Título: Solstício de Inverno.
Autor: ROSAMUNDE PILCHER.
Título original: Winter Solstice.
Dados da Edição: Difel, Difusão ...
Aquele tinha, exactamente, o tamanho ideal. Tamanho de cão.
Tinha o pêlo abundante e macio, parte do qual lhe caía sobre o...
do concelho, à volta da vila, e trabalhavam na fábrica de electrónica
que ficava na cidade vizinha. Era tudo muito trivial...
Ele replicou, com ar muito sério:
Não, trata-se do meu trabalho. Da minha vida. A seguir sorriu, o que
retirou toda a pomp...
a mão. Gloria Blundell. Muito gosto.
Possuía um rosto aberto e corado, uns olhos muito azuis e um cabelo
que, tal como o d...
Jardinagem? Golfe? Caridade?
Elfrida retraiu-se ligeiramente. Sabia reconhecer uma mulher impetuosa
quando alguma se lhe d...
com o seu vinho do Porto, sobretudo Gloria.
Não se admiraria de que Gloria, sentada numa das cabeceiras da mesa e
excedend...
respondia simplesmente, com grande autoridade, Inapoticum forgetanamia.
Resultava quase sempre.
Hei-de-me lembrar dessa.
L...
cheiro da erva. Espaço para crescer. Espaço para os coelhinhos, os
porquinhos-da-índia e o pónei.
Para mim disse Elfrida ,...
cão Horace comigo para me fazer companhia, tenho a minha pensão e ganho
uns dinheiros extra a fazer almofadas para uma cas...
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Francesca assim fez, abrindo o fecho e pendurando o agasalho na
saliência ao fundo do corrimão, onde ficou a pingar par...
um pónei. Franziu o nariz. Chama-se Príncipe, mas baba-se um bocado.
Agora é melhor ir. A minha mãe disse que tenho de o l...
uma ida ao teatro a Chichester. Passara o Natal com eles, assim como a
passagem do ano, e quando Elfrida deu a sua primeir...
frequente aparecer na Poulton's Row para brincar com Horace e ver
Elfrida na sua máquina da costura, aproveitando para faz...
desafinasse nas notas mais altas e acabasse por fazer uma triste
figura? Foi então que reparou no rosto de Gloria, cuja ex...
aparentemente, dar mostras de pressa.
Já não a vemos há dias. Como vai?
Oh, sobrevivendo. Um pouco farta deste tempo.
Pavo...
do portão da casa de Elfrida e desceram. Horace, liberto da sua trela,
correu alegremente pelo carreiro acima, seguido de ...
Oscar voltou a fixar a sua atenção no quadro. Ocupava pouco espaço,
pois tinha apenas cerca de vinte centímetros por quare...
Não tanto. Mas admito que fico surpreendido.
-Não acho minimamente surpreendente. Não tenho o hábito de estar sempre
a fal...
Senhora de posses.
Eu costumava passar as férias de Verão com ela, mas morreu tinha eu
dezasseis anos, de modo que nunca m...
para pagar o salário de um par de plantadores.
- É uma casa grande?
Nem por isso. Fica no meio da pequena vila. Em tempos,...
Finalmente, ficou tudo pronto. Os operários partiram, deixando atrás de
si uma casa de pedra pequena, bem posicionada e só...
Jimbo.
«Esse não é o seu nome verdadeiro, querido, mas aquele que eu lhe pus.
Nunca pensei que pudesse ser assim. Nunca im...
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fazendo cautelosamente a última curva antes de se voltar para Emblo.
Soube, instintivamente, que se tratava de Elfrida....
do pavimento. Jeffrey pousou a mala de Elfrida, abriu a porta e ela
entrou na cozinha. As duas crianças levantaram os olho...
Bem-hajas. Nesse caso é o que vou fazer.
E quanto a Horace? perguntou Jeffrey. Não tem de ser alimentado?
Sim, claro que s...
O banho soube-me divinalmente. Rejuvenescedor. Ben perguntou:
O que quer dizer rejuvenescedor?
Quer dizer tornar mais novo...
Vivem de quê? Das vossas galinhas? Jeffrey desatou a rir.
Seria difícil. No entanto, mantêm-nos ocupados e proporcionam-no...
Também elas vulgaríssimas. Simpáticas e amistosas. Acho que
poderá dizer que fui bem recebida. Em Londres é que eu não pod...
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  1. 1. Título: Solstício de Inverno. Autor: ROSAMUNDE PILCHER. Título original: Winter Solstice. Dados da Edição: Difel, Difusão Editorial, 2001. Género: romance. Digitalização e correcção: Dores Cunha. Estado da Obra: Corrigida. numeração de página: rodapé. Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor, este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente. ROSAMUNDE PILCHER SOLSTÍCIO DE INVERNO Tradução de MARIA LUISA SANTOS HDIFEL Difusão Editorial S A Título original Winter Solstice (c) 2000, Rosamunde Pilcher Licença editorial por cortesia do Circulo de Leitores Todos os direitos de publicação desta obra em língua portuguesa, excepto Brasil, reservados por DIFEL, Difusão Editorial SA DIFEL Difusão Editorial, S.A. Avenida das Tulipas, 40-C - Miraflores 1495-159 Algés - Portugal -Telefs 214123510 -Fax 214123519 - E-mail difel@difel-sa pt Capa Clementina Cabral Revisão Tipográfica Fernanda Alves Fotocomposição Fotocompográfica Impressão e acabamento Tilgrafica - Sociedade Gráfica SÁ Depósito legal n? 1699402001 ISBN 972-29-0554-6Outubro 2001 Proibida a reprodução total ou parcial sem a prévia autorização do Editor AGRADECIMENTOS No decorrer da escrita deste livro, houve alturas em que a minha falta de conhecimentos em determinadas áreas desencadeou em mim um bloqueamento sério. Daí que não possa deixar de agradecer a quantos me prodigalizaram o seu tempo e a sua sabedoria, ajudando-me a continuar. A Willie Thomson, que me pôs em contacto com James Sugden, da Johnston de Elgin, dando origem, deste modo, a todo o processo. A James Sugden, por partilhar comigo os seus vastos conhecimentos e experiência do mundo da indústria dos lanifícios. A David Tweedie, meu vizinho, pelo seu aconselhamento jurídico. A David Anstice, o dockman de Perthshire. Ao reverendo Dr. James Simpson, pelo seu interesse constante e sábia o ientação. Por fim, a Robin, que pagou uma dívida, arrancando a mãe de um buraco literário. Elfrida Elfrida Elfrida Phipps, antes de abandonar Londres para semPpre e ir viver para o campo, foi até ao canil de Batters sea e saiu de lá com uma companhia canina. Foi preciso uma boa meia hora e o coração dilacerado para o encontrar, mas mal o viu, sentado muito perto das grades da sua box, a olhar para cima com os seus enternecedores olhos escuros, percebeu que teria de ser aquele. Não queria um animal muito grande nem um cãozinho de regaço, irritadiço e nervoso.
  2. 2. Aquele tinha, exactamente, o tamanho ideal. Tamanho de cão. Tinha o pêlo abundante e macio, parte do qual lhe caía sobre os olhos e as orelhas, que conseguia levantar e baixar, e uma cauda que era uma pluma triunfante. A pelagem era às manchas irregulares de castanho e branco. As partes castanhas eram exactamente cor de café com leite. Quando quis inteirarse dos seus progenitores, a responsável do canil disse-lhe que achava que descendia de um cruzamento de collie com várias outras raças. Elfrida não se importou com o facto. Adorava a expressão que via no focinho meigo. Deixou um donativo para o canil de Battersea e depois meteu-se no seu velho carro com o novo companheiro, que foi sentado no lugar do passageiro a olhar pela janela com ar deliciado, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. No dia seguinte, levou-o a um salão de beleza para canídeos da sua zona, onde o tosquiaram, banharam e secaram. Voltou para ela fofo, lavadinho e a cheirar agradavelmente a limão. A sua reacção a toda esta atenção privilegiada saldou-se numa profusa demonstração de fidelidade, gratidão e dedicação. Era um cão tímido, até mesmo acanhado, porém, corajoso. Se tocavam à campainha ou ele se dava conta de algum intruso, ladrava furiosamente por instantes, mas depois retirava-se para o seu cesto ou para o colo de Elfrida. Elfrida precisou de algum tempo para se decidir pelo nome a dar-lhe; por fim baptizou-o de Horace. Elfrida, de cesto numa das mãos e a trela de Horace firmemente presa na outra, saiu de casa, fechou a porta atrás de si e, depois de percorrer o carreiro e passar o portão, seguiu pelo passeio, em direcção aos Correios e ao Armazém Geral. Estava-se numa melancólica e cinzenta tarde de meados de Outubro, onde nada de importante parecia acontecer. As árvores largavam as suas últimas folhas outonais; o vento era tão gélido que nem o jardineiro mais abnegado se atrevia a cirandar por ali; a rua estava deserta e as crianças ainda não tinham saído da escola. No alto, o céu mostrava-se carregado de nuvens baixas que passavam incessantemente sem, no entanto, o deixarem clarear. Caminhava com rapidez, com Horace a trotar relutantemente junto aos seus calcanhares, ciente de que era o seu exercício do dia e que não lhe restava alternativa senão aproveitá-lo o melhor possível. Elfrida fora viver para aquela aldeia, chamada Dibton, que ficava em Hampshire, dezoito meses antes, deixando Londres para sempre e organizando ali a sua nova vida. No início sentira-se algo solitária, mas naquele momento não se imaginava capaz de viver noutro sítio qualquer. De vez em quando, velhas amizades dos seus tempos no teatro realizavam a intrépida viagem da cidade até ali para passarem uns dias com ela, dormindo no divã cheio de protuberâncias do minúsculo quarto dos fundos, onde tinha a sua máquina de costura e ganhava uns trocos a fazer lindas e requintadas almofadas para uma loja de decoração de interiores na Sloane Street. Quando esses amigos voltavam a partir, sentiam necessidade de se certificar de que ela ficava bem: «Ficas bem, não ficas, Elfrida?», «Não te arrependeste? Não queres voltar para Londres? És feliz?», e ela conseguia tranquilizá-los respondendo-lhes: «Claro que estou. Este é o meu retiro geriátrico. Passarei aqui o crepúsculo dos meus anos.» De modo que, naquele momento, já se sentia completamente à vontade no seu novo ambiente. Sabia quem morava nesta casa ou naquela vivenda, as pessoas tratavam-na pelo seu nome. «Bons dias, Elfrida», ou «Lindo dia, Mistress Phipps.» Alguns dos habitantes eram famílias em que o dono da casa trabalhava em Londres e partia para a cidade no primeiro comboio rápido da manhã, regressando depois ao fim da tarde para pegar no seu carro e percorrer a curta distância até casa. Outros tinham vivido ali toda a vida, em pequenas casas de pedra herdadas de pais e avós. Outros, ainda, eram completamente novos na terra, moravam nas aldeias
  3. 3. do concelho, à volta da vila, e trabalhavam na fábrica de electrónica que ficava na cidade vizinha. Era tudo muito trivial e até descontraído, precisamente aquilo de que Elfrida necessitava. No caminho, passou em frente do pub, que fora remodelado e era agora conhecido por Cocheira de Dibton. Tinha letreiros em ferro forjado e um amplo espaço para estacionamento de automóveis. Mais adiante, passou pela igreja com os seus teixos, o portão coberto à entrada e o quadro cheio de papéis esvoaçantes com notícias da paróquia: um 10 concerto de guitarra, um passeio para um grupo de mães e crianças pequenas. No pátio da igreja, um homem acendia uma fogueira, e no ar pairava o cheiro adocicado das folhas a queimar. No alto, gralhas crocitavam. Num dos pilares do portão da igreja estava um gato sentado, mas, felizmente, Horace não deu por ele. A rua curvava na ponta, passando em frente da discreta vivenda do novo pastor, e a seguir aparecia a loja da vila, com bandeiras esvoaçantes a anunciar gelados e mostruários de jornais encostados à parede. À entrada estavam dois ou três jovens de bicicleta, e o carteiro, com a sua carrinha vermelha, esvaziava o marco do correio. A montra do estabelecimento tinha grades que impediam os vândalos de partir os vidros e de roubar as latas de biscoitos e os arranjos de feijões cozidos que Mrs. Jennings considerava uma decoração requintada. Elfrida pousou o seu cesto, amarrou a ponta da trela a uma das barras de ferro e Horace sentou-se, resignado. Detestava que o deixassem na rua, à mercê da rapaziada escarninha, mas Mrs. Jennings não gostava de cães no seu estabelecimento. Dizia que alçavam a perna e faziam porcaria. O interior da loja, de tectos baixos, tinha muita luz e estava muito quente. Frigoríficos e arcas congeladoras zuniam, a iluminação era fornecida por fiadas de lâmpadas fosforescentes e o conjunto de expositores fora montado meses antes, um grande melhoramento que, segundo Mrs. Jennings, conferia à casa o estatuto de minimercado. Todas estas barreiras já não permitiam descortinar, à primeira vista, quem se encontrava na loja ou não, e só depois de Elfrida passar um expositor (Cafés e Chás Instantâneos) é que viu as costas conhecidas de alguém a pagar a sua conta junto da caixa registadora. Tratava-se de Oscar Blundell. Elfrida já não tinha idade para ficar com o coração aos pulos de emoção, mas gostava sempre muito de ver Oscar. Ele fora praticamente a primeira pessoa que conhecera quando fora viver para Dibton, pois, certo domingo de manhã, ao ir à igreja, o pastor viera falar com ela à entrada, depois da missa, com o cabelo todo no ar devido à fresca brisa primaveril e a batina branca a adejar que nem roupa estendida numa corda. Dirigira-lhe palavras gentis de acolhimento, fizera algumas referências superficiais sobre o fabrico de flores e o Instituto Feminino e depois, misericordiosamente, a sua atenção fora desviada. E aqui está o nosso organista, Oscar Blundell. Não é o organista habitual, sabe, mas uma esplêndida roda sobresselente em tempos de necessidade. Foi então que Elfrida se voltou e viu aproximar-se um homem que emergiu da obscuridade reinante no interior da igreja para o meio da luz do Sol. Reparou no rosto brando e divertido, nos olhos encapuçados, no cabelo que em tempos devia ter sido louro, mas se tornara completamente branco. Era tão alto como Elfrida, o que fugia ao habitual. 11 Esta era, normalmente, mais alta do que a maioria dos homens, com um metro e oitenta, e esguia como um caniço, no entanto olhou Oscar nos olhos e gostou do que viu. Como era domingo, vestia um fato de tweed com uma gravata a condizer, e ao trocarem um aperto de mão, o seu toque foi firmemente agradável. Elfrida observou: Acho formidável. Refiro-me ao facto de saber tocar órgão. É o seu passatempo?
