rela~oes intemporais entre proposi~oes abstratas, em detrimento dos processos pelos quais cada proposi~ao ou cada conceito foi estabelecido e engendrou outras proposi~oes ou outros conceitos, e impedir prestar uma assistencia real aos que estao envolvidos nas arriscadas peripe- cias do trabalho cientifico, relegando 0 desenrolar da intriga para os bastido- res e colocando em cena somente os desfechos. Inteiramente empenhados na busca de uma logica ideal da pesquisa, os metodologos so podem, com efeito, dirigir-se a urn pesquisador definido abstratamente pela aptidao em realizar essas normas da perfei~ao, em suma, a urn pesquisador impecavel, isto e, impossivel ou infecundo. Aobediencia incondicional a urn organon de , regras logicas tende a produzir urn efeito de "fechamento prematuro" fazen- do desaparecer, para falar como Freud, "a elasticidade nas defini~oes" ou, como diz Carl Hempel, "a disponibilidade semantica dos conceitos" que, pelo menos em certas fases da historia de uma ciencia ou do desenrolar de uma pesquisa, constituem uma das condi~oes da inven~ao. Nao se trata de negar que a formaliza~ao logica considerada como urn meio de colocar it prova a logica em ate da pesquisa e a coerencia de seus resultados constitui urn dos instrumentos mais eficazes do controle episte- mologicoj no entanto, essa utiliza~ao legitima dos instrumentos logicos serve, freqiientemente, de cau~ao itpaixao perversa por exercicios metodologicos que tern como (mica finalidade discernivel permitir a exibi~ao do arsenal dos meios disponiveis. Diante de certas pesquisas concebidas como prova logica ou metodologica, nao e possivel deixar de pensar, com Abraham Kaplan, na conduta do ebrio que, tendo perdido a chave de casa, procura-a obstinada- mente ao pe de urn lampiao, sob 0 pretexto de que ai esta rnais claro [A. Kaplan, texto n° 3]. o rigorismo tecnologico que se apoia na fe em urn rigor definido uma vez por todas e para todas as situa~oes, isto e, em uma representa~ao fixista da verdade ou, por conseqiiencia, do erro como transgressao de normas incon- Idicionais, opoe-se diametralmente it busca dos rigores especlficos que se ! :apoia em uma teoria da verdade como teoria do erro retificado. "0 conhecer, 15. P. Feyerabend, in H. Feigl e G. Maxwell (eds.), "Scientific EXplanation, Space and Time", in Minnesota Studies in the Philosophy 01 Science, Vol. III, Minneapolis, 1962, p. 31. 18 ~I: • ii"-------------------------------------
  16. 16. rafirma ainda Gaston Bachelard, deve evoluir com 0 conhecido". 0 mesmo e . dizer que seria inutil procurar uma logica anterior e exterior ahistoria da J ciencia em vias de se fazer. Para apreender os procedimentos da pesquisa, e .. necessario examinar como ela procede, em vez de confina-Ia na observimcia de um decalogo de processos que so devem, talvez, parecer avan~dos em rela~ao a pratica real na medida em que sao definidos de antemao16. "Fascinado pelo fato de que, em matematica, evitar 0 erro e uma questao de tecnica, ha quem pretenda definir a verdade como 0 produto de uma atividade intelectual que satisfa~a certas normasj ha quem pretenda consi- derar os dados experimentais como sao considerados os axiomas da geome- triaj hit quem espere determinar regras do pensamento que desempenhariam o papel que a logica desempenha na matematica. Ha quem pretenda fazer, a partir de uma experiencia Iimitada, uma teoria em uma unica vez. Ora, 0 calculo infinitesimal nao conheceu seus fundamentos a nao ser progressi- vamentej a no~ao do numero so atingiu sua c1areza ao fim de dois milenios e meio. Os procedimentos que instauram 0 rigor surgem como respostas a perguntas que nao sabemos formular a priori, que somente 0 desenvol- vimento da ciencia faz emergir. A ingenuidade perde-se lentamente. (sso, verdadeiro na matematica, 0 e a fortiori nas ciencias da observa~ao nas quais cada teoria refutada sugere novas exigencias de rigor. portanto, e inutil pretender apresentar a priori as condi~oes de um pensamento autenticamente cientifico,,17. 1 Mais profundamente, a insistente exorta~ao em prol da perfei~ao meto- dologica corre 0 risco de levar a um des/ocamento da vigilancia epistemolo- gica. Assim, em vez de nos interrogarmos, por exemplo, sobre 0 objeto da medi~ao enos perguntarmos se ele merece ser medido, em vez de questio- narmos as tecnicas de medi~ao e de nos interrogarmos sobre 0 grau de precisao desejavel e legitimo, considerando as condi~oes particulares da medida, ou ate mesmo de examinarmos, mais simplesmente, se os instru- mentos medem 0 que se pretende medir, podemos - levados pelo desejo de transformar a ideia pura do rigor metodologico em tarefas realizaveis - perseguir, com a obsessao das decimais, 0 ideal contraditorio de uma t 6. Os autores de urn lango estudo consagrado as func;oes do metoda estatistico em sociologia confessam in/ineQue "suas indicac;oes relativas as possibilidades de aplicar aestatistica teorica apesquisa empirica caracterizam somente 0 estado atual da discussao metodol6gic3, sendo que a pratica perrnanece no retaguardo" (E.K. Scheuch e D. Roschmeyer, uSoziologie und Statisti~ Ober den Einfuss der modemen Wissenschaftslehre auf ihr gegenseitiges Verhaltnis", in KOiner Zeitschriftflir sDzioJogie und Saz;oJ-Psy- chologie, VIII, 1956, p. 272-291). 17. A. Regnier, les in/aTtunes de la raison, Ed. du Seuil, Paris, 1966, p. 37-38. 19
  17. 17. precisao intrinsecamente definivel; nesse caso, esquecemos que, como lem- bra A.D. Richtie, "fazer uma medi~ao rnais precisa do que e necessario nao deixa de ser menos absurdo do que fazer uma medi~ao nao suficientemente precisa,,18, ou ainda que, como observa N. Campbell, quando fica estabelecido que todas as proposi~oes compreendidas entre certos Iimites sao equivalen- tes e que a proposi~ao definida de maneira aproximada situa-se nesses Iimites, a utiliza~ao da forma aproximada e perfeitamente legitima19. Com- preende-se que, ao engendrar uma casuistica do erro tecnico, a etica do dever metodologico possa conduzir - pelo menos indiretamente - a urn ritualismo dos procedimentos que, sendo talvez a caricatura do rigor metodologico, e, com toda a certeza, exatamente 0 contrario da vigilancia epistemologica'·. Particularmente significativo e 0 fato de que a estatistica - ciencia do erro e do conhecimento proximo que, em procedimentos tao usuais quanto 0 calculo do erro ou dos Iimites de confian~a, coloca em a~ao uma filosofia da vigilancia critica - possa ser correntemente utilizada como alibi cientifico da submissao cega ao instrumento. Da mesma forma, sempre que os teoricos fazem comparecer a pesquisa empirica com os respectivos instrumentos conceituais diante d() tribunal de uma teoria cujas constru~oes eles recusam medir pelo saber da ciencia que ela pretende refletir e dominar, ficam devendo somente ao prestigio, indis- tintamente Iigado a qualquer empreendimento teorico, 0 fato de receberem a homenagem for~ada e verbal dos profissionais de campo. Ese a conjuntura intelectual permitir que os puros te6rios imponham aos cientistas seu ideal, logico ou semantico, da coerencia integral e universal do sistema dos con- ceitos, eles poderao ate mesmo paralisar a pesquisa na medida em que conseguem inspirar a obsessao de pensar em tudo, de todas as formas e sob todos os angulos ao mesmo tempo, ignorando que, nas situa~oes reais da t 8. A.D. Richtie, Scientific Method: An Inquiry into the Character and Validity of Natural Laws, Littlefield, Adams, Paterson (NJ.), 1960, p. 113. Analisando essa busca da uprecisao mal fundada" Que consiste em acreditar "que a menta da solu9io esta no numero de decimais indicadash , Bachelard obselVa "que a precisao em urn resultado, quando vai alem da precisao nos dodos experimentais, significa exatamente a determina9io do nada... essa pratica lembra a piada de Dulong a respeito de urn experimentador: 'Tern acerteza do terceiro algarismo depois da virgula, mas edo primeiro Quetem diivida'" (G. Bachelard, La/ormation de J'esprit scienti/ique, 41 ed., vrin, paris, 1965, p. 214) [N.T.: Cf. G. Bachelard, A/ormac;ao do espirito cient/lico: contribui¢o para uma pSicanalise do conhecimento, trad. de Estela dos Santos Abreu, Contraponta, Rio de Janeiro, 1996, p. 262-263]. t 9. N.R. campbell, An Account 0/the principles ofMeasurementand Calculation, Longmans, Green, Londres, Nova York, 1928, p.186. 20. 0 interesse ansioso pelas doenc;as do espirito cientifico pade ter urn efeito tao depressivo quanta as inquietat;oes hipacondnacas dos frequentadares do Larausse medical. 20
