Landes.2005.prometeu.desacorrentado.cap.2.a.revolução.industrial.na.inglaterra

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O autor busca as explicações para a segunda revolução Industrial, década de 1850, se apóia em fatores internos e externos ao crescimento, conjuntura que só foi possível pela elaboração e difusão das tecnologias e inovações anteriores. Este cenário propiciou progresso contínuo do aumento da produção e de novas invenções. O ponto aqui são as implicações da conjuntura; fatores como o transporte, o mercado de concorrência, e mudanças institucionais que acarretaram mais racionalidade aos processos produtivos e mercadológicos; Assim, os países da Europa continental tiveram uma posição produtiva e concorrencial que pudesse se equiparar na competição tecnológica e industrial que a Inglaterra tinha alcançado inicialmente.

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Landes.2005.prometeu.desacorrentado.cap.2.a.revolução.industrial.na.inglaterra

  1. 1. TRADUÇÃO DA SEGUNDA EDIÇÃO David S. 20600030044 PRDMETEU sz J/ XZÀ/ «Íêxà ínvvírvvrívrvrvrv landes ~ . r . u? ;àísríáf 3 , a É# § orsnconnrnrnoo Transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa ocidental de 1750 até os dias de hoje Tradução Marisa Rocha Motta Consultoria e Revisão Técnica Marcio Scalercio Professor Titular da Universidade Candido Mendes e Professor do Departamento de Economia da PUC-RJ CAMPUS
  2. 2. CAPÍTULO 2 A Revolução Industrial na Inglaterra No século XVIII, uma série de invenções transformou a indústria de algodão na Inglaterra e deu origem a um novo modo de produção - o sistema fabril. Durante essesanos, outros ramos da indústria realizaram progressos compará- veis e, juntos, apoiando-se mutuamente, possibilitaram novos beneñcios, numa perspectiva cada vez mais ampla. A quantidade e a variedade dessas ino- vações quase inviabiliza sua enumeração, mas é possível agrupa-las sob três princípios: a substituição da habilidade e do esforço humano pelas máquinas - rápidas, constantes, precisas e incansáveis; a substituição de fontes animadas de energia por fontes inanimadas, em especial a introdução de máquinas para converter o calor em trabalho, proporcionando ao homem acesso a um supri- mento novo e praticamente ilimitado de energia; e o uso de matérias-primas novas e muito mais abundantes, sobretudo a substituição de substâncias vege- tais ou animais por minerais. Esses aperfeiçoamentos, que constituíram a Revolução Industrial, geraram um aumento sem precedentes na produtividade e, por conseguinte, uma eleva- ção substancial da renda per capita. Além disso, esse crescimento foi au- to-sustentado, ao passo que em épocas anteriores, a melhoria das condições de vida, ou seja, de sobrevivência, sempre foram acompanhadas por um cresci- mento demográfico que, por fim, consumia os lucros obtidos. Nesse momento, pela primeira vez na história, tanto a economia como o saber evoluíram com ra- pidez suficiente para produzir um fluxo contínuo de investimentos e inovações tecnológicas; um fluxo que elevou para além dos limites visíveis o marco das es- timativas positivas de Malthus. Desse modo, a Revolução Industrial inaugurou uma era nova e promissora. Ainda transformou o equilíbrio de poder dentro das nações, entre elas e as demais civilizações, revolucionou a ordem social e modi- ficou a maneira de pensar do homem, assim como sua ação prática.
  3. 3. 44 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER Em 1760, a Inglaterra importou cerca de 52,5 milhões de algodão cru para alimentar uma indústria em grande parte localizada na região rural de Lancashi- re, onde existia um conjunto de fábricas de produção de linho que fornecia fios rijos de urdidura, que o país ainda não aprendera a produzir. Todo esse trabalho, em geral, era feito manualmente (excetuando a tintura e o acabamento) nas casas dos artesãos e, ocasionalmente, nos pequenos ateliês dos mestres tecelões. Em 1787, uma geração após, o consumo de algodão cru elevara-se para ,522 mi- lhões; em termos de pessoas empregadas e do valor do produto, a fabricação do algodão só era menor do que a da lã. A maior parte das fibras consumidas era la- vada, cardada e enrolada em máquinas, algumas movidas a água em grandes fá- bricas, outras à mão em oficinas menores ou mesmo em domicílio. Meio século depois, o consumo aumentara para A366 milhões; a manufatura de algodão era a mais importante do reino em termos do valor do produto, capital investido e número de empregados; quase todos, exceto o número ainda expressivo dos te- celões que usavam teares manuais, trabalhavam nas fiações em regime de disci- plina fabril. O preço do fio caíra, talvez, para 1/ 20 do preço anterior, e a mão- de-obra indiana mais barata era incapaz de competir tanto em qualidade como em quantidade com as fiandeiras de fusos e os filatórios de Lancashire. Os pro- dutos de algodão ingleses eram vendidos no mundo inteiro: as exportações, su- periores em 1/ 3 ao consumo interno, valiam quatro vezes mais do que as dos te- cidos de lã e de estame. A produção de algodão era o símbolo da grandeza indus- trial da Inglaterra; o operário da algodoaría, o seu maior problema social - o país assistia à ascensão de um proletariado industrial. Por que essa revolução das técnicas e da organização industrial ocorreu pri- meiro na Inglaterra? Algumas considerações teóricas talvez ajudem a organizar a discussão. A mudança tecnológica nunca é automática. Ela significa a substituição de métodos já estabelecidos, prejuízo para o capital investido e, com freqüência, graves contratempos pessoais. Nessas circunstâncias, é preciso haver, em geral, uma combinação de fatores que incitem essa mudança e a possibilitem: (1) uma oportunidade de aperfeiçoamento em razão da inadequação das técnicas vigen- tes,1 ou uma necessidade de aprimoramento criada por aumentos autônomos dos custos dos fatores; e (2) uma superioridade de tal ordem que os novos métodos fossem compensatórios para cobrir os custos da mudança. Nessa última considera- ção está implícito que, por mais que os usuários dos métodos mais antigos e menos eficientes tentassem sobreviver por meio da compressão dos custos dos fatores hu- manos, empresariais ou trabalhistas, as novas técnicas seriam suficientes para per- mitir que os produtores progressistas aumentassem seus preços e os substituíssem. As mudanças tecnológicas que denotamos como “Revolução Industrial" implicaram um rompimento muito mais drástico do que qualquer outro fato
  4. 4. A Revolução Industrial na Inglaterra 45 desde a invenção da roda. Do lado empresarial, exigiram uma clara redistribui- ção dos investimentos e, ao mesmo tempo, uma revisão do conceito de risco. Enquanto antes quase todos os custos da manufatura tinham sido variáveis - sobretudo matérias-primas e mão-de-obra - uma parcela cada vez maior do capital passou a ter de ser alocada em custos fixos de fabricação. A flexibilidade do antigo sistema fora muito vantajosa para o empresário: em épocas de de- pressão, ele podia interromper a produção a um custo baixo, retomando o tra- balho só quando e até o ponto em que as condições o recomendassem. Agora, passava a ser prisioneiro de seu investimento, situação que muitos dos tradicio- nais comerciantes e produtores consideraram extremamente difícil ou até mesmo impossível de aceitar. Para o trabalhador, a transformação foi ainda mais fundamental, pois não apenas seu papel ocupacional, como também seu estilo de vida estavam em jogo. Para muitos - embora não para todos - a introdução da maquinaria acarre- tou, pela primeira vez, uma completa separação dos meios de produção; o traba- lhador converteu-se em um “operadof”. A máquina impôs uma nova disciplina a quase todos. A fiandeira não podia girar sua roda e o tecelão não podia correr sua lançadeira em casa, livres de supervisão, no horário que lhes conviesse. A partir de então, o trabalho era feito em fábricas, em um ritmo estabelecido por incansáveis equipamentos inanimados, como parte de uma grande equipe que tinha de começar, interromper e parar ao mesmo tempo - sob estrita fiscalização de supervisores, que impunham a assiduidade por meio de compulsão moral e pecuniária e, às vezes, por ameaça fisica. A fábrica era um novo tipo de prisão e o relógio, um novo tipo de carcereiro. Em resumo, apenas os mais significativos incentivos poderiam ter persua- dido os empresários a empreender e aceitar essas mudanças; e somente grandes progressos poderiam ter superado a tenaz resistência dos trabalhadores à meca- nização. As origens do interesse empresarial pelas máquinas e pela produção fabril devem ser buscadas na crescente inadequação dos antigos modos de produção, enraizada em contradições internas que, por sua vez, eram agravadas por forças externas. Entre esses sistemas pré-fabris de organização, os mais antigos foram as ofici- nas artesanais independentes, em que um mestre era, em geral, assistido por um ou mais artífices ou aprendizes. Mas, já no século XIII, essa independência per- deu-se em muitas áreas e o artesão passou a depender do comerciante que forne- cia sua matéria-prima e vendia seu produto. Essa subordinação do produtor ao intermediário (ou, com menos freqüência, dos produtores fracos aos fortes) foi uma conseqüência do crescimento do mercado. Antes, o artesão trabalhava para
  5. 5. 46 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER uma clientela local, um grupo pequeno porém bem estável, ligado a ele tanto pessoalmente quanto por interesses financeiros. Agora, passara a depender de vendas realizadas por intermediários em mercados distantes e competitivos, além de estar despreparado para lidar com as oscilações inerentes a esse tipo de arranjo. Em épocas dificeis, podia ficar totalmente ocioso, sem comprador, e quando os negócios melhoravam em geral tomava emprestada de seu interme- diário a matéria-prima para recomeçar. Uma vez enredado no endividamento - com seu produto final antecipadamente hipotecado a seu credor - era raro que o artesão reconquistasse sua independência. Seu trabalho era suficiente para sus- tentá-lo - nada mais além disso - e ele era, na verdade, senão por princípio, um proletãrio que não vendia um produto, mas mão-de-obra. Além das dificuldades financeiras, o artesão local não tinha condição de co- nhecer e explorar as necessidades dos consumidores distantes. Só o comerciante era capaz de reagir aos fluxos e refluxos da demanda, exigindo modificações no produto final para atender às preferências do consumidor, recrutando trabalha- dores adicionais quando preciso, e fornecendo instrumentos e matérias-primas aos artífices em potencial. Foi assim, primordialmente, que a população rural foi atraída para o circuito produtivo. Logo, os negociantes urbanos perceberam que a zona rural era uma fonte de mão-de-obra barata: camponeses ansiosos para complementar a magra renda da terra com o trabalho extra durante a entressafra, esposas e crianças com horas vagas para preparar o trabalho do homem e aju- dá-lo em suas tarefas. E embora o tecelão, o ferreiro ou cuteleiro do interior fos- sem menos habilidosos do que o artesão da guilda ou o artífice citadino, ele era menos dispendioso porque, pelo menos no início, a utilidade marginal do seu tempo ocioso era baixa e seus recursos agrícolas, mesmo muito modestos, per- mitiam que ele se sustentasse com essa renda adicional muito inferior. Além dis- so, o sistema de produção domiciliar rural estava livre das restrições das guildas sobre a natureza do produto, as técnicas de fabricação e o tamanho do empreen- dimento. Essa descrição de um longo e complexo processo histórico é, sem dúvida, extremamente simplista. Pode-se afirmar que, considerando a Europa como um todo, a maioria dos contratadores da produção domiciliar provinha da área mer- cantil, porém é importante mencionar as muitas exceções: os tecelões que se transformavam em negociantes de tecidos e roupas, empregando seus vizinhos menos empreendedores, e os pisoeiros e tintureiros, que haviam acumulado ca- pital nos processos de acabamento, associavam-se, contratando diretamente o fornecimento de fios e tecidos. Em algumas áreas, em especial nos arredores de Leeds, na região oeste de Yorkshire, os artesãos rurais organizavam seus próprios galpões de tecelagem, uniam-se quando necessário para criar instalações co-
