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Tropicalia caetano veloso

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Caetano Veloso




      1     Caetano Veloso
CAETANO VELOSO

Santo Amaro da Purificação, BA — 1942

Incluir Caetano Veloso em um livro dedicado à poesia significa reconhecer uma tradição
lírica muito peculiar à literatura brasileira: o cancioneiro popular, que remonta a Noel Rosa,
Cartola e Humberto Teixeira e chega até nossos dias com Dorival Caymmi, Chico Buarque,
Gilberto Gil, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Luiz Tatit e Tom Zé, entre tantos outros.

Discute-se muito se as letras de MPB devem ser lidas de um ponto de vista estritamente
poético, desvinculadas das músicas com as quais foram criadas. A questão traz nas
entrelinhas um julgamento de valor, como se o fato de ser indissociável de melodias e
harmonias circunscrevesse essa produção a um gênero menor (prova disso são
as resistências à obra de Vinicius Pág. 39] de Moraes). Mas também existe o argumento de
que no Brasil — graças a inventividade singular de compositores que prescindem de
comparações com a literatura "pura"—, a canção popular se tornou um gênero maior.
Seja como for, a recente publicação de Letra Só (2003), reunindo 180 composições de
Caetano Veloso, demonstra que podemos enxergá-las também como poemas. Lendo os
versos de "Língua", por exemplo, seria quase possível esquecer as harmonias e a voz do
compositor — se isso não significasse a pobreza de espírito de trocar o mais pelo menos,
de ignorar as virtualidades latentes na pergunta que ele mesmo formula: "O que quer/ O
que pode/ Esta língua?"
Nas mãos de Caetano, a língua pode muito: assimila a alta tradição lírica ao
experimentalismo concreto ("Sampa"), deglute a si mesma em gesto que reproduz
metalingüisticamente aquilo que denuncia ("O furto, o estupro, rapto pútrido/ O fétido
sequestro,/ O adjetivo esdrúxulo em U") e se reinventa numa sucessão barroca de
neologismos (como em "Outras Palavras": "Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da
guerrapaz/ Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial").

Já em 1967, ao comentar uma de suas músicas, Augusto de Campos identificava os
procedimentos poéticos do compositor: "A letra de 'Alegria, Alegria' traz o imprevisto da
realidade urbana, múltipla e fragmentária, captada isomorficamente através de uma
linguagem nova, também fragmentária, onde predominam substantivos-estilhaços da
'implosão informativa' moderna [...]. E o mundo das 'bancas de revista'.
O mundo da comunicação rápida, do 'mosaico informativo' de que fala Marshall McLuhan".
A frase é uma síntese de sua obra: sem ter jamais abandonado as referências, Augusto de
Campos. "A Explosão de 'Alegria Alegria'", Em: O balanço da Bossa Outras Bossas.. São
Paulo: Perspectiva. 1993. (Publicado originalmente em O Estado de São Paulo,
25/11/1967.)
Caetano resistiu à folclorização nacionalista do subdesenvolvimento, recriando nossa
dialética modernidade-arcaísmo (magnificamente presentificada no poemamanifesto
"Tropicália"). Nesse sentido, é importante notar que a canção "Fora da Ordem" pode ser
lida como o primeiro poema de nossa literatura a refletir (ainda em 1991) o impacto da
globalização num país periférico como o Brasil e que sua autobiografia, Verdade Tropical
(1997), é também uma radiografia da cultura brasileira nas últimas décadas.

"A seleção revelou muita coisa interessante da dicção dessas palavras escritas para serem
cantadas que eu não perceberia de outra forma", confessa Caetano Veloso. "Senti que as
letras, apresentadas na condição de poemas,
mostraram virtudes que eu não desconfiava que possuíssem e fiquei surpreso com valores
que eu não observava."

Eucanaã Ferraz toma o cuidado de não chamar as letras de poemas e não chamar
Caetano de poeta. "Ele faz as letras para a música", observa." Mas há, na transposição
para um papel, um deslocamento formidável, como o que em Cinema Falado assegurava a
impureza do cinema; aqui, o poema cantado, observado distante da melodia, mostra-se em
outra dimensão. E é surpreendente como, mesmo para quem conhece bem as melodias,
ao ler as letras fora dos encartes dos discos percebe outros valores. É como se o tempo
todo essas letras estivessem nos enganando, fingindo não ser poemas. A reunião em livro
dá numa forma de vida nova para os escritos."



