1
SapecaMisto de sapo e perereca
Nº 6 – Nov/2014 - Editor: Tonico Soares
____ ____
Musa do semestre: Elza Martinelli,
fan...
2
Hino do
Estudante
Brasileiro
Estudante do Brasil,
tua missão é a maior missão:
batalhar pela verdade,
impor a tua geraçã...
3
Copa
em
Copa
cabana
Jogando bola, meu pai quebrou um pé e não incutiu nos filhos o fana-
tismo pelo ‘rude esporte bretão...
4
lo. Copacabana era um cemitério, sem vivalma nas ruas. Mais algum interesse
naquela outra lavada levada em cima de nós p...
5
gora tem que colocar o coração na ponta da chuteira. É preciso ficar claro
que se a bola não entrar, não é gol. O jogo s...
6
Mauro, Frank & Jobim
Mauro tinha copo exclusivo
num bar e bebia até ter saudade dos
LPs de Cauby Peixoto/Ângela Maria,
a...
7
Acima, pintura de Debret; abaixo, foto anônima. Dois enfoques de uma mes-
ma realidade: a escravização do índio. O que i...
8
Análise de grupo  Frequentei dois,
depois fiz individual e me dei alta, o
que Woody Allen ainda tá tentando,
há uns 40 ...
9
HOTEL MINAS
Gente-hóspede da memória
Pobre Brasil I – A TV chegou a
Ktá cerca de 1960. Ventilador, lá
por 1905, com a el...
10
Passeio Público, RJ, o século XX mal
começando ejáprometendo SEXO. Na es-
quina, o Largo da Lapa se ofertava a to-
dos...
11
Francisco Marcelo Cabral
Eu soube que acharam retrato inédi-
to de Rimbaud e o enviei pro Cabral,
que louvou. Tempos de...
12
Resposta de Adônis
A luz do sol
– eis o que deixo de mais belo:
depois as nítidas estrelas
e o rosto da lua,
as melanci...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Sapeca 6

422 visualizações

Publicada em

Misto de sapo e perereca

Publicada em: Arte e fotografia
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
422
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
116
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
1
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Sapeca 6

  1. 1. 1 SapecaMisto de sapo e perereca Nº 6 – Nov/2014 - Editor: Tonico Soares ____ ____ Musa do semestre: Elza Martinelli, fantasiada de mulher-chafariz. Dançou! Elza trabalhou com grandes ci- neastas: Howard Hawks (Hatari!), Orson Welles (O processo) e ficou mais conhecida pelo seu lado mun- dano – há também as que se desta- cam pelo bundano. Desde 1964, tornou-se habitué do carnaval cari- oca e na última vez foi hóspede, em Copacabana, do elegante Paulo Fer- nando Marcondes Ferraz, que lhe ofereceu uma festa. Mas eis porém que de repente levou Luíza Brunet e outras pro quarto, a fim de vender roupas de grife. Deu uma de saco- leira. Ferraz (ferro na boneca) a convidou a arrumar suas malas e dar o fora: ‘Bazar, na minha casa, jamais vou permitir!’. Gosto de bar- raco de rico, pois o pobre já vive nele, ‘cada um por si e deus contra todos’, ironizava Macunaíma.
  2. 2. 2 Hino do Estudante Brasileiro Estudante do Brasil, tua missão é a maior missão: batalhar pela verdade, impor a tua geração. Marchar, marchar para a frente, lutar incessantemente, a vida iluminar, ideias avançar. E assim tornar bem maior, com todo ardor juvenil, a raça, o ouro, o esplendor do nosso imenso Brasil. Letra: P. Barbosa e A. Taranto Música: Raul Roulien (este foi galã de Hollywood) Fuço-refuço o Google, em busca de raridades e do tempo perdido. Numa dessas, achei esse hino (com Inezita Barroso e banda militar) do tempo em que ‘o lema da nos- sa escola é a lambreta e a Coca- Cola...’, paródia do Hino do Solda- do, ensinada pela bela babá de fa- mília de Copacabana, de férias em Laranjal. Das paródias, claro, nóis gostava mais. Em tempo: Copaca- bana era o sonho de dez entre dez brasileiros e aí vão duas fotos de deixar a mocidade louca, naqueles anos cinquenta. Mire, veja. As garotas sonhariam com baile de formatura no Copacabana Palace... ...já os rapazes dariam preferência à praia, por razões óbvias. 