  6. 6. A Revolução Industrial na Inglaterra 47 muns, e vendiam suas peças como fabricantes independentes de tecidos nas fei- ras semanais de produtos têxteis. Porém, mesmo em Yorkshire, essa fragmenta- ção da iniciativa era, sobretudo, característica do comércio lanígero; na fabrica- ção de estame que exigia mais capital, a unidade produtora era maior, e o con- tratante da produção domiciliar tinha um papel mais importante? A indústria têxtil inglesa construiu sua fortuna no fim da Idade Média e iní- cio da era moderna. Nenhum centro de produção, exceto talvez Flandres, diri- giu-se tão rápido das cidades para o interior; calcula-se que, já em 1400, mais da metade da produção de tecidos de lã fosse realizada na zona rural? A tendência continuou: em meados do século XVIII, a fabricação lanígera inglesa era produ- zida, basicamente, pelo trabalho artesanal_ domiciliar; entre todas as cidades asso- ciadas ao comércio de lã, apenas Norwich continuava a ser um importante cen- tro urbano, mas perdia rapidamente sua importância relativa. Além disso, apesar das Variações regionais e algumas pausas ocasionais, a indústria como um todo prosperara de forma impressionante. No final do século XVII e início do XVIII, quando a indústria italiana era uma sombra de seu apogeu, a produção holandesa de tecidos declinava sistematicamente, e a França estava mergulhada numa pro- longada depressão, o consumo inglês de lã crua crescia à taxa de 8% por década; e entre cerca de 1740 e 1770, o aumento decenal foi de 13% ou 14%.4 Esse crescimento merece um exame detalhado, porque foi o primeiro fator que desencadeou as mudanças a que chamamos de Revolução Industrial, e sua compreensão pode ajudar a entender as razões da primazia inglesa no desenvolvi- mento tecnológico e econômico. A indústria lanígera crescera, em parte, devido às condições favoráveis do produto. Nenhum país possuía uma oferta tão abun- dante de lã bruta, em especial de fibras longas exigidas pelos tecidos mais leves e mais resistentes de estames. Além disso, a indústria rural, livre das restrições das guildas ou das regulamentações governamentais, tinha condições de tirar o máxi- mo proveito dessa superioridade, adaptando seu produto à demanda e às variações dessa demanda. Sobretudo, tinha a liberdade de produzir tecidos mais baratos, tal- vez menos resistentes do que as casimiras e os tecidos tradicionais, mas possíveis de serem usados e, muitas vezes, mais confortáveis. Essa liberdade de adaptação e inovação é especialmente importante na indústria leve, na qual os recursos e ou- tras ponderações similares, em geral, são menos signiñcativos como locais opera- cionais do que fatores empresariais. Como um bom exemplo proveniente da in- dústria lanígera inglesa, podemos citar o rápido crescimento do comércio de esta- me de Yorkshire, que ultrapassou o centro mais antigo do Leste da Inglaterra ao longo do século XVIII. Segundo Clapham: "Caso corriqueiro de uma localidade dinâmica e trabalhadora, com certas vantagens pequenas, lançando-se nos níveis mais elementares de uma indústria em expansão. ”5 Teremos oportunidade de as~
  7. 7. 48 PROMETEU DESACORRENTADO ' ELSEVIER sinalar exemplos comparáveis das vantagens da liberdade empresarial, ao examinar os países continentais. Nesse ínterim, vemos que a indústria de lã na Inglaterra be- neficiou-se ainda mais dessa liberdade, visto que seus concorrentes mais perigosos do outro lado do Canal da Mancha estavam submetidos, no século XVII e início do XVIII, a uma regulamentação e controle crescentes. Finalmente, deve-se mencionar a liberdade relativa da indústria inglesa diante dos conflitos e destruição da guerra, o fluxo instável, mas prolongado e abun- dante de hábeis artesãos estrangeiros e o acesso dos centros de produção ao transporte por vias navegáveis e, portanto, a mercados distantes ~ fatores que contribuíam para custos menos onerosos de fabricação e distribuição. Quanto à demanda, a indústria lanígera inglesa foi também, comparativa- mente, favorecida. A população do reino não era grande, mas crescia, em meados do século XVIII, provavelmente mais rápido do que a de qualquer dos paises con- tinentais da Europa. De cerca de 6 milhões em torno de 1700, ela elevou-se a quase 9 milhões em 1800, sendo que 70% a 90% desse aumento ocorreu na se- gunda metade desse período? Ainda mais, a inexistência de barreiras alfandegárias internas ou de tributos feudais criou, na Inglaterra, o mercado mais harmônico da Europa. Essa união política era confirmada pela geografia da ilha: território pe- queno, topograña simples e uma costa profundamente recortada. Em contraste, barreiras alfandegárias dividiam um país como a França, com uma população mais de três vezes maior, em três grandes áreas comerciais fragmentadas, em razão de costumes informais, tributos e encargos obsoletos e, acima de tudo, pela comuni- cação precária em um mosaico de células semi-autárquicas diversas. O homem também aprimorou o legado da natureza. A partir de meados do século XVII, houve um investimento contínuo e crescente de recursos públicos e privados na ampliação do sistema fluvial e na construção de novas estradas e pontes. Em 1750, havia mais de mil milhas de vias navegáveis na Inglaterra e há meio século o Parlamento aprovava leis sobre barreiras de pedágio, à razão de oito por ano. Por mais significativo que fosse esse desenvolvimento, ele era, en- tretanto, insuficiente para as necessidades da economia, e o ritmo dos investi- mentos cresceu acentuadamente nas décadas de 1750 e 1760. Esses anos assisti- ram ao surgimento dos primeiros canais (Navegação Sankey, 1755-59; canal do duque de Bridgewater, 1759-61) e de leis de cobrança de pedágio à razão de 40 por ano. Em duas décadas (1760-1780), vias navegáveis e estradas bem construí- das ligavam os principais centros industriais do Norte e dos condados do centro, estes a Londres, e Londres à bacia do Severn e ao Atlântico. No mercado da Inglaterra, o poder de compra per capita e o padrão de vida eram muito mais elevados do que na Europa continental. Não dispomos de da- dos exatos sobre a renda nacional no século XVIII,7 mas há uma abundância de
  8. 8. A Revolução Industrial na Inglaterra 49 depoimentos sobre a impressão de viajantes dos dois lados do Canal da Mancha quanto à melhor distribuição de riqueza, dos salários mais altos e da maior fartu- ra encontrados na Inglaterra. Assim, um dos sinais mais evidentes de conforto era o consumo de pão branco; no século XIX pode-se fazer uma estimativa comparada do aumento de renda per capita e a disseminação de padrões mais al- tos de vida entre os segmentos mais pobres da população, nas áreas rurais e na Europa central e oriental, seguindo a fronteira do trigo. No século XVIII, a Inglaterra era conhecida como o país do pão branco. Mas isso é um exagero: em vastas áreas, sobretudo nos condados centrais e no Norte, o centeio e a cevada eram os cereais mais consumidos, em especial na primeira parte do século. Mes- mo nessas regiões, no entanto, o pão foi clareando ao longo dos anos, e não exis- tia nada semelhante ao hábito de consumir cereais mais grosseiros, como o tri- go-sarraceno e aveia dos países continentais. Do mesmo modo, havia um gran- de mito na imagem de John Bull, o grande consumidor de carne. Quando Arthur Young sentou-se para comer no País Basco - "o que chamaríamos de comida habitual do camponês" - serviram-lhe "farta provisão de repolho, gor- dura, água e a carne oferecida para toda aquela gente alimentaria só uma meia dúzia de lavradores ingleses que ainda reclamariam com seu anfitrião pela corrij- da escassa"? Até mesmo a comida oferecida pelas casas correcionais, dificilmen- te preparada para tornar a vida de seus residentes mais agradável, incluía carne todos ou dias ou, pelo menos, várias vezes por semana.9 O trabalhador inglês não apenas comia melhor; ele gastava menos dinheiro com comida do que seus semelhantes na Europa continental e, na maioria dos outros lugares, esse gasto diminuía, enquanto do outro lado da Mancha é bem possível que tenha aumentado durante grande parte do século XVIILÍO Portan- to, possuía uma reserva maior para gastar com outras coisas, inclusive com pro- dutos manufaturados. O ingleses tinham a reputação de usar sapatos de couro, ao passo que os holandeses e franceses usavam tamancos. Vestiam-se com roupas de lã, enquanto os camponeses franceses ou alemães tremiam, com freqüência, de frio vestidos com suas roupas de linho, tecido nobre para roupa de cama ou mesa, porém uma proteção precária contra os rigores do inverno europeu. De- foe descreveu, em 1728, com entusiasmo e orgulho, a importância dessa de- manda de produtos britânicos em seu Plan of the English Commerce” (. ..) no mais, vemos suas Casas e I-Iospedarias razoavelmente mobiliadas ou, pelo menos, providas de utensílios necessários de uso doméstico: mesmo aque- les a quem chamamos de pobres, os artífices, gente operosa e esmerada, agem assim; deitam aquecidos, vivem na abundância, trabalham muito e [não] co- nhecem a privação.
  9. 9. 50 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER São essas pessoas que respondem pelo grosso de vosso consumo; é para elas que vossos mercados ficam abertos até mais tarde nas noites de sábado; porque, nor- malmente, recebem tarde seu salário semanal Em uma palavra, elas são a vida de todo nosso comércio, em toda sua multidão: seus números não são centenas ou milhares ou centenas de milhares, mas milhões; é por sua multidão, penso, que todas as rodas do comércio são acionadas, a indústria e a produção da terra e do mar, ñnalizadas, depuradas e adequadas aos mercados externos; é pela largueza de seus rendimentos que eles são sustentados e pela grandeza de seu número que se mantém o país inteiro; com seus salários, eles estão aptos a viver na fartura, e é por seu estilo de vida dispendioso, generoso e livre que o consumo interno é al- çado a tamanho volume tanto da nossa produção quanto da externa. A referência de Defoe ao “estilo de vida dispendioso, generoso e livre" dos ingleses traz à mente um último aspecto do mercado interno inglês: um padrão de consumo favorável ao crescimento de produtos manufaturados. Provavel- mente, mais do que qualquer outra sociedade da Europa, a sociedade britânica era aberta. Não apenas a renda tinha uma distribuição mais eqüitativa do que no continente, como também eram menores as barreiras à mobilidade e mais inde- terminadas as definições do status social. Nada mais revelador nesse sentido do que uma comparação das imagens contemporâneas da sociedade nos diferentes países da Europa ocidental. Em relação à Inglaterra, podemos citar Gregory King ou Joseph Massic - muitos grupos ocupacionais classificados de acordo com a riqueza e tão entremeados a ponto de impedir o desenho de linhas hori- zontais do status na totalidade da pirâmide social. Quanto à França, temos uma estrutura tripartite mais nítida: aristocracia, burguesia, peuple; dentro dessas cate- gorias, é evidente, existem distinções sutis e nem sempre é fácil classificar pes- soas de ocupações diferentes ou grupos limítrofes, como os artesãos e comercian- tes varejistas; contudo, a disposição é ordenada e segue uma lógica tradicional. Na maior parte da Alemanha ocidental, prevalecia o sistema francês, porém mais rígido e mais criteriosamente deñnido, a ponto de a posição social, até mesmo de subgrupos, com freqüência constar formalmente da legislação. A leste do Elba, a sociedade era ainda mais simples: uma pequena aristocracia rural, a gran- de massa de camponeses pessoalmente dependentes e, entre eles, uma camada fina de burgueses comerciantes, espiritual e muitas vezes etnicamente alheios ao corpo social em que viviam e moviam-se encapsulados. Em relação às taxas de consumo, as implicações da maior igualdade de renda são controversas. ” De modo similar, os efeitos da mobilidade são ambíguos; al- gumas pessoas poupam para subir na escala social e outras consomem para serem notadas. O resultado final depende das circunstâncias.
