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Rede social

  1. 1. Das redes sociais à inovaçãoMaria Inês Tomaél INTRODUÇÃODoutora em ciência da informação pela Escola de Ciência da Informaçãoda UFMG e professora do Departamento de Ciência da Informação A informação e o conhecimento estão em todas as esferasda Universidade Estadual de Londrina (UEL).E-mail: mitomael@uel.br e áreas, são considerados essenciais tanto do ponto de vista acadêmico quanto profissional e, quandoAdriana Rosecler Alcará transformados pelas ações dos indivíduos, tornam-seMestranda em educação pela UEL e professora do Departamento de competências valorizadas, gerando benefícios sociais eCiência da Informação da UEL.E-mail: adrianaalcara@uol.com.br econômicos que estimulam o desenvolvimento e são, ainda, recursos fundamentais para formação eIvone Guerreiro Di Chiara manutenção das redes sociais.Mestre em administração de bibliotecas pela Escola de Biblioteconomiada UFMG e professora do Departamento de Ciência da Informação A configuração em rede é peculiar ao ser humano, ele seda UEL. agrupa com seus semelhantes e vai estabelecendo relaçõesE-mail: igchiara@conectway.com.br de trabalho, de amizade, enfim relações de interesses que se desenvolvem e se modificam conforme a sua trajetória. Assim, o indivíduo vai delineando e expandindo sua redeResumo conforme sua inserção na realidade social.A inserção em rede é determinante para o compartilhamento As redes sociais constituem uma das estratégias subja-da informação e do conhecimento. Isto porque as redes sãoespaços valorizados para o compartilhamento da informação centes utilizadas pela sociedade para o compartilhamen-e para a construção do conhecimento. Neste artigo, são to da informação e do conhecimento, mediante as rela-abordadas as relações entre informação, conhecimento, ções entre atores que as integram.aprendizagem organizacional e inovação, assim como oentorno em que as redes sociais se realizam. Essas relações Acreditamos que a informação e o conhecimento sãoconstituem o foco das ligações que se estabelecem nasredes. A interação entre os atores promove o passaportes essenciais para a inovação; assim, procurandocompartilhamento da informação e do conhecimento, estudar e aprofundar esses argumentos, este artigofomentando o desenvolvimento de inovações. apresenta uma abordagem da informação e doPalavras-chave conhecimento como fluxos importantes das redes sociais que facilitam o processo de inovação.Redes sociais; Compartilhamento da informação e doconhecimento; Aprendizagem organizacional; Inovação. REDES SOCIAIS As pessoas estão inseridas na sociedade por meio dasFrom social networks to innovation relações que desenvolvem durante toda sua vida, primeiro no âmbito familiar, em seguida na escola, na comunidadeAbstract em que vivem e no trabalho; enfim, as relações que asBeing engaged in a network is the key element in sharing pessoas desenvolvem e mantêm é que fortalecem a esferainformation and knowledge, since these networks are valuable social. A própria natureza humana nos liga a outrasspaces to attain those purposes. This article addresses the pessoas e estrutura a sociedade em rede.relationship among information, knowledge, organizationallearning and innovation, as well as the way they are perceivedand practiced. These relationships constitute the focus of the Nas redes sociais, cada indivíduo tem sua função econnections established in the networks. Therefore, the identidade cultural. Sua relação com outros indivíduosinteraction among the actors promotes the sharing of vai formando um todo coeso que representa a rede. Deinformation and knowledge, fostering the development ofinnovations. acordo com a temática da organização da rede, é possível a formação de configurações diferenciadas e mutantes.Keywords As redes sociais, segundo Marteleto (2001, p.72),Social networks; Information and knowledge sharing; representam “[...] um conjunto de participantesOrganizational learning; Innovation. autônomos, unindo idéias e recursos em torno de valores e interesses compartilhados”. A autora ressalta, ainda, que só nas últimas décadas o trabalho pessoal em redesCi. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005 93
  2. 2. Maria Inês Tomaél / Adriana Rosecler Alcará / Ivone Guerreiro Di Chiarade conexões passou a ser percebido como um instrumento regularidade. Isto é, as chamadas “amizades de escritório”,organizacional, apesar de o envolvimento das pessoas que costumam ter um papel importante no desempenhoem redes existir desde a história da humanidade. das funções formais.A rede, que é uma estrutura não-linear, descentralizada, Todos os tipos apresentados estão em consonância comflexível, dinâmica, sem limites definidos e auto- a afirmação de Krogh, Ichijo e Nonaka (2001, p.159),organizável, estabelece-se por relações horizontais de quando dizem:cooperação. Costa et alii (2003, p. 73) atestam que a rede“é uma forma de organização caracterizada As conversas nas organizações de negóciosfundamentalmente pela sua horizontalidade, isto é, pelo geralmente apresentam dois objetivos básicos:modo de inter-relacionar os elementos sem hierarquia”. confirmar a existência e conteúdo do conhecimento ou criar novos conhecimentos [...] o intercâmbio deA noção de rede remete primitivamente à noção de idéias, opiniões e crenças propiciado pelas conversascapturar a caça. “Por transposição, a rede é assim um possibilita o primeiro e o mais importante passo parainstrumento de captura de informações” a criação do conhecimento: o compartilhamento do(FANCHINELLI; MARCON; MOINET, 2004). E esse conhecimento tácito dentro da comunidade da rede.mesmo enfoque é acentuado por Capra (2002, p.267),quando delineia a importância das redes organizacionais: O conhecimento, na visão desses autores, precisa ser transformado, desenvolvido e trabalhado dentro das [...] na era da informação – na qual vivemos – as organizações; caso contrário, ele será apenas um funções e processos sociais organizam-se cada vez aglomerado de informações sem importância. Esse é o mais