Johanna lindsey família mallory 02 - terna e rebelde

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Johanna lindsey família mallory 02 - terna e rebelde

  1. 1. 1 JJJooohhhaaannnnnnaaa LLLiiinnndddssseeeyyy TTTeeerrrnnnaaa eee RRReeebbbeeellldddeee MALLORY 02 Ela era uma deliciosa herdeira escocesa e o matrimônio seria a única forma de encontrar segurança: devia proteger-se da maldade de um primo e a ambição de caçadores de fortunas que cobiçavam sua beleza ruiva e seu enorme patrimônio. Ele representava tudo aquilo contra o qual a tinham prevenido: era um aventureiro inglês, avassalador e belo, cujos olhos azuis prometiam todo tipo de prazeres. Ela queria atrever-se a amá-lo... acreditar em suas promessas apaixonadas... ir atrás do sonho encantado... Disponibilização/Tradução/Pesquisa: Yuna, Gisa, Mare e Rosie Revisão: Edith Suli Revisão Final: Danyela Formatação: Gisa PPRROOJJEETTOO RREEVVIISSOORRAASS TTRRAADDUUÇÇÕÕEESS
  2. 2. 2 Este livro está dedicado com amor a todos meus leitores, com um agradecimento especial para aqueles que desejavam que o tio Tony tivesse sua própria história. CAPÍTULO 1 Inglaterra, 1818. - Está atemorizada, pequena? Roslynn Chadwick deixou de olhar pela janela da carruagem, pela qual contemplava a paisagem durante uma hora sem vê-la realmente. Atemorizada? Estava sozinha no mundo, sem tutor nem familiares. Ia a caminho de um futuro incerto, deixando atrás de si tudo que conhecia. Atemorizada? Estava aterrorizada. Mas Roslynn trataria de evitar que Nettie MacDonald soubesse. Nettie já estava bastante inquieta; desde que cruzaram a fronteira inglesa na manhã anterior, embora tentasse ocultá-lo tornando-se queixosa, segundo seu costume. Até então, Nettie estava alegre e despreocupada, inclusive quando cruzaram as terras baixas da Escócia, às quais desprezava. Nettie, que fora uma montanhesa durante toda sua vida, quer dizer durante quarenta e dois anos, nunca acredita que algum dia deveria abandonar suas bem-amadas terras baixas e além disso cruzar a fronteira inglesa. Inglaterra. Mas era impossível deixar atrás à querida Nettie. Roslynn se esforçou por sorrir para agradar sua donzela e para tranqüilizar Nettie. -Oh, Nettie, por que teria que estar atemorizada? Acaso não conseguimos sair escondidas no meio da noite? Geordie nos procurará em Aberdeen e Edimburgo durante semanas e jamais adivinhará que fugimos para Londres. - Certamente - disse Nettie, contente pelo êxito que tiveram até esse momento e esquecendo-se momentaneamente de que experimentava temor e desgosto pelos ingleses. Muito mais profunda era sua aversão por Geordie Cameron. - E espero que esse maldito se asfixie com seu próprio mau humor quando comprovar que conseguiu enganar seus detestáveis planos. Duncan não me agradava, mas sabia o que era o melhor para você. Foi ele quem contratou esse excelente tutor para que não esquecesse seu verdadeiro idioma, especialmente agora que estamos entre estes endemoniados ingleses. Roslynn sorriu e decidiu lhe fazer uma brincadeira. - Quando vir um inglês, recordarei imediatamente meu verdadeiro idioma. Não me negará estes últimos momentos que posso falar sem necessidade de pensar em cada palavra que pronuncio, não é? - Ora. Só o esquece quando está alterada. Nettie sabia. Em certas ocasiões, Nettie conhecia Roslynn melhor que ela mesma. Mas Roslynn não estava mal-humorada, que era quando começava a falar com o sotaque escocês que tinha aprendido de Nettie e de seu avô, o certo era que estava alterada, e com razão. Mas não o suficiente para esquecer o autêntico inglês que tinha lhe ensinado seu tutor. Roslynn suspirou. - Espero que cheguem os baús ou ficaremos sem roupas. Ambas tinham partido com uma só muda de roupa para desorientar ainda mais seu primo Geordie, se por acaso alguém as visse e o informasse. - Esse é o menos grave de seus problemas, menina. Foi um acerto trazer essa costureira londrina a Cameron Hall para que lhe fizesse todos esses bonitos vestidos. O bendito Duncan pensou em todos os detalhes; inclusive enviou os baús com antecipação, um por um, para que Geordie não suspeitasse.
  3. 3. 3 E Nettie pensou que tinha sido divertido fugir no meio da noite, com as saias recolhidas e usando velhas calças de montar para que, à luz da lua, confundissem-nas com homens. Roslynn achava o mesmo. De fato, era o único aspecto de toda essa loucura do qual tinha desfrutado. Tinham cavalgado até a aldeia próxima, onde aguardavam a carruagem e seu condutor, e precisaram aguardar várias horas para assegurar-se de que não as seguiam, antes de empreender a viagem. Mas tinham sido necessários todos esses inconvenientes e ocultações para enganar a Geordie Cameron. Pelo menos, assim tinha opinado o avô. E Roslynn acreditou nele, sobre tudo ao ver a expressão de Geordie quando se leu o testamento do avô. Depois de tudo, Geordie era o sobrinho neto de Duncan Cameron, o neto mais novo de seu irmão e o único parente masculino que ainda vivia. Geordie tinha estado em todo seu direito ao supor que parte da imensa fortuna do Duncan seria sua, embora só fosse uma pequena parte. Mas Duncan tinha legado todo seu patrimônio à Roslynn, sua única neta: Cameron Hall, os moinhos, tudo. E Geordie tinha realizado grandes esforços para não dar rédea solta a sua indignação. -Não devia surpreender-se tanto -disse Nettie no dia seguinte da leitura do testamento-. Sabia que Duncan o odiava; que o culpava da morte de sua querida mãe. Por isso a cortejava tão diligentemente durante todos estes anos. Suspeitava que Duncan deixaria isso tudo a você. E por isso, agora que Duncan não está, é que tivemos que partir tão depressa. Não havia tempo a perder. Roslynn soube quando Geordie voltou a lhe pedir que se casasse com ele, depois da leitura do testamento, e ela voltou a recusá-lo. Nessa mesma noite, ela e Nettie partiram. Não era o momento de ter pena nem de arrepender-se da promessa que tinha feito a seu avô. Já tinha sofrido bastante quando dois meses antes, soube -se que Duncan morreria. E, na realidade, sua morte tinha sido um alívio, pois durante os últimos sete anos tinha enfraquecido e estava suportando dores; só sua obstinação escocesa tinha conseguido mantê-lo vivo durante tanto tempo. Não, não podia lamentar que seu avô tivesse deixado de sofrer. Mas, como sentiria saudades do querido ancião, que tinha desempenhado o papel de pai e mãe para ela durante todos esses anos. -Não chore por mim, menina -Havia-lhe dito umas semanas antes de morrer-. Eu a proíbo. Dedicou-me muitos anos e, quando morrer, não quero que desperdice nem um só dia mais. Me deve prometer isso. Uma promessa a mais para o velho que ama você, que a criou, que a repreendeu e que a protegeu desde que sua filha regressou a seu lar com uma menina de seis anos chamado Roslynn. O que importava uma promessa mais, quando já lhe tinha feito essa promessa fatal que agora lhe provocava tanta ansiedade? De qualquer modo, não tinha tido muito tempo para afligir-se; pelo menos tinha a cumprido. Nettie franziu o cenho quando viu que Roslynn olhava novamente pela janela, pois sabia que estava outra vez pensando em Duncan Cameron. Desde que Roslynn chegara a Cameron Hall, tinha desfrutado provocando ao velho e feroz escocês, que aceitava isso com prazer. Ambas sentiriam saudades, mas agora deviam pensar em muitas outras coisas. - Estamos nos aproximando da estalagem - anunciou Nettie, sentada no assento que dava para a frente da carruagem. Roslynn se inclinou para frente e para o lado para olhar pela janela. O sol do entardecer iluminou seu rosto e seus cabelos. Eram cabelos formosos, de cor dourado avermelhado como os da Janet, sua mãe. Os cabelos de Nettie eram negros e seus olhos eram de cor verde apagada, como o de um lago sombreado por altos carvalhos. Os olhos do Roslynn eram de uma cor similar: cinza esverdeado com reflexos dourados. Todos seus traços se assemelhavam aos da Janet Cameron, antes que tivesse fugido com seu inglês. Na realidade, Roslynn não se assemelhava em
  4. 4. 4 nada a seu pai, esse inglês por quem Janet tinha se apaixonado, convertendo-a em uma sombra de si mesma quando ele morreu num trágico acidente. Janet nunca mais foi a mesma e, um ano depois, ela também morria. Graças a Deus, Roslynn tinha contado com o apoio de seu avô. A menina órfã de sete anos se adaptara perfeitamente ao ancião escocês, que satisfazia todos seus caprichos. - Oh, estou cometendo o mesmo engano que ela, ao pensar nos mortos, quando deveria me preocupar com o futuro, tão incerto. - Esperemos que as camas sejam mais Macias que as de ontem à noite - disse Roslynn quando a carruagem parou em frente à estalagem. - É a única coisa que me entusiasma em Londres. Sei que Frances terá camas prontas para nós. -Não se alegra em voltar a ver sua melhor amiga depois de tantos anos? Roslynn olhou Nettie, surpreendida. - É claro. Estou ansiosa para vê-la. Mas as circunstâncias não são as mais propícias para um encontro agradável, não? Quero dizer que não terei tempo para visitas. Oh, esse Geordie - disse, franzindo o sobrecenho. - Se não fosse por ele... - Se não tivesse feito promessas não estaríamos aqui, mas de nada vale queixar-se agora, não é verdade? -replicou Nettie. Roslynn sorriu. - Quem se queixava ontem à noite da cama dura? Nettie emitiu um resmungo, negando-se a responder e apressando Roslynn para que descessem do carro quando o condutor abriu a porta e lhe estendeu a mão para ajudá-la a descer. Roslynn riu e Nettie voltou a bufar, desta vez para si mesmo. - Não é tão velha para não poder suportar um pouco de desconforto, Nettie, pensou, contemplando o andar ágil de Roslynn que a fez sentir muito mais velha nesse momento. -Embora a cama seja de pedra, esta noite não direi uma palavra. Assim não fará brincadeiras. Mas logo Nettie sorriu, meneando a cabeça. "Roslynn precisava brincar um pouco para deixar de preocupar-se com o futuro". "Embora a cama seja muito Macia, será melhor que diga que é uma rocha. Há muito que não a ouço rir nem ver uma expressão travessa em seus olhos. Precisa fazer brincadeiras". Quando Roslynn se aproximou da estalagem, não percebeu a presença de um jovem de dezesseis anos, que estava de pé sobre uma banqueta acendendo o abajur que se achava sobre a porta, mas infelizmente ele percebeu a sua. Ao ouvir a risada de Roslynn, tão diferente das que estava acostumado a ouvir, olhou por cima de seu ombro e esteve a ponto de cair da banqueta, sobressaltado ante seu aspecto. Parecia uma chama acesa, pois o sol do entardecer fazia refulgir seus cabelos avermelhados. À medida que se aproximava, pôde distinguir os finos traços de seu rosto ovalado com maçãs do rosto altas, nariz pequeno e lábios carnudos. Quando passou pela porta, o jovem esticou o pescoço para continuar olhando-a, até que um som de desaprovação fez ele voltar a cabeça e viu a criada de expressão severa que o olhava. O jovem se ruborizou. Mas Nettie se compadeceu dele e nada disse. Isso acontecia em qualquer lugar que fossem, pois Lady Roslynn Chadwick exercia esse efeito sobre o sexo oposto e nem os jovens nem os velhos pareciam imunes a sua beleza. E esta era a jovem que andaria sozinha por Londres. CAPÍTULO 2 -E lhe perguntava quem era seu alfaiate? - disse irritado o honorável William Fairfax a seu jovem amigo. - Disse-lhe que seu alfaiate não tem nada que ver com isso. Se desejas competir com
  5. 5. 5 ele em algo, recolhe a luva. Ele está no assunto há mais de doze anos. O jovem amigo de William, chamado Cully, sobressaltou-se ao ouvir o som do couro que roçava a pele, mas abriu os olhos. Tinha-os fechado momentos antes quando apareceram as primeiras gotas de sangue no nariz. Estremeceu ao ver que agora o sangue emanava em abundância do nariz e também da boca e do talho do arco superficial. - Desagrada-lhe, Cully? -disse William, sorrindo ao ver a palidez de seu amigo. Imagino que a seu competidor também, pelo menos hoje. Riu, pensando que suas palavras eram brincalhonas. - Se Knighton estivesse com ele no ringue, teríamos a quem apostar. Ele foi quem estreou. Mas Knighton, conforme dizem, faz dez anos que não boxeia. Mas Malory está esquentado e isso emparelha a situação. Mas enquanto contemplavam a briga, junto com outros cavalheiros que rodeavam o ringue, Sir Anthony Malory se relaxou e olhou com cenho franzido ao dono do estabelecimento esportivo. - Demônios, Knighton, disse-te que ainda não estava preparado. Não se recuperou da última vez. Jonh Knighton encolheu os ombros, mas seus olhos brilhavam, divertidos, ao olhar o zangado pugilista a quem considerava um amigo. - Não tive notícias de outro que aceitasse a provocação, milord. Se permitisse que outro homem ganhasse alguma vez, possivelmente acharia quem estivesse disposto a brigar. O comentário suscitou muitas risadas. Todos os que estavam ali sabiam que fazia uma década que Malory não perdia uma briga nem permitia que ninguém tirasse vantagem dele nem sequer nas práticas de boxe. Estava em ótimas condições, seus músculos eram perfeitos, mas era sua habilidade que o tornava tão extraordinário... e imbatível. Os promotores, entre eles Knighton, dariam algo para fazê-lo intervir em uma briga profissional. Mas, para um libertino como Malory, o boxe era tão somente um exercício físico para manter-se em bom estado e rebater a vida dissipada que levava. Suas visitas, três vezes por semana, ao Knighton's Hall tinham para ele a mesma importância que seus passeios matutinos pelo parque. Só lhe proporcionavam prazer. A metade dos cavalheiros que ali se encontravam eram também pugilistas que aguardavam seu turno para subir ao ringue. Alguns, como o honorável Fairfax, tinham ido contemplar aos peritos em ação, embora ocasionalmente existisse a oportunidade de fazer algumas aposta. Outros poucos eram camaradas do Malory; estavam acostumados a assistir para ver como ele derrotava a seus competidores, escolhidos pelo Knighton, e sabiamente se abstinham de competir com ele. Um deles fez uma brincadeira ao Anthony. Quase de sua mesma estatura, mas mais magro, Lorde Amherst era um indivíduo sem preconceitos, de vivazes olhos cinzas. Era da mesma idade, mas loiro, enquanto que Anthony tinha cabelos escuros, e compartilhava com ele os mesmos interesses, especialmente as mulheres e o jogo. -Só conseguirá que algum deles faça com entusiasmo converter em cornudo a algum jovem que tenha sua força e tamanho para que aceite a provocação. -Dada minha má sorte, George -disse Malory-, só obteria que escolhesse um duelo a pistola e isso não é divertido. George Amherst riu, pois embora nem todos soubessem que Anthony era imbatível no ringue, ninguém ignorava que era incomparável no campo da honra. Inclusive estava acostumado a perguntar a seus desafiadores em que lugar de sua anatomia desejavam receber a ferida, o que naturalmente os atemorizava mais ainda. Anthony nunca tinha matado a ninguém em um duelo, pois sempre se batera por mulheres e pensava que não valia a pena morrer por nenhuma delas, exceto pelas que integravam sua família. Era solteiro, mas seus três irmãos mais velhos tinham filhos e, assim, tinha sobrinhos a quem amava muito.