  10. 10. EVIE A Revolução Industrial na Inglaterra 51 A qualidade e o direcionamento do consumo são, contudo, outros novos questionamentos. Nas sociedades não-primitivas, nas quais as habilidades profis- sionais são bem desenvolvidas e em que já houve uma certa acumulação de n'- queza, a desigualdade estimula uma predileção por luxos e serviços extravagan- tes entre as minorias privilegiadas, ao passo que a igualdade promove uma de- manda de confortos mais sóbrios e sólidos para a maioria. A grande riqueza em meio à pobreza é, em geral, produto da relação inferior entre capital e trabalho (ou de investimentos). Ela provoca um pródigo dispêndio no prazer e na ele- gância: numa superabundãncia de empregados domésticos - a ponto de a dona de casa passar mais tempo supeivisionando seus criados do que as mulheres mais modestas gastavam fazendo suas próprias tarefas; em um vestuário sofisticado e caríssimo, na decoração luxuosa das residências e na produção de obras de arte requintadas. A difusão mais eqüitativa da riqueza, no entanto, resulta de uma mão-de- obra cara. Essa era a situação da Inglaterra, onde os salários - admitindo-se a in- certeza e a impossibilidade parcial de comparar as estimativas - eram cerca de duas vezes mais elevados do que os da França e ainda superiores aos do leste do Reno. Em tal economia, as funções de produção recebem mais investimento de capital, enquanto o consumidor rico atende menos a seus caprichos e satisfaz-se com uma quantidade maior de produtos acessíveis, em menor escala e com qua- lidade inferior, aos mais pobres. Por outro lado, o poder aquisitivo relativamen- te elevado da camada mais pobre da população implica uma demanda maior correspondente de artigos que ela precisa comprar e pelos quais pode pagar ~ mercadorias mais baratas e mais simples, que são as mais passíveis de produção em massa. ” Em uma sociedade como essa, a mobilidade é uma força em proveito da pa- dronização. A mudança implica imitação e esta promove a disseminação de pa- drões de consumo por toda a população. Em sociedades em que não há mobili- dade social, distinções claras e invioláveis de vestuário e de estilo representam graus hierárquicos marcantes. Quando surge essa movimentação, como no ñm da Idade Média, leis suntuárias são com freqüência necessárias para imobilizar as pessoas em seu lugar. E, quando a mobilidade torna-se tão comum a ponto de ser considerada por muitos uma virtude, é impossível impor controles discrimi- natórios sobre os gastos. Na Inglaterra, as leis suntuárias estavam em desuso no final do século XVI e foram eliminadas porjaime l em 1604. Nos dois séculos seguintes, a tendência à homogeneidade de gastos - a extinção das diferenças regionais verticais e das distinções sociais horizontais ~ prosseguiu. À época, as pessoas queiXavam-se do luxo das classes inferiores, que se vestiam igual aos seus superiores. Isso é um
  11. 11. 52 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER exagero; a lamentação social como gênero literário é sempre hiperbólica. Além disso, grande parte da elegância do povo era falsa, proveniente de um comércio de roupas de segunda mão. Mesmo assim, a demanda de artigos descartados era a prova da inexistência ou decadência das distinções habituais: os pobres podiam usar e, realmente, usavam o mesmo tipo de casaco que os ricos*, com o abando- no da antiga rusticidade. De novo, trata-se de um exagero - porém, em nenhu- ma economia o campo estava tão intimamente integrado no circuito comercial; em nenhum lugar os focos de autonomia locais eram tão distribuídos. Tudo isso fazia parte de um processo generalizado de urbanização que, por sua vez, era reflexo da comercialização e da industrialização avançadas. Londres, sozinha, tinha uma taxa populacional espantosa: Defoe calculou, em 1725, que possuísse 1,5 milhão de habitantes, quase IA da população do reino. Essa cifra é testemunho, não da precisão de Defoe, mas da impressão que a "cidade grande" inspirava aos contemporâneos; entretanto, mesmo as estimativas conservadoras situavam a população da área metropolitana em cerca da metade desse número. Nas províncias, após a Guerra Civil, as cidades e os povoados desenvolveram-se sistematicamente; entre os de expansão mais rápida, havia “povoados” não emancipados como Manchester que teria, talvez, 12.500 habitantes em 1717 e 20 mil em 1758. Uma estimativa que indique a distribuição de 15% da popula- ção em cidades de 5 mil habitantes ou mais, em meados do século, e de 25% em 1800 estará provavelmente mais próxima da verdade. ” Em contraste, a cifra francesa às vésperas da Revolução era pouco superior a 10%, e a população da Alemanha era ainda mais rural. No entanto, não era apenas o fato de a Inglaterra ter mais pessoas morando nas cidades do que qualquer outro país da Europa, exceto talvez os Países Bai- xos,15 que tornava muito peculiar seu padrão de povoamento, mas sim o caráter da vida urbana inglesa. No continente, muitas cidades tinham funções essencial- mente administrativas, judiciais e eclesiásticas. Suas populações consistiam, principalmente, em burocratas, profissionais liberais e soldados, além de lojistas, artesãos e criados que lhes prestavam serviços. A cidade era menos um núcleo de atividade econômica, que trocava artigos manufaturados e serviços comerciais com produtos da zona rural, do que um centro político e cultural: recolhia im- postos e aluguéis da população rural, como retribuição pelo governo e com base no direito tradicional. Madri é o exemplo clássico desse tipo de povoamento, mas Paris lhe era muito semelhante, e talvez a maioria das principais cidades pro- vincianas francesas, inclusive lugares como Arras, Douai, Caen, Versalhes, *D d ' 'l ^ l ' l ' ' d e mo o simi ar, os contemporaneos rec amavam que os agricu tores imitaram os mo os citadinos.
  12. 12. A Revolução Industrial na Inglaterra 53 Nancy, Tours, Poitiers, Aix e Toulouse. Na Alemanha, a fragmentação do po- der político era um estímulo à multiplicação de centros urbanos semi-rurais, cada qual com sua corte, sua burocracia e sua guarnição. Em contraste, o tamanho relativamente reduzido da organização política bri- tânica e sua concentração em Londres deixou os centros provinciais mais antigos entregues à inércia e à decadência. Nada é mais surpreendente, no mapa da Ingla- terra do século XVIII, do que a modernidade do padrão urbano. As sedes dos condados medievais - Lancaster, York, Chester e Stafford - foram suplantadas por lugares mais novos, como Liverpool, Manchester, Leeds e Birmingham, e já havia uma mudança substancial de população em favor do norte e da região central. Grande parte do crescimento, além disso, não ocorreu nas cidades propriamente ditas, mas no aumento populacional no campo. Surgiram diversos vilarej os indus- triais muitíssimo desenvolvidos - concentrações de centenas de fiandeiros e tece- lões nos distritos manufatureiros de Lancashire e Yorkshire, semelhantes, em muitos aspectos, às antigas aglomerações rurais da Inglaterra oriental. O padrão geral era de um contato estreito e um intercâmbio freqüente entre a cidade e o campo. O comércio e as oficinas iam até os clientes: A. P. Wads- worth observou os numerosos anúncios de aluguel de casas para negociantes nos povoados ao redor de Manchester, o que refletia, de ambos os lados, uma res- posta entusiástica à oportunidade econômica. ” Apesar da escassez de dados, pa- rece claro que o comércio inglês do século XVIII, comparado ao do continente, era extremamente ativo, empreendedor e aberto às inovações. Parte da explica- ção desse fato é institucional: os comerciantes ingleses estavam relativamente li- vres de restrições tradicionais ou legais quanto aos objetos ou ao caráter de sua atividade. Podiam vender o que quisessem em qualquer lugar e podiam concor- rer - e concorriam -livremente com base no preço, propaganda e crédito. Se a maioria dos comerciantes continuava a barganhar, muitos seguiam o exemplo dos quacres e vendiam a preços fixos e marcados. À medida que foram sendo adotados, esses métodos conduziram a uma alocação mais eficiente dos recursos econômicos e a um custo menor de distribuição. Em resumo, o mercado interno de produtos manufaturados desenvolvia-se, graças ao aperfeiçoamento das comunicações, ao aumento da população, à ren- da média elevada e crescente, a um padrão de consumo favorável aos produtos duráveis, padronizados e de preço moderado, e à iniciativa comercial não cercea- da. No entanto, não se pode delimitar seu crescimento com precisão, porque não dispomos de uma estatística sobre o consumo doméstico. Possuímos mais informações sobre o comércio exterior, nem que seja ape- nas pelo fato de que a maioria dos produtos que entrava ou saía do país passava pela supervisão dos funcionários aduaneiros. As estatísticas comerciais são in-
  13. 13. 54 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER completas, inexatas e falseadas pelo uso de valores fixos em um mundo de pre- ços flutuantes. Porém, proporcionam uma ordem de comparação, indicando, por exemplo, um aumento de três ou quatro vezes nas exportações britânicas (incluindo a reexportação) durante os cem anos decorridos entre 1660 e 1760. Vimos que o aumento das vendas da Inglaterra no exterior, assim como no mercado interno, refletiu, em grande parte, sua vocação natural; a isso convém acrescentar algumas vantagens institucionais e históricas. O país tinha uma sólida tradição marítima e, ao contrário da maioria de seus rivais no continente, não desviou suas energias para a manutenção de exércitos dispendiosos e para a ex- pansão territorial. Em vez disso, concentrou-se em garantir privilégios comer- ciais e um império colonial, à custa, em grande parte, de seus principais rivais continentais, a França e os Países Baixos. Essa política, menos dispendiosa do que no território europeu, a longo prazo foi mais vantaj osa. Nenhum país aten- deu mais aos desejos de suas classes mercantilistas; ou foi mais alerta quanto às implicações comerciais da guerra. G. D. Ramsay observou com perspicácia o papel de Londres na promoção dessa harmonia entre o comércio e a diplomacia, contrastando, nesse aspecto, com o isolamento de Bordeaux, Marselha e Nantes em relação a Paris e Versalhes. ” Ao mesmo tempo, a Inglaterra desenvolveu uma grande e potente marinha mercante, bem como instituições financeiras necessárias ã sua manutenção. De todos os países do continente, apenas Holanda, mais uma vez, podia rivalizar com ela, e a relativa superioridade dos Países Baixos situava-se no comércio, e não na indústria. Entre o poderio mercantil holandês e a combinação britânica de poder mercantil e industrial, nunca houve dúvida: o maior trunfo de um por- to é um território produtivo. A longo prazo, a vantagem capital da Inglaterra foi a capacidade de fabricar com baixo custo os artigos em relação aos quais a demanda estrangeira era mais flexível. Os mercados mais promissores da Inglaterra, nos séculos XVII e XVIII, não se situavam na Europa, onde suas indústrias estavam crescendo e cujos go- vernantes mercantilistas eram cada vez mais hostis à importação de produtos manufaturados, mas nas terras de além-mar: no Novo Mundo, na África e no Oriente. Essas áreas eram muito diferentes quanto a necessidades e preferências. Os habitantes tribais da África e os trabalhadores rurais das Antilhas queriam te- cidos finos e leves, cores vivas, metais vistosos ~ lãs finas, xadrezes de linho de al- godão de Manchester, ferragens baratas de Birmingham. As demandas dos cam- poneses indianos ou chineses eram semelhantes (excetuando-se a maioria dos produtos de algodão), embora mais sóbrios. O agricultor da Nova Inglaterra ou o comerciante de Filadélfia, confrontados com um clima mais rigoroso e instá- vel, e mais sofisticados em termos de tecnologia, compravam tecidos mais pesa-