                                            2                              Caetano Veloso
Mas, afinal, letra de música é poesia ou não? Eucanaã acha que a discussão, dada a
peculiaridade da produção cultural brasileira, é, sim, pertinente, e que o livro trouxe o tema
de novo à baila. Afinal, Caetano hoje é citado, junto a outros como Chico Buarque e
Arnaldo Antunes por Manuel da Costa Filho em Literatura Brasileira hoje, publicação Folha
Explica, como poeta. Em tempo, Chico consta como prosista.


Principais Obras: Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997), Letra Só (Companhia
das Letras, 2003).




                                            3                               Caetano Veloso
Língua
Caetano Veloso


Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
(– Será que ele está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?



                                         4                        Caetano Veloso
– Bote ligeiro!
– Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
– Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
– I like to spend some time in Mozambique
– Arigatô, arigatô!)
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem.


Sampa
Caetano Veloso


Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Outras Palavras
Caetano Veloso


Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza:
Outras palavras




                                          5                          Caetano Veloso
Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo:
Outras palavras

Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim
quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha:
Outras palavras

Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente:
Outras palavras

Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras


Alegria, Alegria
Caetano Veloso


Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...




                                          6              Caetano Veloso

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Tropicalia caetano veloso

  • 1. Caetano Veloso 1 Caetano Veloso
  • 2. CAETANO VELOSO Santo Amaro da Purificação, BA — 1942 Incluir Caetano Veloso em um livro dedicado à poesia significa reconhecer uma tradição lírica muito peculiar à literatura brasileira: o cancioneiro popular, que remonta a Noel Rosa, Cartola e Humberto Teixeira e chega até nossos dias com Dorival Caymmi, Chico Buarque, Gilberto Gil, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Luiz Tatit e Tom Zé, entre tantos outros. Discute-se muito se as letras de MPB devem ser lidas de um ponto de vista estritamente poético, desvinculadas das músicas com as quais foram criadas. A questão traz nas entrelinhas um julgamento de valor, como se o fato de ser indissociável de melodias e harmonias circunscrevesse essa produção a um gênero menor (prova disso são as resistências à obra de Vinicius Pág. 39] de Moraes). Mas também existe o argumento de que no Brasil — graças a inventividade singular de compositores que prescindem de comparações com a literatura "pura"—, a canção popular se tornou um gênero maior. Seja como for, a recente publicação de Letra Só (2003), reunindo 180 composições de Caetano Veloso, demonstra que podemos enxergá-las também como poemas. Lendo os versos de "Língua", por exemplo, seria quase possível esquecer as harmonias e a voz do compositor — se isso não significasse a pobreza de espírito de trocar o mais pelo menos, de ignorar as virtualidades latentes na pergunta que ele mesmo formula: "O que quer/ O que pode/ Esta língua?" Nas mãos de Caetano, a língua pode muito: assimila a alta tradição lírica ao experimentalismo concreto ("Sampa"), deglute a si mesma em gesto que reproduz metalingüisticamente aquilo que denuncia ("O furto, o estupro, rapto pútrido/ O fétido sequestro,/ O adjetivo esdrúxulo em U") e se reinventa numa sucessão barroca de neologismos (como em "Outras Palavras": "Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz/ Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial"). Já em 1967, ao comentar uma de suas músicas, Augusto de Campos identificava os procedimentos poéticos do compositor: "A letra de 'Alegria, Alegria' traz o imprevisto da realidade urbana, múltipla e fragmentária, captada isomorficamente através de uma linguagem nova, também fragmentária, onde predominam substantivos-estilhaços da 'implosão informativa' moderna [...]. E o mundo das 'bancas de revista'. O mundo da comunicação rápida, do 'mosaico informativo' de que fala Marshall McLuhan". A frase é uma síntese de sua obra: sem ter jamais abandonado as referências, Augusto de Campos. "A Explosão de 'Alegria Alegria'", Em: O balanço da Bossa Outras Bossas.. São Paulo: Perspectiva. 