Landes.2003.a.riqueza.e.a.pobreza.das.nações.capítulo.20.o.modo.sulamericano

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A respeito dos países europeus em relação ao resto do mundo, procura saber “como justificar essa cultura da invenção, ‘a Invenção da invenção’.” E por que o fracasso das outras civilizações em suplantar a Europa. Respostas do autor baseadas na Europa: predominância das características judaico-cristãs sobre a valorização do trabalho manual, subordinação do homem pela natureza, a noção do tempo linear e principalmente a existência do mercado livre na Europa.

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Landes.2003.a.riqueza.e.a.pobreza.das.nações.capítulo.20.o.modo.sulamericano

  1. 1. g/ .,13cz A Natureza da Revolução Industrial o século XVIII, uma série de invenções transformou a manufa- tura britânica de algodão e deu origem a um novo modo de pro- dução - o sistema de fábrica¡ Ao mesmo tempo, outros ramos de indús- tria realizaram progressos comparáveis que, com freqüência, se relacio- navam entre si; e todos eles juntos, reforçando-se mutuamente, impul- sionaram novos avanços numa frente cada vez mais ampla. A abundân- cia e variedade dessas inovações quase desafia a compilação, mas enqua- dram-se em três princípios: (1) a substituição da habilidade e do esforço humanos por máquinas - rápidas, regulares, precisas, incansáveis; (2) a substituição de fontes animadas por fontes inanimadas de força, em par- ticular, a invenção de máquinas para converter o calor em trabalho, abrindo assim uma quase ilimitada oferta de energia; e (3) o uso de novas e muito mais abundantes matérias-primas, em particular, a substi- tuição de substâncias vegetais ou animais por materiais minerais e, final- mente, artificiais. i Entende-se por fábrica [factory] um complexo unificado de produção (trabalhadores reu- nidos sob supervisão), usando uma fonte central, tipicamente inanimada, de energia. Sem a energia central, temos uma manufatura [manufactoryl
  2. 2. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 20 7 Essas substituições fizeram a Revolução Industrial. Geraram uma rápida elevação da produtividade e, concomitantemente, da renda per capita. Esse crescimento, além disso, era auto~sustentado. Em eras passadas, melhores padrões de vida tinham sido sempre acompanha- dos de um aumento populacional que finalmente consumia os ganhos. Agora, pela primeira vez na história, a economia e o conhecimento estavam crescendo com rapidez bastante para gerar um contínuo fluxo de melhorias. Para trás tinham ficado os controles positivos de Malthus e as predições estagnacionistas da economia política; em seu lugar, tinha-se agora uma era de promessas e grandes esperanças. A Revolução Industrial também transformou o equilíbrio de forças polí- ticas - dentro de nações, entre nações e entre civilizações; revolucio- nou a ordem social; e mudou tanto os modos de pensar quanto os de fazer coisas. A palavra “revolução” tem muitas faces. Evoca visões de mudança rápi- da, até brutal ou violenta. Pode significar também transformação funda- mental ou profunda. Para alguns, tem conotações progressistas (na acepção política): as revoluções são boas, e a própria noção de uma revolução reacionãria, uma que regride no tempo, é vista como uma contradição em termos. Outros vêem as revoluções como intrinseca- mente destrutívas das coisas de valor, por conseguinte, ruins. Todos esses e outros significados dependem de uma palavra que outrora significava simplesmente uma rotação, no sentido literal. Permitam-me ser claro, pois, sobre o modo como uso aqui o termo. Estou usando-o em seu mais antigo sentido metafórico, para caracteri- zar um “caso de grande mudança ou alteração num determinado estado de coisas" - sentido este que remonta a 1400 e antecedeu de um século e meio o uso de “revolução” para designar a mudança política abruptad É neste sentido que os estudiosos da Revolução Industrial sempre usa- ram o termo, tal como outros se referem a uma “revolução comercial” medieval ou a uma “revolução científica” no século XVII ou a uma “revolução sexual” no século XX. A ênfase, portanto, incide mais sobre o profundo do que sobre o rápido. Não surpreenderá ninguém que os extraordinários avanços tec- nológicos da grande Revolução Industrial (com R e I maiúsculos) não fossem realizados da noite para o dia. Poucas invenções surgem madu- ras no mundo. Pelo contrário: precisa-se de uma série de pequenos e grandes aperfeiçoamentos para que uma idéia se converta numa técnica.