em torno de redes. Quer se trate das grandes maior desafio da Era da Informação: criar uma empresas, do mercado financeiro, dos meios de organização capaz de compartilhar o conhecimento. E é comunicação ou das novas ONGs globais, nesse enfoque que as redes são mais valorizadas; ao mesmo constatamos que a organização em rede tornou-se tempo que contribuem para o aprimoramento dos ativos um fenômeno social importante e uma fonte crítica organizacionais, possibilitam que as organizações, de poder. distinguindo as características das redes e valendo-se delas, tornem o compartilhamento mais profícuo.Com base em seu dinamismo, as redes, dentro doambiente organizacional, funcionam como espaços para Redes sempre pressupõem agrupamentos, são fenôme-o compartilhamento de informação e do conhecimento. nos coletivos, sua dinâmica implica relacionamento deEspaços que podem ser tanto presenciais quanto virtuais, grupos, pessoas, organizações ou comunidades, denomi-em que pessoas com os mesmos objetivos trocam nados atores. Possibilitam diversos tipos de relações – deexperiências, criando bases e gerando informações trabalho, de estudo, de amizade, entre outras –, apesar derelevantes para o setor em que atuam. quase sempre passarem despercebidas.A formação de redes nas organizações ocorre por meios e Redes, durante quase todo o tempo, são estruturasformas variados, desde uma conversa informal com um invisíveis, informais, tácitas. Elas perpassam oscolega de trabalho na hora do café, em encontro com os momentos da vida social, mas praticamente não seamigos após o expediente, em reuniões, congressos, listas dão a ver – são o conjunto de ‘conexões ocultas’, comode discussões, portais corporativos, até situações diria Capra; ou a ‘estrutura submersa’, nas palavrasformalmente criadas com a finalidade de alcançar de Alberto Melucci. A noção de horizonte refere-seresultados específicos. Krackhardt e Hanson, apud a essa incapacidade de se saber a extensão da redeMacedo (1999), subdividiram essas redes em redes de para além de um certo ponto. Na prática social, cadaconfiança, redes de trabalho ou consulta e redes de uma das pessoas possui muitos círculos decomunicação. relacionamento, mas não sabe quantos eles são ou como identificá-los. Na verdade, as pessoas, de modoAs redes de confiança são aquelas que compartilham geral, só vêem a rede quando precisam dela (COSTA“informações politicamente delicadas” e restritas a certo et alii, 2003, p.69).número de pessoas. Já as redes de trabalho ou consultautilizam estruturas informais e possibilitam o contato Como um espaço de interação, a rede possibilita, a cadaentre pessoas que possuem informações que facilitem o conexão, contatos que proporcionam diferentestrabalho, ao passo que as redes de comunicação são as informações, imprevisíveis e determinadas por umque possibilitam a troca de informações de trabalho com interesse que naquele momento move a rede,94 Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005
  3. 3. Das redes sociais à inovaçãocontribuindo para a construção da sociedade e de Boston e Omaha (Nebraska-EUA), escolhidasdirecionando-a. aleatoriamente, instruindo-as para que reenviassem a carta recebida a uma pessoa-alvo – um morador deCastells (1999, p.498), um dos nomes mais eminentes Sharon, Massachussets, que trabalhava em Boston –, porno estudo de redes, faz uma relação direta das redes com meio de contatos que já tinham, amigos, conhecidos quea sociedade na Era da Informação e as define como “um pudessem ajudar na entrega da carta, cada pessoa pelaconjunto de nós interconectados. Nó é o ponto no qual qual a carta passasse deveria escrever seu nome nouma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é envelope, assim foi possível monitorar seu percurso.depende do tipo de redes concretas de que falamos”. Milgram identificou que o número médio dePodem ser organizações de qualquer tipo, tanto formal intermediários, do primeiro contato até a pessoa alvo,quanto informal, tanto lícita quanto ilícita, e os nós foi de seis pessoas (COSTA et alii, 2003; MOLINA, 2004).podem também ser representados por indivíduos ougrupos de indivíduos. Tendo como base essa experiência, pesquisadores da Columbia University (DODDS; MUHAMAD; WATTS,O contexto em que estamos inseridos desencadeia uma 2003) realizaram uma pesquisa com mais de 60 milsérie de mudanças na rotina dos indivíduos, e uma delas usuários de e-mail, procurando atingir 18 pessoas-alvoevidencia as redes como ponto de convergência da em 13 países, por meio do encaminhamento deinformação e do conhecimento. Para Sodré (2002, p.14), mensagens para conhecidos. A pesquisa obteve granderede é “onde as conexões e as interseções tomam o lugar êxito. Os pesquisadores acreditam que isso se devedo que seria antes pura linearidade”. Essas conexões e primeiramente aos intermediários, que, por meio de seusinterações no âmbito das redes sociais ocorrem pelo contatos, fizeram com que as mensagens chegassem àscontato direto (face a face) e pelo contato indireto – pessoas-alvo. Pelos resultados, os pesquisadoresutilizando-se um veículo mediador, como a Internet, o constataram que as mensagens alcançaram seustelefone, ou outro meio. Enfim, podemos dizer que redes destinatários por meio de um número médio de cinco asociais envolvem um conjunto de atores que mantêm sete etapas, apesar de, em alguns casos, a diferença terligações entre si. sido substancial. Assim concluíram que o sucesso dasA partir do desenvolvimento dos meios de comunicação, redes sociais globais depende dos esforços individuais.principalmente depois da Internet, as relações sociais As duas pesquisas demonstram que a rede social constituiprescindem do espaço físico e do geográfico, elas ocorrem importante recurso profissional e pessoal. Estar emindependentes do tempo e/ou do espaço. E, mesmo assim, contato com pessoas que conheçam uma pessoa-alvo –as relações em uma rede refletem a realidade ao seu redor em razão de um interesse específico –, ou alguém que ae a influência. Devido a essa dimensão, Wellman (1996) conheça, já é um