Chicos 37

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e-zine literária de Cataguases

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Chicos 37

  1. 1. Chicos N. 37 Fevereiro 2013 e-zine de literatura e ideias de Cataguases – MGCapa Um dedo de prosa Esta é a edição número 37 de 28 de fevereiro de 2013. Devemos desculpas ao Cunha de Leiradella, na última edição cometemos um erro imperdoável. Erramos o título de sua colaboração, o correto é Memorial em tons de azul, quem não leu De Gabriel Franco sobre foto de Vicente Costa retorne ao blog e dê uma olhada em nosso número 36. Um dos jornalões paulistas publicou um inédito do JoãoEditoresEmerson Teixeira Cardoso Antônio, repartimos com vocês o conto.José Antonio Pereira Apresentamos Badr Shakir Al Sayyab um poeta iraquiano. Quem estreia por aqui é o artista plástico Sebastião NozzaColaboradores desta edição Bielli Lotti, o SlottiAntônio Jaime Trazemos aos nossos leitores Ferréz, escritor paulistanoAntônio Perin que tem como matéria prima a periferia da nossa maior metrópole.Claudio SesínEmanuel Medeiros Como defendemos o ensino da língua espanhola em nossasFernando Abritta escolas, publicamos, em espanhol, a poesia de Claudio Sesín -Ferréz grande poeta e amigo - lá de Catamarca na Argentina.José VecchiRonaldo Cagiano Reaparecem também aqui Emanuel Medeiros e José VecchiRubens Shirassu Jr.Sebastião Nozza Bielli Lotti A edição está recheada de boa prosa e ótima poesia.Fale conosco em:cataletras.chicos@gmail.com Uma boa leitura para todos.Visite-nos em:http://chicoscataletras.blogspot.com/ 1
  2. 2. Badr Shakir Al Sayyab Badr Shakir Al Sayyab nasceu em 25 de postura comunista e inspira vários de seus poemasdezembro de 1926 na aldeia de Jaykour (distrito de mais famosos.Abu Al Khasseb na província de Al Basrah) no sul do Seus poemas, A prostituta cega e Armas e crianças deIraque. Jaykour é a paixão da vida do poeta. 1926 é 1954, revelam o poeta maduro. Em 1960 publica: Ao ano em que fixam a fron-teira com a Turquia, perto canção da chuva onde apresenta poemas escritos desdeda queda e divisão do Império Turco entre os aliados 1952 e representa o melhor de sua obra poética. Noda Primeira Guerra. O Iraque é tutelado pelos início de 1961, viaja de Bagdá para Basra, onde seuingleses. terceiro filho nasce, ocasião em que a doença paralisaSua mãe morre durante o parto de uma irmã que sua perna esquerda. Em sua busca desesperada pornasce morta. O pai, casa-se novamente e deixa os uma cura começa uma longa jornada que se torna ofilhos com o avô. A poesia, surge em Basra, para seu calvário até a morte: viagens ao Kuwait, Bagdá,onde mudara com sua avó materna para cursar o Londres, Paris, tratamentos modernos e hospitais,ensino médio. Transfere-se para Bagdá em 1944, curandeiros, contatos com seitas religiosas...onde entra na Faculdade e frequenta o curso de Investigando todas possibilidades e sempre por trás,Língua e Literatura Árabe. Em Bagdá, desenvolveu sua poesia, testemunhando sua luta desesperada.duas qualidades de sua personalidade, que eram Suas últimas obras: do templo rebaixado (1962) e Avisíveis desde a sua infância e adolescência: sua Casa dos Escravos (1963) testemunham a sua morteideologia de compromisso social e a postura poética. lenta, dúvidas sobre a morte, sua incerteza em relaçãoFilia-se ao Partido Comunista do Iraque. Luta pela à vida. Deprimido e entregue ao seu destino, voltaretirada das tropas inglesas do Iraque e por uma para o Iraque em 1963. Agravada sua saúde, éresposta mundial aos assentamentos maciços de transferido para o Kuwait em 1964, morrendo em 24judeus na Palestina. Devido à sua atividade de dezembro de 1964. No dia seguinte é enterradorevolucionária é preso várias vezes até ser expulso em em Basra, no mesmo dia, publica-se sua última1946 da Faculdade. Readmitido mais tarde muda de obra As persianas da filha do Marquês , onde plasmaespecialidade e em 1948 forma-se em Inglês e com intensidade assustadora seu terror, seu vazio eLiteratura. Por razões políticas é obrigado a deixar o ansiedade. Agora, sua poesia é puro existencialismo.Iraque. O exílio, leva-o a pensar sua ideologia e 2
  3. 3. O poeta malditoa Charles Baudelaire Você, leva à luta tua espada enferrujada, agita-a na mão quase queimando o céu pelo teu sangue inflamado e iluminado querendo rasgar o ar. Reúne-se às mulheres a uma mulher cujos lábios são de sangue sobre o gelo seu corpo enganosamente ingênuo uma víbora caminhando, sobre almofadas no leito... Não queres abrir as clarabóias para que entre a luz, para não sentir o que é vida. O Oriente alça ante teus olhos os véus, quase abraças a beleza junto ao trono de Deus, quase a vês reluzir em uma nuvem de fragrância e luz. Vês o mamilo de um seio que acende as estrelas com seu rubor ... 3
  4. 4. Os efeitos que saemde uma tumba, arrasta a nuvem de fumaça,em sua sombra dorme um pobre fugitivoum príncipe cercado por jarros de bebidas e escravos,sua grandiosa morada em ruínasé uma das ilhas de coral,mar que purifica Lesbos com sal.Teu espírito o bebe do eco ao abismocomo Safo herdarás um fogo nas veias,mas não abraçará a ti e teu sono eternocomo quem abraça o seu espectro debruçado em uma janela.Fogo de Narciso! Tântalo e os frutos!Se diria que a indolente e lânguida África(seus caudalosos rios, os atabaques,suas densas florestas de sombras e chuvas,sua seca umidade... a lua)se envolvera com uma mulher que perdeu a honra,mamando dela veneno e chamase sobre ela pingarás tua estranha poção ... 4
  5. 5. Se diria que da nuvem de fumaça na noite te alçarás, entre um mundo que estendem o faiscar do ouro e um mundo de imaginação e pensamentos, de um muro de embriaguez, onde tua sombra aconchegara sem ferir a humanidade. Entrei pelo teu pecaminoso livro no jardim de sangue que arde com as flores, bebi o néctar de suas letras, seios de uma loba nas estepes, seu leite é fúria e sua sombra fecundidade. Submergi, nas ondas que me golpeavam atirando-me de uma márgem para outra margem. Levei do seu abismo a madrepérola do castigo Eu levo a ti. Estenda-me as mãos! Afaste as pedras e a terra!Basra, 24/03/1962 Versão de Antônio Perin 5
  6. 6. Janela de WafiqaA janela de Wafiqa na aldeiaébria, domina o espaçocomo a Galiléia espera caminhar,espera Jesus. Dispersa suas paisagens.Ícaro, roça o solcom penas de águia. Sente-se livre.Ícaro, pega-o, o horizonteo atira até as profundezas, à sepultura.Janela de Wafiqa, oh, árvore!Respirem na escuridão crepuscularos olhos que junto a ti esperam.Espreitam a flor da maçã,Buwayb é um hinoe o vento devolveas melodias da água sobre as folhas. 6
  7. 7. Wafiqa olha penalizadadas profundezas do túmulo e espera:passar o murmúrio do rioa sombra que ondula qual sinoa alvorada de uma festa,assoviar qual sopro nas sementes.O vento devolveas melodias da água. É a chuva.E o sol gargalha entre as folhas.És janela rindo no brilho?Ou porta que se abre na paredepara fugir pelas asas da fragrânciaum espírito que anseia pela luz?Oh rota para ascender ao coração!Imagens de amizade e amor!Caminho que sobe ao Senhor!Se não fosse por ti não viria da aldeia ofegante.No vento um perfumepelas ondas do rio nos arrulha e nos canta. 7
  8. 8. Ulisses se vai com as ondas, o vento lembra ilhas esquecidas: "Da velhice, vento, livrai-nos!" O mundo abre sua janela a partir desta janela azul torna-se uno, torna-se seus espinhos flores de perfume delicado. Uma janela como se estivesse no Líbano, Uma janela como se estivesse na Índia, sonhos de uma menina no Japão como Wafiqa sonho no sepulcro com raios verdes e trovões. A janela deWafiqa na aldeia ébria, domina o espaço como a Galileia sonha caminhar sonha com Jesus. Ardem suas paisagens. Wafiqa - Parente e companheira de brincadeiras do poeta em sua infância.Poemas de: O Templo Submergido 1962 Versão de Antônio Perin 8
  9. 9. Fernando Abritta O nó górdio (recortes) entre o ato e o fato Existe entre o ato e o fato existe entre o ato e o fato ex iste entre o ato eo fat existe o Eof entre o ato e o fato Existir
  10. 10. o relógio de ponto olhos arregalados que nada vêem coração dispara todos os músculos trabalham desordenados desesperado cérebro pergunta as horas soma tempo de viagem confere hora do coletivo diminui minutos do café confere roupas documentos braços se cansam dependurados corpo se choca a muitos outros com a freada ouvido tolera xingatório pernas correm pesadas mãos na alavanca Eodiado estrondodo ponto batidome acorda para menos um diade que me valemestas horasse minha filhaestá presa em uma escolaonde aprende a ficar sozinhasem chorarse meu filho chorano ouvido de quem nem conheçose minha mulher estica na feirameu saláriose o que aqui façonão consigo ter.