  3. 3. 208 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES Veja-se o caso da energia do vapor. O primeiro engenho a usar vapor para criar um vácuo e fazer funcionar uma bomba foi patenteado na Inglaterra por Thomas Savery em 1698 g a primeira máquina a vapor propriamente dita (com pistão) foi a de Thomas Newcomen em 1705. A máquina atmosférica de Newcomen (assim chamada porque dependia simplesmente da pressão atmosférica), por sua vez, provocava um subs- tancial desperdício de energia porque o cilindro esfriava e tinha que ser reaquecido a cada curso. A máquina, portanto, funcionou melhor no bombeamento de água para fora de minas de carvão, onde o combustí- vel era quase um artigo gratuito. Um longo período ~ sessenta anos - transcorreu antes de James Watt inventar uma máquina com o condensador separado do cilindro (1768), cuja eficiência era suficientemente boa para produzir vapor fora das minas, nas novas cidades industriais; e mais 15 anos foram necessá- rios para adaptar a máquina ao movimento rotativo, de modo a poder impulsionar as rodas da indústria. Nesse meio tempo, engenheiros e mecânicos tiveram que solucionar uma infinidade de pequenos e gran- des problemas de manufatura e manutenção. A tarefa, por exemplo, de fabricar cilindros de seção transversal uniformemente lisa e circular, para que o pistão pudesse mover-se numa câmara bem vedada e o ar não escapasse para o lado do vácuo, requeria cuidado, paciência e perí- ciaÍi Em questões de economia de combustível, toda falha ou imperfei- ção tem um custo, e não basta ser razoavelmente bom. Isso não era tudo. Uma outra linha estava para ser explorada: as máquinas de alta pressão (mais do que atmosférica), que podiam ser construídas de forma mais compacta e usadas para impulsionar navios e veículos terrestres. Isto levou mais um quarto de século para tornar-se viável. Tais usos incentívaram a economia de combustível: o espaço era i A técnica que funcionou para caldeiras (enrolar uma folha de metal, soldar as costuras e fechar o topo e o fundo) não serviria para um cilindro de máquina ~ vazamento excessivo. O novo método, que consistiu em perfurar um bloco de metal fundido, foi inventado por John Wilkinson, c. 1776, baseando-se na técnica de broquear canhões (patente de 1774). Um ano depois, Wilkinson estava usando a máquina a vapor a fim de levantar um martelo- pilão de sessenta libras para forjar peças pesadas. Por volta de 1783, já tinha condições de levantar até 7,5 toneladas. Com isso, ele não tardou a construir laminadoras, prensas de cunhagem, trefiladoras e outras linhas de maquinaria pesada. Escreve Usher: “Por um estra- nho capricho da imaginação pública, esse homem feio e carrancudo nunca conquistou a fama que merecia como um dos pioneiros no desenvolvimento da metalurgia pesada. " History of Mechanical Inuentions, p. 372. Vulcano tampouco era bonito.
