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- Estava pensando nisso mesmo, uma vez que não fui eu quem o pôs aí -replicou Jason.
- Não? Então quem foi?
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Anthony revirou os olhos, mas contribuiu para a explicação que dele se esperava....
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Uns instantes depois voltou a prestar atenção a conversa quando Amy disse:
- Nossos gêmeos desenvolveram cert...
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- Nem sonhe, moço pelo menos até que averigúe, por que quer me matar.
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- Não insista, idiota - zombou. - Sua esposa não está aqui para presenciar sua grande
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Anastasia chegara a querer muito a sir William no pouco tempo que estava com eles.
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  1. 1. JJJooohhhaaannnnnnaaa LLLiiinnndddssseeeyyy OOO MMMaaarrrqqquuuêêêsss eee aaa CCCiiigggaaannnaaa MALLORY 06 "Seguindo a tradição, a família Mallory estava para celebrar o Natal na antiga mansão de Haverston, quando encontram um enigmático presente de remetente desconhecido. Delicadamente embrulhadas, as páginas de um velho diário, aguardavam para revelar a desconhecida e indomada paixão, entre o primeiro marquês de Haverston e uma bela cigana. É a história dos bisavôs Christopher e Anastasia Malory . A história dos primeiros Mallorys, relata como o marquês conhece uma formosa cigana que viajava com sua avó e um grupo de ciganos itinerantes. Quando a avó percebe que vai morrer recomenda à formosa Anastasia procurar um homem que não seja cigano, e que permaneça com ele, para assim evitar um matrimônio com o filho do chefe do grupo cigano, que é um homem cruel. Então,eladecideseduzirChristopherparaquesecasecomela. Christopher Malory imediatamente se fixa na beleza da jovem cigana. Levado pela paixão e o estado de embriagez, acaba se casando com ela com o único propósito de levá-la para a cama. Mas quando Christopherpercebeoalcance de seus atos, sente-se horrorizado e sua jovem esposa parte para Londres. Anastasia, com a ajuda de um amigo de sua avó, Sir William, representará o papel da sobrinha dele. E com sua ajuda se tornará a sensação da temporada. Christopher tem a maior surpresa de sua vida ao encontrar a bela cigana entre uma das debutantes com mais êxito e rodeada de uma multidão de pretendentes. O ciúmes não demora a aparecer, fazendo com que Christopher se dê conta de seus verdadeiros sentimentos e que não deve fazer caso às convenções da época." Disponibilização/Tradução/Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie Revisão: Edith Suli Revisão Final: Danyela Formatação: Gisa PPRROOJJEETTOO RREEVVIISSOORRAASS TTRRAADDUUÇÇÕÕEESS
  2. 2. Mallory 06 2 CAPÍTULO 1 Inglaterra, 1825 Os Malory sempre passavam as festas natalinas em Haverston, a casa de campo ancestral onde nasceram e se criaram os mais velhos do clã. Jason Malory, terceiro marquês do Haverston e o mais velhos de quatro irmãos, era o único membro da família que continuava residindo de maneira permanente nela. Chefe de família desde a idade de dezesseis anos, Jason criou a seus irmãos. - As atividades dos quatro não podiam ser mais escandalosas - e a uma irmã pequena. Na atualidade os integrantes do clã e sua descendência eram tão numerosos quanto difíceis de localizar, às vezes inclusive para o próprio Jason. A consequência disso era que esses dias Haverston acolhia a uma autêntica multidão disposta a celebrar as festas natalinas. O único filho e herdeiro de Jason, Derek, foi o primeiro a chegar quando ainda faltava mais de uma semana para o Natal. Acompanhavam-lhe sua esposa, Kelsey, e os dois primeiros netos do Jason, um menino e uma menina, ambos loiros e de olhos azuis. Anthony, o mais jovem de seus irmãos, foi o seguinte a chegar poucos dias depois. Tony, como o chamavam quase todos, confessou-lhe que saíra fugindo de Londres assim que soube que seu irmão James tinha assuntos pendentes que esclarecer com ele. Enfurecer ao James era uma coisa, e algo que Anthony estava acostumado a tratar de conseguir, mas quando decidia sair à caça... Bom, então Tony optava pela prudência e preferia manter-se o mais afastado possível dele. Anthony e James eram seus irmãos mais jovens, mas entre eles só havia um ano de diferença. Ambos eram excelentes pugilistas e Anthony podia enfrentar aos melhores adversários, mas James era mais corpulento, e seus punhos estavam acostumados a ser comparados com um par de tijolos. Com Anthony chegou sua esposa, Roslyn, e suas duas filhas. Aos seis anos de idade Judith, a primogênita, saíra a seus pais e possuía tanto a magnífica cabeleira dourado avermelhada de sua mãe como os olhos azul cobalto de seu pai, uma combinação realmente impressionante que Anthony receava que faria dela a grande beleza de sua época, uma perspectiva que - em sua dupla condição de pai e antigo libertino reformado - achava francamente inquietante. Mas sua filha caçula, Jamie, também romperia alguns corações. Mas mesmo entre todos os convidados presentes, Jason foi o primeiro em fixar-se no presente que tinha aparecido na sala enquanto sua família estava tomando o café da manhã. Na realidade era bastante difícil passar por alto, já que estava colocado bem à vista em cima de um mesinha junto à chaminé. Envolto em um tecido dourado rodeado por uma fita de veludo vermelho rematada com um grande laço, tinha uma forma bastante curiosa e suas dimensões faziam pensar em um grosso livro, embora uma protuberância redonda na parte superior sugeria que não se tratava de nada tão simples. Empurrando-o com um dedo revelava-se que a protuberância podia ser deslocada, embora não muito, como descobriu Jason quando inclinou o presente para um lado e este não mudou de posição. Isso já era bastante curioso, mas ainda mais curioso era o fato de que não houvesse nenhuma indicação de quem era o presente, nem de quem o tinha deixado ali. - É um pouco cedo para começar a repartir os presentes natalinos, não?- observou Anthony quando entrou na sala para encontrar-se com Jason sustentando o presente. -Nem sequer trouxeram a árvore.
  3. 3. Mallory 06 3 - Estava pensando nisso mesmo, uma vez que não fui eu quem o pôs aí -replicou Jason. - Não? Então quem foi? - Não tenho nem idéia. - Bem, e para quem é? - perguntou Anthony. - Também eu gostaria de saber - admitiu Jason. Anthony arqueou uma sobrancelha. - Não havia nenhum cartão? Jason sacudiu a cabeça. - Não. Acabo de encontrar isso em cima desta mesinha - disse, e voltou a deixá-lo nela. Anthony também agarrou o presente para examiná-lo. - Hummm. Alguém o embrulhou com muito cuidado, disso não há dúvida. Aposto que fascinará às crianças pelo menos até que averiguemos o que é. Na realidade, também fascinou aos adultos. Durante os dias seguintes, e como ninguém da família admitiu havê-lo posto ali, o presente causou sensação. Praticamente todos os adultos o sopesaram, sacudiram ou submeteram a alguma classe de exame, mas nenhum conseguiu averiguar o que podia ser, ou para quem era. Os que já tinham chegado se reuniam na sala a noite em que Amy entrou nela com um de seus gêmeos nos braços. - Não me perguntem por que chegamos tarde, porque não acreditariam - disse e continuou falando depressa: - Primeiro à carruagem soltou uma roda. Depois um dos cavalos perdeu não uma, mas duas ferraduras a menos de um quilômetro daqui. Depois por fim quando conseguimos resolver o problema e já quase tínhamos chegado, o maldito eixo se partiu. Então eu já estava convencida de que Warren ia fazer em pedacinhos a carruagem. Deu-lhe um montão de pontapés, isso lhes posso assegurar. Se não me tivesse ocorrido apostar com ele que chegaríamos a Haverston hoje, acredito que agora não estaríamos aqui. Mas já sabem que nunca perco uma aposta, assim. Por certo, tio Jason, o que faz aquela tumba anônima na clareira que existe a leste daqui? Já sabe, que está junto à estrada que atravessa sua propriedade. No final tivemos que cruzá-la a pé, pois a essas alturas era o caminho mais curto, e por isso passamos pela clareira. A princípio ninguém disse uma palavra, já que todos ficaram um pouco assombrados por aquela longa dissertação. Mas finalmente Derek pôs fim ao silêncio. - Agora que fala dela, prima, eu também me lembro dessa tumba. Reggie e eu tropeçamos com ela quando éramos jovens e percorríamos a propriedade fazendo travessuras. Sempre tive intenção de lhe falar dela, pai, mas não se apresentou a ocasião e acabei esquecendo. Todos se voltaram para olhar a Jason, mas este se limitou a encolher seus robustos ombros. - Que me crucifiquem se souber quem repousa ali. Essa tumba esteve aí desde antes de que eu nascesse. Lembro que em uma ocasião perguntei a meu pai quem estava enterrado nela, mas começou a pigarrear e em seguida mudou de assunto, assim pensei que simplesmente não sabia e depois nunca voltei a perguntar-lhe. - Parece que todos tropeçamos com essa tumba alguma vez, ao menos aqueles que crescemos aqui -observou Anthony sem dirigir-se a ninguém em particular. - É um lugar estranho para uma tumba, e além disso muito bem cuidada, quando há dois cemitérios perto, para não mencionar o cemitério ancestral da propriedade. Judith, que tinha ficado junto à mesinha com o olhar fixo no misterioso presente, foi reunir- se à sua prima Amy para ajudá-la com a gêmea de dois anos. Judith era bastante alta para sua idade, e tinha muito jeito com as crianças. Amy se surpreendeu diante da ausência de boas vindas, e assim o disse. - Onde está meu abraço, gatinha? Aquelas deliciosas feições se limitaram a contemplá-la asperamente. Amy arqueou uma
  4. 4. Mallory 06 4 sobrancelha ao pai da jovem. Anthony revirou os olhos, mas contribuiu para a explicação que dele se esperava. - Está de mau humor porque Jack ainda não chegou. Jack era a filha mais velha de James e Georgina. Todos sabiam que Jack e Judith, que só tinham alguns meses de diferença, eram inseparáveis quando estavam juntas, e mostravam certa aflição quando ficavam muito tempo separadas. - Não estou de mau humor - resmungou Judith com uma careta enquanto voltava para a mesinha. Jason foi o único dos presentes em dar-se conta de que Amy só tinha olhos para o misterioso presente. Não teria dado maior importância, a não ser por sua expressão. O gesto fugaz que escureceu o rosto da Amy lhe fez perguntar-se se não estaria tendo um de seus pressentimentos. Sua sobrinha tinha uma sorte fenomenal: não tinha perdido uma aposta em sua vida, algo que ela atribuía a essas "intuições", como chamava as que tinha de vez em quando. Jason as considerava tão enigmáticas como incompreensíveis, por isso preferia ignorar se Amy tinha um de seus pressentimentos naquele momento. Por isso sentiu um grande alívio ao ver que o gesto se dissipava e voltava a dirigir a atenção a seu irmão. - Assim o tio James ainda não chegou - deduziu Amy. Anthony soltou uns quantos pigarros antes de falar. - Não, e esperemos que não o faça - disse finalmente. - Oh. Céus. Brigaram - Perguntou Amy. - Eu? Brigar com meu querido irmão? Jamais me ocorreria – replicou Anthony. -Mas alguém deveria me fazer o favor de lhe dizer que o Natal é época de alegria e também de bons sentimentos. Derek soltou um risinho ao ver a cara que seu tio fazia. - Ouvi rumores de que tio James lhe declarou guerra. O que acendeu o estopim esta vez? - Se soubesse então saberia como apagá-la, mas que me pendurem se sei. Não tornei a ver James desde que deixou Jack em casa depois de ter saído com as garotas, e isso já faz mais de uma semana. - Bem, suponho que James me teria avisado em caso de não pensar vir -observou Jason. - Assim quando chegar, espero que tenham a amabilidade de medir suas forças fora da casa. Molly não suporta ver manchas de sangue nos tapetes. Ninguém estranhava que chamasse a governanta de Haverston por seu nome de batismo. Além de tudo, Molly Fletcher estava há mais de vinte anos ocupando aquele posto. Entretanto, que também fosse amante de Jason desde há muito tempo -e mãe de Derek- não era algo de que todos os membros da família sabiam. De fato, só alguns deles conheciam a verdade, Jason não tinha informado disso ao Derek, seu filho, até há seis anos mais ou menos por essa data. E pouco antes daquele Natal já passado, Jason, que deplorava todos os escândalos relacionados com a família, estava disposto a criar um concedendo a sua esposa, Frances, o divórcio que queria, com o fim de evitar que revelasse o que sabia a respeito deles. Não obstante, Molly continuava sendo a governanta. Depois que Derek foi informado da situação, Jason não tinha conseguido nem um momento a convencê-la de que se casasse com ele, pois Molly continuava negando-se. Molly não era de boa família. De fato, quando ela e Jason se apaixonaram há mais de trinta anos, Molly só era uma criada. E embora ele estivesse disposto a armar um dos piores escândalos possíveis, o de que um respeitado lorde se casasse com uma mulher do povo, ela não estava disposta a permitir-lhe isso. Pensar nisso lhe arrancou um suspiro. Jason chegara à conclusão de que Molly nunca lhe daria a resposta que tanto desejava. O que não significava que se deu por vencido, certamente.
