Walter c. kaiser jr teologia do antigo testamento

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Walter c. kaiser jr teologia do antigo testamento

  1. 1. WALTER C.KAISER JR.
  2. 2. Copyright © 1978 Zondervan CorporationTítulo do original: Toward an Old Testament TheologyTraduzido da edição publicada pela ZondervanPublishinf House - Grand Rapids, Michigan 49506, EUA1a. edição: 19802a. edição (revisada): 1984Reimpressões: 1988, 1996, 1997, 1999, 2000, 2007Publicado no Brasil com a devida autorizaçãoe com todos os direitos reservados porSOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA,Caixa Postal 21266, São Paulo, SP04602-970www.vidanova.com,brProibida a reprodução por quaisquermeios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos,fotográficos, gravação, estocagem em banco dedados, etc.), a não ser em citações breves,com indicação de fonte.Printed in Brazil / Impresso no BrasilISBN 978-85-275-0136-1
  3. 3. ÍNDICE PREFACIO VIIPARTE I DEFINIÇÃO E MÉTODOCAPÍTULO 1 A Importância da Definiçffo e Metodologia 2CAPÍTULO 2 A Identificação de um Centro Teológico Canónico 22CAPÍTULO 3 O Desenvolvimento de um Esboço para a Teologia do Antigo Testamento 43CAPÍTULO 4 As Conexões Através das Épocas Históricas de Temas Emergentes 57PARTE II MATERIAIS PARA UMA TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTOCAPÍTULO 5 Protegômenos à Promessa: A Era Pré-patriarcal 73CAPÍTULO 6 Provisões na Promessa: A Era Patriarcal 87CAPÍTULO 7 O Povo na Promessa: A Era Mosaica 105CAPÍTULO 8 O Local da Promessa: A Era Pré-monárquica 127CAPÍTULO 9 O Rei da Promessa: A Era Davfdica 147CAPÍTULO 10 A Vida na Promessa: A Era Sapiencial 169CAPÍTULO 11 O Dia da Promessa: Século Nono 187CAPÍTULO 12 O Servo da Promessa: Século Oitavo 199CAPÍTULO 13 A Renovação da Promessa: Século Sétimo 228CAPÍTULO 14 O Reino da Promessa: Os Profetas do Exílio 1 244CAPÍTULO 15 0 Triunfo da Promessa: Os Tempos Pós-exflicos 258PARTE III A CONEXÃO COM A TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTOCAPÍTULO 16 O Antigo Testamento e o Novo Testamento 271 fNDICE DE AUTORES 279 tN DICE DE ASSUNTOS 283 ÍNDICE DE REFERÊNCIAS 287 iftDICE DE PALAVRAS HEBRAICAS 309
  4. 4. Nenhum aspecto dos estudos vétera-testamentários é mais exigente do quea teologia. A pura magnitude e o escopo desta disciplina já foram suficientes paradesencorajar a maioria dos estudiosos de entrarem com a sua contribuição antes dejá estar à vista o f i m das suas carreiras acadêmicas. Tal cautela deveria ter solucionado a questão para este escritor. No entanto,quanto mais lia as teoiogias dos nossos dias, tanto mais inquieto me sentia. Sentique algumas opções importantes estavam sendo negligenciadas no diálogo contem-*poráneo. Este era especialmente o caso na área instável da metodologia e da defini-ção. É nosso argumento que a teologia do Antigo Testamento funciona methorcomo serva à teologia exegética ao invés de desempenhar seu papel tradicionalde suprir dados à teologia sistemática, O intérprete precisa de algum meio defacilmente obter a teologia que se relaciona com o texto que investiga. Este novopapel para a teologia bíblica vem apresentado na Parte I. Se nossa análise se revelarcomo verdadeira, poderá suprir o ingrediente que falta no debate cheio de perple-xidades entre um tipo a,C. de teologia, meramente descrita, e uma teologia impostae normativa, tipo d.C. E nosso argumento que os próprios escritores, por meio dereferências explícitas, alusões e suposições inferidas colocavam suas mensagenscontra um pano de fundo de uma teologia acumulada que eles, seus ouvintes, e,agora, seus leitores, teriam que relembrar se eles realmente queriam atingir a pro-fundidade aa mensagem originalmente pretendida. E por esta razão que temostomado partido ao lado do método diacrónico de Gerhard von Rad, porque é eleque melhor servirá as necessidades da exegese e levará adiante a visão original dadisciplina.
  5. 5. Havia outro assunto, também. A busca da unidade da mensagem do AntigoTestamento conforme se acha no seu atual formato conônico é pressuposta portodos no próprio nome da matéria — teologia, não teologias, do Antigo Testamento— mas quase universalmente se reconhece — a inexistência desta unidade. Se o textotiver licença de falar por si mesmo antes de fazermos as nossas avaliações, entãogostaríamos, vigorosamente, de propor que o elemento da "promessa" é aquelecentro que pode ser demonstrado em cada período do cânon. É nossa esperança de que esta obra possa ser expandida e refinada no de-curso dos anos enquanto colegas de todas as persuasões teológicas entrem emdiálogo com este autor. Por este motivo, deliberadamente entramos num diálogoamplo, e esperamos que seja pacífico, com estudiosos que representam um espectroeclesiástico e teológico largo, com a esperança de que este cumprimento possa serretribuído por aqueles que não participam do ponto de vista evangélico desteescritor. Naturalmente, a obra é endereçada a mais pessoas do que os profissionaisda disciplina; também é escrito para suprir as necessidades de pastores, estudantesde colégios ou universidades, seminaristas, e os estudantes sérios do Antigo Testa-mento. Ainda sobra mais uma tarefa feliz- Preciso reconhecer a ajuda de tantas pes-soas excelentes que ajudaram nesta obra. Estou especialmente grato por uma licençade primavera concedida pela Junta Educacional de Trinity Evangélica! DivinitySchool que me possibilitou o infcio deste projeto em 1975. Vários outros dividiramentre si a tarefa de datilografar os originais deste livro em alguma etapa da suaprodução: Georgette Sattler, Jenny Wiers, Donna Brown, e Jan Woods. Mas eu devomuito mais à minha esposa, que foi meu apoio e melhor assistente. Sendo assim,dedico esta obra à glória de Deus, grato pela Sua graça por tudo quanto tem sidorealizado neste texto. Que os leitores possam também achá-la útil para seu entendi-mento e interpretação da teologia do Antigo Testamento!
  6. 6. Desde 1933 a teologia bíblica tem ocupado o lugar de honra nos estudos teo-lógicos. Especialmente proeminente durante este período foi uma forma existencialda disciplina conhecida como O Movimento de Teologia Bíblica. No entanto, com apublicação do artigo, agora merecidamente famoso, de Langdon B. Gilkey chama-do; "Cosmology, Ontology and the Travail of Biblical Language"1, e o discursoinaugural de James Barr, "Revelation Through History in the Old Testament andModern Thought" 2 , começou o "rachar das paredes"3 do novo movimento. Estesdois ensaios atacaram o coração do Movimento de Teologia Bíblica ao desmascararsua posição dividida de modernismo e Escrituras, Conforme a expressão de Giíkey, 1 Langdon B. Gilkey, "Cosmology, Ontology, and the Travail of Biblical Language",Journal of Religion 41 (1961}: 194-205; também publicado em Concordia Theological Monthly33 (1962): 143*154, James Barr, "Revelation Through History in the Old Testament and Modern Thought,Interpretation 17 (1963): 193-205; também publicado em Princeton Seminary Bulletin 56(1963). Uma expansão do mesmo aparece no livro de Barr: Old and New in Interpretation(Londres, SCM, 1966), págs, 65-102, Brevard S. Childs, Biblical Theology in Crisis (Philadelphia: Westminster Press, 1970),pág, 61.
  7. 7. A Importância da Definição e Metodologia 3"Seu ponto de vista acerca do mundo, ou cosmologia, é moderno, enquanto sualinguagem teológica é bíblica e ortodoxa" 4 . Conseqüentemente, abria-se mão dosmilagres bíblicos e dos discursos divinos, para não ofender as realizações do mo-dernismo enquanto a linguagem bíblica e referências freqüentes aos "podero-sos atos de Deus" (uma frase bíblica, mas que não deixa de ser conveniente porevitar a necessidade de se crer em milagres) foram conservadas. Certas perguntas tinham de ser enfrentadas. Em que sentido(s) Deus "agia" na história? E o que significavam estes "atos"? A linguagem da teologia bíblica erameramente uma ambigüidade de termos, ou deveria ser entendida analogicamenteou univocalmente com as coisas que indicava? Gilkey e Barr concluíram que o Movimento da Teologia Bíblica, apesar dos seus trinta anos de atividade, permanecera dentro das categorias de liberalismo; defato, dificilmente ultrapassara o tipo de liberalismo de Schleiermacher. Mesmoassim, a busca de uma terceira alternativa entre a posição tradicional conservadora ea agressiva posição liberal era uma tentativa honesta no sentido de se reter o quegeralmente se concordava entre todos menos os conservadores, o resultado assegu-rado da crítica das fontes. 5 Isto deveria ser feito sem degenerar-se em intelectua-lismo tão estéril que deixaria o pastor local sem uma mensagem que pudesse pregar. Em seu rasto pelo menos dois influentes jornais americanos foram estabelecidospara ajudar a atravessar esta grande lacuna Theology Today em 1944 6 e interpreta-tion em 1947. 7 A contribuição destes jornais, e de outros semelhantes, juntamentecom a enorme bibliografia de monografias durante este período foi não somenteimpressionante como muitas vezes extremamente útiL Mesmo assim, exatamente como a teologia do Antigo Testamento em alemãode Walther Eichrodt, em dois volumes, dera início à "idade de ouro" em 1933,3 A Gilkey, Concordia„ pág. 143. 5 Nenhum dos dois lados concedeu a vitória ao outro, a qualquer tempo. As críticasconservadoras mais recentes são: Kenneth Kitchen, Ancient Orient and Old Testament(Downers Grove, III: InterVarsity Press, 1966); Gerhard Maier, The End of the Historical--Critical Method (St. Louis: Concordia, 1977J. 6 "Our Aims", Theology Today 1 (1944): 3-11. 7 Balmer H. Kelly, " I n Retrospect", Interpretation 25 (1971): 11-23. Q Na realidade, duas monografias cujos autores eram E. Konig (1922) e J. Hãmel (1931),e dois artigos de jornal importantes por C. Steuernagel (1925) e Otto Eissfeldt (1926) prece-deram a obra de Eichrodt, mas foi ele que marcou o passo e captou a atenção dos estudiosos em1933. Ver, para um dos tratados mais extensivos da história da teologia bíblica do AT e umabibliografia exaustiva, Robert C. Denton, Preface to Old Testament Theology, edição revista(Nova Iorque, Seabury Press, 1963). Bibliografia atualizada com Wilfrid J. Harrington, ThePath of Biblical Theology (Londres: Gill and MacMillan, 1963) págs. 405-17,
  8. 8. 4 Teologia do An tigo Testamen toassim também a teologia do Antigo Testamento por Gerhard von Rad,9 em doisvolumes, parece destinada a marcar o seu auge e ser o portento da sua ominosareversão ao tipo de estudo que trata apenas da história da religião de Israel. A gênese desta reversão poderia ser vista quando von Rad respondia à pergun-ta do objeto de uma teologia do AT de modo direto: era aquilo que Israel profes-sava a respeito de Javé, Estas profissões não eram declarações de fé; eram atosatravés dos quais o povo expressava sua consciência do seu relacionamento comDeus. Sendo assim, era impossível escrever uma teologia do AT; agora havia teo-logias do AT, Além disto, a verdadeira história dos fatos deveria ser separada dahistória interpretada que era a expressão da fé de Israel conforme se observa emcredos tais como Deuteronômio 25:5-10. Nesta interpretação mutável e falsificadada história, a teologia bíblica, conforme a asseveração de von Rad, podia achar seuobjeto! Como se fosse para demonstrar o fato de que von Rad marcava uma linha di-visória, Roland de Vaux perguntou: "É possível escrever uma Teologia do AntigoTestamento?" 10 e Robert Martin-Achard fez um retrospecto de " La Theologie deiancien testament après les travaux de G- von Rad/ 11 Todos concordaram, no en-tanto, que uma "crise" de fato chegara. Alguns eram ainda mais dramáticos. Por exemplo, Horace Hummel anuncioucom coragem: " A Teologia Bíblica morreu, e IO VC [The interpreters One-Volu-me Commentary on the Bible (Nashville: Abingdon, 1971)] é sua testemunha/ 1 2J. Christiaan Beker, 13 Brevard S. Childs, 14 B.W. Anderson/ 5 e Hans-JoaquinKraus meramente chamaram a situação de crise. 16 o Os dois volumes em Alemão de Gerhard von Rad apareceram em 1957 e 1960. Asversões em inglês surgiram em 1962 e 1965. p 1 0 Roland de Vaux, The Bible and the Ancient Near East, trad. Damian McHugh (Londres:Darton, Longman and Todd, 1971), págs. 49-62. Robert Martin-Achard, "La Theologie de lancien testament après les travaux de G. 11von Rad, études Théologiques et Religieuses 47 ( 1972): 219-226. 12 Horace Hummel, " A Second Rate Commentary [review article]", Interpretation 26(1972) : 341. 13 J. Christiaan Beker, "Biblical Theology in a Time of Confusion", Theology Today 25(1968): 185-194. 14 Childs, Biblical Theology. 15 B.W. Anderson, "Crisis in Biblical Theology", Theology Today 28 (1971): 321-327. 16 HansnJoachin Kraus, Die Biblische Theologie: ihre Geschichte und Problematik (Neukir-chener Verlag, 1970).