1993. (Publicado originalmente em O Estado de São Paulo, 25/11/1967.) Caetano resistiu à folclorização nacionalista do subdesenvolvimento, recriando nossa dialética modernidade-arcaísmo (magnificamente presentificada no poemamanifesto "Tropicália"). Nesse sentido, é importante notar que a canção "Fora da Ordem" pode ser lida como o primeiro poema de nossa literatura a refletir (ainda em 1991) o impacto da globalização num país periférico como o Brasil e que sua autobiografia, Verdade Tropical (1997), é também uma radiografia da cultura brasileira nas últimas décadas. "A seleção revelou muita coisa interessante da dicção dessas palavras escritas para serem cantadas que eu não perceberia de outra forma", confessa Caetano Veloso. "Senti que as letras, apresentadas na condição de poemas, mostraram virtudes que eu não desconfiava que possuíssem e fiquei surpreso com valores que eu não observava." Eucanaã Ferraz toma o cuidado de não chamar as letras de poemas e não chamar Caetano de poeta. "Ele faz as letras para a música", observa." Mas há, na transposição para um papel, um deslocamento formidável, como o que em Cinema Falado assegurava a impureza do cinema; aqui, o poema cantado, observado distante da melodia, mostra-se em outra dimensão. E é surpreendente como, mesmo para quem conhece bem as melodias, ao ler as letras fora dos encartes dos discos percebe outros valores. É como se o tempo todo essas letras estivessem nos enganando, fingindo não ser poemas. A reunião em livro dá numa forma de vida nova para os escritos." 2 Caetano Veloso
  • 3. Mas, afinal, letra de música é poesia ou não? Eucanaã acha que a discussão, dada a peculiaridade da produção cultural brasileira, é, sim, pertinente, e que o livro trouxe o tema de novo à baila. Afinal, Caetano hoje é citado, junto a outros como Chico Buarque e Arnaldo Antunes por Manuel da Costa Filho em Literatura Brasileira hoje, publicação Folha Explica, como poeta. Em tempo, Chico consta como prosista. Principais Obras: Verdade Tropical (Companhia das Letras, 1997), Letra Só (Companhia das Letras, 2003). 3 Caetano Veloso
  • 4. Língua Caetano Veloso Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões Gosto de ser e de estar E quero me dedicar a criar confusões de prosódia E uma profusão de paródias Que encurtem dores E furtem cores como camaleões Gosto do Pessoa na pessoa Da rosa no Rosa E sei que a poesia está para a prosa Assim como o amor está para a amizade E quem há de negar que esta lhe é superior? E deixe os Portugais morrerem à míngua “Minha pátria é minha língua” Fala Mangueira! Fala! Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer O que pode esta língua? Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas E o falso inglês relax dos surfistas Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate E – xeque-mate – explique-nos Luanda Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo Sejamos o lobo do lobo do homem Lobo do lobo do lobo do homem Adoro nomes Nomes em ã De coisas como rã e ímã Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã Nomes de nomes Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó O que quer O que pode esta língua? Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção Está provado que só é possível filosofar em alemão Blitz quer dizer corisco Hollywood quer dizer Azevedo E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo A língua é minha pátria E eu não tenho pátria, tenho mátria E quero frátria Poesia concreta, prosa caótica Ótica futura Samba-rap, chic-left com banana (– Será que ele está no Pão de Açúcar? – Tá craude brô – Você e tu – Lhe amo – Qué queu te faço, nego? 4 Caetano Veloso
  • 5. – Bote ligeiro! – Ma’de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado! – Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho! – I like to spend some time in Mozambique – Arigatô, arigatô!) Nós canto-falamos como quem inveja negros Que sofrem horrores no Gueto do Harlem Livros, discos, vídeos à mancheia E deixa que digam, que pensem, que falem. Sampa Caetano Veloso Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi Da dura poesia concreta de tuas esquinas Da deselegância discreta de tuas meninas Ainda não havia para mim Rita Lee A tua mais completa tradução Alguma coisa acontece no meu coração Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho Nada do que não era antes quando não somos mutantes E foste um difícil começo Afasto o que não conheço E quem vende outro sonho feliz de cidade Aprende depressa a chamar-te de realidade Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas Da força da grana que ergue e destrói coisas belas Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba Mais possível novo quilombo de Zumbi E os novos baianos passeiam na tua garoa E novos baianos te podem curtir numa boa Outras Palavras Caetano Veloso Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca Neca desse sono de nunca jamais nem never more Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza: Outras palavras 5 Caetano Veloso