  5. 5. Mallory 06 5 Uns instantes depois voltou a prestar atenção a conversa quando Amy disse: - Nossos gêmeos desenvolveram certas peculiaridades. Às vezes se comportam de uma maneira muito estranha. Quando Stuart quer atrair a atenção de Warren, ignora-me como se fosse uma desconhecida e vice-versa, quando quer atrair minha atenção, então Warren deixa de existir para ele. E Glory faz exatamente o mesmo. - Ao menos o fazem ao mesmo tempo - acrescentou Warren, que por fim chegara, enquanto ia para o Stuart e confiava sua filha Gloriana aos cuidados da Amy. - Faz tempo que queria perguntar ao tio James e a tia George se estão tendo o mesmo problema com os seus - disse Amy com um suspiro. - Ainda não se acostumou a eles? -perguntou- Jason a Anthony, uma vez que este mantinha uma relação mais estreita com o James e o via com mais frequência, enquanto Jason não costumava ir a Londres. - É obvio que sim - assegurou Anthony abertamente. Mesmo assim, ninguém tinha esquecido como reagiu James quando Amy deu a luz gêmeos e perguntou a sua esposa Georgina, que era irmã de Warren e a que quase todos chamavam George, de onde tinham saído. - Santo Deus, George -disse, - poderia me ter avisado de que em sua família nascem gêmeos cada duas gerações. Bem , pois te advirto de que não quero gêmeos em nossa casa! Naquela ocasião Georgina tinha voltado a ficar grávida e isso foi precisamente o que deu a luz; gêmeos. Sim, pensou Jason, no Natal os Malory ofereciam um espetáculo realmente maravilhoso. A sua vida só faltava uma coisa para ser perfeita. CAPÍTULO 2 Em sua qualidade de governanta, Molly não costumava estar presente quando os Malory jantavam, mas hoje tinha que vigiar a uma nova criada que servia a mesa pela primeira vez. Uma longa experiência lhe permitia manter os olhos afastados do belo rosto do Jason, que estava sentado à cabeceira da mesa. Não era porque temesse delatar-se caso alguém a surpreendesse olhando-o, embora supunha que sempre havia essa possibilidade. Às vezes era simplesmente incapaz de dissimular seus sentimentos, e Molly tinha um montão de sentimentos que ocultar no que se referia a Jason Malory. Não, o que realmente a inquietava não era a possibilidade de delatar-se, mas sim o fato de que ultimamente Jason revelava muitas coisas quando a olhava e parecia não se importar que alguém pudesse dar-se conta disso. E com a casa enchendo-se rapidamente de toda a família, havia ainda mais pessoas que podiam perceber. Molly estava começando a suspeitar que Jason fazia de propósito, e que albergava a esperança de que fossem descobertos. Não que isso fosse fazê-la mudar de opinião, mas talvez Jason pensasse que sim. Mas isso não mudaria nada, e Molly teria que convencê-lo disso se não voltasse a tratá-la com sua indiferença habitual quando houvesse outras pessoas perto. Sempre tinham tido muitíssimo cuidado, sem delatar nunca seus sentimentos mediante olhares, palavras ou atos, se não estivessem sozinhos. Até que seu filho foi informado da verdade, a única pessoa que os surpreendeu em um momento de intimidade foi Amy, a sobrinha do Jason, quando os encontrou beijando-se. E isso não teria ocorrido se naquela época Jason não tivesse sido astutamente enganado. Manter em segredo sua relação sempre foi muito importante para Molly. Além de tudo ela não era de boa família, e amava muito ao Jason para lhe causar problemas. Foi pela mesma razão
  6. 6. Mallory 06 6 que convenceu a Jason de que Derek não devia saber que ela era sua mãe, embora ele não quisesse ocultar isso a seu filho. Naquela época Jason ainda não tinha tomado em consideração a possibilidade de casar-se com ela, naturalmente. Era jovem, e como todos os membros de sua classe, estava firmemente convencido de que um lorde não podia contrair matrimônio com uma amante de baixo berço. O que fez foi casar-se com a filha de um conde, pela única razão de proporcionar uma figura materna ao Derek e sua sobrinha Reggie. A decisão acabou demonstrando-se desastrosa, pois Frances, sua esposa, era pouco maternal. Pálida e magra, para começar não queria casar-se com Jason, mas seu pai a tinha instigado a isso. Não suportava que seu marido a tocasse, e seu matrimônio nunca chegou a consumar-se. Frances passou a maior parte do tempo separada de Jason para acabar exigindo o divórcio, recorrendo à chantagem para obtê-lo. Frances foi a única a deduzir que Molly era a amante do Jason e a mãe do Derek, e ameaçou contar tudo a Derek se Jason não pusesse fim a seu matrimônio. A família aceitou bastante bem aquele escândalo, e seis anos depois já quase nunca se falava disso. Jason pode impedir que chegasse a desencadear-se - Derek tinha descoberto a verdade antes de que o fato fosse público e se dessem todo tipo de falatórios, - mas não o fez. Isto é algo que devia ter sido feito há anos - lhe havia dito então -. De fato, este matrimônio nunca deveria acontecer. Mas corrigir os enganos da juventude raramente é fácil. Jason contraiu matrimônio por boas razões, e também as tinha tido para pôr fim a ele. Mas desde que se divorciou não tinha parado de pedir ao Molly que se casasse com ele, para grande frustração sua, pois sabia que Molly nunca concordaria. Molly se negaria a ser a causa de outro escândalo Malory. Tinham-na educado dessa maneira. E além disso, já era mais esposa para ele do que nunca foi Frances. Mas sabia que suas contínuas negativas a casar-se com ele, ou inclusive a permitir que revelasse seu amor ao resto da família, também eram há muito tempo uma fonte de frustração para Jason. Por isso temia que Jason abrigasse a esperança de que tudo acabasse saindo à luz devido a algum descuido. Não se tratava de que os olhares que lhe lançava fossem muito óbvias, ou ao menos nunca o seriam para a criadagem. Mas sua família já era outra questão. Conheciam- no muito bem. E logo todos estariam ali. Mais familiares chegaram no instante em que aqueles pensamentos lhe passavam pela cabeça. Reggie, a sobrinha do Jason e seu marido Nicholas junto com seu pequeno, entraram na sala de jantar quando ainda não haviam acabado de almoçar. Anthony logo se animou. Reggie possivelmente era sua sobrinha favorita, mas isso não salvava a seu marido. Nicholas era seu alvo verbal favorito, por assim dizer, e dada a ausência de seu irmão James, com quem sempre estava disposto a trocar sarcasmos, Anthony sentia falta de um alvo adequado para seu engenho satírico. Molly esteve a ponto de revirar os olhos, mas se conteve a tempo. Conhecia a família de Jason tão bem como ele, pois este compartilhava tudo com ela, e isso incluía todos os segredos, manias e escândalos familiares. Por isso não a surpreendeu o mínimo ouvir que Anthony dizia ao Nicholas, enquanto este se sentava em frente a ele: - Agradeço que tenha vindo, velho amigo. Estou tanto tempo sem morder a alguém que já começavam a me doer os dentes. - Os anos começam a fazer das suas, né? - respondeu Nick com um sorrizinho zombador. Molly percebeu que a esposa de Anthony lhe dava uma cotovelada antes de falar. - Recorda que é Natal, e procura ser agradável embora só seja por uma vez. As negras sobrancelhas de Anthony subiram em sua testa. - Por uma vez? Sempre sou agradável. E recordo-lhe que alguém pode ser agradável sem mais e ser realmente agradável. Este último fica reservado para quem realmente o merece, como
  7. 7. Mallory 06 7 por exemplo Éden. Molly suspirou. Queria muito a toda a família do Jason, mas sentia um carinho especial por Nicholas Éden, porque tinha travado amizade com seu filho em seus dias de escola, quando Derek teve de enfrentar com as consequências de que sua ilegitimidade se tinha tornado pública. Depois os dois tinham se tornado grandes amigos. Sendo típico nele, Derek se apressou a intervir para desviar de Nick a atenção de Anthony. - Reggie, lembra-se da tumba que descobrimos na clareira do leste há tantos anos? -disse a sua prima. - Parece-me recordar que então disse que perguntaria a um dos jardineiros se sabia algo a respeito dela. Chegou a fazê-lo alguma vez? Reggie lhe lançou um olhar atônito. - Céu santo, o que o fez pensar nessa velha tumba? Passou tanto tempo desde que a encontramos que me tinha esquecido totalmente dela. - Amy se tropeçou com ela ontem à noite e a mencionou. O pai nem sequer sabe a quem pertence. Reggie olhou a sua prima Amy. - E o que estava fazendo ontem à noite nessa clareira? - Não me pergunte isso -grunhiu Amy. E Warren, que obviamente agora achava muito engraçadas suas catástrofes do dia anterior uma vez que estas tinham ficado atrás, disse: - Tivemos um pequeno problema com a carruagem. - Um pequeno problema! -Amy bufou, coisa nada própria de uma dama. - Juro que essa carruagem está amaldiçoada. A quem disse que o tinha comprado, Warren? Porque não há dúvida de que te extorquiu. Seu marido soltou um risinho e lhe bateu na mão. - Não se preocupe por isso, amor. Estou seguro de que os diaristas a quem enviei ali esta manhã para que a desmantelassem saberão fazer bom uso dela. Amy assentiu e se voltou novamente para sua prima. - Ontem à noite tivemos que cruzar essa clareira a pé. É só que me surpreendeu encontrar uma tumba ali, tão longe das terras da família, embora ainda dentro da propriedade. - Agora que o diz, Derek e eu também ficamos muito surpreendidos ao tropeçar com ela há tantos anos -disse Reggie com voz pensativa. - Mas não, Derek, parece-me que não cheguei a falar disso com os jardineiros. Além de tudo, fica muito longe dos jardins. Pensei que quem quer que cuidasse dessa tumba provavelmente não viveria em Haverston, assim ir perguntando por aí não teria servido muito. - Ao menos que um dos jardineiros recebesse instruções específicas de ocupar-se dela - observou Anthony. - Quando eu vivia aqui o velho John Markus já era muito velho e fazia um montão de anos trabalhando em Haverston. Se havia alguém que pudesse saber algo sobre essa tumba, tinha que ser ele. Suponho que já não estará por aqui, né, Jason? Como todos outros, Molly voltou a cabeça para Jason ao ouvir sua resposta e viu a expressão de carinhosa ternura que havia em seu rosto enquanto a olhava. Uma onda de rubor lhe inflamou as faces. Tinha feito isso! Molly não podia acreditar que tivesse sido capaz de fazê-lo! E com a metade de sua família ali para vê-lo. Mas em realidade não havia motivos para alarmar-se. O olhar que lhe tinha lançado foi muito breve e ninguém havia virado a cabeça para averiguar a quem se dirigia, pois estavam muito interessados em sua resposta, que passou a dar naquele momento. - Em Haverston não- replicou. - Aposentou-se a coisa de quinze anos. Mas segundo as últimas notícias, ainda não morreu. Está vivendo com uma filha em Havers. - Pois então acho que esta tarde irei lá para apresentar meus respeitos ao senhor Markus - disse Derek.
