Analise socio-historica da comunidade caicara de Conceicaozinha - Guaruja Parte 2

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Analise socio-historica da comunidade caicara de Conceicaozinha - Guaruja Parte 2

  1. 1. SÍTIO CONCEIÇÃOZINHA EM GUARUJÁ Carlos Eduardo Vicente Primórdios do Sítio Conceiçãozinha Espaço Geográfico Distante aproximadamente um quilômetro da margem de Santos, do Estuário, cerca de dois quilômetros da Ponta da Praia em Santos e algo em torno de seis quilômetros da Estação das Barcas de Vicente de Carvalho, o Sítio Conceiçãozinha, segundo relatos de moradores mais antigos, já foi muito maior do que é hoje. Depoimentos atestam que o hoje Sítio, no inicio do século XX abarcava os bairros de Prainha, Jardim Boa Esperança, metade do Pae Cara e da Vila Áurea, partes do Morrinhos e Vila Zilda, e ainda os próprios Sitio e Jardim Conceiçãozinha, uma área que representaria algo próximo à metade de Vicente de Carvalho (Itapema)1. Com o tempo, essa área foi sendo dividida e deu origem aos bairros acima citados, e hoje, o Sitio Conceiçãozinha está restrito a uma área de aproximadamente 450.000 metros quadrados, que seria o equivalente a cerca de 450 metros de largura por um quilometro de comprimento. Esta é a área ocupada pela população, o que representa apenas metade da área total da parte conhecida como Sitio Conceiçãozinha, pois como é claramente visível no mapa2, a área ocupada vai somente até o rio Santo Amaro, e, no entanto a 1 Nome indígena tupi guarani, como é vulgarmente conhecido Vicente de Carvalho pela população em geral; significa “pedra quebrada”, “muita pedras”. 2 Segue em anexo, ao final do primeiro capitulo o mapa nº 1 com localização geográfica especifica da comunidade, no Sítio Conceiçãozinha, e o mapa nº 2 com a localização da comunidade inserida na área dita como parte da comunidade pelos moradores (mapas de 2001). 1
  2. 2. área do Sítio vai até a linha férrea, beirando a avenida Santos Dumont. “... como aqui era uma mata muito grande, o que a gente entendia até a década de 1960, ou 59, por aí, a Conceiçãozinha era uma faixa muito grande, ela era aqui do Rio Santo Amaro, perto aonde é o Yate3 hoje, ela ia até o Morro Alto nessa torre de alta tensão grande, que já tem aqui em Vicente de Carvalho, ela ia até lá, tanto que a Prainha, o bairro de Prainha se chamava Prainha do Sitio Conceiçãozinha, então, se vê que o Sitio Conceiçãozinha, a Prainha é uma parte do bairro do Sítio Conceiçãozinha, que atravessava pela linha de transmissão das torres, varava ali pela Base Aérea, Vila Áurea, Pae Cara, Monteiro da Cruz, Boa Esperança e ia compreendendo até lá embaixo, né, ia até o Morro Alto (bairro hoje conhecido como morrinhos)”.4 O fragmento retirado de um dos moradores mais antigos do Sítio, e sem dúvida o mais antigo individuo contatado com conhecimento do bairro exemplifica bem o tipo de noção territorial vigente, pois outros moradores também fazem referência ao tamanho do bairro como sendo de envergadura similar. Porém não podemos deixar de frisar o fato de que na época descrita não havia parâmetros tão específicos para caracterizar os bairros descritos, pelo menos em Guarujá (haja vista que os locais em que se localizavam os bairros citados atualmente como fazendo parte do Sitio Conceiçãozinha na época descrita eram somente uma grande mata). Podemos sim afirmar que o que existia em Vicente de Carvalho era uma pequena faixa urbana próxima a Estação das Barcas onde se concentravam o comércio e grande parte da população, e que existiam alguns sítios espalhados pelo resto de Vicente de Carvalho (Itapema).5 Além do que, algumas áreas foram nomeadas sem uma territorialidade especifica, o que justificaria o tamanho conferido pelos moradores ao Sítio Conceiçãozinha. Outro ponto importante, com certeza seria o fato de que é perceptível, quando do depoimento dos moradores mais antigos, o apego e o carinho com que tratam a comunidade principalmente em seus primeiros anos, o que se reflete em praticamente todos os depoimentos como um fator de engrandecimento da comunidade. 3 Todas as vezes que nos depoimentos de moradores estiverem referindo-se ao Yate, trata-se do Yate Clube de Santos, localizado no bairro Ponta da Praia. 4 “Seu Dito”, morador do Sítio Conceiçãozinha há cerca de 40 anos. 5 Segue em anexo, ao final do primeiro capitulo o mapa nº 3 com localização geográfica especifica da comunidade, no Sítio Conceiçãozinha no ano de 1960, e o mapa nº 4 com a localização da comunidade inserida na área dita como parte da comunidade pelos moradores. 2