  3. 3. 3 Copa em Copa cabana Jogando bola, meu pai quebrou um pé e não incutiu nos filhos o fana- tismo pelo ‘rude esporte bretão’, como se dizia. Ouvíamos as transmissões de Ary Barroso e ficava nisso. Causa de que naquele ‘Pequeno rincão de Deus’ (título de um filme da época) só assisti a um joguinho, na fazenda do João de Barro. E um melhorzinho, no distrito da Glória, em que teve coroação da rai- nha, a Irene da Loló. A gente gostava da bola de borracha, contudo, nada comparável a um banho de rio, perigoso (jacaré no pedaço), mas puro gozo. Na Copa de 1958 (Suécia), ‘você vai ver como é Didi, Garrincha e Pe- lé’, que rendeu ‘a taça do mundo é nossa, com o brasileiro não há quem pos- sa’, me liguei mais, sem ver naquilo um gênero de primeira necessidade. E mais ainda na de 62 (Chile), até porque Pelé se machucou e saiu de cena, mas a equipe era superior e o bicho pegou, pros adversários. Teve também o tem- pestuoso romance Garrincha-Elza Soares, ele, pai e ela, mãe de família. Tem- pestuoso, pelo falso moralismo desencadeado pela imprensa. A de 66, na Inglaterra, foi um fiasco, e não me interessei. Sobre a de 70, no México, um cara me falou que viu há pouco Gerson na TV elogiando a in- teligência de Tostão. Ele pensava o jogo e buscava soluções, tipo naquela pe- leja contra a Inglaterra. Sentindo que, do jeito que estava, não sairia gol, falou pra Pelé: ‘Eu vou caçar um pênalti’. E encarou três ingleses. Pelé deu sinal pra Jairzinho, que correu atrás e, na primeira brecha, salvou a pátria. Eu já morava no Rio e fui festejar com Alzira Gomes Rosa, na Avenida Atlântica. No dia D, estava trabalhando de fiscal num cinema de Ipanema (vazio) e não deu pra acompanhar a partida. Dia seguinte, depois da última sessão, num baita engarrafamento, de dentro do ônibus que me levava pra casa eu aplaudi o time todo, com Carlos Alberto exibindo a taça Jules Rimet na sacada do Hotel Plaza, na Princesa Isabel. Foi bom demais e a taça, revi na sede da CBF, enfim, nossa, até ser surrupiada por um amigo do alheio. De 74/78, nem me lembro e na de 82 (Espanha), depois daquele banho fenomenal que levamos de Paolo Rossi, fui tomar o meu e saí pra cortar cabe-
  4. 4. 4 lo. Copacabana era um cemitério, sem vivalma nas ruas. Mais algum interesse naquela outra lavada levada em cima de nós pelo Zidane (França, 1998) e, agora, porque é no Brasil. Sobre a estreia, Carlos Heitor Cony disse que só não foi pior que o show de abertura. Show que deveria ser encomendado a um carnavalesco, sugeriu outro jornalista. E outro, a respeito de vaias, lembrou uma vez em que Juscelino Kubitscheck foi alvo e reagiu à altura: ‘Feliz o país que pode vaiar o seu presidente!’. E as vaias viraram aplausos. Político tem que ter jogo de cintura, que nem Tostão. Curti bem a da Itália, em 86, não os jogos, mas a cobertura paralela da TV Manchete. Entre outras, uns filmetes sobre as cidades-sede. Bertolucci filmou Milão, Lina Wertmüller, Nápoles e do resto só me lembro da Roma vista por Antonioni. Já usando computador, mostrou aquela cidade sem o agi- to de gente e carros, completamente vazia, beleza pura. Idem, Sophia Loren, entrevistada por Falcão. Na final, deu Alemanha e o pessoal foi dormir cedo, embalado pelo uísque e o violão de Toquinho que, por espírito esportivo, em homenagem à campeã, solou ‘Jesus, alegria dos homens’, do alemão Bach. Pra manter o nível, lembro que L. F. Verissimo chamou de era dos deu- ses aquela de 58/62/70; depois, a dos heróis (Zico e companhia); agora, a dos