Johanna LindseyJohanna Lindsey
Minha Adorável SafadaMinha Adorável Safada
MALLORY 07
Agora é a vez de Jeremy, filho do cav...
Mallory 7
Disponibilização/Tradução/Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie
Revisão: Edith Suli
Revisão Final: Danyela
Formataç...
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Voltava a ser noite e ainda dormia. Danny a sacudiu, mas a senhorita Jane não
se moveu. Estava fria e rígida. Da...
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- Estava comigo quando despertei. As duas estávamos feridas. Disse que a
ferida de minha cabeça me apagou as lem...
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De fato, não se atrevia a entrar no coração daquele setor. Se o fizesse,
provavelmente sua família não saberia m...
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Mas ao Heddings não gostava de fazer o que era decente. Em lugar disso se
mostrou irritado pela insistência de P...
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sua numerosa família e levava a vida despreocupada de um pirata no Caribe, ou um
"cavalheiro" pirata, como prefe...
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- Acredito que sim - replicou Jeremy. - Não o ouvi absolutamente. É nosso
homem, ou possivelmente nosso moço.
O ...
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dizer-se do Jeremy quando tinha essa idade, salvo que a atitude deste era
decididamente masculina, enquanto que ...
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Ela voltou a ruborizar-se e soltou um palavrão.
Jeremy bocejou. Por muito que gostasse de brincar de gato e rato...
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Esteve a ponto de voltar a rir ao vê-la imobilizar-se. Mas o olhar irritado que a
moça lhe lançou prometia um ju...
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- Esta "bagagem" tentou nos roubar - replicou Jeremy, tratando no momento de
resolver o assunto de forma pacífic...
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Procedeu a desatá-la, primeiro os pés, que eram condenadamente bonitos. Logo
as mãos. Não tocou a mordaça. Agora...
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quase branco. Tinha umas pestanas longas, mas não muito escuras. Tampouco o
eram suas sobrancelhas, tão somente ...
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- O que faz você pensar que não tem seus objetos de valor guardados em uma
caixa forte?
- Porque não vive em Lon...
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Jeremy abriu a portinhola da carruagem e fez descer à moça antes de que a
dissertação do Percy se fizesse interm...
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Dagger nunca permanecia muito tempo em um mesmo lugar. A casa atual tinha
quatro aposentos: uma cozinha, dois do...
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fizessem, poderiam pensar que lhes caíram por descuido ou as gastaram em algo que
não recordavam.
A segunda regr...
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Danny não imaginou em sua vida que alguém pudesse ser como ele. Não só era
bonito. Sua atitude era tal que simpl...
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dormia profundamente, roncando com insólito estrondo. Era uma lástima, porque
Danny apreciava agir com movimento...
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- Estava preocupado com você - respondeu ele, num tom de certo
arrependimento.
Danny soltou um resmungo. Pequena...
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- Lorde Carryway, da cidade de Londres.
- Por que não o deixou dormir na carruagem? - perguntou então o homem.
-...
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CAPÍTULO 5
- Encerrados esperando... o que?
Danny perdeu a pouca cor que ficava nas faces. O homem não acreditou...
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criado estava pensando, e com efeito, Ao final de dez minutos depois de apagar a luz,
o homem se afastou pelo co...
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- Foi o mais estúpido que já vi alguma vez - disse-lhe. - Dá-se conta de que nos
pilharam por sua culpa? Se quer...
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Não sabia nem queria sabê-lo. Fazia o que lhe pediram que fizesse. E com êxito,
de modo que não tinha necessidad...
Mallory 7
CAPÍTULO 6
Retornar para a cidade pareceu levar muito mais tempo do que demoraram
para chegar à mansão do Heddin...
Mallory 7
- Não. Nunca me haviam pilhado, nenhuma só vez... até esta noite. Duas vezes
em uma noite, e as duas por sua cul...
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- O que para ti é um favor para mim é um problema; não me faça nenhum favor
mais. Teria ainda mais problemas se ...
Mallory 7
Apertada contra os baixos do carruagem, manteve-se fora da vista do Mallory.
Este seguiu correndo, mas agora em ...
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  1. 1. Johanna LindseyJohanna Lindsey Minha Adorável SafadaMinha Adorável Safada MALLORY 07 Agora é a vez de Jeremy, filho do cavalheiro e pirata James Mallory. Quando Danny, uma jovem que cresceu nas ruas de Londres sem nenhuma lembrança de sua família, é expulsa de seu bando por ajudar a Jeremy Mallory a recuperar as jóias que seu amigo Percy perdeu em um jogo de cartas, exige de Jeremy que lhe dê um trabalho. Está decidida a converter-se em uma mulher respeitável para poder cumprir seu sonho de casar-se e fundar uma família. Cativado por sua beleza e sua coragem, Jeremy contrata Danny como criada, embora queira fazer dela sua amante. Sob a tutela de Jeremy e sua prima Regina, Danny se transforma em uma dama. Embora se sinta atraída por Jeremy, nega-se a ser algo mais que uma criada porque sabe que ele não está disposto a casar-se com ela. Quando Danny volta a ajudar Jeremy fazendo-se passar pelo novo amor dele para evitar um escândalo, alguns membros da alta sociedade se dão conta de que o rosto de Danny lhes é familiar. Desatam-se os rumores a respeito de sua verdadeira identidade, algo que porá em perigo não só as possibilidades de que Danny conquiste o coração do Jeremy mas também sua vida.
  2. 2. Mallory 7 Disponibilização/Tradução/Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie Revisão: Edith Suli Revisão Final: Danyela Formatação: Gisa PPROJETOROJETO REVISORASREVISORAS TRADUÇÕESTRADUÇÕES PRÓLOGO A chuva não levou o fedor nem mitigou o calor, mas sim pareceu intensificá-los. O lixo se acumulava em altas pilhas no beco: caixas, comida podre, pratos quebrados e toda classe de refugos que já ninguém queria. A mulher e a menina se colocaram em um dos caixões maiores que havia junto ao montão de lixo, para esconder-se. A pequena não sabia por que tinham que ocultar-se, mas compartilhava o medo da mulher. Esse medo esteve sempre presente na expressão da mulher, em sua voz, na mão tremente que segurava à menina e a arrastava de um passadiço a outro de noite, nunca durante o dia, quando podiam topar-se com outras pessoas. A mulher lhe havia dito que a chamasse senhorita Jane. A menina acreditava que devia conhecer esse nome, mas não era assim. Tampouco sabia seu próprio nome, embora a mulher a chamasse minha "pequena Danny", de modo que devia ser esse. A senhorita Jane não era sua mãe. Danny perguntou e lhe respondeu: "Não, sou sua babá." Mas jamais lhe ocorreu perguntar o que era uma babá, porque parecia algo que deveria saber. A senhorita Jane esteve com ela desde o começo, quer dizer, o princípio de suas lembranças, que em realidade se remontavam só a uns dias atrás. Despertou estendida junto à mulher em um beco muito parecido a esse, ambas cobertas de sangue, e depois estiveram correndo e ocultando-se em outros becos. A maior parte desse sangue era da senhorita Jane. Tinha uma faca cravada no peito e outros cortes depois de ter sido apunhalada várias vezes. Conseguiu ela mesma arrancar a faca, quando voltou a si, mas não se ocupou de tratar das feridas. Sua única preocupação era a menina, deter o sangue que ainda saia da parte posterior da cabeça de Danny... e sair daquele lugar onde despertaram. - Por que nos escondemos? - perguntou Danny quando compreendeu o que estavam fazendo. - Para que não te encontre. - Quem? - Não sei, filha. Acreditava que não era mais que um ladrão que se pôs a matar todos para não deixar testemunhas. Mas agora não estou tão segura. Parecia muito resolvido a encontrar você. Mas eu a tirei dali a salvo e a protegerei. Não voltará a lhe fazer mal, prometo. - Não recordo que ninguém me fizesse mal. - Suas lembranças voltarão, pequena Danny, não se preocupe por isso, embora possamos esperar que não seja muito logo. É uma verdadeira sorte que de momento se apagaram. Danny não se incomodava de não recordar nada anterior ao sangue. E era muito pequena para inquietar-se pelo que poderia acontecer logo. Suas preocupações eram imediatas, a fome e o mal-estar, e a possibilidade de que a senhorita Jane não despertar de seu último sono. Ao que parecia sua babá imaginou que talvez encontrassem algo útil entre o lixo acumulado a seu redor, mas estava muito fraca para procurá-lo. De modo que se esconderam dentro do caixão de embalagem em plena noite, e a senhorita Jane se passou todo o dia dormindo. 2
  3. 3. Mallory 7 Voltava a ser noite e ainda dormia. Danny a sacudiu, mas a senhorita Jane não se moveu. Estava fria e rígida. Danny não sabia que isso significava que estava morta nem que esse era o motivo pelo qual cheirava tão mal. Finalmente Danny saiu do caixão, decidida a aproveitar a chuva que caía, para que lhe lavasse parte do sangue seco que grudou. Não gostava de estar suja e portanto chegou à conclusão de que não devia estar acostumada à sujeira. Entretanto, desconcertava-a saber coisas simples como essa sem ter nenhuma lembrança que as sustentasse. Pensou que podia remexer o lixo, como a senhorita Jane queria fazer, mas não sabia o que devia procurar, o que podia considerar-se "útil". Acabou por recolher algumas coisas que lhe pareceram interessantes: uma boneca suja de trapo a qual faltava um braço, um chapéu de homem que lhe protegeria os olhos da chuva, um prato descascado no qual poderiam comer, o braço quebrado da boneca... A senhorita Jane vendera na véspera um anel que usava em troca de um pouco de comida. Foi a única vez que se atreveu a sair de dia, envolta em seu xale para ocultar as manchas de sangue mais visíveis. Danny não sabia se sua babá tinha mais anéis para vender, não lhe tinha ocorrido olhá-lo. Mas essa foi a última vez que comeram. Viu mantimentos podres entre o lixo, mas embora tivesse fome não quis tocá-los. Não por prudência, mas sim porque não tinha consciência de estar desesperada e porque o fedor que desprendiam lhe era muito desagradável. Provavelmente teria acabado por morrer de fome, encolhida dentro do lixão junto ao corpo da senhorita Jane, esperando pacientemente que esta despertasse. Mas nessa noite ouviu como alguém remexia o lixo e se encontrou com uma jovem. Na realidade era uma menina de não mais de doze anos, mas como era muito mais corpulenta que ela Danny tomou a princípio por uma pessoa maior. Assim, seu tom foi respeitoso, embora algo vacilante, quando disse: - Boa noite, senhora. A moça se sobressaltou ao ouvir sua voz. - O que está fazendo debaixo da chuva, pequena? - perguntou com forte sotaque cockney. - Como sabe meu nome? - Né? - Esse é meu nome: Pequena Danny. A garota soltou um risinho. - Certamente é só a última metade, querida. Vive perto daqui? - Não, não acho. - Onde está sua mamãe então? - Acho que não tenho mamãe? - Se viu obrigada a admitir Danny. - E sua família? E os seus? É muito bonita para que a tenham deixado sozinha. Com quem está? - Com a senhorita Jane. - Ah, vejo! - exclamou a moça alegremente. - E aonde foi? Danny assinalou o caixão que tinha atrás, o que fez com que a garota franzisse o cenho com pouca convicção. Mesmo assim deu uma olhada, depois olhou mais atentamente e se introduziu no caixão. Danny preferiu não voltar a entrar. Cheirava muito melhor fora, entre o lixo. Quando a jovem saiu, respirou fundo e estremeceu. Depois se inclinou para ficar à altura de Danny e esboçou um sorriso. - Pobrezinha. Era ela a única que tinha? 3