  4. 4. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 209 limitado e o que se queria era lugar para cargas em vez de carvão. A res- posta foi encontrada na máquina a vapor composta - o uso mais eficien- te do vapor a alta pressão para mover dois ou mais pistões sucessiva- mente; o vapor, tendo feito seu trabalho num cilindro de alta pressão, expandia-se num outro cilindro maior, de pressão mais baixa. O princí- pio era o mesmo que o desenvolvido na Idade Média para extrair ener- gia da queda de água ao mover uma série de rodas. A máquina a vapor composta teve sua origem com J. C. Hornblower (1781) e Arthur Woolf (1804); mas só se firmou na década de 1850, quando foi intro- duzida nos engenhos marítimos e contribuiu poderosamente para o comércio oceânico. Mas ainda não foi esse o fim da história. O tamanho e a potência das máquinas a vapor estavam limitados pela inércia do pistão. O movi- mento para tras e para diante exigia a utilização de enorme quantidade de energia para reverter a direção. A solução foi encontrada (Charles A. Parsons, 1884) na conversão do movimento alternado para rotativo, ao substituir os pistões por turbinas a vapor. Estas foram introduzidas nas usinas de força motriz no final do século XIX e, pouco depois, nos navios. No total, o desenvolvimento da máquina a vapor levou duzen- tos anos. ” Entrementes, a energia hidráulica, ela própria muito aperfeiçoada (roda de costado [john Smeaton, década de 1750] e turbina [Benoit Fourneyron, 1827]), continuou sendo importante componente da indústria manufatureira, como tinha sido desde a Idade Média? De modo análogo, a primeira redução bem-sucedida do ferro pelo coque, obtida por Abraham Darby em Coalbrookdale, remonta a 1709. (Estive dentro do alto-forno abandonado em Coalbrookdale; aí, entre os tijolos do revestimento da cuba onde o fogo ardeu e o minério derre- teu, imaginei-me no ventre da Revolução Industrial. Fazendo parte hoje de um museu industrial, os visitantes curiosos podem olhar o alto-forno do lado de fora. ) Mas, embora cuidadosamente estudada e preparada, 'V' As décadas finais do século XIX assistiram a um substancial aperfeiçoamento da máquina a vapor graças aos avanços científicos em termodinâmica. Enquanto antes a tecnologia tinha guiado a ciência nessa área, agora era a ciência quem liderava e dava à máquina a vapor uma nova vida. Sobre a curva logística de possibilidades implícita numa dada seqüência tecnológica - ganhos lentos durante a etapa experimental preparatória, seguidos de rápidos avanços que finalmente diminuem de velocidade quando as possibilidades se esgotam - ver o ensaio clãs- sico de Simon Kuznets, “Retardation of Industrial Growth”. l
  5. 5. 210 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAçõEs essa realização foi, com efeito, fruto de um golpe de sorte. O carvão de Darby era fortuitamente O mais apropriado? Outros tiveram menos êxito e, assim como Darby, limitavam o uso do ferro gusa fundido em forno de coque à moldagem de barras e lingotes. Foram precisos cerca de quarenta anos para resolver as dificuldades, e a redução do ferro uti- lizando o coque só decolou em meados do século. Essa tecnologia tinha, ademais, sérias limitações. O ferro fundido era adequado à fabricação de panelas e frigideiras, tubos e outros obje- tos não sujeitos a compressão, mas uma tecnologia de máquina não pode basear-se em moldes. As peças moventes requerem a resiliência e elasticidade do ferro batido (ou aço) e devem ser modeladas (forjadas ou usinadas) de um modo mais preciso do que pode ser feito pelo ferro fundido. ” Transcorreram meio século e uma considerável soma de expe- rimentos antes que os manufatores de ferro pudessem obter ferro gusa reduzido pelo coque em condições adequadas para refinação e purifica- ção adicionais, e antes que os refinadores dispusessem de técnicas para lidar com o ferro gusa reduzido pelo coque (Henry Cort, patentes de 1783 e 1784). O aço comum (Henry Bessemer, 1856) só veio transfor- mar a indústria e os transportes após três quartos de século de tentativas experimentais. Enquanto esse dispendioso metal tinha sido outrora uti- lizado na confecção de pequenos objetos - armas, navalhas de barba, molas, algumas ferramentas, como limas - agora podia ser usado na fabricação de trilhos e construção de navios. Os trilhos de aço duravam mais e tinham mais capacidade de transporte; os navios de aço tinham cascos mais finos e mais capacidade de transporte. Além disso, se procurarmos Origens, podemos fazer recuar ambas essas técnicas para o século XVI, para a precoce dependência da indús- O ferro gusa (ferro fundido) tem um elevado teor de carbono (mais de 4%), É muito duro mas racharã ou quebrará sob o impacto de um choque. Não pode ser usinado, sendo essa a razão por que e' fundido, isto é, vazado em moldes para esfriar e adquirir forma. O ferro forjado pode ser martelado, furado e trabalhado de muitas outras formas. Não quebrarã num choque e é altamente resistente à corrosão, o que o torna ideal para balaustradas e parapeitos de varandas e sacadas, e outros usos ao ar livre (cf. a Torre Eiffel). Para converter o ferro gusa em ferro forjado, a maior parte do carbono tem que ser eliminada numa forna- lha de pudlagem, deixando apenas 1% ou menos. O ferro forjado foi há muito tempo subs- tituído pelo aço (1 a 3% de carbono), o qual combina as virtudes do ferro fundido e do ferro forjado, ou seja, resistência com maleabilidade; por conseguinte, o ferro forjado é hoje muito difícil de se obter, exceto como sucata. A dificuldade com o primitivo ferro reduzido em forno de coque era que, ao ser refinado, produzia um ferro que se tornava quebradiço, quando levado ao rubro. Até o problema ser resolvido com o advento do coque, o ferro for- jado era produzido usando carvão vegetal (lenha) para alimentar os fornos.
