Carta aberta de dom Tomás Balduino aos   bispos sobre construção de catedrais                                      Goiânia...
tradição profética. Na hora da sua prisão declarou aos seus algozes:“Todos os dias eu ensinava no templo e não me prendest...
direção da periferia. Escolheu “a igreja das fronteiras” e fez dascomunidades de periferia o lugar da cátedra do pastor. D...
descrição do atual sistema econômico, político e de seus meios decomunicação”. Pois bem, esta terrível idolatria tem seus ...
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Carta aberta de dom Tomás Balduino aos bispos sobre construção de catedrais

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Sobre construção de catedrais suntuosas, longe do povo e dificultando o acesso dos pobres.

Publicada em: Espiritual, Tecnologia
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Carta aberta de dom Tomás Balduino aos bispos sobre construção de catedrais

  1. 1. Carta aberta de dom Tomás Balduino aos bispos sobre construção de catedrais Goiânia, GO, 18 de julho de 2008.Queridos Irmãos no episcopado, do Regional Centro-Oeste,A paz do Senhor esteja com vocês!Peço-lhes licença para colocar aqui umas reflexões que venho tendocom outros colegas, inclusive dando a forma de carta. Trata-se daconcepção de igreja e, de modo especial, de igreja catedral. Fui motivadosobretudo pelo fato da catedral de Goiânia ter de se mudar para umaobra que ficará próxima do atual Paço municipal, em terreno doado porLourival Lousa, dono do Flamboyant, porém do outro lado da rodovia153, em local de acesso difícil e distante do povão. Será então umacatedral tipo monumento moderno, atualizado, tudo bem planejado, deconcepção semelhante à de Brasília, a mesma que vai se reproduzirfuturamente também em Palmas. Enquanto isso, por exemplo, aschamadas catedrais da Igreja Universal do Reino de Deus, que nãodeixam de ser também portentosas construções, ficam bem perto dopovo e se enchem de gente. O que pensar, então, a respeito de nossasigrejas? Isso também faz parte da nossa responsabilidade pastoral.1. O sacramento do Templo na Bíblia O Senhor nos deu um ensinamento bem preciso e nos evangelizousobre o templo. Enquanto as nações vizinhas do Povo de Israel tinhamtodas seu templo, os profetas do Senhor diziam que Deus não quertemplo. Deus quer acampar com seu povo nômade. Construir umtemplo seria traição desse caminhar de Deus com seu povo. Até mesmoquando o rei Davi quis levantar um templo, o Senhor mandou o profetaNatan lhe dizer: “Desde que Deus tirou o seu povo do Egito, sempremorou em tenda e nunca pediu templo”. (2 Sm 7,7).Segundo Isaías (Is 66,1), Deus é aquele que o universo inteiro não podeconter. Tem o céu por seu trono e a terra como escabelo de seus pés.Como pode morar em uma casa edificada pelo homem? O problema éque, de fato, desde o começo, até hoje, o templo tem servido delegitimação do poder dos reis e dos donos do poder. Não é, pois, degraça que o rei e os poderosos dão todo apoio econômico à suaconstrução suntuosa e em lugar privilegiado. Por isso, os profetassempre criticaram o templo e pediram que a fé se libertasse e fosse paraalém do templo.Alguns profetas, como Isaias e Jeremias, tiveram que assumir o templocomo um fato consumado, mas tiraram partido dele como lugar doensino da Palavra, não como lugar de sacrifício. E Jesus retomou esta
  2. 2. tradição profética. Na hora da sua prisão declarou aos seus algozes:“Todos os dias eu ensinava no templo e não me prendestes”. (Mc 14,49).O templo, com efeito, não era tradicionalmente lugar de ensino, massim de sacrifício. Fazer daquele lugar um lugar de profecia foi um atocrítico e subversivo.Depois do exílio da Babilônia, os judeus fiéis se reuniam em sinagogas(casas da comunidade). Começou, então, uma tensão entre o judaísmoda sinagoga (baseado na Palavra) e o judaísmo do templo (baseado nossacrifícios e no culto). O Cristianismo surgiu no meio do judaísmo dassinagogas e não no do templo. As reuniões dos primeiros cristãos, quemarcaram a liturgia até hoje, seguiram o esquema da sinagoga, não dotemplo. Das sinagogas para as casas. E, de casa em casa, o Evangelhofoi irradiando.Na cena da limpeza do templo o zelo vigoroso demonstrado por Jesusnão foi em defesa daquela obra feita pela mão do homem. “Ele se referiaao templo do seu corpo” (Jo 2,21) e também à morada de Deus, isto é“àquele que o ama e cumpre sua palavra” (Jo 14,23) e sobretudo aofaminto, ao sedento, ao migrante, ao nu, ao doente, ao preso, às vítimasda opressão e da exploração. (Cf. Mt 23). Jesus se proclama maior doque o templo (Mt 12,6). Ele veio construir um templo não feito por mãohumana (Mc 14,58). Ao celebrar sua oblação perfeita ao Pai Ele optoupor fazê-la fora do templo e fora da cidade. O templo novo é o seu corporessuscitado (Jo 2,20). No Apocalipse, quando é anunciada a novaJerusalém, o autor insiste que ela não tem mais templo porque opróprio Deus é o seu templo (Ap 21,22).2. Templos e catedrais na história da IgrejaHá um paradoxo e uma contradição no fato dos judeus, para os quais otemplo se tinha tornado o sacramento da presença divina, não teremquerido reconstruir o templo depois de sua destruição no ano 70,enquanto os cristãos, que receberam tantas advertências de Jesus,multiplicaram os lugares de culto.