  9. 9. A Importância da Definição e Metodologia 5 Já estava ficando óbvio que a era pós-von Rad estava se entregando a umagrande medida de auto-análise, e alguns problemas reais de metodologia haviamficado sem solução. O que não era tão claro era se isto sinalizava um novo início,pois a nova década trouxe consigo uma lista inteiramente nova de contribuintes (ouserá que alguns eram participantes atrasados da busca anterior?) Houve uma contribuição evangélica do teólogo menonita Chester K, Lehmanem 1971, chamada Bíblica/ Theology, vol. I, AT, No ano seguinte, Walther Zimmer-li, o teólogo alemão do cumprimento da promessa, contribuiu com sua Grundrissder alttestamentlichen Theologie, enquanto Georg Fohrer, após seu volume grandede History of Israelite fíeiigion (edição alemã, 1969} e seus estudos sobre Old Testa-ment Theology and History (alemão, 1969) contribuiu com Theologische Grund--strukturen des alten Testaments (1972). 0 estudioso católico irlandês W. J. Har-rington publicou The Path of Biblical Theology em 1973, e o Católico AmericanoJohn L. McKenzie acrescentou sua A Theology of the Old Testament em 1974.A estas monografias de maior importância devem ser acrescentadas as vintenas deartigos de jornais que continuaram a aparecer. Sendo assim, é muito razoável perguntar: "Onde estamos agora?" E pode-mos responder que, no meio de toda confusão da década passada, algumas coisasse tornaram abundantemente claras. A despeito das suas mais altas esperanças, ateologia bíblica não tem conseguido reformular e aplicar de novo a autoridade daBíblia. 1 7 De fato, se houve mudança, é que a autoridade da Bíblia tem diminuídodurante este período ao invés de aumentar-se.18 De um lado, não se tem evitadocompletamente a esterilidade da crítica das fontes, nem o historicismo da históriadas religiões, do outro lado. 19 Nem sequer ocorreu em cada caso que a força da teo-logia filosófica tem sido trocada por uma metodologia que se recusou a colocarquaisquer grades "a priori" sobre o texto. Mais recentemente, alguns experimenta-ram uma grade de "teologia de processo" 20 , mas sempre tem havido uma longa lis- 17 James Barr, The Bible in the Modern World (Londres, SCM. 1973), pégs. 1-12;também chamado: "The Old Testament and the New Crisis of Biblical Authority", interpre-tation 25 (1971): 24-40. 1 8 Ver os grandes esforços de John Bright, The Authority of the Old Testament (Nashville:Abingdon, 1967); Daniel Lys, The Meaning of the Old Testament (Nashville: Abingdon, 1967);e James D. Smart, The Strange Silence of the Bible in the Church (Philadelphia: WestminsterPress, 1970), especial men te pdgs, 90-101, 19 Pieter A. Verhoef, "Some Thoughts on the Present-Day Situation in Biblical Theology",Westminster Theological Journal 33 (1970): 1-19. 20 James Barr, "Trends in Biblical Theology," Journal of Theological Studies 25 (1974):267.
  10. 10. 6 Teologia do An tigo Testamen tota de pretendentes filosóficos em pontencial esperando nos bastidores da teologiabíblica. Se trinta anos de história nos ensinaram alguma coisa, ressaltou a necessidadedesesperada de uma solução às questões não solucionadas da definição, método eobjeto para a teologia do AT. Desde seu início, estes problemas metodológicos e dedefinição seguiram os passos de cada teólogo bíblico. A solução destas questões,mais do que qualquer outra coisa, libertaria a disciplina da sua periódica escravi-dão âs modas reinantes da filosofia e evitaria sua captura iminente por um histo-ricismo revivif ícado,A Natureza da Teologia do Antigo Testamento Eichrodt iniciou a "idade de ouro" com um ataque bem merecido contra ohistoricismo que reinava em seus dias. Afirmou que "a essencial coerência interiordo Antigo e do Novo Testamento foi reduzida, por assim dizer, a um tênue fio deconexão histórica e seqüência causal entre os dois, com o resultado que uma causa-lidade externa... foi substituída por uma homogeneidade que era real". 2 1 Sendoassim, o AT foi reduzido a uma coleção de períodos separados com pouca ounenhuma unidade. Depois de um quarto de século, porém, Gerhard von Rad veio completar qua-se um círculo completo e adotou a própria posição que merecera originalmente arepreensão de Eichrodt. Ao separar a intenção "querigmática", ou propósitos ho-miléticos, dos vários escritores do AT dos fatos da história de Israel, von Rad nãosomente negou qualquer fundamento histórico genuíno para a confissão da fé queIsrael tinha em Javé, como também mudou o objeto do estudo teologia) de uma fo-calização sobre a Palavra de Deus e Sua obra, para os conceitos religiosos do povode Deus. Para von Rad, não havia a necessidade de fundamentar o querigma dacrença em qualquer realidade objetiva, ou qualquer história como evento. A Bíblianão é tanto a fonte da fé dos homens do AT como uma expressão da sua fé. Alémdisto, conforme a opinião dele, cada época histórica tinha uma teologia sem igual aela, com tensões internas, diversidade e contradições à teologia das demais épocasdo AT. De fato, não havia, para ele, nenhuma síntese na mente dos autores bíblicosou nos textos, mas apenas a possibilidade de uma "tendência para a unificação". 220 historicismo voltara! O AT não possuía qualquer eixo central ou continuidade deum plano divino; pelo contrário, continha uma narrativa de como o povo lia reli- 21 Walther Eichrodt, Theology of the Old Testament (Londres: SCM, 1961), pég. 30, 22 Gerhard von Rad, Old Testament Theology, 2 vols. (Londres: Oliver and Boyd,1962), 1:11 a
  11. 11. A I m p o r t â n c i a da Definição e Metodologia 7giosamente a sua própria história, sua tentativa de tornar reais e apresentar eventose narrativas mais antigos. 0 objeto e enfoque do estudo da disciplina foi mudado da história como evento e da Palavra como revelação para uma abordagem tipo história-da-religião.Entrementes, von Rad criticou a teologia de Eichrodt, com seu tipo estruturai, porter esta deixado de demonstrar que o conceito da aliança era de fato central para atotalidade do cânon do AT. Quanto a isso, o tipo diacrónico de teologia de von Rad, que tratava cada época sucessiva no cânon como um arcabouço organizacionalpara a teologia bíblica, estava mais perto do objetivo originalmente estabelecido pa-ra esta disciplina. O problema não estava no emprego de uma seqüência histórica deépocas, mas sim, em deixar o emprego legítimo da história engolir os interesses to-tais da disciplina. Sempre que os interesses da história começavam a dominar, a disciplina entra-va na mesma esterilidade que procurara evitar em 1933. Ficou sem tocar na questãoda teologia normativa. Conforme argumentava James Barr, tal teologia deixara deprovidenciar quaisquer razoes ou critérios para decidir-se o que devia ser tomadocomo normativo ou autoritatívo no AT ou como esta nova norma poderia ser a basede todas as nossas decisões teológicas,2 3 Se, porém, von Rad estava no caminho certo na abordagem diacrônica e longi-tudinal que prestava atenção à seqüência cronológica do AT e sua mensagem,Eichrodt também estava parcialmente com a razão quando observou que nenhumateologia era possível se não houvesse alguns conceitos constantes ou normativosno decurso daquela história. Onde se poderia achar estes elementos constantes? Infelizmente,; apesar dasalegações ao contrário, a imposição de conceitualidade teológica e até de categoriasteológicas derivadas de teologias sistemáticas ou filosóficas se tornaram comuns.Quando o tipo histórico-descritivo da teologia bíblica (Gabler-Stendahl) cedeu lugara um tipo teológico-normativo (Hoffmann-Eichrodt), um pulo ilegítimo na práticaexegética era sempre o resultado. Enquanto o tipo descritivo parou com aquilo queo texto significava, aqueles que insistiam em que o leitor das Escrituras avançassepara descobrir o que o texto significa para nós hoje, faziam assim na base de um sal-to tipo Kierkegaard em epistemologia e exegese. As formulações da normatividadesurgem da moderna estrutura do leitor, ou mesmo de "leituras prontas, pressu-postas" das formulações da Teologia Sistemática, 0 então do texto antigo repenti-namente se tornou no agora das necessidades do leitor atual, ninguém sabendocomo ou por qual processo. 23 Barr, Bible in the Modern World, pág, 79.