  11. 11. na fila conversa encurta tempo perdidoritmado pelo barulho do relógio de ponto na fila conversa comenta corpo doido enquanto espera a comida na mesa conversa ajuda engolir sem sentirarroz feito sem amor
  12. 12. suor derrete corpo em calor mão cola no papel. bravamente lá fora sol. olho resiste manhosamente pensamento pálpebras descem escorrega violento cérebro lápis reage ventilador pálpebras correm sopra olho ao trabalho. espirros. lá fora árvores refrescam uma rua vazia. lá fora céu azul termina em morros azuis e, certamente, a tarde vem um córrego o chefe passa quantas a brisa corre lá fora não existe. horas? refresca.por entre pedras lisas e lodosas. quantas dores? meia hora? esticar pernas quantas horas? a luz é sempre o corpo grudento a luz invariável devagar equilibra ideias. neste dia artificial. espichar braços vigilante. vinte minutos para a sua hora? quantas horas quantas horas? sorriso pálido para a liberdade? olhos vermelhos salgado de suor. olheiras.
  13. 13. tirei do trabalho a emoçãodo dia horas vendidasda vida o cansaçoe pude vero que me dóie quem me fere.o ferrãoe dente que me sangram.vivi noites e feriadose já me acostumaracom minhas mãose meu cérebro vendidos.entendi ausência de confortoe dinheiro curtoe me revoltei resignadoaté que facilidadede aumento extranegado,me pôs de novorugindo
  14. 14. CASA GRANDE:Não gosto desta casa paredes altas belas salasnão gosto me causa mal cansa faz doente lago + jardins + árvores e o peixe colorido em seu nado quadradoOprimeO peitOminha colunA.não.
  15. 15. [][ ] Quem pela senzala passa[ ] leva consigo marca[ ] que muito fala[ ] lava[ ] rala[ ] origem que não cala.[][ ] Se na casa grande,[ ] é mudo:[ ] impossível ao tom da sala;[ ] faminto:[ ] indomáveis garfo e faca;[ ] mãos e pés desajeitam,[ ] dançam num corte,[ ] recorte na corte,[ ] incapazes.[][ ] Se na cozinha resvala,[ ] inútil fala[ ] presença invisível[ ] pigarro e cala.[][ ] Quem pela senzala passa[ ] traz consigo chaga[ ] por mais que faça[ ] nada apaga.[][ ] Pra casa grande[ ] traz budum[ ] catinga[ ] desconfiança na sala.[][ ] Quem pela senzala[ ] passa[ ] é não confiável[ ] ao povo da sala.
  16. 16. Tamara Kamenszain Tamara Kamenszain nasceu em Buenos de amor y otros ensayos sobre poesía e La boca del testimonio.Aires, Argentina. É poeta e ensaísta. Seus livros foram traduzidos para o inglês, francês,Pertence, junto com Arturo Carrera e Nestor português e alemão.Perlongher, a geração de poetas dos anos setenta. É considerada uma das vozes que influenciaram asEntre seus livros de poesia estão De este lado del novas gerações de poetasMediterráneo, Los No, La Casa Grande, Vida de living, O poema Tango Bar foi traduzido por RonaldoTango Bar, Solos y solas e La novela de la poesía, os livros Cagianode ensaio El texto silencioso, La edad de la poesía, Historias
  17. 17. Tango Bar(...) A simpatia dele pelo diabo é o ninho de minha antipatia. Assusta-me e aborrece-me tudo o que está mal no bom sentido da palavra. Pecado, pecado seria então seguir a ele tão longe quando jura e perjura que estamos perto. Mamãe, papai, fui com este mauzinho crioulo e na cruz de seu poncho me dei por perdida. Será possível que em minha religião sozinha atrás de um homem Eu sempre sinta frio?
  18. 18. (...) Outra vez no bar das mulheres tomo o cálice do esquecimento “O tango é macho” cantam minhas amigas mas como o tango elas são musas tristes ou vêm como bonecas murchas. E a julgar por mim (tão esquecida de mim!) não sei se nós agora formamos uma orquestra de senhoritas ou se são eles os rapazes de antes os que agora tocam de ouvido nosso repertório enquanto nós antes de esgotar o copo já cantávamos mal. Tradução Ronaldo Cagiano
  19. 19. Claudio Sesín Claudio Luis Sesín nasceu em 9 de junho de El libro de los poemas casuales (2008) este em edição bilíngue1959 em Villa Dolores, Velle Viejo, cresceu e passou sua espanhol-portuguêsinfância em Pomán, província de Catamarca – Argentina. Palabras Sencillas (2010).Publicou entre outros: Foi colaborador da revista Ideas para uma cultura popular e La Barbárie (1993) integrou a redação do periódico cultural El Croponopio - doEl círculo de fuego (1997) Movimiento de Escritores por la Liberación – MEL. Cuaresma La hora que aquí es, no está en el tiempo. La brisa, esa mendiga de tan suaves gestos se parece a una idea ofreciendo cariño. Y al fin, es la memoria, la última armonía de una canción lejana perdiéndose en la noche de un carnaval estremecido.
  20. 20. CarnavalearteTomamos los suspiros de la nochea la hora que cumple su presenciay le ponemos luz para que enciendanuestra penetración a las tinieblas.Artistas trashumantes y traslúcidos,llegan al puerto casual de los sin rumbo.Hermosascomo novias corriendo en los pasillos,ebrias hembras felicesde túnicas livianas y cabelleras frescas,celebrarán las armonías y los acordesque sólo traen piel,de cuando el barro mezcla a sangre y fuego,ese argumento de eternidad y hombre.
  21. 21. Furtivas y cenizas, ligeras, insolentes,acuden a esta fiesta de torbellinas almas,las mismas locas locas, de cuando loca es santo,y redimen sus vidas, ahora celebradas.Aquí los laberintos son presurosas risas y suspiros.Aquí cruzamos los umbrales de cálidas maderas,y en aguas transparentes, blanca estrella,y en los cuerpos luciérnagas,y en los labios la sed que hace encender al cielo,y en el aire ese aromaque esparce y enrojece la idea del instinto.Siempre es feliz la piel lanzada en torbellinos,que abraza las cadencias y las libera,agua marina, almendra y chocolate,en el aire, en la lengua, en los amplios momentos,en los pequeños.
  22. 22. ¿Qué latitud aguardaesa dulzura turbia que precede al orgasmo?¿Qué humo se consume al pensamientoen un fulgor de gloria sin fracasos?Signos del cielo en invisibles trazas,sangre apretada al flujo y tremolar de los sentidos,canción urbana a nombre de un buen vino.Golpeamos los cinceles en las piedrasque un día rotarán al infinito.La mirada es de Dios sobre los cuerpos.
  23. 23. Mirar el MundoNuestro otoño es capazde enmudecer tejados, vertederos,las afueras del hombre,las extensiones puras y solemnes,en donde no podremos llegar a los secretossin mirar los insólitos, fugaces y lejanos,cómplices de belleza del mundo prometidopor las desposeídas constelaciones huérfanas. Agua en la brisaNi quebrado, ni caído. Solo.En el atardecer, soy árbolque descansa esperando las lluviasen tierras duras y de sol violento.He vuelto de mi amor por las desgracias.No hay remordimientos,el humo es ciudadano y sin creencias.Sigo esperando ese silencio amableque sin reproches cruzaré la niebla.
  24. 24. A Media VozSueña la noche un sol en la llanurapara que el miedo tenga precipicio,y cubra con el manto de lo limpioeste débil sostén de la cordura.Pero retumban furias y locuras,como un río entroncando sus crecientes,excitando las guerras de la mentepor los extraños campos de la luna.Por las nieblas del mundo emocionada,el alma se despide del pasado,y florece en mi suerte, a mi costado,esta canción de sombras y de brumas.Soy el que a media muerte fue tocadoy a media voz enciende la penumbra. Claudio Sesín Catamarca - AR
  25. 25. Emanuel Medeiros Emanuel Medeiros Vieira nasceu em da Fundação Pedroso Horta. Redator de discursosFlorianópolis, SC, em 1945. Formado em Direito parlamentares, foi membro do conselho editorial dopela UFRGS (1969), foi cineclubista, professor, jornal “Movimento”, e correspondente em SC docrítico de cinema, editor, vendedor de livros, semanário “Opinião”. É detentor de diversosjornalista e funcionário público. Ativo militante da prêmios literários nacionais. Tem 17 livrospolítica estudantil, foi dirigente do IEPES, embrião publicados. Homem diante do mar Homem diante do mar (instância interrogativa). Precária caravela. E finita: a vida Trapiche: o homem só contempla (desembarcado). No estatuto da memória: ele se interroga, nunca mais a ação. No porto: a rapariga rosada estendeu um lenço. Limo: foram-se a juventude, o trapiche, a rapariga, o lenço. (Mátria: sou apenas um homem diante do mar.) Desterro: instante convertido em sempre. O homem desembarcado só pode viver de memória: diante do mar.