  4. 4. Ele replicou, com ar muito sério: Não, trata-se do meu trabalho. Da minha vida. A seguir sorriu, o que retirou toda a pomposidade às suas palavras. Melhor dizendo, da minha profissão emendou. Um dia ou dois mais tarde, Elfrida recebeu um telefonema. Viva, daqui fala Gloria Blundell. Conheceu o meu marido neste último domingo, na igreja. O organista. Venha jantar connosco na terça-feira. Sabe onde moramos. Na Granja. A casa com torreões em tijoleira, ao fundo da vila. É muita gentileza sua. Adoraria. Que tal vão as mudanças? Lentas. Esplêndido. Então, até terça. Por volta das sete e meia. Muito obrigada. Mas o auscultador na outra ponta da linha já fora pousado. Ao que parecia, Mrs. Blundell era uma mulher que não tinha tempo a perder. A Granja era a maior casa de Dibton, cuja entrada era feita através de uns portões enormes e pretensiosos que se erguiam ao cimo de um caminho. Nada daquilo parecia condizer muito com Oscar Blundell, mas seria interessante ir, conhecer a sua mulher e a sua casa. Nunca se consegue saber exactamente como uma pessoa é sem a vermos no ambiente da sua própria casa, junto da sua mobília, dos seus livros e no seu estilo de vida. Terça-feira de manhã lavou o cabelo e aplicou-lhe a coloração mensal. A tonalidade tinha a designação oficial de louro-morango, embora às vezes ficasse mais para o laranja do que para o morango. Daquela vez calhara assim, porém Elfrida tinha coisas mais importantes com que se preocupar. As roupas levantavam algumas dificuldades. Acabou por optar por uma saia às flores que lhe ia até aos tornozelos e um casaco de malha de lã verde-lima, tricotado à mão. O efeito combinado do cabelo com as flores da saia e o casaco era razoavelmente vistoso, mas uma das melhores maneiras de Elfrida aumentar bastante a sua autoconfiança era parecer bizarra. Pôs-se a caminho, levando dez minutos a atravessar a vila, a entrar pelos portões pretensiosos e a subir o caminho que conduzia à casa. Daquela vez estava mesmo em cima da hora. Como nunca ali estivera, em vez de abrir a porta da frente, entrar pela casa dentro e chamar 12 "Hu-hu», como fazia normalmente, procurou a campainha e premiu-a. Ouviu-a soar ao fundo da casa. Aguardou, olhando para os relvados em volta, tão impecavelmente cuidados que parecia que tinham acabado de ser aparados. No ar pairava o odor a relva recém-cortada e a fragrância húmida do refrescante crepúsculo primaveril. Passos. A porta abriu-se. Apareceu uma senhora trajada de azul e avental branco, não se tratando, claramente, da dona da casa. Boas noites. É Mistress Phipps, não é verdade? Faça favor de entrar, Mistress Blundell não demorará, foi só lá acima compor o cabelo. Sou a primeira? Sim, mas fez muito bem em vir cedo. Os outros não tardarão a chegar. Quer que guarde o seu casaco? Não, por enquanto fico com ele, obrigada. Não vale a pena explicar que a blusa de seda azul, que levava debaixo do casaco de malha, tinha um buraquinho na parte inferior de uma das mangas. A sala de estar... Entretanto, foram interrompidas. A senhora é que é Elfrida Phipps... Desculpe não ter ido recebê-la... Elfrida olhou para cima e viu a sua anfitriã descer umas escadas amplas que partiam de um patamar com balaustrada. Era uma mulher alta e bem constituída; vestia calças de seda pretas e um casaco chinês bordado. Empunhava um copo de vidro semicheio do que parecia ser uísque e água gasosa. Atrasei-me um pouco e depois recebi um telefonema. Como está? estendeulhe
  5. 5. a mão. Gloria Blundell. Muito gosto. Possuía um rosto aberto e corado, uns olhos muito azuis e um cabelo que, tal como o de Elfrida, parecia ter levado uma coloração, embora apenas numa tonalidade de louro mais discreta. Foi muita gentileza sua convidar-me. Venha para junto da lareira. Obrigada, Mistress Muswell, conto que os outros não batam à porta e entrem. Por aqui... Elfrida seguiu-a até uma ampla sala de estar, quase toda apainelada ao estilo dos anos trinta e com uma enorme lareira em tijoleira onde ardiam toros de madeira. Em frente desta havia um guarda-fogo forrado a cabedal, material com que se encontravam estofadas todas as cadeiras e sofás da sala. Os cortinados eram em veludo cor de ameixa, debruados a dourado, e o chão apresentava-se alcatifado e com espessos tapetes persas, ricamente coloridos, espalhados em vários pontos. Nada parecia velho, gasto ou debotado, tudo deixava transparecer um agradável ar de conforto masculino. Mora cá há muito tempo? perguntou Elfrida, tentando não parecer demasiado inquiridora. 13 Cinco anos. A casa foi-me deixada por um velho tio. Sempre a adorei, costumava vir cá em criança. Pousou o copo em cima de uma mesinha próxima e foi colocar mais um toro enorme na fogueira. Nem imagina o estado em que a encontrei, tudo no fio e comido pelas traças, o que me obrigou a remodelar praticamente de alto a baixo. Também fiz uma cozinha nova e mais um par de casas de banho. Onde é que morava anteriormente? Oh, em Londres. Tínhamos uma casa em Elm Park Gardens. Pegou de novo no seu copo, tomou um bom gole e voltou a pousá-lo. Sorriu. É a minha bebida de aperitivo. Preciso sempre de um pequeno empurrão antes das refeições. Deseja beber alguma coisa? Um xerez? Gim com água tónica? Sim, era um óptimo sítio para viver, e a casa era maravilhosamente espaçosa. Além disso, a igreja onde Oscar era organista, a de Saint Biddulph, ficava apenas a dez minutos de distância. Acho que teríamos ficado lá para sempre, mas o meu velho tio solteirão foi levado, como eles dizem, e a Granja ficou para mim. Temos uma filha, chama-se Francesca, que tem agora onze anos. Sempre achei melhor criar uma criança no campo. Não sei o que Oscar anda a fazer, ficou de servir as bebidas. Provavelmente esqueceu-se do jantar e pôs-se a ler. Queremos apresentar-lhe outros convidados, os McGearey. Ele trabalha na City. E também Joan e Tommy Mills. Tommy é consultor no nosso hospital, em Pedbury. Desculpe, disse xerez ou gim tónico? Elfrida pediu gin tónico e observou Gloria Blundell a preparar-lhe um numa mesa bem fornecida ao fundo da sala. Aproveitou para voltar a encher o seu copo com uma boa porção de uísque. Ao voltar para junto de Elfrida, disse: Faça favor. Espero que esteja suficientemente forte. Deseja gelo? Agora sente-se, esteja à vontade e fale-me da sua casinha. Bem... é pequena. Gloria riu-se. Fica na Poulton's Row, não é? Essas casas foram construídas para o pessoal dos caminhos-de-ferro. São tremendamente acanhadas, não são? Nem por isso. Não tenho muita mobília e Horace e eu ocupamos pouco espaço. Horace é o meu cão. Um rafeiro sem grande graça. Eu tenho dois pequineses, que são bonitos, mas mordem nos hóspedes, por isso estão fechados na cozinha com Mistress Muswell. Que foi que a fez vir para Dibton? Vi o anúncio da casa no The Sunday Times. Tinha fotografia e parecia um amor. E não era demasiado cara. Hei-de ir conhecê-la. Já não entro numa delas desde miúda, quando costumava visitar a viúva de um antigo cabineiro de comboio. E em que se ocupa? Como? 14
  6. 6. Jardinagem? Golfe? Caridade? Elfrida retraiu-se ligeiramente. Sabia reconhecer uma mulher impetuosa quando alguma se lhe deparava. - Estou a tentar dar um jeito ao jardim, mas até agora tem sido praticamente só tirar-lhe o lixo. Monta? Nunca na vida montei a cavalo. Bem, eu fi-lo quando os meus rapazes eram pequenos, mas isso já foi há muito tempo. Francesca tem um pónei, mas acho que não tem muito jeito. Também tem rapazes? Oh, sim. Ambos crescidos e já casados. Mas...? Sabe, já fui casada antes. Oscar é o meu segundo marido. Desculpe, não fazia ideia. Não tem nada que pedir desculpa. O meu filho Giles trabalha em Bristol e Crawford tem um emprego na City. Em computadores ou coisa do género, não percebo nada do assunto. Claro, conhecíamos Oscar há anos. Frequentávamos Saint Biddulph, na Raleigh Square; era a nossa igreja. Tocou divinalmente no funeral do meu marido. Quando nos casámos, deixámos todos estupefactos. «Um solteirão tão empedernido», diziam. «Faz ideia no que se vai meter?» Elfrida estava a achar tudo maravilhosamente interessante. Oscar foi sempre músico? perguntou. Sempre. Estudou no coro da Abadia de Westminster, depois foi dar aulas de música no Glastonbury College. Foi maestro de coro e organista lá durante muitos anos. Depois reformou-se do ensino, mudou-se para Londres e arranjou trabalho em Saint Biddulph. Teria ficado por lá até ao fim dos seus dias, mas, entretanto, o meu tio morreu e quis o destino que as coisas mudassem. Elfrida sentiu uma certa pena de Oscar. Ele não se importou de dizer adeus a Londres? Foi um pouco como arrancar uma velha árvore pelas suas raízes. Mas alinhou corajosamente, para bem de Francesca. No entanto, dispõe de uma sala de música pessoal, onde tem os seus livros e partituras, e dá umas aulas para não perder a prática. A música é a sua vida. Sempre que há uma emergência e lhe pedem que toque na missa da manhã na igreja de Dibton, adora. E como não podia deixar de ser, está sempre a escapulirse até lá para praticar tranquilamente. Atrás de Gloria, a porta que deitava para o corredor abrira-se silenciosamente. Como esta estava a falar, só deu por isso ao reparar que a atenção de Elfrida se desviara, de modo que se virou para trás, na sua poltrona. Ora até que enfim, meu caro, estávamos precisamente a falar de ti. 15 Os outros convidados começaram a chegar na mesma altura e ao mesmo tempo, entrando e enchendo a casa com o som das suas vozes. Os Blundell foram recebê-los e, por um momento, Elfrida ficou sozinha. Apeteceu-lhe voltar para casa naquele momento e passar um serão solitário a reflectir sobre tudo o que ficara a saber, mas, claro, que tal não teria sido possível. Ainda não tivera tempo para pôr a triste ideia de parte já os convidados entravam todos na sala de estar e o jantar seguia o seu curso. Foi uma noite formal, pródiga e tradicional, com uma comida excelente e um vinho esplêndido. Deleitaram-se com salmão fumado e uma coroa de borrego lindamente apresentada, a sobremesa era composta por três pudins acompanhados de chantilly firme servido em taças e, para finalizar, um magnífico stilton cremoso e raiado de azul. Quando passaram o vinho do Porto de mão em mão, Elfrida reparou, algo divertida, que as senhoras não saíam da sala e ficavam, sim, junto dos homens, e embora ela já estivesse a água, da qual se servira de um jarro em vidro trabalhado, reparou que as outras mulheres se deliciavam