  6. 6. 6 -Está procurando competidores, Tony? Devia enviar a alguém para que me trouxesse. Sabe que sempre estou disposto a te agradar. George virou-se rapidamente sobre si mesmo, surpreso ao escutar uma voz que há dez anos não ouvia. Depois arqueou as sobrancelhas com incredulidade. No vão da porta estava James Malory, que indubitavelmente tinha envelhecido mas que ainda tinha o mesmo aspecto perigoso de dez anos atrás, quando havia sido o libertino mais notório de Londres. Alto, loiro e ainda belo. Deus, era incrível! Depois George se voltou para Anthony, para observar como reagia ante a inesperada visita. Os dois irmãos tinham sido muito unidos, já que só havia um ano de diferença entre eles e ambos compartilhavam dos mesmos interesses, embora James era sem dúvida o mais amalucado; ou ao menos tinha sido. Mas depois James tinha desaparecido e embora a família não mecionasse o motivo, os outros irmãos tinham renegado a ele e nem sequer o mencionavam. Anthony não era uma exceção. Apesar de George ter sido amigo íntimo de Anthony durante todos esses anos, este nunca lhe tinha dito por que James tinha sido expulso da família. Mas, para surpresa de George, Anthony não reagiu mau. Seu atraente rosto não expressou emoção alguma. Teria que conhecê-lo muito bem para perceber que esse brilho que aparecia em seus olhos de cor azul cobalto denotava prazer e não fúria. Mas quando falou, pareceu dirigir-se a seu pior inimigo. - James, que droga está fazendo em Londres? Esta manhã devia embarcar. James se limitou a encolher os ombros. - Houve uma mudança de planos, graças a teimosia de Jeremy. Desde que conheceu o resto da família foi impossível raciocinar com ele. Certamente tomou lições de manipulação com Regam, pois conseguiu me convencer para que lhe permitisse finalizar aqui seus estudos, embora não sei como o fez. Anthony desejava rir ao ver a expressão desconcertada do James, que tinha sido habilmente dirigido por um jovem de dezessete anos, que mais parecia filho de Anthony que de James, e o teria feito se James não tivesse mencionado o nome de Regam. Esse nome sempre irritava a Anthony, como a Jason e a Edward, seus irmãos mais velhos; e James sabia, porque tinha empregado o nome Regam em lugar do Reggie, que era como o resto da família chamava a Regina Eden. Enquanto James falava se adiantou, tirando o casaco para exibir a camisa solta que estava acostumado a usar quando capitaneava o Maiden Anne. Como tinha toda a aparência de agradar a Anthony no ringue, Anthony se absteve de discutir sobre o nome Regam, o que teria iniciado uma das rixas habituais e teria posto em perigo a oportunidade de boxear amigavelmente com ele. - Isso significa que você também ficará? -perguntou Anthony enquanto James entregava seu casaco ao George e aceitava as luvas que Jonh Knighton lhe calçou com um sorriso. - O suficiente para deixar estabelecido ao moço, suponho. Embora Connie disse que a única razão que tínhamos para nos instalar nas ilhas era a de dar ao Jeremy um lar. Anthony não pôde evitar a risada. - Dois velhos lobos marinhos brincando de ser mães. Deus, como teria agradado vê-lo. - Eu em seu lugar não diria isso -disse James, imperturbável. - Você também se fez de mãe durante seis anos todos os verões, não é verdade? -De pai - corrigiu Anthony. - Ou, melhor dizendo, de irmão mais velho. Surpreende-me que não se tenha casado, como Jason, só para dar uma mãe à Jeremy. Claro que, considerando que Conrad Sharp está disposto a te ajudar a criar o moço, suponho que não achou necessário. James subiu ao ringue. - Está menosprezando meu melhor amigo. Anthony fez uma leve reverência. - De acordo. Mas, quem se ocupará do moço enquanto você e Connie decidem retornar?
  7. 7. 7 A direita de James apontou diretamente o torso de Anthony, ao mesmo tempo que disse: - Você. Dobrado em dois, Anthony tratou de absorver o golpe e a resposta. As apostas começaram. Finalmente tinha chegado alguém que parecia capaz de vencer ao imbatível Lorde Malory. Malory era um pouco mais alto, mas o outro era mais robusto e parecia estar em condições de abater a qualquer um, incluindo Malory. E iriam ter o privilégio de contemplá-lo. Só uns poucos sabiam que eram irmãos. Quando Anthony recuperou o fôlego, olhou com o cenho carregado para James por causa do golpe surpresa, mas, respondendo a suas palavras, perguntou: - Eu? por que tenho que ser o afortunado? - O moço escolheu você. É seu ídolo... depois de mim, naturalmente. - Naturalmente -disse Anthony e tomou ao James de surpresa com um golpe de baixo para cima que fez retroceder ao James. Enquanto James movia a mandíbula, Anthony acrescentou: - Será um prazer tê-lo comigo, desde que compreenda que não restringirei minhas atividades como fiz pela Reggie. Aproximaram-se um do outro, trocando golpes antes que James respondesse: - Não pretendo isso, pois eu não o tenho feito. É diferente quando se está a cargo de um jovem. Por favor, esteve freqüentando prostitutas desde que tinha quatorze anos. Anthony se pôs-se a rir, mas ao fazê-lo desceu o guarda e recebeu um forte golpe em um flanco da cabeça. Mas reagiu rapidamente e deu uma trombada em James que o ergueu do chão, apesar de James pesar por volta de doze quilos mais que seu irmão. Anthony se manteve imóvel, aguardando que seu irmão se recuperasse. Quando James levantou o olhar, sorria. - Desejamos realmente ficar doloridos, Tony? Anthony sorriu. - Não, sobretudo se podemos fazer algo mais agradável e lhe asseguro que podemos. Aproximou-se de seu irmão e lhe rodeou o ombro com o braço. - Então, cuidará do moço até que comece a escola? - Agradaria-me, mas, meu Deus, farão-me toda classe de brincadeiras. Quem quer que veja o Jeremy acreditará que é meu filho. - Por isso deseja estar contigo -disse James sorrindo e deixando ver seus dentes brancos. - Possui um endiabrado senso de humor. O que te parece esta noite? Conheço um par de rameiras... - Rameiras?, por favor. Foi pirata durante muito tempo, capitão Hawke. Bem, conheço um par de damas... CAPÍTULO 3 -Mas, não compreendo, Ros -disse Lady Frances, inclinando-se para frente. - Por que teria que se amarrar a um homem se não deseja fazê-lo? Se estivesse apaixonada por ele seria diferente. Mas fala de te casar com alguém a quem ainda não conhece. -Frances, se não tivesse prometido, acha que o faria? - perguntou Roslynn. -Quero supor que não; mas quem poderá saber se não cumprir a promessa? Seu avô está morto e... -Frances se interrompeu ao ver a expressão de sua amiga. - Esquece o que acabo de dizer. -Farei isso. -Oh, mas acredito que é lamentável -disse Frances, suspirando enfaticamente.