  4. 4. Mallory 7 - Estava comigo quando despertei. As duas estávamos feridas. Disse que a ferida de minha cabeça me apagou as lembranças, mas que os recuperaria algum dia. Depois estivemos nos escondendo, para que o homem que nos fez mal não nos encontrasse. - Ah, isso sim que é uma vergonha. Suponho que poderia levar você a casa comigo, embora na realidade não é uma casa, só uma turma de meninos como você, sem "ninguém" que cuide deles. Mas nos arrumamos como podemos. Todos ganhamos o sustento, até os mais pequenos como você. Os meninos e garotas trabalham em afanar carteiras, até que sejam bastante grandes para ganhar umas moedas como rameira, que é o que eu farei logo se esse canalha do Dagger se fizer uma das suas. Disse o último com indignação, o que fez com que Danny perguntasse: - É um trabalho mau? - O pior, querida, para pegar a sífilis e morrer jovem, mas a Dagger não importa nada enquanto se cobre bom dinheiro. - Então não quero esse trabalho. Ficarei aqui, obrigado. - Não pode... começou a dizer a garota, mas logo se arrependeu. - Escuta, me ocorre uma idéia. Tomara o tivesse feito eu mesma, mas então não sabia o que sei agora. Já é demasiado tarde para mim, mas não para você.... não se a tomam por um menino. - Mas sou uma garota. - Claro que sim, pequena, mas podemos buscar umas calças para você, cortar seu cabelo e... a moça soltou um risinho, não necessitará sequer lhes dizer o que é. Verão você com calças e acreditarão logo que é um menino. Será como brincar de disfarçar-se. Será divertido, você verá. E lhe permitirá decidir por você mesma que trabalho quer fazer quando for maior, em vez de que lhe digam que só há um trabalho para você porque é uma garota. O que lhe parece? Quer tentar? - Não acho ter brincado nunca de me disfarçar, mas estou disposta a aprender, senhora. A jovem revirou os olhos. - Fala demasiado elegante, Danny. Não sabe falar de outra forma? Danny se dispunha a responder "não acredito" outra vez, mas em seu lugar sacudiu a cabeça, envergonhada. - Então melhor não dizer nada, né? Até que saiba falar como eu. Não queremos que sua forma de falar chame a atenção. Eu lhe ensinarei, já verá. - Poderá vir conosco a senhorita Jane, quando se encontrar melhor? A moça suspirou. - Está morta. Muitas feridas que não se fecharam me pareceu. Cobrirei-a com esse xale grande. Não chore. Agora tem a mim para cuidar de você. CAPÍTULO 1 Jeremy Mallory já esteve antes em algumas tavernas de má reputação, mas aquela era provavelmente a pior. Não era de estranhar, pois se encontrava no limite do que era possivelmente o pior subúrbio de Londres, uma vizinhança ocupada por ladrões e assassinos, prostitutas e turmas de pequenos órfãos que sem dúvida estavam sendo adestrados para converter-se na seguinte geração de delinquentes de Londres. 4
  5. 5. Mallory 7 De fato, não se atrevia a entrar no coração daquele setor. Se o fizesse, provavelmente sua família não saberia mais dele. Mas aquela taverna, na fronteira mesma dessa guarida de malfeitores, estava ali para que os tipos confiantes entrassem, tomassem umas taças e lhes roubassem a carteira ou, se fossem bastante estúpidos, alugassem um quarto para passar a noite onde tirariam tudo, roupa inclusive. Jeremy alugou um quarto. Não só isso: esbanjara seu dinheiro prodigamente, convidando a uma ronda aos poucos clientes do taverna e dando a impressão de ser bastante avoado. Criou deliberadamente todas as circunstâncias para que o fizessem vítima de um roubo. Mas para isso ele e seu amigo Percy foram ali: para capturar um ladrão. Assombrosamente, por uma vez Percy Alden mantinha a boca fechada. Era falador por natureza, e além disso bastante avoado. O fato de que Percy estivesse tão calado durante aquele insólito passeio mostrava o seu nervosismo. Era compreensível. Embora Jeremy pudesse sentir-se como peixe na água naquele ambiente, por ter nascido e se criado em uma taverna até que seu pai o encontrasse quando tinha dezesseis anos, Percy pertencia à sociedade elegante. Jeremy herdara mais ou menos a Percy quando os dois melhores amigos deste, Nicholas Éden e o próprio primo do Jeremy, Derek Mallory, optaram por uma vida caseira e se deixaram domesticar. Derek tomara Jeremy sob seu amparo quando este e seu pai, James, retornaram a Londres depois que James pôs fim ao longo distanciamento de sua família, de modo que era bastante normal que agora Percy considerasse Jeremy seu melhor acompanhante para as distrações do tipo menos caseiro. Jeremy não se importava. Depois de oito anos de estreita amizade com Percy, tinha-lhe muito carinho. Se não lhe apreciasse, certamente não se teria devotado a tirar Percy do último apuro em que se colocara, ao deixar-se depenar por um dos amigos jogadores de lorde Crandle durante uma reunião acontecida no anterior fim de semana. Perdeu três mil libras, sua carruagem e não uma mas duas relíquias de família. Tinham-lhe embebedado até o ponto de que nem sequer se lembrava disso, mas um dos convidados se compadeceu dele no dia seguinte e lhe contou todo o ocorrido. Percy se sentiu muito desgraçado, e com razão. Perder o dinheiro e a carruagem era um justo castigo por ter sido tão crédulo, mas os dois anéis eram algo muito diferente. Um deles tinha tantos anos que era o selo da família, e o outro, bastante valiosa por suas gemas, fazia cinco gerações pertencendo a sua linhagem. A Percy não teria ocorrido nunca oferecê-las como objeto para uma aposta de jogo. Certamente o teriam coagido, incitado ou enganado de algum jeito para que as pusesse sobre a mesa. Agora todo isso pertencia a lorde John Heddings, e Percy ficou fora de si quando Heddings se negou a lhe vender os anéis. O lorde não necessitava de dinheiro. Tampouco necessitava da carruagem. Devia considerar os anéis como troféus, um testemunho de sua habilidade no jogo. Ou mais provavelmente um testemunho de sua habilidade para fazer armadilhas, mas Jeremy era incapaz de demonstrá-lo porque não esteve ali para vê-lo. Se Heddings fosse um tipo decente, teria mandado Percy à cama em lugar de continuar lhe servindo mais taças e aceitar que apostasse os anéis. Se fosse um tipo decente, teria deixado que Percy as resgatasse em troca de seu valor. Percy se mostrara disposto inclusive a pagar mais do que valiam. Afinal de contas não era pobre, pois já entrara em posse de sua herança ao morrer seu pai. 5
  6. 6. Mallory 7 Mas ao Heddings não gostava de fazer o que era decente. Em lugar disso se mostrou irritado pela insistência de Percy e francamente desagradável no final, ameaçando-o com danos físicos se não deixasse de incomodá-lo. Isto é o que tinha aborrecido ao Jeremy o suficiente para propor aquela solução. Afinal, Percy estava convencido de que sua mãe iria repudiá-lo por ter perdido as jóias. Estava evitando-a, a fim de que não reparasse em que os anéis tinham desaparecido de seus dedos. Desde que se retiraram para o quarto do andar superior da taverna, tinham tentado roubá-los três vezes. Tentativas incompetentes todas elas, e depois do último, Percy começava a perder a esperança de encontrar um ladrão que pudesse levar a cabo a missão que queriam lhe encomendar. Jeremy tinha mais fé. Três tentativas em duas horas significava que haveria muitos mais antes que terminasse a noite. A porta voltou a abrir-se. Não havia luz no quarto. Tampouco no corredor. Se o novo ladrão fosse perito, não necessitaria de luz: esperaria que seus olhos se adaptassem à escuridão. Ouviram uns passos, um pouco ruidosos. Acendeu um fósforo. Jeremy suspirou e, com um movimento rápido, levantou-se da poltrona em que montava guarda junto à porta. Fê-lo com mais sigilo que o empregado pelo ladrão para entrar no quarto e lhe cortou o passo. Jeremy era um pobretão, pelo menos comparado com o ladrão baixinho, mas mesmo assim era bastante grande para dar uma tremenda surra ao maroto, que saiu correndo imediatamente por onde tinha vindo. Jeremy bateu a porta. Ainda não estava desalentado. A noite era uma criança. Os ladrões ainda fariam outras tentativas. E, se fosse necessário, seguraria um deles até que aceitassem lhe trazerem o melhor. Percy, em troca, perdia rapidamente a esperança. Agora estava sentado na cama, com as costas apoiada na parede; a mera idéia de meter-se entre aqueles lençóis lhe horrorizava. Mas Jeremy insistira em que se deitasse, para pelo menos dar a impressão de que estava dormindo, de modo que aceitou a contragosto deitar-se sobre a colcha. - Tem que haver um modo mais fácil de contratar um ladrão se queixou Percy. Não contam com uma agência para estes misteres? Jeremy conteve a vontade de rir. - Paciência, velho amigo. Já te adverti que isto provavelmente nos levaria toda a noite. - Deveríamos ter encarregado seu pai - murmurou Percy. - O que disse? - Nada, moço, nada absolutamente. Jeremy sacudiu a cabeça, mas não abriu a boca. A verdade era que não se podia reprovar Percy que duvidasse que Jeremy fosse capaz de dirigir aquele embrulho por sua conta. Afinal, Jeremy era nove anos mais jovem que ele, e Percy, avoado como era e incapaz de guardar um segredo, nunca tinha sido informado da verdadeira origem de seu amigo. Residir e trabalhar em uma taverna durante os primeiros dezesseis anos de sua vida conferiram a Jeremy alguns talentos insuspeitos: uma tolerância às bebidas fortes que chegou até o extremo de que bebendo podia tombar a seus amigos enquanto ele continuava virtualmente sóbrio; uma forma de lutar que podia recorrer ao jogo sujo em caso necessário, e uma extraordinária capacidade para distinguir um verdadeiro perigo de uma simples contrariedade. Mas sua educação pouco ortodoxa não terminou quando seu pai descobriu sua existência e recolheu-o. Não, naquela época James Mallory continuava afastado de 6
  7. 7. Mallory 7 sua numerosa família e levava a vida despreocupada de um pirata no Caribe, ou um "cavalheiro" pirata, como preferia que o chamassem. E a diversidade de pessoas da turma de James se encarregou do Jeremy e lhe ensinou ainda mais coisas que um moço de sua idade não teria aprendido nunca. Mas Percy não sabia nada disso. A única coisa que Jeremy lhe tinha permitido ver era o que saltava à vista, seu encanto de malandrinho, já não tão malandrinho aos vinte e cinco anos, mas ainda encantador, e tão bonito que não podia entrar em um lugar sem que todas as mulheres que o ocupavam se apaixonassem um pouco por ele. Além das mulheres de sua família, certamente, que simplesmente o adoravam. Jeremy se parecia fisicamente a seu tio Anthony; de fato, todo aquele que o visse pela primeira vez tomava-o por filho de Tony e não de James. Como seu tio, era alto e largo de costas, estreito de cintura e de quadris, e tinha as pernas longas. Ambos possuíam uma boca grande e um queixo forte e arrogante, além de um nariz aquilino e elegante, uma pele bronzeada e um cabelo negro e abundante. Mas os olhos eram o traço mais revelador, uma característica de só uns poucos Mallory: de um azul muito puro, com pálpebras grossas, e de uma forma ligeiramente doce de amêndoa que lhes dava um ar exótico, emoldurados por pestanas negras e sobrancelhas bem marcadas. Costumava-se murmurar que esses olhos de cigano os herdara de sua bisavó, Anastasia Stephanoff, de que a família tinha averiguado no ano anterior que na realidade era meio cigana. Tanto cativou Anastasia a Christopher Mallory, o primeiro marquês do Haverston, que se casou com ela no segundo dia depois de a conhecer. Mas essa era uma história que a família mantinha zelosamente em segredo. Era bastante compreensível que Percy tivesse querido que, em lugar do Jeremy, o ajudasse o pai deste. Por acaso seu melhor amigo, Derek, não tinha acudido diretamente ao James quando teve problemas delicados? Pode ser que Percy não conhecesse o passado do James, mas quem não sabia que James Mallory fora um dos libertinos mais célebres de Londres antes de fazer-se ao mar, e que quase ninguém se atrevia a desafiar ao James, antes ou agora, tanto no ringue como no campo da honra? Percy voltara a estender-se na cama para fingir que dormia. Ao final de uns quantos murmúrios, giros e mudanças de postura, ficou quieto esperando a seguinte intrusão. Jeremy duvidava em dizer a seu amigo que, se encarregasse aquele assunto a seu pai, não teria conseguido nada, pois James se apressara a ir ao Haverston para visitar seu irmão Jason no dia seguinte ao que Jeremy recebeu como presente sua nova residência urbana. Estava seguro de que seu pai foi ao campo para passar ali uma semana ou duas por medo de que Jeremy o obrigasse a acompanhá-lo para comprar móveis. Por pouco não passa a Jeremy desapercebida a sombra que avançava furtivamente pela habitação em direção à cama. Desta vez não ouvira abrir a porta, nem tampouco fechar-se, não ouvira nada. Se os ocupantes do quarto estivessem dormindo, como era de esperar, a aparição daquele intruso não os teria despertado. Jeremy sorriu para si antes de acender um fósforo e aproximar a à vela situada sobre a mesa que tinha colocado junto a sua poltrona. O olhar do ladrão se fixou nele imediatamente. Mas Jeremy não se moveu, mas sim continuou sentado muito tranquilo. O ladrão ignorava que Jeremy era capaz de mover-se à velocidade do raio para lhe impedir a fuga em caso necessário. Mas tampouco ele se moveu, pois estava visivelmente paralisado pela surpresa de ter sido descoberto. - Oh, vá. - Percy levantou a cabeça. - tivemos sorte por fim? 7