  7. 7. com o seu vinho do Porto, sobretudo Gloria. Não se admiraria de que Gloria, sentada numa das cabeceiras da mesa e excedendo-se ligeiramente na ingestão de álcool, quando chegasse a altura de se levantar da mesa, caísse redonda no meio do chão. No entanto, a sua anfitriã era de têmpera, pelo que, quando Mrs. Muswell enfiou a cabeça pela abertura da porta a anunciar que o café se encontrava servido na sala de estar, ela conduziu o grupo para fora da sala de jantar e pelo corredor em passada segura. Reuniram-se em frente da lareira, mas Elfrida, ao tirar a sua chávena de café do tabuleiro, reparou, através da janela sem cortinas, no céu de um azul-safíra intenso. Embora o dia de Primavera tivesse estado incerto, alternando aguaceiros com lampejos de sol, as nuvens haviam dispersado durante o jantar e no céu, por cima de uma faia em flor distante, brilhava uma estrela. A janela tinha um banco embutido por baixo, de modo que Elfrida foi sentar-se nele, com o pires e a chávena nas mãos, a olhar para as estrelas. A certa altura, Oscar aproximou-se dela. Está confortável? perguntou-lhe. Elfrida virou-se e olhou para ele. Andara o jantar todo tão ocupado a servir o vinho, a levantar os pratos e a distribuir os deliciosos pudins, que mal haviam falado. Sem dúvida. A noite está a ser muito agradável. E os seus narcisos não tardam a florir. Aprecia jardinagem? Tenho pouca experiência, mas este jardim parece especialmente convidativo. Quer ir dar uma volta por ele, para o conhecer? Ainda não escureceu completamente. 16 Elfrida olhou de relance para os outros que, instalados nas poltronas fundas em torno da lareira, se entretinham a conversar. Sim, gostaria muito, mas não será indelicado? De modo algum. Tirou-lhe a chávena da mão e foi colocá-la no tabuleiro. Elfrida e eu vamos dar uma volta pelo jardim. A esta hora? admirou-se Gloria. Está escuro e faz frio. Ainda não escureceu completamente. Daqui a dez minutos já cá estamos. Certo, mas vê se a pobre rapariga leva um casaco ... está muito frio e húmido. Não deixe que ele a entretenha muito tempo, minha querida... Não deixarei. Os outros voltaram ao tema em debate, que era o preço proibitivo da educação privada. Elfrida e Oscar saíram porta fora. Este, depois de a fechar silenciosamente atrás de si, pegou num casacão de cabedal forrado a lã de borrego que estava sobre uma cadeira. É de Gloria... pode levá-lo. Colocou-o suavemente nos ombros de Elfrida. A seguir, abriu a porta de entrada e ambos saíram para a friagem límpida daquela noite primaveril. Arbustos e sebes vislumbravam-se no meio do lusco-fusco e, sob os pés, sentia-se a relva molhada de orvalho. Começaram a andar. Ao fundo do relvado erguia-se um muro em tijolo onde se abria uma arcada com um imponente portão em ferro forjado. Oscar abriu-o e viram-se no meio de um espaçoso jardim murado, impecavelmente dividido em formas geométricas por sebes de buxo. Um quarto do espaço era preenchido por roseirais; os arbustos estavam podados e a terra fartamente adubada. Saltava à vista que, quando o Verão chegasse, a visão daquele espaço seria encantadora. Elfrida sentiu-se desajeitada diante de tanto profissionalismo. É tudo trabalho seu? Não. Eu planeio, mas tenho um jardineiro a trabalhar para mim. Não percebo muito de nomes de flores. Nunca tive um jardim a sério. A minha mãe também não tinha grande jeito para nomes. Se alguém lhe perguntava o nome de uma flor, e ela não fazia ideia de qual era,
  8. 8. respondia simplesmente, com grande autoridade, Inapoticum forgetanamia. Resultava quase sempre. Hei-de-me lembrar dessa. Lado a lado, percorreram o amplo piso coberto de cascalho. A certa altura, Oscar disse: Espero que não se tenha sentido demasiado isolada ao jantar. Receio bem que não passemos de uma espécie de grupo paroquial. - De maneira nenhuma. Apreciei cada instante. Sou muito boa ouvinte. 17 A vida provinciana é assim. Fervilha de intriga. Sente saudades de Londres? De vez em quando. Dos concertos, das óperas. Da minha igreja, Saint Biddulph. É uma pessoa religiosa? perguntou Elfrida impulsivamente, arrependendose quase logo a seguir. Demasiado cedo para uma pergunta tão pessoal. Oscar, porém, manteve-se impassível. Não sei, mas passei a vida toda mergulhado na música sacra, liturgias e magnificats da Igreja Anglicana. Além disso, sentir-me-ia pouco à vontade a viver num mundo onde não houvesse ninguém a quem agradecer. Refere-se às bênçãos, não? Precisamente. Compreendo, mas mesmo assim não sou minimamente religiosa. Naquele domingo só fui à igreja por me sentir um pouco isolada e precisar da companhia de outras pessoas. Não contava com tão linda música. E nunca ouvira aquele trecho do Te Deum. O órgão é novo, foi adquirido graças a inúmeras pequenas vendas particulares. Caminharam em silêncio durante algum tempo. A certa altura, Elfrida perguntou: Considera isso uma bênção? Refiro-me ao órgão novo. Oscar riu-se. A Elfrida faz lembrar um cãozinho em volta de um osso. Sim, claro que considero. Que mais? Oscar não respondeu imediatamente. Elfrida pensou na mulher dele; na casa muito confortável e luxuosa; na sala de música exclusiva; nos seus amigos; na segurança financeira evidente. Achou que seria interessante saber como é que Oscar acabara por casar com Gloria. Teria ele, depois de anos de vida de solteiro, de alunos, salários magros e salas de aulas poeirentas, visto assomar à sua frente o futuro vazio de uma velhice de homem só, enveredando então pelo caminho mais seguro, ou seja, a viúva rica e impetuosa, a anfitriã requintada, a boa amiga, a mãe competente? Ou, quem sabe, fora ela a dar o primeiro passo e a tomar a decisão? Talvez se tivessem, simplesmente, apaixonado um pelo outro. Fosse como fosse, parecia resultar. Fez-se silêncio entre ambos. Elfrida observou: Se preferir, não responda. Estava apenas a ver de que maneira poderia explicar. Casei tarde na vida e Gloria já tinha dois rapazes do anterior casamento. Por alguma razão, nunca me ocorrera ter um filho meu. Quando Francesca nasceu, fiquei espantado não só por ela estar ali, aquele ser humano minúsculo, mas também por ser tão linda. E dizer-me algo. Como se a 18 conhecesse desde sempre. Um milagre. Agora, tem onze anos e eu continuo atónito com a minha boa sorte. Está aqui em casa? Não, estuda num colégio interno. Amanhã à noite vou buscá-la para vir cá passar o fim de semana. Gostaria de a conhecer. Claro que sim. A perspectiva de a Elfrida vir a ficar encantada com ela agrada-me. Quando Gloria herdou este casarão, senti-me renitente em sair de Londres. Mas por Francesca deixei-me levar pela corrente e acabei por concordar. Aqui, dispõe de espaço e de liberdade. Árvores, o
  9. 9. cheiro da erva. Espaço para crescer. Espaço para os coelhinhos, os porquinhos-da-índia e o pónei. Para mim disse Elfrida , o que mais me encanta é o canto das aves pela manhã e a imensidão do céu. Creio que a Elfrida também fugiu de Londres, não foi? Sim. Era tempo. Custou? De certo modo. Passei lá toda a minha vida. Desde a saída da escola e de casa. Estava na RADA. Fiz teatro, sabe. Para grande desgosto dos meus pais. Mas não me importava que discordassem; na verdade, isso nunca me ralou. Actriz. Devia ter imaginado. E cantora, também. E dançarina. Revistas e grandes musicais americanos. Ficava sempre atrás no coro, por ser tremendamente alta. E depois, anos de representações quinzenais e alguns papéis na televisão. Nada de muito notório. Ainda trabalha? Nem pensar, já me deixei disso há anos. Casei com um actor, o pior erro que podia ter cometido por todas as razões do mundo. Depois, ele foi para a América e nunca mais deu notícias, de modo que eu conformei-me e fui trabalhando no que aparecia. A certa altura, voltei a casar, mas também não resultou. Acho que nunca soube escolher muito bem. O seu segundo marido também era actor? perguntou Oscar com voz divertida, precisamente como Elfrida desejava que fosse. Raramente falava dos ex-maridos, e a única maneira de tornar as desgraças suportáveis era rir delas. Oh, não, esse era um homem de negócios. Vendia forros de chão em vinil terrivelmente caro. Qualquer um pensaria que eu estava maravilhosamente segura e bem na vida, mas ele tinha aquela desagradável convicção vitoriana segundo a qual, se um homem proporciona alimento e casa a uma esposa, e ainda lhe dá uma espécie de subsídio para cuidar do lar, já cumpriu a sua parte do contrato conjugal. Bem disse Oscar , e porque não? É uma tradição assente, com séculos de existência Só que, antigamente chamava-se escravatura. 19 Ainda bem que compreende. Quando fiz sessenta anos foi o melhor dia da minha vida, porque passei a receber uma reforma e soube que podia entrar no posto de correio mais próximo e receber dinheiro sem ser em troca de trabalho. Nunca na vida me tinham dado algo de graça. Era como um mundo completamente novo. Teve filhos? Não, filhos, nunca. Ainda não falou do motivo que a fez mudar-se precisamente para esta aldeia. Precisava de novos ares. Um grande passo. Já escurecera por completo. Elfrida voltou-se e, ao olhar de novo para a casa, viu, através do arrendado do ferro forjado do portão, o brilho das janelas da sala de estar. Alguém correra as cortinas. Ainda não falei sobre isso. Nunca o contei a ninguém observou. Não é obrigada a contar-me. Talvez já tenha falado de mais. Se calhar bebi demasiado vinho ao jantar. Não creio. Havia um homem, muito especial, adorável, meigo, divertido e perfeito. Outro actor, embora dessa vez se tratasse de alguém com sucesso e fama, mas prefiro não dizer como se chamava. Vivemos juntos durante três anos na sua casinha em Barnes, até de repente lhe aparecer a doença de Parkinson e, dois anos depois, morrer. A casa pertencia-lhe. Tinha de me ir embora. Uma semana depois do funeral, vi o anúncio da casa na Poulton's Row. No The Sunday Times. Na semana a seguir, comprei-a. Tenho pouco dinheiro, mas não foi demasiado cara. Trouxe o meu querido
  10. 10. cão Horace comigo para me fazer companhia, tenho a minha pensão e ganho uns dinheiros extra a fazer almofadas para uma casa de decoração de interiores muito requintada, em Londres. Sempre gostei de costurar e é agradável trabalhar com materiais bonitos e caros; cada projecto é diferente. Parecia tudo muito trivial. Não sei porque me deu para lhe contar tudo isto. Não tem grande interesse. Acho fascinante. Não vejo razão para tal. Mas é muita delicadeza sua. Estava demasiado escuro para lhe poder ver o rosto ou ler-lhe a expressão dos olhos. Talvez seja melhor voltarmos para junto dos outros. Com certeza. Adoro o seu jardim. Obrigada. Um dia hei-de vê-lo à luz do dia. Era terça-feira. Na manhã do domingo seguinte, a chuva caiu - não naqueles chuviscos de Primavera, mas sim em aguaceiro contínuo, tamborilando contra os vidros das janelas da casa de Elfrida e escurecendo as divisões minúsculas ao ao ponto de a obrigar a ligar as luzes todas. Depois de pôr Horace a fazer o seu chichi matinal no jardim, preparou 20 um chá e levou-o para a cama consigo, decidida a passar uma manhã quente, confortável e ociosa a ler os jornais da véspera e a esforçarse por terminar as palavras-cruzadas. No entanto, pouco depois das onze, foi interrompida pelo toque da campainha da frente, um dispositivo de som estridente que uma corrente pendurada accionava. O barulho que fazia parecia um alarme de emergência, a anunciar um incêndio, e pregou um susto enorme a Elfrida. Horace, deitado aos pés da cama, sentou-se e deixou escapar dois latidos. Era o máximo que estava preparado para fazer em defesa da sua dona; a sua natureza cobarde não lhe permitia rosnar ou morder em intrusos. Atónita, mas não alarmada, Elfrida levantou-se da cama, vestiu o robe, apertou o cinto e desceu as escadas íngremes e estreitas. Estas iam dar à sala de estar e à porta da entrada, que deitava directamente para o minijardim da frente. Deparou com uma menina, de jeans, sapatos de ténis e com o anoraque gotejante. Como este não tinha capuz, a cabeça da criança estava molhada como a de um cão que tivesse acabado de desfrutar de um belo mergulho. O cabelo, arruivado, estava preso em tranças, e o rosto sardento apresentava-se avermelhado devido ao frio que reinava no exterior. Mistress Phipps? Usava um aparelho nos dentes. Sim? Sou Francesca Blundell. A minha mãe disse que está um dia horrível, por isso não gostaria de lá ir almoçar? Temos uma quantidade enorme de bifes e montes de... Mas eu só lá fui jantar! Ela disse que a senhora diria isso. É tremendamente gentil. Como podes ver, ainda não me vesti. Nem sequer ainda tinha pensado no almoço. Ela tencionava telefonar, mas depois eu disse que vinha de bicicleta. Vieste de bicicleta? Deixei-a no passeio. Não faz mal. Escapou, por um triz, ao duche de água que tombou de uma goteira excessivamente cheia. Acho melhor entrares sugeriu Elfrida , senão ainda te afogas. Oh, obrigada agradeceu Francesca, aceitando prontamente o convite e entrando. Horace, tendo ouvido vozes e concluído que não havia perigo, descia dignamente as escadas. Elfrida fechou a porta. Este é Horace. O meu cão. É um amor. Olá. Os pequineses da minha mãe ladram durante horas sempre que há visitas. Posso despir o anoraque? Com certeza, acho uma óptima ideia.