  8. 8. Mallory 06 8 - Irei consigo - se ofereceu Reggie. - Ainda tenho que comprar alguns presentes de Natal, assim pensei em passar por Havers de qualquer maneira. Warren sacudiu a cabeça enquanto mostrava ar de perplexidade. - Não entendo a que vem toda esta mórbida curiosidade por uma velha tumba. É claro que não é de ninguém da família, já que do contrário os restos estariam enterrados na cripta familiar. - Suponho que lhe pareceria o mais normal do mundo que enterrassem a alguém em seu pátio traseiro, sem que ninguém se incomodasse em dizer-lhe quem era ou por que tinham escolhido seu pátio para lhe dar sepultura, não é verdade? - perguntou Anthony. - Isso é algo que ocorre a três por quatro na América, né, ianque? Refiro a de encontrar tumbas anônimas em sua propriedade, já sabe. - Imagino que pediu permissão a alguém e que esse alguém foi informado, em seu momento -replicou Warren. - Do contrário a tumba teria sido transladada a um lugar mais adequado em seu momento. E o que parece evidente é que a tumba tem mais anos que qualquer um de vocês, pois nenhum de vocês tem idéia de quando apareceu nem de quem está enterrado nela. - Bem, pois isso é o que mais me indigna de todo o assunto -interveio Reggie. - Quem quer que esteja enterrado ali foi completamente esquecido, e isso me parece lamentável. No mínimo, seu nome deveria ser acrescentado a essa lápide de pedra que se limita a enunciar ELA DESCANSA. - Acho que irei a Havers com vocês -disse Amy. - Esta tarde ia ajudar à Molly a descer o resto dos adornos natalinos do desvão, mas isso pode esperar até a noite. Molly estava certa de que de uma maneira ou outra acabaria inteirando-se do que descobrissem no Havers, mas no momento lhe dava igual o que pudessem averiguar. Com as faces ainda ruborizadas, saiu da sala de jantar sem que ninguém se dispusesse. Já estava pensando no que diria ao Jason aquela noite quando pudesse estar a sós com ele. Salvou-se pelos cabelos. Se seus parentes não tivessem estado tão interessados no assunto da tumba, ao menos um deles se teria dado conta da forma pela qual Jason a olhava. E esse teria sido o fim de seu segredo. Mas de que serviria falar? Não faria que Molly mudasse de parecer a respeito de casar-se com ele, por muito que desejasse que isto fosse possível. Mesmo assim, um dos dois devia dar exemplo de sensatez naquele assunto. Embora Jason se casasse com ela, Molly nunca seria aceita pela alta sociedade. Só conseguiria ser outro escândalo Malory. CAPÍTULO 3 A viagem a Havers não pôde ser mais insatisfatória. John Markus ainda vivia, e tinha alcançado a avançada idade de noventa e seis anos. Estava prostrado em seu leito, mas ainda conservava uma mente lúcida para sua idade e se lembrava da tumba. - Cuidei dessa tomba durante quase sessenta e oito anos - disse com orgulho ao grupo reunido em torno de sua cama. - Céus! - exclamou Reggie. - Isso quer dizer que a tumba já estava ali antes de que você nascesse, tio Jason. - Certo, pois então eu só contava treze anos -assentiu John. - Quando me aposentei faz quinze anos, confiei o cuidado da tumba a meu sobrinho. Era a única pessoa em quem confiava o suficiente para estar seguro de que tudo se faria como é devido. Espero que não terá descuidado de suas obrigações. - Não, John, é claro que não - lhe assegurou Jason, apesar de não ter nem idéia disso, pois fazia mais de trinta anos que não visitava a tumba.
  9. 9. Mallory 06 9 Mas não queria que o ancião se preocupasse, assim acrescentou: - Esteve fazendo um trabalho excelente, seriamente. - Agrada-nos muito ter dado com alguém que por fim poderá nos proporcionar informação a respeito dessa tumba, senhor Markus - lhe disse Reggie, passando ao assunto que tinha levado até ali a aquela boa representação de clã Malory. - Todos ardemos no desejo de saber quem está enterrado ali. O ancião franziu o sobrecenho. - Querem saber quem está enterrado ali? Bom, pois a verdade é que não sei. O silêncio que seguiu a essa resposta esteve impregnado de surpresa e desilusão. Foi Derek quem finalmente o rompeu. - E então por que cuidou da tumba durante todos esses anos? - Porque ela me pediu que o fizesse. - Ela? - perguntou Jason. - Sua avó, lorde Jason. Eu teria feito qualquer coisa por essa boa senhora. No Haverston todos a apreciavam muito. Ah, sim, sua avó sempre foi muito querida por todos e não como seu avô. Ao menos não quando era jovem, certamente. Meia dúzia de testas se franziram, mas foi Jason quem tomou a palavra. - Desculpe, mas temo que não lhe entendi bem - disse com certa indignação. O ancião que já era muito velho para sentir-se intimidado pela ira do Jason Malory, soltou um risinho. - Não pretendi lhe faltar ao respeito, milorde, mas o primeiro marquês nunca soube fazer-se querer, embora isso fosse bastante habitual entre os aristocratas de sua época. A coroa lhe deu Haverston, mas nem a propriedade nem sua gente lhe importava muito. Preferia Londres e só ia à mansão uma vez ao ano para escutar o relatório de seu administrador, que era um dandy arrogante que governava Haverston como um tirano quando o marquês não estava ali. - Um testamento bastante duro contra um homem que não pode defender-se a si mesmo - disse Jason secamente. John encolheu seus magros ombros antes de responder: - Meramente a verdade tal como eu a vi, mas isso foi antes de que o marquês conhecesse lady Anna e se casasse com ela. Lady Anna mudou-o porque lhe ensinou a apreciar as pequenas coisas da vida e apaziguou seu caráter. Haverston deixou de ser uma espécie de escura prisão em que só se vivia para trabalhar para ser um lugar que sua gente se orgulhava de chamar lar. Claro que os rumores foram uma autêntica lástima. - Rumores? - Reggie franziu o cenho. - Oh, refere-se ao de que ela era cigana? - Sim, a esses rumores me referia. Tinha aspecto de estrangeira e falava com sotaque, e como deu-se a casualidade de que tinha havido ciganos por ali justo antes de que ela aparecesse, a alguns se colocou essa ridícula idéia na cabeça. Mas o marquês pôs fim a todos esses rumores quando se casou com lady Anna. Além de tudo, um nobre como ele nunca se casaria com alguém que estivesse tão abaixo de sua classe, não é verdade? Jason interceptou o sorriso de seu filho um instante antes de ouvi-lo dizer que isso dependeria do nobre, e se viu obrigado a lhe pedir silêncio com o olhar. O resto da família não precisava saber -ainda- que ele também nutria a esperança de poder dar preferência a seu coração. John sacudiu a cabeça. - Naquela época essas coisas simplesmente não se faziam, lorde Derek. Hoje em dia possivelmente se façam, mas há oitenta anos um escândalo semelhante teria significado a ruína de um homem. - Bem, finalmente tudo ficou em rumores - observou Jason por sua vez, - dado que nunca se pôde demonstrar nenhuma coisa nem outra. Mas os rumores não chegaram a desaparecer de tudo, já que do contrário agora não se saberia nada do assunto. Mas como acaba de dizer, hoje em
  10. 10. Mallory 06 10 dia se Anna Malory era cigana ou de origem espanhola, como pensava a maioria, carece de importância. Só ela poderia nos tirar da dúvida, mas meus avós morreram antes de que eu nascesse. Sinto não havê-los conhecido. - Eu sempre desejei saber a verdade sobre ela - disse Amy. - Lembro que em pequena me fascinava essa possibilidade, e antes de que me perguntem por que, recordem que saí a ela, ou isso me disseram. Queria acreditar que realmente era uma cigana, e ainda desejo que o fosse. - Pelo menos isso explicaria de onde tirou esses instintos tão sagazes que nunca se enganaram. Deve ser verdadeiro amor. - Demônios, se é verdade amor, então me alegro de que nosso antepassado se desse conta disso -interveio Derek. - Alguns homens demoram anos e anos... Jason não passou por cima da sutil indireta que lhe estava lançando seu filho, mas falou antes de que alguém mais pudesse percebê-la. -Não havia dito que tinha que fazer algumas compras no Havers, Derek? Seu filho se limitou a sorrir de novo, sem arrepender-se do que havia dito. Jason suspirou para si mesmo. Sabia que Derek só estava zombando. Em realidade, Derek era o único da família que se atrevia a zombar dele. E ninguém mais, estava por dentro de quem era Molly em realidade, teria percebido que estava zombando de seu pai. Mas naturalmente, Derek sabia que Jason estava há muito tempo tentando convencer Molly de que aceitasse a casar-se com ele. - Hummm. Pergunto-me por que nunca me ocorreu fazer isso com a Anna Malory - murmurou Amy, voltando a atrair a atenção de todos os presentes. - Fazer o que? - perguntou mais de um Malory ao uníssono. - Apostar que descobriríamos a verdade a respeito dela. Alguém quer aceitar a aposta antes de que... ? Mas Jason a interrompeu. - Preferiria que esta especulação terminasse aqui. Amy o olhou com expressão séria. - Na realidade não quer saber a verdade, né, tio Jason? - Eu não diria isso, querida. É só que não quero ver como estraga seu impecável histórico de apostas ganhas por algo que não pode vir à luz. Isso suporia um golpe terrível para você, não é verdade? O suspiro da Amy lhe bastou como resposta, mas não conseguiu tranquilizá-la por completo. Além de tudo, Jason era muito consciente de que ter tudo em contra nunca lhe tinha impedido de seguir o ditado de seus instintos no passado. CAPÍTULO 4 Depois de jantar a família se dispersou pela grande mansão. Molly tinha desembrulhado com muito cuidado a maior parte da parafernália natalina que estava no desvão1 , em princípios da semana, e foi Molly, que estava chegando ao final da escada, quem ouviu como um cavalo a galope se detinha ante a casa e foi ver quem vinha visitá-los uma hora tão avançada. Ia abrir a porta quando esta se abriu de fora e James, o irmão do Jason, quase a atirou ao chão quando entrou a toda pressa fugindo do frio. Apesar da brutalidade de sua entrada, Molly estava encantada de vê-lo chegar por fim embora fosse tão tarde, e se dispôs a lhe dar as boas-vindas. - Feliz Natal, Ja... - começou a dizer. 1 Desvão - vão formado entre o forro e o telhado
  11. 11. Mallory 06 11 Mas James a interrompeu sem lhe dar tempo para que terminasse de falar. - Feliz uma droga -disse secamente. Mesmo assim, deteve-se o tempo suficiente para lhe dirigir um breve sorriso e acrescentar: - Me alegro de vê-la, Molly. Onde está o inútil de meu irmão? Molly ficou bastante surpreendida para lhe perguntar de que irmão se tratava, quando sabia muito bem que ele nunca se referiria ao Edward ou Jason, a quem os dois irmãos mais jovens chamavam os velhos, empregando esses termos. Mas naturalmente Jason compartilhava tudo o que se referia a sua família com ela, e em consequência Molly conhecia os Malory tão bem como ele. Por isso a depreciativa resposta de James não fez com que se sentisse mais surpreendida do que já estava. - O menino. Molly não pôde evitar um gesto de estranheza ao ver sua expressão, que se tinha convertido em uma careta ameaçadora com aquela menção. James Malory era robusto, loiro e bonito, igual a seus irmãos mais velhos, e raramente o via furioso. Quando James estava zangado com alguém, normalmente estripava impassivelmente à pessoa em questão mediante seu diabólico engenho e, graças ao inescrutável de sua expressão, nada advertia a vítima de que dardos tão afiados cairiam sobre ela. O menino - ou melhor dizendo, Anthony - tinha ouvido a voz do James e desgraçadamente colocou a cabeça pela porta do vestíbulo para determinar de que humor vinha, coisa que não lhe custou muito averiguar tendo em conta o abominável olhar que recebeu. Provavelmente por essa razão a porta da sala se fechou imediatamente. - Oh, céus - exclamou Molly enquanto James ia para a porta feito um furacão. Com o passar dos anos se acostumou à maneira de ser dos Malory, mas às vezes ainda a alarmava. O que teve lugar a seguir foi uma espécie de competição, por assim dizer, com o James aplicando seu considerável peso à porta da sala e Anthony do outro lado fazendo todo o possível para evitar que esta se abrisse. Durante um momento Anthony conseguiu sair-se bem. Não era tão corpulento como seu irmão, mas era mais alto e tinha bons músculos. Mas tinha que saber que não poderia aguentar indefinidamente, sobretudo quando James começou a investir na porta com o ombro, o que fazia com que esta ficasse meio aberta antes de que Anthony conseguisse voltar a fechá-la com uma batida. Mas o que fez Anthony para solucionar seu dilema arrancou um segundo "Oh, céus" de Molly. Quando James se dispunha a descarregar seu peso sobre a porta pela terceira vez, esta se abriu diante dele e infelizmente James não pôde frear sua irrupção na estadia. Um grande estrépito seguiu a sua entrada. Momentos depois James voltava ficar de pé e sacudia agulhas de pinheiro dos ombros. Reggie e Molly, alarmadas pelo barulho, apressaram-se a seguir a James ao interior da sala. Anthony tinha pego sua filha nos braços Jamie, que esteve contemplando a árvore de Natal com sua babá, e a segurava diante dele como se fosse um escudo enquanto a árvore jazia lamentavelmente derrubada no chão. Anthony sabia que seu irmão nunca se arriscaria a fazer mal a alguma das crianças por nenhuma razão, e o artifício funcionou. - Crianças escondendo-se atrás de crianças , né? Que oportuno - zombou James. - É, não é verdade? - Anthony sorriu e depositou um beijo sobre o cocuruto de sua filha. - Ao menos dá resultado. James, a quem a brincadeira não fazia nenhuma graça, ordenou, melhor, ladrou: - Deixe no chão a minha sobrinha.