  8. 8. Mallory 7 - Acredito que sim - replicou Jeremy. - Não o ouvi absolutamente. É nosso homem, ou possivelmente nosso moço. O ladrão começava a sobrepor-se a sua surpresa e provavelmente não gostou do que estava ouvindo, a julgar pelo olhar de receio que dirigiu ao Jeremy. Este não fez conta. Primeiro se certificou de que o ladrão não levava nenhuma arma. Certamente, Jeremy levava as suas escondidas, uma pistola em cada bolso do casaco, de modo que o fato de que não visse nenhuma não implicava que o moço não estivesse armado. Este ladrão era muito mais alto que os descarados anteriores que tentaram roubá-los, e além de fraco, provavelmente não contava mais de quinze ou dezesseis anos, a julgar pela tersura de suas faces. Seu cabelo encaracolado e curto era de um loiro tão claro que parecia quase branco. Levava um chapéu negro deformado que devia estar na moda vários séculos atrás. Vestia uma jaqueta de veludo verde escuro, sem dúvida roubada e de aspecto bastante imundo, como se tivesse dormido muito com ela vestida. Debaixo aparecia uma camisa branca descolorida com alguns franzidos no pescoço, calças negras muito longas, e não usava sapatos. Um menino preparado: não era estranho que não tivesse feito ainda nem o menor ruído. Um traje muito chamativo para tratar-se de um ladrão, mas provavelmente porque era um jovem muito bonito. E certamente já se repusera de sua surpresa. Jeremy adivinhou em um segundo quando se moveria e chegou antes que ele à porta, em que se apoiou com os braços cruzados sobre o peito. Esboçou um sorriso. - Não deve ir ainda, moço. Não ouviu nossa proposta. O ladrão voltava a estar boquiaberto, poderia ser pelo sorriso do Jeremy, embora se devesse mais provavelmente a sua rapidez para chegar primeiro à porta. Mas Percy se deu conta de sua expressão e se queixou. - Maldito seja, está olhando você como o fazem as garotas. O que precisamos é um homem, não um menino. - A idade é irrelevante, velho amigo - respondeu Jeremy. - O que precisamos é habilidade, por isso o envoltório com que se apresenta não importa muito. O moço, ruborizando-se, pareceu ofender-se e olhando carrancudo ao Percy, falou pela primeira vez: - Nunca vi um ricaço tão lindo, isso é tudo - disse com sotaque cockney. A palavra "lindo" fez rir ao Percy. Mas Jeremy não pareceu divertido. O último homem que lhe chamara lindo perdeu uns quantos dentes por isso. - Olhe quem fala, com essa cara de menina - disse Jeremy. - Tem mesmo, não é verdade? - admitiu Percy. - Deveria deixar crescer a barba nessa face, pelo menos até que sua voz baixe uma ou duas oitavas. O menino voltou a ruborizar-se e murmurou de forma audível: - Não me crescerá... ainda. Só tenho quinze anos, acredito. Só que sou alto para minha idade. Jeremy se sentia inclinado a compadecer do moço por esse "acredito", que implicava que não sabia em que ano tinha nascido, como costumava acontecer aos órfãos. Mas reparou em duas coisas ao mesmo tempo. Ao princípio a voz do menino era aguda, e logo se fez mais grave antes que terminasse de falar, como se estivesse passando por essa etapa difícil na vida de um moço em que sua voz começa a adotar o tom mais grave da virilidade. E, entretanto, não pareceu a Jeremy que essa mudança fosse natural; tinha parecido muito artificial. Mas a segunda coisa que percebeu depois de uma observação mais detida foi que o moço não só era bonito, mas também francamente belo. O mesmo teria podido 8
  9. 9. Mallory 7 dizer-se do Jeremy quando tinha essa idade, salvo que a atitude deste era decididamente masculina, enquanto que a beleza daquele menino era indubitavelmente feminina. As faces lisas, os lábios carnudos, o narizinho arrebitado.... mas havia muito mais. O queixo era muito frágil, o pescoço muito magro, até mesmo a postura era bem eloquente, pelo menos para um homem que conhecia tão bem às mulheres como Jeremy. Contudo, Jeremy não teria tirado a conclusão a que chegou, pelo menos não tão rápido, se sua própria madrasta não tivesse utilizado a mesma estratagema quando conheceu seu pai. Estava louca para retornar a América, e ao que parecia não teve mais remédio que engajar-se como grumete do James. Certamente, este soube desde o principio que não era um menino e, conforme contava, divertiu-se do lindo fingindo acreditar que era um moço. Jeremy podia equivocar-se neste caso. Existia essa remota possibilidade. E, entretanto, raramente se equivocava no que concernia às mulheres. Mas não havia nenhuma necessidade de desmascará-la. Fosse qual fosse o motivo que tinha para ocultar seu sexo, era assunto seu. Jeremy podia sentir curiosidade, mas tinha aprendido há muito tempo que a paciência dava os melhores frutos. E além disso, só necessitavam de uma coisa dela: suas habilidades. - Como se chama, jovenzinho? - perguntou Jeremy. - Isso não lhe importa. - Não acredito que saiba ainda que lhe vamos fazer um grande favor – atravessou Percy. - Estenderam-me uma armadilha... - Não, não, aceite isso como uma oportunidade de trabalho - corrigiu Percy. - Uma armadilha - insistiu o ladrão. -E não necessito nada do que possam me propor. Jeremy arqueou uma de suas negras sobrancelhas. - Não sente nem sequer um pingo de curiosidade? - Não - disse a trombadinha com obstinação. - Que pena. O bom que têm as armadilhas é... que não pode escapar a menos que deixem você sair. Temos jeito de te deixar sair desta? - Têm jeito de ter perdido o juízo. Não acreditarão que estou sozinho, não verdade? Virão me buscar se não voltar quando me esperam. - Quem? A pergunta do Jeremy não obteve mais resposta que outro olhar colérico. Jeremy encolheu os ombros, impávido. Não duvidava que a moça formava parte de um bando de ladrões, O mesmo que esteve mandando sistematicamente a seus membros, um após o outro, para roubar ao crédulo burguês que se colocara em seu território. Mas duvidava que viessem procurá-la. Estariam mais interessados em fazer-se com a gorda carteira, que expor-se em resgatá-la. Se por acaso supusessem que esta tentativa tinha fracassado, que a capturaram, deixado fora de combate ou eliminado, não demorariam para mandar ao ladrão seguinte. O que significava que deviam dar por concluído o assunto e partir, agora que tinham sua presa, de modo que Jeremy disse em tom simpático: - Sente-se, jovenzinho, e te explicarei para que se ofereceu como voluntário. - Eu não me ofereci vo... - Você o fez. Assim que entrou por essa porta se ofereceu como voluntário. - Me enganei de quarto - tratou de asseverar o ladrão? - Vocês não entraram alguma vez em um quarto por engano? - Certamente, mas normalmente com os sapatos postos? - disse Jeremy ironicamente. 9
  10. 10. Mallory 7 Ela voltou a ruborizar-se e soltou um palavrão. Jeremy bocejou. Por muito que gostasse de brincar de gato e rato, não queria que aquilo durasse toda a noite. E ainda tinham um bom trecho que percorrer até a casa de campo do Heddings. Infundiu um tom severo a sua voz quando ordenou: - Sente-se, ou eu o sentarei nessa poltrona... Jeremy nem sequer teve que acabar a frase. A moça correu para o assento e virtualmente se equilibrou sobre ele. Era evidente que não queria que a tocasse. Jeremy conteve outro sorriso quando se separou da porta para colocar-se frente à jovem. Percy, surpreendentemente, contribuiu um pouco de lógica à situação: - Digo que poderíamos explicar-lhe pelo caminho, não? Temos a nosso homem. Há algum outro motivo para permanecer neste horrível alojamento um minuto mais? - Tem razão. Me traga algo com que o amarrar. - O que? - Algo para amarrá-lo. Ou não se deu conta de que nosso ladrão não está nada disposto a colaborar... ainda? Naquele momento seu ladrão pôs-se a correr desesperadamente para a porta. CAPÍTULO 2 Jeremy sabia o que ia ocorrer, que tentaria de novo fugir deles antes que fosse muito tarde. Tinha-o visto em seus olhos um instante antes de que passasse a seu lado como uma ventania. Mas ele chegou à porta antes que a moça pudesse abri-la e, em lugar de apoiar-se contra o batente para o impedir de sair, decidiu averiguar resolutamente se tinha razão sobre seu sexo, por trás a rodeou com seus braços. Estava certo. Notou uns seios femininos debaixo de seus antebraços, uns seios comprimidos para ocultar sua forma, mas inconfundíveis ao tato. A jovem não ficou imóvel. Voltou-se, e certamente isso foi ainda melhor, porque ele continuava abraçando-a. A última coisa que esperava encontrar-aquela noite era uma garota bonita debatendo-se entre seus braços. Agora que estava seguro de que era uma garota, estava-se divertindo muito. - Acho que deveria revistá-lo para ver se levar armas - disse Jeremy com voz rouca? - Sim, claro que deveria. - Não levo... - começou a afirmar ela, mas lançou uma exclamação abafada quando as mãos dele deslizaram por seu traseiro e ficaram ali. Em lugar de lhe revistar os bolsos como tinha insinuado, Jeremy lhe deu um suave apertão em cada nádega. Tinha-as suaves e macias, e de repente sentiu o impulso de fazer algo mais que tocá-la; desejava atrair firmemente seus quadris para si, descer aquelas calças ridículas que usava, passar os dedos pela pele nua e entrar em seu calor úmido. Não podia estar em melhor posição para fazê-lo, rodeando com as mãos aquele delicioso traseiro. Mas já se estava pondo à altura das circunstâncias, por assim dizê-lo, e não queria que ela notasse o efeito que lhe causava. - Servirá isto? - perguntou Percy, recordando a Jeremy que não estava sozinho com a garota. Suspirando, Jeremy voltou para assunto que os ocupava, arrastou à ladra para a poltrona e a fez sentar-se com um empurrão. Inclinou-se sobre ela, apoiando as mãos nos braços do assento, e sussurrou: - Fique aqui a menos que queira sentir minhas mãos sobre todo seu corpo. 10
  11. 11. Mallory 7 Esteve a ponto de voltar a rir ao vê-la imobilizar-se. Mas o olhar irritado que a moça lhe lançou prometia um justo castigo. Jeremy não acreditava capaz de fazer nada parecido, mas provavelmente ela acreditava. Quando olhou para trás viu que Percy tinha rasgado o lençol, encontrando-lhe pelo menos uma boa utilidade, e segurava na mão algumas tiras de tecido. - Servirão perfeitamente, traga-as - disse Jeremy. Deveria deixar que Percy realizasse a tarefa, mas não o fez. E embora procurasse não tocar à garota mais do que o necessário, era um homem que adorava às mulheres e não pôde conter-se. Segurou ambas as mãos com uma das suas enquanto amarrava uma tira de tecido ao redor de seus pulsos. Ela tinha as mãos quentes e úmidas pelo medo. Não podia saber que eles não queriam lhe fazer nenhum dano, por isso seu medo era lógico. Jeremy poderia tê-la tranquilizado, mas Percy tinha razão: deviam abandonar o lugar antes de que aparecesse o ladrão seguinte, de modo que as explicações podiam esperar. Depois lhe pôs a mordaça, e não se importou nada em inclinar-se sobre ela para amarrá-la na nuca. Provavelmente deveria lhe ter amarrado as mãos à costas, mas não teve coragem para incomodá-la mais do que o necessário. Não esperava o murro que recebeu no ventre, embora não o incomodasse muito porque na situação em que a garota agora se encontrava a impedia de golpear com força. Entretanto, não confiou absolutamente nas pernas da ladra. Agachar-se para lhe amarrar os tornozelos lhe teria posto em uma postura ideal para receber um chute que o teria derrubado, em vez disso se sentou no braço da poltrona e lhe levantou ambas as pernas apoiando-as em seu regaço. Ela soltou um chiado sob a mordaça, mas logo voltou a guardar silêncio e ficou quieta. Levava calças e meias três-quartos longas, de modo que não havia pele descoberta para tocar. Mas o mero fato de sentir essas pernas sobre seus joelhos afetou intensamente a Jeremy, muito mais do que deveria. Quando terminou olhou-a, e havia tanta paixão em seus olhos que a moça não abrigou nenhuma dúvida de que ele a tinha descoberto apesar de seu disfarce... se se tivesse tomado a precaução de olhá-lo. Mas não o fez. Tentava libertar os pulsos das ataduras e quase o tinha conseguido. Jeremy colocou uma mão sobre as suas e disse: - Não o faça, ou em vez de ser meu amigo quem lhe tire daqui eu o farei. - O que? por que eu - queixou-se Percy. - Você é muito mais forte. Não me importa reconhecê-lo, certamente que não, sobretudo quando é tão evidente. Por mais que Jeremy adorasse levar a garota, tinha que ser prudente no momento. Porque um dos dois tem que assegurar-se de que ninguém porá objeções quando nos virem partir com este moço. E embora você pudesse fazê-lo, velho amigo, duvido que se divertisse tanto como eu. - Objeções? - disse Percy, incomodado. - Não vamos passear os três precisamente agarrados pelo braço. Compreendendo agora a situação, Percy disse abruptamente: - Tem razão. Não sei no que estava pensando. Você se dá muito melhor quebrando cabeças. Jeremy se conteve para não voltar a rir, pois provavelmente Percy não tinha quebrado a cabeça de ninguém em sua vida. Não encontraram muita resistência. Só o taberneiro se encontrava ainda embaixo, um tipo grande e feio que provavelmente faria retroceder a qualquer um somente em olhá-lo. - Né, vocês, aonde vão com essa bagagem? - grunhiu. 11