  3. 3. O bairro Sítio Conceiçãozinha se encontra localizado em Vicente de Carvalho, distrito de Guarujá, na ilha se Santo Amaro, litoral paulista, cerca de 23o de latitude sul e 46o de longitude Ocidental, distando 83 quilômetros de São Paulo. O Guarujá tem limites ao Norte com o município de Santos, pelo estuário de Santos, e ao Sul e Leste com o Oceano Atlântico. Possui uma área de 139 quilômetros quadrados, dos quais como já foi dito, 0,5 quilômetros quadrados pertencem ao “Sitio Conceiçãozinha”, e tem uma população de aproximadamente 260 mil habitantes, sendo que algo em torno de 1,5% dela, está no “Sítio”.6 Chega-se ao Sítio Conceiçãozinha pela avenida Santos Dumont, seguindo de carro, da Estação das Barcas, até cerca de cinco quilômetros, onde se entra à direita e se segue mais um quilômetro até o inicio da comunidade, ou por via marítima, através de embarcação pela Ponta da Praia em Santos ou outro atracadouro de embarcações da região. Hoje o bairro está encravado entre os terrenos das empresas Cargill, Cutrale e Dow Química, tendo as ruas todas de terra. Ainda não possui rede de esgotos, porém já tem iluminação e água potável. A formação de toda a orla do bairro é de vegetação de manguezais em adiantado estado de degradação, tanto pelo efeito de substâncias químicas lançadas pelas empresas instaladas no estuário, quanto pelo esgoto e lixo doméstico e dos navios que vem com as cheias e fica depositado nas margens do bairro e na margem oposta do rio Santo Amaro, em área de vegetação ainda de mangue.7 Primeiros Habitantes “... muita gente anda ali e não vê, não, e eu sei onde tem as três campas8, até Newton falou pra mim que quer um dia ir lá, para mim mostrar pra ele onde que é essas três campas, e eu sei onde que é, tem até duas fechadas e uma aberta. Aqui também, uma vez, faz anos quando também desmataram isso aqui, foi a primeira vez quando quiseram invadir, a portuária não deixou ninguém invadir, eu acho que tinha 6 Arquivo do IBGE e Censo de 2000. 7 Arquivo da ONG Coletivo Alternativa Verde – CAVE, e observação da área em questão. 8 Campa – forma como é vulgarmente conhecida a sepultura na região do litoral de São Paulo. Campas – plural de campa. 3
  4. 4. uma campa aqui também, onde mais ou menos é esse terreno aqui mesmo, eu achei uma campa antiga, ta, com a cruz de madeira, uma campa antiga, só que acho que quando mexeram acabaram com tudo, era coisa antiga, coisa que não interessa a gente também, né. Aí mexeram, foram fazendo casa, terreno, acabaram com tudo, mas aqui acho que enterraram muita gente, ali no Yate Club ali, meu pai trabalhou ali, meu pai falou pra mim, que ali é o seguinte, quando ele trabalhou ali, que era muita caixa de osso, machadinha, e esses ossos foi tudo pra São Paulo, foi tirado caixas e mais caixas, entendeu? Bastante machadinha, era do tempo dos índios, os índios matava e jogava ali, jogava dentro do canal, morreu muita gente aqui, isso aqui era uma ‘matona’ deserta...”9 Podemos notar a profunda relação de respeito que o morador tem com aquilo que seu pai dizia. No tocante à comunidade, e a outras em geral, onde não se tem uma tradição escrita de passagem de informações, a história oral atinge um nível de importância fundamental para a sobrevivência cultural da comunidade. Assim como nas tribos indígenas, nas comunidades caiçaras o papel da oralidade é facilmente comprovado na realização de uma pesquisa de campo. Para os moradores mais antigos, e/ou, para os moradores nascidos na comunidade com mais de vinte e cinco, trinta anos, a auto-afirmação