  26. 26. Atlântico Imperfeitos,singraram o Atlântico,mãos ansiosas, mapeando novas terras,bússolas afetivas,acalentando sonhos distantes,peles queimadas,gosto de sal na boca(tanto mar, tanto mar),febre, malária, fibra e pranto.
  27. 27. Na cadeira de balanço –depositário da memória da tribo,contemplo a caravela de madeira, pai, mãe, tioviolinista,um agregado louco,penso no Atlântico,velas ao vento,astrolábios,à beira do poço do passado,que não passa nunca,imanente no presente.Mas proclamo – celebrante –“terra à vista, terra à vista”.(Alvíssaras!) Emanuel Medeiros Brasília - DF
  28. 28. Antônio Perin Antônio Perin nasceu em Cataguases, onde vive e escreve. Com suaItaobim, migrou para Cataguases, onde virou poesia, colabora e participa de nossasbaiano, viveu alguns anos no Rio, morou um publicações aqui no Chicos regularmente.bom tempo em São Paulo, e voltou a residir em O silêncio de meu pai As palavras que eu preciso estão entaladas na garganta de meu pai como sementes na cal elas não brotarão não são palavras escritas nunca vou ler foram confinadas na boleia do caminhão esquecidas pelas estradas algumas, talvez, depositadas no ventre de minha mãe sua maior paixão. Seria eu uma destas palavras?
  29. 29. A imortalidade do tecelão No caminho da tecelagem pedras queimavam os pés no tempo, que não sonhei. Entre anestésicos e dores vejo nas mesmas pedras arderem pés de fiandeiros rumo à mesma tecelagem. Em filas de corredores andei para os exames Na sala cirúrgica onde o escuro é todo branco vi, sem apelação um juiz de branco me condenar Neste negro mundo branco meu grito morre no silêncio o ar é puro mas é mecânico sopra de um tubo verde. Daqui te vejo no quintal pendurar minha imagem tecida no branco algodão branqueada na sanitária para o desbote final. Antônio Perin Cataguases MG
  30. 30. Ronaldo Cagiano Noite em CataguasesNoite em Cataguases.Da Ponte Velha a inscrição de Virgílio batizando o metal.Fachada desbotada da Casa Rama.Ancoradouro no areeiro da Rodoviária. Flamboyants.Da torre em forma de ogiva da Matriz de Santa RitaOs olhos da escuridão denunciamQue outros pecados implodirão o confessionário.Pouca gente sem pressa, tantos homens dissimulados.A algaravia nos trailers de cachorro quente: convulsão dos estômagos.Um motociclista calunia a cidade que dorme!Calmaria, meia-noite em ponto. O trem cargueiro deflora a insípida madrugada.Cataguases sem festa dos silêncios das ausências.Das imensas crateras na alma de seu povo.Que não enxerga, nunca, homiziado nos becos solitários,A tristeza hiperbólica dos operários imunes aos barcos que deslizam sobre o Pomba.Cataguases, senzala sem promessa: das ilhas dos espíritos desertos.E da feiura caótica e trevosa das enchentes Ronaldo Cagiano São Paulo - SP
  31. 31. Emerson Teixeira Cardoso Dois minicontos de mistério Boa noite estranho Abriu a porta subitamente com uma sensação tirou do bolso a lanterna e acionou o botão dade medo, pavor. Um olhar mais apurado o fez luz seguindo uma trilha em direção à lagoadistinguir de sua janela um reflexo qualquer na amarela, morada misteriosa do horrívellagoa: incrível! Onde já havia visto aquele monstro.rosto, pensou. Ato contínuo, fechou a janela. Mas que grande surpresa! Quando seA porta que já estava entreaberta fechou aproximou da lagoa não viu nada além do seutambém dando duas voltas na chave. próprio rosto que dentro da água se refletia e Já dentro do quarto apanhou o machado. dentro da noite escura também refletida naAgora, decidido a desvendar aquele mistério, água, a lua.
  32. 32. O cavaleiro da chuva Preparava-me para sair, quando campo de guerra. Eu levava a capa e o fatídicoouvi os tambores do tempo anunciando chuva. guarda-chuva o que me parecia o bastante paraImediatamente dei meia volta procurando encarar a fera que rugia e soltava vermelhasabrigo e armamento adequado para enfrentar o labaredas.inimigo terrível: a intempérie. Durante todo o tempo que durou a luta Armei-me de um capote, espécie de senti-me um verdadeiro cavaleiro medievalvestimenta larga e obsoleta, que além de com armadura e tudo. Levava a lança e oimpermeável cobria-me até os tornozelos – nos escudo para o duelo com o dragão líquido esapatos, providenciais galochas. Não dispensei gelado, que expelia golfadas gigantescas denem o último acessório de meu estranho água pelas narinasaparato, portentoso guarda-chuva. A batalha foi terrível: minha lança Assim devidamente equipado lancei-me à brilhava a cada explosão dos trovões e aoaventura. Devia buscar nos ares a face do reflexo dos raios. Repito: foi uma grandeterrível gigante – mas, ai de mim! O malvado peleja. O tempo parecia não ter fim, mas comonão aparecia. um Cavaleiro da Ordem do Rei fui o grande Largas passadas levou-me a adentrar o vencedor e o inimigo debandou soltandoprédio do cinema e ali durante toda a sessão de rugidos de dor.um filme tudo o que eu podia ver eram cortinas O céu apareceu estrelado. Olhei para ose agitando. O monstro lá fora rugindo, alto e dei um grito de vitória depois da lutarugindo. mortal que travei. Findo o evento restava-me cruelalternativa: permanecer ali no recinto ou sairpara enfrentar o adversário no seu próprio Emerson Teixeira Cardoso Cataguases –MG
  33. 33. João Antônio João Antônio Ferreira Filho, nascido em São no Brasil. O nome do conto é Um Dia no Cais,Paulo em 27 de janeiro de 1937, além de jornalista, é retratando o cotidiano dos trabalhadores do Porto deconsiderado um intérprete do submundo e um bom Santos. Ainda fez parte da equipe da revistamalandro da escrita e da literatura. Sua linguagem Manchete, trabalhou no O Pasquim e outros órgãosrápida, suas frases curtas, lhe deram o título de criação de imprensa que se opunham à ditadura militar.do conto reportagem. Suas obras retratam pessoas Estranhamente, nos últimos anos da década de 60,marginalizadas, o proletariado, prostitutas e as figuras João muda radicalmente de vida. Sai do emprego,da periferia das grandes metrópoles. arrebenta seus cartões de banco, vende o carro eDe origem humilde, veio de uma família de divorcia-se da mulher e passa a se vestir de formacomerciantes suburbanos de São Paulo. Teve que simples e despojada. Aparentemente influenciado pelaaceitar diversos sub-empregos antes de ficar famoso literatura beat, na qual os autores viajavam ecom o lançamento de seu mais lido livro de contos, relatavam suas experiências, João rumou por cidadesMalagueta, Perus e Bacanaço, publicado em 1963. A obra brasileiras em 1978 e foi para Europa em 1985. Doisfoi um sucesso entre os críticos e o povão, que via sua anos depois, após ganhar uma bolsa de estudos,cara descrita nas páginas do livro, mas o interessante mudou-se para a Alemanha e lá ficou até 89. Faleceusobre esta obra é a maneira como foi feita. no Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1996.Em 1960 o livro teve os originais queimados em umincêndio ocorrido na casa da família de João Antônio. Principais obras: Malagueta, Perus e Bacanaço (1963),O escritor e sua família perderam quase tudo, mas, Leão-de-chácara (1975), Malhação do Judas carioca (1975),crente de que precisava de dinheiro, João isolou-se Casa de Loucos (1976), Lambões de Caçarola (Trabalhadoresdentro da Biblioteca Municipal Mário de Andrade e do Brasil!) (1977), Calvário e Porres do Pingente Afonsoreescreveu todo o livro de cabeça. Henriques de Lima Barreto (1977), Ô Copacabana! (1978),Com o sucesso de Malagueta, Perus e Bacanaço, João Dedo-duro (1982), Meninão do caixote (coletânea) (1984),tornou-se jornalista e trabalhou no Jornal do Brasil. Abraçado ao meu rancor (1986), Zicartola e que tudo mais váParticipou da fundação de uma das revistas mais pro inferno! (1991), Guardador (1992), Um herói semimportante de sua época, a Revista Realidade, onde paradeiro (1993), Patuléia (1996), ete vezes rua (1996),publicou o conto-reportagem pioneiro do jornalismo Dama do Encantado (1996).