  12. 12. Mallory 7 - Esta "bagagem" tentou nos roubar - replicou Jeremy, tratando no momento de resolver o assunto de forma pacífica. - Ah sim? Então o matem ou o deixem, mas não o levem a patrulha. Não quero que nenhum poli coloque o nariz aqui. Jeremy tentou pela última vez. - Não temos intenção alguma de visitar as autoridades por esta questão, amigo. E esta "bagagem" será devolvida pela manhã, e não em piores condições. O homenzarrão começou a rodear o balcão pesadamente com a intenção de lhes fechar a passagem. - Aqui temos umas regras, patrão. O que há aqui fica aqui, se entende o que quero dizer. - OH, entendo perfeitamente. E também temos regras lá de onde venho. Às vezes não necessitam explicação alguma, se entende o que quero dizer. Jeremy não se via capaz de quebrar uma cabeça tão grande como aquela, por isso se limitou a tirar uma de suas pistolas e a mirar com ela a cara do tipo. Foi uma ação muito eficaz. O homem levantou os braços e começou a recuar. - Menino preparado? - prosseguiu Jeremy. - Agora poderá ficar com seu ladrão... - Não é meu - achou oportuno mencionar o robusto taberneiro. - Dá no mesmo - replicou Jeremy, encaminhando-se para a porta . - Devolveremos isso logo que tenhamos concluído nosso negócio com ele. Ninguém tratou de os impedir que abandonassem o lugar. E a única pessoa com com quem se encontraram a aquela avançada hora da madrugada foi uma velha bêbada que assim que os viu ainda teve suficiente bom senso para cruzar ao outro lado da rua a fim de evitá-los. Mas depois de percorrer quatro cruzamentos carregando a ladra atada sobre os ombros, Percy estava sem fôlego. Não quiseram que o cocheiro esperasse eles perto da taverna por motivos óbvios, basicamente porque já não estaria ali quando resolvessem partir. Deixaram a carruagem a quatro cruzamentos de distância, em uma zona mais segura e melhor iluminada, tinha-lhes parecido um lugar razoável, mas ficava um pouco longe para transladar a seu ladrão. Assim, não é de estranhar que ao chegar ali Percy deixasse cair sua carga no chão da carruagem sem excessiva delicadeza, devido ao cansaço. Subindo atrás de Percy, Jeremy se deu conta de que teria que voltar a tocar à moça para colocá-la no assento. Tratou de evitar a tentação deixando que a conduzisse Percy. O próprio Jeremy poderia carregá-la e varrer qualquer obstáculo que se interpusesse no caminho. Mas tinha cedido a tarefa ao Percy porque já tinha comprovado o efeito que lhe produzia tocar à moça. Olhar era uma coisa. Não afetava a um homem que se deixasse levar pelas mulheres. Tocar, em troca, era algo muito mais íntimo, e Jeremy reagia à intimidade de um modo puramente lascivo. E a verdade era que não queria tocar a aquela garota. Era bonita, sim, mas era uma ladra, provavelmente criada na vadiagem ou em lugares piores. Seus hábitos pessoais deviam estar tão por debaixo dos dele que nem sequer merecia a pena considerá-los. Mas não restava outro remédio. O pobre Percy estava sem dúvida tão cansado como parecia. Entretanto, antes de que Jeremy pusesse as mãos sobre a moça, deu- se conta de que esteve tanto tempo contemplando seu dilema que a carruagem já estava a caminho, os subúrbios da cidade já estavam à vista e agora seria simples impedir que sua presa escapasse. Assim, limitaria-se a desatá-la e ela poderia acomodar-se no assento. 12
  13. 13. Mallory 7 Procedeu a desatá-la, primeiro os pés, que eram condenadamente bonitos. Logo as mãos. Não tocou a mordaça. Agora podia tirar-lhe ela mesma, coisa que a garota fez com rapidez. Também lhe deu um rápido murro logo que se levantou do chão. Era a única coisa que Jeremy não previu, embora devesse tê-lo feito, pois ela já tinha tentado lhe golpear antes. Podia esperar-se que vociferasse e destrambelhasse, que jurasse como um carreteiro, mas que fizesse aquilo do que um homem era capaz... O golpe falhou, é obvio. Jeremy não era lento de reflexos. E embora seu queixo, que era o objetivo inicial, evitasse o golpe, o punho da moça lhe roçou a face e impactou em sua orelha, que agora lhe ardia. Mas antes de que Jeremy lhe desse seu castigo, Percy disse em um tom cortante: - Se for lhe dar uma surra, companheiro, faça-o em silêncio, por favor. Quero dar um cochilo enquanto chegamos a nosso destino. A ladra aproveitou o momento para voltar-se para a portinhola. Jeremy estendeu um braço, agarrou-a pela parte posterior do pescoço e a sentou sobre seu regaço. - Tenta-o outra vez e poderá passar as próximas horas aqui - advertiu-lhe, segurando-a com os braços com tanta força que ela mal podia mover-se. Certamente a moça não seria capaz de soltar-se, mas isto não significava que deixasse de tentá-lo. Entretanto, debater-se em seu colo era provavelmente o pior que podia fazer. Aquela postura era muito sensual, provocando em Jeremy pensamentos lascivos sobre o que gostaria de lhe fazer.... não, sobre o que faria se tivessem sozinhos. Tirar-lhe a roupa devagar, averiguar como ocultava seus seios, lhe mordiscar os ombros enquanto se introduzia nela. "Maldita seja." Se continuasse saltando sobre ele daquele modo, teria que jogar Percy da carruagem durante um tempo. A garota devia compreender que seus esforços eram inúteis quase ao mesmo tempo que Jeremy se dava conta de que já não podia suportar as sacudidas daquele traseiro sobre suas coxas sem que se fizesse evidente o que estava provocando. Ela lançou um gemido, mas como lhe pareceu mais de paixão que de frustração a deixou cair como se tivesse se queimado. Por todos os santos, não deveria lhe afetar de um modo tão intenso. Tinha que controlar a situação. A moça havia voltado a cair no chão, mas se encarapitou imediatamente no assento situado frente a Jeremy, onde procedeu a alisar as lapelas da jaqueta e a sacudir o pó das imundas calças evitando olhá-lo quanto possível, enquanto vigiava o contra-ataque que Percy tinha prognosticado. Jeremy esperou cinco minutos, aproximadamente o tempo que levou para dominar seu desejo e certificar-se de que sua voz não o refletisse. Finalmente estirou as pernas, cruzou-as, recostou-se no assento, cruzou os braços e disse: - Fique tranquilo, jovenzinho. Não lhe faremos nenhum mal. Vai fazer nos um favor, e ao mesmo tempo se fará rico. O que pode ser mais satisfatório que isso? - Que me levem de volta. - Isso não é possível. Tomamos muitos cuidados para encontrar você. - Antes deveriam me ter pedido permissão.... milorde. - Adicionou este tratamento no caso de necessário, e em um tom de marcado desdém. A moça voltava a olhá-lo com irritação, agora que estava relativamente segura de que não ia estrangulá-la. Jeremy tratou de não lhe olhar nos olhos com muita atenção, confiando em que a tênue luz da vela da taverna lhe tivesse enganado. Mas o abajur mais intenso da carruagem e a proximidade foram sua perdição. Os olhos da ladra eram simplesmente incríveis e multiplicavam por dez sua beleza. Eram de cor violeta escura, intenso, em chamativo contraste com seus cachos, de um tom loiro 13
  14. 14. Mallory 7 quase branco. Tinha umas pestanas longas, mas não muito escuras. Tampouco o eram suas sobrancelhas, tão somente um pouco mais douradas. Jeremy se esforçou seriamente para encontrar algum traço masculino no rosto que tinha em frente, mas não havia nenhum. Não conseguia compreender como alguém podia confundi-la com um menino. E entretanto Percy tomava por um moço, um muito bonito. Supôs que essa confusão se devia a sua estatura. No fim de contas, era estranho encontrar uma mulher tão alta, quase tão alta como o pai do Jeremy. Era natural supor que alguém tão alto fosse um homem. Tentou também não reagir ante ela como o faria ante qualquer outra mulher formosa com a que se topasse. Mas aqueles olhos... renunciou a seguir lutando. Teria-a em sua cama, e antes que terminasse a noite. Assim seria. Já não tinha a menor duvida. Depois de render-se a sua natureza lasciva, a mudança de Jeremy foi imediata. Alguns o chamariam encanto, mas em realidade não o era, mas sim pura sensualidade, e vê-lo quando tinha esses pensamentos equivalia a promessa de prazeres fabulosos. A garota reagiu imediatamente ao olhar dele, afastando-os mas não sem ruborizar-se. Jeremy sorriu. Já sabia que não seria uma conquista fácil, mas aquele rubor dizia muito. Não era mais imune que outras mulheres. Entretanto, Jeremy não pensava descobrir o pequeno segredo da jovem. Por agora deixaria que representasse seu papel masculino... pelo menos até que estivessem sozinhos. De momento respondeu a seu comentário perguntando-se em voz alta: - Você tinha-nos pedido permissão antes de nos roubar? - Estas palavras fizeram com que ela se ruborizasse outra vez, de modo que se limitou a concluir: - Não, não me pareceu que tivesse esse costume. Assim, me deixe que lhe explique o que necessitamos e por que, antes de voltar a te negar sem mais amigo. Roubaram a meu amigo, sabe? Mas de forma legal. - Se insiste em me contar isso - interrompeu ela, - pelo menos que tenha sentido. Uma simples queixa. Alentador. Ao que parecia estava disposta a escutá-lo. - A forma "legal" a que me refiro foi o jogo. Um bufido. - Então não o roubaram, comportou-se como um estúpido. Há uma grande diferença, amigo. Jeremy sorriu e a moça se mostrou visivelmente confusa, o que fez que o sorriso dele se tornasse mais malicioso. Em seguida lhe contou que Heddings era o culpado por não jogar limpo e que ela iria vingá-los por isso. -Levamos você a casa de campo do Heddings - prosseguiu Jeremy. - É bastante grande, está cheia de criados, e portanto acreditam que nenhum ladrão em seu são juízo se atreveria a pensar em roubá-los, e com razão. Isso joga a seu favor, moço. - Ah sim? - Pode ser que as portas estejam fechadas, mas provavelmente as janelas estarão abertas nesta época do ano. O fato de que não se esperem que lhes roubem significa que estarão despreparados. E já é mais de meia-noite, de modo que os criados sem dúvida estarão dormindo e fora da circulação. Assim, não deveria ter nenhuma dificuldade para entrar na casa. - E então o que? - Terá que entrar no dormitório principal sem que se dêem conta. O mais provável é que Heddings se encontre nele quando o fizer, mas você já deve estar acostumado a isso. Igual aos criados, deveria estar profundamente dormindo a essas horas da noite. Então faça o que faz melhor: roubá-lo. 14
  15. 15. Mallory 7 - O que faz você pensar que não tem seus objetos de valor guardados em uma caixa forte? - Porque não vive em Londres. A alta burguesia se sente muito mais segura em suas propriedades no campo. - Quais são as coisas que tenho que afamar? - Dois anéis, ambos muito antigos. - Necessito uma descrição, amigo, se tiver que fazer isso. Jeremy sacudiu a cabeça. - Não importa, já que não pode se limitar a levar os dois anéis do Percy. Isso permitiria ao Heddings assinalar ao culpado com o dedo. Sua missão, querido moço, não é diferente da que tem por costume: roubar todos os objetos de valor que encontre. Seu ganho é que poderá ficar com todo o resto, milhares de libras em jóias, estou seguro disso. - Milhares!? - exclamou a garota, boquiaberta. Ele assentiu, rindo. - Não se alegra agora de que insistíssemos em levar você conosco? -perguntou. De repente, aqueles encantadores olhos violeta o olharam com receio. - É um maldito idiota se acredita que qualquer bagatela, por mais valiosa que seja, compensará o castigo que me espera por não ter pedido permissão antes para roubá-lo. Jeremy franziu o cenho, mas não pelo de "maldito idiota". - Tão seguro o tem? -Tenho umas normas que cumprir, e me fez infringir quase todas. Ele soltou um suspiro prolongado. - Poderia tê-lo dito antes. - Achei que o taberneiro os impedisse de sair comigo. Não o tinha por um covarde, sendo tão grande. - Ninguém gosta que lhe disparem uma bala na cara, moço - disse Jeremy em defesa do taberneiro . - Mas poderá testemunhar que não lhe deram nenhuma possibilidade de escolha. Então, qual é o problema? - Não é seu assunto... - Lamento não estar de acordo: fez com que agora seja de minha incumbência. - E como. Tem que entender, amigo, que se intrometeu muito em minha vida. Deixa-o, ou não temos nada mais que falar. Transcorreu um prolongado momento até que Jeremy assentiu com a cabeça. Causar um grave prejuízo a seu ladrão não formava parte de seus planos para essa noite. Agora teria que acompanhar a garota a sua casa assim que terminassem, para resolver qualquer problema que lhe tivesse ocasionado. Entretanto, não devia surgir nenhuma dificuldade, e isso fazia com que sua situação fosse a mais insólita. Ofereciam a um ladrão uma oportunidade de ouro. Qualquer ladrão normal a teria aproveitado e teria agradecido que lhe fizessem semelhante favor. Mas não, toparam com a única exceção: uma ladra de um bando que parecia se regia por umas normas tão rígidas que a garota não podia realizar um trabalhinho eventual sem autorização prévia. Aquilo era inaudito. Que diabos importava quando, onde ou o que roubasse, enquanto o tesouro chegasse a casa? A carruagem se deteve. Percy suspirou e disse: -Por fim. - E acrescentou: - Boa sorte, jovenzinho. Não é que a necessite. Temos plena confiança em você, certamente. E não sabe quanto lhe agradeço isso. É terrivelmente difícil esconder-se de sua própria mãe, sobretudo se vive com ela. 15