enquanto morador é visível em cada depoimento. Até nas conversas mais informais, a história da comunidade, os acontecimentos considerados importantes são repetidos por moradores diferentes, e mesmo as histórias mais incríveis, ou desagradáveis são relembradas e contadas. Por depoimentos de moradores atuais, que moram já há varias décadas na comunidade e que afirmam haver encontrado, durante escavações para a construção de suas casas ou para plantio de suas pequenas roças, ossos e artefatos de uso de indígenas, podemos deduzir que os primeiros habitantes da região, antes mesmo de se constituir em uma comunidade, eram os indígenas: Na análise geral feita por Bento Ribeiro para os habitantes nativos da Serra do Mar, “Os tupis da Costa eram conhecidos pelos nomes genéricos de Tupinambás e se dividiam em vários grupos locais. Tupiniquim e Tupiná (ou Tapanases), viviam entre Porto seguro na Bahia e Espírito Santo. Na mesma região viviam os Guaitacases ou Goitacases [...] Em São Vicente estavam os 9 Ranufinho, morador do bairro a 35 anos, e filho de um dos primeiros moradores do bairro com aproximadamente 70 de “Conceiçãozinha” e que faleceu um ano antes do início da pesquisa. 4
  5. 5. Guaianases, também tapuias (tapuia ou tapuio – nome dado outrora pelos tupis aos gentios inimigos; designação genérica do índio bravio)10 ancestrais”.11 Esses depoimentos podem ser endossados pela presença de ruínas de uma velha capela, na margem oposta à comunidade, no rio Santo Amaro, caracterizando assim área de influência jesuítica, e por depoimentos de moradores antigos que essa primeira população pode ter sido de origem Guarani, ou talvez Tamoio, do grupo tupinambá 12 que eram o termo genérico com que eram conhecidos os tupis da costa: “... os tupinambás que povoaram esta região exerciam domínio sobre amplos territórios. Não há concordância absoluta quanto à extensão da área constituída [...] Anchieta, que conhece intimamente a região situa os dois limites em Cabo Frio e São Sebastião. (Anchieta, Cartas, págs 246 e 252) [...] Em conseqüência da guerra com os portugueses, os Tupinambás do Rio de Janeiro foram em grande parte exterminados, outros emigraram e alguns se submeteram aos brancos [...] Em 15 anos, 1560 a 1575, os portugueses conseguiram conquistar terras, expulsar os franceses da região e impor seu domínio aos aborígines [...] O Forte foi destruído pelos Tupinambás, mas logo depois reconstruído na Ilha de Santo Amaro (Stadem págs 74 a 77) [...] em vez de atemorizados ficaram os tamoios do Rio mais insolentes com os moradores de São Vicente. Andavam a caça de portugueses e seus aliados [...] procurando vingar a morte dos guerreiros tupinambás (Anchieta, Cartas, págs 222 e 223)...”.13 “... parte Tupinambá [...] Tupinikim [...] Carijó [...] Guayaná [...] Nas Regiões de São Paulo e Rio de Janeiro, com o apoio dos Franceses fizeram aliança de guerra [...] liderados por Cunhambebe e Aimbêre [...] para combater escravização dos indígenas feitas pela família de João Ramalho...”14 “... semelhante audácia dos portugueses, reunida à idéia de que eles raptavam as virgens tamoias [...] promoveu uma verdadeira fúria tupinambá, arrastando legiões imensas de Ubatuba e São Sebastião contra Bertioga e as pequenas fortificações existentes [...] em conseqüência da fúria tamoia despenhada sobre a região, pela altura 10 CARVALHO, Silvia Maria S de. Jurupari: Estudos de Mitologia Brasileira. São Paulo: Ática, 1979. 11 RIBEIRO, Bento G. O Índio na história do Brasil. São Paulo: Global, 1986. 12 MAESTRI, Mario. Terra do Brasil: A Conquista Lusitana e o Genocídio Tupinambá. São Paulo: Moderna, 1993. 13 FERNANDES, Florestam. Organização Social dos Tupinambás. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963. 14 PREZIA, Benedito e Hoornaert Eduardo. Esta terra tinha dono. São Paulo: Cehila Popular CIMI FTD, 1944. 5