  18. 18. l atividade cientifica, so e possivel esperar construir problematicas ou novas teorias com a condi~ao de renunciar aambi~o impossivel, desde que ela nao seja escolar ou profetica, de dizer tudo sobre tudo e de forma ordenada21 • A ordem epistem%gica das razoes No entanto, essas analises sociologicas ou psicologicas da perversao metodologica e da diversao especulativa nao poderiam tomar 0 lugar da critica propriamente epistemologica para a qual servem de introdu~ao. Se e necessario prevenir com urn vigor particular contra as advertimcias dos metodologos e porque, ao chamar a atem;ao exclusivamente para os contro- les formais dos procedimentos experimentais e dos conceitos operatorios, elas tern tendencia a desviar a vigilancia em rela~ao a perigos rnais amea~a­ dores. Os instrumentos e apoios, sem duvida muito poderosos, que a reflexao metodologica proporciona avigilancia voltam-se contra a mesma sempre que nao sao preenchidas as condi~6es previas de sua utiliza~o. A ciencia das condi~6es formais do rigor das opera~6es, apresentando as aparencias de uma formaliza~ao "operatoria" da vigilancia epistemologica, pode parecer fundada na pretensao de garantir automaticamente a aplica~ao dos princi- pios e preceitos que definem a vigilancia epistemologica, de modo que e necessario urn acrescimo de vigilancia para evitar que venha a se produzir, automaticamente, esse efeito de deslocamento. seria necessario, dizia saussure, "mostrar ao Iingiiista 0 que ele faz"n. A questao de saber 0 que e fazer ciencia ou, rnais precisamente, 0 esfor~o dispendido para saber 0 que faz 0 cientista, quer ele saiba ou nao 0 que faz, nao e somente uma indaga~ao sobre a eficacia e 0 rigor formal das teorias e metodos disponiveis, mas urn questionamento dos metodos e teorias em sua propria utiliza~ao para determinar 0 que fazem aos objetos e os objetos que .fazem. A ordem segundo a qual deve ser conduzida essa interroga~ao e imposta tanto pela analise propriamente epistemologica dos obstaculos do It. Certas dissertac;oes te6ricas sabre todas as coisas conhecid~s au cognosciveis preenchem, sem duv!da alguma, uma fun¢o de anexa~o antecipada am!loga adas profecias astrol6gicas sempre aptasadigerir, retrospectivamente, 0 acontecimento: "Existem pessoas, afirma Claude Bernard, que, a proposito de uma questao, dizem tudo a que epassivel dizer a fim de reclamarem quando, mais tarde, for feita qualquer experiencia sabre 0 assunto. Ecomo aqueles que tra-;,am planetas em todo a firmamento a fim de reclamarem que se trata do planeta Que tinham previsto" (principes de medecine experimentale. P.U.F., Paris, 1947, p. 255). 12. E. Benveniste, "Lettres de Ferdinand de Saussure it Antoine Meillet", in Cahiers ferdinand de saussure, 21,1964,p.92-135. 21
  19. 19. conhecimento, quanto pela analise sociologica das implicac,:oes epistemolo- gicas da sociologia atual que definem a hierarquia dos perigos epistemologi- cos e, por conseqiiencia, das urgencias. Defender juntamente com Bachelard que 0 fato cientifico econquistado, construfdo, constatado, e recusar, ao mesmo tempo, 0 empirismo que reduz o ato cientifico a uma constatac,:ao e 0 convencionalismo que the opoe somente as condic,:oes previas da construc,:ao. Aforc,:a de lembrar0 imperativo da constatac;ao, contra toda a tradic;ao especulativa da filosofia social da qual tern de se liberar, a comunidade sOciologica tende, atualmente, a esquecer a hierarquia epistemologica dos atos cientificos que subordina a constata- c;ao aconstruc,:ao e a construc;ao aruptura: tratando-se de uma ciencia experimental, a simples referencia aprova experimental nao passa de uma tautologia, enquanto nao for acompanhada por uma explicac;ao dos pres- supostos teoricos que servem de base a uma verdadeira experimentac;aoj ora, tal explicitac;ao permanece em si mesma desprovida de virtude heuristica enquanto nao for acompanhada da explicitac,:ao dos obstaculos epistemologicos que se apresentam, sob uma forma especifica, em cada atividade cientifica. 22 r
  20. 20. I- i- I, Z e ) :1 I PRIMEIRA PARTE A ruptura 1. 0 FATO ECONQUISTADO CONTRA A ILUSAO DO SABER IMEDIATO Avigilancia epistemologica impoe-se, particularmente, no caso das cien- ciasdo homem nas quais a separa~ao entre a opiniao comum e 0 discurso cientifico e mais imprecisa do que alhures. Ao concedermos, com demasiada .facilidade, que a preocupa~ao com uma reforma politica e moral dasociedade levou os sociologos do seculo XIX a abandonar, muitas vezes, a neutralidade cientifica e, ate mesmo, que a sociologia do seculo XX renunciou, eventual- mente, as ambi~oes da filosofia social sem ter ficado isenta de contamina~oes ideologicas de outra natureza, dispensamo-nos quase sempre de reconhecer, para tirar dai todas as conseqiiencias, que a familiaridade com 0 universo social constitui, para 0 sociologo, 0 obstaculo epistemologico por excelencia porque ela produz continuamente concep~oes ou sistematiza~oes ficticias ao mesmo tempo que as condi~oegode sua credibilidade. 0 sociologo nunca c()nseguira acabar com a sociologia espontanea e deve se impor uma pole- mica incessante contra as evidencias ofuscantes que proporcionam, sem grandes esfor~os, a i1usao do saber imediato e de sua riqueza insuperavel. Sua dificuldade em estabelecer, entre a percep¢o e a dencia, a separa~ao que, para 0 fisico, exprime-se por uma oposi~ao nitida entre 0 laboratorio e a vida cotidiana, e tanto maior pelo fato de nao conseguir encontrar, em sua heran~a teorica, os instrumentos que Ihe permitiriam recusar radicalmente a Iinguagem corrente e as no~oes comuns. 1.1. Preno~6es e tecnicas de ruptura Na medida em que tern como fun~ao reconciliar, a qualquer pre~o, a consciencia comum consigo mesma ao propor explica~oes, ate mesmo con- tradit6rias, a respeito do mesmo fato, as opinioes primeiras sobre os fatos sociais apresentam-se como uma coletanea falsamente sistematizada de 23
  21. 21. julgamentos com uso altemativo. Essas preno~oes, "representa~oes esque- maticas e sumarias" que sao "formadas pela pratica e para ela", retiram sua evidencia e "autoridade", como observa ourkheim, das fun~oes sociais que desempenham [I~. Durkheim, texto nO 41. A influencia das no~oes comuns e tao forte que todas as tecnicas de objetiva~ao devem ser utilizadas para realizar efetivamente uma ruptura que, na maior parte das vezes, e mais professada do que concretizada. Assim, os resultados da medida estatistica podem, pelo menos, ter a virtude negativa de desconcertar as impressoes primeiras. Oa mesma forma, nao temos verificado, com freqiiencia, a_ fun¢o de ruptura que Ourkheim conferia it defini~ao previa do objeto como constru~ao teorica "provisoria" destinada, antes de tudo, a "substituir as no~oes do senso comum por uma primeira no¢o cientifica'" IM. Mauss, texto nO 51. Com efeito, na medida em que a linguagem corrente e determinadas utiliza~oes eruditas das palavras banais constituem 0 principal veiculo das representa~oes comuns da sociedade, e sem duvida uma critica logica e lexicologica da linguagem comum que aparece como a condi~ao indispensavel para a elabora~ao controlada das no~oes cientificas II.H. Goldthorpe e D. Lockwood, texto nO 61. Pelo fato de que, no momento da observa~ao ou experimenta~ao, 0 sociologo estabelece uma rela~ao com 0 objeto que, enquanto rela~ao social, nunca e puro conhecimento, os dados apresentam-se-lhe como configura~oes vivas, singulares e, em poucas palavras, humanas demais, que tendem a se impor como estruturas do objeto. Ao fragmentar as totalidades concretas e patentes que sao dadas it intui~ao para substitui-las pelo conjunto dos criterios abstratos que as definem do ponto de vista sociologico - profissao, remunera~ao, nivel de instru~ao, etc. - impedindo as indu~oes espontaneas' que, por urn efeito de halO, levam a estender a uma casse inteira os tra~os marcantes dos individuos mais "tipicos" na aparencia, em suma, dilacerando a rede de rela~oes que se tece continuamente na experiencia, a analise estatistica contribui para tomar possivel a constru~ao de novas rela~iies, capazes de impor, por seu carater insolito, a busca das rela~iies de natureza superior que the serviriam de justificativa. 1. P. Fauconnet e M. Mauss, verbete "SocioJogie", in Grande Encyclopedie Fran~aise, t. XXX, paris, 1901, p. 173. Naa e urn acaso se as Que pretendem encontrar em Durkheim, e, mais precisamente, em sua teoTia da defini¢o e do indicador (d., por exempio, R.K. Merton, Elements de theorie et de methode sociologique [trad. H. Mendras], 2! ed. aumentada, Pion, Paris, 1965, p. 61), a origem e cau~o do "operacionalismo"ignorama func;ao de ruptura que Durkheimconferiacl defini¢o; com efeito, inumeras defini~fies dit3S "operat6rias" sao simplesmente uma formalizac;ao, logicamente controlada, das ideias do senso comum. 24