  16. 16. Mallory 7 Jeremy abriu a portinhola da carruagem e fez descer à moça antes de que a dissertação do Percy se fizesse interminável, como era habitual nele. Estavam parados no bosque contiguo à propriedade do Heddings. Tomou à garota pelo braço e a conduziu através das árvores até que divisaram a mansão. - Eu também lhe desejaria sorte, mas não acredito que a precise - disse quando chegou o momento de separar-se. - Vi quão competente é em seu trabalho. - O que o faz pensar que não escaparei para casa assim que me perca de vista? Jeremy sorriu, embora provavelmente ela não visse. - Porque não tem nem a mais remota idéia de onde está. Porque é de noite. Porque nós podemos devolver você a Londres muito mais depressa que se o tentasse por sua conta. Porque preferirá retornar a casa com os bolsos cheios de jóias deslumbrantes que vazios. Porque... -Já tenho suficientes razões, amigo. - o interrompeu ela em tom áspero. - Muito bem. Mas uma última advertência. Se por alguma inexplicável razão o capturem, não se deixe levar pelo pânico. Não o jogo aos lobos, querido moço. Ocuparei-me de te resgatar custe o que custar. Pode contar com isso. CAPÍTULO 3 "Não te jogo aos lobos". A quem acreditava enganar? Ele era o maldito lobo. Mas ela foi capaz de voltar a respirar normalmente, agora ele já não estava a seu lado olhando-a com aqueles olhos azuis e penetrantes. A jovem esteve a ponto de delatar-se com tantos rubores, e tinha temido ser incapaz de controlar o que aquele cavalheiro a fazia sentir. Em geral se arrumava bem com os homens; no fim de contas era "um deles". Mas nunca tinha estado tão perto de um do calibre do Mallory. Só olhando-o ficava nervosa, de tão atraente que era. Danny não se transtornara tanto em toda sua vida, possivelmente com uma exceção. Mas então era muito jovem para aprender o perigo que corria, não tinha sabido que se ficasse onde estava certamente morreria; só sabia que estava completamente só no mundo, sem ninguém a quem pedir ajuda. Já não estava sozinha, mas era como se o estivesse. Fazia vários anos atendida pela inquietação porque se estava fazendo muito mais velha para ocultar que nunca adquiriria as proporções masculinas, como outros meninos faziam com o tempo. Cedo ou tarde alguém se daria conta e revelaria que tinha enganado a todo mundo desde o começo. Fora simples guardar seu segredo ao longo dos anos, muito mais fácil do que se esperava, e tudo porque Lucy tinha acertado. Levar a à turma vestida com um calção andrajoso, uma camisa muito grande, uma jaqueta muito pequena, esse velho chapéu com o qual tinha ficado para proteger os olhos da chuva, e com o cabelo cortado à altura do pescoço, tinha causado uma impressão duradoura que não se alterou. Logo se converteu em "um dos meninos". Tinha aprendido a roubar com eles, a lutar com eles, tudo que faziam... exceto quando procuravam uma companhia feminina da qual Danny não queria saber nada. Agora eram quatorze, e viviam em uma casa desmantelada de cujo aluguel se ocupava Dagger. Albergaram-se em muitas casas parecidas através dos anos, inclusive em alguns pisos abandonados quando não havia suficiente dinheiro para pagar um aluguel. 16
  17. 17. Mallory 7 Dagger nunca permanecia muito tempo em um mesmo lugar. A casa atual tinha quatro aposentos: uma cozinha, dois dormitórios e uma ampla sala de estar. Dagger ocupava um dos dormitórios. O outro estava destinado às garotas, que nele dormiam ou trabalhavam, se tinham a idade suficiente para começar a prostituir-se. Todos outros dormiam na espaçosa sala, Danny entre eles. Havia um pequeno pátio traseiro. Embora não crescesse erva nele, era um bom lugar de jogo para os meninos mais pequenos. Também Danny gostava dos pátios, uma vez superada sua aversão a sujar-se. Não se expor a possibilidade de banhar-se, pelo menos não nas tinas comuns que se instalavam uma vez por semana na cozinha. Em lugar disso escapava ao rio sempre que podia. E a chuva se convertera em sua aliada. Lucy era sua única confidente. Lucy não contraiu a sífilis como tinha temido, mas acabou por vender seu corpo ante a insistência do Dagger. Danny entendia a lógica deste, embora não a compartilhasse. Ao ser uma mulher bonita, Lucy teria chamado muito a atenção das vitima que tivesse tentado roubar. Um ladrão tinha que ser quase invisível para sua vítima. Lucy não podia sê-lo, e do que outro modo ia ganhar o sustento? Dagger fora o mais velho de todos eles e continuava sendo, era o líder. A princípio não havia mais que umas poucas regras, nada que pudesse importar a ninguém. Mas ao que parecia Dagger pensava que, se acrescentasse mais regra de vez em quando, não desempenhava bem seu papel. Danny jamais discutiu com ele. Fazia o que lhe mandavam sem pigarrear. O olho clínico de Dagger era a única coisa que temia seriamente porque, além do Lucy, ele era o único dos que ficavam na turma que a viu chegar com o Lucy, e cedo ou tarde lhe ocorreria contar os anos... e se perguntaria por que um homem de vinte anos continuava tendo o rosto de um menino de doze. Dagger tinha agora uns trinta anos, e ainda dirigia um bando de órfãos. Poderia partir. A maioria o fazia quando chegavam aos vinte anos, pois aspiravam a algo mais, como poder ficar com o que roubavam em lugar de entregar tudo a Dagger para que comprasse comida, pagasse o aluguel e trouxesse para casa alguma outra quinquilharias para fazer sorrir a um deles. Dagger teria ido dedicar-se a atividades mais lucrativas, mas não o fez. Apesar de ser brusco, tinha boas intenções. Danny chegou à conclusão, anos atrás, de que tinha um coração bondoso oculto em algum rincão de seu fraco peito. Como líder, provavelmente pensava que devia mostrar-se duro e inflexível. Mas ela adivinhava que Dagger não se considerava só seu chefe, mas também seu pai, e por essa razão não partiu com outros. À medida que chegavam mais órfãos, outros se iam, de modo que os componente do bando nunca passaram de vinte nem desceram a menos de dez. Sempre havia algum que precisava de cuidados. A primeira regra do bando era que não se devia roubar nunca à classe alta em suas próprias casas. Essa era a forma mais segura e mais rápida de conseguir que as vítimas pusessem o grito no céu e que as autoridades registrassem os bairros baixos em busca dos culpados. Se dessem com uma casa cheia de órfãos não oficiais seria sua perdição. E os relatos de horror que Dagger contava sobre os verdadeiros orfanatos bastavam para fazer cumprir essa regra. Dagger sabia de primeira mão, posto que se tinha escapado de um deles anos atrás. Mas Danny estava infringindo esta norma essa noite. Não era que tivessem proibido roubar à classe alta, nem muito menos. Mas só os devia roubar em lugares concorridos, nas ruas, em tavernas, no mercado ou nas lojas, onde não se dessem conta de que lhes faltavam umas quantas moedas e, se o 17
  18. 18. Mallory 7 fizessem, poderiam pensar que lhes caíram por descuido ou as gastaram em algo que não recordavam. A segunda regra que lhes dava bom resultado era que deviam ater-se a atuar em suas zonas sem aventurar-se a roubar em lugares que não conheciam. Dagger atribuía uma zona a cada um e a mudava todas as semanas, para que os residentes habituais desses bairros não começassem a reconhecer a algum deles. Danny também estava infringindo esta norma. Outra regra a correspondia só a ela e a uns poucos mais, pois sua idade e sua estatura denunciavam que já não eram meninos. A lógica era que, quanto mais altos fossem, mais trabalho lhes custaria colocar a mão em um bolso. Assim, quando alcançavam uma estatura determinada, graduavam-se na classe de "só trabalhos específicos", o que implicava que já não roubavam por sua conta mas se limitavam a cumprir as missões que Dagger lhes atribuía. Evidentemente, Danny estava infringindo esta regra. Para esses trabalhos Dagger se pusera de acordo com três tavernas e uma estalagem. E já que Danny era muito reconhecível devido à cor de seu cabelo e de seus olhos, Dagger já não lhe atribuía outra tarefa que não fosse roubar a "adormecidos". Nunca tinha falhado até então, porque nunca lhe tinham estendido uma armadilha deliberada. Mas desse embrulho, Danny teria que sair sozinha. Se algum outro dos meninos tivesse sido capturado em seu lugar, ela não duvidava que Dagger o teria considerado um caso excepcional e se teria alegrado das inesperadas riquezas que os manteriam flutuando durante um tempo. Haveria felicitações e celebrações. Mas já que era ela que fora capturada e obrigada a infringir as regras, a atitude do Dagger seria a oposta... porque esteve procurando um motivo para pô-la na rua. Durante mais de dois anos, quase três, Danny teve problemas com o Dagger. Embora antes se dessem bem, brincavam e riam muito, agora parecia que ele a desprezava. Repreendia-a sempre que tinha ocasião. Criticava-a constantemente, merecesse-o ou não. Não podia deixar mais claro que queria que se fosse, mas não lhe tinha dado nenhum motivo para jogá-la. até agora. Nem sequer sabia por que se voltara contra ela, mas a coisa começado aproximadamente quando Danny lhe superou em altura. Podia ser simplesmente que, como líder, Dagger pensava que tinha que ser o mais alto. Mas, de fato, não era um tipo alto: media só um metro setenta. E Danny vestia de um modo chamativo enquanto que o traje do Dagger era anódino. Isto impressionava aos meninos. Muitos deles a imitavam e iam a ela quando necessitavam de algo. Danny supunha que Dagger receava que queria suplantá-lo. Mas não era assim. Nem sequer gostava de roubar, por isso não queria para nada a responsabilidade de mandar a outros fazer o mesmo. Parecia-lhe que era mau, um sentimento enraizado do qual nunca pode livrar-se. Mas não teve mais remédio que fazê-lo, vivendo entre ladrões. Contudo, tratou sutilmente de tranquilizar ao Dagger, de lhe demonstrar que seu posto não a atraía, sem chegar a comentá-lo abertamente; mas parecia que isso não tinha servido de nada. Poderia mentir ao Dagger, dizer que a tiraram da taverna para levá-la ao cárcere mas conseguiu fugir, que tinha custado muito tempo para retornar a casa. Dagger não podia dizer que tinha caído em uma armadilha. Ela tinha que conformar-se com essa esperança. Sua inquietação não se devia só ao que teria que confrontar quando chegasse a casa. Devia-se também a ele, a esse lorde Mallory. Tinha-a perturbado tanto que não podia pensar, nem sequer respirar. Mas ainda havia mais: assustava-a até a medula porque a fascinava. 18