  8. 8. 8 Lady Frances Grenfell era uma mulher notável de qualquer ponto de vista. Era miúda e não exatamente formosa, mas muito atraente, com seus cabelos loiros e seus escuros olhos pardos. Em um tempo tinha sido a jovem mais alegre e efervescente que Roslynn jamais conhecera, mas isso tinha sido antes de contrair matrimônio com Henry Grenfell, sete anos atrás. Agora era formal, uma matrona, mas ainda havia momentos em que parecia a jovem feliz de outras épocas. -Agora é tão independente - continuou dizendo Frances. - Possui muitíssimo dinheiro e não deve dar conta de seus atos a ninguém. Levou sete anos de convivência com um homem a quem não amava para me achar em sua mesma situação, e ainda tenho uma mãe que me repreende quando faço a menor coisa que ela desaprova. Embora seja viúva e viva só com meu filho, devo dar contas a alguém de meus atos. Mas você, Roslynn, não deve preocupar-se por ninguém e entretanto se vê obrigada a se entregar a um homem que sentirá prazer em limitar sua liberdade, como o fez Lorde Henry comigo. E sei que não deseja fazê-lo. Sei muito bem. - O que desejo não importa, Frances. Importa o que devo fazer. - Mas, por que? - exclamou Frances, exasperada. - Isso é o que desejo saber. E não volte a me dizer que é porque o prometeu a seu avô. Se ele considerava isso tão importante, teve muito tempo para casá-la. - Quanto a isso - respondeu Roslynn, - não havia ninguém com quem eu desejasse me casar. E o avô não me teria obrigado a aceitar a quem não quisesse. - Em todos estes anos não houve ninguém? - Oh, detesto a forma em que diz "em todos estes anos", Frances. Não me recorde quão difícil será para mim. Frances a olhou com assombro. - Difícil? -Esteve a ponto de tornar-se a rir. - Ora, se casar será o mais fácil do mundo. Terá tantos pretendentes que não saberá o que fazer com eles. E ninguém terá em conta sua idade. Meu Deus, não sabe como é incrivelmente bela? E, como se isso não fosse suficiente, está em posse de uma fortuna digna de um banqueiro. - Tenho vinte e cinco anos, Frances - enfatizou Roslynn, como se houvesse dito cem. Frances sorriu. - Também eu e não me considero uma anciã, obrigado. - É diferente porque é viúva. Foi casada. Ninguém se surpreenderia se voltasse a se casar. - Não, ninguém, porque jamais o farei. Roslynn franziu o cenho ante a interrupção. - Mas quando me virem junto a todas essas jovens casadouras rirão de mim. Frances sorriu. -Sinceramente, Ros... - É verdade. Eu mesma riria de uma solteirona de vinte e cinco anos que fizesse esse papel de tola -disse Roslynn com um resmundo. - Basta. Asseguro-lhe; juro a você, que sua idade não será um problema. Roslynn não podia acreditar, apesar de o desejar. Dissimulou-o, mas estava à beira do pranto. Essa era a razão pela qual aterrorizava-a a idéia de procurar marido. Ia cair em ridículo e não suportava a idéia. - Pensarão que me passa algo de mau porque não me casei antes, Fran. Sabe que será assim. É próprio da natureza humana. -Compreenderão-o perfeitamente quando souberem que passou os últimos seis anos cuidando de seu avô e vão elogiar por isso. Além disso, a idade é o menor de seus problemas. E evitou responder a minha pergunta, não é assim? Roslynn riu ao ver a expressão severa de seu amiga, com essa risada cálida e rouca, tão própria dela. Ela e Nettie tinham chegado à casa da rua South Audley a noite anterior, muito tarde e as
  9. 9. 9 duas amigas não tinham tido oportunidade de conversar até essa manhã. Era uma velha amizade que tinha sobrevivido doze anos, com uma só visita nos últimos dez, quando Frances levou a seu filho Timmy às terras altas de Escócia, quatro anos atrás. Roslynn tinha outras amigas na Escócia, mas nenhuma tão íntima como Frances nem a que pudesse confiar todos seus segredos. Conheceram-se quando tinham treze anos, quando o avô a tinha enviado à escola para convertê-la em uma dama, pois dizia que se estava convertendo em uma jovem selvagem, sem noção alguma de sua condição social; o que era verdade embora ela nem sempre considerasse assim. Roslynn tinha ficado dois anos na escola e depois tinha sido expulsa e enviada de volta a Cameron Hall por seu "comportamento incorrigível". O avô não a repreendeu. Na realidade, tinha sentido muitas saudades e se alegrava de tê-la novamente a seu lado. Mas contratou a uma excelente professora para que continuasse a educação de Roslynn e nenhuma das travessuras da menina conseguiu afugentar à senhorita Beechham; o avô lhe pagava muito. Mas durante esses dois anos que passou na Inglaterra, Frances e Roslynn tinham sido inseparáveis. E se não se apaixonou aos dezoito anos, teria compartilhado o amor de Frances através de suas cartas. Por intermédio de Frances, soube como era estar apaixonada. Por intermédio de Frances, também soube como era ter um marido a quem não se amava. E embora não tivesse tido crianças, sabia tudo relativo a eles, pelo menos o relativo a um filho, porque Frances tinha compartilhado com ela todas as fases da evolução de Timmy. Roslynn também tinha compartilhado com sua amiga todas suas experiências através de suas cartas, embora a vida nas terras altas não tinha sido muito emocionante. Mas nos últimos meses, não tinha querido preocupar à Frances com os temores do avô, de modo que não lhe tinha falado do Geordie. E como dizer-lhe agora? Como fazer ela compreender que não se tratava da manifestação senil de um ancião, mas sim de uma situação realmente perigosa? Roslynn decidiu começar pelo princípio. - Frances, recorda que lhe disse que minha mãe se afogou no Loch Etive quando eu tinha sete anos? - Sim; foi um ano depois da morte de seu pai, não é? -disse Frances, dando uma suave palmada sobre sua mão. Roslynn assentiu, tratando de não recordar sua desolação por causa de ambas as mortes. - O avô sempre culpou a seu sobrinho neto Geordie pela morte de minha mãe. Geordie era um menino perverso, que sempre maltratava aos animais e provocava acidentes que o divertiam. Nessa época tinha só onze anos, mas já tinha sido a causa de que um de nossos palafreneiros quebrasse uma perna, que a cozinheira sofresse uma queimadura grave e que foi preciso sacrificar um cavalo, sem contar as coisas que tinha feito em sua própria casa e das quais não nos soubemos. Seu pai era primo de minha mãe e, quando nos visitava, sempre trazia o Geordie. O dia em que se afogou minha mãe, fazia uma semana que estavam de visita. - Mas, como pôde provocar a morte de sua mãe? - Nunca houve provas, Frances. Aparentemente, o barco que tomou naufragou e, como era inverno e ela estava muito abrigada, não pôde nadar até a costa. - O que estava fazendo no lago no inverno? - Tinha crescido junto ao lago. Era natural para ela estar na água. Adorava; no verão nadava diariamente e percorria as bordas de ambas as márgens. Preferia remar a viajar de carro ou cavalgar, por hostil que fora o clima. E possuía seu próprio bote de remos, facilmente manobravel. Eu também, mas nunca me permitiam sair sozinha nele. Mas, de qualquer modo, apesar de ser uma excelente nadadora, nesse dia não chegou à margem. - Ninguém a ajudou?
  10. 10. 10 - Ninguém viu o ocorrido. Nesse dia ela tinha planejado cruzar o lago, de maneira que é provável que o bote afundou no meio. Vários dias depois, um dos granjeiros disse ao avô que, no começo dessa semana, tinha visto o Geordie no lugar onde se guardavam os botes. Se Geordie não tivesse sido tão afeito a causar acidentes, o avô não teria dado importância. Mas Geordie pareceu tão afetado como eu pela morte de minha mãe, o que era muito surpreendente, pois nem minha mãe nem eu o agradávamos. - De modo que seu avô acreditou que Geordie tinha prejudicado o bote? -Roslynn assentiu. - Possivelmente fez algo para provocar uma lenta inundação no barco. Era a classe de coisa que divertia a Geordie: provocar para que alguém se molhasse e perdesse um bom bote. Se o fez, acredito que foi uma travessura de mau gosto. Não acredito que tivesse a intenção de matar a ninguém; só desejava que se molhasse e se zangasse. Não podia saber que minha mãe se afastaria tanto da margem. Não cruzava o lago com freqüência. - Mesmo assim... - Sim; mesmo assim... -disse Roslynn, suspirando. - Mas o avô nunca pôde provar de modo que nada pôde fazer. O bote jamais apareceu e não se pôde saber se tinha sido danificado. Depois disso, o avô nunca confiou no Geordie; quando vinha para casa, fazia ser vigiado por algum dos criados. Odiava-o, Frances. Não podia dizer ao pai do Geordie quais eram suas suspeitas, nem lhe negar a entrada à casa. Mas jurou que Geordie jamais receberia nada dele. Quando morreu o pai do Geordie lhe deixou uma pequena herança. O avô sabia que Geordie invejava sua fortuna, mas o avô o recebeu porque era o filho mais velho e herdou a fortuna dos Cameron. E, quando Geordie pediu ao avô minha mão, soube que o fazia por interesse. - Desvaloriza-se ao dizer isso, Ros. Não tem dinheiro só. Roslynn fez um gesto, como subtraindo importância a suas palavras. - O fato é que nunca agradei a Geordie, Frances, nem mesmo quando nos tornamos adultos. E o sentimento era mútuo. Ele me invejava porque eu era a parenta mais próxima do avô. Mas quando morreu seu pai e soube que sua herança seria muito magra, tornou-se subitamente encantador por mim. - Mas o rejeitou -disse Frances. - Naturalmente. Não sou uma parva e percebi claramente que suas lisonjas eram falsas. Mas não desistiu. Continuou fingindo que me amava, embora eu visse o ódio em seus olhos azuis. - Bem, embora me tenha informado de tudo isso, não compreendo por que deve se casar depressa. - Ao morrer o avô, fiquei desprotegida. Não necessitaria disso se não fosse pelo Geordie. Pediu-me que me case com ele em muitas ocasiões. É evidente que deseja a fortuna dos Cameron e que fará algo para obtê-la. - Mas, o que pode fazer? Roslynn fez um gesto de aborrecimento. - Acreditei que nada. Mas o avô sabia mais que eu. Frances, inquieta, disse: - O dinheiro não cairia em mãos do Geordie se algo ocorresse a você, não é verdade? - Não; o avô tomou as medidas necessárias para que isso não aconteça. Mas Geordie pode me obrigar a me casar com ele se me apanhar. Existem modos, por meio de drogas ou golpes e inclusive com a intervenção de um padre inescrupuloso e não se assinaria o contrato matrimonial que o avô redigiu para mim. Geordie controlaria tudo se pudesse e, como disse antes, já não teria interesse em mim. E mais; não se atreveria a me ter a seu lado por temor que eu dissesse o que tinha feito. Frances estremeceu, apesar de ser uma morna noite de verão. - Não está inventando tudo isto, não?
  11. 11. 11 - Desejaria que fosse assim, Frances. O avô sempre esperou que Geordie se casasse, mas não o fez. O avô sabia que aguardava que eu ficasse sozinha, para que ninguém protestasse se me obrigasse a me casar com ele. E é muito grande para que eu possa lutar contra ele, embora seja hábil no manejo da adaga e levo uma dentro de minha bota. - Não o diz seriamente. - Oh, sim. O avô se assegurou de que soubesse usá-la. Mas, do que me serviria uma pequena adaga se Geordie contratasse a alguém para me seqüestrar? Agora sabe por que precisei abandonar a Escócia tão depressa e por que estou aqui. - E por que desejas um marido. - Sim, também isso. Uma vez que me tenha casado, Geordie nada poderá fazer. O avô me obrigou a lhe prometer que me casaria o quanto antes possível. Planejou tudo, inclusive minha fuga. Antes de me procurar aqui, Geordie percorrerá a Escócia, de modo que tenho tempo para escolher um marido, mas não muito. - Demônios, não é justo -disse Frances, causar pena. - Como pode se apaixonar tão depressa? Roslynn sorriu, recordando a séria advertência de seu avô: - Primeiro se proteja, menina, com uma aliança em seu dedo. Mais tarde, poderá achar o amor. - Ela se tinha ruborizado ao compreender o significado de suas palavras. Mas também lhe havia dito: -Naturalmente, se encontrar o amor, não fuja dele. Aferre-se a ele, pois isto poderia ser bom e não terá necessidade de buscá-lo depois. O avô também lhe tinha dado conselhos a respeito do homem que devia escolher. -Dizem que os libertinos são bons maridos, sempre que uma jovem bonita conquiste seu coração (não seus olhos; seu coração). Já tiveram muitas aventuras de modo que estão dispostos a ter um matrimônio estável. Mas Roslynn lhe dissera que se dizia que os libertinos nunca deixam de sê-lo. Esse conselho de seu avô não a tinha convencido. - Quem disso isso? Se for assim, será porque não se apaixonou. Deixe-o apaixonado por você, menina e não se arrependerá. Mas não refiro aos jovens. Deverá achar a um homem que tenha a idade suficiente para que já não deseje ter mais aventuras amorosas. Mas tampouco quererá um homem fatigado. Ren cuidado com isso. - E como distinguirei a diferença entre um e outro? - Pelos seus sentimentos. Se pode excitá-lo (e deixa de te ruborizar, menina). Excitará a muitos homens jovens e também a muitos libertinos. Terá muitos entre os quais poderá escolher. - Mas não desejo um libertino - tinha insistido ela. - Quererá -disse Duncan. - São irresistíveis. Mas te assegure de que ponha o anel antes de... - Avô! Ele bufou ante sua exclamação. - Se eu não lhe disser isso, quem o fará? Deve saber como dirigir um homem assim. - Com o dorso da mão. Ele riu. - Vamos menina, não é razoável a respeito disto - zombou. - Se o homem te atrair e conquista seu coração, ignorará ele só porque é um libertino? - Sim. - Mas acabo de te dizer que são os melhores maridos! -tinha gritado ao vê-la tão obstinada. - E desejo o melhor para ti, embora não terá muito tempo para achá-lo. - Como diabos sabe, avô? Diga-me isso por favor. - Não estava zangada; só confusa. O avô não sabia que ela já tinha informação a respeito dos libertinos através do Frances e segundo seu