  11. 11. 21 Francesca assim fez, abrindo o fecho e pendurando o agasalho na saliência ao fundo do corrimão, onde ficou a pingar para o chão. Depois olhou em redor e disse: Sempre achei estas casinhas um amor, mas nunca entrara em nenhuma. Tinha os olhos grandes e acinzentados, sombreados por pestanas densas e louras. Quando a minha mãe me contou que estava a viver aqui, não descansei enquanto não vim ver como era. Por isso trouxe a bicicleta. Não se importa, pois não? Nem um pouco. Só receio é que esteja tudo um bocado desarrumado. Eu acho que está impecável. Claro que não estava. Estava, isso sim, atravancado e surrado, cheio de uma série de objectos pessoais que Elfrida trouxera consigo de Londres: o sofá torto, a pequena cadeira de braços vitoriana, o guarda-fogo de metal, a maltratada secretária, candeeiros de mesa, quadros sem valor e demasiados livros. Tencionava acender a lareira, pois está um dia muito cinzento, mas ainda não me dispus a isso. Queres uma chávena de chá, café ou qualquer outra bebida? Não, obrigada, acabei de beber uma Cola. Para onde dá aquela porta? Para a cozinha. Eu mostro-te. Elfrida foi à frente, abriu a porta de madeira, que estava no trinco, e escancarou-a. A sua cozinha não era maior do que uma cabina de navio. Aí, um pequeno Rayburn ardia continuamente, mantendo toda a casa aquecida, um armário de madeira estava empilhado de loiça, por baixo da janela havia um lava-louça de pedra e o espaço restante era preenchido por uma mesa e duas cadeiras de madeira. A seguir à janela havia uma porta pequena que dava para o quintal. A metade superior da mesma era formada por pequenos painéis de vidro que deixavam ver o pátio lajeado e o canteiro estreito que, até ali, era tudo o que Elfrida conseguira fazer em termos de canteiros de flores. Fetos abriam caminho por entre as lajes e uma madressilva trepara pela parede vizinha. Não se torna muito convidativo num dia como o de hoje, mas sempre dá para uma pessoa se sentar numa cadeira de descanso ao entardecer. Oh, mas eu adoro exclamou Francesca, olhando à sua volta com ar de quem percebe de questões domésticas. Não tem frigorífico. Nem máquina de lavar roupa. Nem arca congeladora. Não, não tenho arca congeladora, mas quanto ao frigorífico e à máquina de lavar roupa, tive de os deixar no barracão que fica ao fundo do quintal. E lavo a loiça toda no lava-louças, porque não há espaço para uma máquina. Acho que. se a minha mãe não tivesse máquina de lavar louça, morria. 22 Quando se vive sozinho, não custa muito. Adoro o seu serviço de louça. Azul e branco. É o meu preferido. Eu também gosto muito. As peças não condizem umas com as outras, mas compro-as à medida que as vou encontrando nas lojas de velharias. Agora são tantas que mal tenho onde guardá-las. O que há lá em cima? O mesmo. Duas divisões e uma casa de banho minúscula. A banheira é de tal maneira pequena que sou obrigada a ficar com as pernas penduradas para fora. Numa das divisões fiz o meu quarto e na outra, a minha sala de costura. Se recebo algum hóspede, tem de ficar a dormir ao pé da máquina da costura, dos bocados de tecido que por lá andam e dos livros de encomendas. O meu pai disse-me que faz almofadões. Acho que é tudo o que faz exactamente falta a uma pessoa. E um cão, claro. Como uma casa de bonecas. Tu tens alguma casa de bonecas? Sim, mas já não brincco com ela. Tenho animais. Um porquinho-da-índia chamado Happy, embora não esteja muito bem. Deve ter de ir ao veterinário. Está com peladas horríveis pelo corpo todo. E coelhos. E
  12. 12. um pónei. Franziu o nariz. Chama-se Príncipe, mas baba-se um bocado. Agora é melhor ir. A minha mãe disse que tenho de o levar a passear antes de almoço e isso leva montes de tempo, principalmente quando chove. Obrigada por me deixar ver a sua casa. Foi um prazer. Obrigada por me teres vindo trazer tão amável convite. Podemos contar consigo, não é verdade? Claro. Vai a pé? Não, levarei o meu carro por causa da chuva. E se quiseres saber onde ele fica, já te vou adiantando: na rua. É aquele velho Ford Fiesta azul? Exactamente. E velho é a palavra adequada. Mas não me importo, desde que as rodas andem e o motor pegue. Francesca sorriu ao ouvir a piada, mostrando, sem o menor embaraço, os dentes com o aparelho. Então, até logo disse. Pegou no seu anoraque, que ainda pingava, vestiu-o e tirou as tranças para fora. Elfrida abriu-lhe a porta. A minha mãe pediu para lá estar à uma menos um quarto. Lá estarei, e muito obrigada. Hei-de voltar prometeu Francesca. Elfrida ficou a vê-la atravessar o carreiro chapinhando nas poças, e atravessar o portão. Pouco depois, partia na sua bicicleta e dizia-lhe adeus com a mão, pedalando furiosamente pelo meio das poças de água, estrada fora, até desaparecer de vista. 23 Os melhores amigos de Elfrida eram Oscar, Gloria e Francesca. Através deles, conheceu outras pessoas. Não apenas os McGearey e os Mill, mas também os Foubister, que eram uma família antiga na terra, organizadores da festa anual de Verão da igreja no parque da sua incoerente casa georgiana. E também havia o comandante Burton-Jones, reformado, viúvo, imensamente diligente, que trabalhava no seu jardim imaculado, era presidente da Public Footpath Association e figura principal no coro da igreja. O comandante Burton-Jones (a quem tratavam por Bobby) dava pequenas festas requintadas e chamava cabina ao seu quarto. Depois havia os Dunn, ele um homem imensamente rico que comprara e reconvertera a velha reitoria numa maravilha de espaço e convivência, completada por uma sala de jogos e uma piscina coberta de água quente. Outros, mais humildes, foram entrando na sua vida um a um, à medida que Elfrida prosseguia as suas actividades diárias: Mrs. Jennings, que dirigia o minimercado e o Correio da vila; Mr. Hodgkins, que dava a volta pela vila uma vez por semana com a sua carrinha de venda de carnes, era uma fonte de confiança de novidades e mexericos, além de ter pontos de vista políticos muito firmes; Albert Meddows, que respondera ao anúncio por ela colocado no vidro da montra do minimercado de Mrs. Jennings, a pedir um jardineiro e tratou, sozinho, da desgraça em que se encontrava o jardim das traseiras de Elfrida. O pastor e a esposa convidaram-na para um jantar, no decurso do qual lhe sugeriram, mais uma vez, que se juntasse ao Instituto Feminino. Elfrida declinara amavelmente o convite não apreciava viagens de camioneta e nunca na vida fizera um frasco de compota , mas concordara em colaborar com a escola primária e acabou a produzir a pantomima que apresentavam todos os anos pelo Natal. Eram todos muito amáveis e acolhedores, porém Elfrida não os achava tão interessantes nem estimulantes como os Blundell. A hospitalidade de Gloria não tinha limites, e era raro decorrer uma semana sem que Elfrida fosse convidada para passar algum tempo na Granja, uma refeição requintada ou uma actividade fora de portas, como uma partida de ténis (Elfrida não jogava ténis mas adorava assistir), ou um piquenique. Também havia outras ocasiões em que se saía da terra: a corrida da Primavera numa aldeia vizinha, uma visita ao jardim do National Trust,
  13. 13. uma ida ao teatro a Chichester. Passara o Natal com eles, assim como a passagem do ano, e quando Elfrida deu a sua primeira festa para todos os novos amigos (depois de Albert Meddows ter ressuscitado o jardim, nivelado as lajes, podado a madressilva e pintado o barracão), foi Oscar quem providenciou todos os «bebes» e Gloria todos os «comes», que vieram da sua espaçosa cozinha. Apesar de tudo, existiam limites e reservas. Nem poderia ser de outro modo; se Elfrida não quisesse ser absorvida e ficar subjugada pelos Blundell. Gloria afigurara-se-lhe imediatamente uma mulher dominadora 24 com um traço, talvez, de crueldade no seu carácter, tão determinada estava em conseguir que as coisas corressem sempre ao seu jeito e Elfrida tinha plena consciência dos perigos decorrentes de tal situação. Saíra de Londres para construir uma vida para si só e sabia que seria facílimo uma mulher solteira, e de poucos proventos, deixarse ir (e possivelmente afogar-se) no rasto agitado da energia social de Gloria. Assim, Elfrida aprendera a, de vez em quando, recuar ligeiramente, preservar a sua independência, apresentar desculpas. Normalmente era algum excesso de trabalho, um compromisso já feito e ao qual não podia, de modo algum, fugir, com algum conhecimento que não fosse das relações de Gloria. De vez em quando, escapava aos limites de Dibton, metia Horace no banco de trás do seu carro e afastava-se o mais que podia campo fora, até alguma outra aldeia onde não a conhecessem e onde ela e Horace pudessem subir uma colina, na qual pastassem ovelhas, ou seguir pelo carreiro ao longo de alguma corrente escura e revolta e encontrar, no fim desta, um pub cheio de desconhecidos onde pudesse comer uma sanduíche e beber um café, e deleitar-se com a sua preciosa solidão. Era nessas ocasiões que, longe de Dibton e com a sua percepção afinada por um sentido de perspectiva, se tornava possível analisar o seu envolvimento com os Blundell e catalogar as suas conclusões de maneira impessoal e imparcial, como se fosse uma lista de compras. A primeira delas era a de que gostava imensamente de Oscar; talvez demasiado. Já passara, há muito, da idade do amor romântico, mas já não se poderia dizer o mesmo do companheirismo. Desde a primeira vez em que se tinham encontrado, em frente da igreja de Dibton, altura em que simpatizara imediatamente com ele, que começara a apreciar, cada vez mais, a sua companhia. O tempo só viera confirmar essa impressão. Mas o gelo era fino. Elfrida não era hipócrita nem senhora de padrões morais exageradamente elevados; na verdade, o homem que amara, com quem vivera durante tanto tempo e que já morrera, era casado com outra mulher. Elfrida, porém, nunca a conhecera e, quando se tinham encontrado, o casamento já andava pelas ruas da amargura, daí que nunca se tivesse deixado consumir pelo remorso. Por outro lado, o cenário que se apresentava não era, de modo algum, tão inocente, e Elfrida já o testemunhara em mais de uma ocasião: o da mulher só, viúva, divorciada ou desoladamente solitária por qualquer outra razão, que passava a ser protegida por uma amiga com cujo marido acabava por se envolver. Uma situação condenável que desaprovava fortemente. No entanto, no caso de Elfrida, tal não viria a acontecer. Sabia que era na sua consciência do perigo e no seu próprio bom-senso que encontraria a sua maior força. Em segundo lugar, Francesca, com onze anos de idade, era a filha que Elfrida, caso tivesse tido alguma, gostaria que fosse sua: imdependente, 25 sincera e totalmente franca, possuía, no entanto, um sentido do ridículo capaz de pôr Elfrida a rir a bandeiras despregadas, e uma imaginação alimentada pela leitura voraz de livros. Francesca ficava de tal maneira absorta nas suas leituras que bem podiam entrar no seu quarto, ligar a televisão ou manter uma discussão violenta que ela nem sequer levantava os olhos da página. Nas férias escolares, era
  14. 14. frequente aparecer na Poulton's Row para brincar com Horace e ver Elfrida na sua máquina da costura, aproveitando para fazer perguntas incontáveis sobre o seu passado teatral, que achava francamente fascinante. O seu relacionamento com o pai era inusitadamente intenso e carinhoso. Ele tinha idade para ser seu avô, mas o prazer que encontravam na companhia um do outro ultrapassava, de longe, o da relação normal entre pai e filha. No lado de lá da porta fechada da sala de música ouvia-se os dois a tocar em dueto ao piano, apontando erros entre si que desencadeavam não recriminações, mas sim muitas gargalhadas. Nos serões de Inverno, ele lia-lhe em voz alta, os dois aninhados no enorme sofá, e o afecto que a filha lhe tinha manifestava-se em frequentes abraços, nos bracinhos à volta do pescoço dele e dos beijinhos dados em cima da farta cabeleira branca. Quanto a Gloria, era uma mulher habituada a lidar com homens, mais chegada aos dois filhos adultos e casados do que à filha tardiamente concebida. Elfrida já tivera oportunidade de conhecer os dois rapazes, Giles e Crawford Bellamy, assim como as respectivas esposas, bonitinhas e bem vestidas. De vez em quando, apareciam na Granja para o fím-desemana ou vinham de carro de Londres para almoçar aos domingos. Embora não fossem gémeos, eram estranhamente parecidos, convencionais e convencidos. Elfrida tinha a impressão de que nenhum deles a aprovava, mas como também não gostava particularmente de nenhum dos dois, pouco se importava com o facto. Gloria mimava-os, o que era bem mais importante, e quando chegava a altura de partirem, levavam os portabagagens dos carros caros a abarrotar de legumes frescos e fruta da horta de Gloria, de onde esta ficava a acenar-lhes como qualquer mãe sentimental. Saltava à vista que, aos seus olhos, nenhum dos filhos poderia proceder mal, e Elfrida tinha a certeza de que, se ela não tivesse aprovado as respectivas esposas, tanto Daphne como Arabella teriam tido pouca duração. Francesca, no entanto, era de outra cepa. Profundamente ligada a Oscar, não se deixava influenciar, seguia os seus próprios interesses e achava a leitura e a música muito mais atractivas do que as gincanas locais do Pony Club. Ainda assim, nunca se rebelava nem amuava, cuidando do seu pequeno pónei rabugento com carinho, exercitando-o regularmente, cavalgando pelo recinto fechado, que Gloria mandara improvisar para actividades equestres, e dando grandes passeios com ele ao longo dos caminhos tranquilos à beira do pequeno rio. Oscar ia muitas vezes com a filha, montado numa velha bicicleta, relíquia dos seus tempos de mestre-escola. 26 Gloria deixava-os estar, se calhar, pensava Elfrida, porque a filha não era assim tão importante para si. Pelo menos não tão absorvente ou gratificante como o próprio estilo de vida agitado que levava, as suas festas, o seu círculo de amizades. Igualmente valiosa era a sua posição como mentora social; havia alturas em que fazia lembrar um organizador de caçadas, fazendo soar a sua trompa para chamar a atenção e açoitando os seus cães. Elfrida caíra em desgraça apenas uma vez. Foi durante uma noite de convívio em casa dos Foubister, um jantar de grande formalidade e estilo, à luz das velas, que fazia refulgir as pratas, e com um velho mordomo a servir à mesa. Terminada a refeição, passaram à sala de estar (deveras fria, pois a noite estava gélida) e Oscar pusera-se a tocar para eles no piano de cauda; depois de um estudo de Chopin, sugerira a Elfrida que cantasse. Elfrida ficou muito embaraçada e surpreendida. Não cantava há anos, protestou, a sua voz estava um horror... Mas o velho Sir Edwin Foubister também tentou persuadi-la. Por favor implorou , sempre gostei de uma voz bonita. Foi tão desarmante que deixou Elfrida hesitante. Afinal de contas, que importava que a sua voz tivesse perdido o timbre juvenil, ela