  34. 34. A um palmo acima dos joelhosVocê não brigue comigo, pequena. é dos outros e em gaiola não vive. Dizem, osE nem fique, sonsa, me encabulando com pardais também cantam. E só cantamessa sedução de olhos mansos. Eu lhe quando estão em turma.conheço, dengosa. Nada a fazer com a pardalada. Deixá-los.Que você nem era nascida. Então. Cumprem a sina que lhes é dada nas tardes eEste calor derreia a gente, é fevereiro, nas manhãs. Pardal nem anda; pula, pulula,começo de fevereiro no Rio, aguentamos mal andejo e voador, gorrião no mundo, os tenhoe mal, pegajosos. E este suor. visto por aí tudo, pardal urbano, sempre,Mariuska, não fique boba. Não se ponha, inquieto, intrujão, metido, saído, maltoda ciúme, fula, por aqui, me rodeando e a lambido, bicão enfiando-se no que não é dele.medo, me palpando, esse modo inseguro de E um, Mariuska, pode viver muitos anos,agoniada. Seus olhos suplicantes saiam de aqui, alhures, em Amsterdam, na China.mim. Não queira agarrar os meus joelhos Gatunam e, aí, gatunar é o modo deles.com a boca para, depois, pousar a cabeça Nem me pergunte, de olhos, olhando paraneles. eles e, após, indagando os meus olhos, paraNão me pergunte com os olhos. Só estou que servem o pardal e o gato. Bem. Elesperdido em mim, criatura, olhando a linha do servem para nada e, também por isso, sãohorizonte. música do mundo.Nada, pequena, bobagem, é um nada. Ou é Você me dança esses seus olhos vivos, quemuito. espetam e só faltam dizer.Faz pouco, lá em cima, no apartamento, você Digamos. Há de ser sempre, sabe-se lá, umfez a cena, feia. À toa, à toa. trabalho garimpeiro o de descobrir por queAbri a porta do terraço. Olhar alguma coisa uma pessoa, tantas idas e vindas após, e tudonos varais e nas plantas, este verão tosta e passa tão depressa, acaba só.castiga, este solaço... dei com os pardaisciscando feito galinhas sequiosas ou meio ***ladrões, rápidos, numa agitação procurando Ouça. Tenho cada lembrança lá do morro ealguma aguinha caída daquela com que você nem era nascida. A vida lá no alto nãoreguei as flores. era ruim nada.Pulavam, precisados. Sofriam o calorão, De pequeno, tropicava em alguns pedaçosvinham, gatunos, bicos abertos puxando a maus. Nada que me lembre do morro merespiração. Então, uma alegria grande me chega sem os gostos. Será difícil esquecer oentrou no peito. Eles são pequenos. E eu os gosto de fel de chá para os rins, chá desaudei: carqueja empurrado goela abaixo pelas mãos- Ô, pequenininho, você veio me visitar? de minha bisavó Júlia, apelidada Lula pelaVoluntariosa, saída, ficou fera, ardida. Já lhe gente miúda, penca de bisnetos amulatados,falei, o ciúme mata um. Rói e remói: é um- mequetrefes, molecadinha impossível. Vódois, verruma depressinha. Um-dois. Fique Lula, escura e geniosa, cabelos lisosmaneira. Nenhum sofrimento inútil. Estou mamelucos, quem sabe, na mocidade,tratando com os meus fantasmas, me deixe. sensual e com certeza supersticiosa e deVocê, indócil, aguarde. Coração ciumoso, arroubos imprevisíveis, acostumadaatrapalha, sua. mandona. Tratava filhos, uns trezes, netos e,Ansiosa, tenha modos. depois, a bisnetaiada pela homeopatia. OsQu’eu saiba ninguém dá jeito de domesticar doentes não tomassem café.um pardal, bicho avoado, entrão, toma o que Não brilhei, fui razoável.
  35. 35. Havia o campo de malha, o de bocha e o cariocas no morro e, na empolgação deles,campinho de futebol, onde virei centro- embarcávamos, mordidos.médio. Não, corria um tempo em que não Não éramos tão urbanos. Para final, fazíamosexistia meia-armador. Era centro-médio. paçoca no pilão, nossos curaus e pamonhasChutava com os dois pés, cobria o meio de doces e não salgados como se diziam quecampo, recuava ou avançava conforme o eram os do Norte… a paçoca do morro, vejaandado do jogo e os mais atilados na posição, lá, levava carne pilada, o charque, o jabá.houvesse brecha, cavavam espaço e, Essa, de carne-seca, era daqui. Da ponta dapontudos, faziam gol. Eu, destro. orelha.De assim, para compensar, me treinei Batíamos o café em grão comprado nosrepetido e solitário, e tanto, na perna armazéns na estrada de ferro. Tínhamos oesquerda que, na sequência, pendia para cuscuz paulista, com palmito, ovo, camarãoabrir, armar jogo, lançador por aquele flanco. ou sardinha ou galinha, meio caiçara eBem. admirado, falado. Invejado, sabíamos.Quando a luz elétrica nos veio, o morro teve Salgado, era primor, distinto do baiano, que édois rádios por onde a vida do mundo, lá de branco e doce. E do pernambucano - outrafora, barulhava e chegava. Um, o rádio coisa. Bom mais ainda com manteiga, daenorme da venda de dona Otília e de seu salgada. Havendo manteiga-de-garrafa, seAugusto; outro, menor e simplezinho, da lambiam os beiços e se comia até ficar triste.minha tia-avó Elisa, carioca, asseada, um Fazíamos a carne-seca com mandioca cozidacapricho na organização. Os dois quase desmanchando, e não frita.novidadeiros trazendo notícias, humor, E não fique aí boba, pequena. Que tínhamosradionovela, Jerônimo, o herói do sertão, forno em que fazíamos pão de milho, broa deNhô Totico, a PRK 30, mel em chuvada de fubá, biscoito de araruta, bolos de farinha deriso, que a gente alcançava do Rio de Janeiro, trigo, assados em dia de festa. HaviaMaria Joaquina Dobradiça da Porta Baixa, cabritadas no morro e Vó Lula, prevenida,portuguesa, espeloteada, casca-grossa e tão alma de quituteira, pedia aos santos nasmangada. Terminavam os números musicais, vésperas paz para esses dias. Cabritada erauma voz ajuntava: entra o disco das palmas. risco.Desabava o auditório e desabávamos no Poder, podia escorregar, destrambelhar paramorro. Aqueles dois animadores foram malsucedida armando brigas, ingresias,primeiros; devo ter aprendido com eles que, desfeitas, mexidas, confusões. Fuá. Podia darde algum jeito, é preciso rir de si mesmo. bode num forrobodó-de-cuia, rebordosaIrradiação dos jogos de futebol, paixão. Febre arrevesada, uma cabritada. Então, devagarmosqueteira, que o morro era, maioria com o andar, que o santo é de barro. Oinflamada, corintiano roxo e sabia, de cor e seguro morreu de velho, mas a prudência foisalteado a escalação preta e branca, que ao enterro. Rogar aos santos, assim, era determinava na linha de ataque: Cláudio, lei.Luisinho, Baltazar, Carbone e Mário. Ou Doce de marmelo, de goiaba, de laranja, deSouzinha, dependendo, na extrema esquerda. abóbora, de cidra, de limão, de coco,Dessa linha atacante, cada minúcia sutil e bananadas, ameixadas de ameixa amarela emuito singular, cada um de nós, molecadinha não da preta fumegavam no fogão a lenha edo morro, falaria uma semana. E, depois, Vó Lula, pontificou plena, principal.mais uma. Esclarecia. Para a cozinha era preciso mão.O que nos chegava. E vinham pela música as Ninguém se gabasse diante dela, que mãosnovas de outras terras, baianas, nordestinas, cutubas tinha ela, mãos de rainha, dona,cariocas, nos fazendo imaginar, enfeitiçados, adonada, sabedora.meio aos suspiros, mordidos de curiosidade,uma porção de vidas diferentes, nossasdesconhecidas e mais rurais. Havia baianos e
  36. 36. José Antonio Pereira Olha eu na foto Ontem me vi numa foto de jornal. Está pouco de despeito. No final da festa doscom inveja? Estava em uma badaladíssima festa. cinquenta anos de casamento dos Bitencourt.Sem ressentimentos! Não é preconceito não. Procurando um champanhe, entrei na dispensa.Mas, gente chique é outra coisa. Olhe bem para Vi Nanete de quatro e Armando corcoveando-aa foto. Só gente bonita. Parece que a beleza é a com o desembaraço de amantes bastantemaior parceira da riqueza. íntimos.Festa já varando pela madrugada. Eu lá firme. No casamento da filha dos Castro Lima, outraPresta atenção! Quem ainda está impecável? família de potentados, parecia-me que osAlinhadíssimo. Claro que é eu. Estilo herdeiros de toda a riqueza da cidade estavamdespojado, sem relógio, cabelos bem aparados e presentes. Um horror! Quem não pertence aocorpo ereto. meio, está ferrado, vira mobília, é invisível.Entreouvia o diretor de um banco, tentando ser Herdeiros são terríveis. Deitam e rolam, sãopróximo da senhora da casa, ironizava os cruéis com os que não pertencem a sua casta.extorsivos juros cobrados. Nunca entre em uma Enquanto bebem, fazem piadas vis e grosseirasagencia bancária. Não passe nem mesmo em com seus empregados e todos os de baixo. Osua calçada. E eu continuava andando entre os Lula então? Onde já se viu? Um presidente,convidados. pobre, retirante cabeça chata e operário. Isto éEra sempre assim em recepções de famílias um absurdo! Só num país fodido como este taltradicionais e riquíssimas, eu vestido em meu barbaridade acontece!impecável linho braspérola, engomado, lavado e Jussara, mulata bonita e atraente trabalha para apassado todos os dias. Na casa dos Bitencourt, família Castro Lima. Assediada e abusada pelolocal da festa na foto, Dona Dalva não permitia patrão, é mantida no emprego sobre ameaçasperfumes, era proibido. Ela, com requinte, batia dele. É constantemente humilhada e perseguidapalmas compassadas, para chamar os serviçais. pela patroa. Nesta festa, Jussara e outrasTinha o topete de mandar o Armando, seu mulheres que trabalhavam no evento, sofreram omordomo, cheirar todos os empregados para ter diabo nas mãos dos herdeiros já entupidos decerteza que sua proibição era respeitada. Botava cocaína.reparo até no aparado das unhas. Na cozinha, Como sei de tudo isto? Olhe novamente para anão sei se por ressentimento, Nanete, uma foto. Ainda não me achou? Ninguém me nota.ajudante dizia: Armando é vinte anos, mais Sei que em todo lugar é assim, sou invisível.novo que a patroa. É o bichinho de estimação Olhe bem, no canto direito da foto, ao lado dofavorito dela. Cheia de veneno: Principalmente diretor do banco. Isto! Este mesmo! Por que onas ausências do Doutor Bitencourt. Vai aí um espanto. Eu sou o garçom.