  14. 14. A Revolução Industria¡ na Inglaterra 55 dos e ferragens mais resistentes. Entre todos, havia um denominador comum, porém de cunho negativo: eles não estavam especialmente interessados em arti- gos de luxo, dispendiosos e de acabamento refinado. Assim, o aumento das exportações reforçou as pressões favoráveis à padroni- zação e contrárias à diferenciação, a quantidade em oposição à qualidade. Essa opção pela quantidade em detrimento da qualidade era uma história antiga na indústria inglesa. Mas isso não significa a adulteração ou a venda de produtos in- feriores como artigos de qualidade superior - essa era uma política negativa in- ternacional, como evidencia a reiteração de normas por parte dos governos e das guildas no continente europeu. Refiro-me à adoção de novos métodos de pro- dução, que reduziam os custos em prejuízo da solidez ou da aparência; o melhor exemplo é o uso do carvão em vez da madeira na fabricação de vidro ou na in- dústria da cerveja. ” Essa prontidão em abandonar os Velhos métodos em favor dos novos, em pôr o lucro acima do orgulho artesanal ou até mesmo de uma aparência de orgulho, implica uma certa separação entre o produtor e a produ- ção, uma orientação voltada para o mercado, em vez da fábrica. Em certa medi- da, ela refletiu a dominação inicial da indústria inglesa por interesses mercantilis- tas e a redução do artesão à condição de mero empregado do contratante. Entre- tanto, isso não basta para explicar o fenômeno; na indústria lanífera, por exem- plo, o centro de produção mais dinâmico situava-se em Yorkshire, uma fortale- za dos pequenos fabricantes independentes de tecidos; e na metalurgia, na fabri- cação de vidro, na cervejaria e na indústria química - as indústrias mais afetadas pela introdução do combustível mineral -, a organização da produção não se re- lacionou ao sistema de produção domiciliar. Ao contrário, essa preocupação com os custos deve ser vista como parte de uma racionalidade maior, resultante, em certa medida, das circunstâncias mate- riais - acima de tudo, da maior coesão do mercado inglês e da eficácia das pres- sões competitivas -, mas também como uma força ideológica própria, cujas fon- tes ainda estão por ser exploradas. Com a possível exceção dos Países Baixos, em nenhum país do século XVIII a sociedade era tão sofisticada do ponto de Vista comercial. Em parte alguma era tão rápida a reação aos lucros e perdas; em ne- nhum lugar as decisões empresariais refletiam tão pouco as considerações não-racionais, ligadas ao prestígio e ao hábito. Teremos oportunidade de voltar a examinar essa questão ao falarmos dos investimentos e da oferta de capital para a industrialização. No momento, meu único interesse é mostrar o rumo seguido pelos produtores diante das pressões de mercado e por que eles reagiram. Talvez seja impossível afirmar que parcela do aumento da demanda e da tendência para a produção maciça de artigos mais baratos foi atribuída à expan- são do mercado interno, comparado ao mercado externo. Dispomos apenas de
  15. 15. 56 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER estimativas globais aproximadas da proporção entre as vendas domésticas e as ul- tramarinas, e estas, presumivelmente, abarcam tudo, inclusive os produtos agrí- colas. Mas o que nos interessa aqui é a demanda de produtos manufaturados e apenas de alguns deles. Podemos tentar fazer esse tipo de comparação em rela- ção à indústria lanígera: no final do século XVII, as exportações inglesas de teci- dos de lã respondiam, possivelmente, por mais de 30% da produção industrial local; em 1740, essa proporção parece ter aumentado, talvez para mais da meta- de, e em 1771-2 correspondia a pouco menos da metade. ” Nesse importante ramo, portanto, o principal impulso parece ter vindo do comércio exterior, e Yorkshire, a área exportadora mais ativa da indústria, era também o centro fabril que crescia com mais rapidez. Argumenta-se que a indução de um avanço tec- nológico desse porte requereria um mercado mínimo grande demais para base- ar-se em um país isolado, de modo que o empurrão decisivo dependeria tam- bém do acesso a uma fatia significativa de um mercado mundial em expansão. Uma combinação singular de circunstâncias econômicas e políticas é que teria permitido à Inglaterra conquistar para si, no século XVIII, uma parcela tão gran- de do comércio de produtos manufaturados a ponto de explicar o salto bem-sucedido para o modo de produção "diferenciado".20 Mas a resposta não é tão simples. As cifras que dispomos em relação às ex- portações inglesas (sobretudo de produtos manufaturados) mostram uma clara estabilização no terceiro quartel do século. O Volume de carregamentos de lã caiu a partir do fim da década de 1750; os produtos de algodão oscilaram no fim da década de 1760 e na de 1770; a queda no tocante ao ferro e ao aço ocorreu no fim da década de 1760 -, mas foi acentuada e persistiu até a década de 1790.21 David Eversley mostrou-se contrário à aceitação simplista das exportações como o principal setor da economia em processo de revolução: observando o peso e a relativa estabilidade da demanda interna, ele afirma que só a existência desse tipo de mercado conñável justificou e permitiu a acumulação de capital na indústria. ” Por outro lado (como em muitas questões históricas, é lícito discutir os prós e os contras), essa variabilidade das exportações constituiu, sem dúvida, um estímulo ã mudança e ao crescimento industriais. Não se trata apenas de que o aumento marginal das Vendas muitas vezes traduz a diferença entre lucros e perdas; ocorre que os surtos de demanda ultramarina impuseram cargas abruptas e rígidas ao sistema produtivo, impingiram uma situação de custos rapidamente crescentes às empresas e ampliaram o incentivo à transformação tecnológica. A partir do fim do século XVIII, os fluxos de investimento pareceram suceder-se aos aumentos das vendas no exterior. ” De qualquer modo, essa demanda crescente continha as sementes da dificul- dade. Toda forma de organização industrial traz em seu âmago oportunidades de
  16. 16. ELSEVIER A Revolução Industrial na Inglaterra 57 conflito entre empregador e empregado. Estas são particularmente graves no sis- tema de produção domiciliar, porque fornecem tanto as armas quanto as causas da hostilidade: o trabalhador detém a custódia da matéria-prima do empregador e a transforma, trabalhando para isso em um horário a seu critério, em sua própria casa, livre de supervisão. O único recurso do negociante é o controle limitado so- bre a renda dos empregados: se lhes pagar um Valor suficientemente baixo, eles se- rão forçados a trabalhar, por medo da fome; e, se da remuneração lhes deduzir qualquer desvio dos padrões de qualidade, eles serão obrigados a manter um nível mínimo de desempenho. Sem dúvida, o exercício dessas restrições deriva do esta- belecimento de algum tipo de vínculo monopsônico entre o empregador e o tra- balhador; caso contrário, o empregador terá de aceitar o preço da mão-de-obra vigente no mercado. Parece incontestável o fato de, muitas vezes, haver efetiva- mente existido esse vínculo - em razão do monopsônio real em algumas áreas, de laços pessoais, ou do endividamento - e de ele ter levado a abusos.24 Existem ele- mentos folclóricos signiñcativos construídos em torno da figura do ganancioso negociante de tecidos e de seu criado ainda mais avarento, Jimmy Squeezum. Por sua vez, também é evidente que esses controles eram, na melhor das hi- póteses, irregulares e de efeito limitado; que o trabalhador cedo aprendeu a complementar sua renda por meio do desvio, para uso pessoal ou para revenda, de parte da matéria-prima fornecida pelo negociante. Essa apropriação indébita costumava ser efetuada em detrimento do produto final: o fio era engomado para atingir um peso falso; o tecido era esticado até e além do ponto de transpa- rência. Tampouco havia qualquer sentimento de compunção moral por essa subtração, encarada como uma prerrogativa normal do oficio e mais do que jus- tificada pela exploração dos negociantes. O controle do empregador sobre a mão-de-obra atingia sua força máxima no mercado em depressão. Nessas ocasiões, a ameaça de desemprego pairava pe- sadamente sobre os trabalhadores domiciliares e, do ponto de vista do negocian- te, uma das maiores vantagens do sistema de produção domiciliar era a facilidade de dispensar os empregados, pois os custos indiretos eram mínimos. (Mais tarde, quando a alternativa da produção concentrada nas fábricas tornou-se acessível, muitos empresários, especialmente nos países do continente, retardaram a mu- dança em virtude da flexibilidade dos arranjos anteriores. ) No século XVIII, no entanto, os contratantes ingleses da produção domiciliar depararam-se com um mercado tradicional em expansão, que minou a disciplina industrial e agravou os conflitos endêmicos ao sistema. A predileção dos trabalhadores pela apropria- ção indébita, acentuada na depressão pelo desejo de compensar perdas maiores e a falta de trabalho, não dirninuía na prosperidade; ao contrário, a recompensa pelo furto era maior.