  12. 12. Mallory 06 12 - Nem sonhe, moço pelo menos até que averigúe, por que quer me matar. Roslynn, a esposa de Anthony, que estava inclinada sobre uma das gêmeas, nem se voltou para dizer: - Nada de assassinatos diante das crianças, de acordo? O sorriso com que Anthony acolheu suas palavras ganhou o erguimento de uma sobrancelha dourada por parte do James. Conhecendo seu irmão, isso advertia-lhe que o que se avizinhava não ia ser de seu agrado. E James não o fez esperar, dizendo: - Pergunte-se o que acontece quando Jack, sem razão, solta um "Por todos os malditos infernos!" diante de sua mãe. Depois pergunte-se o que acontece quando George pergunta a sua filha onde ouviu semelhante frase. Depois imagine o que acontece quando Jack, que não tem nem idéia de que acaba de deixar horrorizada a sua mãe, responde com voz cantante que tio Tony levou Judy e ela ao Hall do Knighton. Finalmente, imagine a George vindo em minha busca feita um furacão para me perguntar por que permiti que levasse a nossas filhas a esse estabelecimento estritamente masculino no qual o sangue corre a torrentes pelo ringue, onde os espectadores soltam os mais horríveis juramentos imagináveis quando seu adversário é atirado na lona, e onde se fala com toda liberdade de certos assuntos sobre os quais as meninas de seis anos nunca deveriam ouvir falar. E logo imagine George não me acreditando quando lhe digo que eu não sabia que pudesse ser tão condenadamente irresponsável. Considerou-me responsável por ter permitido que as levasse ali. E como eu nem sequer sabia que fosse fazer isso, adivinha a quem considero responsável pelo ocorrido! Depois daquela longa crítica até Reggie respirou fundo. A princípio Anthony tinha parecido bastante perplexo, mas agora o via francamente incomodado, especialmente quando sua esposa voltou para ele seus olhos avelã salpicados de pontos dourados, com seu temperamento escocês obviamente a ponto de fazer erupção. - Homem de Deus, não posso acreditar o que acabo de ouvir. Fez isso? Realmente foi capaz de levar Judy e Jack nada menos que ao Hall do Knighton? Não sabia o dano que isso podia fazer a umas garotinhas tão impressionáveis? Anthony torceu o gesto e tratou de explicar-se. - Não foi assim, Ros, seriamente que não foi assim. Eu estava levando às meninas ao parque. Passei pelo Knighton com a idéia de entrar um momento para falar com o Amherst. Você me tinha pedido que os convidasse para jantar a ele e ao Frances, e eu sabia que a essa hora do dia ele estaria no Hall do Knighton. Como ia imaginar que as garotas sairiam correndo da carruagem e me seguiriam ao interior do local? - Quando todo mundo sabe que essas duas riquezas sempre estão se colocando onde não devem? -respondeu ela secamente e depois se voltou para Reggie: - Ocupe-se do outro par - disse enquanto levava às gêmeas. - Deixaremos que James siga em frente com seu assassinato. - Reggie tentou ocultar seu sorriso enquanto agarrava Jamie nos braços de Anthony e tomava à outra pequena pela mão, depois de que seguiu Roslynn para fora da estadia. Tudo se fez em questão de momentos, já que as mulheres sempre eram muito eficientes com as crianças. James se apoiou na porta depois que esta se fechou, cruzou os braços sobre seu descomunal peito e olhou a seu atônito irmão. - O que sente, velho amigo? - perguntou. - Pelo menos quando saiu correndo daqui, sua esposa ainda lhe falava, enquanto que George está há uma semana sem me dirigir a palavra. - Oh, demônios - grunhiu Anthony. - Quer deixar de me culpar? Já ouviu o que falei. Além de tudo não é como se tivesse levado deliberadamente às meninas ao Knighton. Poderia ter acontecido a você o mesmo, já sabe. - Permita-me discordar -replicou James laconicamente. - Não sou tão condenadamente
  13. 13. Mallory 06 13 estúpido. Anthony corou de ira, mas foi o fato de sentir-se um pouco culpado o que obrigou-o a replicar da maneira como fez. - Gostou disso. Assim quer me dar uma lição, né? E não estará contente enquanto não o fizer, Não é verdade? Bem, pois aqui me tem: se sirva. - Será um prazer. CAPÍTULO 5 Os problemas com os criados suscitados pela presença de tantos convidados na mansão deixaram Molly esgotada, a qual se orgulhava de que tudo andava sobre rodas. Por isso, e embora quisesse expor suas suspeitas a Jason, aquela noite ficou adormecida enquanto esperava que ele fosse a seu quarto. Jason foi a seu quarto, tal como tinha por costume, e continuava ali, em sua cama, quando Molly despertou na manhã seguinte. De fato, era sua mão lhe acariciando suavemente seus seios e seus lábios sobre seu pescoço o que a despertaram. E embora se lembrasse quase imediatamente de que estava zangada com ele, optou egoisticamente por guardar o aborrecimento no momento e se voltou para ele para que Jason pudesse chegar mais facilmente às partes de seu corpo pelas quais estava mostrando tanto interesse. Molly suspirou e o rodeou com os braços. Queria tanto a aquele homem! Mesmo depois de mais de trinta anos, suas carícias ainda a excitavam tremendamente e seus beijos eram capazes de inflamar a paixão com tanta facilidade como quando eram jovens. E Molly sabia que ela tinha o mesmo efeito sobre ele. Não demoraram muito em começar a beijar-se ardentemente, e Molly soube aonde conduziria isso, como com efeito ocorreu. Mas estava preparada para acolhê-lo. Sempre estava. Molly supunha que essa era uma das consequências mais deliciosas de amar a alguém ao mesmo tempo que o desejava. E Jason sempre aplicava uma grande diligência a todas suas empreitadas. Fez amor com generosidade e de maneira imensamente satisfatória, como fazia sempre. - Bom dia -disse ele, recostando-se no travesseiro para lhe sorrir assim que os dois recuperaram a compostura. Um dia podia ser estragado com muita facilidade, mas Jason sempre sabia como fazer que começasse "com bom pé". Molly lhe devolveu o sorriso e depois o estreitou ainda mais apaixonadamente entre seus braços antes de soltá-lo, possivelmente porque sabia que ia brigar com ele antes que se separassem e queria suavizar o golpe. Além de seu filho, o resto da família via nele uma figura séria e impressionante que podia chegar a inspirar até temor. Além de tudo, Jason estava à frente da família Malory e tinha tido que carregar com a responsabilidade de educar aos mais jovens quando ele mesmo era um jovem. Mas Molly conhecia suas outras facetas, seu encanto, ternura e senso de humor. Jason se tinha acostumado às ocultar diante de outros devido a sua posição, mas não com ela, nunca com ela - salvo, naturalmente, quando não estavam a sós. Isso era o que tanto lhe frustrava, mas Molly não via maneira de eliminar aquele obstáculo. Jason queria tratá-la todo o tempo tal como a tratava quando estavam sozinhos, mas para fazê-lo tinha que casar-se com ela, e Molly não o permitiria. E a insistência dele em que se casassem e a continuada negativa dela estavam começando a afetar a sua relação. Um deles teria que ceder e, no que concernia à Molly, não ia ser ela. Molly já quase acabara de vestir-se antes de abrir a boca para lhe azedar a manhã, mas teria que fazê-lo. - Terei que me esconder de você durante o dia enquanto sua família estiver aqui, Jason?
  14. 14. Mallory 06 14 Ele se endireitou na cama, na qual esteve contemplando-a languidamente enquanto Molly se ocupava com seus acertos matinais. - A que se deve essa pergunta? - Já não se lembra de como me olhava ontem à noite na sala de jantar, sem que parecesse se importar que qualquer dos presentes pudesse notar? E além disso, não é a primeira vez. No que estava pensando para esquecer de semelhante forma que só sou sua governanta? - No fato de que é algo mais que minha governanta, possivelmente? - replicou ele, mas depois suspirou e admitiu sua falta. - Acho que é pela época do ano em que nos encontramos, Molly. Não posso evitar me lembrar de que foi no Natal quando Derek conseguiu convencer ao Kelsey de que se casasse com ele, e suas razões eram as mesmas que as suas. Surpreendeu-a ouvi-lo dizer que eram as festas natalinas que o faziam pensar naquele assunto, e se apressou a protestar. - Mas há uma grande diferença e você sabe. Santo Deus, Jason, ela descende de um duque. Com uma família tão ilustre como a sua, qualquer um pode ser perdoado. E além disso o escândalo que ela tanto temia foi devidamente evitado. Em seu caso, o escândalo seria inevitável. - Quantas vezes tenho que lhe repetir que tanto faz para mim? Quero que seja minha esposa, Molly. Faz anos que obtive uma licença de matrimônio especial para me casar com você. A única coisa que tem de fazer é dizer sim, e poderíamos nos casar hoje mesmo. - Oh, Jason, vai me fazer chorar - disse ela com tristeza. - Já sabe que nada eu gostaria mais. Mas um de nós tem que pensar nas consequências e, dado que você não quer fazê-lo, terei que ser eu quem pensa nelas. E permitir que sua família saiba, que é o que parece estar tratando de conseguir comportando como está fazendo ultimamente, não mudará nada: a única coisa que conseguiria com isso seria me colocar em uma situação tão humilhante como vergonhosa. Nesta casa recebo um certo respeito. Se chegarem a saber que sou sua amante, perderei isso. Então ele foi para ela, completamente nu como ainda estava, para tomá-la entre seus braços. Molly ouviu-o suspirar antes de dizer: - Deveria pensar com o coração. - E você deveria pensar com a cabeça, coisa que ultimamente não faz - replicou. Ele se virou para trás para lhe sorrir melancolicamente. - Bom, ao menos nisso podemos estar de acordo. A mão dela subiu para sua face para acariciá-lo. Desta vez foi ela quem suspirou. - Esquece, Jason, porque isso nunca poderá ser. Sinto ter nascido em uma família humilde. Sinto que as pessoas de sua classe nunca vão aceitar que possa formar parte dela, tanto se casar comigo como se não o fizer. Não posso mudar nada disso. Só posso continuar amando-o e procurando fazê-lo feliz da melhor maneira que puder. Terá que esquecer. - Já sabe que nunca o aceitarei -foi sua teimosa e certamente esperada réplica. Desta vez foi ela que suspirou. - Sei. - Mas farei o esforço que me pede e tratarei de te ignorar durante o dia, pelo menos quando minha família estiver perto. Molly quase voltou a rir. Ultimamente custava muito convencer Jason de que desse o braço a torcer, pelo menos no referente a aquele assunto. Molly supôs que teria que conformar-se com aquilo no momento. CAPÍTULO 6 Quando James entrou na sala do pequeno-almoço naquela manhã para tomar o café, sua aparição provocou reações muito variadas. Os que não sabiam que chegara iniciaram alegres
  15. 15. Mallory 06 15 saudações que morreram entre balbucios e tosses assim que viram a expressão que havia em seu rosto. Quem estava sabendo de sua chegada e do que ocorrera posteriormente, optaram pelo tato e guardaram silêncio, sorrindo de orelha a orelha, ou cometeram a temeridade de fazer alguma observação a respeito. Jeremy ficou incluído simultaneamente nestas duas categorias quando soltou um risinho e disse: - Bem, ainda não tendo em conta seus enérgicos esforços para lhe descer as fumaças, estou seguro de que não é a pobre árvore de Natal quem lhe fez isso. - E se não se lembra mau, o certo é que consegui lhe dar uma boa lição - grunhiu James, embora lhe tenha ocorrido perguntar: - Recuperará-se de suas feridas, pequeno? - Só perdeu algumas plumas, mas essas preciosas penazinhas o deixarão tão disfarçado que ninguém o notará contanto que, alguém que não eu, seja encarregado de acabar de espalhá-las. Sempre me pareceu melhor pendurar o azevinho. - E fazer bom uso dele - observou Amy, dirigindo um carinhoso sorriso a seu belo primo. Jeremy lhe piscou um olho. - Por descontado. Jeremy tinha completado os vinte e cinco não fazia muito tempo, e era um rapaz encantador. Ironicamente, parecia-se tanto a seu tio Anthony que se poderia tomá-lo como reflexo do Anthony durante sua juventude. Mas em vez de sair a seu pai, Jeremy tinha os olhos azul cobalto e o cabelo negro que só possuíam alguns Malory, aqueles que herdaram os traços dessa antepassada que se murmurava ter sido cigana. A menção do azevinho e o uso pelo que era mais conhecido voltou a por James de mau humor, porque sabia que aquele ano não poderia dar nenhum beijo sob o verde adorno natalino, depois que sua esposa se negara a ir a Haverston com ele porque tinha um aborrecimento próprio que digerir. Maldição. De uma maneira ou outra, James esclareceria o mal-entendido que tinha surgido entre eles. Desafogar sua frustração no Anthony não tinha servido de nada embora pensando bem, talvez sim teria servido de algo. Warren, sem afastar o olhar do esplêndido olho arroxeado e dos diferentes arranhões espalhados pelo rosto do James, observou: - Não quero nem pensar em que aspecto terá a outra parte. James supôs que isso era uma espécie de cumprimento, pois Warren tinha tido numerosas ocasiões de experimentar na própria carne a potência de seus punhos. - Pois eu gostaria de felicitar à outra parte - disse Nicholas com um sorrizinho, graças ao qual conseguiu que sua esposa lhe desse um pontapé por debaixo da mesa. - Obrigado, querida -disse James inclinando a cabeça para ela. - Meu pé nunca poderia chegar tão longe. Reggie corou ao ver que seu pontapé não tinha passado desapercebido. E Nicholas arrumou para olhá-la com ironia ao mesmo tempo que mantinha sua careta de dor, com o que adquiriu um aspecto francamente cômico, pois uma expressão não combinava nada bem com a outra. - Tio Tony continua entre os vivos? - perguntou Amy, provavelmente porque a noite anterior nem James nem seu irmão haviam voltado a fazer ato de presença no piso térreo. - Me dê alguns dias para determiná-lo, gatinha, porque asseguro que neste momento não tenho nada claro - disse Anthony enquanto entrava na sala, andando muito devagar e com um braço junto ao flanco como se estivesse protegendo algumas costelas quebradas. Um gemido melodramático escapou de seus lábios quando se sentou em frente de seu irmão. James revirou os olhos ao ouvi-lo.