mortais. O baixo nível rola por conta dos comentaristas, assunto pra outro dia. Sem équiça, Brasil! Já no primeiro jogo, Pelé deu o toque: ‘Falta craque nessa seleção’. Também faltaram comentaristas civilizados e, de cara, não vi com bons olhos aqueles ternos azul-marinho e camisas num tom azul mais claro que usaram na Copa: lembravam carregadores de malas, em hotéis de segunda classe. Dentro de um dos ternos, Ronaldo parecia uma estátua da Ilha de Pás- coa e, quando falava, movia-se de um jeito mecânico, feito aqueles bonecos gigantes do carnaval de Olinda. E mais: meus ouvidos padecem com a voz de Galvão Bueno, voz do tipo pastor suburbano que fica milionário, não bastasse soltar abobrinhas dignas do cara que escreveu ‘équiça’, na foto acima. E descobri boas buenadas, não só da última Copa. Aí vão algumas: ‘Bem, amigos da Rede Globo, estamos aqui em Buenos Aires, no Equador. Vai ser o primeiro torneio oficialmente oficializado pela Fifa. O Brasil vai meio mal no jogo, mas está jogando pra fazer gol. Foi pro chão e caiu. A-
  5. 5. 5 gora tem que colocar o coração na ponta da chuteira. É preciso ficar claro que se a bola não entrar, não é gol. O jogo só acaba quando termina’. Já suas gafes não acabam nem terminam, vem mais aí: ‘Não dá pra fazer dois gols ao mesmo tempo. O Santos perdeu daqui a pouco na Arena da Baixada. Adriano e Sorin vão na mesma bola. O Adriano está correndo o campo todo, parece um leão enjaulado. Chutou com a perna que não era a dele. Quando eu falar Rodrigo, entendam Roger. Gon-zales tem idade pra ser o pai do Robinho: está com 32 anos e o Robi- nho tem 21. O Brasil correu o risco de sofrer novamente o segundo gol. Amigos, aqui não está só chovendo, está caindo água! E depois do jogo, assistam a mais um capítulo inédito de Vale a Pena Ver de Novo’. Já houve vida inteligente entre comentaristas de TV, vide João Saldanha – deixou saudade. Agora, tem que baixar o nível, pra subir a audiência, como faz a Record. E a Globo não faz mió, galvanizando a programação. Sobre ga- fes, tem aquela do cara que, perguntado o que achava do jogo, respondeu que não era propriamente um jogo, sim, uma pelada, ‘mas, temos que admitir, uma senhora pelada’. Dizem que foi na Rádio Cataguases, nos anos 60. E pela dona Alemanha o Brasil foi chutado da Copa em questão, ficando em companhia das também campeãs Itália, Inglaterra, França e Espanha. Acontece. O que desacontece, além da impunidade, concentração de renda (salário mínimo na Suíça é de dez mil dólares) é o Brasil não encarar de frente certos problemas, como o da educação. Povo educado não aceita disparares de locu- tores, tem mais saúde, produz mais, assalta e assassina menos, provoca menos acidentes, em suma, dá menos prejuízo ao erário, o que não é levado em conta. E sabe escrever a palavra hexa, sem dar vexame. Soletrando: H... E... X... A. (Textos sobre a Copa publicados no jornal Atual, do xará-camarada Antônio Trajano) All you need is Love, Love, Love is all you need. (Lennon & MacCartney)