  12. 12. 8 Teologia do An tigo Testamen to Em tais modelos, a fé moderna e a proclamação contemporânea (Geschichtee querigma} facilmente tomavam o lugar da história (Historie) e exegese. E mesmonaqueles outros modelos em que a exegese e a história eram envolvidas, elas ten-diam a tornar-se uma finalidade em si mesmas, cheias de detalhes arqueológicose uma totalidade fragmentada. A maior necessidade, naquele caso, era levar aefeito a exegese do texto individual à luz de uma teologia total do cânon. Mascomo era esta teologia total do cânon? Mais uma vez, tornou-se aparente a insis-tência importunadora desta necessidade de identificar um padrão normativo. Esta pergunta não foi a invenção da era moderna. Já havia muito, tinhaocorrido aos próprios escritores antigos. Esta busca por um centro, uma concei-tuai idade unificante, estava no próprio coração da preocupação dos que recebiama Palavra divina e dos participantes originais na seqüência de eventos no AT. Paraeles, a questão de fatualismo não era tão importante como a questão do signifi-cado; afinal das contas, em muitos casos eles até faziam parte ou eram participantesnos próprios eventos descritos no texto. O significado e a correlação destes fatoscom aquilo que conheceram ou deixaram de apreender de eventos antecedentes,ou significados com os quais este novo evento pode agora se vincular eram muitomais importantes, 0 testemuniio e registro deles, portanto, de todas as interco-nexoes e meios através dos quais a atividade e a correspondente mensagem forampassadas de uma figura chave, geração, região, crise e evento para outra deviamser de suprema importância em estabelecer o enfoque do nosso estudo. Se umabusca indutiva do registro do AT revelar um padrão constante de eventos progres-sivos, com significados e ensinamentos em que os recipientes ficavam cônscios daparticipação de cada evento selecionado num todo maior, então o caminho doprogresso da disciplina teria sido fixado. A questão seria esta: Será que o progresso da história incluía relacionamentosem que cada avanço em palavra, evento e tempo era organicamente relacionado comrevelação anterior? A resposta, pelo menos em princípio, seria simples e direta.Tal progresso não poderia excluir relacionamentos orgânicos, sendo que o pró-prio registro do AT freqüentemente insistiria em fazer precisamente estas cone-xões. Muitos relutariam contra o factualismo ou originalidade destes vinculadoresdos textos, dizendo que os "resultados assegurados" da crítica das fontes apagoua maioria deles ou desmascarou sua posição secundária ou terciária. Talvez o melhorque podemos fazer em prol de tais leitores (enquanto os evangélicos permanecemalienados [ ! ] das controvérsias teológicas) é insistirmos que esta desvantagem(com suas reivindicações de objetividade "científica") seja (temporariamente)vencida ao escutar o cânon como testemunha canónica de si mesma. Da nossaparte, cremos que todos os textos devam ser considerados inocentes de todas asacusações de artificialidade até que sua culpa seja comprovada por testemunhasexternas claras, 0 texto deve ser tratado, primeiro, conforme seus próprios termos.
  13. 13. A Importância da Definição e Metodologia 9Todas as imposições editoriais designadas pelo modernismo (não derivadas defontes reais — às quais os evangélicos não têm objeção — mas, pelo contrário,deduzidas de imposições gerais filosóficas e sociológicas feitas sobre o texto)que podem receber o crédito de atomizar o texto e de apagar os vinculadoresque se devem atribuir, alegadamente, a redatores piedosos e mal orientados, devemser excluídas da disciplina até comprovadas válidas pela evidência, A teologiabíblica sempre permanecerá uma espécie em vias de extinção até que os modosbrutos da crítica de fontes imaginárias, da história da tradição e certos tipos decrítica de forma tenham sido detidos. Semelhante protesto não pode ser facilmente interpretado como serido oequivalente de um conceito estático do desenvolvimento do registro. Pelo contrá-rio, insistimos que se o registro bíblico tem licença de falar sua própria intençãoem primeiro lugar, claramente indica progresso, crescimento, desenvolvimento,movimento, revelações irregulares e esporádicas de significado, e seleções de eventosno pleno fluxo de correntes históricas. Concordamos com Père de Vaux que estahistória não era apenas homileticamente útil; tinha que ser história real; senão,seria indigna de crédito pessoal e propensa a colapso interno pelo próprio pesodas suas próprias invenções. Emprestando um antigo adágio, e pedindo desculpaspor isto, algumas das gerações poderiam ter sido enganadas por algum tempo,mas nao todo o restante do povo o tempo todo. Houve, portanto, verdadeiro progresso na revelação.24 Tal progresso, porém,não excluía nem um relacionamento orgânico nem a possibilidade de se levar aefeito, de vez em quando, uma plena maturação de um ou mais pontos de reve-lação ao longo desta admitida rota de crescimento. Nem a história nem a revelaçãoprocediam a um ritmo uniforme de maturação previamente estabelecido. Mais freqüentemente do que o contrário, o crescimento era lento, atrasadoou até dormente, que só depois de um longo período deixava brotar um novorebento irrompendo do tronco principal. Este crescimento, porém, conformeos escritores das Escrituras nos contam, sempre era vinculado ao tronco principal;um crescimento epigenético, i, e., havia um crescimento do registro de eventos,significados e ensinamentos no decurso de tempo, em redor de um centro fixo quecontribuía vida â massa total emergente. 24 James Orr tratou deste problema nas suas preleções da Universidade de Lake Forest,"The Progress!veness of Revelation", The Problem of the Old Testament (Londres: Nisbet,1909), págs. 433-478. O outro homem que respondeu às obras por John Henry Newman eAdolph Harnack acerca do desenvolvimentismo foi Robert Rainey, Delivery and Developmentof Christian Doctrine {Edimburgo: T. & T. Clarkf 1974), págs. 35-73.
  14. 14. 10 Teologia do An tigo Testamen to Se o evento, significado ou ensinamento foi considerado como muda, tronco,galho, raiz, ou folha, tudo participava da vitalidade do organismo inteiro, Comotal, cada parte do processo histórico era qualitativamente perfeita como a totali-dade, embora certas partes fossem severamente limitadas ou na sua significânciaquantitativa para com o todo, ou na sua duração. Por exemplo, alguns eventos,significados, ou ensinamentos foram deliberadamente dados com uma declaraçãoembutida de obsolescência que limitava o campo de sua aplicação a certos períodoshistóricos. Assim era a legislação do tabernáculo como as cerimônias que a acompa-nhavam: foi uma cópia feita segundo o padrão mostrado a Moisés no monte Sinai(Êx 25:9, 40; 26:30; Nm 8:4). Daí a sua limitação. De vez em quando, o progresso histórico também permitia uma plena matu-ração de algum aspecto do registro, e, naqueles pontos, o texto nos deixa atônitoscom o modo pelo qual o significado e o ensinamento ultrapassam a experiênciae os tempos. Os homens e os tempos não tinham controle daquilo que era teologi-camente significativo, nem eram a medida da capacidade divina! Deve-se exercer,portanto, cuidado nesta área a fim de evitar que algum tipo de positivismo teoló-gico possa surgir para ditar aquilo que poderia ter acontecido, ou o que aconteceumesmo, no progresso da revelação. Deus permaneceu sendo o Senhor soberanomesmo neste aspecto. Conseqüentemente, a rapidez da descrição da Criação, daQueda do primeiro casal humano, a extensão universal da promessa abraâmica,o sacerdócio de todo o Israel, ou a descrição que Isaías deu do novo céu e danova terra não devem nos surpreender e serem julgados como sendo impossível.Somente o embaraço de um espírito de modernidade por demais refinado sentir-se ia obrigado por algum compromisso anterior a um princípio filosófico ou auma sociologia do conhecimento para julgar impossíveis tais reivindicações textuaisainda antes de serem achadas culpadas na base de cânones aceitáveis de evidência. A natureza da teologia do AT, conforme aqui é concebida, não é meramenteuma teologia que está em conformidade com a Bíblia inteira, mas é aquela teo-logia que se descreve e se contém na Bíblia (genitivo subjetivo) e conscientementevinculada de era em era enquanto todo o contexto antecedente e mais antigose torna a base para a teologia que se seguia em cada era. Sua estrutura é disposta historicamente, e seu conteúdo é exeg ética mentecontrolado. Seu centro e conceítualidade unificada se acham nas descrições, expla-nações e conexões textuais.O Método da Teologia do Antigo Testamento Quatro tipos principais de teologias têm aparecido em anos recentes, 1. O tipo estrutural descreve o esboço básico do pensamento e da crença no AT em unidades tiradas por empréstimo da teologia sistemática, da
  15. 15. A Importância da Definição e Metodologia 11 sociologia, ou de princípios teológicos seletos e depois traça seu relacio- namento para com conceitos secundários (Eichrodt, Vriezen, van Ims- choot). 2, O tipo diacrónico expõe a teologia dos sucessivos períodos de tempo e das estratificações da história de Israel, Infelizmente, a ênfase recaía sobre as tradições sucessivas da fé e da experiência da comunidade reli- giosa (von Rad). 3, O tipo lexicográfico limita seu escopo de investigação a um grupo ou grupos de homens bíblicos e seu vocabulário teológico especial, e. g.f os sábios, o eloísta, o vocabulário sacerdotal, etc. Gerhard Kittel, editor, e G. W. Bromitey, trad., Theological Dictionary of the New Testament, 10 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1964-74); Peter F. Ellis, The Yah- wist: The Bibles First Theologian (Notre Dame: Fides Publishers, 1968}, 4, O tipo dos temas bíblicos leva sua busca afém do vocabulário do único termo chave para abranger toda uma constelação de palavras ao derredor de um tema chave (John Bright, The Kingdom of God; Paul e Elizabeth Achtemeier, The Old Testament Roots of Our Faith). A ambigüidade dos métodos é óbvia; porque enquanto o tipo estruturalressalta que uma teologia deve representar a formulação sistemática de idéiasreligiosas, o tipo diacrónico se desvia na direção de uma abordagem tipo história--dasHreligiões na sua insistência de que a teologia bíblica é uma disciplina pura-mente histórica que registra imparcialmente as crenças da comunidade religiosasem procurar avaliar a relação que estes eventos e pensamentos possam ter comrespeito à verdade religiosa normativa permanente. Os outros dois tipos geral-mente lutavam com a mesma questão básica, porém com um escopo muito maislimitado do cânon ou do alcance de idéias bíblicas. Ambos os litigiantes principais no campo da teologia do AT, porém, tinhamproblemas metodológicos de maior vulto para o tipo de teologia do AT aqui visado.O tipo estrutural delineia um programa de estudos que é metodologicamentetão relacionado à teologia sistemática que sentimos dificuldade em descobrira verdadeira utilidade da sua missão a não ser o valor heurístico de ver como pare-ceria uma teologia sistemática do Antigo Testamento- Mas como isto poderia servirpara as necessidades teológicas ou exegéticas da comunidade da fé? E para que fazertanto barulho em protesto contra a terrível imposição das categorias da filosofiaocidental ou das que pertencem às grandes confissões eclesiásticas da igreja cristã,se a estrutura que se resulta é apenas uma fraca concatenaçao do relacionamentoentre Deus e o homem? Neste caso, a teologia bíblica não tem nenhuma missãoindependente e faz uma contribuição mínima, ou talvez nenhuma.