  19. 19. Mallory 7 Danny não imaginou em sua vida que alguém pudesse ser como ele. Não só era bonito. Sua atitude era tal que simplesmente não acertava encontrar uma palavra para descrevê-lo. O que mais se aproximava era belo, mas em um sentido masculino, que era uma combinação absolutamente surpreendente... e fascinante. Ante ele se sentia tão aturdida, que não entendia como fora capaz de lhe falar. E sabia exatamente o que alterava tanto os sentidos e lhe cortava a respiração quando o olhava. Atraía-a sexualmente, algo que não lhe ocorrera nunca antes. Outros homens chamaram sua atenção durante aqueles anos, mas nenhum lhe tinha feito desejar fazer algo a respeito. Representar o papel de um homem implicava que devia fazer caso omisso de tais coisas, o que fora bastante simples. Mas não desta vez. E isso era o que mais a assustava em lorde Mallory. Passara quinze anos, de fato toda sua vida - pelo menos a parte que pudesse recordar -, evitando o destino de Lucy. E o tinha feito por uma só razão: para não acabar sendo uma puta. Nunca mudou de opinião a respeito. Pode ser que Lucy se adaptasse bem ao trabalho, pode ser que não se queixasse tanto disso como tinha feito de antemão, mas Danny seguia considerando-o a pior forma de degradação. Para ela seria o fim de seus dias, e não só em sentido metafórico, porque preferiria morrer de fome em algum beco antes de deixar que uns desconhecidos pagassem para usar seu corpo. Mas ali havia um homem que poderia fazer com que aceitasse de bom grado esse papel. Pior ainda, tinha cuidado dela como se conhecesse seu segredo, como se pudesse ver seu interior.... como se quisesse tocá- la. Certamente sua imaginação a estava enganando, mas não conseguia sacudir a sensação de que ele sabia, sobretudo quando seu olhar se tornava tão sensual e fazia que quase se derretesse. Devia ser um "amante". A palavra era de Lucy. Esta classificava a todos os homens em uma categoria ou outra, dependendo de como queriam utilizá-la e por quanto tempo. Os qualificativos que lhes atribuía eram em sua maioria depreciativos, e alguns eram explícitos, como os "bolinadores" e os "animais". Preferia os "rápidos" porque não lhe roubavam muito tempo, entravam e saíam em menos de cinco minutos e apenas ficavam o suficiente para despedir-se, afirmava, eram raros os homens que em realidade desejavam tanto dar prazer como recebê-lo. Lorde Mallory era um verdadeiro perigo. Um perigo para os sentidos do Danny, para sua paz espiritual, para seu segredo. Quanto antes o perdesse de vista, melhor. CAPÍTULO 4 A missão que aqueles jovens lordes lhe encomendaram era tão simples em comparação com suas inquietações que Danny a cumpriu quase sem pensar. Quase todas as janelas da enorme mansão estavam abertas. Subiu por uma situada em um lado da casa, encaminhou-se ao vestíbulo e subiu a escada atapetada. Não havia nenhum abajur aceso, mas com tantas janelas abertas a luz da lua entrava em torrentes. Danny não necessitava de luz, por quanto estava acostumada a trabalhar às escuras. Mas até no final do corredor do primeiro andar havia uma janela aberta. Viu ali muitas portas fechadas. Era uma casa muito grande, mais que qualquer em que tivesse estado antes. Em um lado do corredor havia mais porta que no outro, por isso começou pelo lado onde havia menos, suspeitando que davam acesso a aposentos mais espaçosos, e concretamente ao dormitório principal. Acertou. Era a segunda porta que abriu. As dimensões daquele quarto demonstravam que era a do dono, e este formava um vulto na cama. Heddings 19
  20. 20. Mallory 7 dormia profundamente, roncando com insólito estrondo. Era uma lástima, porque Danny apreciava agir com movimentos felinos, sem fazer o menor ruído, mas agora não tinha necessidade de adotar precauções com os roncos do Heddings. Primeiro se dirigiu à alta escrivaninha. A segunda gaveta continha o joalheiro: um cofre grande, que ocupava virtualmente toda a gaveta. Estava fechado com chave, nem sequer tinha ferrolho. Lorde Heddings passava por crédulo. Levantou a tampa e ficou deslumbrada por um momento pelo brilho esparramado no fundo do cofre: não só anéis, mas também braceletes, broches, inclusive colares. De fato, a maioria das jóias que continha eram femininas. Mais lucros de jogo? Danny não teve cuidado. Decidiu não levar o cofre. Era muito volumoso e nem sequer estava segura de poder levantá-lo da gaveta, de modo que optou por enchê-los bolsos da jaqueta. Passou uma mão pelo fundo do cofre forrado de veludo antes de terminar, para certificar-se de que não deixava nenhuma só jóia. Não queria ter que fazê-lo outra vez se as duas relíquias de família de Percy não estivessem entre o tesouro. Com essa idéia na mente, efetuou inclusive uma rápida revista das demais gavetas, mas não encontrou nada mais de interesse. Examinou bem a mesa, mas só continha papéis. Finalmente se aproximou da penteadeira, onde descobriu um grosso maço de bilhetes, uma corrente de ouro e outro anel que se escorreu entre os frascos de colônia, como se a tivessem atirado sobre a mesa. Apoderou-se também de tudo isto, introduzindo o dinheiro no bolso de suas calças, pois os da jaqueta já estavam cheios. Não havia nada mais onde olhar. As mesinhas de noite anexas à cama não tinham gavetas, e descartou a estante, raciocinando que era pouco provável que um homem que tinha uma fortuna em jóias em uma escrivaninha não fechada com chave escondesse coisas em livros simulados. Aliviada por haver quase terminado, encaminhou-se para a porta, mas se deteve em seco quando Heddings sofreu um ataque de tosse. Ela se encolheu ao pé da cama. A tosse era bastante violenta para despertar. Inclusive podia se levantar para se servir de um copo de água da jarra que se achava ao outro extremo do aposento. Nesse caso, ela estava disposta a deslizar-se debaixo da cama. Heddings tossiu ainda mais forte. Até parecia que estava se afogando. Passou pela cabeça de Danny o horrível pensamento de que pudesse morrer, e se imaginou sendo acusada de homicídio, comparecendo ante um juiz e sendo condenada à forca. Um suor frio lhe alagou as palmas das mãos. Por um momento se perguntou se deveria tratar de ajudá-lo. Mas estava paralisada pelo medo e não poderia mover-se para ajudá-lo embora fosse temporariamente tão estúpida para fazê-lo. Levou outro momento para dar-se conta de que o homem voltava a roncar placidamente, o som mais doce que ouvira. Bom, de fato não demorou para lhe ser desagradável de novo uma vez que passou a crise, e não perdeu mais tempo em sair dali. Embaixo tudo estava tranquilo. Retornou em seguida ao aposento pelo qual tinha entrado e imediatamente sentiu que alguém a segurava contra um peito duro e lhe tampava a boca com uma mão para impedi-la de gritar. Não estava com disposição de fazê-lo tendo o coração pulando. Esteve a ponto de desmaiar... Então ouviu que lhe sussurravam ao ouvido: - Por que demorou tanto? Ele! Mas seu alívio durou apenas um segundo, pois imediatamente sentiu dominada pela cólera. Soltou-se e lhe disparou furiosa, embora com um fio de voz: - Ficou louco? O que faz aqui? 20
  21. 21. Mallory 7 - Estava preocupado com você - respondeu ele, num tom de certo arrependimento. Danny soltou um resmungo. Pequena mentira. O mais provável era que estivesse preocupado pela possibilidade de que fugisse levando-se seus preciosos anéis. - A próxima vez que queira dar um susto de morte a alguém, experimente com você. Já terminei com isto. - Tem os anéis? - Este não é o lugar para falar - replicou ela. - Terá que sair apitando - Tem razão - ouviu ele dizer a suas costas quando se dirigia para a janela... e tropeçou num tapete. A queda a surpreendeu. Não era nada torpe, e esse tapete estava liso quando a pisou ao entrar. Sem dúvida Mallory o tinha levantado. Bracejou procurando algo a que agarrar-se, mas o único que havia perto era um alto pedestal com um busto em cima. O pedestal era pesado e evitou sua queda, mas o impacto fez cair o busto. Este chocou contra o chão com um ruído surdo. Danny gemeu para si mesma. No silêncio da noite, esse ruído teria bastado para despertar aos mortos ou, pelo menos, a um dos criados que dormia no mesmo andar. Voltou-se para dizer a Mallory que saísse imediatamente e viu um homem na porta apontando ao cavalheiro com uma pistola. Danny ficou tão rígida que até deixou de respirar. O homem estava vestido por completo, evidentemente já se aproximara deles antes até de que o busto golpeasse o chão. Possivelmente Mallory fizera algum ruído ao entrar, levando o homem a investigar. Estava em seu perfeito direito de disparar primeiro e averiguar o que estavam fazendo ali depois. Isso é o que ela teria feito se tivesse surpreso a um par de indivíduos rondando furtivamente por sua casa no meio da noite. Mallory estava de costas para a porta. Tinha dado um salto adiante para tratar de evitar que ela caísse, mas se tinha detido ao ver que conseguia levantar-se por si mesmo. Ainda a olhava, agora com boa luz, já que o homem tinha um abajur na mão. Ela nem sequer estava segura de que Mallory se tivesse dado conta de que havia alguém ali segurando esse abajur. - Não se volte - sussurrou Danny com a voz mais baixa que pôde. – Se o reconhecerem, se meterá em uma confusão mais gorda que se disparar em você. Recuperando a coragem, Danny se colocou diante do Mallory para tratar de ocultá-lo e disse ao homem que empunhava a pistola: - Não há necessidade de armas, amigo. Só procurávamos um lugar para passar a noite. Nossa carruagem se avariou no bosque. Meu amo acreditou reconhecer sua casa. Está completamente bêbado, e não estranharia que se haja "equivocado". E batemos. Mas meu amo não se rendeu ao não receber resposta e insistiu em entrar e dormir no salão. Disse que Heddings não se importaria. Foi "equivocado"? Não é aqui onde vive Heddings? A expressão tensa do homem mudou imediatamente. Baixou a pistola, embora não de tudo. Assim, Danny recarregou um pouco mais as tintas. - Quis me jogar a culpa de que caísse essa roda, quando eu lhe tinha avisado de que deveria pôr rodas novas a sua velha carruagem. Certamente, preferiu gastar todo o dinheiro em mulheres caras e no jogo, assim não me fez conta, como sempre. O homem pigarreou. - Atreve-se a dizer isso em sua presença? - Danny soltou uma gargalhada. - Está tão bêbado que não se lembrará. Não sei nem como se tem em pé. - Quem é? Danny não esperava ter que mencionar nenhum nome, mas ao pensar em como chegou até ali, não demorou para ocorrer-se o um. 21
  22. 22. Mallory 7 - Lorde Carryway, da cidade de Londres. - Por que não o deixou dormir na carruagem? - perguntou então o homem. - Teria feito isso, mas vi movimento nos bosques perto daqui. Pensei que poderia ser algum animal, mas também poderia ser um maldito bandoleiro. Não quis me expor a que o roubem, porque muitos cargos tem contra mim. Prefiro conservar meu trabalho, embora isso suponha aguentar um amo que se passa a maior parte do tempo bêbado. Seguiu uma longa pausa durante a qual Danny teve a certeza de que aquele tipo descobriria o engano e riria em sua cara. Calculava para aonde pôr-se a correr, ou se seria melhor lançar-se sobre suas pernas e tratar de pegá-lo de surpresa. - Me acompanhe - disse o homem. - Acima temos várias habitações de hóspedes desocupadas. Em uma delas há um confortável sofá que pode utilizar. Em realidade Danny não confiava em que aquele homem acreditasse. Não devia ser mais que um criado, provavelmente o mordomo, portanto não podia permitir-se deixar um membro da nobreza à intempérie. Poderia haver lhe ocorrido prendê-los até a manhã seguinte, quando se pudesse verificar o que lhe contara. Mas, já que a acreditou de pés juntos, não devia ser tipo desconfiado. Logo que o homem se voltou de costas para conduzi-los ao piso de acima se apresentou uma boa oportunidade para escapar através da janela. Mas ele ainda não deixara a pistola e, ao ver a arma ainda em sua mão, Danny preferiu seguir representando a farsa sem arriscar-se a que uma ou duas balas saíssem a seu encontro. Além disso, eram dois os que deviam atravessar essa janela, e não o conseguiriam sem que um dos dois recebesse um tiro ao tentar fugir. Felizmente, o ricaço não tinha pronunciado nenhuma só palavra. Ou teria estragado tudo se o criado se desse conta de que não estava bêbado absolutamente. Ou era bastante preparado para representar o papel que lhe tinha atribuído ou tinha medo suficiente para manter a boca fechada. Não, Danny duvidava de que tivesse medo, ou pelo menos não tinha tanto como ela. Ele se desfez do taberneiro com muita facilidade para inquietar-se pela possibilidade de receber uma bala. Provavelmente era um valente temerário, e um canalha despótico por tê-la metido naquela embrulhada. Agarrou-lhe o braço e o passou por cima do ombro para simular que o segurava. Empalideceu ao ver que tinha uma pistola na mão. Esteve apontando com ela ao homem todo o tempo, oculto detrás das costas de Danny. O maldito senhor poderia fazer com que matassem a ambos! Danny lhe arrancou a arma da mão e a meteu no bolso dele, que riu entre dentes. Que Deus a protegesse dos imbecis! - Espero que saiba fazer o papel de bêbado, amigo, e inclina a cabeça "para que ele não possa vê-lo bem - sussurrou-lhe. Foi fácil levá-lo ao piso de cima. Danny estava muito nervosa para dar-se conta da proximidade de seus corpos, e ele só recostava seu peso sobre ela quando o criado se virava para olhá-los, senão, subia as escadas por si mesmo e na realidade era ele quem conduzia à moça e não o contrário. - É aqui - anunciou o criado, abrindo uma porta. - Pela manhã já procuraremos algo para arrumar sua carruagem para que possam continuar a viagem. - Muito obrigado, amigo. Este os seguiu ao interior da estadia, acendeu um abajur e se dirigiu para a porta. Não tinha soltado a pistola mais que um momento para prender o abajur. Danny começou a se perguntar se realmente acreditara em sua história. E logo que se fechou a porta, soltou o braço do Mallory e se precipitou contra ela para escutar se o homem se afastava. Mas o que ouviu foi o leve estalo do ferrolho da porta. 22