  22. 22. I I ) i I I - (j! ~.:-, , ~ Em resumo, a inven~ao nunca se reduz a uma simples leitura do real, por c.> mais desconcertante que seja, ja que pressupoe sempre a ruptura com 0 l mesmo e com as configura~oes que ele propoe a percep~ao. Por insistir -demais no papel do acaso na descobertacientifica, como faz RobertK. Merton na analise da serendipity, expomo-nos a despertar as representa~oes mais ingenuas da inven~ao, resumidas no paradigma da ma~a de Newton: a apreensao de um fato inesperado pressupoe, pelo menos,a decisao de prestar uma aten~o metodica ao inesperado e sua virtude heuristica depende da pertinencia e coerencia do sistema de indaga~oes que ele coloca em questa02 • sabe-se que 0 ate da inven~ao que conduz a solu~ao de um problema sensorio-motor ou· abstrato deve quebrar as rela~oes mais aparentes, por serem as mais famiiiares, para fazer surgir 0 novo sistema de rela~oes entre .os elementos. Em sociologia como alhures, "uma pesquisa seria leva a reunir ··0 que 0 vulgo separa ou a distinguir 0 que 0 vulgo confunde,,3. ~ 1.2. Ailusiio da transparencia e 0 principio da niio-consciencia 5 ) , " s 5 S 5 ) ,. a Todas as tecnicas de ruptura, tais como a critica logica das no~oes, a comprova~ao estatistica das falsas evidencias, a contesta~ao decisoria e metodica das aparencias, hao de permanecer impotentes enquanto a socio- logia espontanea nao for atacada em seu proprio amago, isto e, na filosofia do conhecimento do social e da a~ao humana que Ihe serve de suporte. A sociologia so pode se constituir como ciencia realmente separada do senso comum, com a condi~ao de opor as pretensoes sistematicas da sociologia espontanea a resistencia organizada de uma teoria do conhecimento do social cujos principios contradizem, ponto por ponto, os pressupostos da filosofia primeira do social. Por nao existirtal teoria, 0sociologo pode recusar ostensivamente as preno~oes, ao mesmo tempo que edifica a aparencia de um discurso cientifico sobre os pressupostos assumidos inconscientemente 11partirdos quais asociologiaespontanea engendraria essas preno~oes. Como representa~ao i1usoria da genese dos fatos sociais segundo a qual 0 cientista poderia compreender e explicar tais fatos "unicamente pelo esfor~o de sua reflexao particular", 0 artificialismo apoia-se, em ultima analise, no pressu- posto da ciencia infusa que, enraizado no sentimento da familiaridade, serve e 2. R.K. Merton. Elements de theorie et de methode sociologique, op. cit., p. 47-51. o IS J. "PorexempJo, a ciencia das religioes reuniu, em urn mesmo genero, as tabus de impureza e as de pureza IS porque todos eles sao tabus; pelo contrario, estabeleceu uma cuidadosa distin~o entre as ritos funerarios e a culto dos antepassados" (P. Fauconnet e M. Mauss, uSociologie"I in lac. cit., p. 173). Ut-RGS Blbl!oteca Sdcriai de eienein, Sociais A Hllm" ·d·~-"' . "m QUe!!
  23. 23. de base tambern para a filosofia espontanea do conhecimento do mundo social: a polemica de Durkheim contra 0 artificialismo, 0 psicologismo ou 0 moralismo e apenas 0 avesso do postulado segundo 0 qual os fatos sociais ''tern uma forma de ser constante, uma natureza que nao depende da arbitrariedade individual e de onde derivam rela~oes necessarias" [I:, Dur- kheim, texto n° 71. 0 mesmo afirmava Marx quando defendia que, "na produ~ao social de sua existencia, os homens estabelecem rela~oes determi- nadas, necessarias, independentes de sua vontade", ou ainda Weber quando nao aceitava reduzir 0 sentido cultural das a~oes as inten~oes subjetivas dos atores, Ao exigir do sociologo que penetre no mundo social como em urn mundo desconhecido, Durkheim reconhece a Marx 0 merito de ter rompido com a i1usao da transparencia: "Julgamos ser fecunda a ideia de que a vida social deve ser explicada, nao pela concep~ao que tern a seu respeito os que -participam nela, mas por causas profundas que escapam a consciencia,,4 [E, Durkheim, texto n° 8], Semelhante convergencia explica-se facilmentes: 0 que poderiamos de- signar por principio da nao-consciencia, concebido como condi~ao sine qua non da constitui~ao da ciencia sociologica, e simplesmente a reformula~ao na logica dessa ciencia do principio do determinismo metodologico que nenhuma ciencia poderia negar sem se negar como tal", E0 que dissimulamos quando exprimimos 0 principio da nao-consciencia com 0 vocabulario do , inconsciente e, assim, transformamos urn postulado metodologico em tese antropologica, chegando a substancia apartir do substantivo ou servindo-nos da polissemia desse termo para reconciliar 0 apego aos misterios da inte- 4. E. Durkheim, resenha de A. Labriola, "Essais sur la conception materialiste de l'histoiren , in Revue Philosophique, dez. de 1897, vol. XLIV, 22° ano, p. 648. 5. Aacusa~o de sincretismo que poderia seT suscitada pela aproximayio entre as textos de Marx, e DUrkheim, apoiar-se-ia na confusao entre a teoria do conhecimento do social como conldiy;o possibilidade de urn discurso sociologico verdadeiramente cientifico e a teoria do sistema social sabre esseponto, p. e" einfra, G. BacheJard, texto nO 2, p. 108-111). No caso em que nao fosse reconhecida tal distinyio, ainda seria necessaria examinar se a aparimcia de discordancia nao edevida ao (ato de estarmos ligados a represen~o tradicional de uma pluraJidade de tradi~6es teoricas; o~ tal representa¢o econtestada precisamente pelo "ecletismo apaziguante" da teoria do conhecimento sociologico que, a partir da experiencia da atividade sociologica, recusa determinadas oposic;6es que se tornaram rituais em outra atividade, a do ensino da mosoFia. 6. "Se, como escreve Claude Bernard, um fenomeno se apresentasse em uma experiencia com aparencia de tal modo contraditoria que mio pudesse serassociado de forma necessaria a determinadas condic;6es de existencia, arazao deveriarepeJir0 Jato como urn fata mlo ciendfica[...]porque aaceita¢o de urn fata sern causa, isto e, indeterminado em suas condic;6es de exisrenciC nao enem mais menos do que a nega~o da ciencia" (C. Bernard, Introduction a"etude de la medecine eXI,eriimenta'le,I J.-B. Baillere et fils, Paris, 1865, cap. II, § 1). 26
  24. 24. do 10 ais da lIr- na ni- do los 1m do Ida lue [E. le- 'Ua :ao ue lOS do ~se lOS te- 'vue ~ber ) de (veT cida ) de tal !nto que 1ma Idas Ic;aO 'em ~ale. rioridade com o~ imper~tivos d~ d~s~ancia~ent07 [L•. •Wi~g~nstein, te-,:,to .?O 9] De fato, a Omca fun~ao do prmclplo da nao-consclencla e afastar a Ilusao q~e a antropologia possa se constituir como cii!Ocia reflexiva e, ao mesmo tempo definir as condi~6es metodologicas que a tornem uma ciencia expe- o rimen~I' [E. Durkheim, texto nO 10; F. Simiand, texto nO 111. se a sociologia espontanea ressurge com tal insistencia e sob disfarces tao diferentes na sociologia erudita e, sem dOvida, porque os sociologos que pretendem conciliar 0 projeto cientifico com a afirma~ao dos direitos da pessoa, direito aa~ao livre e direito aconsciencia clara da a~ao, ou, simples- mente, evitam submeter sua pnitica aos principios fundamentais da teoria do conheCimento sociologico, voltam a encontrar, inevitavelmente, a filosofia ingenua da a~ao e da rela~ao do sujeito asua a~ao aplicada na sociologia espontanea por sujeitos preocupados em defender a verdade vivida de sua experiencia da a~ao social. A resistencia que suscita a sociologia quando pretende desapossar a experiencia imediata de seu privilegio gnoseologico inspira-se na mesma filosofia humanista da a~ao humana de determinada sociologia que, servindo-se de conceitos como, por exemplo, 0 de "motiva- 7. Embora tivesse permanecido