passo além para a conquista de umverifica, na rede, sua identidade singular em determinada objetivo.situação, isto é, a representação e a interpretação das relaçõesem rede estão fortemente ligadas à realidade que a cerca; As redes sociais ultrapassaram o âmbito acadêmico/a rede é influenciada pelo seu contexto e esse por ela. científico, conquistando e ganhando espaço em outras esferas. E podemos observar esse movimento chegando àA interação constante ocasiona mudanças estruturais e, Internet e conquistando cada vez mais adeptos,em relação às interações em que a troca é a informação, a aglutinando pessoas com objetivos específicos, ou apenasmudança estrutural que pode ser percebida é a do pelo prazer de trazer à tona ou desenvolver uma rede deconhecimento, quanto mais informação trocamos com relacionamentos*. Isso é possibilitado por um softwareo ambiente que nos cerca, com os atores da nossa rede, social que, com uma interface amigável, integra recursosmaior será nossa bagagem de conhecimento, maior será além dos da tecnologia da informação. O uso dessesnosso estoque de informação, e é nesse poliedro de recursos gera uma rede em que os membros convidamsignificados que inserimos as redes sociais. seus amigos, conhecidos, sócios, clientes, fornecedores eO professor Stanley Milgram, da Universidade de Havard, outras pessoas de seus contatos para participar de suanos Estados Unidos, em 1967, defendeu a tese segundo a rede, desenvolvendo uma rede de contatos profissional equal estamos distantes de qualquer outra pessoa do pessoal, que certamente terá pontos de contatos commundo, a seis graus, isto é, seis pessoas nos separam dequalquer outra pessoa. Essa tese ficou conhecida como * http://www.ecademy.com; http://www.econozco.com; http://www.“mundo pequeno” e “teoria dos seis degraus”. Para chegar linkedin.com; http://www.orkut.com; http://www.everyonesconnected. com; http://www.ryze.com.a esse número, o professor enviou cartas a 160 moradoresCi. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005 95
  4. 4. Maria Inês Tomaél / Adriana Rosecler Alcará / Ivone Guerreiro Di Chiaraoutras redes. Enfim, são ambientes que possibilitam a procurando sua retenção. Na outra forma, cria novosformação de grupos de interesses que interagem por meio conhecimentos (knowledge creating) por meio de suade relacionamentos comuns. conversão (tácito para explícito) e do compartilhamento da informação, procurando a inovação. Por último,A idéia de redes nas ciências sociais é aplicada à sociedade procura e analisa informações para a tomada de decisõescomo um conjunto de relações e funções desempenhado (decison making).pelas pessoas umas em relação às outras. “Comocaracterística das sociedades complexas, cada associação A relação entre informação e conhecimento éde seres humanos funciona de maneira muito específica, representada por Choo (1998) por um ciclo, no qual atrelao que cria uma dependência funcional entre os a necessidade, a busca e o uso de informação, levando deindivíduos”. Os vínculos entre estes indivíduos se fazem uma situação a outra. Essas etapas compõem a estruturaininterruptamente, são ligações invisíveis, porém reais cognitiva interna dos indivíduos e sua organização(MARTELETO, 2000, p.78). emocional. Para o autor, esse modelo pode ser analisado usando-se como parâmetro os seguintes aspectos:INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO – necessidade de informação: contém elementosO espaço em que as redes sociais se constituem e se cognitivos, afetivos e situacionais. É primeiramenteproliferam são inerentes à informação e ao conhecimento, sentida como uma incerteza. Conforme esse sentimentouma vez que são eles que movimentam as redes. vai diminuindo, a necessidade de informaçãoA importância da informação no desempenho das progressivamente vai chegando à consciência e então aempresas é destacada por diversos autores, entre os quais questão é formalizada;Lesca e Almeida (1994, p.67) quando afirmam que “a – busca pela informação: o modelo é analisado valendo-informação é um vetor estratégico importantíssimo, pois se das seguintes categorias*: iniciação, encadeamento,pode multiplicar a sinergia dos esforços ou anular o pesquisa, diferenciação, monitoramento, extração,resultado do conjunto dos esforços”. Drucker (1992) verificação e conclusão. As três primeiras categorias sãoacrescenta ainda que ela é fator de produção importante importantes para o desenvolvimento do foco e estratégiapara a obtenção de vantagem competitiva, uma vez que da pesquisa, as demais são fortemente influenciadas peloos fatores tradicionais – terras, mão-de-obra e recursos ambiente cultural e organizacional, ou seja, a escolha dasfinanceiros – por si sós já não garantem a competitividade. fontes de informação depende da inserção do indivíduoA literatura (McGARRY, 1999; DAVENPORT; e da motivação que gerou a busca;PRUSAK, 1998) reconhece a dificuldade em conceituar – uso da informação: seleção e processamento deinformação e conhecimento, destacando que a informação resultando em um novo conhecimento ouepistemologia concentra esforços na tentativa de ação. Nesse aspecto a informação é freqüentemente usadaestabelecer o significado de informar e conhecer. para responder a questões, resolver problemas, tomarAssim, entendemos que a informação está no domínio decisões, negociar posições, ou construir significados parapessoal do receptor, isto é, é ele quem define se a determinada situação. As pessoas sentem satisfação emensagem recebida acrescenta algum valor ao estado confiança quando suas pesquisas têm bons resultados,anterior, estabelecendo sentido e modificando atitudes. mas, quando ocorre o contrário, sentem desapontamento e frustração. Informação é sempre fluxo e para o sujeito ela funcio- na como troca com o mundo exterior, o que lhe con- Estabelecendo uma relação similar entre informação e fere seu caráter social. Assimilada, interiorizada e conhecimento, Barreto (1996) ressalta “se a informação processada por um sujeito específico, ela é a base é percebida e aceita como tal, colocando o indivíduo em para sua integração no mundo, propiciando ajustes um estágio melhor, consciente consigo mesmo e dentro contínuos entre o mundo interior e o mundo exterior do mundo onde se realiza a sua odisséia individual”, então (TÁLAMO, 2004, p.1). essa relação de fato se realizou.Ao considerar a importância das pessoas nos processos Essa relação é abordada por Nonaka e Takeuchi (1997,informacionais, Choo (1998) ressalta que as organizações p.64) quando afirmam: “a informação é um fluxo deutilizam a informação por formas distintas. Na primeira mensagens, enquanto o conhecimento é criado por essedelas, a informação é coletada do ambiente e interpretadapara a construção de significados (sense making), * Essas categorias são empregadas por Choo com base na literatura.96 Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005