  6. 6. 6 Mauro, Frank & Jobim Mauro tinha copo exclusivo num bar e bebia até ter saudade dos LPs de Cauby Peixoto/Ângela Maria, ao som dos quais adormecia. No ba- tente,atente só, pra essa tirada dele: – Cruzeiro, Atlético, tudo time de roça. Mas, se vocês falarem do Fla- mengo, aí a gente pode conversar. De outra, soube que alguém o havia procurado e saiu-se comessa: – É o Frank Sinatra? – Não, é o Osmar Ramos. – Então, não é ninguém, pô! Deu uma de Tom Jobim, se es- te fosse dado a bravatas. Ao contrá- rio, era humilde, preferindo piar pas- sarinho no Jardim Botânico a ouvir jornalista bajular pela enésima vez o autor da segunda música mais tocada no mundo: Garota de Ipanema; a primeira, Yesterday, dos Beatles. Uma noite, num bar, foi cha- mado ao telefone. Era Sinatra, pro- pondo gravarem um LP que se cha- mou Francis Albert Sinatra and An- tônio Carlos Jobim. Depois, mais um. E lá se foi Tom, prum rancho, num deserto. Os ensaios nunca co- meçavam, um frio lascado e Frank se desculpando. Certa manhã, não com- pareceu ao breakfast e o mordomo in- formou que ‘teve insônia e acordou o piloto, pra ir jogar em Las Vegas’. A simplicidade de Tom era tal que, outra noite, voltando pra casa com um estojo, viu músicos do morro num boteco, levando um samba. Pe- diu uma dose, abriu o estojo, tirou a flauta e entrou na roda. Convidado a entrarpro grupo, respondeu: – Não dá, eu toco isso só por esporte e a patroa é muito ciumenta. Os caras não imaginavam, por exemplo, que numa ida a Nova Ior- que pra temporada no Carneggie Hall, depois de Japão e Europa, Tom sou- be que seu amigo se apresentava lá e foi ver. Não tinha mais ingresso, mas o motorista de Sinatra o reconheceu e daí a pouco refletores o apontaram na plateia, saudado por Frank como ‘the great brazilian composer Antônio Carlos Jobim’. E tome aplausos.
  7. 7. 7 Acima, pintura de Debret; abaixo, foto anônima. Dois enfoques de uma mes- ma realidade: a escravização do índio. O que intriga é a imagem romântica que o europeu divulgava de nóis, a justificar sua presença aqui, o que a fo- tografia desmente. Parece livro do romancista romântico José de Alencar (nosso Debret literário), tudo enfeitadinho. A realidade é mais Lima Barreto.
  8. 8. 8 Análise de grupo  Frequentei dois, depois fiz individual e me dei alta, o que Woody Allen ainda tá tentando, há uns 40 anos. Primeiro, um grupo mais jovem, maioria estudantes de psicologia (o tratamento psicanalí- tico faz parte do currículo). Jovens normais demais, único fato relevan- te: dos cinco casais, três se tornaram amantes, dois deles ‘pulando a cer- ca’. Pelo viés da psicanálise, atitude correta, numa de desreprimir o dese- jo,desdeque este sejasaudável. O segundo foi mais divertido, tipo uma professora dizer que cedeu à atração que sentia por um amigo e este disse entender a situação dela, casada com um bissexual, conduta que ela desconheceu ao longo de mais de vinte anos de convívio (e ele levando vida dupla, com outro). ‘Meu mundo caiu’, ela desabafou e só então se tocou quanto à prefe- rência dele pelo derrière, que con- fessou repudiar, mas se submetia, por amor. Separou-se e na época namorava um mais idoso. Depois a encontrei e falou que iria lecionar em universidade da Bélgica: ‘Co- meçar vida nova, fazer o quê?’. Outra tinha problemas de re- lacionamento com a filha, por esta ser demais liberada, e procurou na a- nálise um meio de liberar-se a si mesma, reconsiderando velhos e inú- teis preconceitos. Já outra, bióloga, bem casada, estava ficando cega e não engravidava, pensando que fos- se de origempsicossomática. Porém, um oftalmologista detectou uma do- ença tão rara que conseguiu cirurgia emBarcelona, via INPS. O marido a acompanhou e foram à Grécia, ela, já capaz de enxergar toda aquela beleza. E voltou grávida. A mais divertida tinha com- plexo de bela da tarde, hora em que saía pra conhecer outros homens, feito no filme de Buñuel, prato feito pra Nelson Rodrigues, sentindo-se culpada e infeliz. Sempre dizia que