  23. 23. Mallory 7 CAPÍTULO 5 - Encerrados esperando... o que? Danny perdeu a pouca cor que ficava nas faces. O homem não acreditou em sua história, ou simplesmente estava sendo prudente? Esperava que só estivesse sendo prudente. Afinal, eram uns desconhecidos até que seu patrão se certificasse, do contrário ia ficar ali vigiando sua porta o resto da noite. A situação em que estavam colocados só pioraria. Voltou-se para o Mallory e viu que a olhava com curiosidade, arqueando uma sobrancelha. Aproximou-se dele e sussurrou: - Prendeu-nos. - Maldito seja - grunhiu ele em voz alta. - Isso digo eu. Agora, amigo, pega a cabeça a um travesseiro e se ponha a roncar, o mais forte que possa. Tem que acreditar que esta dormindo pra que vá deitar se. Dito isto, não esperou para ver se obedecia. Retornou junto à porta deitou no chão para espiar pela fresta. Com efeito, viu uns sapatos do outro lado. O criado continuava ali, provavelmente com o ouvido junto à porta. Ao não ouvir nenhum ronco, Danny se voltou para Mallory e olhou-o zangada. Este ergueu os olhos para o teto, com uma careta de indignação nos lábios, como se sua sugestão fosse indigna dele. E não foi diretamente à cama mas sim à janela, para calcular as possibilidades de escapar por essa via. Devia concluir que eram nulas, porque suspirou e se dirigiu para a cama, saltou sobre ela e ensaiou uns quantos roncos até dar com um que lhe deixou satisfeito. Então seguiu roncando com estrondo. Danny esteve a ponto de sorrir. O senhor parecia muito contrariado por ter que fazer algo tão simples como roncar. Pior para ele. Em primeiro lugar, não estariam presos em um quarto do piso superior se ele não tivesse entrado na casa. Ela teria saído dali sem nenhum problema, em lugar de estar deitada no chão esperando que um criado receoso se cansasse e fosse deitar-se. Não parecia que tivesse essa intenção. Era provável que ficasse "de guarda" no corredor toda a noite. Danny quase podia imaginar o ruído da porta do cárcere ao fechar-se atrás dela e começava a sentir náuseas. Cada vez mais desesperada, foi examinar a janela por si mesma. A conclusão do Mallory fora acertada. Não era uma via de escapatória fácil, não sem uma corda. Não havia nenhuma árvore perto para qual saltar, nem nenhum batente pelo que descer. Podiam atar os lençóis para improvisar uma corda, coisa que não lhe teria ocorrido se aqueles dois ricos não o tivessem feito essa mesma noite, mas uma olhada ao quarto não revelou nada bastante consistente para servir de suporte e resistir ao peso de Mallory. Talvez aguentasse a ela, mas não a ele. A cama poderia servir, mas era pequena, para uma só pessoa, e tinha um armação de madeira que podia romper-se. E, de todos os modos, possivelmente fariam muito ruído ao tratar de aproximar a à janela. Quando finalmente lhe ocorreu que o criado talvez esperasse que apagassem abajur, Danny se percebeu-se tonta. Apesar de que a seu "amo" bêbado a o deixasse sem cuidado, por que quereria o "cocheiro" sóbrio dormir com a luz acesa, a menos que não tivesse nenhuma intenção de dormir? Confiava em que isso fosse o que o 23
  24. 24. Mallory 7 criado estava pensando, e com efeito, Ao final de dez minutos depois de apagar a luz, o homem se afastou pelo corredor e desceu as escadas. Enquanto isso, Mallory esteve provando uma ampla gama de roncos que teriam feito rir ao Danny se não tivesse estado convencida de que estariam ali presos durante toda a noite. Era evidente que o criado desconfiava deles, do contrário não teria permanecido tanto tempo diante da porta de sua habitação. Mas poderia ser pior. Poderia ir despertar seu patrão, que possivelmente teria querido comprovar se faltava algo da casa e ela não teria podido evitar que revistassem seus bolsos e dessem com as jóias do Heddings. Aproximou-se do senhor e lhe disse: - Por fim se foi. Daremos a ele uns minutos pra que volte a deitar-se. - E depois o que? - Forçarei o ferrolho e sairemos daqui. - Pode fazê-lo? Danny bufou. - Claro que sim, e levo minha gazua. Tirou uma agulha grossa do chapéu e a introduziu no ferrolho. Foi costurar e cantar. As portas dos dormitórios costumavam ser muito fáceis de abrir. Ao final de uns segundos disse: - Vamos. Sairemos pela porta principal. Como já sabem que estivemos aqui, não estranharam se a deixamos aberta. Não esperou para ver se ele a seguia. Nada mais que sair, pôs-se a correr e não olhou atrás nem se deteve até que chegou até as árvores. Então parou, mas só para recuperar o fôlego e orientar-se. Não demorou muito em vislumbrar as luzes da carruagem através da espessa folhagem. Então Mallory chegou junto a ela. Ele a agarrou pelo braço para conduzi-la durante o resto do trajeto até a carruagem. Danny tratou de soltar-se, mas só serviu para que ele a segurasse lhe rodeando os ombros com o braço. Era evidente que não confiava em que entregasse as jóias agora que saíram da casa do Heddings sãs e salvos. Sem a ameaça de um criado mirando-os com uma pistola, transtornava a Danny estar tão perto de Mallory. Tinha permitido que lhe rodeasse os ombros com o braço quando subiram as escadas da mansão e não havia sentido mais que seu próprio medo. Mas agora era diferente. Agora notava o longo corpo dele apertado contra seu flanco, sua coxa musculosa, seu quadril e seu torso duro, e sentia quão bem ela encaixava sob seu braço, percebendo o calor que emanava dele... ou acaso dela? Recordava o terrivelmente bonito que era, embora não pudesse ver seu rosto na escuridão do bosque. Recordava aqueles incitantes olhos azuis observando-a dentro do carruagem, como se pudessem ver através de seu disfarce. Se então parassem ali mesmo e a voltasse para si, ela teria estado disposta a algo que ele propusesse. Mallory parou. O coração do Danny começou a pulsar tão forte que até podia ouvi-lo. Ia fazê-lo, aproximaria seus lábios aos dela. Seu primeiro beijo, e do homem mais belo que jamais tinha conhecido. Seria sublime. Sabia e conteve a respiração, tremendo de impaciência. Ele a empurrou ao interior da carruagem. Só pararam para que pudesse abrir a portinhola do veículo onde Percy os estava aguardando. Mais desalentada do que estava disposta a admitir, Danny se sentou e olhou zangada ao Mallory assim que este ocupou o assento em frente a ela. A maior parte de sua irritação se devia ao que acabava de ocorrer, ou o que não ocorrera... só em sua imaginação, é obvio. Mas isso não evitou que se sentisse contrariada. Embora Mallory não devesse conhecer seus pensamentos. Devia atribuir sua expressão unicamente ao assunto que ela trouxe à luz. 24
  25. 25. Mallory 7 - Foi o mais estúpido que já vi alguma vez - disse-lhe. - Dá-se conta de que nos pilharam por sua culpa? Se queria entrar na casa, poderia ter roubado os anéis você mesmo. "Pra que me necessitava então, né? - O que aconteceu? - inquiriu Percy, mas não fizeram conta. - Demorou mais tempo do que o necessário - assinalou Mallory com frieza . Caso contrário, não teria entrado. - Não passara nem dez minutos! - Pois foram dez minutos desmesuradamente longos. Mas agora tudo isto não tem importância. - Por pouco consegue que nos matem! Eu não diria que isso não tem importância, amigo. - O que aconteceu? - perguntou Percy de novo. - Nada que este jovenzinho não soubesse resolver - admitiu Mallory. E voltando- se para Danny, como se não tivesse estimulado seu orgulho com esse cumprimento informal, acrescentou: - Vejamos o que encontrou, para comprovar se valeu a pena ter tantas perturbações. - Quando tiver arrancado a carruagem - replicou ela, um pouco apaziguada pelo fato de que ele reconhecesse que lhe tinha salvado a pele. Não estaremos a salvo até que saiamos daqui. - Muito certo - assentiu Percy, e golpeou o teto do veículo para dizer ao cocheiro que empreendesse a volta para a cidade. - Agora, por favor, não me tenham mais sobre brasas. Como não era lorde Mallory quem insistia, Danny não viu nenhum motivo para rechaçar a petição de seu amigo. Procedeu a esvaziar os bolsos sobre a banqueta, incluído o maço de notas, recolheu todo o montão e o deixou cair sobre o assento em frente dos dois tipos ricos. Inclusive virou os bolsos ao reverso para lhes demonstrar que não ficava com nada. Percy pegou imediatamente um anel de aspecto antigo exclamando: - "Santo Deus, sim!" - levou a jóia aos lábios para beijá-la e logo, com uma pressa indecorosa, a pôs no dedo ao qual aparentemente correspondia. - Não sei como lhe agradecer, querido moço! Dou-lhe... - Sua gratidão se interrompeu bruscamente quando as jóias voltaram a chamar sua atenção. - Oh, aqui está o outro! - exclamou, e esparramou as jóias para agarrar o segundo anel do montão. - Agradecemos, menino - disse lorde Mallory, completando o pensamento do Percy. - Muitíssimo obrigado - acrescentou Percy, sorrindo ao Danny. - Eu não diria tanto - objetou Mallory. - Fala por você, velho amigo. Não foi você quem teve que esconder-se de sua mãe. - Eu não tenho mãe. - Então de George. - Entendido - admitiu Mallory, sorrindo. - George? - inquiriu Danny. - Minha madrasta. - Chama-se George? - disse ela, surpreendida. Quando o jovem lorde pôs-se a rir, seus olhos de cor cobalto cintilaram. - Em realidade se chama Georgina, mas meu pai o abreviou só para lhe contrariá-la. É seu costume, sabe? 25
  26. 26. Mallory 7 Não sabia nem queria sabê-lo. Fazia o que lhe pediram que fizesse. E com êxito, de modo que não tinha necessidade de repeti-lo. Agora só desejava voltar para casa, enfrentar a Dagger... e comprovar se ainda tinha um lar. Ao recordá-lo, seu semblante se entristeceu. Eles não se deram conta. Ainda contemplavam a pilha de jóias reluzentes. Percy assinalou com o dedo um enorme pendente de forma ovalada rodeado de esmeraldas e diamantes. - Isto nos é familiar, não te parece? - disse a seu amigo. - Certamente. Admirei os seios de lady Katherine mais de uma vez quando este pingente adornava seu peito. - Não a tinha por uma aficionada ao jogo. E não acredito que estivesse disposta a desprender-se de algo assim. - Não é. Ouvi dizer que o roubaram faz uns meses enquanto estava de férias na Escócia. - Zomba de mim, companheiro - Então Mallory franziu o cenho. - Não, e este bracelete também me é familiar. Juraria que minha prima Diana o usou em passados Natais. Não recordo a ouvir dizer que a roubassem, mas sei que não é nada aficionada ao jogo. - Vá, insinua que lorde Heddings é um ladrão? - inquiriu Percy. - Parece isso, não? - Quanto me alegro. Não sabe como me sentia culpado em todo este desagradável assunto. Mallory pilhou Danny revirando os olhos ao ouvir esse comentário, e ela se deu conta de que ele fazia um grande esforço para lhe sorrir. Mas Percy ainda não tinha terminado, e sua pergunta seguinte fez que o jovem lorde assumisse uma expressão mais séria. - Mas o que vamos fazer a respeito? - Não podemos fazer nada a respeito sem nos implicar a nós mesmos e a nosso jovem amigo. - Bem, o que lhe vamos fazer. Detesto ver um ladrão fazer das suas alegremente sem que pague por... isso... - Percy interceptou o olhar significativo de Danny e pigarreou. - excetuando a você, moço, naturalmente. - Não se esqueça de vocês - disse Danny com desprezo. – Trabalhar para roubar essas jóias não foi minha idéia. - Tem razão - respondeu Percy, ruborizando-se. Mas lorde Mallory observou com desagrado: - Não, sua idéia era esvaziar nossos bolsos, por isso não há necessidade de acusar a ninguém. O calor dos múltiplos rubores que experimentou Danny teria dado para acender o braseiro da carruagem. Detestava seriamente que voltassem as voltas contra ela. Mas, dadas as circunstâncias, ficou sem argumentos de réplica. Aquele tipo era ágil, e desconfiado, ou do contrário não a teria seguido ao interior da casa para certificar-se de que cumpria com sua missão. Também era ardiloso, e inteligente. Não tinha a menor duvida de que tudo aquilo fora idéia dele. Era uma lástima que não fosse um imbecil como seu amigo. Antes, tinha-lhe chamado idiota para si mesma, mas sabia que não o era. Se fosse, provavelmente Danny teria conseguido escapar daquele assunto. Inclusive poderia consegui-lo agora... se ele não fosse tão bonito. Mas lhe custava pensar com lógica quando ele a olhava com aqueles olhos de cor do cobalto. O engenho e a inteligência do Danny a abandonaram, deixando atrás uma boba que estava irresistivelmente fora de seu elemento. 26