  16. 16. Mallory 06 16 - Não insista, idiota - zombou. - Sua esposa não está aqui para presenciar sua grande interpretação. - Não está aqui? -Anthony percorreu a mesa com o olhar e depois torceu o gesto e se ajeitou em seu assento, esta vez sem nenhum acompanhamento de gemidos. Mesmo assim, queixou-se ao James: - Quebrou-me as costelas, sabe. - E um chifre, embora admita que pensei nisso. E dito de passagem, ainda não descartei essa opção. Anthony o fulminou com o olhar. - Somos muito velhos para andarmos dando surras um no outro. - Fala por você, avozinho. Nunca se é muito velho para fazer um pouco de exercício. - Ah, então isso foi o que estivemos fazendo - resmungou Anthony enquanto acariciava seu olho negro. - Fazíamos exercício, não é verdade? James arqueou uma sobrancelha. - E não é isso o que faz uma vez por semana no Hall do Knighton? Mas compreendo que não o deixe muito claro, pois está mais acostumado a infligir os danos que a padecê-los. Isso tende a deformar sua perspectiva das coisas, não é verdade? Me alegro de lhe poder esclarecer isso Anthony, Entretanto, soltou um resmungo de irritação. Foi nesse momento que Jason entrou na sala, lançou um olhar aos maltratados rostos de seus dois irmãos e observou: - Santo Deus, e nesta época do ano, nada menos? Verei aos dois em meu escritório. O fato de Jason empregar esse tom que não devia ser desobedecido e pelo qual chegara a ser famoso e que abandonasse o sala depois de ter falado, deixou muito claro, ao menos a olhos do James e Anthony, que deviam segui-lo imediatamente. James se levantou com o rosto inexpressivo e rodeou a mesa. Anthony, entretanto, bufou de irritação. - Castigados com o rosto na parede em nossos anos? Não posso acreditar. E não esquecerei quem foi o causador disso. - Oh, se cale de uma vez, menino - disse James, agarrando-o pelo braço e obrigando-o a sair da sala com ele. - Faz tanto tempo sem ter o prazer de assistir a uma das reprimenda do Jason que sentia falta do espetáculo. - Não é de estranhar -replicou Anthony, visivelmente aborrecido. - Sempre desfrutava fazendo-o ralhar. James sorriu sem dar nenhum sinal de arrependimento. - Sim, é verdade? Bem o que posso dizer? Quando perde os estribos, o irmão mais velho sempre é muito engraçado. - Bem, nesse caso nos asseguremos de que encontre os estribos perdidos em seu bolso e não no meu - repôs Anthony e, abrindo a porta do estúdio do Jason, em seguida começou a atribuir as responsabilidades à pessoa que devia carregar com elas. - Verá, Jason, ontem à noite tentei acalmar a esta montanha humana, seriamente, mas não houve maneira. Culpa-me de... - Montanha humana? - interrompeu-o James, uma dourada sobrancelha bruscamente arqueada. - De que George não lhe fala - continuou dizendo Anthony sem alterar-se. - E além disso conseguiu que os dois estejamos no mesmo maldito navio, porque desde ontem à noite Roslynn não me dirige a palavra. - Montanha humana? - repetiu James. Anthony olhou-o e sorriu zombeteiramente. - Da estatura adequada, acredite-me Jason, que estava de pé atrás de sua secretaria, fez
  17. 17. Mallory 06 17 calar os dois com uma ordem seca. - Basta! E agora, tenham a bondade de me fazer saber dos porquês e as das circunstâncias. James sorriu - Faça-o, Tony - disse-, porque a verdade é que saltaste a melhor parte. Anthony suspirou e olhou a seu irmão mais velho. - Foi um caso de autêntica má sorte, Jason, seriamente - disse, - e a verdade é que poderia acontecer a qualquer de nós. Jack e Judy tramaram para entrar em Hall do Knighton quando eu estava distraído e, só porque tinha que cuidar delas durante esse dia, agora me culpa de todo o ocorrido pela simples razão de que as pobrezinhas aprenderam algumas frases que não deveriam figurar no vocabulário de nenhuma jovem. - Sua exposição dos fatos não se ajusta à verdade -interveio James. - Esqueceu de mencionar que George não o culpa de nada porque me culpa, como se eu pudesse ter sabido que foi bastante insensato para levar às meninas a semelhante lugar. - Eu arrumarei as coisas com George assim que chegue aqui - balbuciou Anthony. -Pode contar com isso. - Oh, sei que o fará, mas para isso terá que ir a Londres, porque George não virá aqui. Não queria estragar a festa com seu mau humor, assim decidiu que seria melhor não estar presente nela. Anthony ficou com ar de horror. - Não me disse que estava tão furiosa! - queixou-se. - Não? Acha que tem esse olho preto só porque George estava um pouquinho zangada? - É suficiente -disse Jason severamente. - Toda esta situação é intolerável. E, francamente, assombra-me que desde que se casaram puderam perder até tal extremo sua habilidade para dirigir às mulheres. Aquela observação era um autêntico golpe baixo, sobretudo quando ia dirigida a dois ex- libertinos. - Oh, bem - resmungou James, e se apressou a defender-se. - As mulheres americanas constituem uma exceção a qualquer regra conhecida, e além disso são condenadamente teimosas. - E as escocesas também -acrescentou Anthony. - Não se comportam como as inglesas normais, Jason, seriamente. - Mesmo assim, continuo sem entender. Sabem como é importante para mim que toda a família se reúna aqui durante as festas. O Natal não é momento para que ninguém da família albergue absolutamente nenhuma classe de rancor para alguém. Teriam que ter esclarecido este assunto entre vocês antes que começassem as festas. Quero que ponham fim a este mal-entendido imediatamente, e me é igual que tenham de voltar para Londres para isso. Depois de ter decretado a paz, Jason foi para a porta para que seus irmãos pudessem resolver seus pecados a sós, mas antes de sair acrescentou: - Parecem um condenado par de ursos panda. Têm idéia do exemplo que estão dando às crianças? - Ursos panda, né? - resmungou Anthony apenas a porta do estúdio se fechou. - Poderia ter sido pior: ao menos o teto segue intacto - murmurou zombeteiramente James enquanto olhava para cima. CAPÍTULO 7 Embora tivesse prometido não vir, a esposa de James apareceu com as crianças na última hora da manhã seguinte. Georgina também trouxe consigo a seus irmãos, para grande consternação de James, quem nunca se deu muito bem com seus numerosos cunhados americanos
  18. 18. Mallory 06 18 e não tinha sido avisado de que aquele ano passariam as festas na Inglaterra. Embora estivesse muito contente de que sua melhor amiga tivesse chegado enfim, Judy a recebeu com um "Já era hora" despótico, agarrando a mão de Jack apenas esta cruzou a soleira da porta e levando-a à sala para que visse "o presente", como já era conhecido por todos a essas alturas. As duas meninas passaram a maior parte do resto do dia com os dedos junto à mesinha, que era quase tão alta como elas, enquanto trocavam murmúrios centrados no misterioso objeto. Seu ávido interesse, não obstante, conseguiu que o presente monopolizasse de novo a atenção dos adultos da casa, que não podiam evitar fixar-se naquele par de meninas que pareciam estar montando guarda junto a ele. Coisa estranha, a curiosidade. Às vezes, um excesso dela pode chegar a tornar-se simplesmente incontida... Mas uma vez no corredor -e depois de limitar- se a dirigir uma seca inclinação de cabeça aos irmãos da Georgina, apesar do resto de sua família voltar-se para eles afim de dar-lhes as boas-vindas-, James seguiu a sua esposa ao piso de cima para ir ao quarto que sempre tinham compartilhado em Haverston, enquanto a babá levava aos gêmeos ao quarto das crianças. Georgina ainda não lhe tinha dirigido a palavra, o que não convidava a nutrir muitas esperanças de que já não estivesse zangada com ele por muito que tivesse feito ato de presença. - Disse que não iria vir, George - disse ele, decidindo recordar-lhe. - O que a fez mudar de opinião? A resposta demorou um pouco a chegar, pois um criado os tinha seguido ao interior do quarto com um de seus baús, que Georgina se dispôs a esvaziar. James, ouvindo outro criado vir pelo corredor, apressou-se a fechar a porta e se apoiou nela. James contemplou a sua esposa, coisa que não era nada difícil de fazer. Com seus cabelos castanhos e seus olhos da mesma cor, Georgina eramuito formosa. Não era muito alta, mas tinha uma figura magnífica; ter dado a luz uma filha e um par de gêmeos tinha mesmo realçado seu porte. O início de sua relação tinha sido bastante inusitado, e não puderam estar mais afastados do noivado habitual. Georgina queria voltar para seu lar na América, por isso se engajou no navio do James como grumete. James, naturalmente, sabia que Georgina não era o moço que fingia ser e viveu umas semanas esplêndidas, embora em ocasiões frustrantes, tratando de seduzi-la. Não esperava apaixonar-se e entretanto, e para grande assombro daquele conquistador contumaz, o amor chegou por si só. Mas James tinha jurado que nunca se casaria, assim teve de enfrentar o dilema de encontrar uma maneira de que Georgina fosse sua permanentemente sem necessidade de chegar a lhe pedir que se casasse com ele. Seus irmãos resolveram esse problema a sua inteira satisfação. Com certa sutil provocação prévia por parte de James, obrigaram-no a ir ao altar, coisa que sempre lhes agradeceria por muito que estivesse disposto a deixar-se enforcar antes de admitir para eles. Só depois de ter amarrado alguns cabos soltos, como por exemplo o de conseguir que ela admitisse que também o amava, tinham desfrutado de um matrimônio maravilhoso. Georgina podia enfurecer-se de vez em quando: com seu apaixonado temperamento americano, nunca tinha que esforçar-se muito para expressar seu desgosto. Mas James, por sua vez, nunca precisou esforçar-se muito para dissipar seus aborrecimentos. Essa era a razão pela qual não entendia sua briga atual nem por que se prolongava durante tanto tempo. Quando partiu para o Haverston, sua esposa continuava sem lhe dirigir a palavra, e tampouco dormia com ele. E tudo porque sua filha tinha aprendido umas quantas frases em tom subido mais adequadas para os adultos do sexo masculino? Essa foi a desculpa de sua esposa, mas James tinha disposto do tempo suficiente para perguntar-se se realmente era isso o que a tinha posto tão furiosa. Perder os estribos por tolices não era próprio da Georgina. E culpá-lo pelo vocabulário de Jacqueline quando ele nem sequer era
  19. 19. Mallory 06 19 responsável por isso... - Bem? - insistiu ao ver que sua esposa continuava sem dizer nada. Desta vez sua pergunta obteve resposta, embora com certa secura. - Thomas me convenceu de que talvez não era para tanto com aquilo de Jack. James deixou escapar um suspiro de alívio. - O único irmão sensato que tem -disse. - Tenho que me lembrar de agradecer-lhe. - Não se incomode. Ainda estou zangada e você é a razão de que esteja, e preferiria não falar do assunto no momento, James. Se estou aqui é pelas meninas: Jack sabia que Judy estava aqui e que não poderia estar com ela, e parecia uma alma penada. - Oh, demônios! Então ainda não fui perdoado? A resposta de sua esposa consistiu em voltar-se e seguir desfazendo a bagagem, e James já conhecia aquela expressão de teima. Fosse qual fosse a causa de seu aborrecimento, Georgina não ia discutir o assunto com ele. Agora James estava certo de que não tinha nada que ver com sua filha. Mas que o pendurassem se soubesse do que podia ser aquilo de que tão obviamente estava sendo culpado, quando não tinha feito absolutamente nada pelo qual lhe pudesse culpar. E então se deu conta de que sua esposa tinha os ombros encurvados, o que a seus olhos era uma clara indicação de que gostava tanto daquela nova distancia aparecida entre eles como ele mesmo. E não podia gostar, é obvio. Ele sabia que Georgina amava-o. James deu um passo para ela, mas cometeu o engano de murmurar seu nome ao mesmo tempo que o fazia. - George... Sua esposa voltou a enrijecer-se, seu momento de desespero esfumado e sua veia de teima novamente presente. James soltou uma corrente de maldições, sem que por sorte houvesse nenhum ouvido infantil presente para as escutar, mas por desgraça estas não serviram para que Georgina voltasse a lhe falar. CAPÍTULO 8 Edward, o segundo dos quatro irmãos Malory, chegou a última hora da tarde com o resto de sua família. Reggie estava "pondo-o a par" a respeito do que tinham averiguado sobre a misteriosa tumba da propriedade quando Amy teve a intuição de que o presente não era um simples presente. De repente pressentiu que era algo muito mais importante que um mero presente, e que estava relacionado de algum jeito com o mistério que sempre tinha rodeado a Anna Malory. E uma vez jogada as raízes, a sensação se negou a desaparecer. Era tão intensa que Amy tomou a decisão de abrir o presente naquela mesma noite. A única coisa que ainda não tinha claro era se esperaria que Warren adormecesse, ou se lhe confiaria seu plano. O fato de que seu marido não desse nenhum sinal de cansaço, nem sequer depois de uma vigorosa sessão amorosa, encarregou-se de decidir por ela. Ainda rodeada por seus braços e enquanto suas mãos a acariciavam distraidamente, Amy aproximou os lábios à orelha de seu marido e murmurou: - Esta noite irei lá embaixo e abrirei o presente. - É claro que não -replicou ele sem alterar-se. - Desfrutará da incerteza e esperará até Natal como o resto de nós para averiguar o que é. - Tomara pudesse fazê-lo, Warren, deveras,mas sei que ficaria louca, especialmente porque apostei com Jeremy que averiguaríamos a verdade sobre nossa bisavó antes do fim do ano. - Depois que Jason o proibisse expressamente?