  15. 15. desafinasse nas notas mais altas e acabasse por fazer uma triste figura? Foi então que reparou no rosto de Gloria, cuja expressão mostrava a maior reprovação e assombro. Percebeu logo que Gloria não queria que ela cantasse. Não a queria ver-se destacar ao lado de Oscar e entreter o pequeno grupo. Não gostava de que os outros brilhassem, atraíssem as atenções, desviassem a conversa para longe dela. Foi uma percepção de total clareza e algo chocante, como se tivesse apanhado Gloria despida. Em circunstâncias diferentes, Elfrida talvez tivesse jogado pelo seguro, recusando delicadamente, apresentado desculpas. Mas jantara bem e bebera um vinho delicioso, de modo que, assim fortalecida, sentiu acender-se dentro de si uma pequena chama de altivez. Nunca antes se deixara intimidar e não era naquela altura da sua vida que iria permiti-lo. Portanto, sorriu perante o sobrolho franzido e ameaçador de Gloria e, virando a cabeça para o seu anfitrião, disse: Se é esse o seu desejo, terei muito gosto... Esplêndido agradeceu Sir Edwin, batendo palmas como uma criança. Que maravilha. Elfrida levantou-se então e foi até junto de Oscar, que a aguardava. Que vai cantar? Disse-lhe. Uma velha canção de Rodgers e Hart. Conhece? Claro. Um acorde ou dois para a introdução. Já lá ia muito tempo. Endireitou os ombros e encheu os pulmões . Bastou-me olhar-te uma vez, 27 Os anos haviam tornado a sua voz mais fina, mas ainda era capaz de aguentar as notas com segurança. Para que o meu coração parasse. Consumiu-a então imediatamente uma felicidade irracional que a fez sentir-se jovem de novo, ao lado de Oscar e, com ele, enchendo a sala com aquela música da sua juventude. Gloria mal lhe falou durante o resto da noite, mas ninguém se deu ao trabalho de tentar arrancá-la ao seu mau humor. Enquanto congratulavam Elfrida pela sua actuação, Gloria bebia o seu brande. Quando chegou a altura de se irem embora, Sir Edwin acompanhou-os até ao local impecavelmente coberto de cascalho, onde o imponente carro de Gloria estava estacionado. Elfrida deu-lhe as boas-noites e enfiou-se no banco de trás, mas foi Oscar quem se sentou ao volante, obrigando assim Gloria a sentar-se no banco do passageiro do seu próprio automóvel. A caminho de casa, Oscar perguntou à mulher: Que tal achaste a noite? Gloria limitou-se a responder: Estou com dores de cabeça. E ficou novamente calada. Elfrida pensou, «não admira», mas absteve-se prudentemente de o dizer em voz alta. E essa era, talvez, a verdade mais preocupante e triste de todas: Gloria Blundell, mulher empedernida e de estômago forte, bebia de mais. Nunca ficava incapacitada, jamais tinha ressacas. Mas bebia demasiado. E Oscar sabia. Oscar. Naquele momento estava ali, na loja de Mrs. Jennings, numa tarde cinzenta de Outubro, a comprar os seus jornais e uma lata de comida para cão. Vestia umas calças de bombazina, uma camisola grossa que parecia feita de tweed, e botas grossas, o que parecia indicar que estaria a tratar do seu jardim quando se lembrara de que precisava daquilo, tendo-se posto a caminho. Mrs. Jennings levantou a cabeça. Boas tardes, Mistress Phipps. Oscar, com as mãos cheias de trocos, virou-se e avistou-a. Boas tardes, Elfrida. Ela respondeu-lhe: Deve ter vindo a pé. Não vi o seu carro. Estacionei-o no outro lado da esquina. Acho que é tudo, Mistress Jennings. Oscar desviou-se para dar lugar a Elfrida, ali ficando sem,
  16. 16. aparentemente, dar mostras de pressa. Já não a vemos há dias. Como vai? Oh, sobrevivendo. Um pouco farta deste tempo. Pavoroso, não acha? intrometeu-se Mrs. Jennings. Gelado e húmido ao mesmo tempo. Que tem aí, Mistress Phipps? 28 Elfrida colocou o que trazia dentro do cesto em cima do balcão, para que Mrs. Jennings pudesse verificar os preços e anotá-los na sua conta. Um pão, meia dúzia de ovos, um pouco de toucinho fumado e de manteiga, duas latas de comida para cão e uma revista chamada Lares Maravilhosos. Quer que ponha na sua conta? Se fizer favor, deixei a minha bolsa em casa. Oscar reparou na revista. Tenciona fazer alguns melhoramentos domésticos? perguntou. Provavelmente não, mas acho terapêutico ler sobre as outras pessoas. Se calhar, porque sei que não terei de ir atrás dos outros. É um pouco como ouvir alguém a aparar a relva. Mrs. Jennings achou a ideia muito engraçada. O Jennings pôs o seu cortador de relva de parte já em Setembro. Detesta aparar a relva, lá isso detesta. Oscar ficou a ver Elfrida colocar as coisas dentro do seu cesto e depois propôs: Se quiser dou-lhe boleia até casa. Não me importo de andar a pé. Trouxe Horace comigo. Terei muito gosto em levá-lo também. Obrigado, Mistress Jennings, adeus. Adeusinho, Mister Blundell. Cumprimentos à esposa. Saíram juntos da loja. No exterior, via-se um grupo de jovens entretidos a conversar no passeio. Tinha-se-lhes juntado uma rapariga de aspecto duvidoso, a fumar, de cabelos muito negros e uma saia de cabedal que mal lhe chegava ao traseiro. A sua presença parecera galvanizar os rapazes, que se tinham lançado numa pantomima de escárnios, insultos e gargalhadas sem sentido. Horace, apanhado no meio daquele comportamento indecoroso, tinha um ar muito infeliz. Elfrida desprendeu a trela e ele abanou a cauda, aliviado. Os três deram a volta à esquina e percorreram a travessa onde Oscar deixara o carro. Elfrida sentou-se no banco do passageiro e Horace foi-se instalar entre as suas pernas, apoiando o focinho no seu colo. Quando Oscar se sentou ao volante, depois de fechar a porta e ligar o motor, ela observou: Nunca conto encontrar ninguém na loja, à tarde. As manhãs é que são destinadas aos contactos sociais. É quando se apanham todos os mexericos. Eu sei. Mas Gloria foi a Londres e eu esqueci-me dos jornais. Deu a volta com o carro e enveredou pela rua principal. As aulas diárias já tinham terminado, e os passeios mostravam-se apinhados de crianças cansadas, sujas e de mochilas escolares às costas, a caminho de casa. O homem no pátio da igreja fizera nova fogueira para queimar as folhas caídas e o fumo subia no ar parado e húmido. Quando é que Gloria foi a Londres? Ontem. Tem não sei que reunião. Acho que se relaciona com o 29 movimento Salvem as Crianças. Foi de comboio. Tenho de a ir esperar ao que chega às seis e meia da tarde. Gostaria de ir tomar uma chávena de chá comigo? Ou prefere voltar à sua jardinagem? Como é que sabe que tenho estado a tratar do jardim? Pistas deixadas. Intuição feminina. Lama nas suas botas. Oscar riu-se. Perfeitamente correcto, Mister Homes. Mas seria incapaz de recusar uma chávena de chá. Nada como isso para animar um jardineiro. Passaram em frente do pub e, pouco depois, chegavam à estrada que descia pelo declive e ia dar à linha de caminho-de-ferro e às pequenas vivendas que formavam a Poulton's Row. Oscar deteve o carro em frente
  17. 17. do portão da casa de Elfrida e desceram. Horace, liberto da sua trela, correu alegremente pelo carreiro acima, seguido de Elfrida, com o seu cesto das compras, e de Oscar. Elfrida abriu a porta. Nunca a fecha à chave? perguntou Oscar, atrás dela. Não para uma ida às compras à vila. Seja como for, não há nada para roubar. Entre e feche a porta. Foi até à cozinha e pousou o cesto em cima da mesa. Se não se importa, acenda a lareira. Um dia como este requer um pouco de consolo. Encheu a chaleira com água da torneira e colocou-a no fogão. Em seguida, despiu o casaco, que colocou nas costas de uma cadeira, e foi buscar umas peças de louça desirmanada. Canecas ou chávenas? Para os jardineiros, canecas. Tomamos o chá ao pé da lareira ou sentamo-nos aqui mesmo? Sinto-me muito mais feliz com os joelhos debaixo de uma mesa. Elfrida abriu então umas caixas de lata onde habitualmente guardava bolos, mas sem grande esperança. Duas estavam vazias, a terceira continha um pedaço de bolo de gengibre. Colocou-a em cima da mesa, juntamente com uma faca. Encontrou uma embalagem de leite no frigorífico e despejou-o dentro de uma leiteira de cerâmica amarela. Descobriu o açucareiro. Ouviam-se já, vindos da sala ao lado, os estalidos dos ramos a crepitar na lareira. Elfrida foi até ao umbral da porta e encostou-se a este, ficando a observar Oscar, que colocava, com alguma cautela, dois pedaços de carvão no topo da sua pequena pira. Dando-se conta da presença de Elfrida, endireitou-se e voltou-se para ela, sorrindo-lhe. Está a arder que é uma beleza. Feita com todos os requintes, com muitos gravetos. Precisa de toros para o Inverno? Se quiser deixo-lhe um carregamento deles. Onde é que os guardaria? Podíamos empilhá-los no jardim da frente, contra a parede. Seria uma maravilha, caso possa dispensar alguns. Temos mais do que o suficiente. Limpou o pó das mãos nas 30 calças e olhou em volta. Sabe, transformou isto num lugar encantador. Está uma confusão, eu sei. Falta de espaço. Os objectos que se possuem são um dilema, se são! Tornam-se parte de nós, e tenho dificuldade em me desfazer das coisas. Tenho por aí uma série de miudezas que carrego comigo há uma data de anos, já desde os meus vertiginosos tempos no palco. Eu era como um caracol com a concha às costas. Um xaile de seda ou umas bugigangas tornavam os desconfortáveis alojamentos da malta do teatro um pouco mais suportáveis. Gosto em especial dos seus cães de Staffordshire. Fizeram sempre parte da minha bagagem, embora não formem propriamente um par. E também do pequeno relógio de viagem. Esse também viajou muito. Realmente tem um ar bem usado. Estafado seria mais verdadeiro. Tenho-o há anos, foi-me deixado por um velho padrinho. Eu... eu tenho algo que talvez seja verdadeiramente valioso, que é aquele pequeno quadro além. Onde é que o arranjou? Foi-me oferecido por um actor. Participávamos os dois numa readaptação de Hay Fever, em Chichester, e no fim da série de espectáculos, pediume que eu ficasse com ele. Um presente de despedida. Descobrira-o numa loja de quinquilharias e não creio que lhe tivesse custado muito dinheiro, no entanto, estava entusiasmado porque tinha a certeza de que se tratava de um David Wilkie. Sir David Wilkie? admirou-se Oscar. Um bem precioso. Então porque foi que lho ofereceu? Elfrida, porém, não se deixou desconcertar. Quem sabe se para me agradecer por lhe ter cozido as peúgas?
  18. 18. Oscar voltou a fixar a sua atenção no quadro. Ocupava pouco espaço, pois tinha apenas cerca de vinte centímetros por quarenta, e retratava um casal idoso, vestido à século dezoito, sentado a uma mesa em cujo tampo se via uma enorme Bíblia forrada a cabedal. O fundo era sombrio, as roupas do homem escuras. A mulher, no entanto, usava um xaile amarelo-canário por cima de um vestido vermelho, e a touca branca amarrada por baixo do queixo era cheia de rufos e fitinhas. Eu diria que ela vestiu-se para alguma celebração, não acha? Sem dúvida. Elfrida, talvez devesse começar a deixar a porta de entrada fechada. É bem provável. Está no seguro? É o meu seguro. Para tempos de necessidade. Quando me vir pelas ruas com um par de sacos de plástico e Horace preso por um cordel, aí, e só aí, é que pensarei em vendê-lo. Uma prevenção contra a desgraça. Oscar sorriu e tirou os 31 óculos. Seja o que for. A maneira como reúne os seus objectos é que cria este todo agradável. Tenho a certeza de que não tem nada que não considere belo ou saiba que é útil. William Morris. E, talvez, a noção de bom gosto. O Oscar diz coisas extremamente bonitas. Nessa altura, a chaleira que Elfrida pusera ao lume começou a assobiar, o que significava que a água já fervia. Foi tirá-la do fogão, seguida por Oscar, que ficou a vê-la preparar o chá num bule castanho, que depois colocou em cima da mesa. Se gosta do chá bem forte, é melhor esperar um pouco mais. E se preferir limão em vez de leite, também há. Temos aqui um pedaço de bolo de gengibre envelhecido. Um banquete. Oscar puxou de uma cadeira e sentou-se, como que aliviado por descansar as pernas. Elfrida sentou-se igualmente à mesa, de frente para ele, atarefando-se a cortar o bolo de gengibre. Às tantas disse: Oscar, vou-me embora. Ele não respondeu mas ela, ao olhá-lo, reparou que a fitava com uma expressão de espanto horrorizado. Para sempre? perguntou-lhe a medo. Claro que para sempre não. O alívio foi evidente. Graças a Deus. Que susto me pregou! Eu nunca deixaria Dibton para sempre. Já lho disse. Tenciono passar o crepúsculo dos meus anos aqui. Mas é altura de tirar umas férias. Sente-se particularmente exausta? Não, mas o Outono costuma deprimir-me. É uma espécie de limbo entre o Verão e o Natal. Um tempo morto. Além disso, o meu próximo aniversário vem aí. Sessenta e dois. O que ainda é mais deprimente. É altura, portanto, de uma mudança. Muito sensato. Far-lhe-á bem. Posso saber para onde vai? Para a ponta mais afastada da Cornualha. Se uma pessoa espirra, corre o perigo de cair no Atlântico. Cornualha? Ficou atónito. Porquê a Cornualha? Porque tenho um primo a viver lá. Chama-se Jeffrey Sutton e tem exactamente menos dois anos que eu. Fomos sempre amigos. É uma daquelas pessoas simpáticas a quem podemos telefonar de repente e perguntar, «Posso ir aí passar uns dias?», e ter a certeza de que a resposta será positiva. E mais, ficará radiante. Portanto Horace e eu vamos até lá de carro. Oscar sacudiu a cabeça, algo desconcertado: Nunca a tinha ouvido falar em nenhum primo. Melhor dizendo, em nenhum parente. 32 Imaginava-me como fruto de uma imaculada concepção?