  17. 17. 58 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER Além disso, embora o sistema fosse flexível de cima para baixo, era difícil aumentar a produção. Até certo ponto, a indústria rural expandiu-se facilmente com a abertura de novas áreas, mudando-se das imediações das cidades manufa- tureiras para os vales vizinhos e para as regiões montanhosas menos acessíveis, difundindo-se como um líquido à procura de seu nível m no caso, o mais baixo nível salarial possível. Foi assim que a indústria lanígera encheu as várzeas de Wiltshire e Somerset e floresceu ao longo de todos os charcos galeses no fim do século XVI; no continente, as crescentes fabriques de lã de Verviers e Monschau iam buscar seus tecelões na província de Limburg, em meados do século XVIII, enquanto a fabricação de algodão da Normandia, depois de se espalhar pela re~ gião de Calvados, começou a instalar-se na Picardia. Mas, na Inglaterra do século XVIII, as possibilidades de expansão geográñca es~ tavam praticamente esgotadas. As áreas mais acessíveis tinham sido exploradas e atraídas para o sistema. Os tecelões de estame de West Riding compravam fio nas várzeas do Norte e em regiões tão distantes quanto a Inglaterra oriental. Em Lancas~ hire, em meados do século, os tecelões andavam milhas para obter os fios de trama que manteiiam seus teares ocupados pelo resto do dia, e subornavam as fiandeiras com fitas e outras futilidades. Grande parte dessa dificuldade devia-se à diferença dos requisitos de mão-de-obra para a fiação e a tecelagem: eram necessárias pelo menos cinco rodas para suprir um tear, uma proporção comumente discrepante em relação à composição da população. Enquanto a questão era apenas de encontrar Bandeiras rurais - cujos maridos trabalhavam nos campos - para fornecer o fio aos tecelões ur- banos, não havia problema. Mas, depois que a tecelagem disseminou-se para o inte- rior e os homens abandonaram o cultivo da terra em prol da indústria, o desequilí- brio estava fadado a se transformar em um obstáculo à expansão. Há indícios de que algumas fiandeiras haviam começado a se especializar em tipos específicos de fio em meados do século XVIII, de que havia surgido uma divisão de trabalho, ao menos em algumas partes de Lancashire, em resposta à pressão da demanda. Porém, isso di- ficilmente seria o bastante, dada a situação da tecnologia, e o preço do fio subiu drasticamente entre o fim do século XVII e meados do século XVIII. Essencialmente, o aumento deveu-se ã dispersão cada vez maior da força de trabalho, pois os salários nominais da fiação pouco se modificaram. Primeiro, o custo do transporte era elevado; ainda mais grave em um mundo de comunica- ções precárias, o preço da movimentação dos produtos não era uma simples fun~ ção da distância; os custos aumentavam muitissimo todas as vezes que era preci- so cruzar uma barreira natural ou cobrir lacunas na rede de estradas e de vias flu~ viais. Mais cedo ou mais tarde, portanto, o fabricante em expansão via~se enre- dado numa trama enorme de custos e obrigado a buscar uma produção maior dentro de sua própria área de atuaçãofs
  18. 18. A Revolução Industrial na Inglaterra 59 A longo prazo, é claro, ele podia esperar que a imigração e o aumento natu- ral da população ampliassem sua mão-de-obra. Havia uma movimentação con- siderável da população, apesar das restrições devidas às leis de povoamento; Lan- cashire, em particular, era uma espécie de fronteira interna, atraindo milhares de pessoas dos condados adjacentes, bem como da Irlanda e da Escócia, muito antes do surgimento da maquinaria e das fábricas. Ao fornecer novos recursos, a ativi- dade industrial possibilitava uma ampla divisão da terra, incentivava os casamen~ tos prematuros e dava origem a densidades populacionais que, de outro modo, teriam sido inconcebiveis. O professor Habakkuk e outros chamaram a atenção para a atração da indústria pelas áreas super povoadas;26 mas, nesse aspecto, como tantas Vezes sucede na história, o processo era de reforço recíproco: a in- dústria rural freqüentemente lançava as bases do que, por fim, convertia-se numa superpopulação. ” Entretanto, a migração e o aumento natural são paliativos de ação lenta. A curto prazo, o fabricante que quisesse aumentar a produção tinha de extrair mais trabalho da mão-de-obra já contratada. Nesse ponto, contudo, ele tornava a es- barrar nas contradições internas do sistema. Não dispunha de nenhum meio para obrigar seus empregados a prestarem um determinado número de horas de tra- balho; o tecelão ou artesão doméstico era senhor de seu tempo, começando e parando quando desejava. Embora o empregador pudesse elevar o salário por unidade produzida, para estimular a diligência, era comum ele constatar que isso, na verdade, reduzia a produção. O trabalhador, que tinha uma concepção bastante rígida do que considerava ser um padrão de Vida decente, a partir de um certo ponto preferia o lazer à renda; quanto mais alta sua remuneração, menos precisava trabalhar para atingir esse ponto. Nas épocas de abastança, o camponês vivia o dia~a-dia; não pensava no futuro; gastava boa parte de seus parcos troca- dos na estalagem ou na cervejaria local; farreava no sábado de pagamento, no domingo de descanso e também na "sagrada segunda-feira"; arrastava-se relu- tantemente de volta ao trabalho na terça, animava-se com a tarefa na quarta e trabalhava furiosamente na quinta e na sexta, para acabar a tempo de outro fim de semana prolongado” Portanto, justamente nas ocasiões em que as oportunidades de lucro eram maio- res, o fabricante via~se frustrado por essa inversão das leis do comportamento eco- nômico sensato: a oferta de mão-de-obra caía à medida que o preço se elevava. A tática inversa tampouco era mais eficaz. Os cortes diretos nos salários não eram viá- veis, diante da demanda crescente, visto que havia um limite para o controle do empregador sobre seus empregados. Mais comuns eram os aumentos sub-reptícios das tarefas do trabalhador: ele recebia urdiduras mais longas ou menos crédito pelas perdas; ou então, os métodos de mensuração e pesagem eram alterados em favor
  19. 19. 60 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER do empregador. No entanto, esse tipo de ardil trazia em si suas próprias punições. Os empregados ressentidos eram incitados a furtar ainda mais, e os atritos inerentes ao sistema eram correspondentemente agravados. O século XVIII assistiu a um esforço persistente de sustar o furto de matérias-primas por meio da transformação da apro- priação indébita em um delito criminal, da concessão de direitos especiais de busca e apreensão aos empregadores e agentes da lei, da imposição do ônus da prova a qual- quer pessoa que detivesse matérias-primas cuja posse não pudesse explicar, e do au- mento reiterado das penalidades pela violação. Essas últimas incluíam a punição corporal, uma vez que as multas não surtiam efeito sobre fiandeiros e tecelões sem um tostão. A própria reiteração dessas leis é a melhor prova de sua ineficácia; no úl- timo quarto do século XVIII, o mercado paralelo da lã e do fio transformara-se em um negócio organizado, e afirmava-se que muitos fabricantes de algodão haviam iniciado sua carreira comprando matéria-prima dessa fonte. ” Do mesmo modo, as leis que obrigavam os trabalhadores a concluir prontamente suas tarefas e a cumprir suas obrigações para com um empregador, antes de aceitar o contrato de outro - um problema que aparentemente aumentou com a demanda de mão-de-obra ~ significavam apenas um reconhecimento dessa dificuldade e uma manifestação de intenções. A disciplina do sistema industrial desmoronava-se. A mudança de atitude perante os trabalhadores pobres no fim do século XVII e início do XVIII refletiu, em parte, a frustração e a irritação dos empre- gadores. Em épocas anteriores, a pobreza fora encarada como um mal inevitá- vel, e os pobres, considerados como objeto de piedade e responsabilidade para seus vizinhos. Agora, ela passou a ser vista como um pecado, e os pobres, víti- mas de sua própria iniqüidade. Nesse aspecto, Defoe é apenas o porta-voz mais claro e eficiente, que punia o trabalhador pela indolência e o desperdício de seu tempo no ócio e em diversões vulgares, e pelo vício que o levava a dissipar seus escassos recursos no álcool e na devassidão. Essa indignação virtuosa pare- ce ter se atenuado a partir de meados do século; ao menos, aqueles que escre- viam sobre questões econômicas começavam a argumentar que os trabalhado- res não eram uns preguiçosos incorrigíveis e, na verdade, reagiam positiva- mente a melhores salários. Coats sugeriu que essa mudança deveu-se em gran- de parte à introdução da maquinaria e à promessa de uma solução definitiva para o problema. ” Talvez; enquanto isso, os negociantes continuavam céticos e, em lugares como Manchester, ainda dizia-se às pessoas, em 1769, que o “melhor amigo” de um fabricante eram estoques elevados. ” compreensível que a visão dos empregadores se voltasse para oñcinas em que os homens se reu- niam para trabalhar sob a vigilância de capatazes atentos, e para máquinas que solucionassem a escassez de mão-de-obra e, ao mesmo tempo, cerceassem a insolência e a desonestidade humanas.
  20. 20. A Revolução Industrial na Inglaterra 61 No entanto, se essa necessidade crescente de uma mudança no modo de produção esclarece o aspecto de demanda por inovações tecnológicas, ela não basta para explicar o aspecto da oferta, ou seja, as condições que possibilitaram a concepção de novos métodos e sua adoção pela indústria. Um fato, contudo, é evidente: se a Grã-Bretanha era o país que sentia mais profundamente a ina- dequação do sistema em Vigor, ela não era o único. Os grandes centros contí- nentais também sofriam com a escassez de mão-de-obra e com os abusos da in- dústria domiciliar. Como já mencionado, os tecelões e os industriais comer- ciantes da Normandia, Verviers, Renânia e Saxônia eram obrigados a procurar o fio para tecelagem em lugares cada vez mais distantes, muitas vezes enfren- tando, nos países produtores, leis que proibiam sua exportação para os concor- rentes. Tampouco foi essa a primeira vez na história em que a demanda pres- sionou intensamente a capacidade de fabricação artesanal e domiciliar: na Itália e na Flandres medievais, dificuldades análogas haviam surgido, sem provocar uma revolução industrial. O problema pode ser analisado sob dois aspectos: as condições que regeram a invenção dos mecanismos poupadores de mão-de-obra e as que determinaram a adoção desses mecanismos e sua difusão na indústria. Em relação ao primeiro enfoque, parece claro, embora dificil de demons- tra-lo, que existia na Inglaterra do século XVIII um nível de qualificação técnica mais elevado e um interesse maior pelas máquinas e “engenhocas” do que em qualquer outro país da Europa. Isso não deve ser confundido com o conheci- mento científico; apesar de alguns esforços para relacionar a Revolução Indus- trial à revolução científica dos séculos XVI e XVII, esse elo parece ter sido ex- tremamente difuso: ambas refletiram um interesse maior pelos fenômenos natu- rais e materiais e uma aplicação mais sistemática da investigação empírica. Na verdade, o aumento dos conhecimentos científicos decorreu em grande parte das preocupações e conquistas da tecnologia; houve um fluxo muito menor de idéias ou métodos no sentido inverso e isso persistiria no século XIX. ” Tudo isso torna ainda mais misteriosa a questão da aptidão mecânica inglesa. O depoimento dos observadores contemporâneos a esse respeito é ambíguo: al- guns consideravam os ingleses criativos, além de artesãos sumamente talentosos; outros os encaravam como simples imitadores inteligentes; não há indícios, an- tes das grandes inovações do século XVIII, de qualquer reservatório excepcio- nal de talentos nessa esfera. Sem dúvida, havia os construtores de moinhos, os relojoeiros, os marceneiros e outros artesãos cuja experiência de construção e engenhosidade os capacitava a serem os mecânicos de uma nova era. Mas a Inglaterra não era o único país dotado de tais artesãos, e apesar disso em nenhum outro lugar encontramos essa safra de invenções.