  16. 16. 12 Teologia do An tigo Testamen to Semelhantemente, o modelo diacrónico se desvia na direção da abordagemda história-da-religião, Embora tenha suprido o arcabouço sem igual e novo doprogresso de eventos e pensamentos através dos acontecimentos históricos, suatendência tem sido dar-se por satisfeito com uma apresentação que tem sido pura-mente descritiva na sua natureza. Assim sendo, embora a teologia bíblica tenhacomeçado como uma reação contra a infertilidade da abordagem tipo história-da--religião-de-lsrael, parece agora que, devido á pobreza da sua própria metodologia,tem sido retomada por esta área da teologia. Esta, no entanto, não era necessaria-mente uma feição concomitante do método, conforme esperamos demonstrarmais tarde. Há, portanto, uma metodologia distintiva para esta disciplina? Ou será quetoda a labuta do último meio século tem sido sem resultado real? Há, pois, umtema ou plano, interno, persistente, distintivo e característico que demarcariaa preocupação central do AT? E será uma ajuda para o currículo teológico oumesmo para a apreciação do leitor em geral, ter este piano demonstrado nas suassucessivas contribuições? Tudo isto equivale a um sistema ou uma lógica quese edifica dentro do Antigo Testamento? E será que este padrão dá evidênciaque espere eventos e significados ainda além do alcance dos seus escritos canó-nicos? Ainda mais crucial, pode ser demonstrado pelas alegações dos participantesoriginais destes eventos e pelos pensamentos destes textos do AT que tinhamconsciência de um fluxo contínuo de eventos, significados e idéias que precediama eles e que se sentiam obrigados a reconhecer algum tipo de exigências, perma-nentes e normativas, impostas sobre suas crenças e ações? Estes são os problemasdifíceis de metodologia que a geração passada, bem como a nossa, tem tido dificul-dade em achar uma resposta, mormente porque esta disciplina foi consideradacomo sendo a síntese de todos os "resultados assegurados" dos estudos do ATno decurso dos últimos dois séculos. Infelizmente, alguns destes resultados repre-sentavam uma escravidão tão grande a grades, sistemas, e filosofias como aquelasque a disciplina originalmente tentara evitar em 1933. Nosso propósito é fazer uma forte distinção entre o método da teologiabíblica e o da sistemática e o da história das religiões. Há um centro ou planointerior ao qual cada escritor conscientemente contribuía. Um princípio de seletivi-dade já está evidente e divinamente determinado pela revelação rudimentar dotema divino de bênção — promessa para todos os homens em todos os lugares,quando o cânon tem seu início em Gênesis, caps. 1-11 e continua em Gênesis,caps. 12-50. Ao invés de selecionarmos os dados teológicos que achamos atra-entes, ou que suprem alguma necessidade corrente, o texto teria estabelecidosuas próprias prioridades e preferências, Estes pontos de união podem ser identifi-cados, não na base de escolas eclesiásticas ou teológicas, mas, sim, por critériostais como: (1) a colocação crítica de declarações interpretativas na seqüência
  17. 17. A Importância da Definição e Metodologia 13textual; (2) a freqüência de repetição das idéias; (3) a recorrência de frases outermos que começam a assumir uma qualidade técnica; (4) o retornar a temasque um precursor já levantara, muitas vezes com uma área de referência maisextensiva; (5) o emprego de categorias de asserções previamente empregadas quefacilmente se prestam a uma descrição de um novo estágio no programa da his-tória; e (6) o padrão organizacional por meio do qual as pessoas, lugares e idéiaseram marcados para aprovação, contraste, inclusão, e significado futuro e presente. Não somente a tarefa da seletividade deve ser iniciada e guiada pelos con-troles textuais estabelecidos pelas intenções quanto à verdade da parte dos escri-tores do AT, mas estes mesmos homens também devem ser seguidos de pertona avaliação de todas as conclusões teológicas tiradas destes dados teológicos"selecionados". Se estes juízos de valor, estas interpretações e estimativas que atribuíama estas pessoas e eventos chaves no texto fossem apagados, deixados de lado,negligenciados ou substituídos por nossos próprios, não poderíamos culpar a nin-guém a não ser nós mesmos se parecer que a autoridade da Bíblia também evapo-rou sob nossos melhores esforços estudiosos. A verdade do assunto, seja benéficaou não, é que estes escritores alegam que receberam a revelação divina na seleçãoe avaliação de tudo quanto foi registrado. Conseqüentemente, todas as teologiassérias precisarão se entender com ambos os aspectos desta reivindicação, para nãofalar da própria reivindicação de se ter recebido revelação. Para repetir, então, em nossa metodologia proposta, a teologia bíblica tirasua própria estrutura de abordagem da progressão histórica do texto, e sua seleçãoe conclusões teológicas a partir daquelas que se acham no enfoque canónico.Assim sendo, concorda parcialmente com a ênfase histórica e seqüencial do tipodiacrónico da teologia do AT e da ênfase normativa do tipo estrutural. No entanto, faz mais do que meramente sintetizar ou ecleticamente aceitaruma nova combinação daquilo que até agora tem sido uma coletânea de métodosantitéticos. Deliberadamente tenta derivar sua teologia de percepções exegéticasdas seções canónicas, seja um parágrafo ou capítulo que faz um resumo, umapassagem chave de ensinamento, um evento estratégico conforme sua avaliaçãono contexto onde apareceu pela primeira vez e em referências subseqüentes nocânon, ou um livro inteiro ou grupo de livros que se vinculam tão estreitamentequanto ao tema, abordagem ou mensagem que produzem uma unidade explícita. No meio de toda a multiplicidade e variedade de materiais, eventos e ques-tões, é nosso argumento que existe mesmo um centro para esta tempestade deatividade. Semelhante ponto de partida é suprido textualmente e confirmadotextualmente como esperança central do cânon, preocupação sempre presente,e medida daquilo que era teologicamente significativo ou normativo, Embora
  18. 18. 14 Teologia do An tigo Testamen too NT finalmente se referisse a este ponto focal do ensino do AT como sendo apromessa, o AT o conheceu sob uma constelação de palavras tais como promessa,juramento, bênção, descanso e semente. Também era conhecido sob fórmulasem três partes tais como: "Eu serei vosso Deus, vós sereis meu povo, e eu habitareino meio de vós", ou a fórmula redentora auto-asseverativa espalhada na formaparcial ou integral 125 vezes em todas as partes do A T : "Eu sou o SENHOR vossoDeus que vos trouxe da terra do Egito", Também poderia ser visto como planodivino na história que prometia trazer uma bênção universal pela agência de umaescolha divina, não por merecimentos de uma descendência humana. "Em ti serãobenditas todas as famílias da terra" (Gn 12:3). A interpretação passiva de Gênesis 12:3 (também 18:18; 28:14 — em todosos casos o verbo está na forma do nifal) é tão crucial que BertiI Albrektson 25reconhece que se a forma nifal é passiva aqui e não reflexiva conforme a maioriadas traduções modernas alegam, então uma clara referência a um plano divinomediante o qual Abraão é escolhido para ser o instrumento de Deus para alcançartodas as nações da terra é explicitamente ensinada no texto. Infelizmente, porém,ele se sente constrangido a rejeitar esta referência, baseando-se no fato de queesta fórmula aparece na forma hithpael (usualmente uma forma reflexiva) emGênesis 22:18 e 26:4: "Abençoar-se". 26 Neste ponto, porém, um forte protesto deve ser levantado, por várias razõesexegéticas. Em primeiro lugar, em Gênesis 12:2 já se diz que a bênção divina évinculada à pessoa de Abraão: "E tu [ou "ele", referindo-se ao nome ou ao povode Abraão] serás uma bênção". Sendo assim, nem ele nem o seu povo hão deser uma mera fórmula de bênção; nem ele meramente se abençoará a si mesmo!Abraão, pelo contrário, à parte do nifal controverso do versículo 3, seria o inter-mediário e fonte da bênção divina. Esta era sua missão destinada na primeiracoletânea de promessas do versículo 2 antes de se avançar para uma declaraçãodiferente e mais alta de propósito no versículo 3. Todas as cinco passagens em Gênesis (tanto nas formas nifal e hithpaeldo verbo "abençoar") se tratam nos Targuns samaritano, babilónico (Onkelos),Jerusalém (Pseudo-Jônatas) como sendo passivas. De fato, a interpretação harmo-nística que insiste em interpretar três formas do nifal por duas formas do hithpaeltambém está mal informada quando insiste num sentido uniforme reflexivo do 25 Bertil Albrektson, History and the Gods (Lund, Suécia: C.W.K. Gleerup Fund, 1967),pág. 79- 26 Para a forma hlthpaef deste verbo, ver Salmo 72:17, e o seu paralelismo no contexto,notando, porém, a tradução no passivo na Vulgata e na LXX.
  19. 19. A I m p o r t â n c i a da Definição e Metodologia 15hithpael, porque isto não é verdade. 27 Não se pode afirmar assim tão facilmenteque o sentido do hithpael é claro, e portanto deve ser usado como a base da inter-pretação do sentido do "nifal disputado". 0 sentido de ambas estas raízes semudou sobre a pressão do interesse polêmico em Rashi, depois em Clericus, e,agora, a maioria dos lingüistas e exegetas. Entretanto, o desafio lingüístico deO.T. Al lis tem ficado sem refutação e até sem reconhecimento por estudiososcontemporâneos — o sentido é claramente passivo e as implicações para a teologiabíblica do AT são maciças! 0 enfoque do registro recaiu sobre o conteúdo da aliança de Deus, quepermanece epigeneticamente constante, L e., o acúmulo de materiais enquantoo tempo se passava, foi crescendo em derredor de um centro fixo que contribuía comvida â totalidade da massa emergente. Este conteúdo era uma certa palavra debênção e promessa. Era uma declaração garantida por uma promessa divina deque Deus livremente faria ou seria algo para certas pessoas em Israel naquele mo-mento, ef depois, para descendentes judaicos no futuro a f i m deque Deus pudesseassim fazer ou ser algo para todos os homens, nações, e a natureza, de modo geral.Os efeitos imediatos desta palavra eram bênçãos divinas (acontecimentos ou achegada de pessoas) usualmente acompanhadas por uma declaração promissóriade uma obra futura ou completação da série — uma promessa divina. Sendo assim,os homens recebiam a promessa e aguardavam a promessa, tudo num só plano, Na sua composição, no entanto, o registro continha interesses tão variadosque incluíam: (1) bênçãos materiais de todos os homens e animais; (2) uma des-cendência especial para a humanidade; (3) uma terra para uma nação escolhida;(4) bênçãos espirituais para todas as nações; (5) a libertação nacional da escravidão;(6) uma dinastia e reino de eterna duração que um dia haveriam de abranger umdomínio universal; (7) o perdão dos pecados, e assim por diante, mais e mais. De nenhum princípio empurrado como "vara de adivinhação abstrata" porcima do texto poderia se esperar como resultado tantos valiosos frutos teológicos.Somente uma reivindicação que o próprio texto levantou poderia ter chamadonossa atenção para semelhante constelação de termos e conteúdo interconexoscomo se acha neste único plano de Deus — Sua promessa. O progresso dessa dou-trina pode ser medido e descrito historicamente. Além disto, incluirá seu próprio 27 A discussão mais definitiva que já houve deste problema é o artigo de O.T. Allis, "TheBlessing of Abraham", Princeton Theologicaí Review 25 (1927): 263-298, Ver especialmentepág, 281 onde ele faz uma lista dos seguintes exemplos de um possível significado passivo para0 hithpael: Génesis 37:35; Números 31:23; Deuteronômio 4:21; 23:9; 1 Samuel 3:14; 30:6;1 Reis 2:26; Jó 15:28; 30:16, 17; Salmos 107:17, 27; 119:52; Isaias 30:29; Lamentações 4:1;Ezequiel 19:12; Daniel 12:10; Miquéias 6:16.