  5. 5. Das redes sociais à inovaçãopróprio fluxo de informação, ancorado nas crenças e Ainda com relação aos tipos de conhecimento,compromissos de seu detentor”. destacamos Nonaka e Takeuchi (1997, p. 13), que também classificam o conhecimento em tácito e explícito.Desse modo, o processo de conhecimento consolida-se a O conhecimento explícito é facilmente transmitidopartir de informações com valor agregado, assimiladas entre os indivíduos, pois “[...] pode ser articulado napelos indivíduos ou pelas organizações, incorporadas às linguagem formal, inclusive em afirmações gramaticais,experiências e saberes anteriores, conduzindo à ação. expressões matemáticas, especificações, manuais e assimO fluxo da informação para o conhecimento também é por diante”. O conhecimento tácito, por sua vez, é oabordado por Davenport e Prusak (1998, p.7), que criaram conhecimento pessoal incorporado à experiênciaos quatro Cs, de forma similar aos quatro Ps de marketing, individual e envolve fatores intangíveis (crenças pessoais,em que apresentam um processo da transformação da valores e perspectivas) e é difícil ser articulado nainformação em conhecimento. As pessoas precisam linguagem formal.encarregar-se dessa tarefa, e, conforme sugerem os autores, É importante lembrar que esses dois tipos deé preciso estabelecer: conhecimentos são inerentes às redes sociais. E é a Comparação – de que forma as informações relativas interação entre o conhecimento tácito e explicito que a essa situação se comparam com outras situações permitirá a criação de novos conhecimentos. Nonaka e conhecidas? Conseqüências – que implicações essas Takeuchi (1997, p. 67) afirmam que “o modelo dinâmico informações trazem para as decisões e tomadas de da criação do conhecimento humano é criado e expandido ação? Conexões – quais as relações desse novo através da interação social entre o conhecimento tácito conhecimento com o conhecimento já acumulado? e o conhecimento explícito”. Eles denominam essa Conversação – o que as outras pensam dessa interação de “conversão do conhecimento”, chamando informação? a atenção para a importância de visualizar essa conversão como um “processo ‘social’ entre indivíduos e nãoO conhecimento é inerente às pessoas. Conseqüente- confinada dentro de um indivíduo”. Assim são as redesmente, o agenciamento dos relacionamentos e a confian- sociais, elas se mantêm valendo-se da interação entreça entre os indivíduos nas organizações têm papel deter- diversos indivíduos para a criação de novosminante na criação do conhecimento, isto porque, res- conhecimentos.salta Krogh, Ichijo e Nonaka (2001, p.61): “Para com-partilhar o conhecimento pessoal, os indivíduos devem COMPARTILHAMENTO DA INFORMAÇÃO Econfiar em que os outros estejam dispostos a ouvir e a DO CONHECIMENTOreagir às suas idéias”. Os bons relacionamentos possibi- Reconhecendo-se como certo que a informação e olitam condições para o compartilhamento de insights e conhecimento são inerentes às redes sociais, suapara a livre discussão das preocupações, permitindo a importância social e econômica é conseqüência do efeitoorganização espontânea de pequenas comunidades, “fon- que causam nas pessoas e nas organizações. Nesse âmbito,te de criação do conhecimento nas empresas”. constatamos a necessidade de compartilhá-los para queMiranda (1999, p.287) diferenciou os tipos de possam trazer mudanças no contexto em que estãoconhecimento, classificando-os em explícito, tácito e inseridos.estratégico: Para Dixon (2000), o termo compartilhar tem dois conhecimento explícito é o conjunto de informações significados: dar uma parte, o que requer generosidade, e já elicitadas em algum suporte (livros, documento ter em comum um sistema de crenças compartilhado. etc.) e que caracteriza o saber disponível sobre o tema Para a autora, o termo compartilhar que nós usamos específico; conhecimento tácito é o acúmulo de saber freqüentemente, quando falamos do intercâmbio de prático sobre um determinado assunto, que agrega conhecimento, pode aparentar uma escolha de palavras convicções, crenças, sentimentos, emoções e outros um tanto estranha, pois usualmente são utilizados termos fatores ligados à experiência e à personalidade de quem como capturar, disseminar ou transferir. Mas a palavra o detém; conhecimento estratégico é a combinação certa nesse contexto é realmente compartilhar, que de conhecimento explícito e tácito formado a partir implica a idéia de dividir alguma coisa que possuímos. das informações estratégicas e de informações de Em português, a palavra é sinônimo de compartir, que acompanhamento, agregando-se o conhecimento de significa dividir e distribuir, e é uma palavra com uma especialistas (grifo nosso).Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005 97