confinado na problematica da consciencia coletiva pelos instrumentos conceituais peculiares as cil~ncias humanas de sua epoca, Durkheirn teve a preocupa~o de estabelecer a distinc;ao entre a principia pelo qual a sociologo tria a existimcia de regularidades nao-conscientes e '-a-afinnac;ao de urn "inconsciente" dotado de caracteres especificos. Ao discutir a relac;ao entre as -representac;6es individuais e as representac;oes coletivas, ele escreve a seguinte: "TUdo a que preten- demos dizer, com efeito, eQuese passam fenomenos em nos que sao de natureza pSlquica e, no entanto, nao sao conhecidos do ego que nOs somas. Quanto a saber se sao percebidos por algum ego desconhecido ou 0 que podem ser fora de qualquerapreensao, isso nao nos importa. Admitamos apenas que a vida representativa se estende alem de nossa consciencia atual" (E. Durkheim, "Representations individuelles et representations collectives", in Revue de Metophysique et de Morale, IV, maio de 1898, reproduzido in sociologie et Philosaphie, F. Alcan, paris, 1924; citado a partirda 3! ed., P.U.F., paris, 1961, p. 25) [N.T.: Cf. E. ourkheim, "Representac;6es individuais e representac;6es coletivas", in Socia/ogio e flIosofia, trad. deJ.M. de Toledo camargo, Companhia Editora Forense, Sao paulo, 1910, p. 31-32]. 8. E0 que sugere C. Levi-Strauss quando estabelece a distinc;ao entre 0 emprego que Mauss faz da noc;ao de inconsciente e a notao junguiana de urn inconsciente coletivo "repleto de simbolos e, ate mesmo, de coisas sirnbolizadas que para ele formam uma especie de substrata" e quando reconhece a Mauss 0 merito "de ter feito apelo ao inconsciente como ao fornecedor do carater comum e especifico dos fatos sociais" (c. Levi-Strauss, "Introduction", in M. Mauss, Sociologie et Anthropa/ogie, P.U.F., Paris, 1950, p. XXX e XXXII) [N.T.: Cf. C. Levi-Strauss, "Introduc;ao a obra de Marcel Mauss", in Sociologia e antropologia, tTad. de Lamberto puccinelli, Editora Pedagogica e Universitaria Ltda. I Editora da universidade de Sao Paulo, Sao paulo, 1914, p. 20 e 18-19]. Eainda nesse sentido que ele reconhece em Tylor a afirmatao, sem duvida confusa e equivoca, do que faz a originalidadeda etnologia, asaber, "a natureza inconsciente dos fenomenos coletivos"... "Mesmo quando encontramos interpretac;Oes, estas tern sempre 0 carater de racionalizac;6es ou elaborac;6es secundiirias: nao hci sornbra de duvida de que as razlles que nos levam a praticar urn costume, compartilhar urna crenc;a, estao muito afastadas das razlles que invocamos para justificar tal atitude" (Anthropologie structurale, Pion, paris, 1958, p. 25). 27
  25. 25. ~ao" ou dedicando-se por predile~ao as questoes de decision-making, realiza, a sua maneira, 0 desejo ingenuo de todo sujeito social: pretendendo perma- necer senhor e possuidor de si mesmo e de sua propria verdade, desejando conhecer apenas 0 determinismo de suas proprias determinac;oes (embora as considere inconscientes), 0 humanista ingenuo que existe em todos os homens sente profundamente como uma reduc;ao "sociologista" ou "mate- rialista" qualquer tentativa para estabelecer que 0 sentido das ac;oes mais pessoais e rnais "transparentes" nao pertence ao sujeito que as realiza, mas ao sistema completo das relac;oes nas quais e pelas quais elas se realizam. As falsas profundezas prometidas pelo vocabulario das "motivac;oes" (osten- sivamente distinguidas dos simples "motivos") tern, talvez, como func;ao , j,alvaguardar a filosofia da escolha, ornamentando-a com prestigios cientifi- "cos que estao associados a busca das escolhas inconscientes. Aprospecc;ao superficial das func;oes psicologicas tais como elas sao vividas - "razoes" ou "satisfac;oes" - impede, quase sempre, a busca das func;oes sociais que as "razoes" dissimulam e cuja plena realizac;ao proporciona, por acrescimo, as satisfac;oes experimentadas diretamente9 • Contra esse metoda ambiguo que permite a troca indefinida de servi~os entre 0 senso comum e 0 senso comum erudito, e necessario apresentar urn segundo principio da teoria do conhecimento do social que e simplesmente a forma positiva do principio da nao-consciencia: as relac;oes sociais nao poderiam ser reduzidas a relac;oes entre subjetividades animadas por inten- c;oes ou "motivac;oes" porque se estabelecem entre condic;oes e posic;oes sociais, e porque, ao mesmo tempo, sao mais ieais do que os sujeitos que estao Iigados por elas. As criticas que Marx opunha a Stirner dirigem-se aos psicossoci610gos e soci610gos que reduzem as relac;oes sociais a repre- 'i sentac;ao que ossujeitostern delas e acreditam, em nome de urn artificialismo Ipratico, que e possivel modificar as relac;oes objetivas transformando essa •representac;ao: "Sancho nao deseja que dois individuos estejam 'em contra- dic;ao' entre si, como burgues e proletario [...1, mas gostaria de ve-Ios es- tabelecer uma relac;ao pessoal de individuo a individuo. Nao considera que, no quadro da divisao do trabalho, as relac;oes pessoais se tornem, necessaria e inevitavelmente, relac;oes de classes e se cristalizem como tais; assim, todo , ,,' 9. Tal e 0 sentido da critica que Durkheim dirigia a spencer: UOs fatos sociais mio sao a Simples desenvolvirnento dos fatos psiquicos, mas as segundos nao passam, em grande parte, do prolongamento dos primeiros no interior das consciencias. Essa proposj~o emuito importanteporque 0 ponto de vista contrario expoe, a cada instante, 0 soci61ogo a tomar a causa peto efeito e reciprocamente" (De 10 division du travail social, 7" ed., P.U.F., paris, 1960, p. 341). 28
  26. 26. iza, lla- 1do ora ; os Ite- lais nas !rn. en- ~o tifi- eao ou ,as ,as ~os urn nte lao en- les lue !OS Ire- mo ssa ra- es- ue, lria ,do pies !nto 'ista e 10 o seu palavrorio reduz-se a urn desejo piedoso que ele pensa concretizar exortando os individuos dessas classes a expulsar de seu espirito a ideia de suas "contradi~oes" e de seu "privilegio" particular... Para destruir a 'contra- di¢o' e 0 'particular', bastaria rnodificar a 'opiniao' e a 'vontade",'0. Inde- pendentemente das ideologias da "participa~ao" e da "comunica~ao" a servi~o das quais, muitas vezes, elas estao, as tecnicas c1assicas da psicologia social inclinam-se, em decorrencia de sua epistemologia implicita, a privile- giar as representa~~es dos in.dividuos em d.etrimento ~as r~la~oes o~jetiv~s nas'quais estes estao envolvldos e que defmem a "satlsfa~ao" ou a "msatls- 'fll9io" que os mesmos experimentam, os conflitos que enfrentam ou as expectativas e ambi~oes que exprimem. Pelo contrario, 0 principio da nao-consciencia impoe que seja construido 0 sistema das rela~oes objeti- va's nas quais os individuos se encontram inseridos e que se exprimem mais adequadamente na economia ou morfologia dos grupos do que nas' opinioes e inten~oes declaradas dos sujeitos. Nao e a descri~ao das ati:/' tudes, opinioes e aspira~oes individuais que tern a possibilidade de pro-, porcionar 0 principio explicativo do funcionamento de uma organizaltao,' mas a apreensao da logica objetiva da organiza~ao e que conduz ao principio capaz de explicar, por acrescimo, as atitudes, opinioes e aspira~oes". Esst:i objetivismo provisorio que e a condi~ao da apreensao da verdade objeti- vada dos sujeitos e tambem a condi~ao da compreensao completa da rela~ao vivida que os sujeitos mantem com sua verdade objetivada em urn sistema de rela~oes objetivas12 • to. K. Marx, ldeologie allemande (tcad. J. Molitor), in Oeuvres Philosophiques, t.lX, A. castes, Paris, 1947, p.94. t t. Essa redu¢o apsicologia encontra urn de seus modelos prediletos no estudo do~,pequenos grupos, au seja, grupDs isolados de a~o e intera¢o abstraidos da sociedade global. Perneu-se a (onta das pesquisas em que a estudo, em sistema fechado, dos conflitos psicol6gicos entre bandos tama a lugar da am'llise das rela~oes objetivas entre forc;as sociais. IZ. Se foi necessario, para defesa da causa pedagOgica, (olocar tada a enfase na condi~o previa da objetiva~o que se impoe a qualquer procedimento sOciologico quando este pretende romper com a sociologia espontanea, mio se tratava de reduzir a tarefa da explica~o sociologica as dimensoes de urn objetivismo: "Por sua propria existencia, a sociologia pressupoe a supera~o da oposil;ao ficticia que subjetivistas e objetivistas fazem surgir arbitrariamente. Se a sociologia como cH~ncia objetiva e _.passivel, eporque existem relar;oes exteriores, necessarias, independentes das vontades individuais e, ~~ quisermos, inconscientes (no sentido em que elas nao se apresentam pela simples reflexao) que 56 podem ser apreendidas passando peJa observa~o e experimenta~o objetivas. [...1 No entanto, diferentemente da ciencia da natureza, uma antropologia total nao pode se Iimitar a uma constru~o das relaC;:fies objetivas porque a experiencia das significar;fies faz parte da significar;ao total da experiencia: a sOciologia menos suspeita de subjetivismo recorre a conceitos intermediarios e media- -dares entre 0 subjetivo e 0 objetivo, tais como aliena¢o, atitude ou ethos. cabe-Ihe, com efeito, .~onstruir a sistema de relar;oes que englobe, miD 56 0 sentido objetivo das condutas organizadas se- 29