  19. 19. Não tanto. Mas admito que fico surpreendido. -Não acho minimamente surpreendente. Não tenho o hábito de estar sempre a falar da família. Elfrida resolveu então abrandar. Mas Jeffrey é uma pessoa especial e mantivemos sempre contacto. Tem mulher? Na verdade, teve duas. A primeira era uma chata. Chamava-se podie. Creio que ele ficou encantado com a beleza dela e o ar indefeso descobrindo depois, pobre homem, que se ligara à mulher mais preocupada consigo mesma que se possa imaginar. Além disso, era ociosa e completamente avessa às lides domésticas, e a maior parte do salário tão arduamente ganho por Jeffrey era para pagar a cozinheiras, mulheres da limpeza e pessoal do género, na esperança de conseguir criar as duas filhas. Que aconteceu ao casamento? perguntou Oscar, claramente fascinado. Foi durando, até, finalmente, as duas meninas crescerem, completarem a sua educação e começarem a ganhar, após o que ele afastou-se. Havia uma rapariga chamada Serena, muito mais nova que Jeffrey e um amor de pessoa. Era floricultora; tinha um pequeno negócio de arranjos florais para festas e cuidava dos canteiros de janela das outras pessoas. Ele conhecia-a há anos. Quando terminou o seu casamento, terminou também o seu trabalho, sacudiu a poeira londrina dos sapatos e mudou-se, na companhia de Serena, para o mais longe de Londres que conseguiu. Terminado o divórcio, que foi deveras litigioso, casou com Serena quase logo a seguir e iniciou nova família. Tiveram um rapaz e uma rapariga. Vivem quase sem capital, da criação de galinhas e da hospedagem a turistas de Verão. E viveram felizes para todo o sempre? Poderia dizer-se que assim foi. E quanto às filhas dele? Que foi que lhes aconteceu? Nunca mais soube nada delas. A mais velha chamava-se Nicola. Penso que casou com um homem qualquer e teve uma filha. Era tremendamente antipática, insatisfeita e sempre a queixar-se das injustiças da vida. Creio que tinha imensos ciúmes de Carrie. Que era a irmã. Precisamente. E uma querida. Herdou exactamente o feitio doce de Jeffrey. Aqui há uns dez anos, tive de fazer uma operação que é comum às mulheres, mas sobre a qual não me alargarei neste momento, Oscar, e ela foi cuidar de mim. Ficou um mês e meio. Nessa altura, eu estava sozinha e vivia num andar muito acanhado em Putney, no entanto, ela tomou conta de tudo e demo-nos às mil maravilhas. Elfrida ficou pensativa, fazendo contas de cabeça. Deve ter agora à volta de trinta anos. Como o tempo voa! Casou? 33 Não creio. Como disse, nunca mais soube delas. Na última vez que tive notícias, estava a trabalhar na Áustria para uma grande empresa de viagens. Sabe como é, a acompanhar excursões de esqui para turistas e a certificar-se de que ficam instalados no hotel certo. Ela sempre adorou esquiar. Seja como for, tenho a certeza de que está feliz. Creio que o seu chá já deve estar suficientemente forte. Deitou o chá na caneca (estava razoavelmente escuro) e deu-lhe uma fatia de bolo de gengibre a esfarelar-se. Portanto, como vê, tenho família, embora não especialmente chegada. Sorriu-lhe. E quanto a si? Tempo de confissão. Tem algum parente de quem se possa gabar? Oscar passou a mão pela cabeça. Não sei. Acho que tenho. Mas, tal como a Elfrida, não faço ideia por onde andarão ou o que farão. Conte. Bem. Deu uma dentada no bolo com ar pensativo. A minha mãe era escocesa. Que tal, para começar? Nada mal. Tinha uma casa enorme em Sutherland, algumas terras e uma quinta.
  20. 20. Senhora de posses. Eu costumava passar as férias de Verão com ela, mas morreu tinha eu dezasseis anos, de modo que nunca mais lá voltei. Como se chamava a herdade? Corrydale. Era imensamente grande? Não. Apenas imensamente confortável. Refeições copiosas, botas de borracha e canas de pescar por tudo o que era sítio. Odores agradáveis, a flores, cera de abelha e a galinha cozinhada. Hum, delicioso. De fazer crescer água na boca. Tenho a certeza de que era uma bem-aventurada. Isso não sei. Só sei que era a simplicidade em pessoa e extraordinariamente talentosa. Em que aspecto? Acho que no talento de viver. E na música. Era uma pianista exímia. De verdade. Penso que foi dela que herdei o pequeno dom que tenho, e também foi ela quem me ajudou a escolher a minha carreira. Em Corrydale havia sempre música. Fazia parte da minha vida. Que mais? Como? Que mais fazia? Mal me consigo lembrar. Caçava coelhos à tarde. Ia à pesca da truta. Jogava golfe. A minha avó adorava esse desporto e tentou fazer de mim um bom golfista, mas nunca lhe cheguei aos calcanhares. Depois. apareciam por lá umas pessoas e púnhamo-nos a jogar ténis e, se estivesse calor suficiente, o que era raro, ia de bicicleta até à 34 praia e atirava-me ao mar do Norte. Em Corrydale, fosse qual fosse a actividade, era sempre tudo muito relaxante. E divertido. Depois o que aconteceu? A minha avó morreu. Estava-se em guerra. O meu tio ficou com a propriedade e foi viver para lá. Deixou de o convidar para as férias de Verão? Esses tempos tinham chegado ao fim. Eu tinha dezasseis anos, andava metido na música, com exames. Outros interesses, outras pessoas. Uma vida diferente. Ele ainda lá vive? Refiro-me ao seu tio. Não, mudou-se para Londres. Agora vive numa mansão próxima do Albert Hall. Como é que se chama? Hector McLellan. Oh, esplêndido. Aposto em como anda de kílt e tem a barba ruiva. Já não. É muito velho. E Corrydale? Passou-a para as mãos de Hughie, o filho. Meu primo. Um sujeito imprestável, cujo único fito era viver à larga e em grande estilo. Encheu Corrydale de amigos degenerados que lhe beberam o uísque e levaram ao desespero os velhos e respeitáveis empregados que trabalhavam na casa e na propriedade há muitos anos. Redundou tudo num grande escândalo. Depois, Hughie achou que a vida a norte da fronteira não era para si e vendeu tudo, indo viver para Barbados. Tanto quanto sei ainda por lá anda, já vai na terceira mulher e leva a vida de um Rei. Elfrida sentiu inveja. Oh, ele parece uma pessoa mesmo fascinante. Não, fascinante não. Entediantemente previsível. Costumávamos aturarnos um ao outro, mas nunca fomos amigos. Portanto, foi tudo vendido e o Oscar nunca mais lá voltará? É muito pouco provável que o faça. Recostou-se e cruzou os braços. Para dizer a verdade, até poderia lá voltar. Quando a minha avó morreu, deixou uma casa a meias a Hughie e a mim. Mas há anos que lá está um casal a morar. Todos os trimestres chega uma pequena renda enviada pelo escritório do feitor. Penso que Hughie recebe o mesmo, embora mal dê
  21. 21. para pagar o salário de um par de plantadores. - É uma casa grande? Nem por isso. Fica no meio da pequena vila. Em tempos, era ocupada pelos serviços municipais, mas depois foi convertida em casa de habitação. Que excitante. Quem me dera ter uma casa na Escócia. Metade de uma casa. - Metade de uma casa e melhor do que casa nenhuma. Podia levar 35 Francesca a passar parte das férias lá. Para ser sincero, tal não me ocorreu sequer. Nunca me lembro daquele lugar. Imagino que, um dia, Hughie se ofereça para comprar a minha metade ou eu a dele. Não é algo com que me preocupe. E prefiro não precipitar nenhuma situação. Quanto menos tiver a ver com Hughie McLellan, melhor. Acho que está a ser terrivelmente fraco. Apenas tento ser discreto. E então, quando é que parte? Na próxima quinta-feira. Ficará por lá durante quanto tempo? Um mês. Envia-nos um postal? Claro. E avisa-nos assim que chegar? Imediatamente. Sentiremos saudades suas confessou Oscar, o que a enterneceu. A casa chamava-se Emblo. A sua fachada de granito ficava voltada para o vento norte e o Atlântico. Nesse lado, as janelas eram pequenas, poucas e fundas, com parapeitos suficientemente largos para albergar os vasos de gerânios, pedaços de madeira trazidos pelas ondas e conchas que Serena tanto adorava coleccionar. Em tempos, fizera parte da Quinta Emblo, uma próspera quinta dedicada à produção de leite, e servira de habitação ao respectivo encarregado; porém, este acabara por se reformar, depois morrera, a mecanização assenhoreou-se das ordenhas, os salários na agricultura subiram e o fazendeiro atenuara os prejuízos vendendo a pequena casa. Depois disso, pertencera a três donos diferentes e, na última vez, fora posta à venda precisamente na altura em que Jeffrey tomara a grande decisão de se afastar de Londres, de Dodie e do seu emprego. Viu o anúncio no The Times, meteu-se imediatamente no seu carro e guiou a noite toda para poder ver a casa antes de alguém ter a oportunidade de apresentar uma oferta por ela. Deparara com um casebre húmido, parcamente mobilado, para não mais do que uma estadia no Verão, afundado no meio de um jardim deixado ao abandono, onde plátanos raquíticos se inclinavam ao sabor dos ventos prevalecentes. Mas tinha uma vista para os penhascos e o mar e, no lado voltado para sul, uma faixa de relvado abrigada onde as glicínias trepavam pela parede e ainda florescia uma cameleira. Telefonara ao gerente do seu banco, obtivera um empréstimo e comprara o lugar. Quando ele e Serena se mudaram para lá, havia ninhos de aves na chaminé, o papel antigo pelava das paredes, e no ar pairava um cheiro intenso a mofo e bolor. Mas nada disso teve importância. Acamparam em sacos-cama e abriram uma garrafa de champanhe. Estavam juntos e no seu lar Isso passara-se dez anos antes. Tinham sido precisos dois anos 36 para pôr a casa habitável, envolvendo muito esforço físico, sujidade, destruição, dificuldades e uma sucessão de canalizadores, empreiteiros e pedreiros, que devassaram a casa com as suas botas de borracha enlameadas, ferveram inúmeras canecas de chá e perderam-se em intermináveis conversas sobre o sentido da vida. De vez em quando, Jeffrey e Serena exasperavam-se com a lentidão e a incerteza dos homens, mas era impossível resistir àqueles filósofos amadores que pareciam não ter pressa para nada, cientes de que o dia seguinte seria mais um dia.