  6. 6. de 1557, quase todos os sitiantes e povoadores de Bertioga e Ilha de Santo Amaro15 haviam desertado, receosos de um possível e breve ataque em massa, pelos terríveis antropófagos...”16 Como é facilmente observável, a afirmação de que esta ou aquela tribo teria este ou aquele limite territorial se apresenta como muito complexa, bem como a afirmação de quais tribos eram consideradas tapuias, tamoios ou tupinambás. Logo, este trabalho não se propõe a um aprofundamento da questão, posto que a motivação do próprio não é a questão da territorialidade ou da classificação de grupos indígenas. Isto esclarecido, o termo tupinambá é empregado nesta monografia para designar o conjunto das tribos descritas sob este nome nos diversos trechos acima citados. Assim, estão compreendidos nesta categoria os grupos tribais tupi, que na época da colonização do Brasil entraram em contato com os brancos no Rio de Janeiro, São Paulo e na Bahia, e os grupos tribais tupi que depois povoaram o Maranhão, Paraíba e a Ilha dos Tupinambás. Esta população que ocupava a região antes da chegada do homem branco foi praticamente expulsa com o início da ocupação de Vicente de Carvalho por brancos, negros e mestiços, sendo esses mestiços, oriundos predominantemente da mistura indígena com os europeus, (em sua maioria portugueses), o grupo maior e mais difundido na área, e conhecido vulgar e cientificamente como Caiçara. A comunidade Caiçara segundo Antônio Carlos Diegues pode ser definida como... “Aquelas comunidades formadas pela mescla étnico-cultural de indígenas, de colonizadores portugueses e, em menor grau, de escravos africanos. Os caiçaras têm uma forma de vida baseada em atividades agrícolas de agricultura itinerante, da pequena pesca, do extrativismo vegetal e do artesanato. Essa cultura se desenvolveu principalmente nas áreas costeiras dos atuais Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e norte de Santa Catarina”.17 A mistura do elemento português com o índio deu origem a uma população extremamente peculiar. Os cabelos escuros e bem lisos, e uma tez clara e tostada pelo 15 Nome da Ilha na qual se localiza a cidade de Guarujá, e seu distrito Vicente de Carvalho, ou Itapema. 16 SANTOS, Francisco Martins dos. História de Santos. São Vicente: Caudex, 1937. V.1. 17 DIEGUES, Antonio Carlos S. & Arruda, Rinaldo S. V. Saberes tradicionais e biodiversidade no Brasil. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2001. 6
  7. 7. sol, utilizando práticas artesanais de pesca e caça, bem como de plantio, confeccionando eles próprios seus utensílios diários.18 Culturalmente essas comunidades assimilaram elementos dos vários grupos que as formaram e estruturaram para si, manifestações culturais extremamente originais. Autores como Antonio Carlos Diegues, afirmam que essas comunidades se formaram entre os grandes ciclos econômicos do período colonial e que foram ficando mais fortes na medida em que essas atividades voltadas para exportação entraram em declínio, pois sua decadência “... incentivou as atividades de pesca e coleta em ambientes aquáticos, sobretudo os de água salobra, como estuários e lagunas”.19 As sociedades formadas pelos caiçaras foram muito bem estruturadas, de forma simples, porém extremamente usual e prática. As funções bem divididas entre homens, mulheres, crianças e idosos, girando completamente em torno da pesca artesanal e da agricultura de subsistência. Enquanto a agricultura fornece os diversos vegetais utilizados na culinária, o pescado vai servir tanto para o consumo próprio como para o escambo e pequenas vendas com o intuito da obtenção de produtos que não poderiam ser facilmente plantados ou obtidos, como sal, feijão, açúcar, café, arroz, óleo, querosene (para iluminação), fósforos, tecidos, e alguns outros materiais.20 Os homens pescam, produzem suas ferramentas, são responsáveis pela construção de suas habitações, e por trabalhos mais pesados em seu entorno (construção comunitária de uma ponte, abertura de uma picada, poda de uma área para cultivo). As mulheres cuidam da casa, se preocupam com respeito à agricultura, e fazem coletas de mariscos, caranguejos, siris, e peixes através de linhadas21, auxiliadas nisso pelas crianças que fazem das atividades brincadeiras. Os idosos auxiliam tanto no preparo dos instrumentos da pesca (quando são homens), quanto na casa e nos afazeres domésticos (quando são mulheres).22 18 KARWINSK, Esther S. A. - Baronesa. O caiçara. Guarujá: Associação de Folclore e Artesanato, 1993. 