  37. 37. Rubens Shirassu Jr.Ilustrador e escritor Rubens Shirassu Jr paulista Peixe (crônicas, 2004) e Muito Macho na Cozinhade Presidente Prudente é autor de entre outros de e Outras Crônicas (2010)e Novas de Macho naCobra de Vidro (poemas,2012) Religar às Origens Cozinha e Outros Ingredientes II (Clube de(artigos e ensaios, 2011); Mais Molho e Menos Autores, 2012). Fora da hora Enquanto o bafo do mormaço bate Só sei que havia um sol escaldante e, apesar doem meu rosto, ouvi apenas o canto de um galo calor sufocante, que embaralhava meusrompendo o silêncio preguiçoso da tarde. Nem pensamentos misturando-os a um som quesei de onde viera, só sei apenas que estava passa desapercebido no turbilhão depróximo de minha casa. É apenas um galo e seu pensamentos, de pernas e veículos correndocanto que trazia um clima brejeiro, de sopro que giram a máquina registradora do mundovida e, isso dá uma alegria e tem uma beleza de da civilização. Em meio aos recursos visuaisvida simples, natural e ingênua, sem das placas e fachadas, aos múltiplos sons, acompromisso. É um momento apenas. cena se perdia.
  38. 38. Será que alguém nota o galo que canta numa agosto, tivesse dançado ateu no ar. Depois, aostarde, em plena zona norte da cidade? poucos, foi se acendendo um carmesim, deComo uma figura campestre e exótica em cigarro de palha de milho, e sob ele o mar decontraste com a selva de cimento, aço, plástico concreto espalhou o cheiro de roça. Imaginei oe antenas. Esse nosso personagem foge da calor das famílias na varanda, arrumandocoreografia da sinfonia concreta, porque traz casamento e a vida alheia, do jeito de tribunaluma natureza morta em nosso horizonte sujo, do júri, prestando contas no confessionário doembaçado pela fuligem dos escapamentos e padre da paróquia, deixavam o galo, orgulhosochaminés, talvez, seja um cantor para e soberano no terreiro e galinheiro.despertar... Por que aflora dentro de mim, uma Mas o bem-estar leve, quase suave, como se euimagem adormecida, em sono profundo, quem tivesse, de repente, despertado de um transesabe, anunciando um verde esperança? profundo, trouxe-me um pensamento queEu tentava fixar o galo com os olhos do aprendi com os antigos vizinhos e coleguinhasespírito, ao jogo de intensa luz. Pode ser um de escola: os galos cantam entre às 4 ou 5 damomento feliz, e em si mesmo talvez fosse, e madrugada, na alvorada de um novo dia,aquele singelo quadro da natureza morta me sinalizando a hora do retireiro ordenhar asfez bem, mas uma fina, indefinível angústia me vacas no curral, enfim, os compromissos davem misturada com esse fenômeno sonoro e gente do campo. Será que o desrespeito dofotográfico. homem com a natureza onde ocorreram asDevo estar saudoso de minha infância na Vila mudanças nas estações do ano, o excesso deMarina e no Parque São Judas Tadeu, quando asfalto que interferiu no escoamento da chuva,o galo cantou às 15h50. Mas deixei minha o desmatamento das florestas, a poluição dospouca alegria para mirar com um vago sorriso rios, a migração de aves e animais à áreaperdido no espaço. Era um instante de graça e urbana, alterou o relógio biológico dos galosfelicidade. Um momento de raro prazer sonoro. entre outras espécies da fauna? Um garoto diráSenti a necessidade de mostrar aquele fato raro que o galo ficou desconfigurado! O sentimentoàs pessoas que prezo: “Escutem, o galo cantar a era de que aquele momento luminoso e poéticoessa hora...” Mas, o prazer daquela audição me soa como um alerta. Dentro de minha cabeçabastava. Porém, refleti que mostrar por houve um torvelinho de milhões demostrar ou, quem sabe, para repartir aquele pensamentos misturados aos tons pretos,instante de beleza como quem reparte um doce, cinzas de tristeza e perplexidade expostos nessecomo sinal de estima e de simplicidade; em quadro impressionista.sinal de comunhão ou, talvez, para disfarçar omal-estar com o vazio da vida atual.Aquele som tão vivo era todo solto, de meusouvidos, uma palpitação no coração. Eu queriame aproximar, aquele galináceo que anda semrumo e seu canto, passando entre a cortinabranca que realçam os objetos em cima damesa e a parede creme. Mas, a barra do diaentre a cortina era uma vaga música dostempos do chão de terra, a cerca de balaústre e Rubens Shirassu Juniora mornidão da rotina dos dias interrompida Presidente Prudente –SPpelas boiadas guiadas pelo tropeiro, o aromacaracterístico de fumo de rolo parado no armisturava a poeira amarelada que pairava noar.Na segunda-feira de carnaval, havia nuvensleves, espalhadas em várias direções, como sedurante a noite o vento seco, semelhante a
  39. 39. Antônio Jaime Produtores de fitas Gente mais antiga no meio mudando-se depois para o Rio. Luxento, tipocinematográfico chamava filme de fita, como se contratar Ângela Maria ou Carlos Galhardo parasabe. E cinema, a sala de projeção, era casa. Daí cantarem no aniversário da filha, em sua casa.que, na filial da Embrafilme em São Paulo, ouvi Quando morreu, o médico contou à filha queo gerente falando ao telefone: “A fita dos tinha uma frase tatuada no piru: Tutto per te.Trapalhões dobra em Ribeirão? Nas duas No Rio, as produtoras às vezes nem tinhamcasas?”. Por lei, se uma fita atingia a freqüência água de beber, já em Sampa rolavam queijos emédia numa casa, reprisava na semana seguinte vinhos, por aí, depois das reuniões. Ou um cafée por isso A noviça rebelde ficou 53 semanas em caprichado no Maksoud Plaza. Gostaria de tercartaz no Cine Palácio, no Rio. Já O anunciador, conhecido lá o produtor Primo Carbonari, nomeuma semaninha, no Paissandu. de mafioso, mas fiquei com Aníbal Massaini, Produtor que chamava filme de fita, só Enzo Barone, Assunção Hernandes e Césarconheci Mario Falaschi. Ele e seu irmão tinham Mêmolo Jr. Este, puto com o fracasso de Oum hotel na Itália, onde se hospedava uma Homem do Pau Brasil, de Joaquim Pedro defamília paulistana. Gostou de Brasilina, uma das Andrade, e Ato de Violência, de Eduardomoças daquela família, veio para São Paulo e Escorel, decidiu nunca mais produzir cinema, sócasou-se com ela. E com a leva de italianos que comerciais de TV.vieram fazer a Vera Cruz, entrou para o cinema,
  40. 40. Mas cumpriu o doloroso dever de ressarcir com Dona Lucíola (mãe de Lucy), a “Vovóa Embrafita (êpa!) por aqueles rombos. O Donalda”, porque fazendeira em Goiás, sócia donormal era rolarem a dívida, contando com um Unibanco, por aí.sucesso futuro. E nem todos tinham dinheiro Mais uma: na première de Bye Bye Brasil,vivo ou o caráter de Mêmolo. no Rian, chegou de surpresa um amigo Em geral, todo cineasta abre uma americano de Barreto. Gente até no chão, o jeitoprodutora, para facilitar as coisas. Daí alguns era desalojar alguém e ele escolheu uma mulherfolclóricos, como um tal William Cobbett. Parece desacompanhada: “A senhora é penetra? Cadê opseudônimo, mas era seu nome, mesmo, e convite?”. Betty Faria ouviu e acudiu: “Quê isso,cearense. Ganhou uma boa grana distribuindo Luix Carlox, é a Josefina, peça dexculpax”.aqueles filmes russos que vimos pré-64 e Ninguém menos que Josefina Jordan, ícone daproduzia uns abacaxis, tentando vendê-los como sociedade carioca. Ibrahim, Zózimo e outrosarte. Mesmo gente de mais prestígio, como os deitariam na sopa e o cinema tupiniquim, já tãoFarias, não escapava das más línguas. Diziam sem cartaz, pois é.que Roberto ia à missa todo santo dia, pagandopecado, por viver em concubinato e, nos fins-de-semana, toda a gang se reunia em Friburgo, paraa missa-mor, com a matriarca da família. Me deibem com eles, disseram que em 30 anos deprodutora ninguém entendeu melhor o quequeriam dizer. Obrigado. Agora, a barretada. Deu para perceber quesão muito francos e não de todo elegantes. Estive Antônio Jaime Soares“n” vezes na casa deles e, numa delas, subi de Cataguases –MGelevador com Lucy, Luiz Carlos e uma vizinha,que levava um ramo de flores. Lucy tapou onariz: “Que cheiro horrível”. E Luiz Carlos:“Cheiro de jasmim”. E ela: “Cheiro de defunto,isso, sim”. Na cara da mulher, fiquei comvergonha por eles. Comigo, tudo bem. Só estiveuma vez com Bruno, outra com Fábio e várias
  41. 41. José Vecchi José Vecchi de Carvalho nasceu em Um dos autores de A Casa da Rua Alferes eCataguases, atualmente mora na cidade de outras crônicas. Com suas crônicas e contos éViçosa, aqui mesmo na Zona da Mata Mineira. dos colaboradores do Chicos desde suas primeiras edições. Anatomia das pernas Inesquecíveis pernas. Tão presentes em obstinado contador de histórias que meus pensamentos e visões que vez por Zemeckis fez correr por um país inteiro, outra causam-me tamanha desordem, ao ultrapassando tempos e fronteiras. ponto de eu me deixar levar por Pernas que zombaram da insensibilidade devaneios, urdindo esdrúxulas e dos preconceitos. comparações. Hoje mesmo, após o almoço, sem Dias atrás, num pequeno espaço mais nem menos, lembrei-me das pernas de tempo concedido involuntariamente inesquecíveis do Mané Garrincha: tortas, pelo descuido do chefe da seção onde desengonçadas, pareciam se chocar uma trabalho, vieram-me à memória as pernas na outra, mas com uma habilidade de Tom Hanks, digo, de Forrest Gump, o invejável.