  20. 20. Mallory 06 20 - Não o proibiu, e além disso, agora já é demasiado tarde para voltar atrás. Warren se endireitou na cama e a olhou. -E o que tem que ver isso com esse presente? - Tenho o pressentimento de que nessa caixa se encontra a resposta. Meus pressentimentos rara vez se equivocam, Warren. E sabendo isso, como vou poder esperar até o Natal para averiguar o que contém essa caixa? Seu marido sacudiu a cabeça e quando voltou a falar havia tal desaprovação em seu tom que lhe recordou ao Warren de antes, que nunca ria ou sorria. - Essa conduta não me surpreenderia nas crianças, mas não a esperava de sua mãe. Amy estalou a língua sem deixar-se intimidar por seu tom. - Não sente nem sequer um pouquinho de curiosidade? - Certamente, mas posso esperar que... - Mas é que eu não posso esperar -interrompeu-o ela. - Desça comigo, Warren. Terei muito cuidado. E se não for mais que um simples objeto, embora bastante misterioso, depois voltarei a deixá-lo tão bem embrulhado que ninguém saberá que o abrimos. - Fala a sério? -respondeu ele. - Realmente pensa descer às escondidas pela escada em plena noite como se fosse uma colegial travessa e .. ? - Não, não. Iremos lá embaixo como dois adultos sensatos e razoáveis que decidiram recorrer ao método mais lógico para esclarecer um mistério que durou muito tempo. Warren soltou um risinho, já que estava acostumado à estranha forma de raciocinar de sua esposa e ignorava todos seus esforços de tratá-la com severidade. Mas essa era a magia da Amy, naturalmente. Warren nunca conhecera a uma mulher assim. - Muito bem - disse, dando-se por vencido com um sorriso. - Pois então pega os roupões e calçados. Suponho que a estas horas já terão posto a tela na chaminé da sala, assim possivelmente faça um pouco de frio. Pouco depois estavam de pé junto ao presente, Warren com mera curiosidade e Amy tendo que fazer um grande esforço de vontade para reprimir sua excitação, pelo que esperava encontrar debaixo do precioso tecido que o envolvia. Na sala não fazia frio, já que as portas tinham estado fechadas, mas logo depois que Warren acendesse alguns abajures voltaram a abrir-se, dando um bom susto a Amy, que estava estendendo as mãos para o presente, e quando entrou na estadia Jeremy disse: - Pega com as mãos na massa, né? Que vergonha, Amy. Ela, visivelmente incomodada apesar do fato de Jeremy não só ser seu primo mas também um de seus mais íntimos amigos, optou por fazer-se de ofendida. - Teria a bondade de me explicar o que está fazendo aqui embaixo a estas horas? - perguntou - Suponho que o mesmo que você - limitou-se a responder ele, piscando-lhe um olho. Amy riu. - Ah, rapaz . Bom, já que está aí poderia fechar a porta. Jeremy se dispôs a fazê-lo, mas em vez de fechá-la teve que afastar-se quando Reggie entrou na sala, descalça e ainda absorta no processo de amarrar o cinto do roupão Quando viu que todos os outros a contemplavam em silêncio, reagiu com indignação. - Juro que não desci aqui para abrir o presente.... Bem, pode ser que o tenha feito, mas no último momento me faltou a coragem e teria saído fugindo. - E espera que acredite nisso, Reggie? - disse Derek, aparecendo atrás dela. -Mesmo assim, não esteve mau. Importa-se que tome emprestada essa ridícula desculpa? Sempre é melhor que não ter nenhuma. E Kelsey, que vinha lhe pisando os calcanhares, disse: - Assombra-me, Derek. Disse que poderíamos nos considerar afortunados se fôssemos os primeiros em abri-lo, e vejo que bateu justo no prego.
  21. 21. Mallory 06 21 - Não tem muito mérito, querida - disse ele, voltando-se para sua esposa com um sorriso nos lábios. - Acontece que conheço muito bem meus primos. E assim era, porque os seguintes em chegar foram os irmãos da Amy, Travis e Marshall, que transpuseram a soleira simultaneamente, empurrando um ao outro. devido a isso demoraram uns momentos em perceber que não estavam sozinhos. Mas um olhar à multidão já presente na sala fez que Travis se voltasse para seu irmão para grunhir: - Disse-lhe que não era uma boa idéia. - Justamente o contrário - replicou Marshall jovialmente, - porque ao que parece não fomos os únicos em tê-la. - Mãe de Deus, não me diga que toda a família teve a mesma idéia! - exclamou Jeremy com um risinho. - Não acredito -disse Amy. - Tio Jason e meu pai não estão aqui, não é verdade? E tampouco vejo o Tony e ao tio James. Não é que esse par não pense exatamente o mesmo, é só que não pensam como o resto de nós. Mas a tosse que ressoou no corredor fez com que Amy revirasse os olhos primeiro e sorrisse depois assim que ouviu que Anthony dizia: - Vá,vá... por que tenho a estranha sensação de que os jovenzinhos pensam que somos muito velhos para estar levantados a estas horas da noite? - Já começamos outra vez sobre os anos, mocinho? -resmungou James. - Pode ser que você já esteja senil, mas faço você saber que eu estou na flor da idade. - Que eu chegasse à senilidade antes que você suporia toda uma façanha de minha parte, avozinho, tendo em conta que você é o mais velho – ironizou Anthony. - Por um miserável ano de nada - ouviu-o replicar a James antes de que os dois entrassem na sala. A diferença de seus sobrinhos e sobrinhas, que levavam penhoares ou roupões, James e Anthony ainda estavam vestidos, pois nenhum dos dois se deitara ainda. De fato, tinham estado compadecendo-se de si mesmos diante de uma garrafa de conhaque no estúdio do Jason, pois ambos tinham encontrado as portas de seus dormitórios fechadas, e ouviram muitos rangidos na escada para não ir investigar. Mas não esperavam encontrar-se com semelhante multidão, e Anthony não pôde resistir a tentação de observar: - Vá, vá! Pergunto-me o que pode ter atraído a tantos meninos a esta sala em plena noite. Jack e Judy não se estarão escondendo atrás de vocês, não é verdade? Não tem a impressão de que estes jovenzinhos pensam que já é Natal, James? James já tinha deduzido o que estava causando tantas caras vermelhas e disse: - Santo Deus, Tony, olhe isso. Que me pendurem, mas até o ianque está se ruborizando! Warren suspirou e baixou olhar para sua esposa - Vê o que conseguiu com sua insensata atitude, amor? Agora esse par nunca deixará de me recordar que uma noite fiz o ridículo diante de todos. - Oh, não acredite - replicou Anthony com um sorriso malicioso. - Pode ser que dentro de dez ou vinte anos nos tenhamos esquecido. - Se tiver razão a respeito do que contém o presente, então a ninguém parecerá ridículo o que tenhamos descido à sala a estas horas da noite - disse Amy. - O que há aí dentro? - perguntou Marshall olhando a sua irmã. - Quer dizer que adivinhou o que contém? Não veio aqui só por curiosidade? - Fiz uma aposta com o Jeremy - explicou Amy, como se isso bastasse. Na realidade assim era, mas Reggie se encarregou de recordar a Amy o que esta tinha optado por calar.
  22. 22. Mallory 06 22 - Mesmo depois de que tio Jason o proibisse? Jeremy piscou. - Mãe de Deus, querida prima! Não me diga que se supunha que não deveria ter aceito sua aposta. - É obvio que não lhe direi isso, já que nesse caso não deveria aceitá-la -replicou Amy com uma lógica impecável. E Warren acrescentou: - Não tente entendê-lo, Jeremy. Quando Amy tem uma de suas "intuições", é capaz de dar significados totalmente novos à palavra "determinação". - Mais que de intuições eu falaria de teima pura e simples, mas como é seu marido, suponho que agora a conhece melhor que eu. - Oh, vá - murmurou Amy lhes lançando um olhar de desgosto. - Os dois têm minha permissão para engolir suas palavras, pois vou demonstrar que estou certa. - Acha que o presente contém algo relacionado com nossa bisavó? -perguntou Reggie. - Assim é - replicou Amy com crescente excitação. - Quando o vi pela primeira vez pressenti que era importante. Mas hoje tive a intuição de que estava relacionado com minha aposta, assim deve ter algo que ver com a Anna Malory. - Basta de bate-papo, meninos, ou passaremos toda a noite aqui embaixo - disse James. - Abramos essa maldita coisa e terminemos de uma vez. Amy sorriu a seu tio e fez exatamente isso. Mas ninguém esperava que uma vez tirado o pacote, o presente se obstinaria em continuar sendo de tão difícil acesso como antes... porque se achava protegido por um cadeado. CAPÍTULO 9 O silêncio que se apropriou da sala enquanto todos contemplavam com expressão perplexa o cadeado que rematava o presente acabou sendo quebrado por James, que falou em um dos tons mais secos que era capaz de empregar. - E suponho que ninguém tem a chave, claro - disse. Fosse qual fosse, o presente estava protegido por uma grossa parte de couro que foi recortado a fim de que pudesse recobri-lo com uma série de lapelas triangulares, cada uma das quais dispunha de um anel metálico, permitindo que o cadeado as imobilizasse a todas. O couro parecia bastante velho. Além disso o cadeado estava oxidado, indicando com isso que também era muito velho, por isso parecia óbvio que o que houvesse debaixo também o fosse. Isso, naturalmente, confirmava a intuição da Amy de que, de algum jeito, o presente podia ter certa relevância no que concernia ao mistério da Anna Malory. Mas no momento ninguém tinha nem idéia do que podia consistir aquele detalhe nem o próprio presente, e em particular, de quem o pôs ali. A julgar por sua forma podia tratar-se de um livro, mas por que ia alguém fechar um livro mediante um cadeado? Provavelmente era uma caixa em forma de livro com algo mais pequeno dentro dela, algo, ao menos no que a Amy concernia, que proporcionaria uma clara pista da verdadeira origem da Anna Malory. Tentou levantar um pouco uma das lapelas para averiguar se podia espionar por debaixo dela, mas o couro era rígido e estava muito apertado para que pudesse ser deslocado. - Suponho que se houvesse uma chave pendurada de uma corda teria sido muito simples - suspirou Reggie. - O couro foi recortado para usá-lo como pacote. Também pode ser talhado para desembrulhá-lo - observou Derek. - Certo - assentiu James, e se inclinou para tirar de sua bota uma adaga.