19 Idem nota 15. 20 DIEGUES, Antonio Carlos S. & Arruda, Rinaldo S. V. Saberes tradicionais e biodiversidade no Brasil. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2001. KARWINSK, Esther S. A. - Baronesa. O caiçara. Guarujá: Associação de Folclore e Artesanato, 1993. 21 Forma de pesca onde se utiliza apenas a linha amarrada a um anzol e um chumbo. Essa linha é enrolada em uma garrafa de vidro pequena, segura-se a ponta, girando por sobre a cabeça e arremessando com força, enquanto se segura com a outra mão a garrafa com o gargalo apontado para a direção em que a linha foi jogada até o anzol mergulhar na água. Antes do advento da garrafa de vidro era costume a confecção de um instrumento de madeira roliço, para que a linha deslizasse quando arremessada. 22 KARWINSK, Esther S. A. - Baronesa. O caiçara. Guarujá: Associação de Folclore e Artesanato, 1993. Pesquisa de Campo. 7
  8. 8. Diversas manifestações populares são características das comunidades caiçaras, entre elas as quadrinhas (que tem acompanhamento de viola), pregões, cânticos religiosos, o pasquim, adivinhas, mais de trinta tipos diferentes de fandango, a Folia de Reis, e festas de padroeiras mais regionais.23 Até a década de 50 as comunidades caiçaras permaneceram praticamente intocadas. Porém, com o advento da implementação de meios de transportes mais avançados, rodovias, e mais particularmente, tratando-se da Baixada Santista, com o desenvolvimento do Porto de Santos, a explosão industrial do Pólo Petroquímico de Cubatão, e o boom imobiliário de fins da década de 60, essas populações, que viviam em um ritmo de vida completamente próprio, viram-se às voltas com um crescimento demográfico e de consumo que literalmente extinguiu algumas comunidades, descaracterizou outras, e colocou todas em risco de extinção. Os caiçaras que se estabeleceram em Conceiçãozinha, ainda em fins do século XIX, (segundo o depoimento de moradores publicado no jornal A Tribuna, no dia 14 de julho de 2002 “há indícios de ocupação da área desde 1898”24) tiveram em sua maior parte a origem de outros grupos caiçaras, e curiosamente não são em sua maioria nativos da região. Segundo Esther Karwinsky, “a influência do elemento português e indígena é marcante; os sulinos, de origem portuguesa, oriundos do Estado do Paraná, instalaram-se especialmente na Praia do Perequê, Santa Cruz dos Navegantes, Conceiçãozinha, e Praia do Tombo”.25 A incidência da população negra no Sítio Conceiçãozinha deu-se na mesma proporção que em outras áreas da ilha de Santo Amaro, “... podemos constatar, entre os habitantes da Ilha de Santo Amaro, pequeno índice de população negra. O africano, aqui trazido no século XIX por navios negreiros, não se fixou tradicionalmente na ilha: muitos negros que lotaram as fazendas locais emigraram para o interior do Estado após a abolição da escravatura. Não se tem notícia dos descendentes das levas que 26 aqui aportaram clandestinamente em princípios ou meados do século XIX...” . Ou seja, a incidência da população negra tanto na comunidade quanto no Guarujá como um todo não foi tão grande como em Santos, cidade notadamente com uma maior população negra desde seu início, com uma densidade bem maior, e com um cunho abolicionista considerável: 23 Idem. 24 Newton, morador da comunidade a cerca de 52 anos, liderança comunitária, teve seu pai nascido na comunidade em 1928. 25 Ibidem 26 Idem. Este idem é Newton ou a Baronesa 8