  27. 27. 1.3. Natureza e cultura: substancia e sistema de rela~oes Se 0 principio da nao-consciencia nao passa do avesso do principio do c1ima das rela~oes, este ultimo deve por si levar a recusar todas as tentativas para definir a verdade de urn fen6meno cultural independentemente do sistema das rela~oes historicas e sociais nas quais ele esta inserido. Conde- nado inumeras vezes, 0 conceito de natureza humana, a rnais simples e mais natural das naturezas simples, sobrevive sob as especies de conceitos que sao como sua moeda corrente, por exemplo, as "tendencias" ou as "propen~ soes" de certos economistas, as "motivac;oes" da psicologia social ou as "necessidades" e os "pre-requisitos" da analise funcionalista. A filosofia essencialista que era solidaria com a no~ao de natureza continua ainda em a~ao em determinada utiliza~ao ingenua de criterios de analise, tais como 0 sexo, idade, ra~a ou aptidoes intelectuais, quando essas caracteristicas sao concebidas como dados naturais, necessarios e eternos, cuja eficacia poderia ser apreendida independentemente das condic;oes historicas e sociais que os constituem em sua especificidade para determinada sociedade e em deter- minado momento do tempo. De fato, 0 conceito de natureza humana esta em a~ao sempre que e transgredido 0 preceito de Marx que proibe eternizar, em uma natureza, 0 produto de uma historia, ou 0 preceito de Durkheim exigindo que 0 social seja explicado pelo social e unicamente pelo social [K. Marx, texto nO 12; E.. Durkheim, texto nO 131. A formula de Durkheim conserva todo 0 seu valor com a condi~ao de que nao exprima a reivindicac;ao de urn "objeto real", realmente distinto do objeto das outras ciencias do homem, nem a pretensao sociologista em justificar, do ponto de vista sociologico, todos os aspectos da realidade humana, mas somente a lembran~a da decisao metodologica de nao abdicar prematuramente do direito aexplica~ao sociologica ou, dito por outras palavras, nao recorrer a urn principio de explica~ao tirado de outra ciencia, quer se trate da biologia ou psicologia, enquanto nao tiver sido completamente comprovada a eficacia dos metodos de explica~ao propria- mente sociologica. Alem do fato de que, ao recorrer a fatores que sao por defini~ao trans-historicos e transculturais, corremos 0 risco de dar como explicac;ao isso mesmo que deve ser explicado, ficamos condenados, na gundo regularidades mensuraveis, mas tambem as rela~6es singulares que as sujeitos mantem com as condit;oes objetivas de sua existenda e com 0 sentido objetivo de suas condutas, sentido Que as possui porque esta:o desapossados dele. Dito por outras palavras, a descri~o da subjetividade objetivada reenvia a descri¢o da intenoriza¢o da objetividaden (P. Bourdieu, Un Art moyen, Ed. de Minuit. Paris, 1970,2' ed., p. 18-20; l' ed., 1965). 30
  28. 28. do ,as do le- ais ue m.. as fia ~m 10 ao ria os ~r.. e o 'Ial E- or I", io )s Ie )r ra 10 a- )r 10 la as 'Ui ja is, melhor das hipotes.es, a explicar somente o. aspec~o.em que as institui~oes ~-aSsemelham, delxando escapar, como aflrma leVI-Strauss, 0 que faz sua :pecificidade his~oric~ ~u o~iginal!dade.eultural: "Uma.disciplina c~o obje- . tlvoprincipal, senao 0 umco, e anahsar e mterpretaras dlferen~as eVlta todos os problemas levando em considera~ao apenas as semelhan~as. No entanto, ao mesmo tempo, perde todos os meios de estabelecer a distin~ao entre 0 seral, que e 0 seu objetivo, e 0 banal com 0 qual ela se contenta"" [M. Weber, fexto nO 141. No entanto, nao basta que as caraeteristicas atribuidas ao homem social em sua universaIidade se apresentem como "residuos" ou invariantes colo- cados em evidimcia por uma analise de sociedades eoncretas para que s~a afastada, decisivamente, essa filosofia essenciaIista que deve a maior parte de sua sedu~ao ao esquema de pensamento segundo 0 qual "nao hi! nada de novo sob 0 sol": de Pareto a LUdwig von Mises nao faltam analises, aparen- temente historicas, que se Iimitam a designar com urn nome sociologico determinados principios explicativos tao pouco sociologizados, tais como a "incIina~ao a criar associa~oes", "a necessidade de manifestar sentimentos por meio de a~oes exteriores", 0 ressentimento, a busea do prestigio, a insaciabilidade da necessidade ou a libido dominandi14 • Nao seria possivel compreender que, tao freqiientemente, os sociologos possam negar-se como tais, ao proporem sem outra justificativa determinadas expliea~oes que eles so deveriam acolher como ultimo reeurso, se a tenta~ao de se justificarem pelas opinioes declaradas nao Fosse refor~ada pela sedu~ao generica da expliea~ao pelo simples, cuja "inefieacia epistemologiea" fai denunciada incansavelmente por Bachelard. tl. C. Levi-Strauss, Anthropologie structurale, op. cit., p. 19. 14. Para estabelecer que 0 azedume eritieD contra 0 capitalismo s6 poderia ser inspirado pelo ressenti- menta peculiar a individuos frustrados em sua ambi~o social, Von Mises deve servir-se, inde- pendentemente de qualquer especificac;ao sociologica, da propensao aautojustificac;ao duplicada pela aspirac;ao aascensao social. Eporque teriam perdido sua oportunidade de ascensao, na sequencia de alguma inferloridade natural ("as quaJidades biol6gicas de urn homem limitam. de forma bastante estrita, 0 campo no interior do qual ele podera prestar servir;os aos outros"), que numerosas pessoas dirigiriam contra 0 capitalismo 0 ressentimento surgido de sua ambir;ao frustrada. Em suma, como, segundo Leibniz, estil inscrito desde toda a etemidade na essencia de Cesar que ele hiI de atravessar 0 Rubicao, assim tambem 0 destino de cada sujeito social estaria contido em sua natureza (definida pelo seu aspecto psicologico 'e, por vezes, biologico). 0 essencialismo conduz, logicamente, a uma "sociodi- ceia" (L Von Mises, The Anti-capitalistic Mentality, van Nostrand, Princeton (NJ.), Toronto, Londres, Nova YorK, 1956, p. 1-33). 31
  29. 29. 1.4. Asociologia espontanea e os poderes da linguagem Se a sociologia e uma cii!Ocia como as outras que encontra somente uma dificuldade particular em ser uma ciencia como as outras, e, fundamental- mente, em decorrencia da rela~ao particular que se estabelece entre a experiencia erudita e a experiencia ingenua do mundo social e entre as expressoes ingenua e erudita de tais experiencias. Com efeito, nao basta denunciar a ilusao da transparencia e adotar principios capazes de romper com os pressupostos da sociologia espontiinea para acabar com as constni- ~oes ilusorias que ela propoe. "Heran~a de palavras, heran~a de ideias", segundo 0 titulo de Brunschvicg, a linguagem corrente que, pelo fato de ser corrente, passa desapercebida, contem, em seu vocabulario e sintaxe, toda uma filosofia petrificada do social sempre pronta a ressurgir das palavras comuns ou das expressoes complexas construidas com palavras comuns que, inevitavelmente, sao utilizadas pelo sociologo. Quando aparecem dissimula- das sob as aparencias de uma elabora~ao erudita, as preno~oes podem abrir caminho no discurso sociologico sem perderem, de modo algum, a credibili- dade que lhes e conferida pela sua origem: as advertencias contra a conta- mina~ao da sociologia pela sociologia espontanea nao passariam de exorcismos verbais se nao fossem acompanhadas por urn esfor~o feito no sentido de fornecer avigilancia epistemologica as armas indispensaveis para evitar a contamina~ao das no~oes pelas preno~oes. Sendo, muitas vezes, prematura, a ambi~ao de jogar fora a linguagem comum para adotar em lugar, pura e simplesmente, uma linguagem perfeita, por ser intpir:"m"n1~" construida e formalizada, corre 0 risco de desviar da analise, mais urgente, logica da linguagem comum: somente essa analise pode dar ao sociologo meio de redefinir as palavras comuns no interior de urn sistema de nOI~OE:S exp~essamente definidas e metodicamente depuradas, ao mesmo tempo subrhete acritica as categorias, problemas e esquemas, retirados da 1II,~;ua comum pela lingua erudita, que amea~am sempre se reintroduzir na gem sob os disfarces eruditos da lingua rnais formal possive!. "0 estudo emprego logico de uma palavra, escreve Wittgenstein, permite-nos eSI=a~lar ainfluencia de certas expressoes tipicas [...]. Essas analises procuram viar-nos das opinioes preconcebidas que nos impelem a acreditar que os devem estar de acordo com determinadas imagens que florescem em nossa linguagem"". Por nao submetermos a linguagem comum, principal ,,,,iLll'- 15. L Wittgenstein, Le cahier bJeu et Ie cahier brun (tTad. G. Durand), Gallimard, paris, 1965, p. 89. 32