  12. 12. 12 critério, devia fugir deles como da peste. - Eu fui um e não se surpreenda tanto. Tinha conquistado mulheres durante dezesseis anos quando me casei com sua avó e fui fiel até o dia de sua morte. Uma exceção. Não era suficiente para que Roslynn mudasse de idéia em relação a essa classe de cavalheiros. Mas se absteve de dizer-lhe a Duncan. Deixou que acreditasse que a tinha convencido. Mas era um conselho que não pensava seguir e sobre o qual não tinha feito promessa alguma. Em relação à pergunta que Frances lhe fizera sobre o amor, Roslynn encolheu os ombros e disse: - Se não acontecer imediatamente, não acontece. Sobrevive-se a isso. Frances franziu o sobrecenho. - Eu não tive alternativa. - Lamento-o. Não lhe devia recordar isso mas, no que a mim respeita, me apresente um indivíduo atraente que não seja muito mulherengo e o aceitarei. Se considerar que pode me agradar, será suficiente. -Depois sorriu. - Depois de tudo, conto com a permissão de meu avô, inclusive com a sugestão, de que posso procurar o amor mais adiante se não o achar em meu matrimônio. - Você... faria isso? Roslynn se pôs-se a rir ao ver a expressão escandalizada de sua amiga. - Me deixe achar um marido antes de pensar em um amante. Roga que ambos sejam a mesma pessoa. CAPÍTULO 4 - E bem, moço? Que tolices pensa ordenar? Satisfaz-se? - Anthony estava apoiado indolentemente contra o batente da porta contemplando Jeremy, que examinava-se nova habitação com evidente satisfação. - Demônios, tio Tony, eu... - Detenha -disse Anthony franzindo o cenho. - Pode chamar tio a meus irmãos, mas lhe agradecerei que me chame simplesmente Tony. Jeremy sorriu. Não estava intimidado absolutamente. - É esplêndido, Tony. O quarto, a casa, você. Não posso lhe agradecer o... - Pois não o faça, por favor -disse Anthony. - E antes de que continue me elogiando devo adverti-lo que penso corromper você, meu querido moço. Seu pai merece por te deixar a meu cargo. - Promete-o? Anthony precisou reprimir a risada. O jovem tinha acreditado. -Não. Por Deus, acha que desejo que Jason me mate? De fato armará um escândalo quando souber que James o enviou a minha casa, em lugar de alojá-lo na sua. Não, apresentarei a esse tipo de mulheres que seu pai esqueceu que existe. - Semelhantes a Regam? Anthony franziu o cenho seriamente. -Você e eu nos levaremos bem sempre que não pronuncie esse nome. Maldição, é como seu pai... - Bom, não posso permitir que fale mal de meu pai, tio Tony - disse Jeremy muito seriamente. Anthony avançou e acariciou os cabelos negros do jovem, tão semelhantes aos seus. - Me compreenda, cachorrinho. Amo a seu pai. Sempre o amei. Mas o atacarei sempre que me agrade. Foi meu irmão antes de ser seu pai e não necessito que você o defenda. De modo que se
  13. 13. 13 tranqüilize. Não falava seriamente. Jeremy, apaziguado, riu. -Rega- Reggie disse que não era feliz a menos que brigasse com seus irmãos. - Ah, sim? Essa mulher sempre foi uma sabichona - respondeu Anthony carinhosamente. - Falando dela, enviou-me uma nota hoje. Parece que está na cidade sem seu visconde e necessita de um acompanhante para um baile esta noite. Agradaria-lhea tarefa? - Eu? Fala a sério? -perguntou Jeremy, muito emocionado. - Por que não. Sabe que não suporto essas festas e não me teria falado disso se houvesse outra pessoa disponível. Mas Edward levou a sua família ao Haverston esta semana para visitar o Jason, e Derek também está ali, de modo que só ficamos você e eu. Somos os únicos Malory da cidade aos quais pode persuadir, a menos que transmitamos a tarefa a seu pai. Desde que o achemos a tempo. Pode ser que permaneça aqui esta semana, mas disse algo a respeito a reunir-se com uma velha amiga... - Sarah - disse Jeremy e seus olhos azuis brilharam-. Trabalha em uma taverna de... - Não me aflija com detalhes. - De qualquer modo, não iria a um baile, nem sequer para acompanhar a sua sobrinha favorita. Mas me fascinaria. Inclusive possuo a roupa adequada. E sei dançar. Sinceramente. Connie me ensinou. - Anthony esteve a ponto de rir. - Fez isso? Quem conduzia a quem? Jeremy sorriu. - Alternávamo-nos. Mas pratiquei com as rameiras e não se queixaram. Anthony não tinha a intenção de perguntar o que outros tipos de práticas tinha realizado, pois podia imaginar. Era óbvio que tinha muitos contatos com os desagradáveis amigos de seu pai. O que faria com esse velhaco encantador? Algo devia fazer, pois Jeremy, graças a seu pai, carecia de virtudes sociais. Um cavalheiro pirata (já retirado) e um libertino desacreditado: dois bons exemplos para imitar. Possivelmente devia entregar o jovem a seus primos quando retornassem a Londres, para que lhe ensinassem os rudimentos. - Estou seguro de que Reggie estará encantada de dançar contigo, moço, mas se disser que é uma rameira, levará alguns golpes. E lhe conhece bem, de modo que se alegrará de que a acompanhe. Entendi que você agrada-a. - Assim é. Fiquei-lhe simpático o dia do seqüestro. - Deve recordar que só quando soube quem era é que teve simpatia. Meu Deus, quanto trabalho teve James para se vingar do visconde, para logo descobrir que Reggie se casou com ele. - Bom, isso mudou tudo. - Naturalmente. Mas não devia arrastar você em seu desejo de vingança. - Tratava-se de uma questão de honra. - Ah, de modo que também sabe de questões de honra, não?, -disse secamente Anthony. - Então suponho que ainda há esperanças para você... Desde que eliminarmos às "rameiras" de seu vocabulário. Jeremy se ruborizou levemente. Não era culpado de ter passado os primeiros anos de sua vida em uma taverna, até que seu pai descobriu sua existência e se ocupou dele. Connie, o primeiro companheiro e melhor amigo do James, corrigia sua linguagem. Agora aparecia outro disposto a corrigi-lo. - Talvez não sirva para acompanhar... - Não volte a tomar tão seriamente tudo que digo. - Anthony meneou a cabeça. - Acaso lhe teria sugerido que acompanhasse a minha sobrinha favorita se não o acreditasse capaz? Jeremy franziu o cenho, mas por outro motivo. - Não posso fazê-lo. Demônios, no que
  14. 14. 14 estaria pensando? É obvio que não posso. Se se tratasse de outra pessoa... mas não. Não posso. - Que diabos está dizendo? Jeremy o olhou fixamente. - Não posso levá-la ao baile se serei o único que a proteja. O que ocorrerá se a assediar alguém como você? - Como eu? - Anthony não sabia se ria ou estrangulava ao jovem. - Sabe a que me refiro, Tony, alguém que não aceita negativas. Não se trata de que não atacaria ao que se atrevesse... - Mas, quem se deixaria impressionar por um jovem de dezessete anos? - disse Anthony, franzindo o cenho. - Maldição, não tolero estes condenados assuntos. Nunca pude nem poderei. Mas está certo. Suponho que deveremos chegar a um acordo. Você a acompanhará e eu a vigiarei. Acredito que o salão de baile Crandal está em frente de um jardim, de modo que poderei fazê-lo sem aparecer diretamente. Isso satisfará inclusive a seu protetor e marido. Parece- lhe bem, jovem Galahad? - Sim, desde que souber que está ali e que intervirá se surgirem problemas. Mas, demônios, Tony, não se aborrecerá toda a noite ali fora no jardim? - Certamente, mas suponho que posso tolerá-lo por uma noite. Não sabe qual seria a alternativa se aparecesse em uma dessas reuniões e não faça perguntas a respeito. É o que envenena minha vida, mas é a vida que escolhi, de modo que não me queixo. E depois desse misterioso comentário, Anthony deixou Jeremy a sós em seu novo quarto. CAPÍTULO 5 - Bem, querida, acredita em mim, agora? -murmurou Frances, aproximando-se de Roslynn por detrás. Roslynn estava rodeada por um círculo de admiradores que não a tinham deixado nem um instante a sós desde que chegara ao baile, o terceiro em três dias. Se alguém tivesse ouvido a pergunta teria a considerado perfeitamente inocente. Embora o olhar dos cavalheiros presentes voltava uma e outra vez a Roslynn, que levava um vestido de rasa cor verde azulada, nesse momento estavam discutindo amigavelmente uma corrida que teria lugar no dia seguinte. Ela tinha começado o tema para interromper a discussão prévia, sobre quem dançaria com ela a seguir. Estava fatigada de dançar, sobretudo com Lorde Bradley, que na aparência tinha os pés maiores que existiam desse lado da fronteira escocesa. Afortunada ou infelizmente, Roslynn não necessitou que Frances lhe explicasse a pergunta. Frances a tinha formulado com muita freqüência no transcurso dos últimos dias, encantada de ter estado certa em relação à acolhida que teria e de que Roslynn tivesse estado equivocada. Desfrutava do êxito de Roslynn como se fosse dela própria. -Acredito em você - suspirou Roslynn, com a esperança de que fosse a última vez que o dissesse. - Asseguro-lhe que sim. Mas como terei que escolher entre tantos? Frances lhe disse em um à parte: -Não precisa escolher a nenhum deles. Acaba de começar a caçada. Há outros que ainda não conhece. Não tomará uma decisão às cegas, não é verdade?
  15. 15. 15 -Não, naturalmente; não tenho a intenção de me casar com um perfeito estranho. Bom, será- o em certo modo, mas tratarei de averiguar tudo o que possa a respeito dele. Desejo conhecer minha presa o melhor possível para evitar enganos. -Sua presa, por Deus -disse Frances arregalando os olhos com gesto dramático. - É assim como o considera? Roslynn voltou a suspirar. -Oh, não sei, Frances. Não importa como o olhe, parece algo tão calculado e frio, especialmente quando nenhum dos que conheci me atraiu nem sequer um pouco. Tenho que comprar um marido. Essa é a verdade. E se isto é tudo que há para escolher, tenho a impressão de que não me agradará muito o indivíduo. Mas enquanto cumprir os outros requisitos... -Ora - disse Frances com severidade. - Está se dando por vencida quando a busca mal começa. Por que está tão deprimida? Roslynn fez uma careta. - São tão jovens, Frances. Gilbert Tyrwhitt não tem mais de vinte anos e Neville Baldwin não é muito major. O conde é de minha idade e Lorde Bradley tem muito poucos anos mais que eu, embora aja como se ainda fosse um colegial. Esses outros dois não são melhores. Maldição, fazem-me sentir tão velha. Mas o avô me acautelou. Disse que devia procurar um homem mais velho, mas onde estão? E se me diz que todos estão já casados me porei a gritar. Frances riu. - Ros, está se apressando. Existe uma boa quantidade de cavalheiros distintos; alguns são viúvos, outros solteiros que certamente desejarão deixar de sê-lo quando a conhecerem. Mas com certeza lhe deverei assinalar isso porque estes jovenzinhos provavelmente se intimidam. Depois de tudo, é um grande êxito. Se deseja um homem mais velho, deverá estimulá-lo um pouco; fazer ele saber que está interessada nele... bom, você sabe o que quero dizer. -Por Deus, Frances, não tem por que se ruborizar. Não me importa tomar a iniciativa quando é necessário. Inclusive estou disposta a expor meu caso e lhe propor matrimônio. Não arqueie as sobrancelhas. Sabe que o digo seriamente e que farei isso se for preciso. -Sabe muito bem que se será incômodo ser tão audaz. -Possivelmente o seria em circunstâncias normais. Mas nestas, não tenho muitas alternativas. Não tenho tempo para perder em um noivado formal, nem para aguardar que se apresente o homem indicado. De modo que me indique quais são os candidatos mais experimentados e direi a quais desejo que me apresentes. Já tive suficiente com estes garotos. -Bem -disse Frances, olhando a seu redor. - Lá, junto aos músicos, o mais alto. Não recordo seu nome, mas soube que é viúvo e tem dois meninos; não, três. Deve ter uns quarenta e um ou quarenta e dois anos e me disseram que é muito agradável. Tem uma grande propriedade no Kent, onde vivem seus filhos, mas prefere a vida da cidade. Aproxima-se mais ao que desejava? Roslynn sorriu ante o sarcasmo de Frances. -Oh, não está mau. Agradam- me suas têmporas grisalhas. Já que não posso ter amor, exijo ao menos boa presença e é bonito, não é? Sim, pode ser. Quem mais? Frances a olhou, desgostosa, pois teve a sensação de estar em um mercado escolhendo mercadoria seleta, embora Roslynn não opinasse o mesmo. Era desagradável a maneira prática e quase sem escrúpulos com que Roslynn encarava o assunto. Mas na realidade não era assim. A maioria das mulheres tinham um pai ou um tutor que se ocupavam dessas questões, enquanto elas se preocupavam tão somente das felizes fantasias do amor eterno ou, nos casos desventurados, da ausência do amor. Ros não tinha a ninguém que se ocupasse das realidades do matrimônio, de modo que devia se confrontar ela mesma com isso, inclusive com os acordos financeiros.