  6. 6. Maria Inês Tomaél / Adriana Rosecler Alcará / Ivone Guerreiro Di Chiaraconotação forte, pois exige mais doação dos indivíduos para integração e coordenação da rede: colaboração edo que disseminar, transferir ou capturar. tecnologia. Para esses autores, o trabalho em rede requer cuidadosa coordenação e integração. A colaboração, vistaDe acordo com a referida autora, a idéia de compartilhar por eles como um processo social, é necessária paraconhecimento é baseada em três mitos: compartilhar a informação e, por conseqüência, oO primeiro deles é que basta às empresas construir bases conhecimento, para integrar horizontalmente asde dados sofisticadas, que o conhecimento virá. As operações da rede. Já o compartilhamento é visto maisempresas adotam uma estrutura com bases de dados como um processo tecnológico. A integração, necessáriaeletrônicas, enfim um estoque de conhecimento que se para administrar a rede, requer tanto colaboração quantoconstitui em apenas armazenamento do conhecimento compartilhamento da informação.e da informação, quando o desafio é o uso desses recursos. A importância da tecnologia no processo deO segundo mito é que a tecnologia, considerada impres- compartilhamento da informação e do conhecimentocindível para o processo de compartilhamento da infor- também é reconhecida por Davenport e Prusak (1998,mação e do conhecimento, pode substituir o contato p.117), quando, referindo - se à transferência depessoal. A reunião de pessoas em um só espaço físico tem conhecimento, afirmam que esse processo não poderiaum alto custo (passagens, estadas, entre outras despe- ocorrer “[...] sem as ferramentas propiciadas pelasas), mas traz grandes resultados em termos de comparti- tecnologia da informação [...]”. Os autores chamam alhamento da informação e do conhecimento. O que ocor- atenção para a relevância dos valores, normas ere na prática é que é necessário o uso da tecnologia com- comportamentos que constituem a cultura da empresabinado com o contato pessoal para a transferência ou que são determinantes para o grau de sucesso dacompartilhamento do conhecimento e da informação. transferência do conhecimento.E o terceiro mito é baseado na crença de que a troca de A importância das pessoas no compartilhamento daconhecimento ocorre somente em organizações não- informação e do conhecimento é salientada porcompetitivas ou com cultura para a colaboração e que, Davenport (1994) em outro trabalho, quando diz que:portanto, primeiro é preciso criar uma cultura de – as organizações devem começar a pensar como asaprendizagem. Se as pessoas começam a compartilhar pessoas usam a informação, e não como usam os recursosidéias e conseguem perceber a importância desse tecnológicos;processo, o próprio compartilhamento cria a cultura daaprendizagem. – as informações que as pessoas consideram importantes nas organizações, em grande parte, não são passíveis deA definição de redes sociais apresentada por Marteleto serem gerenciadas por recursos tecnológicos;(2001) contempla a idéia de compartilhamento de valorese interesses que, para promover o fortalecimento da rede, – as pessoas agregam valor aos dados interpretando-osdependem do compartilhamento da informação e do e contextualizando-os, por isso os gerentes preferemconhecimento. obter informações das pessoas;Reportando-se às redes de trabalho nas organizações, – as pessoas são ativos importantes e determinantes noYu, Yan e Cheng (2001) também ressaltam os benefícios contexto informacional, assim qualquer modelo ou mapada cooperação e compartilhamento da informação, informacional deve incluí-las;quando afirmam que a globalização dos negócios foiacelerada nas últimas duas décadas devido ao rápido – a comunicação eletrônica só é possível se primeirodesenvolvimento da tecnologia de produção e houver a comunicação face a face.informação, aumentando a pressão dos custos e Coerente com essas afirmações, Dixon (2000) adverteocasionando demanda mais agressiva dos clientes. Os que a tecnologia não substitui o contato pessoal.esquemas de produção e distribuição foram modificados,e novos padrões de relacionamento entre fornecedores, É claro que a tecnologia faz com que o compartilhamentoprodutores, varejistas e outras partes foram introduzidos da informação e do conhecimento seja mais fácil, mas,no mercado, notadamente sob o esquema de redes. apesar das ferramentas colocadas à disposição das pessoas para facilitar esse processo, Davenport e Prusak (1998)De acordo com Hanfield e Nichols, apud Shore e ressaltam algumas barreiras para a transferência doVenkatachalan (2004), dois parâmetros são essenciais conhecimento nas organizações. Dentre elas, algumas98 Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005
  7. 7. Das redes sociais à inovaçãopodem ocorrer também nas redes sociais, como é o caso Além disso, conforme destaca Dixon (2000), as pessoasda falta de confiança mútua, diferentes culturas, gostam de dividir o que sabem, tanto é assim, que, quandovocabulários e quadros de referência distintos. Mas são sabemos alguma coisa, sempre pensamos na utilidade dobarreiras passíveis de serem facilmente superadas, conhecimento para outras pessoas.conforme propõem os autores, o são pelas própriascaracterísticas das redes sociais. Mas o compartilhamento da informação e do conhecimento só terá resultados se implicar um processoPara que a transferência e conseqüente compartilhamen- de aprendizagem, pois o simples acesso sem esse processoto da informação e do conhecimento obtenham sucesso, não modifica a realidade, perde, portanto, o sentido.esses autores destacam alguns aspectos: Assim, é preciso lembrar da afirmativa de Dixon (2000), quando ela diz que, se as pessoas começam a compartilhar– linguagem comum, sem a qual as pessoas não se idéias e conseguem perceber a importância desseentenderão e tampouco confiarão umas nas outras; processo, o próprio compartilhamento cria a cultura da– necessidade, às vezes, do contato face a face; aprendizagem.