À medida que a Igreja se incorporou ao Império e se tornou uma IgrejaCristandade, ocupou os antigos templos pagãos e os transformou emtemplos da nova religião oficial que era a Igreja cristã. Da Idade Médiaaté os nossos dias, as catedrais, construídas nas praças centrais e aolado do poder político se tornaram símbolos de uma Igreja que oConcílio Vaticano II procurou superar. Segundo a Lumen Gentium,“Assim como o Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e naperseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho.Cristo foi enviado pelo Pai para „evangelizar os pobres, sanar oscontritos de coração‟ (Lc 4,18), semelhantemente a Igreja cerca de amortodos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobrese sofredores a imagem do seu Fundador pobre e sofredor” (LG nº 8).Dom Hélder Câmara, por exemplo, fiel a este novo espírito, foi na
  3. 3. direção da periferia. Escolheu “a igreja das fronteiras” e fez dascomunidades de periferia o lugar da cátedra do pastor. Dom PauloEvaristo Arns, em 1973, vendeu o palácio episcopal e com o dinheiroconstruiu inúmeros centros comunitários na periferia de São Paulo,onde as Comunidades Eclesiais de Base passaram a se reunir paracírculos bíblicos, celebrações da Palavra e da vida e lutar pelos direitoshumanos. Mesmo em plena Cristandade, pastores como JoãoCrisóstomo, Basílio e, no Ocidente, Ambrósio e Agostinho insistem queo verdadeiro templo de Deus e a glória da Igreja são os pobres. E JoãoCrisóstomo fazia os pobres sentarem em sua cátedra na Igreja deConstantinopla.A celebração dos sacramentos polarizada pelo altar, assim como adevoção e o culto dos santos polarizados pelo santuário, tornaram-se,durante séculos, a marca característica das igrejas católicas,infelizmente esvaziadas da Palavra. Inversamente, as igrejas da Reformaprotestante deram um lugar primordial ao púlpito e à Bíblia, lida eassumida, com muito empenho, por todos os membros da comunidade.Foi o Concílio Vaticano II que, através das Constituições Dei Verbum eSacrosanctum Concilium, restabeleceu o equilíbrio original entre o altare o púlpito, valorizando a Palavra, que passou a integrar as celebraçõesdos sacramentos e readquiriu o lugar que ela tinha na vida da primitivaIgreja dos Apóstolos e dos mártires. Na construção das novas igrejascomeçaram até a aparecer soluções arquitetônicas criativaspreocupadas em garantir a boa acústica, que favoreça a audição clara,para todos os participantes, de tudo o que é proclamado na liturgia.As comunidades precisam sim de lugares para se reunirem e terem seuculto. Elas gostam que estes lugares sejam belos, dignos e venerados.Entretanto, é importante esclarecer que o templo é símbolo esacramento da comunidade viva e deve ser o lugar da comunidade enão o instrumento do poder clerical ou episcopal, construído nosmesmos critérios dos templos que antigamente legitimavam o domíniodos poderosos do mundo.“Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mamon)”, disse Jesus.(Mt 6,24). O termo “servir” refere-se ao culto e o nome “Dinheiro” ésinônimo de “Mamon”, o ídolo. O povo de Deus, povo sacerdotal, aomesmo tempo que no templo ou fora do templo, isto é, na vida prática,cultua o Senhor, deve ser uma clara denúncia da monstruosa idolatriaque domina no mundo. Em l989, para preparar a conferência doConselho Mundial de Igrejas sobre “Justiça, Paz e Defesa da Criação”,Ulrich Ducrow escrevia: “Quando vemos os mecanismos de um sistemaeconômico que, ano após ano, cria milhões de vítimas da fome emilhões de desempregados, quando vemos as florestas morrerem parapermitir o lucro das empresas e vemos as superpotências continuarema louca corrida armamentista, devemos admitir que estamos diante deum monstro demoníaco. De fato, os capítulos 13 a 18 do Apocalipse,com a sua descrição da Fera que sobe do abismo, são ainda a melhor
  4. 4. descrição do atual sistema econômico, político e de seus meios decomunicação”. Pois bem, esta terrível idolatria tem seus “Templos”. Osbancos centrais superam em visibilidade arquitetônica qualquercatedral de qualquer parte do mundo. Eles são Templos. Têm seussacerdotes, seu santo dos santos, seus sacrários de segurança máxima,acessíveis a poucos e onde guardam seu deus. Vamos nos contrapor aisso usando os mesmos critérios de grandiosidade e de poder ouseguiremos os caminhos da pequenez e do não-poder apontados porJesus como força imbatível na construção do Reino de Deus?Eram estas reflexões, Irmãos, que queria lhes comunicar, comsimplicidade, na certeza de que podem surtir algum efeito prático. Domeu lado fico à disposição de vocês para qualquer reação a isto que nãodeixa de ser uma fraterna provocação.Saúdo-os com fraterna amizade no Senhor Jesus, nosso Templo vivo.Dom Tomás BalduinoBispo emérito de Goiásdombalduino@cptnacional.org.br

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