  9. 9. “... Quis mesmo o destino que a Santos coubesse, por intermédio de um santista ilustríssimo, a primeira prova pública de abolicionismo prático. José Bonifácio, em sua chácara dos Outeirinhos, libertava os seus escravos logo ao principio de 1820 [...] Durante a elaboração daquele monumento de fraternidade, de mentalidade e de cultura, parece ter-se inspirado o 'Patriarca’ no exemplo vivo de sua própria terra natal, pequena vila então, de 4700 habitantes, dos quais 2000 eram escravos e 2700 livres, e que sofria terrivelmente as conseqüências do mal combatido, pagando-o com a apresentação, rigorosamente demográfica de 1400 mestiços, mulatos, cafuzos e caribocas...”27. Francisco Martins dos Santos no capitulo XXIII, entre as páginas 213 e 240, do livro usado como referencia traça um panorama extremamente interessante sobre a questão da população negra em Santos. Por intermédio do trecho citado é visível a quantidade de mestiços e negros na cidade, e no desenrolar de sua analise, ele irá situar a ilha de Santo Amaro somente como área de passagem de escravos fugidos de fazendas paulistas, na região de Campinas, São Paulo, Vale do Rio Paraíba, de Santos e de Ubatuba para os grandes quilombos de Jurubatuba e Jaguareguava, nos quais, segundo o autor se agrupavam alguns milhares de negros. Francisco Martins afirma que alguns certamente se fixaram na ilha, porém a grande maioria tomou o caminho dos quilombos.28 O tempo, no Sítio Conceiçãozinha, como em tantas outras comunidades parece haver parado durante quase três séculos, (inicio do século XVII até fins do século XIX): vegetação intocada, poucas famílias, que se chegassem a uma dezena seria muito, predominantemente uma mistura de índios, negros, portugueses e mestiços da própria região. Na primeira metade do século XX começa a primeira onda migratória. Por intermédio de depoimento de moradores: “... há indícios de ocupação da área desde 1898...”29, nos é fornecida uma baliza para afirmarmos a ocupação e a configuração do local com o nome atual Sítio Conceiçãozinha, no mínimo, desde o inicio do século XX. 27 SANTOS, Francisco Martins dos. História de Santos. São Vicente: Caudex, 1937. V. 2. 28 Idem. 29 Jornal “A Tribuna”, no dia 14 de julho de 2002. 9
  10. 10. Quanto a uma prova documental, temos duas reportagens em jornais da região, que, se não são contemporâneas do inicio da ocupação, trazem referencias a instalação da Base Aérea de Santos, e segundo elas o nome Sítio Conceiçãozinha já seria utilizado para designar a região desde 1920: - “O barracão onde ficou o marco de fundação da Base de Aviação Naval do Sítio Conceiçãozinha em 1922 – (arquivo J. Múniz Jr.)”.30 - “A idéia da construção da Base Aérea em Guarujá surgiu em 1920 com o projeto do capitão-tenente Virginius De Lamare, famoso por suas proezas aéreas... sugeriu ao presidente do Estado, Altino Arantes que se construísse uma base no Litoral... Com uma planta da área, um terreno de 500 m de frente por 2.000 de fundos, na região conhecida como Sito Conceiçãozinha, o capitão seguiu para o palácio do Governo... Em outubro de 1922, De Lamare retornou a Ilha de Santo Amaro acompanhado do presidente do País, Epitácio Pessoa e de outras personalidades políticas da época para o lançamento da pedra fundamental da Base Aérea e a construção do ‘Barracão’, no Sítio Conceiçãozinha. As obras tiveram início na semana seguinte, com os primeiros estudos do solo. No início de 1923, constatou-se que o solo do Sítio Conceiçãozinha era excessivamente pantanoso... Procurando outra área encontrou-se a Vila Bocaina, 31 dando início ás obras em 1925”. Entretanto, os documentos mais antigos encontrados, que comprovam a existência da comunidade são: uma matéria no jornal A Tribuna, do dia 17 de janeiro de 1950, na página três, que trás os seguintes dizeres: “O Juvenil Santo Amaro preliou32 domingo passado com o Juvenil Conceiçãozinha, registrando-se dois 30 Jornal “Cidade de Santos”, p. três, do dia 23 de outubro de 1979. 31 Jornal “1a. Hora”, p. 4b na semana de 17 a 23 de Outubro de 2002. 32 Combate; como era chamado um jogo de futebol difícil na época. 10