  21. 21. 62 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER Apesar de não haver provas positivas de um nível superior de aptidão técni- ca na Inglaterra, existe um forte argumento indireto a favor dessa premissa: mes- mo depois da introdução das máquinas têxteis (e também das novas técnicas me- talúrgicas e químicas), os países do continente não se mostraram preparados para imita-las. Entre as primeiras cópias, as mais eficientes foram, quase todas, obra de mecânicos ingleses emigrantes, e passaram-se décadas antes que o resto da Europa se libertasse da dependência em relação às aptidões britânicas. E esse longo aprendizado tampouco prolongou-se em virtude de um desejo de empre- gar trabalhadores mais produtivos. Os artesãos ingleses que iam para o continen- te eram caros, saudosos de sua terra natal e insubordinados. Seus empregadores mal podiam esperar para livrarem-se deles. A razão pela qual os ingleses desenvolveram essas habilidades mais cedo e mais depressa é outra questão. Acaso terá sido porque os controles corporativos da produção e do aprendizado estavam praticamente desarticulados no fim do século XVII, ao passo que a influência contínua da organização das guildas e a supervisão ativa dos governos mercantilistas do continente tendiam a congelar as técnicas em um molde e a bloquear a imaginação? ” Será a Encyclopédie, com suas descrições minuciosas da forma correta de realizar tarefas, um símbolo dessa rigidez? Ou terá sido pelo fato de os caminhos da ascensão social serem diferen- tes, na Inglaterra, do que eram nas monarquias aristocráticas do continente, que o talento mostrou-se ali mais pronto para entrar nos negócios, nos projetos e na invenção do que nas sociedades mais tradicionais? A maioria dos inventores das primeiras máquinas têxteis originava-se da classe média. john Kay era filho de um “pequeno proprietário abastado”; Lewis Paul, filho de um médico. Os ante- cedentes de john Wyatt são vagos, mas ele freqüentou o ensino fundamental e é presumível que tenha vindo do tipo de família que considerava desejável a esco- larização. O pai de Samuel Crompton era um fazendeiro que produzia tecidos como ocupação secundária e que, aparentemente, tinha uma situação confortá- vel. Edmund Cartvvright era filho de um cavalheiro e diplomado em Oxford. Não era desabonador, no século XVIII, os filhos de boas familias serem aprendi- zes de tecelões ou marceneiros. ” O trabalho e a destreza manuais não eram es- tigmas do peuple, em contraste com a bourgeoisie. Surge outra consideração. Será que não apenas a atmosfera inglesa era mais fa- vorável à mudança, mas também a experiência singular em algumas áreas propor- cionava facilidades especiais de treinamento? Qual foi, por exemplo, o papel da máquina de Nevvcomen na conformação da metalurgia e da fabricação de máqui- nas na Inglaterra? Ou será que a explicação resida apenas no fato de que o país pre- cisasse mais de inovações (uma questão de prioridades, é claro, mas essas questões são, em geral, decisivas): havia necessidade de equipamentos mais econômicos
  22. 22. '" l A Revolução Industrial na Inglaterra 63 para a indústria têxtil, cujos produtos tendiam a uma produção de massa; de má- quinas de bombeamento eficazes para as minas; e de encontrar formas de utiliza- ção de combustivel mineral em um país mais ávido por ferro no mundo. As pesquisas recentes e importantes de A. E. Musson e Eric Robinson des- crevem um cenário impressionante da vitalidade com que Lancashire mobilizou e apeifeiçoou as aptidões tecnológicas na segunda metade do século XVIII, ao importar artesãos de Londres e da Escócia e capitalizando suas fortes tradições de trabalho especializado para transformar marceneiros em construtores de moi- nhos, ferreiros em fundidores, relojoeiros em operadores de máquinas de fundi- ção de moldes e gravadores.35 Ainda mais surpreendente era o conhecimento teórico que esses homens possuíam. Não eram, como um todo, os funileiros ile- trados da mitologia histórica. Mesmo o construtor de moinhos comum, como Fairbairn assinala, era com freqüência “bom matemático, sabia algo de geome- tria, nivelamento e mensuração e, em alguns casos, tinha um conhecimento bem capacitado de matemática prática. Sabia calcular a velocidade, força e po- tência das máquinas: podia operacionalizá-las no plano e seção. ...36 Muitos des- ses “ganhos intelectuais mais elevados" refletiam as facilidades abundantes de educação técnica nos “povoados” comoiManchester nesse período, estenden- do-se de dissidentes acadêmicos e sociedades cultas a palestrantes locais ou visi- tantes, escolas privadas de "matemática e comércio", que ministravam aulas no- turnas, e uma ampla circulação de manuais, periódicos e enciclopédias. Quaisquer que tenham sido as razões para a precocidade da Grã-Bretanha nesse domínio, os resultados eram claros; e igualmente clara a relativa facilidade com que os inventores obtinham financiamento para seus projetos e a rapidez com a qual seus produtos eram incorporados pela comunidade manufatureira - a bem dizer, em demasia, porque muitos dos inventores iniciais passavam mais tempo reclamando o direito de suas patentes do que obtendo-o. ” Alguns se be- neficiaram dessa rápida difusão de mudanças em virtude da maior acumulação de capital na Grã-Bretanha do que em qualquer outro lugar na Europa, com ex- ceção da Holanda (que foi suficientemente generosa para enviar alguns de seus recursos excedentes para a Inglaterra, em vez de investi-los em sua própria in- dústria). Esses autores argumentam que a maior oferta de capital refletiu-se em taxas de juros mais baixas, que tenderam a decrescer ao longo do século XVIII, e que isso, por sua vez, tornou a mudança muito menos dispendiosa e, pari passa, muito mais lucrativa e atraentedg O argumento é persuasivo, mas os fatos históricos ínclinam-se a modifica-lo em diversos pontos e a diminuir sua importância em outros. Por um lado, é im- provável que diferenças da ordem de dois, três ou até seis pontos percentuais na taxa de juros fossem uma consideração decisiva, quando a vantagem mecânica
  23. 23. 64 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER z da inovação era tão grande como foi em relação às primeiras máquinas têxteis. E compreensível que a escolha do momento de construir canais e estradas, ou pro- jetos igualmente dispendiosos e de gestação lenta, fosse afetada pelas alterações da taxa de juros, em parte porque a própria possibilidade de ñnanciamento de» pendia, muitas vezes, de um mercado financeiro favorável. Para o empresário têxtil em potencial, o problema não era saber se seus lucros cobririam 6% ou 12% sobre o capital tomado de empréstimo, mas se ele conseguiria ou não le- vantar algum capital. Nesse aspecto, o fabricante de algodão do século XVIII foi favorecido pela própria novidade da Revolução Industrial. Por mais complicadas que fossem para os contemporâneos, as primeiras máquinas eram, ainda assim, engenhocas rudimentares de madeira, que podiam ser construídas com um custo baixíssimo. Uma máquina de flar com 40 fusos talvez custasse , g6 em 1792; as cardas abrido~ ras e batedoras custavam , g1 por polegada de largura do rolo; uma maçaroqueira com 30 fusos custava , Ç10,1Os.39 E eram máquinas novas. Equipamentos seme~ lhantes eram freqüentemente anunciados, já usados, por preços bem inferiores. Os únicos itens realmente dispendiosos da inversão em capital fixo nesse perío- do eram os prédios e a energia, mas, com respeito a isso, o historiador deve lem- brar-se de que as grandes fábricas de vários pavimentos, que assombravam os contemporâneos, constituíam uma exceção. A maioria das chamadas fábricas eram apenas oficinas melhoradas: uma dúzia de operários ou menos, uma ou duas fiandeiras manuais, talvez, ou fiandeiras automáticas; e uma carda para pre- parar as mechas. Esses aparelhos primitivos eram acionados pela força dos ho- mens e mulheres que os operavam. ” Sótãos e casas eram readaptados para esse fim; mais tarde, podia-se acrescentar uma máquina a vapor a esse tipo de estru- tura improvisada. Além disso, havia instalações de aluguel - e aí temos outro exemplo da receptividade do capital inglês às oportunidades econômicas. Não só se ofereciam prédios completos a inquilinos em potencial, como também ofi- cinas maiores eram subdivididas e alugadas em pequenas unidades. Assim, um industrial podia começar com um desembolso mínimo de capital - alugando sua fábrica, tomando empréstimos para a aquisição de equipamentos e maté- ria~príma, e até levantando recursos para o pagamento dos salários, com a venda antecipada do produto acabado. Alguns, sem dúvida, começaram sem nada além do capital acumulado na pequena comercialização local de fios e tecidos; outros, como assinalado antes, parecem ter construído suas fortunas no mercado parale- lo de matéria~prima furtada. Por outro lado, um bom número dos primeiros proprietários de tecelagens eram homens de posses - comerciantes cuja experiência na venda de produtos acabados os havia alertado para as possibilidades da produção mecanizada em
  24. 24. EEVIE A Revolução Industrial na Inglaterra 65 larga escala, contratantes de trabalho domiciliar que tiveram uma experiência direta na indústria, e até pequenos produtores independentes com uma poupan- ça suficiente para modificar seus métodos e expandir seu negócio. Assim, dos 110 cotonificios fundados nas Midlands no período de 1769 a 1800, 62 foram fundados por negociantes de artigos de malha, tecidos e linhas, e fabricantes provenientes de outros distritos ou de outros ramos da indústria têxtil.41 Essa acumulação prévia de riqueza e experiência foi um fator fundamental na rápida adoção das inovações tecnológicas ~ como aconteceu nas indústrias siderúrgica e química. Agora fechamos o círculo: as invenções surgiram, em parte, porque o crescimento e a prosperidade da indústria tornaram-nas imperativos; e o cresci- mento e a prosperidade da indústria contribuiram para possibilitar sua utilização precoce e amplamente disseminada. Toda essa argumentação serve para enfatizar uma premissa importante: não foi o capital, por si só, que possibilitou o rápido progresso da Inglaterra. O di- nheiro, sozinho, poderia não ter feito nada; na verdade, nesse aspecto, os em- presários do continente, que muitas vezes podiam contar com subsídios diretos ou privilégios monopolistas advindos do Estado, estavam em melhor situação que seus pares ingleses. O que distinguiu a indústria britânica, como já mencio- namos várias vezes, foi uma excepcional sensibilidade e receptividade às oportu- nidades pecuniárias. Tratava-se de um povo fascinado pela riqueza e pelo co- mércio, coletiva e individualmente. A razão dessa inclinação pessoal merece uma pesquisa. Com certeza, esse fe- nômeno estava estreitamente relacionado, como causa e efeito, com a _já assina- lada abertura da sociedade; e esta, por sua vez, estava ligada à posição e ao caráter peculiares da aristocracia. A Inglaterra não tinha nobreza, no sentido dos outros países europeus. Ha- via um conjunto de pares, composto de um pequeno número de pessoas porta- doras de títulos de nobreza, cuja prerrogativa essencial e quase única era a possi- bilidade de se sentar na Câmara dos Lordes. Seus filhos eram plebeus. Muitas ve- zes, de fato, recebiam títulos de cortesia em sinal de sua origem elevada, mas não diferiam, em sua condição civil, dos outros ingleses. Mesmo os Pares do Reino tinham apenas os mais modestos privilégios: o de serem _julgados por nobres como eles em processos criminais, por exemplo, ou o direito de acesso direto ao soberano. Não gozavam de imunidades fiscais. Abaixo da nobreza situava-se a pequena aristocracia, ou a chamada fidalguia rural - um grupo amorfo, sem definição ou posição legal, que não tinha equiva- lentes no continente. Seus limites eram indistintos e suas classes tinham uma constituição frouxa e heterogênea. Alguns pequenos aristocratas eram de ascen- dência nobre; outros haviam feito fortuna no comércio, nas profissões liberais