  30. 30. " I ~ l ,- o Ir i- s a 1- .menta da "constru~ao do mundo dos objetas,,16, a uma critica metodica, expomo-nos a considerar como dados determinados objetos pre-construidos nae pela Iinguagem comum. Apreocupa¢o com a defini~ao rigorosa con-, tinua sendo inutil e! ate '!1es~~, ~nga_na~ora e.nquanto 0 ~rin~ip~o. unificador!c; ; dos objetos submetl.dos a deflm~ao na.o t!versldo submetldo a cntlca17. ,C~~o . Osfifosofos que delxam que Ihes seJa Imposta a busca de uma deflm~ao essencial do "jogo", sob pretexto. de ~ue a ~ingua~e~ corre~te ~tili~ urn unico substantivo comum para dlzer "Jogos mfantls, Jogos ohmplcos, Jogos de matematica ou trocadilhos", assim tambem os sociologos que organizam sua problematica cientifica em tomo de termos pura e simplesmente tirados do vocabulario familiar obedecem aIinguagem que Ihes e fomecida pelos olJjetos no momenta em que jul~m estar sub~et~dos a~e~as ao ':dado". As ,divisoes operadas pelo vocabulano comum nao sao as umcas pre-constru- ~oes inconscientes e incontroladas que amea~am insinuar-se no discurso sociologico e essa tecnica de ruptura que e a critica logica da sociologia espontanea encontraria, sem duvida, urn instrumento insubstituivel na no- sografia da linguagem corrente que se apresenta - pelo menos no estado de esbo~o - na obra de Wittgenstein [M. Chastaing, texto nO 15]18. 16. Ct. E. cassirer, "Le langage et la construction du monde des objets", in Joumal de psychoJogie "annale etpathoJogique, vol. 30, 1933, p. 18-44; e "The Influence of Language upon the Development ofScientific Thought", in The Journal of Philosophy, vol. 33, 1936, p. 309-327. 17. M. Chastaing prolonga a (ritiea empreendida por Wittgenstein a respeito dos jogos IN.T.: No original, jeux1 conceituais instigados pelos jogos de palavras a partir da palavra "jogo": "Os homens miD funcionam IN.T.: No original, jouent do verbo jouer; este verba tambem significa brincar, jogar, representar urn papel no teatro, fingir, tocar urn instrumento musical... Nesta cita~o, 0 predicado e semprejouer] como seus revestimentos de madeira, nem como suas instituic;oes. Nao fazern trocadilhos como representam urn papel no palco; mio tocam vioUna como manipulam urn paUi nao arriscam dinheiro como tern rna sortei nao danc;am uma valsa como enfrentam urn adversarioj nao brincam com uma bala como jogam bola, inclusive 'football'. Podem dizer Que seu comportamento sera diferente conforme as circunstancias. Deveriam dizer: brincar niio ebrincar" (M. Chastaing, uJouer n'est pasjouer", inJournal de psychoJogie nonnale etpathoJogique, nO 3,julho-setembro de 1959, p. 303- 326). ACfitica I6gica e Iingiiistica a Qual M. Chastaing submete a palavra "jogo" poderia aplicar~se, mais ou menos integralmente, a nac;ao de "Iazer", as utilizac;oes comumente feitas dessa palavra e as definic;aes "essenciais" que recebe de certos sociologos: "ColoQue no lugar da velha palavra 'jogos' 0 neologismo 'lazer'. Substitua, portanto, em algumas descric;6es classicas dos jogos, 'a vontade de jogar' ou 'a atividade livre' do jogador par urn lazer qualificado como desejada ou taxada de applo do individuo sem Que voce esteja preocupado com 0 lazer dirigido e as !erias pagas, nem com a antiga oposic;ao lieet-libet. Substitua 0'prazerdejogar' pela visao hedonfstica do lazer, tendo 0cuidado de nao cantarolar Sombre dimanche IN.T.: Domingo sombrio] e depois je hais les dimanches IN.T.: Odeio os domingosl. Enfim, substitua alguns jogos gratuitos por diferentes formas de lazer que se desenroJam jora de quaJquer jinalidade utilitario, se voce tiver a possibilidade de eSQuecer a jardinagem dos operarios e empregados, inclusive as gambiarras domesticas" (ibid.). tl.Assim,a maiorparte das utilizac;6es do terma inconsciente caem no paralogismadas "essencias ocultas" que consiste, segundo Wittgenstein, em arrancar as palavras de seus contextos de utilizac;a,o e data-las de uma significac;ao substancial (d. infra, L. Wittgenstein, texto nO 9, p. 139-141). 33
  31. 31. Semelhante cratica daraa ao sociologo 0 meio, nao SO de dissipar 0 halo semantico (fringe of meaning, como afirma William James) que envolve as palavras mais comuns, mas tambem controlar as significa~oes flutuantes de todas as metaforas - inclusive as que, aparentemente, estao fora de uso-:" que amea~am situar a coerencia de seu discurso em uma natureza diferente daquela em que ele pretende inscrever suas formula~oes. Ou seja, algumas dessas imagens que poderiam ser c1assificadas segundo a natureza, biologica ou mecanica, a qual elas reenviam, ou segundo as filosofias implicitas do social que elas sugerem: equilibrio, pressao, for~a, tensao, reflexo, raiz, corpo, celula, secre~ao, crescimento, regula~ao, gesta~ao, enfraquecimento, etc. Tais esquemas de interpreta~ao, tirados quase sempre da natureza fisica ou biologica, amea~am veicular, sob a aparencia da metiifora e da homonimia, uma filosofia inadequada da vida social e, sobretudo, desencorajar a busca da explica~ao especifica, fornecendo sem grandes esfor~os uma aparencia ~.. explica~ao'9 [G. canguilhem, texto nO 161. Assim, uma psicanalise do espirito sociologico poderia, sem duvida, encontrar em inumeras descri~oes do processo revolucionario, como explosao apes a opressao, urn esquema mecanico, apenas transposto. Da mesma forma, os estudos de difusao cultural recorrem, rnais freqiientemente de forma inconsciente do que cons- ciente, ao modelo da propaga~ao da mancha de oleo para tentar justificar a area e ritmo de dispersao de urn tra~o cultural. Uma forma de contribuir para a purifica~ao do espirito cientifico seria analisar concretamente a logica e as fun~oes de esquemas como 0 da "mudan~a de escala" no qual nos apoiamos para transferir para 0 plano da sociedade global ou planetaria determinadas observa~oes ou proposi~oes validas no plano dos pequenos gruposj como 0 da "manipula~ao" ou "complo" que, baseando-se no final de contas na i1usao da transparencia, tern a falsa profundidade de uma explica~ao pelo oculto e proporciona as satisfa~oes afetivas da denuncia das criptocraciasj ou ainda como 0 da "a~ao a distancia" que leva a pensar a a~ao dos meios modernos de comunica~ao, segundo as categorias do pensamento magic02 ". Ve-se que a maior parte de tais esquemas metaforicos sao comuns as afirma~oes ing€!nuas e ao discurso eruditoj e, de fato, ficam devendo a essa 19. Alias, nao passa de uma justa represalia: se a sociologia foi submetida a importa¢o incontrolada de esquemas e imagens biol6gicas, a biologia teve de depurar de conotac;6es marais e politicas, em Dutra epoca e com grande dificuldade, certas noc;6es, tais como as de "eelulan ou "tecido" (ct. infra, G. Canguilhem, texto nO 16, p. 165~168). 10. N. Chomsky mastra assim que, Iimitando-se a utilizar as termos tecnicos de forma rnetaf6rica, a Iinguagem de Skinner revela sua inconsistencia quando e submetida a uma cTltica J6gica e Iingiiistica (N. Chomsky, resenha de B.F. Skinner, Verbal Behavior. in Language. vol. 35. 1959, p. 16-58). 34