  • 6. Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol Na televisão, na palavra, no átimo, no chão Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo: Outras palavras Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim E fora de mim quando você parece que não dá Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha: Outras palavras Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor Tinjo-me romântico mas sou vadio computador Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente: Outras palavras Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun Homenina nel paraís de felicidadania: Outras palavras Alegria, Alegria Caetano Veloso Caminhando contra o vento Sem lenço e sem documento No sol de quase dezembro Eu vou... O sol se reparte em crimes Espaçonaves, guerrilhas Em cardinales bonitas Eu vou... Em caras de presidentes Em grandes beijos de amor Em dentes, pernas, bandeiras Bomba e Brigitte Bardot... O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça Quem lê tanta notícia Eu vou... Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos Eu vou Por que não, por que não... 6 Caetano Veloso
  • 7. Ela pensa em casamento E eu nunca mais fui à escola Sem lenço e sem documento, Eu vou... Eu tomo uma coca-cola Ela pensa em casamento E uma canção me consola Eu vou... Por entre fotos e nomes Sem livros e sem fuzil Sem fome, sem telefone No coração do Brasil... Ela nem sabe até pensei Em cantar na televisão O sol é tão bonito Eu vou... Sem lenço, sem documento Nada no bolso ou nas mãos Eu quero seguir vivendo, amor Eu vou... Por que não, por que não... Por que não, por que não... Por que não, por que não... Por que não, por que não... Tropicália Caetano Veloso Sobre a cabeça os aviões Sob os meus pés os caminhões Aponta contra os chapadões Meu nariz Eu organizo o movimento Eu oriento o carnaval Eu inauguro o monumento No planalto central do país... Viva a bossa Sa, sa Viva a palhoça Ca, ça, ça, ça... O monumento É de papel crepom e prata Os olhos verdes da mulata A cabeleira esconde Atrás da verde mata O luar do sertão O monumento não tem porta A entrada é uma rua antiga Estreita e torta E no joelho uma criança Sorridente, feia e morta 7 Caetano Veloso
  • 8. Estende a mão... Viva a mata Ta, ta Viva a mulata Ta, ta, ta, ta... No pátio interno há uma piscina Com água azul de Amaralina Coqueiro, brisa E fala nordestina E faróis Na mão direita tem uma roseira Autenticando eterna primavera E no jardim os urubus passeiam A tarde inteira Entre os girassóis... Viva Maria Ia, ia Viva a Bahia Ia, ia, ia, ia... No pulso esquerdo o bang-bang Em suas veias corre Muito pouco sangue Mas seu coração Balança um samba de tamborim Emite acordes dissonantes Pelos cinco mil alto-falantes Senhoras e senhores Ele põe os olhos grandes Sobre mim... Viva Iracema Ma, ma Viva Ipanema Ma, ma, ma, ma... Domingo é o fino-da-bossa Segunda-feira está na fossa Terça-feira vai à roça Porém! O monumento é bem moderno Não disse nada do modelo Do meu terno Que tudo mais vá pro inferno Meu bem! Que tudo mais vá pro inferno Meu bem!... Viva a banda Da, da Carmem Miranda Da, da, da, da... 8 Caetano Veloso
  • 9. Fora de Ordem Caetano Veloso Vapor barato Um mero serviçal Do narcotráfico Foi encontrado na ruína De uma escola em construção... Aqui tudo parece Que era ainda construção E já é ruína Tudo é menino, menina No olho da rua O asfalto, a ponte, o viaduto Ganindo prá lua Nada continua... E o cano da pistola Que as crianças mordem Reflete todas as cores Da paisagem da cidade Que é muito mais bonita E muito mais intensa Do que no cartão postal... Alguma coisa Está fora da ordem Fora da nova ordem Mundial... Escuras coxas duras Tuas duas de acrobata mulata Tua batata da perna moderna A trupe intrépida em que fluis... Te encontro em Sampa De onde mal se vê Quem sobe ou desce a rampa Alguma coisa em nossa transa É quase luz forte demais Parece pôr tudo à prova Parece fogo, parece Parece paz, parece paz... Pletora de alegria Um show de Jorge Benjor Dentro de nós É muito, é grande É total... Alguma coisa Está fora da ordem Fora da nova ordem Mundial... Meu canto esconde-se Como um bando de Ianomâmis Na floresta Na minha testa caem 9 Caetano Veloso
  • 10. Vem colocar-se plumas De um velho cocar... Estou de pé em cima Do monte de imundo Lixo baiano Cuspo chicletes do ódio No esgoto exposto do Leblon Mas retribuo a piscadela Do garoto de frete Do Trianon Eu sei o que é bom... Eu não espero pelo dia Em que todos Os homens concordem Apenas sei de diversas Harmonias bonitas Possíveis sem juízo final... Alguma coisa Está fora da ordem Fora da nova ordem Mundial... ©Protegido pela Lei do Direito Autoral LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998 Permitido o uso apenas para fins educacionais. Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, modificado e que as informações sejam mantidas. 10 Caetano Veloso