– A cultura comum é ressaltada como um aspecto INOVAÇÃO E APRENDIZAGEM ORGANIZA-importante para melhor transferência do conhecimento, CIONALpois, segundo eles, “quanto mais próximas as pessoas estão A busca constante pela inovação, por meio da criação eda cultura do conhecimento que está sendo transferido,mais fácil é o compartilhamento e a troca” desenvolvimento de novos produtos e processos,(DAVENPORT; PRUSAK, 1998, p.121). diversificação, qualidade e absorção de tecnologias avançadas, é indispensável para assegurar elevados níveis– o status do possuidor do conhecimento, que inspira ou de eficiência, produtividade e competitividade dasnão confiança no conhecimento e na informação organizações. Isso implica acumulação constante decompartilhada. conhecimentos e capacitação tecnológica contínua. Nesse contexto, insere-se a aprendizagem organizacionalNo entanto, no caso das redes sociais, esses aspectos estão (aprendizado contínuo e interativo), configurando-sepresentes no seu desenvolvimento. Caso contrário, elas como o processo mais importante para o desenvol-já estariam fragilizadas ou nem existiriam. Prevalece uma vimento da inovação tecnológica.linguagem e uma cultura comuns, oriundas dos própriosinteresses, o contato independe da interação pessoal, e, A aprendizagem organizacional, segundo Fleury e Fleuryquanto ao status do possuidor do conhecimento, ele já é (1995, p.19), “é um processo de mudança, resultante dereconhecido a partir do momento em que esse passa a ser prática ou experiência anterior, que pode vir ou não aintegrante da rede. manifestar- se em uma mudança perceptível de comportamento”.Portanto, entre as estratégias a que as redes sociais podemrecorrer para se fortalecerem, está o compartilhamento O aprendizado em uma organização significa entender,da informação e do conhecimento. compreender e aprender com o passado e discuti-lo, com a finalidade de orientar as ações futuras. A idéia é difundirPorém, se conhecimento e informação, conforme salienta um conjunto de iniciativas, de técnicas e de formas novasFigueiredo (2002), representam poder, reportando-se ao de comunicação que permita à organização, ao entenderprimeiro conceito, por que alguém compartilharia o que o passado, antecipar o futuro. É importante salientarmossabe? que esse é um processo que deve ser construído a longoTonet (2004, p.1) responde a essa questão, quando afirma: prazo. A realidade vem mostrando às organizações a A aprendizagem organizacional tem como objetivo necessidade de criar e reter o conhecimento [...] para principal resultar em inovação, na qual as pessoas o cumprimento dos propósitos organizacionais; e aprimoram continuamente suas capacidades, também, necessidade de estimular colaboradores e trabalhando juntas na investigação ou em assuntos de parceiros a compartilharem o conhecimento que maior complexidade, visando a conscientizar-se para possuem e que as organizações precisam para profundas modificações pessoais, em que possam apresentar bom desempenho organizacional. questionar constantemente seus modelos mentais e criar ambientes seguros para que outras pessoas façam o mesmo.Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005 99
  8. 8. Maria Inês Tomaél / Adriana Rosecler Alcará / Ivone Guerreiro Di ChiaraAs organizações que cultivam a aprendizagem b) domínio pessoal – autoconhecimento: expandir aorganizacional são também denominadas organizações capacidade pessoal para criar os resultados que se desejamque aprendem ou organizações de aprendizagem, que, e, conseqüentemente, a consciência do que as pessoassegundo Garvin (1993), são organizações com querem objetivando seus esforços;habilidades para criar, adquirir, transferir conhecimentose modificar comportamentos, refletindo o novo c) modelos mentais: refletir, esclarecer continuamente e melhorar a imagem que cada um tem do mundo, a fim deconhecimento e o novo insight. Segundo o autor, as verificar como moldar atos e decisões;organizações de aprendizagem possuem habilidades emcinco principais atividades: resolução sistemática de d) objetivo comum: ter a capacidade de transmitir aosproblemas, experimentação de novas abordagens, outros a imagem do futuro que se pretende criar.aprendizado com base na própria experiência e história Transformar um objetivo individual em um objetivopassada, aprendizado por meio de experiências e melhores comum;práticas de outros e a transferência do conhecimento deforma rápida e eficiente por toda a organização. e) aprendizagem em equipe: elaborar uma lógica comum, para que possam confiavelmente desenvolver inteligênciaAs organizações de aprendizagem são para Esteves (2002, e capacidade de forma que o resultado das habilidadesp.10) “organizações que têm dentro de si o embrião da grupais seja maior e mais significativo que a somatóriaaprendizagem e da inovação”. A organização que aprende dos talentos individuais.é aquela que aprende em conjunto, que lapida e extrai oque o indivíduo tem de melhor, para ser compartilhado e As organizações orientadas para o aprendizado, paracomunicado entre os demais indivíduos do grupo, Balceiro (2004, p.5), também adotam algumas práticasconcorrendo para que a organização se torne reflexiva e diferenciadas como:indagadora. Cultivar uma visão integral das coisas que as fazemPara Senge (1995b, p.334), este tipo de organização que funcionar, daquilo que faz uma determinada mudançaaprende tem algumas características diferenciais em suas fixar-se e de como diagnosticar necessidades e projetarequipes de trabalho. novas ações para um aprendizado eficaz. Além disso, estas organizações estão constantemente preocupadas Para uma equipe que pratique esta disciplina, é útil em realizar programas de treinamento, capacitação e ter uma razão para falar e aprender uma situação que aperfeiçoamento de seus funcionários, a fim de obrigue a deliberação, uma necessidade de solucionar aumentar a sua capacidade de mudar. um problema, o desejo coletivo de criar algo novo, ou um impulso para promover novos relacionamentos Uma organização voltada para o aprendizado não se com outras partes da organização. Esta primeira pre- constrói em curto prazo, por isso devemos conduzi-la ocupação torna-se-á o ‘campo da prática’ preliminar cuidadosamente para mentalidade que favoreça ambiente para o desenvolvimento da equipe. À medida que de contínuo desenvolvimento e compromisso com o adquirir confiança, a equipe avança para considerar aprendizado. outras questões. O conhecimento e o aprendizado interativos sãoAlém do engajamento das pessoas com o fim de solucio- elementos que formam a base fundamental,nar problemas, do desejo coletivo