  42. 42. Os dribles desconcertantes deixavam tendões, ligamentos e meniscos, mas pelaperplexos não só os adversários, mas harmonia entre as partes que provocamtambém, os companheiros, o treinador e em mim a impossibilidade de vê-las outodos os torcedores presentes nos imaginá-las separadas. Separá-las seriaestádios. Pernas mágicas que pareciam rasurar uma prova documental, picharbrincar com a bola, com o jogo, com as um monumento, cortar cenas de umpessoas; pareciam rir de tudo e de todos, filme, coibir a beleza.não com desprezo ou superioridade, mas Quando a dona era uma menina decom um jeito ingênuo e moleque; era um doze ou treze anos, tais pernas não mebailar ilusionista que confundia o mundo foram tão impressionantes. O músculonum piscar de olhos e arrancava suspiros vasto lateral, o reto, o bíceps da coxa, oe aplausos nas arquibancadas. gastrocnêmio e o tibial anterior não eram No entanto, essas famosas pernas suficientes para encobrir fêmures evêm-me à tona sem o menor nexo com as rótulas, tíbias e fíbulas. Voltei a vê-las,que, de fato, me impressionaram ao porém, quando sua dona ia já com seusponto de eu ter que despejar no vinte e cinco anos. Levei um sustoinconfidente papel minhas perturbadoras enorme e tive que me conter para nãosensações. Omito o nome da dona não deixar reveladas as minhas reações.por alguma razão que alguém possa dizer Por baixo de uma saia bege que iaque seja óbvia, aliás, não existe nada de pouco abaixo do quadril, passaram poróbvio na omissão de um juízo diante de mim duas belas e desconcertantes pernas,uma obra-prima. Omito porque tenho a atravessaram a rua no sentido da calçadaimpressão de ver essas pernas com outras em que eu me encontrava procurando umdonas; e também, por alimentar a ilusão endereço que só voltei a procurar diasde guardar só para mim a deliciosa depois. Mesmo assim, ao voltar ao local,sensação que tive. Aproveitando a seção no mesmo horário de antes, procurei dedas justificativas, peço desculpas aos um lado a outro da rua, buscando a visãoestudiosos da anatomia humana, mas estonteante que tive dias atrás. A cor datrato aqui das pernas e das coxas sem pele, a firmeza delicada dos músculos, osseparação; unidas não só pelo joelho, com contornos, as medidas... tudosua belíssima articulação gínglima, seus desmedidamente belo e atraente.
  43. 43. Pernas lisas e certas, queproporcionavam à dona um caminharleve e fascinante, salientando aexuberância e o menear compassado dasnádegas. Em mim provocaram algo comouma hipnose, com a cor num tom morenoindescritível e inigualável. Além disso,com um movimento que era umacoreografia sensual, perfeita. Confessoque perdi o fôlego e o rumo, como percoaqui as palavras para qualificar tamanhabeleza. Um dia desses, tais pernaselegantemente cruzadas sob a negligênciade um índigo fizeram-me ver a dona quenão era. E depois daquele dia tem sidosempre assim. Procuro nas menoresoportunidades e penso vê-las aqui e ali. Pernas lascivas, mágicas, ágeis queparecem me driblar; parecem rir de mim;percorrem e atravessam meus territórios,meus sonhos e insônias, enfim, dias e José Vecchi Viçosa –MGdias, deixando como rastro minhasdivagações e intumescências. Mas no real,no palpável, desaparecem. Passam pormim como se eu fosse um zagueiroineficiente. Acho que por isso, busco nascomparações, mesmo nas maisdesconexas, uma forma de prendê-las.Inesquecíveis pernas. Tão presentes emmeus pensamentos e visões...
  44. 44. FerrézFerréz, nome artístico de Reginaldo Ferreira da Ferréz já publicou diversos livros, entreSilva, é um romancista, contista e poeta. Ligado a eles Fortaleza da Desilusão (1997), Capãocorrente considerada literatura marginal por ser Pecado (2001), Amanhecer Esmeralda (2005)desenvolvida na periferia das grandes cidades e e Ninguém É Inocente em São Paulo (2006). Étratar de temas relacionados a este universo. fundador do 1DaSul, grupo interessado emDotado de linguagem influenciada pela variante promover eventos e ações culturais na região dolinguística usada na periferia de São Paulo, Capão Redondo, ligados ao movimento hip-hop. ‘Quem não pode falar escreve’Nascido e criado na zona sul, quando pequenodizia que queria ser engenheiro; o pai achava aprofissão bonita, o filho mal conseguiuterminar o segundo colegial, tinha que ajudarnas despesas de casa. Namorou com a mesmamenina por dois anos, mas ela não viu futuro– a casa dos pais dele, de dois cômodos, nãodava pra subir laje. Somente seis meses depoisde terminar o curso, Marcos conseguiu JB Neto/Estadãoemprego numa contabilidade. Chão ensanguentado em bar do Campo Limpo, palco da primeira chacina do ano
  45. 45. Depois de trabalhar por 23 anos como Polícia comunitária, um termo bonito, mas oempregada doméstica a tia de Marcos havia sapato estava na cabeça de Marcos, a mãocomprado um carro, e graças a Marcos ia direita na água suja que descia pelo canto dodeixar de pegar ônibus toda sexta para voltar calçada.do serviço, onde passava toda a semana A mãe de Marcos vendo a cena chegou perto elimpando a casa e cozinhando. Marcos seria convenceu os policiais, explicando a origem doseu motorista. Em contrapartida, pagou o carro. Marcos se levantou, a cabeça suja decurso para o sobrinho, e deixava o carro a terra, os olhares dos vizinhos. Não teve ódio,semana toda com ele. Os vizinhos nem sequer ficou revoltado. Chegou no seucomentavam que o rapaz, agora andando de barraco, olhou para a camisa toda suja, uma dassocial e com o carro, teria um futuro na vida, três que tinha para ir trabalhar, ajoelhou emque finalmente alguém daquela comunidade frente à estátua de Nossa Senhora Aparecida ehavia vencido. agradeceu por estar vivo.Marcos parou naquela sexta-feira no Três horas depois disso, 15 homens estavammercadinho. Sempre sorridente, sendo revistados num bar no Jardim Rosana. Oscumprimentou todos e foi comprar uma cera. policiais chegaram de repente, miraram osDeixaria o carro brilhando como a tia gostava, revólveres, nem o dono do bar escapou dapara ir buscá-la. revista. Terminaram o enquadro, entraram nasEntrou no carro com o pacote, ligou na Antena viaturas e disseram:1, sua rádio preferida, as músicas o deixavam – Boa noite, fiquem com Deus.calmo no intenso trânsito. Colocou o cinto de As conversas foram retomadas no bar, um delessegurança e viu a viatura da Polícia Militar falava sobre os ganhadores da Mega Sena, outroparar. Logo foi pego pelo colarinho e arrastado falou que ia tomar a saideira, a patroa em casapara fora do carro. Tentou falar, mas a voz do já devia estar nervosa, um que voltava dopolicial militar sobrepôs a sua. banheiro ria dos que haviam sido abordados,– Ladrão de carro filho da puta. dessa ele tinha escapado.– O carro é da minha tia –, tentava falar Os minutos se passaram, mais duas cervejasenquanto outro policial jogou ele atrás do foram pedidas, a conversa agora foi para ocarro e pisou em sua cabeça. Marcos olhava Corinthians abalando o Japão. Mais algunspara o sapato, estilo social que nem o seu, algo minutos, a rua quieta, só as conversas no bar.pensado no novo uniforme da PM para dar Foi quando se fez a matemática perversa, 14aspecto de menos hostilidade, como antes homens encapuzados, olhos arregalados, umatinha a antiga farda e o coturno. cadeira cai no chão,
  46. 46. a vizinha ouve barulhos, deve ser bomba de vida. A pressão pra fazer algo é grande, nemcomemoração. Catorze braços atiram em sempre externa, mas o dono da padariaquem estava dentro do bar, nove são baleados, pergunta se não vamos fazer nada, a mãe de umsete morrem, a conversa acaba. O cheiro de amigo me para na rua e diz:pólvora domina todo o ambiente, o dono do – Não somos animais, não somos ratos parabar se arrasta com um ferimento na perna. morrer assim.Quando chamei meus amigos no sábado de O estudante que tem que voltar para casa apósmanhã para encaixotar livros e fazer a pintura 11 da noite não sabe como vai fazer, a mãe ficana ONG Interferência, não imaginávamos que acordada todos os dias com medo de o filho nãohoras depois estaríamos num cemitério. regressar; o cozinheiro do restaurante finoO coveiro chega perto do Evandro e diz: trabalha a noite toda, a mulher pediu para ele– Você aqui de novo, cara! É a terceira vez que dormir por lá para evitar o pior. A conversa saiute vejo essa semana. do meio comum, um enterro cheio de genteEvandro fica sem graça, vai comprar uma igual, sofredora, onde a conversa principal éágua, realmente não queria voltar ali, mais um como vamos sair de casa de hoje em diante.amigo para enterrar. Pressionar politicamente parecia ser o caminho,O muro do lado do bar onde aconteceu a mas tal deputado num atende, tal vereador tá deprimeira chacina do ano estava pichado. férias, não se convive com quem toma decisões,Quem não pode falar escreve. "Unidos estão todos longe daqui, quem mora aqui sabe ovenceremos as batalhas da vida". Versos do tamanho do risco, mas muitos tambémrapper que acabou de lançar o primeiro CD, assistiram O Pianista.depois de muitos anos de batalha, o mesmo Nunca em minha existência aqui tinha vistorapaz que tem um avô chamado Lino, uma tantas pessoas comuns revoltadas, esse não é oesposa chamada Raiane, um filho chamado mesmo País que anunciam na televisão. O queRyan e uma mãe chamada Lilian. ninguém pensa é que, infelizmente, isso temUm verso de esperança de um jovem que não mão dupla, porque quem sai pro crime sai maissabia que por estar num bar sua vida estaria violento.atrelada à primeira chacina do ano. O morador de periferia hoje se sente"Nunca desista nem se sinta inferior, seja desamparado, tem sua liberdade estrangulada,forte, seja nobre, um guerreiro lutador". Letra cerceada. Sem Sesc, centro cultural ou casa dedo grupo de rap do DJ Lah, também presente cultura nas favelas, a antessala de estar de todono bar, o último lugar em que estaria com mundo é o bar.