  25. 25. 66 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER ou no serviço público, e haviam adquirido terras tanto em nome de seu prestí- gio social quanto no de sua renda; outros eram herdeiros de antigas famílias ru- rais; outros, ainda, eram fazendeiros ou oficiais da casa real que haviam enrique- cido. Eles tinham duas coisas em comum: a posse de terras e um estilo de vida que lembrava o senhor do feudo medieval. Eram esses os notáveis locais - se- nhores das herdades, juízes de paz, xerifes dos condados. Juntamente com os Pa- res, eram os verdadeiros governantes da Inglaterra provincial. A nobreza e a aristocracia rural costumavam praticar a primogenitura: o fi- lho mais velho herdava o título (quando pertinente) e as terras. Isso tinha duas grandes conseqüências: aumentava o fardo econômico do chefe da família e obrigava a maioria dos ñlhos a ganhar a Vida, no todo ou em parte. Não era uma tarefa simples preservar e, se possível, ampliar a herdade fa- miliar para transmissão ao herdeiro e, ao mesmo tempo, obter posições para os filhos mais novos e dotes para as ñlhas. Daniel Finch, conde de Nottingham, de- ixou bem claro esse ponto numa carta de 1695 a seus testamenteiros; ele era fa- vorável à legação rigorosa ao primogênito e escreveu: não tanto pela vã pretensão de manter uma grande propriedade em minha famí- lia, mas porque, com isso, [meu filho] estará sujeito à necessidade de observar uma economia saudável, a fim de que possa prover seus filhos mais novos. Por conseguinte, não incorrerá no estilo de vida insensato ou extravagante que per- verte e corrompe os costumes de muitas famílias, assim como lhes arruínam as fortunas. . .42 Sem dúvida, a sociedade britânica havia assegurado carreiras para os filhos mais novos das boas famílias: cargos remunerados no governo, benefícios eclesiás- ticos, comissões nas forças armadas; e um número crescente de situações poten- cialmente lucrativas nas colônias (que só passaram a ter importância na segunda metade do século XVIII). Mas, por mais exorbitantes e ociosas que fossem muitas dessas posições aos olhos dos reforrnistas contemporâneos, elas não eram suficien- tes para atender à demanda, como indica a competição pelo direito de nomeação para cargos públicos, e tinham de ser partilhadas com outros grupos, como a car- reira de advogado e os interesses mercantis. As prebendas e cargos oficiais eram di- ñceis de obter, e era raro um pai conseguir boas posições para mais de dois ou três ñlhos. Citando de novo Nottingham: "nenhuma propriedade é capaz de dotar tão plenamente os filhos menores a ponto de eles não terem, em grande medida, de ajudar a si mesmos”. O quarto e o quinto ñlhos da fidalguia rural, e até das famílias nobres, precisavam fazer sua aprendizagem no comércio ~ não o comércio lojista, é evidente, mas o comércio internacional, que era, ao mesmo tempo, o orgulho da economia inglesa e a fonte de novas casas. ”
  26. 26. .. .CEE. n '- R l' A Revolução Industrial na Inglaterra 67 Raramente, quatro ou cinco filhos varões sobreviviam até a idade adulta, e é presumível que o fluxo de talento aristocrâtico que escoava para os negócios fosse pequenof” Com certeza, ele foi menos importante no século XVIII do que tinha sido em períodos anteriores, em parte, talvez, porque a Casa Real trouxe de Hannover preconceitos alemães arraigados contra esse tipo de mobili- dade e, ainda, porque a proliferação dos cargos oficiais e a extensão do domínio britânico estavam abrindo oportunidades alternativas que eram mais atraentes e acessíveis.45 Mas o que importava não era tanto a contribuição substantiva para a esfera empresarial, e sim o simbolismo do exemplo, a sanção que essa participa- ção legítima, por menor que fosse, conferia ao comércio, tornando-o uma ativi- dade respeitável, e à racionalidade financeira como um estilo de vida. O chefe da família tinha de construir um patrimônio e coloca-lo a serviço de si e de seus ñlhos. Nem todos os senhores de terras eram bem-sucedidos na dispu- ta pela fortuna, ou sequer tentavam obtê-la, mas, quando se esmeravam, compu- nham uma classe de "proprietários intrépidos” que eram um consolo para o cora~ ção de progressistas como Arthur Young. Nobres ou aristocratas, eles viviam em suas propriedades rurais (e não na corte), percorriam suas terras e anotavam sua produção, buscavam benfeitorias que aumentassem a receita tradicional e conce- biam novas maneiras de produzir renda. Raramente encarregavam-se diretamen- te do cultivo ou da operação ~ embora se possa citar exemplos contrários, como Thomas Fitzmaurice, irmão do conde de Shelburne, que, entre outras iniciativas, alvejava e vendia os artigos de linho tecidos por seus arrendatârios irlandesesÍló (Mesmo quando tinham feito sua fortuna no comércio e continuavam na firma, eles inevitavelmente dedicavam menos tempo aos interesses mercantis). Em vez disso, alugavam suas terras a arrendatários - camponeses, agricultores comerciais ou empreiteiros industriais. Quando ñnanciavam empreendimentos comerciais, faziam-no mais na condição de credores do que de sócios; ou então adquiriam ações de sociedades anônimas e companhias fíduciárias. Seus interesses costuma- vam ser geridos por administradores, agentes e procuradores, o que os expunha aos abusos de confiança. Isso era uma razão ainda maior para supervisionarem de perto seus negócios, e muitos deles tomaram decisões que trazem a marca de um espírito empresarial ativo. Um número pequeno, mas significativo, escavou mi- nas, construiu usinas siderúrgicas, abriu canais, desenvolveu portos e arrendou suas propriedades urbanas para ñns de construção. E, o que é mais importante, eles previam a demanda, faziam investimentos especulativos, anunciavam, se necessá- rio, à procura de locatários, e dispunham~se a administrar suas instalações por meio de agentes ou sócios, caso não surgisse nenhum inquilino. Eles também demarcavam a terra, concentravam as posses, traziam ou en- contravam arrendatários que introduzissem uma melhor rotação de culturas e
  27. 27. 68 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER melhores técnicas de cultivo, e ajudavam a difundir novas idéias no interior. Este não é o lugar para discutir a chamada “revolução agrícola” do século XVIII, ou para avaliar os beneficios ou as injustiças que a acompanharam. Meu objetivo, aqui, é assinalar o caráter generalizado desse espírito de inovação e de seus efeitos; e também lembrar o fato conhecido de que a sociedade inglesa er- guia relativamente poucas barreiras institucionais às mudanças fundamentais desse tipo. A monarquia Tudor preocupou~se com as demarcações territoriais; o regime parlamentar do século XVIII foi menos paternalista. Para o bem ou para o mal, o interior da Inglaterra foi sendo misturado como o pão, e os proprietá- rios rurais progressistas foram um poderoso fermento. É provável que essas aventuras industriais empreendidas por pessoas "de nome” fossem, em geral, menos compensadoras que os esforços competitivos dos negociantes “profissionais”; ou que as grandes herdades não pudessem com- parar-se às terras dos pequenos proprietários vizinhos. ” Também é verdade que a nobreza e a aristocracia rural tenderam, ao longo do tempo, a passar de empre~ sárias ativas a arrendatárias; foi essa a experiência, por exemplo, de áreas como o País de Gales e Northumberland, onde os grandes depósitos de carvão e de mi- nério de ferro haviam fornecido, inicialmente, uma base favorável para a ativi- dade industrial dos proprietários de terras. Contudo, a importância desses esfor- ços residia neles mesmos, e não em sua lucratividade. Mais uma vez, ela devia-se à legitimidade conferida à inovação e à busca da riqueza como estilo de Vida. Uma comparação permite esclarecer esse argumento. Até este ponto, abordei essa permeação da vida rural pelo espírito de iniciativa e de previsão, como uma conseqüência da estrutura social e do sistema de transmissão da herança. Sem dú- vida, há muito ainda que discutir. Em parte, ela refletiu provavelmente o ritmo de aceleração da economia: novos homens continuavam a ascender, e as famílias an~ tigas tinham de apressar-se para conservar suas posses. Por sua vez, é possível que essa permeação tenha sido uma resposta às novas oportunidades, sobretudo à cres~ cente demanda dos recursos que se achavam nas mãos dos proprietários rurais. Po- rém, essa resposta não era necessária nem inevitável. Para a nobreza e a aristocracia rural, teria sido igualmente simples voltar as costas para seus novos rivais e acabar com a concorrência, definindo os meios da ascensão deles como intrinsecamente ignóbeis. Fora esse o comportamento da aristocracia da Europa no Renascimen- to, ao elaborar a própria idéia do cavalheiro como uma arma contra as pretensões da burguesia. ” Essa seria a reação de boa parte da aristocracia européia no século XIX, diante da revolução industrial e da alteração correspondente na balança do poder político. A nobreza e a aristocracia rural inglesas optaram por acolher os re- cém-chegados nesse ínterim: afirmaram sua distinção por berço ou instrução, mas a alicerçaram com um culto ativo e produtivo do lucro.
  28. 28. A Revolução Industrial na lnglaterra 69 Essa decisão altamente significativa foi auto-reforçadora. O interesse do fi- dalgo inglês pela ampliação de sua fortuna converteu-o em um participante da sociedade, em vez de um parasita w a despeito de qualquer tipo de julgamento sobre o caráter dessa participação. Os interesses comerciais promoveram um grau de intercâmbio entre pessoas de diferentes posições e modos de vida que não teve paralelo no continente. Como escreveu Lord Hervey em 1731: Costumávamos sentar para jantar com um pequeno e aconchegante grupo de umas 30 pessoas, empanturradas de carne de vaca, veado, ganso, peru etc. , e, em geral, mais do que cheias de clarete, cerveja forte e ponche. Tínhamos lor- des Espirituais e Temporais, além de plebeus, vigários e inúmeros proprietários de bens alodiais. ” l Comparemos isso com as reflexões de Arthur Young sobre uma visita ao duque de la Rochefoucauldzso Na casa de um nobre inglês, teria havido três ou quatro fazendeiros convida- dos para me conhecer, que teriam jantado com a família, entre as senhoras da mais alta estirpe. Não exagero ao dizer que passei por isso, pelo menos uma centena de vezes, nas melhores casas de nossas ilhas. Trata-se, contudo, de uma coisa com que, no atual estado dos costumes em França, não me depara- ria desde Calais até Bayonne, exceto por acaso - na residência de algum gran- de senhor que houvesse estado com freqüência na Inglaterra e, mesmo assim, não sem ser solicitado. Ou então, voltando à Inglaterra, consideremos a amizade de Robert I-Ie- Wer, comissário da navegação mercante e negociante bem-sucedido, transfor- mado em proprietário rural e senhor do solar de Manadon (perto de Plymouth), com o duque e a duquesa de Bedford: ele passava semanas como hóspede desses últimos em Woburn Abbey, onde participava "de todos os seus grupos de dile- tantismo! "; e a visita repetiu-se diversas vezes.51 Um relacionamento contínuo como esse é mais significativo da verdadeira sociedade do que uma dúzia de ca- samentos entre o sangue nobre e o ouro burguês, pour redorer le blason. ” Abaixo no nível da aristocracia rural, não havia barreira alguma entre a terra e o comércio - nem mesmo uma membrana permeável. Em virtude do caráter ru- ral da maioria das indústrias e as reivindicações intermitentes da agricultura, mui- tos cultivadores eram, ao mesmo tempo, fabricantes ou intermediários. Isso se aplicava não só aos produtos têxteis, mas também à metalurgia, em que se poderia supor que a natureza do processo de fabricação impusesse uma divisão do trabalho mais rigorosa, assim como testemunha Isaac Wilkinson, Aaron Walker, Jedediah Strutt e outros. A mesma combinação de atividades existia onde prevalecia uma
  29. 29. 70 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER situação semelhante no continente: a terra gerava empreendimentos e empresá- rios industriais. Mais uma vez, o que distinguia a Inglaterra era uma questão de prio- ridade. Em nenhum outro lugar, como _já assinalado, o interior foi tão ocupado pela indústria; em nenhum outro lugar eram maiores as pressões e incentivos à mudança, ou mais fraca a força da tradição. Todas as contingências mesclavarn-se: os latifundiários empreendedores, as áreas demarcadas, o cultivo comercial da ter- ra, os ateliês dos povoados, o sistema doméstico de produção, as minas e fundi- ções, o ativo mercado hipotecário - todos esses fatores combinaram-se para rom- per os grilhões do localismo e do hábito, integrar o campo e a cidade e promover uma mobilização muito mais ampla dos talentos do que teria ocorrido de outra forma. Numa sociedade em que quatro em cada cinco pessoas viviam da terra, esse foi um poderoso estímulo para o desenvolvimento geral. Do mesmo modo, o fluxo da iniciativa empresarial nos negócios era mais li- vre e a alocação de recursos respondia a ele de maneira mais sensível do que em outras economias. Enquanto a tradicional e sacrossanta exclusividade ocupacio- nal continuava a prevalecer do outro lado do Canal da Mancha, às vezes imposta por lei, mas, de qualquer modo, pelo hábito e pelas proibições morais, o operá- rio britânico não se apegava ao seu oficio até o fim, nem o negociante ao seu ramo de comércio. Não era um simples reflexo de um fenômeno negativo, ou seja, da inexistência de regulamentos restritivos ou de censuras degradantes; ao contrário, era um impulso positivo, uma versatilidade ambiciosa que estava sempre atenta à grande oportunidade. impossível não nos impressionarmos com um homem como Thomas Griggs, um merceeiro e alfaiate de Essex em meados do século XVIII, que investia e especulava com terras, engordava gado para o mercado, destilava cevada e emprestava dinheiro em troca de penhores. ” Ou como Thomas Fox, um negociante quacre de tecidos e roupas de Welling- ton, que, diante de tempos dificeis no comércio da lã, pesquisou as possibilida- des da mineração de chumbo, calamina ou cobre - ou todos três.54 Seria possível alongar bastante essa lista, mas basta um último exemplo: Sa- muel Garbett, de Birmingham, originalmente produtor de utensílios de latão, depois mercador e químico, sócio de empresas de fiação, de produtos químicos (Birmingham e Prestonpans, perto de Edimburgo), de fundição (usina de Car- ron, na Escócia) e de moinhos de trigo (Albion Mills, em Londres), além de acio- nista da Cornish Metal Co. (mineração de cobre). Para aquilatar a força desse impulso para enriquecer, deve~se lembrar que esses homens arriscavam suas for- tunas a cada lance de dados empresariais. Garbett abriu falência em 1772 por causa do fracasso de um de seus sócios. Ao mesmo tempo, a estrutura da empresa era mais aberta e racional na Inglaterra do que nos países continentais. Por toda parte, a unidade empresarial