  22. 22. Finalmente, ficou tudo pronto. Os operários partiram, deixando atrás de si uma casa de pedra pequena, bem posicionada e sólida, com cozinha e sala de estar em baixo e uma escada rangente que conduzia ao piso superior. Ao fundo da cozinha ressaltava o que antes fora uma área de lavagem de roupa, de piso lajeado e arejada, onde eram guardadas as capas da chuva e as botas e onde Serena tinha a sua máquina de lavar roupa e a sua arca congeladora. Dispunha ainda de uma enorme pia de barro, que Jeffrey encontrara abandonada numa vala. Restaurada, tinha muita utilidade para lavar ovos e cães cheios de lama, ou para os cestos de flores silvestres que Serena adorava colher para com eles fazer arranjos em vasos antigos. No andar de cima havia três quartos pintados de branco e com tectos inclinados, assim como uma pequena casa de banho, de cuja janela se tinha a melhor vista de toda a casa, deitando para sul sobre os campos da quinta, colina acima até à charneca. Não estavam isolados. A casa da quinta, com os seus edifícios exteriores em número considerável, erguia-se a não mais de um quilómetro de distância, portanto havia um movimento contínuo de tráfego para baixo e para cima ao longo do caminho que passava em frente do seu portão: tractores, camiões-cisterna de leite e automóveis, além da criançada que o autocarro da escola deixava ficar ao fundo da estrada, para depois seguirem a pé até suas casas. O fazendeiro tinha uma família de quatro elementos, e os seus filhos eram os melhores amigos de Ben e Amy. Juntos, andavam de bicicleta, iam às amoras e desciam os penhascos de mochila pendurada nos ombros frágeis para irem nadar e fazer piqueniques. Elfrida nunca visitara a casa nem eles, mas agora estava a chegar, e Jeffrey sentira ressurgir em si um sentimento há muito esquecido que identificou como entusiasmo. Elfrida. Ele tinha naquele momento cinquenta e oito anos e Elfrida...? Sessenta e um, sessenta e dois? Não importava. Em rapaz, sempre a tivera em grande conta por a achar temerosa e divertida. Na adolescência, aprisionado nas disciplinas obscuras do colégio interno, ela fora como uma luz na sua vida: gloriosamente atraente, admiravelmente rebelde, combatera a oposição dos pais para, finalmente, subir ao Palco e tornar-se actriz. Tanta determinação, coragem e força de 37 vontade tinham enchido Jeffrey de admiração e inabalável dedicação. Numa ou duas ocasiões, ela chegara mesmo a ir buscá-lo ao enfadonho colégio nas saídas de sábado ou domingo, e ele gabara-se um pouco dela diante dos seus amigos, fazendo-a esperar junto da espectral porta da frente, pseudogótica, pois queria que os outros a vissem ali, sentada no seu pequeno descapotável vermelho, de óculos escuros, o cabelo cor de ananás displicentemente preso com um lenço de chiffon. «Minha prima. Está a fazer uma peça de teatro. Em Londres», dizia ele com admirável indiferença, como se fosse algo que acontecesse a qualquer pessoa todos os dias. «Trouxeram-na de Nova Iorque.» Quando, por fim, saía ao seu encontro, pedia desculpa pelo atraso, subia para o assento minúsculo ao lado dela e arrancavam com um troar impressionante do motor, no meio de uma chuva de gravilha. Logo que regressava ao colégio, não se continha de disfarçado orgulho: «Oh, fomos só até à Roadhouse, demos um mergulho na piscina e depois comemos.» Tinha um orgulho enorme nela e estava até um pouco apaixonado. Mas o tempo passou, eles cresceram, perderam o contacto e cada um seguiu a sua vida. Elfrida casou com um actor qualquer, a relação não deu certo e separaram-se, depois voltou a desposar um sujeito de mau carácter até, finalmente, acabar por se juntar ao seu bem-amado de eleição. Tudo parecia apontar para uma felicidade duradoura quando a união foi atingida pela tragédia, pois o aparecimento da doença de Parkinson no companheiro acabou por redundar na sua morte. Jeffrey vira Elfrida pela última vez em Londres, pouco depois da prima ter encontrado aquele homem excepcional, a quem tratava sempre por
  23. 23. Jimbo. «Esse não é o seu nome verdadeiro, querido, mas aquele que eu lhe pus. Nunca pensei que pudesse ser assim. Nunca imaginei que fosse possível ser tão diferente de uma pessoa e, no entanto, estar-lhe tão próxima. Ele é tudo aquilo que eu nunca fui e, contudo, amo-o mais do que qualquer pessoa ou algo que já tenha conhecido.» E quanto à tua carreira?», perguntara-lhe Jeffrey. «Oh, a minha carreira que se dane», respondera-lhe Elfrida, deitando a rir. Nunca a vira tão feliz, tão bonita, tão completamente realizada. O seu próprio casamento, a correr muito mal, começava a desfazer-se, porém Elfrida estava sempre ali, no outro lado da linha telefónica, a ligar para ele, pronta a prodigalizar-lhe todo o tipo de conselhos, uns bons, outros maus, mas, o que importava acima de tudo, infinitamente solidários. Certa vez, levara Serena a conhecê-la, e ela ligara-lhe na manhã seguinte a dizer: «Jeffrey, ela é um amor... Acaba com as tristezas e concentra-te nela.» «E as minhas filhas?» «Já são crescidas e capazes de se manter a si próprias. Tens de pensar em ti. Põe os pés à parede. Não te deixes amedrontar. O tempo voa e só há uma vida.» 38 «E Dodie?» «Ela que se desenvencilhe. Há-de arrancar-te uma boa pensão. Não abandonará os seus confortos terrenos. Ela que fique com tudo, mas tu vai-te embora e sê feliz.» Vai-te embora e sê feliz. Ele assim fizera. Eram cinco horas de uma tarde de Outubro cinzenta. O vento estava a levantar-se. Ele tratara das galinhas, apanhara os ovos, fechara as cacarejantes criaturas nos seus pequenos galinheiros de madeira domésticos. Começava a ficar escuro. Serena acendera as luzes dentro de Emblo e as pequenas janelas brilhavam no meio dos derradeiros fulgores do dia. Era quinta-feira, o dia em que o contentor do lixo sobre rodas tinha de ser levado até junto do caminho, para que o carro do lixo, que vinha fazer a recolha semanal, o esvaziasse de manhã bem cedo. Do mar começara a soprar um vento que trazia um cheiro e um sabor a maresia. A sua força fazia abanar os aglomerados de tojo, sussurrando por entre a folhagem do topo. Jeffrey podia ouvir, sobrepondo-se àquele murmúrio, o barulho da água do riacho a correr colina abaixo e ao longo da beira do caminho. Como estava frio, foi a casa buscar um casaco. Serena mexia o conteúdo de algo que estava ao lume, enquanto as crianças se atarefavam com os seus trabalhos de casa na mesa da cozinha. Ele disse: Vou levar o contentor do lixo. Ah, homem esperto em se ter lembrado. Volto daqui a cinco minutos. Fico à espera de Elfrida. Jeffrey levou o contentor pelo caminho cheio de sulcos abaixo e acomodou-o no seu sítio habitual. No outro lado da estrada havia outro portão de madeira, que deitava para o campo de um outro fazendeiro, e Jeffrey foi encostar-se a ele como qualquer camponês idoso. Apalpou os bolsos à procura dos cigarros, puxou de um e acendeu-o com o seu velho isqueiro de aço inoxidável. O dia ia morrendo. Viu o céu escurecer, enevoado. O mar estava cor de ardósia, salpicado de espuma. A noite iria ser tempestuosa. Ao fundo dos penhascos a rebentação estrondeava, e ele sentia a humidade da névoa marinha no rosto. O meu quarto é uma cabina de vidro transparente, Toda a Cornualha troveja à minha porta, E os barcos brancos de Inverno jazem, Nas estradas marítimas da charneca. Ficou até terminar o cigarro, depois deitou fora a beata, regressando a casa. Foi então que viu uns faróis aproximarem-se, vindos de leste, aparecendo e desaparecendo ao sabor das curvas da estrada. Encostou-se ao portão e aguardou. Pouco depois surgiu um velho Fiesta azul,
  24. 24. 39 fazendo cautelosamente a última curva antes de se voltar para Emblo. Soube, instintivamente, que se tratava de Elfrida. Colocou-se no meio do caminho a acenar com os braços e o carro parou. Abriu a porta e sentou-se ao lado da prima. Sentiu o perfume conhecido, a essência que esta sempre usara, que sempre lhe associara. Não podes estacionar aqui, é a estrada principal. Serias abalroada por um tractor ou por um autocarro com turistas alemães. Entra pelo terreno avisou-a. Elfrida assim fez, voltando depois a parar. Cumprimentou-o: Olá. Conseguiste. Em cinco horas. Encontraste o caminho? Graças ao elucidativo mapa que me desenhaste. Quem vem ali atrás? Horace, o meu cão. Avisei-te que tinha de o trazer. Que bom é estares aqui. Estava sempre à espera de um telefonema teu a dizeres que tinhas mudado de ideias. Jamais o faria respondeu-lhe Elfrida. Depois tornou-se prática: Aquele é que é o carreiro que leva até à frente da tua casa? É. Terrivelmente estreito, querido. Tem largura suficiente. Então, vamos a isso. Jeffrey riu-se. Em frente. Elfrida meteu a primeira e começaram a subir, sacolejando, a estreita passagem que ia até à porta da casa. Que tal foi a viagem? quis saber Jeffrey. Excelente. Estava um bocado nervosa, há anos que não fazia um percurso tão longo. Atrapalho-me um pouco com as auto-estradas desconhecidas e os camiões trovejantes. Este carro não é propriamente um Ferrari. Não precisas de mais. Ao aproximarem-se da casinha, a luz de fora acendeu-se. Iluminava um espaço aberto defronte de uma parede alta de granito. O caminho continuava até à quinta que ficava à distância, mas Jeffrey disse-lhe que estacionasse e Elfrida assim fez. Apareceram imediatamente dois cães-pastor, vindos não sabia de onde, que se lançaram na direcção deles a ladrar desalmadamente. Não tenhas receio sossegou-a Jeffrey - são meus. Tarhnv e Findus, e não mordem. 40 Nem mesmo a Horace! Muito menos a Horace. Saíram do carro e deixaram Horace à solta. Gerou-se a confusão que era de esperar, enquanto os três cães trocavam as habituais cheiradelas de reconhecimento entre si, até que, a certa altura, Horace desapareceu no meio de um aglomerado de arbustos ali mesmo à mão e alçou da perna, aliviado. Jeffrey estava divertido. De que raça é Horace? Desconhecida. Mas é leal, sossegado e asseado. Pode dormir comigo. Trouxe o cesto dele. Jeffrey abriu o porta-bagagens e tirou de lá uma velha mala de viagem e um saco de papel grande e cheio. Trouxeste mantimentos? É a comida de Horace e a sua tralha. Foi buscar o cesto do cão e mais outro saco atravancado de objectos. Depois de fecharem as portas do carro, Jeffrey seguiu à frente por um carreiro de lajes que conduzia às traseiras da casa. O vento que soprava do lado do mar fustigava-os. Quadrados de luz provenientes das janelas e de uma meia-porta de vidro incidiam nas pedras arredondadas
  25. 25. do pavimento. Jeffrey pousou a mala de Elfrida, abriu a porta e ela entrou na cozinha. As duas crianças levantaram os olhos da mesa e Serena, que estava ao fogão, virou-se e veio, de avental e braços abertos, saudá-los. Jeffrey, vieste mesmo com ela! Que esperto, desceu com o contentor do lixo e voltou para cima contigo. Que noção impecável de tempo. A viagem foi muito difícil? Queres uma chávena de chá ou algo para comer? Oh, mas ainda não conheces as crianças, pois não? Ben e Amy. Esta é Elfrida, queridos. Nós sabemos disse o rapazinho. Há muito tempo que eles . falam de si. Era tão moreno quanto a irmã mais nova era loura. levantou-se da mesa e veio apertar-lhe a mão, perscrutando a bagagem que trazia com um certo interesse. Esperava um presente, porém tinham-lhe ensinado que não lhe devia fazer referência, caso não lho dessem. Tinha os olhos e a tez morena do pai e uma farta cabeleira escura. Elfrida calculava que dali a uns anos, teria um punhado de raparigas a suspirar por ele nos arredores. O pai entrou atrás de Elfrida e pousou a mala ao fundo das escadas. Olá, pai. Olá, Ben. Terminaste os trabalhos de casa? Terminei. Muito bem. E tu, Amy, também já acabaste? Eu já acabei os meus há séculos respondeu-lhe a filha com ar complacente. 41 Era tímida. Chegou-se ao pai e enterrou o rostozinho na sua perna, ao ponto de só se lhe ver o longo cabelo de um louro leitoso e o azul desbotado do macacão. Elfrida sempre soubera da existência de Amy e Ben, mas, ao vê-los naquele momento, não pôde deixar de se maravilhar com o facto de serem mesmo filhos de Jeffrey, embora suficientemente novos para serem seus netos. Achou-os lindos. Porém, também Serena o era, ao seu jeito muito particular. Tinha o cabelo tão louro como o de Amy, mas usava-o ao alto, num carrapito preso com um gancho de tartaruga. Possuía uns olhos azuis muito brilhantes e tinha o rosto magro salpicado de sardas. Vestia uns jeans finos, que lhe alongavam imenso as pernas, e uma camisola azul, e prendera um lenço de seda ao pescoço. Como estava ao fogão, tivera de atar à cintura um avental às riscas, que ainda não se lembrara de tirar. Qual é o programa? perguntou Jeffrey. Vou preparar uma chávena de chá para Elfrida, se lhe apetecer. Ou então poderá sentar-se aqui ao pé do lume, ir até ao quarto e desfazer as malas, ou tomar um banho. Como ela preferir respondeu Serena. Quando é a janta? Às oito, se concordarem. Primeiro, darei de comer a Amy e a Ben. Amy emergiu de entre as pernas do pai e disse: Salsichas. Elfrida ficou com expressão curiosa. O quê? Salsichas para o nosso chá. E puré de batata e ervilhas. Que delícia. Mas vocês vão comer outra coisa. A mamã tem estado a fazer. Não me digas o que é, para a surpresa ser maior. É galinha com cogumelos. Amy! gritou-lhe o irmão. Não digas! Elfrida riu. Não faz mal, tenho a certeza de que deve estar uma maravilha. E agora, vejamos disse Serena, erguendo ligeiramente a voz acima da tagarelice dos filhos , queres uma chávena de chá? Porém, tinham sido feitos outros oferecimentos mais aliciantes. O que eu realmente gostaria de fazer agora era de ir lá acima, desfazer as malas e tomar um banho. Será demasiado indelicado da minha parte? De modo algum. Só temos aquela casa de banho, mas as crianças podem lá ir depois de ti. Há água quente com fartura.