  16. 16. 16 Mais conformada com a situação, já que lutar contra ela era inútil, Frances indicou outro cavalheiro e logo outro mais. Depoi de uma hora Roslynn já os conhecia todos e tinha confeccionado uma lista mais restrita, mais aceitável do ponto de vista da idade. Mas os jovenzinhos insistiam em assediá-la e em dançar com ela uma e outra vez. Embora sua popularidade contribuisse em grande parte para diminuir sua ansiedade, também estava se convertendo em uma perturbação. Tendo vivido longo tempo encerrada com seu avô e os criados a quem conhecia desde toda a vida, Roslynn tinha tido muito pouco contato com cavalheiros. Os que conhecia estavam habituados a ela e aos que não conhecia, não se relacionava. A diferença de Nettie, que percebia quanto ocorria a seu redor com rapidez e notava o efeito causado pelo Roslynn sobre o sexo oposto, Roslynn era muito séria socialmente e não prestava atenção ao que acontecia em torno dela. Não era surpreendente que atribuísse tão pouca importância a sua beleza, que nunca lhe pareceu fora do comum, e também a sua idade, que considerava inadequada para seus propósitos e que influía somente sobre sua condição de herdeira que devia encontrar marido com rapidez. Tinha chegado à conclusão de que, dada sua idade avançada, comparada com as outras jovens casadouras, devia conformar-se com indivíduos sem perspectivas, e inclusive com algum aventureiro jogador ou algum lorde arruinado economicamente. E, embora se assinasse um contrato matrimonial que lhe permitisse controlar a maior parte de sua fortuna, seria generosa. Podia ser. Era tão rica que isso lhe produzia desconforto. Mas, depois da primeira festa que participou com Frances, viu-se obrigada a reconsiderar sua situação. Tinha descoberto que toda classe de cavalheiros mostrava interesse por ela, embora não conhecessem o montante de sua fortuna. Naturalmente, seus vestidos e jóias falavam por si mesmos mas o conde rico já a tinha visitado na casa da rua South Audley, assim como o desagradável Lorde Bradley. Os homens mais velhos que figuravam em sua lista tampouco eram pobres e todos pareciam muito adulados pelo interesse que ela lhes demonstrava. Mas, estariam dispostos a casar-se com ela? Isso ainda não se sabia. A primeira preocupação de Roslynn era averiguar algo mais a respeito deles. Não desejava receber surpresas desagradáveis depois de casar-se. Nesse momento precisava de um confidente e conselheiro; alguém que tivesse conhecido a esses homens durante vários anos e a ajudasse a reduzir sua lista. Frances tinha vivido muito encerrada e protegida desde que enviuvara e não podia lhe ser útil nesse sentido. Pessoalmente, só conhecia os amigos de seu marido e não podia recomendar a nenhum. Os homens que tinha apresentado à Roslynn essa noite eram simples conhecidos, sobre quem tinha uma informação muito vaga. Os falatórios poderiam ajudar, mas não eram de confiança, pois as antigas intrigas eram substituídas por outras mais recentes e não seriam úteis nesse caso. Se Roslynn tivesse outras amigas em Londres... mas Frances era a única. Nenhuma delas pensou na possibilidade de contratar os serviços de alguém que fizesse as averiguações pertinentes sobre seus candidatos. E, embora lhes tivesse ocorrido, não teriam sabido como achar a essa pessoa. E além disso, teria sido muito simples. No começo, Roslynn tinha suposto que a busca de um marido seria um assunto difícil. Supunha que lhe provocaria grande angustia, porque não contava com o tempo necessário para tomar uma decisão muito pensada. Pelo menos, nessa noite estava fazendo progressos, lentos mas efetivos. Sir Artemus Shadwell, o viúvo das têmporas grisalhas, tinha confrontado com os garotos e a tinha convidado para dançar. Infelizmente, não foi uma dança propícia para a conversa e só pôde averiguar que tinha cinco crianças de seu primeiro matrimônio (e não três, como havia dito Frances) e que não
  17. 17. 17 tinha interesse em formar uma nova família se alguma vez se voltasse a casar. Ela desejaria saber como faria para evitar isso, mas ele tinha afirmado redondamente. Era lamentável, já que Roslynn desejava ter meninos quando se casasse. Era a única coisa do casamento que a entusiasmava. Desejava ter filhos; não muitos mas dois ou três, ou quatro e isso estava decidido. Tampouco podia aguardar muito tempo para os ter, dada sua idade. Se pensava em formar uma família, devia começar imediatamente. Isso devia ficar claro. Não podia aceitar que lhe dissessem "talvez" ou "veremos". Mas não tinha por que eliminar ainda Sir Artemus de sua lista. Depois de tudo, ele não sabia que era um de seus "possíveis", de modo que certamente não tinha considerado sua pergunta sobre crianças como algo importante. Além disso, um homem podia mudar de idéia. Se sabia algo a respeito dos homens, era isso. Depois de dançar com ela, levou-a de novo junto à Frances que estava junto à mesa com uma jovem que Roslynn não conhecia. Mas imediatamente começou a soar a melodia de uma valsa e o persistente Lorde Bradley se aproximou dela. Roslynn grunhiu audivelmente. Era muito. Não pensava deixar-se pisar outra vez por esse desajeitado indivíduo. - O que ocorre, Roslynn? -perguntou Frances. - Nada... tudo -respondeu ela, exasperada. Depois, sem ter em conta que ainda não tinham lhe apresentado a estranha, disse: -Não dançarei mais com esse parvo do Bradley. Juro que não o farei. Fingirei desmaiar, mas isso poderia lhe causar problemas, de modo que me esconderei. Rindo, olhou às damas com gesto de conspiração e desapareceu entre a multidão, deixando que elas dessem as explicações do caso ao persistente Bradley. Roslynn se dirigiu a uma das portas que dava para o terraço e saiu. Próxima do muro junto à porta, certificou-se de que ninguém podia observá-la enquanto contemplava o amplo jardim que se estendia além do terraço. Depois se inclinou para olhar para o interior e assegurar-se de que não a seguiam. Viu lorde Bradley que se afastava de Frances, decepcionado. Não experimentou nem o mais leve remorso. Continuou observando a Lorde Bradley para estar segura de que, ao não achá-la no salão, não iria procurá-la no jardim. Nesse caso, teria que achar outro esconderijo e podia imaginar-se ridiculamente agachada detrás dos trabalhadores de pedreira do jardim. Mas também pensou que dava uma imagem ridícula nesse momento e voltou a olhar nervosamente para trás para assegurar-se de que o jardim estava deserto. Na aparência, estava. Depois de olhar a Lorde Bradley durante uns instantes mais, viu que ele convidava outra mulher para dançar. Suspirando, Roslynn se endireitou, alegrando-se de pôr seus pés a salvo no momento. Devia antes fugir em direção ao jardim. O ar fresco foi um bálsamo para seus pensamentos, confundidos pelas complexidades de sua vida atual. Precisava estar a sós para tranqüilizar-se, ao som da melodia que saía pelas portas abertas. Cada porta e cada janela que dava ao jardim desenhava sobre o terraço de pedra retângulos de luz dourada. Havia algumas mesas e cadeiras, mas eram muito visíveis do interior, assim Roslynn as evitou. Divisou um banco debaixo de uma árvore, no extremo do terraço que se unia à grama. Pelo menos, pareciam as pernas de um banco. A luz só iluminava essa parte, pois um ramo baixo não permitia ver o resto. O resto dessa zona estava nas sombras por causa de três grossas árvores, através das quais a luz da lua não podia penetrar. Era perfeito. Poderia apoiar os pés sobre o assento e tornar-se invisível para todo aquele que saísse. Seria agradável ser invisível durante um momento.
  18. 18. 18 Estava a vários metros de distância e Roslynn correu para seu refúgio inesperado, com a esperança de que ninguém a visse nesse momento através de alguma das janelas. Experimentou a ansiedade de não chegar a tempo. Só desejava uns poucos minutos de solidão. Mas sua ansiedade era absurda, já que nada aconteceria se seu desejo se visse frustrado. De qualquer modo, não poderia permanecer ali muito tempo. Do contrário, Frances se preocuparia. Mas nada disso parecia importar-lhe. O banco se converteu em uma necessidade essencial por motivos puramente emocionais. Então, de repente, compreendeu que não tinha achado refúgio algum. O banco, seu banco, já estava ocupado. Permaneceu de pé, imóvel, olhando inexpressivamente o que tinha parecido só uma sombra à distância, mas que agora se mostrava ser a perna de um homem. O pé estava apoiado no assento onde ela tinha pensado tornar-se invisível. Seu olhar percorreu a perna e comprovou que o homem estava em parte de pé e em parte sentado. Os antebraços estavam apoiados sobre o joelho flexionado; as mãos frouxas, com as palmas para baixo. Seus dedos eram longos e elegantes; detalhe que se fazia evidente pelo contraste de sua cor clara contra o negro das calças. O olhar de Roslynn seguiu subindo e viu um par de largos ombros, inclinados para frente, e a gravata branca com o nó frouxo. Finalmente olhou seu rosto, mas, na escuridão, só viu uma mancha cinza de cabelos escuros. Estava completamente escondido entre as sombras, onde ela tinha planejado estar. Era só um conjunto de sombras negras e cinzas, mas estava ali e era real e guardava silêncio. Enfureceu- se e desejou vingar-se. Sabia que ele podia vê-la claramente, iluminada pela luz que provinha da casa e pela lua. Provavelmente, tinha visto ela na ridícula pose de espiar para o salão, como uma menina brincando de esconder. E não dizia nada. Não se movia. Simplesmente, olhava-a. Ela se ruborizou. Sua fúria aumentou ante o silêncio dele. Se tivesse sido um cavalheiro teria dito algo para que ela se sentisse menos incomodada; para fazê-la acreditar que acabava de vê-la, embora não fosse assim. O prolongado silêncio a fez desejar fugir, mas teria sido muito. Ela não saberia quem era ele, enquanto ele a reconheceria facilmente. Quando conhecesse outros homens sempre se perguntaria se um deles não era esse, que riria dela em silêncio. Uma preocupação mais. Não podia ser. Ela se dispôs a lhe perguntar quem era; estava decidida a insistir, inclusive a arrastá-lo pela força para a luz se fosse necessário. Tal era sua fúria. As palavras não foram necessárias; de fato, esqueceu-se delas. Em uma das salas do andar superior da casa se acendeu uma luz e esta se filtrou através das copas das árvores. Iluminou então a parte superior do corpo do homem: suas mãos, um de seus ombros, seu rosto. Roslynn não estava preparada. Conteve o fôlego. Durante uns instantes seu atordoamento foi tão grande que não teria podido lembrar-se nem de seu próprio nome. Viu uma boca que esboçava um sorriso; um queixo forte e arrogante. O nariz era aquilino. A pele estava bronzeada pelo sol e era dourada, mas contrastava com o cabelo negro e ondulado. Os olhos (que Deus protegesse deles aos inocentes) eram de uma profunda cor azul e levemente rasgados. Eram exóticos, hipnotizadores; emoldurados por pestanas negras e sobrancelhas finas. Eram imponentes, inquisidores, atrevidamente sensuais; quentes, muito quentes. A falta de ar fez Roslynn reagir, voltando para a realidade. Inspirou lenta e profundamente e exalou um suspiro. Não era justo. Seu avô o tinha advertido. Não era preciso que ninguém lhe dissesse nada. Sabia. Sabia que era um deles, um dos que "não terei que levar em conta". Era muito bonito para não o ser. Seu aborrecimento se dissipou, substituído pela irritação. Roslynn sentiu a imperiosa
  19. 19. 19 necessidade de golpeá-lo por ser o que era. Por que devia ser ele? Por que o único homem que a atraía poderosamente devia ser o único tipo de homem inaceitável para ela? -Está-me olhando com descaramento, senhor. -De onde tinha tirado isso, quando o resto de seus pensamentos era tão caótico? -Sei -disse ele simplesmente, sorrindo. Ele se absteve de lhe dizer que ela estava fazendo o mesmo. Divertia-se muitíssimo somente olhando-a. As palavras eram desnecessárias, apesar de que a voz rouca dela roçava a pele dele como uma carícia. Anthony Malory estava fascinado. Tinha a visto antes que ela saísse ao jardim. Tinha estado vigiando ao Reggie através de uma janela e então ela entrou em seu campo visual. Não tinha visto seu rosto nesse momento; só suas magras costas coberta pelo tecido fino... e seus cabelos. Os cabelos de gloriosa cor avermelhada dourada tinham chamado imediatamente sua atenção. Quando deixou de vê-la ficou de pé, preparando-se para confrontar às pessoas só para ver o rosto que correspondia a esses cabelos estupendos. Mas ela saiu para o jardim. E então ele aguardou com paciência sobre o banco. Como ela se achava de costas para a luz não distinguia seus traços com clareza, mas era uma questão de tempo. Ela não iria a nenhuma parte antes que ele o fizesse. E logo se dedicou a contemplar suas cambalhotas quando se ocultou junto à porta e se agachou para olhar para dentro. Seu traseiro bem formado o fizeram sorrir. "Minha querida, não sabe como está provocadora", pensou. Esteve a ponto de rir em voz alta, mas ela pareceu ler seu pensamento porque se endireitou e olhou para o terraço. Quando dirigiu o olhar para onde ele se achava, pensou que o tinha descoberto. E depois se surpreendeu ao correr para ele. E finalmente pôde ver seu rosto muito formoso. Ela se deteve frente ao banco, e pareceu tão surpreendida como ele, só que a surpresa dele se desvaneceu quando compreendeu que ela não tinha corrido para ele porque nem sequer sabia que ele estava ali. Mas agora sabia. Era divertido contemplar as emoções cambiantes de seu rosto. Surpresa, curiosidade, desconforto, mas em nenhum momento temor. Ela tinha contemplado com seus intensos olhos pardos, primeiro sua perna e logo o resto. Perguntou-se quanto tinha podido ver. Provavelmente muito pouco, pois ela estava de pé na luz. Mas ele não tinha a intenção de fazer-se ver ainda. Por um lado, estava assombrado de que ela não tivesse fugido ou se desmaiado ou qualquer outra tolice que as jovens tendiam a fazer quando se encontravam com um homem escondido entre as sombras. Sem perguntar-lhe procurou uma razão que justificasse essa reação, diferente da de outras inocentes que ele estava acostumado a evitar. Mas logo se surpreendeu. Ela não era tão jovem e não muito jovem para ele, pelo menos. De modo que não era inacessível. A idéia fez Anthony reagir imediatamente. Até esse momento tinha apreciado sua beleza como um perito, mas agora pensava que não só podia olhar, mas também tocar. Então se acendeu a luz do andar superior e ela o olhou com outra expressão, obviamente fascinada e nunca se alegrou tanto que as mulheres o considerassem atraente. De repente, achou que era imperativo perguntar: - Quem é seu tutor? Roslynn se sobressaltou ao ouvir de novo sua voz, depois do prolongado silêncio; sabia que devia ter se afastado depois do breve diálogo inicial. Mas tinha permanecido ali, sem deixar de olhá-lo, sem se importar em fazê-lo e que ele o fizesse por sua vez. - Meu tutor? - Sim. A quem você pertence? - Oh, a ninguém.