  30. 30. . ~~ A Revolução lndustrial na lnglaterra 71 ELSEVIER fundamental era a propriedade individual ou a sociedade em família. Mas em um país como a França, a empresa familiar era quase sempre fechada às pessoas externas, enquanto os empresários britânicos dispunham-se muito mais a se as- sociar com amigos ou amigos de amigos. Na verdade, essa parece ter sido a ma- neira preferida de levantar capital para fins de expansão ou de atrair e vincular à empresa qualificações especiais. Na indústria têxtil, um capitalista como George Philips dispôs-se a procurar um sócio experiente como George Lee, ex-empre- gado de Peter Drinkvvater, para dirigir a empresa; ou então, um ñandeiro de li- nho experimentado como John Marshall, diante de uma crise nos negócios, des- fez sua sociedade (“já que nenhum dos dois sócios podia ter qualquer outra ser- ventia, liberei-os da firma e assumi toda a responsabilidade); e quando, pouco depois disso, embora com um grande fardo de hipotecas, decidiu expandir-se, introduziu novos sócios por somas muito 1naiores.55 Na fabricação de cerveja, na qual a necessidade de capital era tão grande e urgente "que era impossível produzi-lo com suñciente rapidez a partir dos lucros das firmas (. ..), as empresas estabelecidas aceitavam de bom grado a associação com banqueiros e negocian- tes que partilhavam com elas as conseqüências sociais e políticas da vasta riqueza produzida em outros campos”.56 Na fabricação de máquinas, a qualiñcação, provavelmente mais do que o capital, constituía o fator escasso, embora fossem necessárias milhares de libras para transformar uma oficina de reparos numa in- dústria mecânica. Boulton e Watt talvez sejam o melhor modelo dessa aliança entre o dinheiro e o talento, mas seria possível citar muitas associações seme- lhantes, com uma divisão variável das contribuições e responsabilidades. ” Esse padrão difundiu-se mais, provavelmente, na metalurgia; ali, tanto os requisitos de capital quanto os de talento eram enormes, e a sociedade era o modo normal da formação de uma empresa. ” Mesmo quando uma firma era, essencialmente, um negócio familiar - por exemplo, a fundição Crawshay, em Cyfarthfa, ou a metalurgia em Londres -_-, se preciso introduzia pessoas de fora, cuja saída era posteriormente comprada, quando recomendável, a fim de se encontrarem no- vos sócios. O professor Ashton assinalou a importância dos dissidentes da Igreja Anglicana nesse contexto de associações interfamiliares: os laços de uma religião comum perseguida eram um vínculo comercial quase tão eficaz quanto os laços de sangue. ” A coesão e o apoio mútuo da comunidade empresarial anglicana dissidente eram apenas um dos elementos de seu sucesso comercial. Seus membros sofriam diversas limitações por causa de sua religião, e a atividade empresarial era, sob muitos aspectos, a válvula de escape mais conveniente para sua energia e ambi- ção; seu próprio credo, com a ênfase na diligência, parcimônia e racionalidade como estilo de vida, era quase sempre uma vantagem competitiva. Também é
  31. 31. 72 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER possível que, em decorrência da educação dada aos filhos, que estimulava a ini- ciativa e a liberdade precoces, eles inculcassem em seus descendentes uma ne- cessidade intensa de empreendimentos. Essa é, pelo menos, a tese de David McClelland, segundo a qual um índice preestabelecido de realizações na Inglaterra alterou-se bruscamente no início do século XVIII, justo em tempo para responder às demandas da Revolução Indus- trial. ” De qualquer modo, não foi por coincidência que os dissidentes foram mais numerosos no Norte e em Midlands, os centros de desenvolvimento in- dustrial mais desenvolvidos, ou que o maior número dos principais empresários da Revolução Industrial originou-se desse grupo.61 Por outro lado, a Inglaterra não foi o único país a abrigar calvinistas, que desempenharam o papel de um fer- mento empresarial em toda a Europa. Mas, o que a distinguiu foi o modo pelo qual seus dissidentes religiosos conformaram-se a um padrão social mais abran- gente; as diferenças empresariais foram diferenças de grau, não de qualidade. As mesmas observações aplicam-se à premissa comumente citada de que a inflação dos preços trouxe lucros maiores, e que esses lucros possibilitaram a transformação industrialõz Mesmo que fosse possível demonstrar que os lucros realmente aumentaram ao longo do século, e que os preços mais elevados foram os responsáveis por isso - fato sem evidência comprovada -, persiste a questão de que a Inglaterra não foi a única nação a ter uma inflação de preços nesse pe- ríodo, e de que as empresas mais prósperas do continente tiveram taxas de lucro igualmente elevadas e confiaram mais no autofinanciamentof” A questão, mais uma vez, é menos a margem de lucro do que a maneira de utilizá-la: enquanto as firmas inglesas reaplicavam os lucros na iniciativa empresarial, seus competido- res no exterior os transferiam, com muita freqüência, para outras ocupações mais prestigiosas, ou os conservavam como uma reserva, sob a forma de terras, empréstimos hipotecários e outros investimentos não-industriais similares. Por fim, deve-se mencionar' o papel dos bancos e do crédito bancário. Em nenhum país da Europa do século XVIII a estrutura financeira era tão avançada quanto na Inglaterra, nem o público estava tão habituado a operar com papéis.64 Em geral, o crédito oferecido pela crescente multiplicidade de bancos privados abrangia períodos curtos - de até 90 dias - para cobrir transações comerciais; na verdade, em grande parte, era oferecido sob a forma de créditos rotativos e aber- tos, ou até de saques correntes a descoberto, que funcionavam como um qua- l.65 E mais, o desenvolvimento de uma rede nacional de descontos e se-capita pagamentos permitiu que as áreas industriais necessitadas de capital recorressem, para esse fim, aos distritos agrícolas ricos. O sistema estava apenas começando a desenvolver-se no último quartel do século XVIII. Nas décadas de 1820 e 1830, contudo, quando a Venda dos produtos das fábricas inglesas tornara-se mais difi-
  32. 32. A Revolução Industria¡ na lnglaterra 73 cil do que financiar a transformação tecnológica, o crédito bancário foi um dos pilares do edificio industrial. O crédito bancário teve uma importância ainda maior visto que, nas primei- ras décadas da Revolução Industrial, o capital de giro ainda era muito mais im- portante do que o capital imobilizado. Isso se aplicava até mesmo às empresas da indústria pesada - mineração, metalurgia e fabricação de equipamentos. Sydney Pollard fornece uma amostra das contas comerciais de empresas de mineração e refino de cobre, indústria de latão, engenharia e metalurgia leve em datas situa- das entre 1782 e 1832: a menor proporção de capital fixo em relação à avaliação total dos ativos em estoque é de 8,8%; a maior, de 33,2%.66 Outras medidas des- sa relação - por exemplo, as comparações . do capital fixo com as contas a receber ou a pagar - em relação a outras empresas, em ocasiões distintas, mostram resul- tados semelhantes. E Pollard afirma que algumas das maiores e mais ricas empre- sas da Revolução Industrial enfrentavam problemas, porque tinham dificuldade em levantar um capital de giro compatível com a quantidade do montante in- vestido em ativos fixos. Paradoxalmente, elas eram ricas demais. Embora o desenvolvimento de um mercado financeiro nacional integrado promovesse um fluxo mais fácil e abundante de recursos da terra para a indústria, a natureza e a direção do balanço de pagamentos entre os dois setores são menos óbvias. A literatura econômica menciona, comumente, que um dos aspectos ou critérios fundamentais do desenvolvimento é o deslocamento de recursos da agricultura para a indústria, e que uma das condições de desenvolvimento rápi- do é um aumento de produtividade na lavoura que gere a poupança necessária para financiar a expansão industrial. O melhor exemplo dessa seqüência é oja- pão, onde a produção per capita na agricultura quase duplicou no espaço de uma geração (1878/ 82-1903/ 7), com pequeno dispêndio de capital, e onde, espe- cialmente nos primeiros anos, o imposto territorial drenou uma parcela substan- cial da receita agrícola para ser investida no desenvolvimento industrial. ” O caso britânico, no entanto, tem uma nítida diferença. Primeiro, o aumento da produtividade rural foi seguramente muito menor. As estatísticas disponíveis em nada se comparam às japonesas, mas, mesmo não sendo tão produtivas, levaram uma autoridade a conjecturar que “a produção per capita na agricultura aumen- tou cerca de 25% no século XVIII, e a totalidade desse acréscimo foi alcançada antes de 1750768 A mesma fonte sugere que a produção real dos setores agríco- las elevou-se em cerca de 43% no decorrer do século, sendo 24% durante as dé- cadas críticas de 1760 a 1800;” em contraste, a produção agrícola japonesa qua- se dobrou entre o fim da década de 1870 e o início da de 1900. Além disso, o aumento da produção rural inglesa deveu-se, em grande par- te, ãs demarcações de terras e às melhorias que elas possibilitaram: a concentra-
  33. 33. 74 PROMETEU DESACORRENTADO ELSEVIER ção das propriedades, a eliminação das áreas sem cultivo, a escolha e a rotação mais produtivas das culturas, a reprodução seletiva de rebanhos, melhor drena- gem e fertilização, e o cultivo mais intensivo. Ainda é controvertida a rapidez com que essas novas técnicas difundiram-se ou a presteza com que se seguiram às demarcações. Mas, é evidente, que tanto a divisão territorial quanto as melho- rias subseqüentes em sua utilização custaram dinheiro: no início, para despesas legais, estradas, valas e cercas; e, por fim, para construções, equipamentos, dre- nagem e matérias-primas. Infelizmente, não dispomos de números relativos à área afetada, mas as estatísticas parciais disponíveis - a demarcação de áreas culti- váveis e não cultiváveis por decreto parlamentar, por exemplo - sugerem que, de 1760 a 1815, a Inglaterra demarcou milhões de acres, numa redistribuição cujo custo inicial foi de mais de , g1 por acre e cujo custo adicional se situou en- tre ,55 e ,525 por acre, dependendo do estado original do solo e da natureza de sua utilização. ” Esses investimentos foram compensadores, como mostram o aumento da produção e dos aluguéis das terras unificadas. Mas é bem possível que, nas primeiras décadas de demarcação intensa, ou seja, exatamente nos anos que também assistiram ao nascimento da indústria moderna, a lavoura inglesa estivesse recebendo tanto capital quanto fornecia; ao passo que no período de 1790 a 1814, quando os preços dos alimentos subiram a níveis recordes, o fluxo líquido dos recursos provavelmente dirigiu-se para a terra. A grande contribui- ção da agricultura para a industrialização ocorreu depois de 1815, quando tanto a delimitação territorial quanto a abertura de terras marginais tornaram-se mais lentas, e os proprietários e arrendatários colheram os frutos dos esforços prece- dentes. Contudo, mesmo nessa época, esses lucros dependiam da proteção contra o milho estrangeiro e, portanto, não foram um acréscimo líquido à poupança gerada pela economia. Ao contrário, eles eram obtidos à custa de uma certa alocação equivocada dos recursos e, por mais abundantes e compen- sadores que fossem, talvez tenham sido inferiores ao que a terra teria proporcio- nado em condições mais competitivas. Ainda assim, foi graças às demarcações e ao que é, às vezes, chamado de “Revolução Agrícola" que a Inglaterra resis- tiu, como o fez o "estado estacionário” de Ricardo, ao ciclo do crescimento e da acumulação, em que a pressão populacional sobre a oferta de alimentos ele- vara o custo da subsistência e, portanto, dos salários, de modo que os industriais não mais conseguiam ter lucros e a riqueza da nação escoava, como um alu- guel, para os proprietários da terra. Em resumo: em grande parte, foi a pressão da demanda sobre o modo de produção que suscitou as novas técnicas na Inglaterra, e foi a oferta generosa e receptiva dos fatores que possibilitaram sua rápida exploração e disseminação. Esse ponto merece ser enfatizado, porque os economistas, especialmente os teó-

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