  32. 32. o s e e s a o I, S U I, a a o s a D :- a a s s s D D e a s s a e a ;. a a dupla origem seu rendimento pseudo-explicativo. Como afirma Yvon Belaval, Use eles nos convencem ~ porque nos fazem deslizar e oscilar, sem 0 nosso conhecimento, entre a Imagem e 0 pensamento, entre 0 concreto e 0 abstrato. Associada aimagina~ao, a linguagem transpoe, sub-repticiamente, a certeza da evidencia sensivel para a certeza da evidencia logica,,21. Ocul- tando sua origem comum sob a aparencia do jargao cientifico, tais esquemas mistoS escapam a refuta~ao, seja porque propoem imediatamente uma explica~ao global e despertam as experiencias rnais familiares (0 conceito de "sodedade de massa" pode, por exemplo, encontrar urn paralelo na expe- riencia dos engarrafamentos de Paris e 0 termo "muta~ao" nao evoca, muitas vezes, mais do que a experiencia banal do inaudito); seja porque eles reenviam a uma filosofia espontanea da historia, como 0 esquema do retorno ciclico quando evoca somente a sucessao das esta~oes, ou como 0 esquema funcionalista quando nao tern outro conteudo senao a formula "isso e estudado para" do finalismo ingenuo; seja porque eles encontram esquemas eruditosja vulgarizados, sendo que a compreensao do sociograma adota, por exemplo, a imagem invisivel das afinidades profundas entre as pessoas. A proposito da fisica, Duhem observava que 0 cientista expoe-se sempre a recuperar nas evidencias do senso comum 05 residuos de teorias anteriores, abandonados ai pela ciencia; considerando que tudo predispoe os conceitos e as teorias sociologicos a passar para 0 dominio publico, 0 sociologo corre o risco, mais do que qualquer outro cientista, de "retomar no cerne dos conhecimentos comuns, para devolve-las aciencia teorica, as pe~as que esta tinha depositado ai,,22. Sem duvida, 0 rigor cientifico nao nos obriga a renunciar a todos os esquemas analogicos de explica~ao ou compreensao como e testemunhado pefa utiliza~ao feita, eventualmente, pela fisica moderna de determinados paradigmas - ate mesmo mecanicos - com finalidade pedagogica ou heuris- tica; com a condi~ao de utiliza-Ios de forma consciente e metodica. Da mesma forma que as ciencias fisicas tiveram de romper categoricamente com as representa~oes animistas da materia e da a~ao sobre a materia, assim tambem as ciencias sociais devem operar 0 "corte epistemologico" capaz de .estabelecer a separa~ao entre a interpreta~ao cientifica e todas as interpre- ta~oes artificialistas ou antropomorficas do funcionamento social: e somente :U. Y. Belaval, Les philosophes et leur langage, Gallimard, paris, 1952, p. 23. 22. P. Duhem, La theorie physique, son objet, sa structure, M. Riviere, Paris, 1954, 2! ed. revista e ampliada, p.397. 35
  33. 33. III com a condi~ao de submeter os esquemas utilizados pela explica~ao socio. lagica a prova da explicita~ao completa23 que sera possivel evitar a contami. na~ao a que estao expostos os esquemas rnais depurados sempre que eles apresentam uma afinidade de estrutura com os esquemas comuns. Bachelard mostra que a maquina de costura sa foi inventada quando as pessoas deixaram de imitar os gestos da costureira: sem duvida, a sociologia tiraria a melhor Ii~ao de uma justa representa~ao da epistemologia das cii!ncias da natureza se se empenhasse em proceder a verifica~ao permanente de que esta construindo verdadeiramente maquinas de costura, em vez de transpor, de forma irrelevante, os gestos esponmneos da pratica ingenua. 1.5. A tentm;ao do profetismo Na medida em que tern mais dificuldade do que qualquer outra ciencia para se Iiberar da i1usao da transparencia e para realizar, irreversivelmente, a ruptura com as preno~oesj na medida em que, muitas vezes, Ihe e atribuida, volens nolens, a tarefa de responder as questoes ultimas sobre 0 futuro da civiliza~ao, a sociologia esta, hoje, predisposta a manter com urn publico, que nunca se reduz completamente ao grupo dos pares, uma rela~ao mal escla- recida que corre sempre 0 risco de voltar a encontrar a lagica da rela~ao entre o autor de sucesso e seu publico ou, ate mesmo, por vezes, entre 0 profeta e sua audiencia. Mais do que todos os outros especialistas, 0 socialogo esta exposto ao veredicto ambiguo e ambivalente dos nao-especialistas que se sentem com a autoridade de dar credito as analises propostas, com a condi~ao de que estas despertem os pressupostos de sua sociologia espon- tanea, mas que sao levado~, por essa mesma razao, a contestar a validade de uma ciencia que eles sa aprovam na medida em que ela coincide com 0 born senso. De fato, quando 0 socialogo se Iimita a tomar a sua conta os objetos de reflexao do senso comum e a reflexao comum sobre esses objetos, nao tern mais nada a opor a certeza comum de que pertence a todos os homens falarem de tudo 0 que e humano e julgarem qualquer discurso, ate mesmo cientifico, sobre 0 que ehumano. Ecomo e possivel que cada urn nao se sinta urn pouco socialogo quando as analises do "socialogo" concordam comple- tamente com as afirma~oes da tagarelagem cotidiana e quando 0 discurso do analista e as afirma~oes analisadas estao separados apenas pela barreira 23. Nessa tarefa de contrale semantico. a sociologia pade se armar naD so com 0 que Bachelard designav(l como psicanalise do conhecimento au com uma critica puramente 16gica e Iingiii5tica. mas tambem com uma sociologia da utiliza~o social dos eSQuemas de interpreta¢o do social. 36
  34. 34. i das aspaSl24 Nao e urn acaso se 0 estandarte do "humanismo" sob 0 :' al se reconciliam os que acreditam que basta ser humano para ser :ciOIOgOe os que fazem sociologia para satisfazer uma paixao demasiado humana pelo "humano" serve de sinal de adesao a todas as resistencias ~ntra a sociologia objetiva, quer se inspirem na i1usao da refJexividade ou na afirma¢o dos direitos imprescritiveis do sujeito livre e criador. osociologo em comunhao com seu objeto nunca esta longe de sucumbir acomplacencia cumplice em favor das expectativas escatologicas que 0 grande publico intelectual tende a transferir, atualmente, para as "ciencias humanas" - alias, seria preferivel designa-Ias por ciencias do homem. Ao aceitar definir seu objeto e as fun~oes de seu discurso em conformidade com as demandas de seu publico, apresentando a antropologia como urn sistema C!erespostas totais as questoes ultimas sobre 0 homem e seu destino, 0 socioiogo faz-se profeta, embora a estilistica e a tematica de sua mensagem s~am diferentes segundo que, "sendo pequeno profeta credenciado pelo Estado", ele responde como mestre de sabedoria as inquieta~oes de salva¢o intelectual, cultural ou politica de urn auditorio de estudantes; ou segundo que, praticando a politica teorica atribuida por wright Mills aos "estadistas" da ciencia, ele se esfor~a por unificar 0 pequeno reino dos conceitos sobre os quais e pelos quais entende reinar; ou ainda segundo que, sendo pe- queno profeta marginal, ele fornece ao grande publico a ilusao de ter acesso aos ultimos segredos das ciencias do homem [M. Weber, B.M. Berger, textos nOs 17 e 18]. A Iinguagem sociologica que, ate mesmo em suas utiliza~oes maiSl controladas, recorre sempre a palavras do lexico comum tornado em uma ' "iCeP¢0 rigorosa e sistematica e que, por esse fato, se torna equivoca desde que deixa de se dirigir unicamente aos especialistas, presta-se, mais do que qualquer outra, a utiliza~oes fraudulentas: osjogos de polissemia, permitidos pela afinidade invisivel entre os conceitos mais depurados e os esquemas comuns, favorecem 0 duplo sentido e os mal-entendidos cumplices que garantem ao duplo jogo profetico suas audiencias multiplas e, por vezes, contraditorias. Se, como afirma Bachelard, "todo quimico deve combater em1 si 0 alquimista", assim tambem todo sociologo deve combater em si proprio o .RfC!feta social que, segundo as exigencias de seu publico, e obrigado a encamar. A elabora~ao, aparentemente erudita, das evidencias que sao as U. Prererimos deixar a cada leitor 0 trabalho de encontrar i1ustrat;oes dessa analise. 37