  26. 26. Bem-hajas. Nesse caso é o que vou fazer. E quanto a Horace? perguntou Jeffrey. Não tem de ser alimentado? Sim, claro que sim. Estás a oferecer-te para o fazeres por mim? Duas medidas de biscoitos e meia lata de comida. E um pouco de água quente. 42 Horace é um cão? perguntou Ben. Meu marido é que não é de certeza. Onde é que ele está? Lá fora. A fazer amizade, assim espero, com os teus cães. Quero ir ver... Eu também... Espera por mim... Saíram para o jardim escuro sem levarem agasalhos extra, botas de borracha ou quaisquer reprimendas da mãe. A porta ficou aberta, deixando entrar golfadas de ar frio. Jeffrey foi fechá-la calmamente e pegou de novo nas malas de Elfrida. Anda disse-lhe, começando a subir as escadas que rangiam. Mostrou-lhe o espaço superior. Até daqui a uma hora. Vou preparar-te uma bebida avisou-a. E saiu, fechando a porta atrás de si. Elfrida sentou-se na cama, que era dupla, apercebendo-se imediatamente de que estava fatigada. Bocejou monumentalmente, depois olhou em volta, apreciando o quarto encantador, tão parcamente mobilado que até dava a impressão de escassez, no entanto, maravilhosamente tranquilo. Um pouco como Serena. Paredes e cortinas brancas, no chão um tapete a condizer. Uma cómoda de pinho com naperões de linho e renda. A fazer de guarda-fato, uns ganchos de madeira e uma série de cabides às cores. A cobertura acolchoada era de algodão às riscas azuis, havia livros e revistas recentes na mesinha de cabeceira, além de um pequeno vaso com uma única hortênsia cor-de-rosa clara. Elfrida bocejou de novo. Chegara. Não se perdera, o carro não avariara nem tivera nenhum acidente. E Jeffrey estava à sua espera ao fundo da estrada, aparecendo de repente no meio dela como um assaltante, a acenar-lhe com os braços para que parasse. Se ela não o tivesse reconhecido imediatamente, teria apanhado um susto de morte, mas não poderia haver a menor confusão, pois Jeffrey continuava a ser o mesmo homem alto e magro de sempre, ainda ágil e activo, apesar dos anos avançados, assim conservado provavelmente devido à companhia da esposa jovem e dos filhos pequenos. E o que era ainda mais importante, parecia feliz. Fizera o que estava certo. A sua vida parecera ter-se resolvido, precisamente o que ela mais lhe desejara. Instantes depois, levantou-se da cama, desfez as malas e arrumou os seus poucos pertences, adaptando o quarto simples ao seu jeito. Depois despiu-se, embrulhou-se no seu velho roupão e foi ao pequeno quarto de banho, que ficava mesmo ao lado, onde se deixou ficar mergulhada, durante algum tempo, em água bem quente. Quando terminou, deixara de bocejar, já não se sentia cansada, mas sim activa, animada e pronta para a noite que tinha pela frente. Vestiu então umas calças de veludo e uma blusa de seda, agarrou no seu saco de viagem, que estava a abarrotar de presentes, e desceu ao piso de baixo sentindo-se como 43 um marinheiro a percorrer a prancha que o levaria à coberta inferior. Na cozinha, as crianças comiam as suas salsichas, enquanto a mãe batia claras em castelo com a batedeira eléctrica. Quando Elfrida apareceu, olhou para ela e sorriu-lhe, dizendo: Vai ter com Jeffrey, está na sala. Acendeu a lareira. Posso ajudar? Não sou grande cozinheira, mas para lavar panelas ainda sirvo. Serena riu-se. Não há panelas para lavar. Ainda volto a ver Amy e Ben? Claro. Depois do banho virão dar as boas-noites.
  27. 27. O banho soube-me divinalmente. Rejuvenescedor. Ben perguntou: O que quer dizer rejuvenescedor? Quer dizer tornar mais novo explicou Serena. Ela não parece mais nova. Isso é porque sou velha disse-lhe Elfrida. Vê se não te esqueces de vir dar as boas-noites porque tenho uma coisa para ti... ergueu o saco. Aqui. Podemos ver já? Não, só depois, ao pé da lareira. Mais ou menos como quando são os presentes de Natal. Elfrida foi ao encontro de Jeffrey, que se encontrava na pequena sala de estar, refastelado como qualquer nobre em frente da sua lareira a ler o The Times. Quando ela apareceu, atirou o jornal para o lado e levantou-se com cautela porque naquela divisão, por alguma razão, o tecto era excepcionalmente baixo e Jeffrey estava bem ciente do perigo que seria bater com a cabeça numa das vigas pintadas de branco. Era particularmente vulnerável por estar careca, via-se-lhe a pele muito bronzeada pelo sol, apesar da faixa de cabelo que lhe rodeava a cabeça, mais abaixo, ainda o mostrar tão escuro como quando era novo. Também tinha os olhos escuros; algumas rugas de expressão sulcavam-lhe o rosto magro. Vestia uma camisola azul-marinho e, em vez de gravata, usava um lenço vermelho. Elfrida sempre tivera olho para os homens bemparecidos, de modo que foi gratificante verificar que o seu primo Jeffrey continuava elegante como sempre. Jeffrey observou: Estás encantadora. Pelo menos, limpa. Abençoado banho. Pousou o saco no chão e deixou-se cair num sofá, pondo-se a olhar apreciativamente à sua volta, reparando nos quadros, uns conhecidos, outros não. Um fogo que ardia fortemente, jarras com plantas secas, fotografias de família em molduras de prata, algumas peças de mobília antigas e bonitas. Não havia espaço para muito mais. Observou: Construíste aqui uma casa encantadora! O mérito não é meu, mas sim de Serena. Vai um copo de vinho? 44 - Que delícia, obrigada. É um mundo completamente diferente daquele onde vivias, não é? A tua casa em Camden, teres de ir para o Centro todos os dias, as festas formais e o relacionamento com todas as pessoas certas. Jeffrey, que estava no outro lado da sala a preparar as bebidas, não respondeu imediatamente às suas observações, mas pareceu ficar a reflectir sobre as mesmas. De volta, entregou-lhe o copo de vinho e sentou-se novamente no seu cadeirão amplo. Os olhos de ambos encontraram-se, com o tapete de permeio. Desculpa disse Elfrida. Desculpa de quê? A falta de tacto. Sabes que falo sempre sem pensar. Não acho que tenha sido falta de tacto, apenas disseste a verdade. Era um outro mundo, que não deixou saudades. Sempre preocupado com o dinheiro, as minhas filhas em colégios demasiado caros. A contratação de um mordomo sempre que dávamos um jantar, uma cozinha nova só porque os Harley Wright, que viviam no outro lado da rua, tinham redesenhado a sua e Dodie não suportava ficar para trás. Permanentemente preocupado com a liquidez financeira, com o estado do mercado de acções, as exigências de Lloyds, a possibilidade de me tornar supérfluo. Às vezes passava a noite sem dormir. E tudo isso para nada. Mas foi preciso afastar-me para me dar conta dessa realidade. Agora estás bem? Em que aspecto? Financeiro, suponho. Sim, estamos bem. Sem problemas. Não temos muito, mas também não precisamos de mais.
  28. 28. Vivem de quê? Das vossas galinhas? Jeffrey desatou a rir. Seria difícil. No entanto, mantêm-nos ocupados e proporcionam-nos um pequeno rendimento. No Verão, o facto de oferecermos cama e pequenoalmoço ajuda, mas só temos um quarto, que é o teu, e como a casa de banho é comum, não podemos cobrar muito. Há um edifício abandonado entre esta casa e a quinta, e de vez em quando pensamos em propor a sua compra para depois o convertermos num anexo para turistas, mas ainda é um empreendimento razoável, por isso vamos sempre adiando. Serena ainda trabalha, faz arranjos para casamentos e festas do género, e Ben e Amy estão a receber uma educação excelente na escola local. Para mim foi uma revelação descobrir como se pode viver bem com simplicidade. E feliz? Mais feliz do que alguma vez imaginei possível. -E Dodie? Está a viver num apartamento nos arredores de Hurlingham, 45 muito jeitoso, com vista para o rio. Nicola está com ela, pois o seu casamento foi por água abaixo, portanto ficaram a viver juntas, sem dúvida a darem cabo da cabeça uma à outra. E a filha de Nicola? A minha neta Lucy. Já tem catorze anos. Pobre miúda, agora também vive lá com elas. A vida dela não deve ser fácil, mas nada posso fazer para o evitar. Ainda tentei convidá-la a vir passar uns tempos aqui connosco, mas Nicola diz que eu sou um patife e Serena uma bruxa, portanto não a deixa visitar-nos. Elfrida suspirou. Entendia perfeitamente a impossibilidade de alterar a situação. Perguntou ainda: E Carrie? Ainda está na Áustria, ou algo do género. Arranjou um bom emprego numa agência de viagens e tem uma posição cheia de responsabilidade. Não costumas vê-la? Almoçámos juntos na última vez em que estive em Londres, mas é raro haver possibilidade de nos encontrarmos. Não casou? Não. E ela, vem cá? Não, mas por razões válidas. Não quer incomodar, constranger Serena, Ben e Amy. Seja como for, já tem trinta anos, não é nenhuma menina. É senhora da sua própria vida. Se quiser vir a Emblo, sabe que basta pegar no telefone. Fez uma pausa para pousar a bebida, puxar de um cigarro e acendê-lo. Elfrida comentou: Vejo que não desististe. Não, não desisti nem tenciono fazê-lo. Isso choca-te? Jeffrey, nunca nada me chocou ao longo da vida. Tu sabes. Estás com um aspecto maravilhoso. Como tens passado? Maravilhosamente, suponho. A solidão não pesa muito? Cada vez menos. O que te aconteceu foi uma crueldade. Referes-te a Jimbo? Querido homem. Foi mais cruel para ele do que para mim. A degeneração lenta de um homem brilhante. Mas não ficaram mágoas, Jeffrey. Sei que durou pouco tempo, mas o que tivemos foi especial. Poucas são as pessoas que alcançam tão grande felicidade, mesmo que por um ano ou dois. Fala-me do teu esconderijo em Hampshire. Dibton. A vila é vulgaríssima e sem nada de empolgante, mas creio que era precisamente disso que eu andava à procura. casa é uma casinha de operário dos caminhos-de-ferro, faz parte de uma fiada delas. Tudo aquilo de que preciso. 46 -Pessoas simpáticas?
  29. 29. Também elas vulgaríssimas. Simpáticas e amistosas. Acho que poderá dizer que fui bem recebida. Em Londres é que eu não podia continuar. Alguma amizade especial? Elfrida começou por lhe falar dos Foubister, de Bobby Burton-Jones, do pastor e da mulher, e da pantomima da escola primária. Passou depois a Mrs. Jennings, Albert Meddows e ao fabulosamente rico Mr, Dunn, com a sua piscina coberta e a sua imensa estufa de gerânios vermelho-fogo e plantas da borracha. Por fim, falou-lhe dos Blundell: Oscar, Gloria e Francesca. Têm sido verdadeiramente amigos. Poderá dizer-se que me tomaram sob sua protecção. Gloria é rica e generosa. Levam uma vida um bocado independente. A casa onde vivem, conhecida pela Granja, foi herdada por ela, é perfeitamente hedionda, apesar de terrivelmente acolhedora e confortável. Ela tem dois filhos, já crescidos, de um primeiro casamento, mas Francesca é muito original, engraçada e meiga. Gloria é uma anfitriã ávida; mal se passa um dia em que não organize uma festa, um piquenique, um encontro ou uma reunião qualquer. Adora cavalos e pela-se por reunir montes de amigos, com quem marca um local de encontro, indo depois ter com eles com um bar no porta-bagagens e os pequineses a ladrar desvairadamente a quem passa. Jeffrey estava nitidamente divertido. E Oscar também gosta dessas ocasiões? Não sei. Mas é um homem gentil, amável... um encanto de pessoa, na verdade... e sai muito com Francesca para apostar nos cavalos mais improváveis e comprar sorvetes. Que é que ele faz? Ou é reformado? É músico. Organista. Pianista, professor. Fizeste muito bem em arranjar amigos tão interessantes. Salta à vista que te adoram, provavelmente porque tiveste sempre o condão de entrar como uma boa lufada de ar fresco na vida das pessoas. Elfrida, porém, falou com uma certa reserva: Tenho de ser muito cuidadosa e restrita comigo mesma. Não tenciono deixar-me absorver. Quem não quereria absorver-te? Não deves ser sectário. Estive sempre do teu lado. Anos mais tarde, ao fazer uma retrospectiva das semanas passadas em Emblo, aquilo que Elfrida recordaria com maior clareza seria o som do vento. Este soprava continuamente, umas vezes reduzido a uma brisa agradável, outras projectando-se do mar com força tempestuosa, fustigando os penhascos, ululando chaminés abaixo e fazendo tremer portes e janelas nos seus gonzos. Passado pouco tempo, habituou-se à sua 47 presença constante, mas à noite era impossível ignorá-lo, o que a fazia ficar deitada, no meio da escuridão, a ouvi-lo soprar impetuosamente do Atlântico, lançar-se pela charneca acima e fazer com que os ramos de uma velha macieira lhe batessem fantasmagoricamente na janela do quarto. Esse vento tornou claro que o Verão chegara ao fim. Outubro mudou para Novembro, e as noites iam ficando cada vez maiores. As vacas do fazendeiro, uma bela manada de leiteiras Guernsey, desciam dos campos para ser mungidas de manhã e de tarde, transformando o prado entre Emblo e a casa da quinta num lodaçal. Depois de lhes tirarem o leite à tarde, eram de novo devolvidas aos pastos e abrigavam-se junto de um muro que se erguia num terreno não cultivado ou atrás de um emaranhado de mato e tojo. Porque é que não ficam abrigadas dentro de um estábulo durante a noite? quis Elfrida saber. Nunca ficaram. Não temos geada por aqui, e a erva abunda. Pobres bichos comentou Elfrida vendo-se obrigada a reconhecer, no entanto, que tinham um aspecto luzidio e razoavelmente satisfeito.

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