  6. 6. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 21 Í tria inglesa do carvão como combustível e matéria-prima na fabricação de vidro, cervejaria, tinturaria, olaria, Serralharia e metalurgia. Um scho- lar denominou essa mudança para combustível fóssil, muito mais cedo do que em outros países europeus, a "primeira revolução industrial”.4 Em seguida, a maquinaria dotada de força motriz. A própria máqui- na é simplesmente um dispositivo articulado para mover uma ferramen- ta (ou ferramentas) de tal modo que faça (ou façam) o trabalho da mão. Sua finalidade pode ser aumentar a força e velocidade de quem opera, por exemplo, uma impressora, uma perfuratriz ou uma roda de fiar. Ou pode canalizar a sua ferramenta de modo a executar movimentos uni- formes e repetitivos, como num relógio. Ou pode alinhar uma bateria de ferramentas de forma a multiplicar o trabalho desempenhado por um único movimento. Na medida em que as máquinas são manualmen- te operadas, é muito fácil reagir às inevitáveis guinadas e arrancos; o operário tem apenas que suspender a ação, deixando de girar a manive- la ou puxando uma alavanca. A força motriz muda tudoÍi A Idade Média, como vimos, já estava familiarizada com uma ampla variedade de máquinas - para triturar milho ou malte, moldar metais, tecer fio, pisoar pano, lavar tecidos, acender fornalhas. Muitas dessas máquinas eram acionadas por força motriz, tipicamente por noras ou azenhas (rodas hidráulicas). Nos séculos seguintes (15 00- ), esses dispo- sitivos proliferaram, dado que os princípios da mecânica eram larga- mente aplicáveis. Nos têxteis, algumas das importantes inovações foram o bastidor para malha, o tear “holandês” ou tear “mecânico”, o tear de trena; também as máquinas para torcer fio de seda. Mas os avanços mais potentes, como ocorre com freqüência, foram os mais banais: - a introdução do pedal para mover a roda de fiar, liberando assim as mãos da fiandeira para manipular o fio e cuidar dos fusos; ou, no caso do tear, para acionar os liços que erguem o fio do urdimento enquanto a lançadeira vai conduzindo o fio da trama; - a invenção do volante (a roda saxônia), que aumentou a torcedu- ra, bobinando o fio ao mesmo tempo que gira o fuso, mas a uma veloci- dade diferente; 'i' A maquinaria mecanizada foi, inevitavelmente, uma nova fonte de acidentes industriais. Sobre os problemas nos engenhos de açúcar e a maior segurança de dispositivos manual- mente operados ou acionados por tração animal, ver Schwartz, Sugar Plantations, pp.143- 44. Os cavaios eram mais perigosos do que as mulas ou os bois: “(. ..)os gritos dos infelizes escravos faziam os cavalos correr mais velozmente. ”
  7. 7. 212 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES - a realização da fiação e bobinagem unidirecional e contínua. A soma dessas mudanças quadruplicou ou melhorou a produção das máquinas de fiar.5 O passo seguinte foi a mecanização da fiação replicando de alguma forma os gestos do tecelão na operação manual, o que exigiu simplifica- ção mediante a decomposição da tarefa numa sucessão de processos sus- cetíveis de repetição. Isso parece muito lógico, mas não foi fácil. O suces- so só foi conseguido quando os inventores aplicaram esses dispositivos a uma fibra vegetal dura, o algodão. Isso levou dezenas de anos de tentati- vas e erros, desde a década de 1730 à de 1760. Quando a fiação mecâni- ca chegou ao algodão, a indústria têxtil deu um giro de 180 graus. Na metalurgia, grandes progressos resultaram da substituição do movimento