  23. 23. Mallory 06 23 Anthony respondeu ao olhar de James e este replicou encolhendo os ombros e acrescentando-: Os velhos hábitos nunca morrem. - Assim é, e fica patente que de jovem estava acostumado a frequentar os estabelecimentos portuários de pior reputação, não é verdade? -observou Anthony. - Vamos lavar os trapos sujos ou vamos averiguar o que há dentro dessa caixa? -replicou secamente James. Anthony soltou um risinho. - A caixa, velho, é claro. Venha, comece a cortar. O couro era mais difícil de cortar do que imaginaram, especialmente com tão pouco espaço para que a folha da adaga pudesse deslizar-se por debaixo das lapelas. Ao final, foi mais a força do James que a adaga a que acabou separando o couro dos anéis, permitindo jogar o cadeado de um lado e afastar as lapelas. James entregou o pacote a Amy para que fizesse as honras. Sem perder um instante, Amy afastou as lapelas e tirou o presente. Era um livro, depois de tudo, encadernado em couro e sem título. Dentro dele também havia um pergaminho dobrado que caiu ao chão. Embora meia dúzia de mãos se estenderam para ele, Derek foi o primeiro em agarrá-lo. Depois de desdobrá-lo e lhe dar uma rápida olhada, disse: - Santo Deus, Amy, realmente tem olfato né? Espero que não apostou muito dinheiro, Jeremy. Jeremy riu. - Amy não estava interessada em obter nada: só queria fazer a aposta para ganhá-la. Sempre se sai bem, se por acaso ainda não se deu conta. - Um destes dias deveria levar isso às corridas. Seria capaz de envergonhar inclusive ao velho Percy na hora de escolher ganhadores, e isso porque ele sempre foi muito afortunado nesse aspecto. Percy era um velho amigo da família, ao menos da geração mais jovem. Tinha se feito muito amigo de Nicholas e Derek, e posteriormente também de Jeremy, quando Derek tomou sob seu amparo a seu recém encontrado sobrinho há uns anos. - Se não nos disser agora mesmo o que está nessa carta, Derek Malory, darei-lhe um pontapé! - exclamou Reggie impacientemente. Ela e Derek se comportavam mais como um par de irmãos que como os primos que eram em realidade. Tinham crescido juntos depois de que a mãe dela morresse e Reggie tinha lhe dado numerosos pontapés ao longo dos anos, por isso Derek se apressou a obedecer. - É um diário que escreveram juntos, ou o que se poderia chamar uma espécie de história. Toda uma atenção de sua parte, certamente, tendo em conta que todas as pessoas que os conheceram morreram, as que os conheceram realmente, quero dizer. Passou o pergaminho a Reggie, quem compartilhou seu conteúdo em voz alta com os outros: A nossos filhos, seus filhos e assim sucessivamente Este documento que lhes deixamos talvez seja uma surpresa, ou possivelmente não. Não é algo que tenhamos feito público nunca, e nem sequer falamos dele a nosso filho. Saibam que não foi fácil convencer a meu marido de que aceitasse acrescentar seus pensamentos a esta narração, pois lhe parece que não sabe expressar-se muito bem através da palavra escrita. Ao final tive que lhe prometer que não leria sua parte, para que assim não tivesse reparo em incluir sentimentos e opiniões com as que eu possivelmente não estivesse de acordo, ou das quais pudesse envergonhar-se. Ele me fez a mesma promessa; por isso, quando tivermos terminado de redigir este documento, deixaremos ele bem guardado e atiraremos a chave. Assim lhes deixamos esta crônica, para que a leiam quando tiverem vontade e lhe dêem vida com sua
  24. 24. Mallory 06 24 imaginação. Embora quando a lerem, é muito provável que já não estejamos com vocês para responder a respeito de nossos motivos e da forma não excessivamente honesta com que tratamos a pessoas que estavam dispostas a nos fazer muito dano. E lhes advirto: se os induziram a acreditar que somos pessoas incapazes de fazer mau, então não continuem lendo. Somos humanos, antes de tudo, com todos os defeitos, paixões e enganos pelos quais estes se caracterizam. Não nos julguem, e assim talvez aprenderão com nossos enganos. ANASTASIA MALORY. Amy sorria de orelha a orelha enquanto apertava o diário contra seu peito. Tinha razão! E queria começar a ler imediatamente aquele inesperado presente de seus bisavôs, mas os outros continuavam falando da carta. - Anastasia -estava dizendo Anthony. - Nunca tinha ouvido chamar assim a minha avó. - Não é o que se chama um nome inglês, enquanto que Anna sim o é – observou James. - Um evidente esforço por ocultar a verdade, em minha opinião. - Mas que verdade? - perguntou Derek. - Anastasia poderia ser um nome espanhol. - Ou não - interveio Travis. - Por que especular sobre este ponto quando podemos ler a verdade com nossos próprios olhos? -disse Marshall. - Bem, quem o lerá primeiro? - Amy, naturalmente -sugeriu Derek. - E o diário poderia ter vindo à luz antes que ela fizesse essa aposta com o Jeremy, mas no que a mim respeita lhe concerne, embora eu gostaria de saber quem o encontrou e o envolveu como se fosse um presente de Natal em vez de limitar-se a entregar-a meu pai. - Provavelmente esteve na casa durante todos estes anos sem que ninguém soubesse - conjeturou Reggie. - Não me surpreenderia -disse Derek. - Demônios, esta casa é tão grande que há partes dela onde nem sequer estive nunca, e isso porque cresci aqui. - Muitos de nós nascemos e nos criamos aqui, meu querido moço - recordou-lhe Anthony. - Mas tem razão: quando se é jovem, nunca chega a investigar absolutamente tudo. Suponho que isso depende do que ache interessante. Amy não podia suportar a incerteza por mais tempo e decidiu intervir. - Estou disposta a lê-lo em voz alta, se algum de vocês quiser ficar aqui para ouvir. -Eu estou disposto a escutar um ou dois capítulos pelo menos - disse Marshall, encontrando um assento onde acomodar-se. - Grosso que é esse diário, poderia demorar até o dia de Natal em ler tudo -observou Warren enquanto se instalava em um dos sofás e batia a tapeçaria para indicar a Amy que se sentasse junto a ele. - Então é uma sorte que o tenhamos aberto antes do tempo, né? - disse Jeremy com um sorriso. - Agora não podemos ir dormir, não depois desse "Não nos julguem, e assim possivelmente aprenderão com nossos enganos" -disse James. - Muito condenadamente intrigante, não é verdade? - Mas acredito que antes deveríamos despertar aos mais velhos - observou Anthony. James assentiu. - Estou de acordo. Desperta-os enquanto vou em busca de outra garrafa de conhaque. Tenho o pressentimento de que vai ser uma noite especialmente longa. CAPÍTULO 10
  25. 25. Mallory 06 25 A caravana era formada por quatro grandes carretas. Três eram virtualmente casinhas sobre rodas, com uma estrutura feita em sua totalidade de madeira que incluía um teto ligeiramente curvado, e estavam providas de uma porta e de janelas tampadas com cortinas de vivas cores. A antiguidade de algumas dava testemunho da excelência dos artesãos que as fizeram. Inclusive a quarta carreta mostrava aquela qualidade, embora não fosse mais que um típico veículo de fornecimentos. Quando a caravana se detinha de noite para acampar ao lado da estrada, tiravam-se as tendas da quarta carreta, junto com as marmitas e as varas de ferro que formariam triângulos em cima dos fogos de acampamento para as sustentar. Uns minutos depois da caravana se deter, a área já tinha adquirido a atmosfera de uma pequena aldeia cheia de animação. Agradáveis aromas se espalhavam pelos bosques dos arredores, acompanhados do alegre som da música e das risadas. A carreta maior pertencia ao barossan, o chefe, Ivan Lautaru. Rodeando-a se erguiam as tendas de sua família, as irmãs de sua esposa, sua mãe, suas irmãs e suas filhas solteiras. A segunda carreta por ordem de tamanho pertencia ao filho do Ivan, Nicolai, e sua construção tinha formado parte dos preparativos para o momento de seu casamento, fazia já seis anos. Nicolai ainda tinha que tomar uma esposa. Segundo María Stefanov, a anciã que vivia na terceira carreta, ainda não se davam os presságios adequados. Primeiro disse que para que as bodas fosse frutífera devia celebrar um dia determinado do ano e depois, quando chegava o dia fixado e para grande aborrecimento do Nicolai, cada ano sempre havia maus presságios. Havia um total de seis famílias na pequena caravana, com um total de quarenta e seis pessoas, crianças incluídas. Sempre que podiam se casavam entre eles, mas às vezes com tão poucas famílias não havia suficientes esponsais entre os que escolher, e nessas ocasiões procuravam outras caravanas iguais com a esperança de que nelas houvesse jovens em idade de contrair matrimônio com a mesma necessidade. Durante suas viagens se encontravam e tratavam com muita gente, mas aquelas pessoas eram forasteiros, forasteiros, e os homens e mulheres de sangue puro nunca os tomariam em consideração para se aparentar. Os contínuos atrasos das bodas de seu filho estavam fazendo que Ivan também começasse a impacientar-se. Já havia pago o preço nupcial daquela esposa para o Nicolai. Sua palavra era lei, mas não podia contradizer a María. A anciã era sua sorte, sua boa fortuna. Ignorar as predições da María seria sua ruína. Todos estavam firmemente convencidos disso. Mas Ivan tampouco podia escolher a outra noiva para seu filho. Nicolai só podia casar-se com a neta da María, sua única descendente viva e a única que poderia continuar lhes trazendo boa fortuna quando María morresse. Aquela noite, como de costume, acamparam perto do povoado pelo qual tinham passado durante o dia. Nunca acampavam muito perto de um povoado, só o suficiente para que seus habitantes tivessem fácil acesso a eles e vice-versa. Pela manhã as mulheres iriam ao povoado, bateriam a cada porta e ofereceriam seus serviços, fosse vender miçangas ou cestas delicadamente trançadas, ou para predizer o futuro, uma arte, pelo que era famosa sua caravana. Também apregoariam as habilidades de seus homens, pois a caravana do Lautaru contava com alguns dos melhores construtores de carretas do mundo, todos compartilhavam o que ganhavam, pois o conceito da propriedade lhes era totalmente alheio. Essa era a razão pela qual algumas daquelas mulheres talvez voltassem para a caravana com um par de galinhas roubadas. Se encomendavam a eles uma carreta, podiam passar uma semana perto da aldeia; se não, em um ou dois dias se teriam ido. Ocasionalmente, se a fabricação da carreta se prolongava muito, deixavam atrás aos artesãos para que os alcançassem assim que tivessem terminado seu trabalho. Os sinais que iam deixando junto às estradas os guiariam de volta à caravana.
  26. 26. Mallory 06 26 Tinham que recorrer a aquele método porque pessoas como eles eram os bodes expiatórios de qualquer crime, tanto se o tinham cometido, como se não. Se havia caravanas como a sua na comarca ou se ficavam muito tempo no mesmo lugar, não demorariam para verem-se apontados com o dedo. Podiam acampar em questão de minutos, e podiam recolher suas coisas e partir em ainda menos tempo. Uma longa experiência e a perseguição de que foi objeto sua raça ao longo dos séculos lhes tinham ensinado a voltar para a estrada em questão de momentos. Eram vagabundos. Levavam-no no sangue, e todos sentiam a necessidade de viajar e ver o que havia mais à frente do próximo horizonte. Os adultos jovens tinham visto a maior parte da Europa. Os mais velhos tinham visto a Rússia e os países que a rodeavam. Tendiam a permanecer em um país o tempo suficiente para aprender razoavelmente bem sua língua, sempre que as circunstâncias não os obrigassem a sair fugindo antes. Falar muitas línguas era uma grande vantagem para qualquer viajante. Ivan se orgulhava de conhecer dezesseis idiomas diferentes. Não era sua primeira visita a Inglaterra e provavelmente tampouco seria a última, pois agora as leis inglesas aplicáveis a sua gente já não eram tão duras como o tinham sido em séculos anteriores. Os ingleses lhes pareciam um povo bastante estranho. Muitos jovens de boa família ficavam tão fascinados por suas crenças e seu amor à liberdade que queriam unir-se a eles, vestir como eles e agir como eles. Ivan permitia que um ou dois daqueles forasteiros se unissem à caravana durante curtos períodos de tempo, mas unicamente porque sua presença tinha um efeito tranquilizador sobre os camponeses ingleses, que se dizia que se seus senhores consideravam que aquelas pessoas eram merecedoras de confiança, então não podiam ser os ladrões que muitos afirmavam que eram. Agora tinham um desses indivíduos com eles, sir William Thompson. Sir William distava muito do tipo inglês que habitualmente queria unir-se a eles. Era um ancião, ainda mais velho que Emana, e isso porque ela era a pessoa de maior idade da caravana. María se tinha dignado lhe dirigir a palavra há alguns meses, não para lhe predizer o futuro, coisa que já não fazia para as pessoas, mas sim porque viu a dor que havia em seus olhos e quis aliviá-lo. E assim o fez, aliviando William do peso de uma culpa que carregava desde fazia mais de quarenta anos, para que pudesse comparecer ante seu Criador estando em paz consigo mesmo. Imensamente agradecido, o inglês jurou lhe dedicar os anos que restassem de vida. Para falar a verdade, deu-se conta de que María não demoraria para morrer e queria fazer com que seus últimos dias fossem o mais agradáveis possível, para lhe pagar o que tinha feito por ele. Ninguém mais, sabia. Nem quem conhecera a María durante toda sua vida, nem sua própria neta. Mas William o tinha adivinhado, e os dois estavam unidos por aquele conhecimento secreto. Ivan, entretanto, não lhe teria permitido ficar. Decidiu-se que sua idade constituía um sério inconveniente, já que era muito velho para poder contribuir para as arcas da comunidade. Mas William pediu que lhe dessem oportunidade de demonstrar que podia contribuir para elas e assim o fez, pois sempre voltava para o acampamento com os bolsos cheios de moedas, e lhe permitiram ficar. Na realidade, que fosse rico e as moedas lhe pertencessem dava no mesmo. William se limitava a pagar o privilégio de poder estar perto da María. Além disso, acabou fazendo outra contribuição ao melhorar seu inglês, o que lhes veio bem porque tinham planejado ficar o resto do ano na Inglaterra. Anastasia Stefanov estava sentada na boléia da carreta que ela e sua avó compartilhavam, com a anciã sentada a seu lado. As duas contemplavam o acampamento enquanto este se preparava para a noite. Cobriram-se as fogueiras. Alguns grupos ainda estavam sentados ao redor delas falando em voz baixa. Os meninos eram envoltos em suas mantas apenas tinham sono. Sir William, a cuja presença todos estavam mais ou menos acostumados, roncava ruidosamente debaixo de sua carreta.