de criar algo novo e do configurando-se como a melhor forma para indivíduos,impulso para promover novos relacionamentos com ou- empresas, regiões e países se adaptarem às intensastras partes da organização, é necessário incorporar na mudanças no mercado, bem como intensificarem aorganização as cinco disciplinas de Senge. geração de inovações.Essas disciplinas, a que se refere Senge (1995a, p.17), são Lastres e Ferraz (1999) ressaltam que é necessária umaum conjunto de práticas de aprendizagem por meio das “simbiose” entre os processos de aprendizagem e dequais as pessoas se modificam, adquirindo novas habili- conhecimento, pois o aprendizado possibilita adades, conhecimentos, experiências e níveis de consci- acumulação de conhecimentos, os quais irão sustentarência. São explicitadas, a seguir, as cinco disciplinas: teoricamente os avanços científicos, técnicos e organizacionais que resultarão em inovações.a) raciocínio sistêmico: criar uma forma de analisar e umalinguagem para descrever e compreender as forças e inter- A aprendizagem organizacional impulsiona a inovação.relações que moldem o comportamento dos sistemas; Lemos (1999) enfatiza que o processo de inovação é um100 Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005
  9. 9. Das redes sociais à inovaçãoprocesso de aprendizado interativo, requerendo intensas Ainda com relação ao conceito de inovação tecnológica,relações entre diferentes agentes. Essas relações, que são Barbieri (1997) a entende como um processoconfiguradas como redes, devem ocorrer com os agentes desenvolvido por uma organização que visa a introduzirinternos da organização (indivíduos que atuam nos no mercado produtos e processos incorporadores dediferentes setores) e, especialmente, com os agentes novas soluções técnicas, funcionais ou estéticas. Se essasexternos, tais como instituições de pesquisas e soluções são completamente novas, ou seja, se ainda nãouniversidades, agências governamentais de fomento e foram disseminadas por outras organizações, esse tipo definanciamento, associações empresariais, organizações inovação pode ser considerado como inovação pioneiranão-governamentais, entre outras. A capacidade de as (novidades absolutas). Ao passo que, se essas soluções jáorganizações se inserirem nessas redes e nesse novo foram utilizadas por outras organizações, a inovação écontexto está totalmente atrelada ao investimento da considerada relativa (novidades relativas).capacitação dos indivíduos, que são os responsáveis pelageração de conhecimentos e inovações. A inovação tecnológica é um processo complexo que envolve várias fases, desde a idéia inicial, originada aBarbieri (1997) evidencia que, dependendo da área de partir de um problema ou uma oportunidade de negócio,estudo, o termo inovação apresenta diferentes até o desenvolvimento do produto ou processo e seusignificados. Na área mercadológica, a inovação é lançamento no mercado.considerada qualquer modificação percebida pelo usuário,mesmo não ocorrendo alteração física do produto. Na Referindo-se às noções lineares sobre o processoárea produtiva, a inovação é a introdução de novidades inovativo, Lemos (1999) ressalta que hoje a ciência nãomaterializadas em produtos, processos e serviços, novos pode mais ser considerada a fonte absoluta de inovação,ou modificados. Outros enfoques relacionam a inovação bem como o mercado também não deve ser apontadoa idéias de alto risco, proporcionando elevados benefícios como o único elemento determinante para que ela ocorra.à organização, que a desenvolve, ou processos que Os diferentes aspectos da inovação a tornaram umproduzem fortes impactos econômicos à sociedade. processo complexo, interativo e não-linear. A interação é elemento fundamental para a inovação. A autora afirmaLemos (1999), seguindo a abordagem neo - que a organização não inova sozinha. Ela precisa de fontesschumpeteriana, salienta que os avanços resultantes de de informações e conhecimentos que podem estar dentroprocessos inovativos são fatores básicos na formação de ou fora da organização. Por isso, a inovação é um processopadrões de transformação da economia, bem como de interativo que ocorre com a contribuição de váriosseu desenvolvimento de longo prazo. agentes (econômicos e sociais). E essa interação pode acontecer entre os diferentes departamentos da própriaÉ importante destacarmos que a teoria de Joseph organização ou com outras organizações externas, como,Schumpeter configura-se como marco fundamental da por exemplo, universidades e instituições de pesquisas.discussão sobre a natureza e as características da inovação.Schumpeter enfocou a importância das inovações e dos Assim funcionam as redes sociais. Elas dependem daavanços tecnológicos no desenvolvimento das empresas interação de diversos atores – internos e externos àe da economia. Ele ressaltou que a inovação promove o organização – dispostos a compartilhar informações eciclo econômico (desenvolvimento econômico) e os experiências, visando ao aprendizado organizacional e,elementos crédito, capital, juro e lucro fazem parte desse conseqüentemente, contribuindo para a construção deprocesso (ALMEIDA, 1995; LEMOS, 1999). novos conhecimentos.A inovação tecnológica significa a introdução de Como complemento à idéia de Lemos (1999), Sáenz eprodutos, processos e serviços baseada em novas García Capote (2002) salientam que a inovação devetecnologias. Sáenz e García Capote (2002, p.69) ressaltam partir de uma combinação das necessidades sociais e dasque o “processo de inovação é a integração de demandas do mercado com os meios científicos econhecimentos novos e de outros existentes para criar tecnológicos. Apesar de evidenciar o âmbito de pesquisaprodutos, processos, sistemas ou serviços novos ou e desenvolvimento como imprescindível paramelhorados”. E a inovação tecnológica “é a primeira impulsionar as inovações, os autores não o consideramutilização – incluindo a comercialização nos casos em exclusivo. Ressaltam a importância de incluir ao processoque se aplica – de produtos, processos, sistemas ou inovativo atividades científicas, tecnológicas,serviços, novos ou melhorados”. produtivas, financeiras e comerciais.Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005 101