  20. 20. 16 Teologia do An tigo Testamen topadrão para uma norma permanente por meio da qual se pode julgar aquele diae todos os demais dias por uma vara de medida que reivindica ter sido colocadapelo próprio Deus sobre o escritor das Escrituras e, ao mesmo tempo, sobre todosos leitores subseqüentes.0 Escopo da Teologia do Antigo Testamento Inevitavelmente surge a questão da limitação da disciplina. Deve incluirmatérias fora do cânon do AT? Deve tentar incluir todo o AT com todos os seusdetalhes, ou pode desenvolver algum tipo razoável de cobertura representativaque apresentará os interesses de uma teologia total do AT? À primeira pergunta respondemos que o escopo do nosso estudo é correta-mente restringido aos livros canónicos na coleção judaica. Acrescentar à nossaconsideração os Apócrifos, matérias de Qumram, textos de Nag Hammadi, eescritos rabínicos enfraqueceria seriamente o propósito declarado de discutira feição integrai da teologia dentro de uma corrente de revelação em que os escri-tores estavam contribuindo conscientemente, sob ordens divinas, para um registroexistente de revelação divina. A possibilidade de descobrir a unidade ou centrodo AT ou sua correlação com o NT seria perdida para sempre, pois a linha divi-sória temática perderia sua nitidez devido à intrusão daquilo que basicamentepertenceria á história da religião de Israel. O julgamento do próprio Cristo é ainda mais determinante quanto a isto,pois Ele decisivamente indicou a coleção de livros judaicos conforme eram conhe-cidos nos Seus dias, e afirmou que eram aqueles que falavam dEle. Este julgamentodeve solucionar a questão para todos os que crêem, e deve ser uma precauçãopara todos os demais estudantes da disciplina no sentido de restringirem o escopodos seus estudos "teológicos" àquele cânon. Entretanto, certamente, uma abor-dagem tipo história-da-religião será necessária para alargar sua área de estudospara incluir no seu panorama toda a literatura intertestamentária. O alvo de uma teologia do AT não é laboriosamente entrar numa discussãode cada pedaço de informação que diz respeito à história ou prática da religião.Sendo assim, todos os estudos meramente historiográficos, cúlticos, institucionaisou arqueológicos devem ser relegados a outras partes do corpo da teologia. Isto não quer dizer que existe um "cânon dentro do cânon", como se fossea prerrogativa do teólogo dar a certas partes do cânon uma posição de preferênciaenquanto denigre outras partes ao aplicar-lhes a etiqueta de posição secundáriaou inferior. É verdade que a Bíblia, ta S/Ma, é uma palavra plural que indica anatureza composta dos livros que formam a totalidade. Esta nomenclatura externanão pode bastar como evidência para uma canonicidade múltipla.
  21. 21. A I m p o r t â n c i a da Definição e Metodologia 17 A presença de um tema central ou de um centro material que leva consigoa linha principal e significado da narrativa não pode, muito menos, ser empregadacomo ferramenta divisória para segregar níveis de canonicidade, autoridade ouvalor de revelação. Se, ao invés disto, o centro pertence integralmente ao própriotexto, sua autenticação deve ser realizada sendo que reúne em si todas as partesapoiadoras do cânon. 0 próprio desenvolvimento de sistemas artificialmente plane-jados de bifurcar o texto mais uma vez implica em que o crivo do leitor ou estu-dioso moderno, através do que são passados todos os textos bíblícos, é mais exatoe digno de confiança do que as reivindicações dos profetas ou apóstolos que esta-vam a par dos planos do Senhor e que receberam aquilo que registraram, Noutraspalavras, aquilo que os leitores bíblicos modernos negaram aos escritores bíblicos,aqueles reivindicam para os seus próprios crivos! Não, a totalidade do texto canó-nico deve ser recebida num nível de igualdade. Portanto, todo o texto é igualmente importante e vem nos julgar, ao invésde ser julgado por nós. Mas isto não quer dizer que tudo é importante pela mesmarazão. Nem todo texto ensina doutrina. E não são todos os textos que dão ins-trução ética; o agregado total, no entanto, se presta para uma só totalidade unifi-cada com momentos especiais de surpresa quando o fio da história ou o ensinoque o acompanha recebe um tremendo passo para a frente devido ao significadode uma nova palavra ou obra da parte de Deus. Daí, é possível ter unidade semuniformidade, solidariedade sem constância estática. Havia pouca, ou nenhuma,uniformidade na forma, caráter, grau e regularidade de ocorrência de interdepen-dência que produziu uma harmonia de pensamento, propósito e vida. Conseqüentemente, a teologia bíblica não precisa repetir cada detalhe docânon a fim de ser autêntica e exata. De fato, o que seria mais preferido por parteda teologia seria o método que pudesse sintetizar os detalhes que muitos dizemser "discrepantes", de tal modo que pudessem participar da estrutura teológicacentral do cânori e ressaltar deles a validade representativa, o aspecto distintivo,e a contribuição teológica ao centro material e formal da Bíblia. Também não se nega que é possível escrever um tipo de teologia bíblica ba-«ando-se em seções específicas de um livro grande da Bíblia (e. g. !s caps. 40-66)ou em um grupo de livros que pertencem a uma etapa específica histórica em co-mum da revelação. No entanto, tal abordagem seccional sempre dependerá da totali-dade teológica maior. Isto é: em última análise, precisará ser informada por toda ateologia antecedente contra a qual esta seção pequena tenha sido projetada, eespecialmente, pelo tema total do cânon. O acúmulo da mensagem total nuncaficava longe das mentes da maioria dos autores enquanto escolhiam as palavrasou vinculavam suas experiências àquilo que até então tinha sido sua herançareligiosa e revelacional até àquele ponto no tempo. Note-se que este não é oprocedimento usual da Analogia da Fé mediante a qual o NT ou teologia pos-
  22. 22. 18 Teologia do An tigo Testamen toterior tem licença de marcar o compasso de passagens anteriores. Pelo contrário,é aquilo que chamaremos a Analogia de Escrituras Antecedentes, mediante aqual a teologia canónica cronologicamente antecedente deve ser averiguada paraver se prestava informações à teologia que está sendo investigada* Mais um fato precisa ser ressaltado: a teologia do AT é uma disciplina legí-tima e distinta da teologia do NT. Sem dúvida, a teologia do AT tem a obrigaçãode indicar as vinculações com a teologia do NT, assrm como a teologia do NTtem a obrigação de procurar suas raízes de vinculação no AT. Por causa da enormi-dade de manejar sessenta e seis livros que cobrem um período tão vasto de tempo,seria melhor embalar a teologia bíblica única sob as duas etiquetas dos dois testa-mentos, Além disto, se, conforme cremos ser possível argumentar, a teologiabíblica é em primeiro lugar uma ferramenta exegética e não primariamente umaajuda na construção de uma teologia sistemática, então mais uma vez será maisútil se a única teologia bíblica fosse publicada em duas partes, uma para cadatestamento. Assim, sem ficar desvinculado de um dos testamentos, poderia serargumentado que o impacto e a utilidade da teologia seria maior se fosse embaladaseparadamente.A Motivação para a Teologia do Antigo Testamento 0 impulso primário em construir qualquer teologia bíblica já não é umprotesto contra a teologia sistemática. Que certa alienação tenha existido no pas-sado entre os representantes das duas disciplinas — embora não fosse necessaria-mente assim — não se pode negar. Mas isto foi quando a disciplina estava buscandoum conjunto separado de categorias, ao invés das da sistemática, e quando ambasas disciplinas estavam prontas a aceitar uma abordagem normativa à teologia,Agora, com as fortunas subindo da abordagem puramente descritiva è teologiabíblica, e uma aproximação maior, senão uma imitação aberta, aos métodos doestudo tipo história das religiões, a necessidade de distinguir entre estas duas disci-plinas é ainda mais urgente do que na luta anterior com a teologia sistemática. Dado, porém, o interesse original da teologia bíblica nas raízes históricasda mensagem, enquanto está em seu desenvolvimento e o julgamento equilibradorque buscava identificar a coletânea de avaliações normativas do próprio texto,o propósito e papel desta nova disciplina deve ser declarado em termos bem dife-rentes do que ocorre atualmente. Ao invés de descobrir uma parte sobreposta nas áreas sistemáticas ou histó-ricas, achamos que a teologia bíblica é uma ferramenta dupla do exegeta. Suaaplicação mais imediata está na área da hermenêutica, Aqui, sua contribuiçãonão é nem competitiva nem meramente tolerada como abordagem alternativaa um corpo de material semelhante.
  23. 23. A Importância da Definição e Metodologia 19 Seu papel é tão distintivo quef sem esta teologia, a tarefa exegética seme-lhantemente cai num historicismo de uma descrição a.C- ou do primeiro séculod.C, Sua mensagem se prende ao tempo e fica trancada no então do evento commuito pouca coisa para levar para o agora da proclamação ou da aplicação à situa-ção do leitor ou ouvinte. Mesmo se a exegese evitasse a arapuca historicista através de práticas tãoabomináveis quanto o apelar para a moralização, a alegorizaçao, a psicologização,a reinterpretação ou a espiritualização do texto, depois de ter cumprido suasobrigações profissionais de localizar o texto precisamente na situação do tempoe espaço do escritor, também poderia entrar num beco sem saída lingüístico em queo exegeta e o intérprete completam sua tarefa depois de analisar os verbos, identi-ficar as formas raras, e notar as conexões com formas cognatas importantes. Em-bora este exercício seja importante, não poderá ultrapassar um resultado pura-mente analítico. Entretanto, o texto pede para ser entendido e colocado num contexto deeventos e significados. Estudos históricos colocarão o exegeta em contato como fluxo de eventos no tempo e no espaço, e as análises gramaticais e sintáticasidentificarão a coleção de idéias na seção imediata do período sob investigação.Qual disciplina, no entanto, colocará o exegeta em contato com aquilo que oescritor deste texto avulso achou de valor duradouro e de especial relevância paraseus dias por causa das suas alusões explícitas ou implícitas aos grandes atos eavaliações teológicas da revelação anterior? É precisamente neste ponto que ateologia bíblica fará sua contribuição mais distintiva e sem rival. Em cada exegese bem sucedida, deve haver alguns meios de identificar ocentro ou cerne do cânon. Depois de localizar e colecionar este padrão distintivoe esta semelhança familiar como fruto de uma miríade de esforços exegéticoscobrindo a totalidade do cânon do AT, o exegeta, intérprete, pregador, leitor eouvinte de partes individuais do texto estará capacitado a escutara Palavra norma-tiva de Deus. Naturalmente, seria necessário repetir as advertências contra todas as impo-sições prematuras de generalizações variadas ou significados alegadamente enalte-cidos e contemporâneos do texto. Tal teologização inacabada não poderia, demodo algum, substituir aquela busca diligente de um princípio de unidade inter-namente derivado. Semelhante reivindicação deve levar consigo sua própria verificação e justi-ficação. Se não puder demonstrar que seus interesses são precisamente aquelesque são levantados no progresso do crescimento destas normas centralmenteacreditadas", então estes interesses devem ser abandonados e a busca iniciadade novo.