  27. 27. Mallory 06 27 Anastasia chegara a querer muito a sir William no pouco tempo que estava com eles. Normalmente o achava um pouco ridículo, com suas maneiras cortesãs, aquela enrijecida altivez tão tipicamente inglesa e seus esforços para fazer Maria rir. Mas não havia nada de ridículo em sua devoção por sua avó, uma devoção da qual não cabia dúvida alguma. A jovem costumava brincar com a María lhe dizendo que era uma pena que já fosse muito velha para viver um grande amor, ao que a anciã observava com uma piscada e um sorriso: "Nunca se é muito velho para viver um grande amor. Fazer amor, em troca, já é farinha de outro saco. Certos ossos se tornam muito frágeis para tão delicioso exercício." Os grandes amores e o amor físico não eram assuntos dos que só se pudesse falar em sussurros envergonhados. Sua gente falava de tudo abertamente e com uma paixão que lhes parecia perfeitamente natural, e o que podia haver mais natural que os grandes amores e o amor físico? O amor físico voltou a fazer ato de presença nos pensamentos da Anastasia enquanto via como seu futuro esposo empurrava sua amante ocasional para sua carreta. Tratava-a com tão pouca delicadeza que a mulher tropeçou e caiu. Ele a levantou puxando-lhe o cabelo e voltou a empurrá-la. Anastasia estremeceu. Nicolai era uma autêntica besta. A jovem havia sentido a dor de seus tapas em muitas ocasiões quando Nicolai não gostava de como lhe tinha respondido. E aquele era o homem com quem tinha que casar-se! E um estremecimento causado pelo objeto de seu olhar passou desapercebido a María. - Desgosta-lhe que faça amor com outras? - Tomara me desgostasse, avó, porque assim não veria tão negro meu futuro. Por mim que fiquem, embora não entendo como podem aguentar a esse energúmeno. María encolheu os ombros. - Sempre resta o prestígio de ser favorecida pelo único filho de Ivan. Anastasia soltou um resmungo. - Esse favor só traz consigo problemas e desgostos. Ouvi dizer que nem sequer é um bom amante, porque obtém seu prazer e não dá nenhum em troca. - Essa classe de egoísmo abunda muito entre os homens. Seu pai era igual. Anastasia sorriu. - Sabe por experiência pessoal, avó. - Ora! Já gostaria Ivan ter essa sorte. Não, o barossan e eu sempre soubemos nos entender muito bem o um com o outro. Ele não me olhava com luxúria nos olhos, e eu não lhe amaldiçoava pelo resto de seus dias. Anastasia riu. - Sim, isso poderia fazer com que um homem lhe tivesse um pouco de medo. Maria sorriu, mas depois ficou séria e estendeu a mão para entrelaçar seus nodosos dedos com os da Anastasia. A jovem se alarmou. María nunca lhe agarrava a mão a menos que tivesse alguma má notícia a lhe dar. Não tinha nem idéia de qual podia ser essa má notícia, mas conteve o fôlego com crescente temor, pois as más notícias da María costumavam ser realmente fatais. CAPÍTULO 11 Anastasia tinha completado dezoito anos há uns meses. Isso fazia com que tivesse ultrapassado com acréscimo a idade de casar-se, já que entre sua gente se considerava que os doze anos eram a idade ideal para contrair matrimônio. Algumas mulheres zombavam dela porque ainda não conhecera as carícias de um homem. Diziam-lhe que era tola, porque estava desperdiçando seus melhores anos e se negava a obter umas quantas moedas extra dos homens em troca de uma rápida queda sobre a palha. Só era
  28. 28. Mallory 06 28 outra maneira de depená-los. Não significava nada. Nenhum marido, ou futuro marido, sentiria ciúmes por isso; de fato, esperavam que se fizesse. Só se um marido surpreendesse a sua mulher lançando olhares ternos a outro membro do grupo teria consequências sérias; divórcio, surras severas, às vezes a morte ou, o que era ainda pior a seus olhos, a expulsão do grupo. Sempre que Anastasia falava com a María de seus sentimentos a respeito, e da aversão que lhe inspirava a mera idéia de ser tocada por um homem atrás de outro, sua avó culpava ao sangue de seu pai. Ao longo dos anos tinham atribuído muitas coisas a seu pai, algumas boas e outras más. María tinha descoberto que quando não sabia como responder às perguntas da jovem, o pai da Anastasia era um magnífico bode expiatório. Muitas coisas passaram pela mente da Anastasia enquanto esperava a má notícia de María. Se se concentrasse poderia adivinhá-la, mas não queria saber, ainda não. A princípio o silêncio contínuo foi um bálsamo, porque nem sequer satisfazia o desastre. Mas estava durando muito. A incerteza acabou tornando-se insuportável. Finalmente Anastasia não pôde aguentar por mais tempo a tensão e decidiu falar. - O que não quer me dizer, avó? -perguntou. A anciã suspirou. - Algo que deveria lhe dizer há muito tempo, menina. Em realidade são duas coisas e ambas a encherão de inquietação. Quanto à inquietação, sei que é bastante forte para enfrentar a ela. O que me preocupa é a brusca mudança que terá lugar em sua vida, e essa é a razão pela qual quero vê-la chegar o mais breve possível, enquanto ainda estou aqui para ajudá-la. - Viu algo no futuro? María sacudiu a cabeça melancolicamente. - Tomara conhecesse o futuro neste caso. Mas é você quem deve criar esse futuro e, a decisão que tomar pode fazer-lhe muito bem ou muito mal, mas assim deve fazer-se. A alternativa, e você mesma o disse, é inconcebível. Então Anastasia soube o motivo pelo qual a mulher se mostrava tão enigmática: referia-se a seu casamento ou, melhor dizendo, ao marido com o qual tinha que casar-se. - Tem algo que ver com o Nicolai? - Está relacionado com o matrimônio, sim. Tenho que ver como se resolve antes que termine a semana. Já não pode esperar mais tempo. Anastasia se aterrorizou. - Mas ainda faltam dois meses para o dia que você escolheu! - Isto não pode esperar até então. - Mas você sabe que odeio ao Nicolai, avó! - Sim, e se soubesse que o odiava antes de que eu aceitasse o preço nupcial que pagaram por você, então poderia estar há muito tempo casada com outro. Mas Ivan, esse matreiro filho de um bode, veio falar comigo quando você só tinha sete anos, cinco antes de que fosse o bastante maior para se casar e muito antes que se desse conta de que Nicolai não era o homem adequado para você. Ivan não queria correr o risco de que outro homem se adiantasse a ele. - Eu era tão jovem ... -disse Anastasia com amargura. - Não entendo porque tinha tanta pressa. Ivan poderia ter esperado que eu fosse bastante maior para decidir por mim mesma. - Ah, mas não esqueça que estávamos visitando outro bando. E o outro barossan mostrou excessivo interesse por nossa família, e fez muitas perguntas sobre você. Ivan não é nenhum idiota. Nessa mesma noite pediu você em casamento. O outro barossan pediu-a em casamento na manhã seguinte, umas poucas horas mais tarde. Ivan leva anos alardeando como ganhou sua mão. - Sim, ouvi-o fazê-lo. - Bem, pois já vai sendo hora de que deixe de alardear. Sempre recorreu a toda classe de
  29. 29. Mallory 06 29 métodos desprezíveis e rasteiros para que eu e os meus seguíssemos unidos a este bando, porque temos o dom da profecia. Nunca lhe contei isso, mas quando sua mãe anunciou que ia viver com seu pai, Ivan veio ver-me e me prometeu que antes de permitir que minha filha esbanjasse seu talento com aqueles que não são do sangue a mataria... a menos que eu aceitasse ter outro bebê com o qual a substituiria. Naquela época eu já era muito velha para ter filhos, mas acha que esse estúpido ocorreu tomar em consideração esse pequeno detalhe? - perguntou bufando. - E suponho que aceitou, não é verdade? - É obvio. -María sorriu. - Nunca me custou mentir a Ivan Lautaru. - E depois não tentou fazê-la pagar isso de algum jeito? - Não, não houve necessidade. Não demoramos para saber que sua mãe estava grávida de você, e então Ivan se convenceu mesmo de que voltaria para nós com seu bebê, sendo essa a razão pela qual não fomos embora daqui. Foi a vez que passamos mais tempo no mesmo lugar. - Mas por que agora quer que me case com o Nicolai? Está há anos me ajudando a fugir desse matrimônio. O que a fez mudar de opinião? - Não mudei de opinião, Anna. Disse que deve se casar, não que deva se casar com Nicolai. Anastasia dilatou os olhos porque nunca lhe ocorrera pensar nessa possibilidade. - Me casar com outro homem? Mas como posso fazê-lo, quando fui comprada e paga? - Casar-se com outro homem de nosso povo? Não, não pode fazê-lo. Isso seria o insulto mais grave que poderia fazer a Ivan, e além disso, Nicolai nunca aceitaria semelhante insulto. Mataria ao homem que escolhesse. Mas um estrangeiro já seria outra questão. - Um estrangeiro? -perguntou Anastasia com incredulidade. - Um estranho, alguém que não é do sangue? Como pode sequer sugeri-lo? - E como não posso fazê-lo, menina, quando é sua única alternativa... a menos que queira passar o resto de sua vida sendo escrava do Nicolai? Anastasia voltou a estremecer. Sabia desde á muito tempo que antes de submeter-se a Nicolai se iria embora do bando. E que diferença havia entre ir-se ou casar-se com um forasteiro? De qualquer maneira, iria. Suspirou. - Suponho que tem um plano, não é verdade, avó? Me diga que o tem, por favor. A anciã sorriu e lhe bateu na mão. - É obvio que tenho um plano, e além disso um muito simples. Deve enfeitiçar a um forasteiro para que a peça que se case com ele, e depois deve convencer ao bando de que o ama. O amor fará que todo o assunto seja visto de outra perspectiva. Por amor pode-se trair a sua gente e a todo aquilo no que acredita. Isso, é compreensível, aceitável. Mas deve ser convincente. Se pensarem que o faz só para evitar se casar com Nicolai, então os Lautaru se sentirão insultados. Fará o mesmo que fez sua mãe. Para ela foi real, porque realmente amava a seu forasteiro. Para você será uma mentira, mas uma mentira que usará para escapar desse futuro que diz não poder aceitar. E possivelmente, se tiver sorte, algum dia deixará de ser uma mentira. Fazer o que fez sua mãe? A filha da María, a mãe da Anastasia, apaixonou-se por um boyardo russo, um dos pequenos príncipes da nobreza daquela terra. Morreu ao dar a luz a seu bebê, um bebê que o boyardo teria conservado junto a ele se tivesse sido um menino. Mas uma filha não lhe servia de nada, e por isso permitiu que María levasse a sua neta e a educasse. Anastasia não conhecera a seu pai, e nunca tinha desejado o conhecer. Nem sequer sabia se ainda vivia. Dava-lhe no mesmo. Um homem que não viu valor algum nela não significava nada para a Anastasia. E se dentro de seu coração se ocultava uma fibra de amargura por ter sido rejeitada, a guardava para si mesmo. María sabia o que sentia, naturalmente. María sabia tudo. Podia olhar às pessoas nos olhos

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