  47. 47. O cidadão comum que levanta quando é simpatizantes da Rota, a tropa de elite da PMescuro, que cuida do ensino da elite e não tem paulista) a gente tá com medo também.uma escola de qualidade para seu filho, que Eu entendo o repórter, de uma chacina parafaz a comida deles, cuida de sua segurança, e outra, da leste pra sul. Olho sua mochila, calçanão tem segurança onde mora, não quer morte larga, cara de cansado, na faculdade não– nem de farda nem de bombeta. falaram que ia ser assim.A segurança individual está em segundo plano A solução agora não é só a investigação, mas aperante a morte sistemática de inocentes. emergência é pela não repetição. A questãoQuem vai gritar se as vítimas forem do crime? policial também é cultural, desde a abordagemQuem vai meter a cara? Foram 24 chacinas, e até o jeito que tratam a comunidade e, porse só algumas das 80 vítimas têm passagem, a consequência, são tratados.tendência é menosprezar o ocorrido, fica Quantas vidas podem ser salvas se procurarmoslegitimado o ato. soluções reais, não tapa-buracos. Ajudaria se oA periferia da década de 1980 teve grandes discurso não fosse vago, se a certeza damudanças. No caso das chacinas, o modus impunidade não fosse tão presente. Umoperandi mudou. A periferia, com suas casas discurso articulado do secretário de Segurançana maioria de madeira, tinha pavor dos grupos pode ser o início, real empenho na solução daschamados de pés de pato. Hoje, associam mortes pode brecar algo que pode tomaressas ocorrências ao único representante do proporções irreversíveis.Estado presente aqui, a Polícia Militar. É Saímos do Cemitério Jesuíta, calças largas,proposital, oprimir sensação de terror, está bonés, frases das letras de rap na camisa, hojedando certo, as mães cabisbaixas, sete somos o tema das letras, a canção será maisenterros, três da mesma rua, o filho chorando triste quando for ouvida, e quando íamos cruzarna beira do caixão, o repórter que chama a a avenida, mais um enquadro, todo mundo nagente no canto: parede.– Pô, as pessoas acusam a imprensa, mas Um ônibus para, algumas pessoas que estavamquando chego nas chacinas, vou fazer a no enterro descem, a polícia teme, o povomatéria, a primeira coisa é ser abordado. A avança, um dos rappers está sendo revistado,polícia pede meus documentos. Cara, depois um menino chega perto do policial, olha prodo que aconteceu com o (André) Caramante alto, bem nos seus olhos, o policial nota os olhos(repórter policial da Folha de S. Paulo que teve úmidos, o menino diz.que sair do País após ser ameaçado por – Acabamos de vir do enterro, vocês não respeitam nada?
  48. 48. Sebastião Nozza Bielli Lotti O buraco Abre a porta envidraçada da varanda e joga a andar em torno, e a profundidade, ao usaruma interjeição de negro humor no espaço. um cabo de vassoura achado próximo ao latão.Tão indignado com o buraco! Também parece procurar coisas jogadas por Dois homens opacos, que cultivavam o alguém - todo mundo tem mania de jogarhábito de fumar de cócoras, vieram com as coisas num buraco - e, quem sabe, o possívelpicaretas e as pás. Cavaram o dito cujo e, após peixe imaginário na água da chuva? Até que ofilosofarem ( ou falavam de coisas técnicas?) tédio do buraco o engole e ele titubeia em suapor uma tarde inteira em torno da enorme volta, felizmente, sem cair. Acordando para ocavidade, bem próxima ao latão onde os dia luminoso, sai correndo atrás de novasmoradores da pequena rua depositam o lixo, emoções.sumiram Um buraco, a princípio, é apenas uma Uma semana, ele contava... Oito dias... E cavidade, mas, com o tempo, vai adquirindonada. Do alto do seu avarandado, procurava proporções que o aproximam de um elementoentender. Toda manhã olhava o céu, tentando metafísico; improvável de se medir o tamanho.desviar a atenção daquele estorvo, mas todo É um vácuo aparente, talvez um espaço vazioburaco possui certo magnetismo e nem sempre cheio de incongruências. Ninguém caiu eé necessário botar um aviso com letras quebrou a perna, ou um veículo descuidadovermelhas; ao vê-lo pela primeira vez, o alerta resvalou por ele, enquanto buraco, contudo,“cuidado” já se fixa na mente. era um buraco repleto de iminências. A rua foi ficando mais barulhenta com os Da varanda, ele passou a falar alto para quemotoristas, que se atrapalhavam. O menino os vizinhos ouvissem, da precariedade doolha o buraco como um acidente no cenário serviço público, a falta de respeito com osonde costuma brincar e passa a pesquisar sua contribuintes: “Uma vergonha!”.real dimensão: a circunferência, quando se põe
  49. 49. E o buraco metafísico e possivelmente A vizinha teve dengue e precisou seperigoso, virou um buraco político. internar no hospital. Os carros, que se viam Nenhuma informação sobre a necessidade obrigados a usar parte da calçada, devido aoe o porquê da obra. As pessoas passavam e exíguo espaço nas laterais, com as precáriascoçavam a orelha. tábuas escorregadias protegendo as Enquanto, da casa mais próxima, a mulher na escavações, passavam por momentos difíceis,janela olhava com desdém: além do latão de precisando contar com a ajuda dos pedestres,lixo que os gatos e os cães reviravam durante a até que um deles derrapou e acabou dentro donoite - ela ficara indignada quando ali o enorme fosso. Foi preciso apelar para ocolocaram-, agora surgia mais esse elemento guincho e o motorista berrando no celular,antiestético para atrapalhar a sua cotidiana ameaçou processar a prefeitura.distração. Um dia, os homens voltaram. A A mulher que o acompanhava, com duasesperança de que agora resolveriam de vez crianças em uniformes escolares, teve umaaquela situação tornaram “os bons-dias” mais crise de nervos, ficando toda suja de lama. Aafáveis. vizinha da frente trouxe água com açúcar e o Lendo o jornal na varanda, ela observava o camburão da PM parou na esquina. Osterceiro operário, que não fumava de cócoras, policiais tentaram intimidar o homem queandar até a extremidade da rua e voltar berrava. O guincho demorou a aparecer e osilenciosamente, parar para conversar com os tumulto foi geral, com a rua cheia deoutros dois. Ele achou estranho porque o espectadores.pessoal do caminhão do lixo e as mulheres da Ele já não lia mais o jornal na varanda elimpeza que varriam a rua com as vassouras de evitava sair. As obras duraram quase trêsbambu eram terrivelmente barulhentos. meses, mas, dias antes de completar oAlguma coisa estava acontecendo... Passaram a segundo, ele arrumou a mochila e fugiu paratarde inteira assim, confabulando. Começou a as montanhas.chover e eles saíram. Choveu a noite inteira. No dia seguinte, àssete horas, voltaram e começaram a cavardentro do barro espesso. O buraco foicrescendo lentamente por toda pequena ruasem saída, em direção ao magro rioapodrecido, onde, décadas atrás, nadava comos sobrinhos. As chuvas voltaram e se avolumaram, Sebastião Nozzadeixando os moradores daquela área Bielli Lottipreocupados com a possível enchente. Os Cataguases –MGtrabalhadores, de novo, se ausentaram,retornando só três dias depois, quando aestiagem parecia definitiva. Apenas os trêshomens, com instrumentos rudimentares. E oburaco, paulatinamente, ia se transformandonuma vala que virou um canal, quando aschuvas voltaram. A lama amarela tornou a ruaintransitável. Os trabalhadores, de novo,deram no pé, aguardando outra estiagem, quenão ocorria.