era americana e o médico emendava: ‘De Porto Rico’. Quem viu o filme The West Side Story sabe o que ele queria dizer: portorriquenho tem ci- dadaniaianque,pero no mucho. E quem mais fazia rir era um Zé e sua tara de tirar sarro com mu- lheres em ônibus ou trens lotados. Vi isso em Recife e a ‘vítima’ teve um ataque de riso, sinal de que es- tava gostando. E perguntado se pre- feria as mais moças ou as mais ve- lhas, Zé respondeu, com seu jeito suburbano: ‘As mais velha é mais sem-vergonha’. Risada geral. A análise ajuda a pessoa a se enxergar do tamanho que ela é, sem bovarismos do tipo querer conferir a Porto Rico status de Estados Uni- dos. E reforça as defesas do indiví- duo pra não se estrepar, por exem- plo, numa paixão de mão única.
  9. 9. 9 HOTEL MINAS Gente-hóspede da memória Pobre Brasil I – A TV chegou a Ktá cerca de 1960. Ventilador, lá por 1905, com a eletricidade. Po- rém, 60 anos depois, uma senhora muito pobre que morava no Tirol (não o da Áustria, cujo traje típico inspirou a fantasia de tirolesa, mas entre Santana e Laranjal) entrou numa loja onde hoje é o Bazar Lei- tão. Seu sobrenome, Fritz, pode in- dicar que austríacos tenham coloni- zado aquela área. Vale lembrar que aqui viveram os Murgel, sócios da fábrica velha. Pois bem: com a in- genuidade peculiar ao meio rural, ela viu lá um ventilador giratório (180°) e ficou acompanhando com os olhos o movimento do bicho, pra lá e pra cá, até que perguntou: – Num seno da minha conta, isso é que é a tar de televisão?  Pobre Brasil II – Todos gostavam de seo Tão, que madrugava no tra- balho pra servir café ao primeiro que chegasse, sempre vestindo seu paletó branco, de garçom. Quem mais gostava, pra valer, eram os ha- bitantes de um aquário, à entrada, que se aproximavam do vidro da frentetodavezque aquele paletó por ali passava. Razão: seo Tão lhes dava a ração de cada dia. A própria, levava de casa, numa marmita, e um dia um colega comentou: – Passando bem, hein, Seo Tão! – Nada. A gente vai comendo isso e pensando num pernil, numa farofa, numa azeitona...  Tobias Mendes comunica que tá que tá, ou seja, vivo e entornando todas, pelos bares da vida, retornando já, já ao noticiário com suas memórias etí- licas em livro.Livro livre, leve e solto, perfeito e permanente manual da su- pérflua mas essencial arte de esvaziar copos e garrafas. Ao lado, flagrante do insigne biriteiro tentando extrair a última dose dupla, pois utiliza duas garrafas, missão impossível, entretan- to, ele não desiste. Evoé, Tobias! Cena do filme Farrapo humano, sobre um pinguço
  10. 10. 10 Passeio Público, RJ, o século XX mal começando ejáprometendo SEXO. Na es- quina, o Largo da Lapa se ofertava a to- dos os gostos e bolsos. Corta pros anos 50:no Colégio Pedro II, professor falou so- bre a influência francesa no Rio e, na pro- va, pediu exemplos. Amigo meu citou vá- rios, incluindo a tradição francesa e pola- ca do trottoir por esquinas da Lapa. Nota zero. Fosse o Manuel Bandeira, também professor de lá, poderia ser nota dez. Bas- ta lembrar que ele cedeu ao aluno Zuenir Ventura cópia de seu soneto intitulado A cópula. Nos tempos falsamente liberais em que vivemos, patrulhados pela onda do ‘politicamente correto’, o poeta pode- ria ser processado por falta de decoro. Di- ante dos fatos, leitor, vá procurar A cópu- la no Google, antes que seja proibida. • • • Festival de Música de Cataguases/1970. Identificados: Alfredo Condé e Ju- ca Fusco. Os outros, vi no palco, mas a má qualidade da foto não ajuda.