  10. 10. Maria Inês Tomaél / Adriana Rosecler Alcará / Ivone Guerreiro Di ChiaraAlém disso, os processos inovativos devem contemplar que oportuniza o desenvolvimento de inovações.o trabalho com “[...] redes formais e informais como o A literatura nos permite inferir que as redes sociais sãofator mais relevante para transferir conhecimento entre recursos importantes para a inovação, em virtude detodos os participantes”. Essa nova dinâmica de processo manterem canais e fluxos de informação em que ade inovação produz resultados a curto e longo prazos, confiança e o respeito entre atores os aproximam e osbem como “[...] induzem padrões de inovação e difusão, levam ao compartilhamento de informações que incideincluindo a criação de novos grupos interdisciplinares” no conhecimento detido por eles, modificando-o ou(SÁENZ; GARCÍA CAPOTE, 2002, p.84). ampliando-o.Analisando-se a inovação de uma forma sistêmica, é As interações, que movimentam as redes, sãoimportante enfatizar a transferência e difusão de idéias, representadas por relações sociais, econômicas, dehabilidades, conhecimentos e informações. “Os canais e trabalho, etc., que, essencialmente, possibilitam oas redes através dos quais essas informações circulam compartilhamento de informação e de conhecimento.estão inseridos em um contexto social, político e cultural. Dependendo dos interesses que movimentam asEles são fortemente guiados e restringidos pela estrutura interações na rede, esta pode ser seccionada em gruposinstitucional” (MANUAL DE OSLO, 2004, p.35). que geralmente são profícuos para a própria rede, isto por mobilizarem atores que estejam envolvidos com umaDe acordo com o Manual de Oslo (2004), vários fatores temática específica. Favorecem, igualmente, ligaçõeshumanos, sociais e culturais são identificados como entre atores com o poder de direcionar os fluxos decruciais para que o processo de inovação ocorra informação a indivíduos que partilham de interesseseficazmente dentro das organizações. Esses fatores comuns, proporcionando maiores condições para ainfluenciam diretamente no aprendizado organizacional inovação.e referem-se à facilidade de comunicação interna, àsinterações informais, à cooperação e aos canais de O direcionamento dos fluxos de informação podetransmissão de informações e habilidades entre as fortalecer e delinear uma rede, propiciando sinergia àsorganizações e dentro de cada uma individualmente. funções nela desdobradas. A informação, ferramentaPortanto, a capacidade inovadora de uma organização estratégica essencial nas organizações, mobiliza as redesdepende de seu aprendizado, isso é, da difusão do e as torna um vetor estratégico importante e contumaz.conhecimento a uma larga gama de indivíduos dentro daorganização. A necessidade de informação é imanente ao indivíduo e às organizações. O caminho natural para buscá-la é o dasRessaltando a importância das redes no contexto atual redes, especialmente por meio dos nossos pares com quemdas organizações, Lemos (1999, p.135) afirma que a mais compartilhamos. Mediante o uso da informação, oformação de redes é o “formato organizacional mais estado existente modifica- se, expandindo oadequado para promover o aprendizado intensivo para a conhecimento que vai fortalecer o fluxo da informação egeração de conhecimento e inovações”. respaldar os processos individuais e coletivos.Nesse sentido, Van Aken e Weggeman (2000) destacam Para que seja mais eficiente, o compartilhamento daque as redes são mecanismos imprescindíveis para informação e do conhecimento em rede requer a adoçãootimizar os recursos organizacionais, para aumentar a de uma postura de cooperação, em que os atores utilizemcapacidade tecnológica na geração de inovações e para a múltiplos recursos, valorizando tanto o contato pessoalabsorção de know-how. Complementando essa idéia, quanto o uso da tecnologia como ferramenta deAustin, apud Schlemm e Souza (2004), afirma que a comunicação que culmine no aprendizado.constituição de redes, em seus diferentes níveis eaplicações, flexibiliza as relações entre as pessoas, A aprendizagem é promovida pelo compartilhamento epotencializando o compartilhamento de informação o uso da informação, os quais, como resultado,entre as organizações e os indivíduos e, conseqüen- possibilitam novos aportes, entre eles os maistemente, contribuindo para a geração de conhecimento significativos são os novos conhecimentos e as novase inovação tecnológica. habilidades. As redes que constituem espaços em que o compartilhamento da informação e do conhecimento éREFLEXÕES FINAIS proficiente e natural são espaços também de aprendizagem e, assim, tornam-se um ambiente para oAs redes sociais influenciam tanto a difusão de inovações desenvolvimento e para a inovação.quanto a propagação da informação e do conhecimento102 Ci. Inf., Brasília, v. 34, n. 2, p. 93-104, maio/ago. 2005
  11. 11. Das redes sociais à inovaçãoAs interações entre pessoas, entre organizações e entre DAVENPORT, Thomas H. Saving it’s soul: human- centered information management. Harvard Business Review, v. 72, n. 2, p. 119-os elementos humanos sociais e culturais interferem 131, Mar./Apr. 1994.diretamente nos processos inovativos, e são essas DAVENPORT, Thomas H.; PRUSAK, Laurence. Conhecimentointerações que permitem e acirram a aprendizagem empresarial: como as organizações gerenciam o seu capital intelectual.organizacional, fortalecendo as relações e os benefícios 6. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1998.advindos delas. DIXON, Nancy. Common knowledge: how companies thrive by sharing what they know. Harvard: Harvard Business School Press, 2000.As organizações são formadas por pessoas que, por sua DODDS, Peter Sheridan; MUHAMAD, Roby; WATTS, Duncan J.vez, são pontos (nós) das redes sociais e detentoras do An experimental study of search in global social networks. 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