  50. 50. Ronaldo Cagiano Os novos ases de CataguasesEm recente artigo intitulado “Uma cidade de pioneiro de Humberto Mauro, responsáveisescritores”, publicado no suplemento “Fim de pela definitiva posição de Cataguases comoSemana”, do jornal Valor Econômico, um dos cidade de efervescência intelectual emais lidos pela classe empresarial do país, o inclinações vanguardistas, que acabaram porescritor conterrâneo Luiz Ruffato faz um projetar-se em outros campos, alcançando asminucioso e fiel panorama dos nossos diversas linguagens.movimentos literários, a partir da eclosão da Não é de hoje o assombro causado por essesrevista Verde (1927-1929). fenômenos culturais que de época em épocaSua análise ressalta a ousadia e importância da aqui pipocam, apesar de alguns períodos dechama inicial acesa pelos jovens Rosario Fusco, ostracismo, uma espécie de reafirmaçãoAscânio Lopes, Guilhermino Cesar, Francisco genética do DNA de uma intelligentsia que sóInácio Peixoto, Camilo Soares, Fonte-Boa, aconteceria às margens do Pomba. NesseOswaldo Abritta, Martins Mendes e Enrique de sentido, não foi inusitado nem hiperbólico oResende. Ao mesmo tempo assinala a espanto que na década de 20 despertamos noconvergência de outras manifestações artísticas resto Brasil, tendo levado Ribeiro Couto a umae culturais na esteira dos ventos estéticos perplexa constatação: “Todo o Brasil estárenovadores deflagrados com o cinema surpreso: existe Cataguases!”.
  51. 51. E hoje a reação não poderia ser outra, pois são um trabalho aglutinador ao intercambiartantos os nomes e as obras produzidas com autores nacionais e estrangeiros; Sônia Bonzi,qualidade de lá para cá. Não é demais registrar Antônio Jaime Soares e Washingtonos momentos que justificam a consciência Magalhães, cronistas de primeira. Abre-se umendossada por Ruffato de que tudo aquilo parêntesis para uma nova voz que surge nesse“parece ter se transformado num celeiro de ambiente criativo: a do ficcionista Diogotalentos”. Aquela semeadura que produziu Andrade que, embora não tenha livroscolheitas de primeira linha (Lina Tâmega, publicados, vem demonstrando grandeFrancisco Marcelo Cabral, Henrique Silveira, as potencial em textos publicados na imprensairmãs Maria do Carmo e Celina Ferreira, local e na internet, um talento em ascensão.Ronaldo Werneck, a família Branco (Joaquim, Em outras regiões pontificam as obras deAquiles e P. J. Ribeiro), Fernando Cesário - outros cataguasenses: Marcos Bagno, um dosautor que nada deve aos grandes ficcionistas mais importantes lingüistas do País,nacionais, pela alta voltagem estética e pelo reconhecido internacionalmente; Marcelocompromisso ético de sua escritura -, Márcia Benini e Mauro Sérgio Fernandes (emCarrano, Plínio Filho, Sebastião Carvalho e Brasília), Delson Gonçalves Ferreira, LuizLecy Delfim) desaguou numa recente e Carlos Abritta, Flausina Silva e Laly Cataguasespromissora geração, autores que independente (em Belo Horizonte), Tadeu Costa, José Santosda faixa etária em que começaram a produzir e Eltânia André (em São Paulo) e Fernandoliteratura, vêm se constituindo num novo Abritta (em Juiz de Fora). Um time sem igual.patamar na bibliografia cataguasense atual, Mais do que celebrar essa pujante realidade, émuitos deles radicados em outras cidades. necessário tornar público aos leitores e inserirEsses ases contemporâneos trazem hálito novo nos programas didáticos das escolas o estudoao cenário de nossas letras, com destaque para desses autores e obras, não como numa reservaMarcos Vinícius Ferreira de Oliveira e de mercado para a grade didático-pedagógica,Leonardo de Paula Campos, duas vozes mas como possibilidade críticoreflexiva, paradistintas e seguramente exponenciais uma compreensão dessa tradição a partir donesses novos tempos, pela qualidade e universo criativo de cada um deles.maturidade de suas obras; José AntonioPereira e Emerson Teixeira Cardoso, este Publicado originalmente no “Cataguases” em 09/11/2012desde os tempos da revista ‘Trem Azul” e agoracom a “Chicos Cataletras”, vêm publicando Ronaldo Cagiano São Paulo - SPpoemas e textos ficcionais e críticos, realizando
  52. 52. José Antonio Pereira Um olhar enviesado sobre Vicente reunimos para assistir algum filme de seu Faz algum tempo que estou querendo fantástico acervo. Livros e filmes, são algumasescrever algumas linhas sobre o último de nossas paixões e das mais antigas.romance de Fernando Cesário, mesmo porque Vicente, o personagem, faz parte de umame pareceu ao término da leitura, que Olhos geração que viveu o início do golpe militar lávesgos de Maquiavel não é livro para leituras em 64, ainda um menino em sua escola.apressadas. Fiquei algum tempo deglutindo Adulto volta ao seu antigo ginásio, comoalgumas passagens e ruminando minhas professor e, a ditadura ainda teima, persistememórias. Afinal me senti, e de certa forma fui, nos seus mais de vinte anos de existência.contemporâneo do narrador. O autoritarismo molda ao seu feitio aquelesFernando é amigo de velha data. Estudamos que vergam com facilidade a espinha, já os quenas mesmas escolas públicas de Cataguases; não se deixam dobrar são perseguidos até porcrianças, frequentávamos a igrejinha da vila, bedéis, simplórios acólitos de um poderconduzidos por nossas mães, fervorosas estabelecido pelo medo. Sua escola, lá atrás,católicas. Também fomos vizinhos e depois de foi responsável por uma formação maismuitos anos de andanças e mudanças, mais humanista, incompatível com a doutrina daminhas do que dele, novamente, voltamos a ditadura, que se fiava o tempo todo no terror enos tornar vizinhos. Regularmente nos na delação.
  53. 53. Os ditadores e seus títeres trataram logo de Além da amizade, o que torna estas linhas ainda umreformar o ensino, parecendo que o único tanto quanto tendenciosas, é ter encontrado entreobjetivo era afastá-lo do livre pensamento. Uma os personagens, um que se inspira em Antôniodas inadaptações do novo professor deriva desta Pereira, meu velho, o que me deixou bastante feliz.incompatibilidade entre as duas escolas. Seuamadurecimento em tempos de angústiasideológicas, violências físicas e morais,transformam sua vida em uma agonia existencialsem fim. A censura, o estado policialesco torna suapequena cidade um lugar vazio, oco, os relaciona-mentos artificializam-se, mentem uma lealdadeinexistente. Como sempre, em meio às ditaduras,ou por medo ou por conveniência, muitos nãotitubeiam em covardemente, cometer traições. Éneste pantanoso ambiente, de uma escola onde dodiretor ao bedel campeia a delação que vai tentartrabalhar Vicente.Em meio a isto surge uma aluna adolescente quetransforma sua vida em uma montanha russa desensações e ações. Professores vivem no fio danavalha; adultos, vivem cercados de adolescentes“transbordando” hormônios, descobrindo seuscorpos e latejando sexualidade. Imagino não sernada fácil, controlar o despertar das “paixões” esuas próprias excitações. Já Vicente, quem sabe porter tido Nabokov como uma das suas leiturasadolescente, deixou-se levar por esta Lolita,querendo que se revelasse uma machadiana Capitu, José Antonio Pereira Cataguases - MGnuma fantasia que subvertesse aquele tempo deobscuridade e frustrações, com a beleza irradiadapor aquela mulher-menina.Fernando constrói o romance como cineasta namoviola, faz cortes que tira o leitor de um rumoprevisível, atiçando-o a reflexões. Curtos trechos denotícias reais vão balizando a temporalidade danarrativa. É um romance instigante.
  54. 54. Vicente CostaAndando por Cataguases

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