  27. 27. Mallory 7 CAPÍTULO 6 Retornar para a cidade pareceu levar muito mais tempo do que demoraram para chegar à mansão do Heddings. Danny não tinha relógio, mas não se teria surpreendido se tivesse visto sair o sol. Estava cansada, em realidade exausta, pelas muitas emoções que não estava acostumada a experimentar. Além disso, começava a ter fome. E ainda tinha muitas coisas de que ocupar-se quando finalmente chegasse a casa. De fato, esperava que Dagger estivesse dormindo para poder descansar um pouco ela também. Seria muito mais simples dar explicações, ou inventar-se mentiras, com uma mente limpa que não se visse embotada pelo esgotamento. Percy voltava a dormitar; um tipo preparado. Danny desejou poder fazer o mesmo, mas com lorde Mallory ainda completamente acordado não se atrevia. Não era porque pensasse que ele pudesse lhe fazer algo enquanto dormia. Simplesmente devia estar atenta para aproveitar a oportunidade de fugir em uma zona que reconhecesse. Não duvidava que a deixariam ir-se, agora que tinha feito o que queriam, mas certamente não a levariam de volta ali onde a encontraram. Por que iriam desviar se de seu caminho, sendo tão tarde? E se a deixassem no setor da cidade onde eles residiam estaria completamente perdida e demoraria várias horas para encontrar o modo de retornar a casa. Certo que se criara em Londres, mas era uma cidade grande e somente conhecia a pequena parte onde vivia. Assim que ele voltou a posar seus olhos nela, Danny soube, e ao lhe olhar o corroborou: algo lhe passava pela cabeça. O olhar que dirigia era muito pensativo. - Por certo, onde deixou seus sapatos? A pergunta a surpreendeu. Não era o que esperava ouvir, dada a expressão meditabunda do cavalheiro. E, de fato, surpreendeu-lhe que não o tivesse perguntado antes, pois a tinha feito caminhar através do bosque só com meias três-quartos. E antes disso lhe tinha amarrado os tornozelos. Teria que ser cego para não dar-se conta que não levava um calçado normal. - Estes são meus sapatos - respondeu, e levantou um pé para que pudesse ver a magra sola de couro na parte inferior da meia três-quartos de lã. - Engenhoso. Danny se ruborizou ligeiramente, mas só porque se sentia orgulhosa de seu improvisado calçado. Tinha confeccionado ela mesma. Tinha um par de sapatos normais, porque andar com o que pareciam unicamente suas meias três-quartos teria suscitado muitos comentários durante o dia. Só usava essas para trabalhar. - Importa-se que os veja mais de perto? - perguntou ele. Danny se apressou a recolher os pés debaixo do assento, tão longe como pôde, e lhe dirigiu um olhar rebelde. Mallory se limitou a encolher os ombros. Logo a deixou atônita quando acrescentou: - É muito mais preparado do que me imaginou. Grande história improvisou ali. De modo que lorde Carryway? - disse soltando um risinho. Danny encolheu os ombros. - O nome encaixava. - Suponho - admitiu ele, mas ainda não tinha satisfeito sua curiosidade. – Ocorre frequentemente que lhe surpreendem e tem que recorrer à lábia para sair da embrulhada? 27
  28. 28. Mallory 7 - Não. Nunca me haviam pilhado, nenhuma só vez... até esta noite. Duas vezes em uma noite, e as duas por sua culpa. Mallory tossiu. Mas para evitar lançar-se mutuamente a culpa, mencionou aquilo que tinha realmente na cabeça. Deu uns golpezinhos ao colar e o bracelete que estavam junto a ele no assento e disse: - Queria devolver estes dois objetos a seus donos legítimos, de forma anônima, é obvio. - limpou a voz e pareceu manifestamente incomodado ao acrescentar: - Importar-se-ia, jovenzinho? - Por que deveria me importar? - Porque este montão é teu. Danny bufou. Já decidiu que não queria nada daquele tesouro. Tinha muito fresca na mente sua própria imagem sendo capturada e pendurada. Mas o fato de que aquelas jóias tivessem sido roubadas em duas ocasiões fazia que implicassem ainda mais riscos e assim o manifestou. - Uma coisa é desfazer-se de objetos quando se trabalham em excesso pela primeira vez; é só questão de ser rápido. Mas tentar penetrar objetos que outro roubou antes é arriscar-se a que lhe agarrem. Alguém estará procurando já parte dessas jóias, se não todas. Antes de tocá-las atiraria elas pela janela. Ele sacudiu a cabeça. - Nem pensar. Prometemos-lhe uma fortuna em... -Esquece-o, amigo. Se quiser algo de você, logo saberá. Oh, Deus, ele voltou a olhá-la de repente com olhos sensuais, acendendo seu desejo, derretendo-a por dentro. Se ela dissesse algo mais naquele momento, seria um discurso completamente confuso. Como podia ele fazer isso com apenas um olhar? E o que havia dito ela para lhe fazer mudar de expressão desse modo? A menção de "quero"? Isso significaria que sabia que era uma mulher. Mas não podia sabê-lo. Ninguém sabia. E não pode adivinhá-lo. Danny já nem sequer sabia atuar como uma mulher, depois de tanto tempo representando se papel masculino, e não tinha cometido nenhum engano para delatar-se. Ele a tirou do apuro esfriando seu olhar carnal. Fê-lo porque notou o desconcerto dela. - Agarrou o maço de notas, percorreu-o brevemente com o polegar e o lançou ao assento do Danny. - Aqui não há mais de cem libras, mas bastará por agora. Por que falava como se sua relação fosse continuar? - É mais do que vi de uma só vez, ou duas, ou mais - se apressou a assegurar ela. -Já me basta. Mallory se limitou a sorrir. Ela voltou a olhar através da janela. Abriu os olhos como pratos ao ver as ruas e casas de Londres. Não foi capaz de reconhecer nada, mas disse em um tom de certo desespero: - Pode me deixar aqui, amigo. Já encontrarei o caminho... - Nem pensar, moço. Levarei você até a porta de sua casa e darei as explicações necessárias para tirar você do apuro que mencionou. Antes deixaremos ao Percy. Não demoraremos nada. E ficar a sós com ele e com aqueles condenados olhos que a despiam? Não queria arriscar-se a tal coisa. - Exagerei - mentiu. - Este dinheiro compensará de sobra o tempo que me passei fora de casa. - Insisto - disse ele, sem engolir sua mentira. - Seria incapaz de dormir se pensasse que este desagradável assunto ia conduzir você a prejuízos. - E o que me importa que não possa dormir? - replicou Danny grosseiramente. 28
  29. 29. Mallory 7 - O que para ti é um favor para mim é um problema; não me faça nenhum favor mais. Teria ainda mais problemas se lhe ensinasse onde vivem meus amigos. Despertar em um beco depois de receber uma soberana surra seria sair bem livre. - Acha que lhe baterão por...? - A mim não - interrompeu bruscamente. Mallory soltou um risinho. - Muito bem, já entendi. Mas a acompanharei até essa taverna. É o mínimo que posso fazer. Danny não acreditava que ele se conformasse com isso depois de ter chegado tão longe, por isso não teve mais remédio que dizer: - Não, não quero. - Não estava lhe pedindo permissão, querido moço. Danny abriu a boca para soltar um comentário do mais baixo, mas como não lhe servia de nada, decidiu reservar suas energias para o que lhe esperava a seguir. CAPÍTULO 7 Danny teve que esperar muito tempo para que o ricaço tirasse os olhos de cima dela para passar à ação. Quando finalmente ele deixou de olhá-la, não pensou duas vezes: equilibrou-se contra a portinhola do carruagem, apeou-se e saiu correndo rua abaixo. Foi muito fácil, como imaginou que seria, embora não tivesse calculado o quanto deveria agachar a cabeça para passar pela portinhola. Não viajando de carruagem frequentemente, e nunca em um tão elegante como essa, não levou em conta sua estatura superior à média. De modo que ao saltar pela portinhola do veículo bateu a cabeça. Teve sorte de que só lhe caísse o chapéu e a batida não a deixar inconsciente. Perdeu o chapéu. Tinha-lhe muito carinho porque o ganhou em uma briga de rua. Dava-lhe certo "garbo" que adorava, provavelmente porque satisfazia sua vaidade feminina. Mas agora tinha desaparecido, esquecido no chão da carruagem do senhor, e por nada do mundo ia arriscar-se a encontrar de novo o jovem lorde para recuperá-lo. Não afrouxou o passo, não precisava fazê-lo porque ainda não perdeu o fôlego. Mas uma travessia mais adiante pensou que era melhor deixar de correr antes de que se esgotasse. Quando começava a diminuir a marcha, ouviu que alguém corria atrás dela. Voltou a vista e empreendeu uma veloz carreira. Não podia acreditá-lo. O condenado rico a perseguia! E não só um curto trecho. Deveria haver-se rendido depois da primeira travessia mas não o fez. A coisa não sentira, posto que tinham terminado seu negócio. Ela tinha feito o que eles queriam e eles haviam a trazido de volta a Londres. Por que diabos se obstinava em desviar-se de seu caminho para aproximá-la a sua casa quando era evidente que ela não queria que a levasse mais longe? Tinha percorrido já três malditos cruzamentos e ele seguia sem deter-se. Danny começava a ficar sem fôlego. Ele tinha as pernas mais longas. Aproximava-se pouco a pouco. Danny esteve a ponto de render-se, mas ao dobrar uma esquina viu uma carruagem que se aproximava. Aproveitando os poucos segundos que esteve fora da visão do Mallory, lançou-se sob a carruagem, agarrou-se com pés e mãos à armação e se pegou quanto pôde ao chassi para manter-se longe do chão; nesta postura esperou até que viu passar as pernas de seu perseguidor. 29
  30. 30. Mallory 7 Apertada contra os baixos do carruagem, manteve-se fora da vista do Mallory. Este seguiu correndo, mas agora em direção contrária, o que permitiu ao Danny deixar cair ao chão quando a carruagem dobrou outra esquina. Estava ainda sem fôlego, com o coração acelerado, ainda mais faminta e a ponto de desabar-se de puro esgotamento. Se não acreditasse que atrasar a volta a casa pioraria ainda mais sua situação, teria procurado um beco onde se encolher e passar o dia dormindo. Perdeu-se, naturalmente, em uma zona da cidade em que não esteve nunca. E chamava muito a atenção. Sem o chapéu para ocultar a cor loira albino de seu cabelo, sua juba frisada era como um chamariz, sobretudo em contraste com a jaqueta de veludo verde escuro. Chamava a atenção ali por onde passava, fazendo-a sentir-se mais incômoda do que estava disposta a admitir. Demorou outra hora em dar com uma referência conhecida graças a qual deixou de caminhar sem rumo e pôs-se a andar na direção correta. Demorou uma hora e meia em chegar finalmente a casa a passo lento, cansada e dolorida. Mas continuava tendo a sensação de que alguém a seguia. Sabia perfeitamente que tinha despistado Mallory, de modo que não podia tratar-se dele. Cada vez que voltava a vista atrás, não via mais que a outras pessoas que se dirigiam a seus afazeres. Entretanto, passava diante de muitos becos nos quais qualquer um que a seguisse podia esconder-se e espiá-la dali. Finalmente chegou à conclusão de que estava sendo estúpida, que seu esgotamento e sua agitada imaginação a estavam enganando. E estava preocupada. Essa era provavelmente a razão principal de estar nervosa e imaginar coisas. Sentia-se cada vez pior à medida que se aproximava de sua casa, porque não sabia se continuaria tendo um lar a partir desse dia. Tyrus Dyer não dava crédito ao que tinham visto seus olhos. Ou estava perdendo o juízo, porque sabia que aquela mulher não podia ter evitado o passar dos anos para parecer tão jovem como antes, ou via a garota que em teoria estava morta. Tinha que ser uma coisa ou outra, e como não acreditava estar perdendo o juízo era evidente que a moça não tinha morrido. E tinha crescido até chegar a converter-se na viva imagem de sua mãe. Tyrus fora contratado para assassiná-la, a ela e a seu pai. Eliminar ao homem fora simples. Ocupar-se da menina deveria ser ainda mais fácil. Mas tinha uma babá que a custodiava, e essa mulher tinha lutado como gato de barriga para cima. Embora ele estivesse seguro de que a tinha ferido de morte, a babá até lhe tinha arrebatado a clava e lhe tinha golpeado com ela! Não esteve inconsciente muito tempo, mas sim o suficiente para que a babá tirasse a pequena da casa e a escondesse em alguma parte. Como não pôde encontrar à menina pensou que se havia escondido em algum esconderijo esperando a morte, e que seu corpo não chegou a descobrir. Mas isso não satisfez a seu cliente. Havia em jogo dinheiro, muito dinheiro, e aquele tipo se enfureceu tanto pela incompetência do Tyrus que não só se negou a lhe pagar, mas também tratou de matá-lo. Mas Tyrus, que o viu vir, conseguiu esquivar-se dos tiros e escapar. Durante os anos seguintes, o próprio Tyrus esteve furioso. Havia feito a metade do trabalho. Mas depois a sorte foi tão esquiva, que acreditou que esse trabalho sem concluir lhe tinha jogado mal olhado. Fosse qual fosse a tarefa que lhe encomendavam, a fazia de modo incompetente. Como consequência disso, tinham-o despedido tantas vezes que já perdeu a conta. 30

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