  35. 35. mais bern feitas para encontrar urn publico porque sao evidi'mcias publicas e a utiliza~ao de uma lingua com varios registros, que justapoe as palavras comuns e as palavras tecnicas destinadas a servir-Ihes de cau~ao, fomecem ao sociologo sua melhor mascara quando, apesar de tudo, ele pretende desconcertar os que encontram nele plena satisfa~ao de suas expectativas, orquestrando de forma grandiosa seus temas favoritos e oferecendo-Ihes urn discurso cuja aparencia de esoterismo serve, na realidade, as fun~oes exote- ricas de urn empreendimento profetico. Asociologia profetica volta a encon- trar, naturalmente, a logica segundo a qual 0 senso comum constroi suas explica~oes quando ela se contenta em sistematizar falsamente as respostas da sociologia espontanea - obtidas pela experiencia comum de forma de- sordenada - as questoes existenciais: de todas as explica~oes simples, as explica~oes pelo simples e pelas naturezas simples sao as mais freqiiente- mente invocadas pelas scciologias profeticas que encontram nos fenomenos tao familiares, como a televisao, 0 principio explicativo de "muta~oes plane- tarias". "Toda verdade, afirma Nietzsche, e simples: nao sera isso uma dupla mentira? Tomar alguma coisa desconhecida em alguma coisa conhe- cida traz alivio, tranqiiiliza 0 espirito e, alem disso, proporciona urn sentimento de poder. Primeiro principio: uma explica~ao qualquer e pre- ferivel a falta de explica~ao. como, no fundo, trata-se de nos desembara~ar de representa~oes angustiantes, nao as observamos de muito perto com o objetivo de encontrarmos os meios para chegar a elas: a primeira representa~ao pela qual 0 desconhecido declara-se conhecido faz tanto bern que a consideramos como verdadeira". Que esse recurso as explica~oes pelo simples tenha como fun~ao tran- qiiilizar ou inquietar, que esteja equipado com paralogismos da forma pars pro toto, das sistematiza~oes por alusao e elipse ou dos poderes da analogia esponrnnea, e sempre em suas afinidades profundas com a sociologia espon- tanea que reside sua mola explicativa. Marx afirmava 0 seguinte: "Essas belas formulas Iiterarias que, por meio de analogias, organizam tudo em tudo podem parecer engenhosas quando as ouvimos pela primeira vez, tanto mais que chegam a identificar coisas contraditorias entre si. Quando sao repetidas, com presun~ao, como se tivessem urn alcance cientifico, revelam-se simples- mente idiotas. Sao feitas para esses pedantes que veem tudo cor-de-rosa, falam a-toa e envolvem todas as ciencias com seu sentimentalismo piegas,,2'.. 25. K. Marx, fOndements de la Critique de l'Economie politique, t. I (trad. R. Dangevillel, Anthropos, paris, 1967. p. 240. 38
  36. 36. reoria e tradif;Oo teorica colocar sua epistemologia sob 0 signo do "por que nao?" e a historia , __,_,,_ cientifica sob 0 signo da descontinuidade ou, melhor, da ruptura rntJ~i, Bachelard recusa aciencia as certezas do saber definitiv~ para - ela so poden! progredir ao colocar perpetuamente em questao de suas proprias constru~oes. No entanto, para que uma IXjlei'lelllcia como a de Michelson e Morley possa conduzir a urn questiona- i}t,ent:o radical dos postulados fundamentais da teoria, e necessario que exista teoria capaz de suscitar tal experiencia e levar a sentir urn desacordo 'tao sutil quanto 0 que faz aparecer essa experiencia. A situa~ao da sociologia /lao e de modo algum, favoravel a essas fa~anhas teoricas que, levando a ilega~o ao proprio amago de uma teoria cientifica aparentemente confir- mada tornaram possiveis as geometrias nao-euclidianas ou a fisica nao-new- tonia~a. Alem disso, 0 sociologo esta condenado aos esfor~os obscuros: exigidos pelas rupturas sempre recome~adas com as solicita~oes do senso ' , comum, ingenuo ou erudito: com efeito, quando se volta para 0 passado , teorico de sua disciplina, encontra nao uma teoria cientifica constituida, mas uma tradif;oo. Semelhante situa~ao favorece a divisao do dominio epistemo~ J logico em dois campos cuja oposi~ao se manifesta nas rela~oes opostas que mantem com a mesma representa~ao da teoria: igualmente, incapazes de oporem it imagem tradicional da teoria uma teoria propriamente cientifica ou, pelo menos, uma teoria cientifica da teoria cientifica, uns lan~am-se impulsivamente em uma pratica que pretende encontrar em si mesma seu proprio fundamento teorico, enquanto outros continuam a manter com a tradi~ao a rela~ao tradicionalista que as comunidades de letrados acostuma- ramose a manter com urn corpus no qual os principios declarados dissimulam pressupostos tanto mais inconscientes pelo fato de serem rnais essenciais e no qual a coerencia semantica ou logica pode ser simplesmente a expressao manifesta de escolhas ultimas baseadas em uma filosofia do homem e da historia, e nao em uma axiomatica construida de forma consciente. Os que se esfor~am por fazer a soma das contribui~oes teoricas legadas pelos "pais fundadores" da sociologia nao sera que enfrentam urn empreen- dimento analogo ao dos teologos ou canonistas da Idade Media que reuniam em suas enormes Sumas 0 conjunto dos argumentos e questoes legados pelas "autoridades", textos can6nicos ou Padres da Igr~a726 Sem duvida, os "teo- 26. ~,relat;,ao tradicional a uma tradi~o observa-se sempre nos primeiros momentos da hist6ria de uma clenc~a.. ~chelard mastra assim que, nos livros cientificos do seculo XVIII, existe uma erudi¢o parasltana que traduz ainda a inorganizac;ao e a dependencia da cidadela erudita em rela¢o a socie- 39
  37. 37. ricos" contemporaneos da sociologia concordariam com Whitehead ao afir- mar que "uma ciencia deve esquecer seus fundadores"j ocorre que suas sinteses poderiam diferir menos do que possa parecer das compila~ees medievais: 0 imperativo de "cumulatividade" a que se submetem ostensiva- mente nao seria, na maior parte das vezes, simplesmente a reinterpreta~ao, por referencia a outra tradi~ao intelectual, do imperativo escolastico da concilia~ao dos contrarios? Como observa Erwin Panofsky, os escolasticos- "nao podiam deixar de notar que as autoridades e, ate mesmo, as diferentes passagens da Sagrada Escritura estavam, muitas vezes, em contradi~ao. So Ihes restava, apesar de tUdo, admiti-Ias como tal e interpreta-Ias e reinter- preta-Ias indefinidamente ate que fossem reconciliadas. Eis 0 que os teologos sempre tern feito,,27. Tal e exatamente, no essencial, a logica de uma "teoria" que, como a de Talcott parsons, nunca deixa de ser a reelabora~ao indefinida dos elementos teoricos artificialmente extraidos de urn corpo escolhido de autoridades28 , ou ainda a logica de urn corpus doutrinal como a obra de Georges Gurvitch que apresenta, tanto em sua topica quanto em seu proce- dimento, todas as caracteristicas das coletaneas de canonistas medievais, vastos confrontos de autoridades contraditorias coroados pelas concordan- tiae violentes das sinteses finais2 •• Nada se opee, de forma rnais completa, a razao arquitetonica das grandes teorias sociologicas, capazes de digerirem todas as teorias, todas as criticas teoricas e, ate mesmo, todas as empirias, do que a razao polemica que, "por suas dialeticas e criticas", conduziu as teorias modernas da fisicaj e, por conseqiiencia, tudo separa 0 "superobjeto", "resultado de uma objetividade que apenas retem do objeto 0 que ela dade mundana. Se, "ao tratarem do fogo no seu celebre Physyque du Monde (paris, 1870), a barao de Marivetz eGOllssierconsideram como urn devereuma glOriaexaminar quarenta eseis diferentes teorias antes de proporem a carreta, que e a deles", e porque sua ciencia nao rompeu com a passado, por mais incipiente que seja, e e tambem parque, por falta de uma organiza~o propria e de regras autone'mas,' a discussao cientifica esempre concebida segundo 0 modela da conversa~o mundana" (La formation de I'esprit scientif;que, Contribution c:i une psychanalyse de la connaissance objective, 41 ed. Vrin, Paris, 1965, p. 27) [N.T.: Cf. G. Bachelard,Aforma~aodo espirito cientijlco.", op. cit, p. 34]. Cf. infra, G. Bache/oro, texto nO 43, p. 284. 27. E panofsky, Architecture gothique et pensee scolastique (trad. P. Bourdieu), Ed. de Minuit. Parts, 1967, p.118. 28. Nao e0 aspecto menos artificial de uma obra como The Structure of Social Action de T. Parsons 0 tratamento que este autor reserva as doutrinas classicas para demonstrar sua cumulatividade. 29. 0 tradicionalismo teartco sobrevive. talvez, pela oposi~o que encontra nos profissionais de campo mais positivistas e, ate mesmo, no que eles Ihe opoem: sera necessario lembrar, com politzer, que "naO epossivel, seja qual for a sinceridade da inten~o e a vontade da precisao, transformar a flSica de Aristoteles em fisica experimentalR l (G. politzer, Critique des jondements de 10 psychologie, Rieder, Paris, 1928, p. 6). 40

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