  20. 20. 20 Anthony sorriu, divertido. -Possivelmente deveria formular a pergunta de outra maneira. - Não, compreendi. Meu avô morreu recentemente. Vivia com ele. Agora não tenho ninguém. - Então, me tenha a mim. As ternas palavras aceleraram seu coração. Faria algo para possui-lo. Mas estava segura de que ele não tinha querido dizer o que ela desejava que dissesse, mas sim deveria envergonhar-se pelo que em realidade havia dito. Mas não se envergonhava. Era de esperar que um homem como ele dissesse isso. Nunca eram sinceros, segundo Frances. E adoravam dizer coisas que escandalizassem para realçar sua própria imagem de dissipados e inescrupulosos. Contudo, ela perguntou: - Casaria-se comigo então? - Me casar? Ela tinha conseguido desconcertá-lo. Quase se pôs-se a rir ao ver sua expressão de horror. - Falo sem rodeios, senhor, embora geralmente não seja tão audaciosa. Mas, considerando o que me disse, minha pergunta é coerente. De modo que não é dos que se casam? - Não, por Deus. - Não precisa ser tão enfático -disse ela, com voz um pouco decepcionada. - Não achei que fosse. Ele já não sentia tão agradado e tirou suas próprias conclusões. - Não vai destroçar minhas ilusões tão rapidamente não é, querida? Não me diga que está procurando marido como todo mundo. - Oh, mas estou. Decididamente. Vim a Londres para isso. - Acaso todas não fazem isso? - Como disse? - Desculpe-me. Ele voltou a sorrir e esse sorriso teve sobre ela um efeito muito estranho. - Não está casada ainda. Não era uma pergunta a não ser uma elucidação. Inclinou-se para frente e tomou sua mão, aproximando-a a ele. -Qual é o nome que acompanha tanta beleza? Que nome? Que nome? Sua mente parecia invadida pelos dedos que tomavam os seus. Quentes, fortes. Sentiu um calafrio. Suas pernas golpearam contra a beirada do banco, perto do pé dele, mas não percebeu. Ele a tinha levado para as sombras. - Tem um nome, não é verdade? -insistiu ele. Roslynn aspirou sua fragrância fresca e masculina. - O que? Ele riu, encantado ante a confusão dela. - Minha querida menina, um nome. Todos levamos um, bom ou mau. O meu é Anthony Malory; Tony para os íntimos. Agora, confesse o seu. Ela fechou os olhos. Só assim podia pensar. -Ros... Roslynn. Ele estalou a língua. -Não estranho que deseje casar-se, Ros Roslynn. Simplesmente deseja trocar de nome. Ela abriu os olhos e se encontrou com um adorável sorriso. Estava brincando. Era agradável que o fizesse. Os outros homens que tinha conhecido recentemente estavam muito ocupados tratando de impressioná-la para sentir-se à vontade em frente dela. Ela devolveu o sorriso. -Roslynn Chadwick, para ser exata. - Um nome que deveria conservar, querida... pelo menos até que nos conheçamos melhor. E o faremos. Quer que lhe diga de que maneira? Ela riu e o som rouco de sua voz o estremeceu novamente. -Ah, está tratando de me
  21. 21. 21 escandalizar outra vez, mas será em vão. Sou muito velha para me ruborizar e me avisaram a respeito dos homens como você. - Como eu? - Um libertino. - Culpado. - Suspirou com fingida desolação. - Um professor da sedução. - Espero que assim seja. Ela riu e não foi um risinho tolo, nenhuma risada afetada, destinada a irritar seus sentidos, mas sim um som quente e profundo que o fez desejar... mas não se atreveu. Não desejava arriscar- se em atemorizar essa mulher. Talvez não fosse inocente pela sua idade, mas ainda não sabia se era experimentada em outros sentidos. A luz que tinha confundido ao Roslynn se apagou. O pânico foi instantâneo. Não importava que ela tivesse desfrutado de sua companhia. Não importava que sentara à vontade junto a ele. Agora estavam envoltos na sombra e ele era um libertino e ela não podia arriscar-se a ser seduzida. - Devo partir. - Ainda não. - Sim, devo fazê-lo. Ela procurou retirar sua mão, mas ele a oprimiu com mais força. A outra tocou sua face com dedos acariciantes. Ela experimentou uma estranha sensação no estômago. Devia fazê-lo compreender. -Eu... eu devo lhe agradecer, senhor Malory. - Impensadamente, falou com acento escocês. Pensava na carícia dele e em seu próprio pânico. - Durante uns instantes, conseguiu me distrair de minhas ocupações, mas agora não as aumente. Necessito de um marido, não de um amante e você não reúne as condições... lamento-o. Soltou-se, simplesmente porque conseguiu surpreendê-lo uma vez mais. Anthony a contemplou enquanto ela desaparecia no interior da casa e novamente experimentou esse impulso irrefreável de ir atrás dela. Não o fez. Sorriu devagar. Lamento-o. - Havia-o dito com autêntica pena. A jovem não sabia, mas com essas palavras tinha selado seu próprio destino. CAPÍTULO 6 - Está observando a um professor em ação, Connie. - Diria que se assemelhou mais a uma comédia de enganos - respondeu o loiro alto -. Quando se perde uma oportunidade, a perde, não importa como a olhe. Anthony riu quando ambos se reuniram debaixo da árvore. - Esteve me espiando, irmão? James se inclinou para apoiar os antebraços sobre o espaldar do banco e sorriu. -A verdade é que não pude resistir a tentação. Mas temi que a situação se tornasse embaraçosa. -De maneira nenhuma. Acabo de conhecê-la. -E de perdê-la. - Conrad Sharp o disse incisivamente. Anthony lhe lançou um olhar penetrante, enquanto apoiava um pé sobre o banco, mas o olhar se perdeu entre as sombras. -Vamos, Connie, não pode culpá-lo -disse James. - Ela foi muito astuta ao apelar a seu bom coração com esse primoroso acento escocês. Pensei que o halo deste jovem se manchara para
  22. 22. 22 sempre. -Uma jovem como ela poderia fazer brilhar o halo de qualquer um – disse Conrad. -Sim, é muito atraente, não é verdade? Anthony já tinha escutado muito. - Mas não está disponível. James riu. - Arriscou-se, não é? Tome cuidado; pode ser que tome como um desafio. Anthony sentiu o sangue gelar. Quando eram muito jovens tinha sido divertido competir pela mesma mulher, naqueles dias em que rondavam juntos pela cidade de Londres. E a questão tinha sido qual dos irmãos conseguia ser o primeiro a conquistar à dama. Mas os anos e os excessos tinham moderado a libido do Anthony. Já não era uma questão de vida ou morte. Ou não o tinha sido, até esta noite. Mas James, bem, já não conhecia James. Durante a maior parte de suas vidas tinham sido grandes companheiros. Sempre faziam causa comum frente aos outros dois irmãos, que eram dez anos mais velhos. Mas isso tinha sido antes que James tinha decidido converter-se em pirata de alto mar. Durante dez anos só tinha visto James em ocasiões contadas. A última vez se produziu um desacordo que tinha determinado que os três irmãos o repudiassem, depois de lhe dar uma surra por ter levado Reggie esse verão para compartilhar suas piratarias. Mas agora James era de novo aceito. Tinha renunciado à pirataria. Inclusive pensava retornar definitivamente a Inglaterra. E, nesse preciso momento, Anthony não sabia se falava a sério ou não quando o desafiou a respeito de Roslynn Chadwick. Nesse momento voltou a vê-la através da janela e notou que James também a tinha visto. - Demônios, James, o que está fazendo aqui de qualquer modo? O irmão que era mais velho um ano se ergueu, mas ainda assim era mais baixo que Anthony. Não pareciam irmãos. James era loiro e seus olhos eram verdes, herança dos Malory, e era mais robusto. Só Anthony, Regina, Amy, a filha do Edward e Jeremy tinham os cabelos negros e os olhos de cor azul cobalto de sua avó, de quem se dizia que tinha sangue cigano nas veias. -Se tivesse sido um pouco mais explícito nessa nota que me deixou, não teria quebrado a noite vindo aqui -disse James. - E agora que me recorda isso, devemos esclarecer uma questão. Em que demônios pensava quando permitiu que o patife de meu filho acompanhasse a Regam? Anthony chiou os dentes ao escutar o nome Regam. -Por isso veio? -Isso foi quanto me disse. Deveria se explicar um pouco mais, me dizendo que também você estaria aqui. Anthony olhou para o jardim. -Se considerar que estar escondido entre as sombras é estar aqui, suponho que estou. -Não seja odioso, cachorrinho -interveio Conrad. - Até que não tenha um próprio, não saberá quanto se preocupa alguém sobre o que está fazendo. -E o que poderia estar fazendo o pobre moço com dois pais diligentes que o vigiam? E além disso, embora tivesse desejado ignorá-lo, foi Jeremy quem disse que possivelmente não estaria em condições de protegê-la. Por isso me arrastou até aqui. - Interpretou-me mau, Tony. Não me preocupava quem protegeria a Regam das pessoas, mas sim quem a protegeria de seu acompanhante. Transcorreram cinco segundos, durante os quais Anthony se perguntou quanta animosidade provocaria sua risada. - É sua prima, pelo amor de Deus. - E acha que lhe importa? - Fala a sério? - perguntou Anthony. - Está apaixonado por ela -disse James.
  23. 23. 23 - Mas não tem em conta a ela. Faria ele implorar por misericórdia em menos de um minuto se a olhasse intencionalmente. Acreditei que conhecia melhor a nossa sobrinha, meu irmão. - Sim, já se que ela sabe defender-se. Mas também conheço meu filho e não se desanima facilmente. - Preciso lhe recordar que está falando de um jovem de dezessete anos? - E preciso lhe recordar como era você quando tinha dezessete anos? - replicou James. Finalmente, Anthony sorriu. -Tem razão. Muito bem, não só vigiarei a ela, mas também a ele. - Sempre que puder deixar de olhar à escocesa -disse Conrad. - Então, por favor fique -disse Anthony secamente-. Os três podemos vigiá-los. Além de tudo, é uma maneira muito prazenteira de passar a noite. James sorriu. -Acho que nos está dizendo para partirmos, Connie. Olhe, deixemos que o pobre moço definhe a sós. Nunca se sabe. Pode ser que ela volte à a carga e sua tarefa seja mais suportável. - Riu. - Se ela não vier para ele, não terá a coragem de se enfrentar com essas aves de rapina. Eu tampouco o teria. James estava duplamente equivocado. CAPÍTULO 7 - Bem, o que está fazendo aqui? É quanto desejo saber. Lady Crandal não vê com bons olhos essa classe de pessoas. Ela nunca o teria convidado. - Sir Anthony não necessita de convite, querida. Faz como lhe agrada. - Mas sempre teve a discrição de não assistir a nossas festas. - Discrição? - Riu. - Não se trata de discrição. Não suporta estas reuniões. E não me surpreende. É provável que todas as damas que se encontram aqui desejam reformar esse libertino. - Não é engraçado, Lenore. Quando aparece, a metade das mulheres que estão na sala se apaixona por ele. Comprovei que é assim. Por isso nenhuma anfitriã o convida a suas festas se não deseja problemas. Provoca muitos distúrbios. - Mas nos dá assunto de conversa durante meses. Admite-o. É um tópico muito interessante, não é verdade? - Isso diz facilmente, Lenore -disse outra dama, obviamente desolada. - Não tem uma filha a quem vigiar. Meu Deus, olhe Jane. Não pode deixar de olhá-lo. Com certeza já não aceitará Percy. É uma jovem tão difícil. - Olhar não faz mal, Alice. Só conta a sua filha algumas historia a respeito dele e não só se horrorizará mas também se alegrará de que ele não tenha demonstrado interesse por ela. - Mas o que está fazendo aqui? Desejaria sabê-lo. - A pergunta foi repetida com severidade. - Provavelmente está vigiando a seu filho -disse Lenore com afetação. - Seu o que? - Olhe o jovem que está dançando com Sarah Lordes. É a viva imagem de Sir Anthony. - Meu Deus, outro Malory ilegítimo. Essa família deveria ser mais circunspeta. - Bom, o marquês reconheceu ao seu. Pergunto-me se Sir Anthony fará o mesmo. - Isto é incrível. Como terão feito para guardar o segredo durante tanto tempo? - Certamente o ocultaram em algum lugar até agora. Mas, aparentemente, os Malory darão muitas surpresas esta temporada. Soube que o terceiro irmão retornou.