  11. 11. empates, pela contagem de dois a dois em ambos os jogos”33; e sem dúvida o mais importante documento encontrado, que, não só vem dar respaldo aos depoimentos dos moradores mais antigos, como vem lançar uma dúvida na probabilidade da comunidade ter somente cerca de um século, é uma nota no jornal Cidade de Santos, do dia 31 de março de 1900,34 cujo conteúdo é o seguinte: “Foi encontrado nas proximidades de Conceiçãozinha o corpo do menino João Couto que se afogara no dia 26, perto do Itapema”. Este documento, até agora o mais antigo, trás a dúvida de que talvez antes mesmo de 1898, como atestam os moradores, houvesse já alguns moradores na área. Entretanto como comprovação documental do inicio da ocupação por moradores na área, tendo já configurado o nome atual temos somente esse recorte do jornal Cidade de Santos, de 1900. Aos elementos caiçaras dessa primeira onda migratória (a mais longa e com menor quantidade de migrantes), foram se juntar, nas décadas de 50, 60, 70 e 80, principalmente, grupos oriundos dos mais diversos estados do norte e nordeste brasileiro, e no caso especifico do Guarujá, encontramos uma predominância de migrantes vindos da Bahia, Paraíba e Sergipe, e em um recorte mais especifico ainda no Sítio Conceiçãozinha, a maior incidência seria de Baianos e Paraibanos.35 O Nome O nome do bairro Sítio Conceiçãozinha tem uma história que, com certeza deve ter muitas similaridades com diversos outros bairros. É sobre a sua origem de ordem religiosa. Porém muito mais producente seria a explicação da origem do nome pelas palavras de um dos mais antigos moradores vivos: “Então, Conceiçãozinha, a gente tem conhecimento, por parte dos nossos avós, do pessoal mais antigo, foi denominado pelos jeuítas, quando os jesuítas vieram pro sitio Conceiçãozinha. Segundo nossos avós, os caiçaras mais antigos, os jesuítas se 33 Arquivo da Hemeroteca de Santos. 34 Arquivo do Estado de São Paulo. 35 Pesquisa de campo realizada entre os dias 18/05/01 e 14/09/02. 11
  12. 12. instalaram na Conceiçãozinha por volta de 1898, então, nessa época, a Conceiçãozinha, segundo os nossos avós era com a determinação do seguinte: todos os locais que os jesuítas iam pra fundar uma localidade, os jesuítas colocavam Conceição disso, Conceição daquilo, por exemplo, Itanhaém, né? Itanhaém era chamado do que? Conceição de Itanhaém, conceição de Peruíbe, e assim por diante, Conceiçãozinha por ser um local mais pequeno, né? Menor de uma menor faixa e Conceição por causa da Conceição Imaculada de Lourdes ou de Fátima, que era a padroeira do povo, né? Na época dos indígenas, então Conceição de Itanhaém, justamente Conceição Imaculada, eles queriam ligar o seguinte, com a Conceição, com o Cristianismo, com a Conceição Imaculada de Lourdes, ou Conceição Imaculada de Fátima, então ligava a Conceiçãozinha pro ser uma região mais pequena, isso na época dos jesuítas, e ficou Conceiçãozinha até hoje, ficou Conceiçãozinha, em todo o lugar que for se conhece por Conceiçãozinha, mas a denominação poucas pessoas sabem, nós sabemos ainda porque tinha nossos avós”.36 Como nos relatos de outros moradores é facilmente perceptível a importância dada à oralidade, aos conhecimentos passados de geração a geração, ou seja um conhecimento histórico construído com base na tradição oral, típico das comunidades indígenas, o que nos permite afirmar a permanência de uma sociabilidade comunitária nesse bairro. Consciente ou inconscientemente, a história oral representa realmente um importante fator de resistência, de auto-afirmação enquanto comunidade. Os conhecimentos relatados por parentes mais antigos são anexados a história da comunidade. Contados para outros moradores são fixados como parte da história construída por eles, não necessitando ser realmente verdade para aqueles que de fora vejam a comunidade, contanto que seja por eles, enquanto grupo, assimilado como verdade.37 36 Idem nota 23. 37 O embasamento teórico para essas afirmações pode ser encontrado em: Walter BENJAMIN, “O narrador” Obras Escolhidas. Magia, e técnica, arte e política. São Paulo. Brasiliense, 1993; Alessandro 12
  13. 13. PORTELLI, “Sonhos, ucronias”,... Projeto História 15; Regina GUIMARÃES NETO, “Artes da memória”, Revista de Historia da Universidade Federal de Uberlândia. 13

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