  24. 24. 20 Teologia do An tigo Testamen to Depois de localizado o centro certo, no entanto, a tarefa do exegeta deveser completada depois de ele trabalhar os passos da exegese gramatical-h istórica--sintática-cultural, acrescentando o passo teológico, A exegese teológica, quando se emprega juntamente com os passos gramatical--histórico sintático-cultural, empregará a Analogia das Escrituras Precedentespara ajudar o intérprete a fazer a transferência autorizada do então do contextoa.C. do AT para o agora do século vinte- Em contraste com o método empregadopela teologia sistemática chamado a Analogia ou Regra da Fé (que é uma cole-tânea das doutrinas fundamentais da fé tiradas dos capítulos principais e maisóbvios das Escrituras, sem notar especialmente o período de tempo em que surgi-ram ou informações semelhantes), a Analogia das Escrituras limita severamenteseu emprego para aquela edificação do núcleo da fé que antecedeu no tempoe na história o texto sob investigação. Enquanto a Analogia ou Regra da Fé édedutiva e coleciona todos os materiais sem levar em conta suas relativas datas,a Analogia das Escrituras é indutiva e coleciona apenas aqueles contextos ante-cedentes que existiam na mente do escritor das Escrituras enquanto escrevia anova passagem, conforme se indica pela mesma terminologia, fórmulas ou eventosaos quais este contexto acrescenta outros em série. Dependendo da parte do cânon onde o exegeta está trabalhando, ele empre-gará a teologia dos períodos que precederam seu texto, na medida em que ditosperíodos ofereçam tópicos análogos ou idênticos, palavras-chave em comum, oulevantem outros interesses teológicos semelhantes. É esta analogia que "infor-ma" 2 8 o texto suprindo o pano de fundo e a mensagem disponível à luz da qualesta nova revelação foi dada. Ao invés de empregar textos do NT ou textos e idéias subseqüentes doAT para interpretar (ou, ainda pior, reinterpretar) o material antigo — o que éum ato de descarada rebeldia contra o autor e sua reivindicação de ter recebidoautoridade divina para aquilo que relata e conta — conclama mos o novo teólogobíblico a prover o exegeta com um conjunto de termos técnicos e teológicos quese acumulam, identificações dos momentos-chaves interpretativos na históriado plano divino para o homem, e uma apreciação pela gama de conceitos agru-pados em derredor de um núcleo unificante — todos estes de acordo com suaprogressão histórica no tempo. Semelhantemente, seriam desnecessários expedientes tais como a tentativade cobrir a lacuna entre a.C. e d.C. com o emprego da analogia da situação hu- 28 John Bright, Authority of the Old Testament (Nashville: Abingdon, 1967), pégs.143, 170.
  25. 25. A Importância da Definição e Metodologia 21mana 29 ou o método de reapresentar o texto em proclamação 30 para contempo-rizar a mensagem. O uso bem estudado dos resultados da teologia bíblica marcará a mensagempermanente como estando fundamentada na especificidade histórica. Dessa forma,a exegese terá os maiores benefícios dos esforços desta disciplina, enquanto, nummodo menos direto, a sistemática também desejará consultar seus resultados comaqueles da teologia exegética, da história do dogmaf e da filosofia da religião. 29 Lawrence E. Toombs, The O/d Testament in Christian Preaching (Philadelphia:Westminster Press, 1961); idem, "The Problematic of Preaching from the Old Testament",interpretation 23 (1969): 302-314. Toombs disse: "Na medida em que nós do século vinteparticipamos do homem antigo numa humanidade em comum, suas avaliações da sua situaçãosão potencialmente relevantes è nossa própria avaliação", íbid., pég. 303. 30 Martin Noth, "The Re-Presentation of the Old Testament in Proclamation", Essays onOid Testament Hermeneutics, ed. Claus Westermann, 2? edição (Richmond: John Knox, 1969},págs, 76-88.
  26. 26. Nenhuma disciplina tem lutado com mais coragem para cumprir sua missãobásica, mas com resultados tão decepcionantes, do que a teologia bíblica do AT.Há, inerente em seu próprio nome, a pressuposição de que se pode achar umaunidade interior que vinculará juntamente os vários temas, conceitos e livros doAT. Infelizmente, porém, a julgar de toda a literatura disponível, essa unidadeinterior ou conceito central parece ter permanecido escondida ou talvez enter-rada sob toda a variedade e diversidade de forma e conteúdo no AT.As Questões Envolvidas 0 verdadeiro problema, declarado com singelezar é o seguinte: Existe umachave para um arranjo metódico e progressivo dos assuntos, temas e ensinos doAT? E aqui temos a pergunta mais crucial e sensível de todas: Os escritores doAT tinham consciência desta chave enquanto continuavam a acrescentar à cor-rente histórica da revelação? A resposta a estas perguntas determinará literalmente!o destino e a direçãoda teologia do AT, No caso de não ser possível demonstrar indutivamente talchave a partir do texto, e se os escritores não escreviam deliberadamente a partirdesta consciência, então teríamos de nos restringir a falar acerca de diferentes
  27. 27. A Identificação de um Centro Teológico Canónico 23teologias do AT. Conseqüentemente, a idéia de uma teologia do AT como talprecisaria ser abandonada de modo permanente. Não somente seria necessárioreconhecer que não havia unidade para se descobrir no AT, como também serianecessário abandonar a busca de linhas de continuidade com o NT, legítimase autor itativas, Naturalmente, esta última hipótese não viria como surpresa para muitas pes-soas, porque já decidiram que esta situação já existe. Sendo assim, a maior parte dasteologias do AT, embora retivesse a terminologia tradicional do AT, mudou seuenfoque da unidade para a variedade, de linhas de continuidade para tendênciascompetitivas de diversidade. Este é também o julgamento de Rudolf Smend. Numensaio importante no qual passa em revista os últimos 150 anos de teologia do AT,começa, dizendo: "A confiança com a qual se postulava a existência de um centro(Mitte) do Antigo Testamento, paulatinamente se diminuiu". 1 Mesmo os próprios termos através dos quais nos referimos a este fenômenotêm permanecido ilusórios, A maioria se referia aproximadamente a um núcleocentral de eventos e/ou significados no AT, que providenciava algum tipo de centrounificador para a enorme quantidade de detalhes. George Fohrer falava de um"Mittelpunkt" 2 enquanto Rudolph Smend, conforme já notamos, escolheu "Mitte"e Günter Klein empregava "Zentralbegriff"} Outros termos incluíam "conceitocentral", 4 "ponto focal", "idéia-raiz essencial", ou "idéia subjacente". 5 A despeito das variações teminológicas, uma nota semelhante é soada emtodos estes termos. Talvez a palavra "centro" seja a mais útil, mas também elatem certas desvantagens. Peio menos ressalta o desejo tradicionalmente localizadona teologia do AT de identificar os pontos integrantes na totalidade do testamento,mas aquela palavra não indica qualquer edificação de materiais hístórico-linearesdentro daquele centro. Há, daí, ainda a necessidade de algum termo que possuatanto o aspecto dinâmico do crescimento da revelação como um ponto de referên-cia unificador para ele. Até aqui, nenhum termo deste tipo se sugeriu; mesmoassim, a idéia fica bastante ciara a partir dos vários termos que se aproximamdo conceito de ângulos diferentes. 1 Rudolf Smend, "Die Mitte des Alten Testaments", Theologische Studien 101 (1970):7. 2 Georg Fohrer, "Der Mittelpunkt einer Theologie des AT", Theologische Zeitschrift 24(1968): 161-72. 3 Gunter Klein, " Reich Gottes1 als biblischer Zentralbegriff", Evangelische Theologie 30(1970): 642-70. 4 Walther Eichrodt, Theology of the Old Testament (Londres: SCM, 1961); pégs. 13-16. Th. a Vriezen, An Outline of Old Testament Theology, edîçao (Newton, Mass.:Charles T. Branford Co, 1970), pég. 150.
  28. 28. 24 Teologia do An tigo Testamen to Várias analogias também têm sido sugeridas para este conceito unificadorque também contenha a idéia de desenvolvimento. Um conceito epigenético fazuso do relacionamento entre a semente do carvalho e a árvore plenamente crescida,É exatamente assim que a idéia central se amadurece enquanto a revelação progrideaté entrar na época do NT. Outra analogia emprega as dobras sucessivas de ummapa rodoviário. Mais uma vez, a ênfase recai na unidade com bastante provisãopara expansão e desenvolvimento. Somente este tipo de ênfase dupla corresponderiasimultaneamente às exigências de uma teologia do A T {com a unidade que istosubentende), e às exigências de uma revelação na história (com sua contribuição dedesenvolvimento, progresso e alargamento}.A Atual Relutância em se Adotar um Centro Tradicionalmente, tem sido um lugar-comum entre os teólogos bíblicosachar uma advertência justificada contra a tentação por demais comum de imporo seu próprio preconceito filosófico ou arcabouço teológico sobre o testamento.Tais estruturas, externamente formuladas, não podem, naturalmente, servir comochave à ordem sistemática do conteúdo do AT, Há erros neste procedimento, porrazões metodológicas e teológicas. 0 problema quanto à metodologia, é que nega a prioridade dos resultadosde exegese cuidadosa. Ao invés de indutivamente derivar o centro a partir dotestamento, uma grade estranha à forma e ao conteúdo do texto é encaixadaprecipitadamente, e, freqüentemente sem cuidados, sobre o material e o resul-tado é a obstrução do ponto de vista do próprio texto; grandes porções de mate-rial que não foram enquadradas sao deixadas penduradas fora do sistema imposto. Quando se acrescenta a este fato a complicação adicional que todas as gradesexternas deixam de reproduzir ou participar de qualquer autoridade que poderiater sido derivada do texto se a forma da sua-apresentação tivesse se aproximadoàquela do próprio texto que estava investigando, então, o problema teológicotambém foi enfrentado. Os escritores do texto reivindicavam para si a possessãoda intencionalidade divina na sua seletividade e interpretação daquilo que foi regis-trado. Como conseqüência, se a teologia bíblica não visar reproduzir as intençõesdo autor com respeito à verdade, no formato e conteúdo teológicos gerais delas,então essa geração de intérpretes necessariamente sofrerá uma correspondenteperda de autoridade daquela palavra, e igualmente um colapso de confiança daparte de seus descendentes teológicos. É, porém, possível identificar tal centro a partir dos próprios textos? Paraalguns, isto poderia ser mais um exemplo de outra moderna "vara abstrata deadivinhação" mediante o qual o AT é forçado a entregar algum fruto teológicoagradável (ou até menos agradável). Uma coisa é condenar, de todo o coração,