  24. 24. 24 - O terceiro irmão? -disse outra dama. - Mas se só há três. - Onde esteve, Luta? -disse Lenore, maliciosa. - São quatro e o terceiro é a ovelha negra. - Mas achava que Sir Anthony era essa ovelha. - Como é o mais jovem, é a segunda. Oh, poderia te contar muitas histórias sobre o outro. Esteve ausente durante muitos anos, mas ninguém sabe onde nem por que. - Então não é surpreendente que eu não soubesse de sua existência -disse Luta, defensivamente rígida. - Olá, outra vez. Roslynn se desgostou ante a inoportuna interrupção, mas ao menos não se tratava de um de seus jovens admiradores. Por sorte, a maior parte deles foi para a sala de jogos, deixando-a em liberdade para conhecer melhor aos cavalheiros de sua nova lista. Mas, em lugar de ir em busca de um deles, distraiu-se com uma das numerosas conversas que se iniciaram quando Anthony Malory entrou no salão de baile. Roslynn se tinha instalado com discrição atrás de um grupo de senhoras mais velhas e se dedicou a escutar sua conversa. Não podia negar. O assunto que se discutia lhe era extremamente fascinante e escutou cada palavra com avidez. Mas agora alguém desejava conversar com ela e não poderia evitá-lo. Olhou para Lady Eden, mas tratou de manter um ouvido alerta ao que diziam as damas sentadas em frente a ela. - Já se cançou de dançar? A jovem, divertida, percebeu a distração de Roslynn. Divertiu-a mais ainda escutar certos comentários que se faziam nesse momento perto dela e compreendeu o motivo da distração de Roslynn. - Todos sabem que poucas vezes danço a não ser com meu marido, mas esta noite não pôde me acompanhar. - Bem. Regina Eden arregalou os olhos , sorriu e tomou Roslynn pelo braço. -Venha comigo, querida. Faz muito calor aqui. Vamos a outro lugar, quer? Roslynn suspirou ao ser tirada do grupo. Lady Eden era sem dúvida muito agressiva para alguém tão jovem. De fato, Roslynn se tinha assombrado ao inteirar-se de que estava casada e já tinha um filho, pois seu aspecto era o de uma colegial. Era a dama que tinha estado antes com Frances e a que Roslynn não tinha sido apresentada porque se afastou do grupo. Mas Frances se encarregou das apresentar quando Roslynn retornou do jardim. Nesse momento, ainda estava emocionada por seu encontro com Malory. Na realidade, não podia recordar a conversa que tinha tido então com Lady Eden, no caso de havê-la tido. Lady Eden se deteve em frente da mesa onde se achava os refrescos. Infelizmente, Roslynn tinha agora uma visão clara do assunto abordado por todos. Ele não tinha entrado realmente no salão. Com ar indiferente, manteve-se de pé junto à porta que dava ao jardim; um ombro recostado contra o batente, os braços cruzados sobre o peito, contemplando o interior do salão... até que a viu. Então seu olhar se deteve e sorriu com esse sorriso que a enchia de calidez. Ao vê-o em plena luz, seus sentidos estremeceram. Tinha um corpo tão simétrico que era impossível deixar de admirá-lo. Ombros largos, cintura estreita, quadris magros e pernas longas. E era alto. Não tinha notado isso no jardim. E gotejava sensualidade. Isso sim tinha notado. O corte de sua roupa de etiqueta era impecável, embora vestido de negro aparentasse um aspecto sinistro. Mas o negro complementava ele. Não pôde imaginá-lo usando as cores claras de um "dandy". Atrairia ainda mais a atenção sobre ele, mas o certo era que a atraía de qualquer modo, só pelo fato de aparecer.
  25. 25. 25 - É diabolicamente bonito, não? Roslynn se sobressaltou, percebendo que a tinham descoberto enquanto o observava atentamente. Mas seria estranho se não o fizesse, pois todos o observavam. Olhou Lady Eden encolhendo os ombros. -Parece-lhe? - Decididamente. Seus irmãos também são muito atraentes, mas sempre pensei que Tony era o mais bonito de todos. Não agradou muito à Roslynn esse "Tony" pronunciado por essa moça formosa, de cabelos negros e vivazes olhos azuis cheios de humor. O que lhe havia dito ele? "Tony para os íntimos". - Deduzo que o conhece bem. Regina sorriu encantadoramente. -Conheço muito bem a toda a família. Roslynn se ruborizou, coisa que raramente lhe ocorria. A resposta a tranqüilizou mas estava irritada consigo mesma pela ansiedade com que formulou a pergunta. Se a viscondessa conhecia bem aos Malory, era a última pessoa que Roslynn desejava que percebesse seu interesse por Sir Anthony. Não deveria estar interessada absolutamente. Devia mudar de assunto. Mas não pôde. - É muito mais velho, não é verdade? - Bom, se acha que ter trinta e cinco anos é ser velho... - Só trinta e cinco? Regina precisou reprimir seu desejo de rir. A mulher estava disposta a achar algo mau no Tony, mas era difícil saber o que poderia ser. Era óbvio que tinha feito outra conquista sem nem sequer propor-lhe ou o propunha? Era perverso de sua parte olhá-la dessa maneira. Se ela não estivesse junto à Lady Roslynn, a pobre seria destroçada pelos falatórios que geraria seu interesse por ela. Sim, era realmente perverso, porque nada resultaria de todo isso. Nunca resultava em algo. E Lady Roslynn lhe agradava. Não desejava que a ferisse. - É um solteiro contumaz -advertiu-lhe Regina. - Como tem três irmãos mais velhos, nunca se viu obrigado a casar-se. - Não tem por que suavizar a realidade. Sei que é um libertino. - Ele prefere dizer que é um "perito em mulheres". - Então também ele disfarça a realidade. Regina riu. Realmente esta mulher lhe agradava. Possivelmente Roslynn fingia indiferença por Tony, mas em outros aspectos era muito sincera e espontânea. Roslynn olhou rapidamente a Sir Anthony. Sentia-se idiota por havê-lo chamado senhor Malory, mas como podia saber que tinha a dignidade de par? O irmão mais velho era marquês de Haverston, o segundo, um conde, o terceiro era a ovelha negra da família e Anthony era a segunda ovelha negra. inteirou-se de muitas coisas essa noite. Por que não podia inteirar-se das que se referiam a seus "possíveis" potenciais? -Não dança? -perguntou Roslynn, dizendo-se a si mesma que devia abandonar o assunto. -Oh, maravilhosamente, mas não se atreve a convidar a ninguém aqui. Se o fizesse, deveria dançar também com várias dúzias de mulheres, para despistar às aves de rapina. Mas Tony não tomaria tantas precauções para dançar com a dama que lhe interessar. Por isso não suporta estas reuniões. Obrigam-no a ser discreto, quando a palavra nem sequer figura em seu vocabulário. -É realmente tão má sua fama que o simples fato de dançar com ele arruinaria a reputação de uma jovem? - Acontece e é uma pena, porque não é tão mulherengo. Não é que lhe falte companhia feminina. Mas tampouco se propos seduzir a todas as mulheres de Londres. - Só a uma parte?
  26. 26. 26 Regina notou o sorriso e percebeu que Roslynn estava mais divertida que escandalizada pela reputação de Anthony. Talvez não estivesse interessada nele. Ou talvez percebia sabiamente que não havia possibilidades de conquistá-lo. - Os falatórios podem ser muito cruéis, querida -murmurou Regina a seu ouvido. - O certo é que não me atrevo a deixar você sozinha. Ele se está comportando indevidamente ao olhar você dessa maneira. Roslynn evitou olhar Regina nos olhos. -Talvez olhe você. - É claro que não. Mas enquanto outros não souberem a qual das duas olha tão atrevidamente, está a salvo. - Ah, aqui está, Ros -disse Frances, unindo-se a elas, - Lorde Grahame perguntava por ti. Diz que lhe prometeu uma valsa. - Assim é. -Roslynn suspirou. Era hora de esquecer a Anthony Malory e de voltar para o trabalho. -Só espero que o indivíduo relaxe um pouco e seja um pouco mais comunicativo desta vez. Compreendeu muito tarde como isso teria parecido aos ouvidos de Lady Eden, mas Regina se limitou a sorrir. - Está bem, querida. Frances comentou comigo algo a respeito de sua situação. Talvez lhe console saber que tive exatamente o mesmo problema que você quando procurava marido. Mas a diferença estava em que minha escolha devia ser passada por minha família, o que fazia isso extremamente dificil; para eles, ninguém era suficientemente bom para mim. Graças a Deus, meu querido Nicholas fez um acerto comigo. Do contrário, ainda estaria procurando marido. Foi Frances quem pareceu escandalizar-se. -Mas acreditei que a tinham comprometido com ele. -Essa foi a opinião geral quando se fez o anúncio, mas o certo é que me seqüestrou acreditando que eu era sua amante. Esse pequeno engano me salvou. Naturalmente, levou-me de volta a minha casa imediatamente, mas o dano já tinha acontecido. E, como solteiro contumaz que era, foi ao altar protestando. Mas se adaptou muito bem ao matrimônio. Isso demonstra que os que parecem menos aptos costumam ser os melhores maridos. Nunca se sabe. Suas últimas palavras tinham sido especialmente dirigidas à Roslynn, mas esta tratou de não as levar em conta. Seu trabalho já era bastante árduo para acrescentar em sua lista aos indesejáveis. Não desejava terminar casando-se com um libertino com a esperança de reformá-lo. Não gostava de apostar. Decidida, foi em busca de Lorde Grahame. CAPÍTULO 8 Essa manhã o clima não podia ser mais perfeito. O número de cavaleiros que passeava por Hyde Park quase o triplo do habitual. Em geral os passeios se faziam à tarde, quando se via toda classe de carruagens avançando lentamente pelos atalhos de aspecto campestre. As manhãs eram costumeiramente reservadas para realizar exercício físico, pois quem fazia se via obrigado a parar em certas ocasiões afim de conversar com conhecidos, tal como ocorria à tarde. Anthony Malory se resignou a desistir de seu galope habitual através do parque e se dedicou a trotar. Não porque Reggie não estivesse disposta a segui-lo, mas duvidava que a égua que ela montava pudesse estar à altura de seu poderoso animal e, como ela tinha insistido em
  27. 27. 27 acompanhá-lo, ele se viu obrigado a seguir seu ritmo. Depois do que tinha ocorrido na noite anterior, ele tinha suas suspeitas sobre o porque ela tinha desejado acompanhá-lo e não estava muito disposto a falar da dama. Mas quando Reggie começou a cavalgar mais lentamente e logo se deteve e fez gestos ao James e Jeremy para que continuassem, soube que não poderia evitar o assunto. A adorada garota podia ser perturbadamente insistente quando se propunha a isso. -Quando lhe disse que desejava cavalgar com você esta manhã, pensei que estaríamos a sós -disse Regina com certo tom de aborrecimento. - Compreendo que Jeremy queria vir, mas o tio James? Quase nunca se levanta antes do meio-dia. Na realidade, Anthony tinha tirado seu irmão e seu sobrinho da cama, insistindo em que o acompanhassem. Mas a artimanha não tinha conseguido fazer Reggie desistir de seu propósito. E maldito James. Sabia muito bem que o havia convidado para que a conversa se mantivesse em um terreno impessoal, mas lá ia, depois de sorrir ao Anthony com expressão divertida. Anthony encolheu os ombros inocentemente. -O que posso dizer? Desde que se converteu em pai, James mudou muitíssimo seus hábitos. Acaso o trapaceiro com quem se casou não fez o mesmo? -Está bem. Por que sempre ataca a Nicholas quando seu próprio comportamento está longe de ser exemplar? -E foi diretamente ao ponto. - É meio escocesa, sabia? Ele não se incomodou em perguntar quem; só disse com indiferença: - Ah, sim? - Costumam ter muito mau gênio. - Está bem, gatinha. -Ele suspirou. - O que a preocupa para que se considere obrigada a me advertir? Ela enrugou a testa e o olhou nos olhos. - Interessa a você, Tony? - É que estou morto e não sabia? Ela riu a pesar do que ele disse. -Sim, suponho que foi uma pergunta tola. Naturalmente lhe interessa; a você e a várias dúzias mais. Suponho que minha próxima pergunta será: O que vai fazer a respeito? -Isso, minha menina, não é teu assunto. Seu tom era afável mas firme e Regina voltou a franzir o cenho. -Sei. Mas acreditei que devia saber algo a respeito dela, antes de se decidir a persegui-la. - Vai me contar toda sua história? -perguntou ele secamente. - Não crie dificuldades, Tony. Veio a Londres para casar-se. - Já me inteirei dessa terrível noticia através da dama em questão. - Quer dizer que falou com ela? Quando? - Se deseja sabê-lo, ontem à noite, no jardim. Ela conteve o fôlego. - Não... -Não. Regina exalou um suspiro, mas só foi um alívio passageiro. Se o fato de saber que Lady Roslynn estava procurando marido não o desalentava, a pobre mulher estava condenada. - Talvez não saiba que sua decisão é séria, Tony. Decidiu casar-se antes do fim do mês. Não, não arqueie as sobrancelhas. Não se trata disso. De fato, considerando a experiência que tem em relação aos homens, poderia ter dezesseis anos. - Pois, não acredito nisso. - Olhe. Não sabe nada a respeito dela e entretanto planeja desbaratar sua vida. A verdade é que, até agora, viveu muito protegida. Esteve nas terras altas com seu avô desde a morte de seus pais e, aparentemente, passou estes últimos anos cuidando dele. Por isso não pensou antes no