  11. 11. 11 Francisco Marcelo Cabral Eu soube que acharam retrato inédi- to de Rimbaud e o enviei pro Cabral, que louvou. Tempos depois, mandou o poema abaixo, pedindo preu identifi- car o autor. Passei o problema pr’Ál- varo (amigo que, no seu pouquíssimo tempo livre, vive a pesquisar poesia, quanto mais antiga, melhor). Resolvi- do: trata-se de Antônio Cícero. Mais um tempo e Cabral mandou tradução sua, do latim, de um poema de Catulo (perdi quando piratearam meu e-mail). Li, gostei e mandei pr’Álvaro que, no ato, respondeu com oito traduções de poemas catulianos. Cabral ficou en- cantado, contudo, não tive o prazer de apresentar um ao outro; Álvaro, com 25 anos de Inglaterra sob os pés, é amicíssimo de poucos amigos, um ca- ra diferente da gente, evito incomodá- lo. O poema em questão é ‘encantató- rio’, não muito me apraz, discípulo que sou do outro Cabral, o do verso áspero, faca só lâmina, mas é bonito e aí vai: TÂMIRIS Jamais poeta algum houve mais alto do que Tâmiris, o trácio, rival de Orfeu, cujo canto é capaz de dar saudade do que nunca nos foi dado salvo reflexo em verso de cristal. Se um mortal alcançasse ser feliz, tal seria Tâmiris: quem o vir deitado sobre a grama com o rapaz (digno, pela beleza, de dormir nos braços do próprio Apolo) que o ama e cujos cabelos Zéfiro afaga com dedos volúveis, há de convir comigo em que é assim, a menos que haja visto, no rio em que agora mergulham ou na relva que ao sol dourada ondula no antebraço do moço à beira d'água ou na ode em que essa manhã fulgura e foge para sempre, agora e aqui refolharem-se o passado, o porvir, o alhures: tantas trevas na medula da luz. Já Tâmiris quer possuir as Musas que o possuem. É seu fado desafiá-las e perder: insensato, esplêndido, cego, cheio de si. Antônio Cícero ••• O retrato de Rimbaud:
  12. 12. 12 Resposta de Adônis A luz do sol – eis o que deixo de mais belo: depois as nítidas estrelas e o rosto da lua, as melancias já maduras e as maçãs e as peras. Um rosto Ó tu que me olhas lindamente através da janela, virgem no rosto, embaixo esposa. Praxila de Sicião* (cerca de 451 a. C.) Trad: Péricles Eugênio da Silva Ramos *Admirada por suas canções de vi- nho, foi retratada em bronze. A tradi- ção fala do verso praxíleo, variedade do logaédico com três dáctilos antes da dipódia trocaica. Entendeu, leitor? Fui ao dicionário, ainda assim esse enigma não ficou claro. E isso é ape- nas um pequeno detalhe no mundo, mundo vasto mundo da poesia. Inspiração Foto do semestre Autor: Thomaz Farkas. O modelo, tive o prazer de conhecer: Zé Medeiros (fo- tógrafo de revistas e jornais, depois ci- nema – morreu homenageado num fes- tival na Itália). ‘Foto igual a essa eu também faço’, pode-se dizer, mas sem- pre um profissional faz antes da gente. Execução

×