  29. 29. A Identificação de um Centro Teológico Canónico 25todas as tentativas de se impor ao AT uma chave ou um sistema, mas é algumacoisa bem diferente derivar indutivamente tal núcleo a partir do próprio testa-mento. É precisamente aqui que a maioria das teologias do AT naufragou, Natentativa de guiar a nau entre o Caribdes da colocação do cânon em ordens crono-lógicas (que, conforme já vimos, muitas vezes teve como triste resultado nadamais do que um tratamento puramente descritivo) e a Cila de um arranjo tópico(que, também infelizmente, simplesmente adotava as categorias da filosofia, dateologia sistemática, ou algum sistema de alianças e dispensaçoes), freqüentementesofreu naufrágio num ou noutro extremo. Como será que uma disciplina, cujonome e definição procura o padrão, o plano, a pessoa, e o significado do registro,poderá se satisfazer com uma classificação puramente descritiva da informaçãoe dos fatos no texto? Se esta disciplina for meramente uma ciência descritiva,deverá ser chamada "teologia"? A definição da teologia bíblica não deve se vin-cular estreitamente com a natureza da Bíblia? 6 De outra forma, como poderiatomar categorias normativas arrancadas da sistemática e empregá-las para desdobraro padrão de significado conforme o modo do próprio cânon de dizer as coisas?0 propósito específico de cada narrativa e proposição na Bíblia não pode serentendido em primeiro lugar â luz de sua contribuição à totalidade, ou ao propó-sito e mensagem totais? Será, no entanto, que uma leitura honesta do texto leva oleitor a tal propósito único alegado? Desde a segunda metade do século dezoito,homens do iluminismo e seus descendentes intelectuais se sentiram compelidos,como homens que faziam suas decisões na pesquisa, a insistirem na argumentaçãoem prol da multiplicidade, variações e diversidade das Escrituras. De modo geral,não havia possibilidade de coerência interna já que, na estimativa deles, as tensõesque se observavam equivaliam a contradições. A mesma opinião continua até aopresente momento, mesmo na teologia do NT- 7 Mais recentemente, em estudos do AT, as vozes prestigiosas de G. ErnestWright e Gerhard von Rad acrescentaram seu peso a um coro cada vez mais forteque resolveu não haver centro unificador no AT. G.E. Wright rejeita qualquertema único, dizendo que não seria "suficientemente compreensivo para incluirdentro de si toda a variedade de pontos de vista". 8 Von Rad, não menos terminan- 6 A. A- Anderson, "Old Testament Theology and Its Methods", Promise and Fulfillment,F. F, Bruce, editor (Edimburgo: T. & T. Clark, 1963). pág. 8. 7 E. Kasemann, "The Problem of a New Testament Theology", New Testament Studies19 (1973): 242; W,G. Kümmel, The Theology of the New Testament (Nashville: Abingdon,1973), págs. 15-17. 8 G, Ernest Wright, "The Theological Study of the Bible", Interpreters One VolumeCommentary on the Bible (Nashville: Abingdon, 1970), pág. 983*
  30. 30. 26 Teologia do An tigo Testamen totemente, assevera que o AT "não possui ponto focal conforme se acha no NT", 9É interessante notar, como foi feito acima, que até a segurança quanto ao NTentrou em colapso e seguiu a liderança do campo do AT. Gerhard Hasel também se juntou a esta negação, dizendo que o teólogobíblico "não pode e não deve empregar um conceito, idéia fundamental ou fór-mula como um princípio para sistematicamente ordenar e arranjar a mensagemquerigmática do AT e como chave que determina desde o início como apresentaráo conteúdo do testemunho do A T " . 1 0 Reconhece livremente, no entanto, que"o alvo final da teologia do AT é demonstrar se existe ou não existe uma unidadeinterior que vincula juntamente as várias teologias e temas longitudinais, conceitose motivos", 1 1 embora seja uma "unidade interior oculta". 1 2 Mesmo assim, a questão tem de ser levada adiante: Será que a unidade étão opaca assim? Estavam os autores das Escrituras meramente desconfiados oumesmo ignorantes de qualquer plano-mestre divino por detrás do decurso doseventos humanos, qualquer seletividade autoral daquilo que se devia incluir eexcluir dos clamores pelas avaliações sobrenaturais daquilo que foi registrado?Alguém responderá imediatamente que esta pergunta levanta antes da hora a consi-deração dogmática quanto a se Deus, de fato, revelou-Se em escritos humanos.E reconhecemos que isto poderia ser interpretado assim. Neste ponto, no entanto,desejamos apenas estabelecer que os escritores alegavam (quanto a concordarcom eles ou não, não é a questão aqui) que se sentiam sob um imperativo divino.Tinham uma santa obrigação de falar aquilo que muitas vezes era contrário aospróprios interesses e desejos pessoais (cf a agonia da alma de Jeremias quanto aisto); mas precisavam falar. Além disto, não somente uma justa representação das suas alegações atribuia Deus o conteúdo e seleção daquilo que registram, como também contém nume-rosas referências, patentes e latentes, a um acúmulo de promessas, ameaças epessoas, e programas, que os antecedem, Além disto, alegam estar na sucessão Gerhard von Rad, Old Testament Theology, 2 vols. (Londres: Oliver and Boyd, 1962),2:362. (NOTA - Editado pela ASTE - Teologia do AT) 10Gerhard Hasel, Old Testament Theology: Basic Issues in the Current Debate (GrandRapids: Eerdmans, 1972), pág. 62. Ver também o estudo dele, "The Problem of the Center inthe Old Testament Theology Debate", Zeitschrift für die AittestamentUche Wissenschaft 86(1974): 65-82. Hasel, Old Testament, pég. 93. Page H. Kelley chegou è mesma conclusão: "A busca de 11um tema unificante deve ser considerada válida, senão, o Antigo Testamento seria reduzido auma coletânea de fragmentos literários sem relacionamento entre si", "Israels TabernaclingGod," Review and Expositor 67 (1970): 486, 12 Hasel, Old Testamentf pág. 93.
  31. 31. A Identificação de um Centro Teológico Canónico 27direta daquelas palavras anteriores, além de serem contribuintes no adicionaldesenvolvimento tanto do cumprimento como da promessa expandida para ofuturo! Por qual intermédio estas reivindicações foram conhecidas, e por que acomunidade de estudiosos repentinamente se amargou quanto à viabilidade deachar tal unidade, se esta reivindicação foi conscientemente transmitida conformese argumenta aqui? Será que esta história bíblica registrada pode ser a fonte designificado e unificação teológicos?A História Como o Veículo do Significado Até a década de setenta, o p r i n c f p k j q u e se sustentava com a maior reve-rência entre a maioria dos teólogos bíblicos era que a história era o veículo prin-cipal da revelação divina no AT. 1 3 Aquilo que se conhecia de Deus deveria serconhecido primariamente através da história. Através desta escolha, os teólogos do AT poderiam, conforme a esperançadeles, destacar a singularidade de Israel em contraste com os povos vizinhos doantigo Oriente Próximo que investiam o mundo natural com miríades de potênciasdivinas. Poderiam também, se tudo fosse conforme suas expectativas, contornar oembaraço do ponto de vista clássico que declarava que a revelação se localizava naspalavras das Escrituras.14 Por surpreendente que pareça, foi somente em 1967 que a base para a asse-veração tão freqüentemente repetida que a história era o veículo principal — erealmente, quase o único — da revelação foi finalmente submetida a uma análisetotal á luz das reivindicações da Bíblia comparadas com as da matéria comparativado Oriente Próximo antigo, Foi Bertil Albrektson que fez isto, no seu livro Historyand the Gods. Sem duvida, James Barr já levantara um desafio vigoroso a estenovo axioma da teologia bíblica no seu discurso inaugural de 1962, 15 declarandoque a revelação verbal tinha tanto direito de ocupar o centro do palco teológicocomo a história. Barr se queixou que era apenas apologética mente mais conve- niente subtrair secretamente a parte proposicional do registro bíblico da atençãopública. Mesmo à parte deste importante negligenciar do próprio sistema de signi-ficados dado na Bíblia, chegava-se a dizer que a revelação não se centralizava 13 G. E, Wright, O Deus que Age; Teologia Bíblica (Sao Paulo, ASTE, 1967), pág. 13;Vriezen, Outíine, pág. 189. 14 J. Baillie, The Idea of Revelation in Recent Thought (ISIova Iorque: Imprensada Univer-sidade de Columbia, 1956) págs. 62 e segs. 15 James Barr, "Revelation Through History in the Old Testament and Modem Thought",Interpretation 17 (1963): 193r205-
  32. 32. 28 Teologia do An tigo Testamen toem história verdadeira, afinal das contas, ou seja, eventos conforme aconteceram"realmente" ou "de fato". Pelo contrário, a arena da atuação de Deus, conformea reconstrução dos estudiosos, resultou em ser algo menos real do que os eventosque ocorrem no espaço e no tempo; mas, como se fosse para nos compensar poraquela perda, assevera-se que eram "querigmatica mente" mais Citeis! Foi von Rad, mais do que qualquer outro, que aguçou o contraste entreas duas versões da história de Israel, Para ele, não houve "nenhuma bruta facta[no AT]; temos a história apenas na forma de interpretação, somente em refle-xão"- 1 6 Havia, pois, dois tipos de história; aquele que se obtinha mediante areconstrução feita pelo moderno método histórico-crítico, e o que se obtinhadas confissões do credo de Israel, obtidas pelo método histórico-tradicional. Oresultante do primeiro era o "mínimo criticamente assegurado", enquanto o se-gundo tendia "a um máximo teológico". 1 7 Nesta dicotomia, o velho espectro de Immanuel Kant ainda estava assombran- i&do os círculos acadêmicos, Von Rad, como seu predecessor em 1926, Eissfeldt,conseguiu dividir a realidade em duas partes: havia o mundo dos fenômenos dopassado (que nos é disponível mediante a pesquisa histórico-crítica), e havia omundo noumenal da fé. A fé de Israel, como teologia bíblica, tinha que ter comoseu objeto, não os atos reais de Deus na história real, mas aquilo que o povo detempos antigos confessava ter acontecido a despeito das modernas dúvidas críticasquanto à veracidade dos acontecimentos, Estas confissões de credo {e. g. Dt 26;16-19) acerca de um número mínimo de alegados eventos na redenção passadade Israel eram representadas de novo no culto: ef como tal, "nova narração" desteseventos constituía ao mesmo tempo o querigma e uma interpretação teológicado AT. Tratada deste modo, esta segunda versão da história de Israel era natural-mente sujeita a várias formas de adaptação, reinterpretação, reflexão e até atua-i • ~ 19hzaçao. 16 Gerhard von Rad, " A n t w o r t auf Conzelmanns Fragen/ Evangelische Theologie 24(1964); Teologia do Antigo Testamento, 2:416 conforme citado por Gerhard F. Hasel, "TheProblem of History in Old Testament Theology," Andrews University Seminary Studies 8(1970):29 a quem devo, em vários lugares desta seção, a excelente análise advindo dele. Ele, por * » Msua vez, reconheceu seu endividamento à análise incisiva de Martin Honecker, " Z u m Verständnisder Geschichte in Gerhard von Rads Theologie des Alten Testament", Evangelische Theologie23 (1963); cf. Hasel, Old Testament, cap. IL 11 V o n Rad, Teologia, 1:108. 18 Otto Eissfeldt, Israelitisch-judische Religions-geschichte und alttestamentliche Theo-logie", Zeitschrift für die Alttestamentliche Wissenschaft 44 (1926): 1 e segs. 19 Hasel, "Problem", pág. 34, para a documentação em von Rad.