  28. 28. 28 casamento. Sabia? - Nossa conversa foi muito curta, Reggie. Ela percebeu sua irritação mas prosseguiu. - Seu pai era um conde de certo prestígio. Sabe que o tio Jason o reprovará. Anthony a interrompeu no meio da advertência. - Odeio figurar na lista negra de meu irmão mais velho, mas não lhe devo explicações, gatinha. - Ainda há mais, Tony. É uma herdeira. Seu avô era enormemente rico e deixou toda sua fortuna à Roslynn. Essa notícia ainda não se difundiu, mas pode imaginar o que ocorrerá se não estiver já casada quando se divulgar. -Todos os patifes de Londres sairão de suas covas para assediá-la -disse Anthony com voz tensa. - Exatamente. Mas, felizmente, ela já elaborou uma lista de cavalheiros aceitáveis. Soube que só lhe falta averiguar o quanto possa a respeito de cada um deles, antes de fazer sua escolha. Devo perguntar ao Nicholas o que sabe sobre eles. - Uma vez que está tão inteirada, me diga por que diabos tem tanta pressa. Oh, definitivamente, estava interessado; o suficiente para não se importar que sua irritação fosse evidente. Regina se deteve pensar que era algo insólito. Nunca o tinha visto antes tão perturbado por uma mulher. Tinha tantas para escolher que nenhuma o atraía muito. Possivelmente deveria reordenar seus próprios pontos de vista a respeito. Com vacilação, Reggie disse: -Tem algo que ver com uma promessa que Lady Roslynn fez a seu avô moribundo. Conforme diz sua amiga, Frances Grenfell, provavelmente não se casaria se não fosse por essa promessa. Quero dizer que não se produz freqüentemente uma situação como a dela: é uma mulher muito formosa, rica e independente. Era em realidade uma situação singular, mas Anthony não a levou em conta nesse momento. O nome Grenfell o inquietou. - É muito amiga de Frances Grenfell? A pergunta desconcertou Regina. - Por que? - Lady Frances foi um dos enganos de juventude de George, mas isto é confidencial, gatinha. - Naturalmente - disse ela. Depois acrescentou: - Refere-se ao George, seu melhor amigo, que sempre me fazia brincadeiras atrevidas? Esse George? Ele sorriu ao ver sua surpresa. - O mesmo, mas não respondeu a minha pergunta. - Bem, não acho que tenha importância, mas são amigas íntimas. Conheceram-se na escola e sempre se mantiveram em contato. - O que significa que se fazem toda classe de confidências - grunhiu ele. Maldição. Anthony ainda podia ouvir sua voz rouca que lhe confessava: "Advertiram-me contra homens como você." Ele tinha pensado que brincava, mas agora sabia de onde provinham as advertências e como podiam ser condenatórias podiam ser. Não tinha estado brincando absolutamente. Sempre estaria na defensiva com respeito a ele, recordando o ocorrido com sua amiga. De repente teve o impulso de bater em George Amherst por sua indiscrição juvenil. A droga com ele. Ao ver seu cenho franzido, Regina receiou dizer o que sabia que devia ser dito, mas ninguém se atreveria a dizer-lhe de modo que ela devia fazê-lo. -Sabe, Tony, a menos que esteja disposto a dar o grande passo, que assombraria a toda Londres mas encantaria à família, deveria deixar a esta dama em paz. De repente, ele se pôs-se a rir. - Por Deus, gatinha, quando se converteu em minha
  29. 29. 29 consciência? Ela se ruborizou. - Bom, é endiabramente injusto. Duvido que exista uma mulher que não possa seduzir se se propõe a isso. - Exagera minhas habilidades. -Não brinque -disse ela. - Contemplei você a desdobrar seu encanto, Tony, e é devastador quando o faz. Mas Roslynn Chadwick me agrada. Deve cumprir uma promessa que é importante para ela e, por alguma razão, tem um limite de tempo para fazê-lo. Se interferir, criará problemas, para não falar de sofrimento. Anthony lhe sorriu carinhosamente. - Se preocupa muito por alguém a quem acaba de conhecer, Reggie. É uma preocupação um tanto prematura, não acha? Além disso, ela não é nenhuma idiota insensata. É independente e não deve prestar contas a ninguém. Ela o disse. Não acha que é bastante grande e amadurecida para defender-se de um libertino como eu se o desejar? - Essa palavra "deseja" me aterroriza -grunhiu ela e ele voltou a rir. - Falou com ela durante bastante tempo ontem à noite. Mencionou-me? Deus. O fato de que formulava semelhante pergunta indicava que levava o assunto muito seriamente, apesar de tudo que lhe havia dito. - Foi virtualmente o único assunto do qual falamos, mas isso não é surpreendente já que quase todos os que estavam ali falavam de você. Na realidade, estou certa de que ouviu alguns quantos falatórios a respeito de ti antes que eu me aproximasse dela. - Fez-me ficar bem, gatinha? - Tratei de fazê-lo, embora ela não me acreditasse. Mas suponho que lhe agradará muito saber que, embora fingisse indiferença, tinha tanto interesse como você. - O sorriso de Anthony quase a cegou. - Oh, Deus, não lhe devia dizer isso mas já que o fiz, também devo lhe dizer que, apesar de seu interesse por você, decidiu conhecer melhor aos cavalheiros que considera aptos para o matrimônio. Pode ser que a tenha impressionado, mas não conseguiu alterar seus planos. Regina compreendeu que nada de quanto dissesse o desalentaria, e havia dito todo o possível. Deveria ter economizado o incômodo. Nunca tinha tratado de interferir em sua vida sentimental e via que era inútil fazê-lo agora. Ele faria o que desejava muito, tal como o fazia sempre. Deus era testemunha de que durante anos e anos o tio Jason tinha tratado de frear seu hedonismo sem êxito. O que a tinha feito pensar que ela teria melhor sorte? De repente compreendeu que tinha sido uma idiota. Tinha estado tentando mudar as qualidades de Anthony que mais lhe agradavam. Era um libertino encantador. Exatamente isso e por essa razão era seu tio favorito. Se deixava tantos corações quebrados a seu passo, era porque as mulheres não podiam evitar apaixonar-se por ele, embora ele nunca tomava suas aventuras seriamente. Mas sabia proporcionar prazer e felicidade. Isso era muito valioso. - Espero que não se zangue comigo por me intrometer no que não me diz respeito. - Sorriu- lhe com esse sorriso que ele nunca deixava de apreciar. - Tem um nariz muito bonito. - Mas muito intrometida neste momento. Lamento-o, Tony, de verdade. Só acreditei que... não importa. Até agora soube te desembrulhar sem os conselhos de ninguém. Acho que deveríamos tratar de alcançar a... Regina não terminou a frase. Viu um magnífico garanhão negro que chamou sua atenção; caminhava pouco a pouco para seguir o passo do cavalinho que ia a seu lado, mas quando viu quem montava o formoso animal, grunhiu em silêncio. Que horror. Tinha que ser precisamente ela. Observou se Anthony tinha notado a presença de Lady Roslynn. Sim, tinha-a notado. Se
  30. 30. 30 não tivesse atraído sua atenção o esplêndido cavalo, teria visto de qualquer modo à amazona, com seu conjunto de montar de cor verde e seus cabelos radiantes. Mas era quase embaraçoso contemplar a expressão de seu rosto. Deus, nunca o tinha visto olhar assim a uma mulher, apesar de que o ter visto frente a dúzias de suas amadas. Na noite anterior tinha olhado para ela fixamente, seduzindo-a com o olhar. Isto era diferente. Era o olhar que Nicholas podia dirigir a Regina: uma mescla de paixão e ternura. Bem, estava claro. Sentiu-se como uma estúpida ao ter tratado de advertir Anthony. Era óbvio que estava acontecendo algo especial. E não seria maravilhoso que desse resultado? Os pensamentos de Regina mudaram por completo. Agora se perguntava como poderia ajudar a esses dois a reunir-se. Anthony tinha suas próprias idéias. - Reggie, poderia se retardar enquanto lhe apresento meus respeitos? - Mas o olhar dela respondeu: - "Nem sonhe." Ele suspirou. - Imaginava. Bem, venha comigo então. Acho que deve me acompanhar. Sem aguardar Regina, Anthony se dirigiu para interceptar Roslynn, com a esperança de que Reggie lhes permitisse estar uns minutos a sós. Mas não poderia ser. O maldito James escolheu esse preciso momento para retornar e a interceptou antes que Anthony. Quando Anthony se aproximou deles, ouviu que James dizia: -Encantado de voltar a vê-la, Lady Chadwick. Roslynn teve problemas para controlar Brutus, o que lhe causou um intenso aborrecimeto, pois isto nunca lhe tinha ocorrido antes. Tinha visto Sir Anthony que se aproximava e certamente por isso se surpreendeu ao ver o loiro desconhecido, que parecia ter saído do nada. Foi pior ainda, e mais irritante, que ele se inclinasse para aquietar o cavalo, o que punha em evidência que ela era incapaz de dominá-lo. Com tom áspero disse: -Conheço-o, senhor? - Não, mas tive a oportunidade de admirá-la ontem à noite no jardim dos Crandal. Infelizmente, você fugiu antes de que pudesse me apresentar. Anthony observou que ela se ruborizava. - Por isso, querido irmão, acho que voltarei a lhe convidar ao Knighton's Hall. James não se importou absolutamente. À luz do dia, Roslynn Chadwick era a dama mais formosa que jamais tinha visto. O fato de que Anthony a tivesse conhecido antes não lhe importava o mínimo. Tornava um tanto incômoda a situação, mas isso era tudo. Enquanto ela não expressasse sua preferência, ambos podiam tratar de conquistá-la. Roslynn olhou fixamente a James. Nunca teria adivinhado que era o irmão de Anthony. E, depois de tudo o que tinha ouvido dizer dele, compreendia por que lhe consideravam pior que Anthony. Ambos eram extremamente bonitos, mas enquanto Anthony era um descarado encantador, o loiro Malory parecia ser muito mais desumano. Destilava perigo. Mas ela não se atemorizou. Era Anthony que a perturbava e a fazia perder a compostura. - De modo que você é a ovelha negra do clã Malory? - disse Roslynn. - Que coisas terríveis tem feito para merecer essa denominação? - Nada que possa ser provado; asseguro, doce dama. -Depois olhou ao Anthony com um sorriso desafiante. - O que acontece com suas maneiras, moço? Apresente-nos. Anthony chiou os dentes. -Meu irmão, James Malory. -Sem mudar o tom de sua voz, acrescentou: - E o jovem que vem cavalgando para nós é seu filho, Jeremy. Jeremy se deteve bruscamente, exultante pelo galope violento a que se entregara. Ouviu o comentário que Roslynn fez ao James. - Seu filho? Como não o adivinhei? - Havia tal ironia em sua

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