  33. 33. A I d e n t i f i c a ç ã o de um Centro Teológico Canónico 29 Nesse ínterim, outro grupo de estudiosos estava argumentando com igual vi-gor em prol da outra alternativa: fé nos eventos históricos reconstruídos pela críticadas fontes, Franz Hesse20 rejeitou o argumento de von Rad em prol de fazer o nívelconfessional da história ser o objeto da fé, Como é que tal história errônea poderiaser o objeto de fé real? perguntou ele. A fé deve ter por base aquilo que realmenteaconteceu, concluiu ele, e só a crítica histórica moderna é que nos pode contar oque realmente aconteceu ou não na tradição do AT. Mas, qual teoria crítico-histórica ele tinha em mente? Havia pelo menos trêstipos disponíveis: havia o que se chamava de Escola Baitimore de William FoxwellAlbright e John Bright; o eixo A. Alt e Martin Noth; e G.E. Mendenhall da Universi-dade de Michigan. As avaliações quanto ao "mínimo histórico" da era prepatriarcalaté a era da conquista, feitas por estas três escolas, eram especialmente críticas.Não havia disponível qualquer história científica de Israel — especialmente na basedas premissas que se acham no método histórico-crítico. Roland de Vaux também discordou vigorosamente com o ato de von Rad emlocalizar o objeto da fé dos israelitas e nossa numa estimativa da história subjetiva emuitas vezes falível. Seu desafio era direto: ou a interpretação da história dada éverdadeira, e tem sua origem em Deus, ou não é digna da fé de Israel e da nossa.Além disto, tal ponto de vista não somente é indigno da nossa atenção, como tam-bém é devastador uma vez que ataca o fundamento de toda a fé: "a veracidade deDeus". 21 A solução de de Vaux, como o argumento de Wolfhart Pannenberg, é ressaltara conexão "interna" ou "intrínseca" 2 2 ou unidade de eventos e seus significados,23Para de Vaux, a conexão estava no Deus que ordenou tanto os eventos quanto as in-terpretações, Pannenberg, de outro lado, ressaltava o "contexto" do acontecimentooriginal com a interpretação que o acompanhava. Concordamos, na medida em que estes dois homens insistiam na legitimidadee na necessidade de que a conexão errtre a história com seu significado canónico sejao ponto inicial apropriado para a teologia bíblica. Pois foi precisamente esta unida-de original dos eventos históricos com os significados que vjeram vinculados a elesque providenciou a possibilidade de se vencer o dualismo pós-kantiano e as tendên- 20 Citado por Hasel, Old Testament, pdgs, 31-34, 21 Roland de Vaux, The Bible and the Ancient Near East, trad. Damian Mchugh (Londres:Darton, Longman and Todd, 1971}, p3g. 57. 22 Ibid. pSg. 58. 23 Wolfhart Pannenberg, "The Revelation of God in Jesus Christ", Theology as History:New Frontiers in Theology 3 (1967): 127.
  34. 34. 30 Teologia do An tigo Testamen tocias positivas da historiografia moderna. Não somente tinham surgido novos câno-nes de história e historiografia cujas premissas eram antitéticas à totalidade da fécristã, como também uma tirania do particular (no seu isolamento do todo) surgiriacomo preocupação apoiadora. Eventos, fatos ou declarações foram vistos na sua individualidade, singulari-dade, e separação da sua contribuição â totalidade ou multiplicidade do contextoou situação total. Mesmo se o evento fosse retido na sua plenitude (o que era raro),as palavras vinculadas eram nitidamente cortadas fora do acontecimento. Foi aqui, mais do que em qualquer lugar, que se perdeu a unidade bíblica.Ao invés de se começar com a organização e plano reivindicados pelos próprios es-critores canónicos, um princípio de desenvolvimento natural ou de uma dialéticahegeliana foi colocado sobre os textos, Quando os resultados se revelaram decepcio-nantemente estéreis na teologia — mesmo para o mais resoluto dos historiógrafosmodernos — o vácuo resultante foi preenchido com novas categorias de "história",existencialismo ou secularização, A não ser que a teologia bíblica se liberte da tirania do particular e dos gri-lhões de uma grade filosófico-historiográfica de modernidade imposta, que tomaprecedência sobre o texto, nenhuma esperança subsiste para qualquer teologia do AT. Nem o assim chamado mínimo cientificamente assegurado, nem o máximo teo-logicamente projetado vai nos levar para lugar algum. Ambos os sistemas, seja nonome da objetividade ou da fé, se vangloriam sobre os textos que têm direito, bemmerecido, seja entre aqueles que reivindicam inspiração ou não, de serem ouvidosem primeiro lugar segundo os próprios termos deles e na sua própria plenitude canónica e contextual. Então, ao aplicar-se (como necessário é) quaisquer dispositivosmedidores de veracidade, fatualismo ou validade de interpretação ao conteúdo totai{que é outra necessidade), não devem ser aqueles que de modo bairrista refletem osinteresses locais de uma geração que possui preconceitos em prol doou contra qual-quer atitude específica para com a vida. Pelo contrário, todos os critérios devemabordar a questão de modo semelhante ao sistema americano de jurisprudência: umtexto é inocente até ser comprovado culpado por dados, conhecidos, providencia-dos por fontes cuja veracidade naqueles pontos pode ser demonstrada ou que têma mesma área geral de contemporaneidade como os textos sob investigação e cujodesempenho em produzir dados fidedignos tem sido bom, Com esta abordagem, a história mais uma vez pode ser consultada na pleni-tude do seu contexto dos tempos e do contexto da interpretação que vem vincula-da a ela. Desta forma, a história pode concebível mente ser, mais uma vez, um veícu-lo de significado juntamente com a unidade do seu contexto. Então, a história bíblica revelou qualquer plano divino? Ou devemos maisuma vez nos atolar em generalidades com respeito à importância da história sem o
  35. 35. A Identificação de um Centro Teológico Canónico 31benefício de um bom estudo indutivo da terminologia ou padrão de pensamentoreivindicado pelos textos? Felizmente, Bertil Albrektson fez um estudo preliminar dos termos hebraicosvinculados a um plano divino na história. 24 No seu exame, achou dez passagens on-de *êsâh {comumente traduzido "conselho", mas também tendo o significado nestaspassagens de "propósito" ou "plano") foi empregado numa forma verbal nominal.As passagens são:Salmos 33:10-11; 106:13; Provérbios 19:21; Isaías 5:19; 14:24-27;19:17; 25:1; 46:10; Jeremias 49:20; 50:45; e Miquéias 4:12. Em duas outras pas-sagens, maffsabâh ("pensamento", "propósito") se emprega para o plano divino:Jeremias 29:11; 51:29. Além destes dois termos, mais dois são acrescentados por Albrektson. SãorrPzimmâh ("um plano hostil") em Jó 42:2; Jeremias 23:20; 30:24; 51:11 ederek("caminho") em Salmo 103:7; cf. Êxodo 33:13; Deuteronômio 32:4; Salmo 18:31;Isaías 55:8-9; 58:2. Quando Albrektson completou este estudo, concluiu, de modo decepcionan-te, que não achava nenhuma só intenção divina que demonstraria que Deus tem umplano fixo para a história de Israel e/ou para as nações, de um ponto do tempo paraoutro. Para ele, as palavras são imprecisas e de iargo escopo, sendo que se referema várias intenções divinas mas não a um plano único. Atém disto, a distribuiçãodestas passagens é algo limitada, sendo que parece que se agrupam em Jeremias,Isaías, Miquéias e nos Salmos,2 5 Em parte concordamos; a maioria destas passagens é uma expressão de umaaplicação individual da intenção de Deus a uma situação específica em Israel ouentre as nações, Como, porém, se pode fazer tal negação para um texto tal comoMiquéias 4:12? O profeta não declara claramente que as nações pagãs não conhe-cem os pensamentos de Javé; que não entendem o Seu piano? Isto não está no con-texto de um plano que abrange muitas nações simultaneamente? Semelhantemente,em Salmo 33:10 os "desígnios [planos] das nações" se colocam em contraste com oplano de Javé que "dura para sempre" e "por todas as gerações" (v.11). Por certo,este modo de falar coloca o escritor na posição de alegar que Deus tem de fato al-gum planejamento de longo alcance que vai contra os movimentos e planos dacomunidade mundial total. Talvez o ponto mais fraco na linha de argumentação de Albrektson éque se-gue por demais estreitamente uma abordagem lexicográfica. Embora reconheça queo assunto pudesse estar presente ainda que não houvesse a paíavra para um plano, 24 Albrektson, History and the Gods, págs. 68-77. 25 Ibid. págs. 7fr77.
  36. 36. 32 Teologia do An tigo Testamen toele não discute uma das mais grandiosas reivindicações de todas, feita em Isaías cap.40 e nos capítulos seguintes. "A quem, pois, me comparareis? Quem anunciou isto rdesde o princípio, para que possamos saber, antecipadamente, para que digamos: Eisso mesmo". (Is 40:25; 41:26-28; 42:9; 44:7-8; 26:28; 45:21; 46:10-11; 48:3-6). Ainda mais importante é a conexão entre a reivindicação divina quanto a teranunciado, muito tempo antes de qualquer coisa assim ter acontecido, o decursode eventos desde o início até ao fim, e o fato de que tudo isto estava de acordo comSeu "plano" e "propósito". O contexto que une estes temas de modo óbvio e explí-cito é Isaías 46:9-11: "Eu sou Deus.„ que declara o f i m desde o princípio... que diz,Meu plano permanecerá, também cumprirei todo meu propósito (note a palavra"propósito" no singular) . . . Eu o formulei, certamente Eu o cumprirei." Deus estádisposto a empatar, por assim dizer, a totalidade do Seu caráter e da Sua declaraçãoquanto a ser o Deus único sem igual no fato de ter a capacidade de falar e declararo futuro. Os deuses dos pagãos não podem fazer assim, Além disto, as declaraçõesde Deus não são comentários desconexos à vontade, sobre isto ou aquilo, aqui e ali.Seguem um plano premeditado que abrange o começo e o fim das partes e do todo!Tudo acontecerá conforme Ele disse. Declarações deste tipo, à parte de quaisquer considerações de um centro uni-ficado para a teologia do A T , nos levam de volta ao obstáculo original para a maioriados modernos estudiosos da Bíblia: a predição! Realmente, Albrektson quase dizisto quando introduz o versículo-chave em Gênesis 12:3. Para ele, a escolha é clara:Javé faz aqui um exame da história do passado do ponto de vista do resultado atin-gido, onde "todas as nações da terra se abençoam a si mesmas"? Ou será que Javéestá projetando um plano divino para os eventos futuros, dentro de um arcabouçouniversalístico em que "todas as nações da terra serão abençoadas"?26 A questãogira em torno da tradução da palavra crucial n i b ^ k u . Concordamos que os resulta-dos deste estudo não são de pequeno interesse para o progresso inteiro da teologiado Antigo Testamento. Ora, já antecipamos esta questão, argumentando no capítulo passado que osentido passivo não é somente possível ("todas as nações serão abençoadas") comotambém é a tradução exigida que se enquadra na única intenção quanto à verdadepor parte do autor. Albrektson livremente concedeu que se fosse correta a traduçãopassiva — e ele reconheceu que tinha bastante apoio contemporâneo de O. Procksch,S.R. Driver, G. von Rad, e H.W. Wolff — então a passagem de fato alegou que Deustinha um plano mediante o qual Abraão foi selecionado como Seu instrumentode bênção divina e através do qual Ele atingira todas as nações da terra. 27 26 Ibid. pág. 78, 21 Ibid. pág. 79.

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