alternativo pelo rotativo: a folha ou chapa de metal passa a ser, em vez de batida, produzida em laminadores; o arame é obtido puxando uma liga metálica através de uma seqüência de fieiras de cali- bre cada vez mais estreito; os furos até então abertos por punção, pas- sam a ser feitos por máquinas de perfurar (brocas, verrumas etc. ); aplai- nar, tornear, modelar, são tarefas executadas pelo torno, que substituiu o formão e o martelo. De suma importância foi o crescente recurso às medições de precisão e montagens fixas. Nessa área, os fabricantes de relógios e de instrumentos foram os pioneiros. Eles trabalhavam com peças menores e podiam mais facilmente fabricã-las para satisfazer aos elevados padrões de precisão requeridos com o uso de ferramentas para fins especiais, como rodas graduadas, denteadoras, chanfradoras etc. Essas ferramentas, por sua vez, ao lado de outras criadas por maquinis- tas, puderam então ser adaptadas para operar em formatos maiores, e não é por acaso que os donos de cotonifícios, quando procuraram arte- sãos qualificados para construir e conservar máquinas, punham anún- cios pedindo mestres relojoeiros; ou que os jogos de engrenagens dessas máquinas fossem conhecidos como "mecanismos de relógio”. O traba- lho repetitivo dessas máquinas sugeriu, por sua vez, os primeiros experi- mentos de produção em massa baseados em peças intercambiáveis (reló- gios, armas de fogo, reparos de canhão, roldanas, fechaduras, ferragens, mobiliário). Todos esses avanços, mais a invenção de máquinas para construir máquinas, ocorreram juntos no último quartel do século XVIII - um período de contagiosa novidade. Parte dessa corrente de inovação pode- ria ter sido fruto de uma feliz colheita. Mas não. A inovação alastrava-se porque os princípios subjacentes numa determinada técnica podiam ado-
  8. 8. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 213 tar múltiplas formas, encontrar múltiplos usos. Se era possível abrir furos de broca em canhões, nada impedia que se perfurassem os cilindros de máquinas a vapor. Se era possível estampar tecidos por meio de cilindros ou rolos (em vez da muito mais lenta xilogravura), então também se poderia imprimir papel de parede por esse processo; ou imprimir textos muito mais rapidamente do que nos prelos, e produzir revistas baratas e romances vulgares às dezenas e centenas de milhares. Da mesma forma, uma máquina de fiar algodão modificada podia fiar lã e linho. Com efei- to, os contemporâneos da mecanização da manufatura de algodão afir- maram que isso forçou a modernização dessas outras linhas: (. ..) não tivesse o talento de Hargreaves e Arlavright transformado inteira- mente os modos de cardar e fiar algodão, a manufatura de lã teria provavel- mente permanecido até hoje como estava em épocas passadas. (.. .) Teria sido melhor para a sociedade em geral se ela assim tivesse ficado, admitimos sem relutância, mas depois que modos aperfeiçoados de trabalhar o algodão foram descobertos, isso tornou-se impossível? E assim por diante, rumo a um admirável e não tão admirável mundo novo de rendas mais elevadas e mercadorias mais baratas, apare- lhos e materiais desconhecidos, apetites insaciãveis. Novo, novo, novo. Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Como disse o Dr. (Samuel) Johnson, pre- vendo melhor que seus contemporâneos, “todo negócio do mundo é para ser feito de uma nova maneira”.7 O mundo desgarrara-se de suas amarras. E ossível ôr datas nessa revolu ão? Não é fácil tarefa or causa das 7 décadas de experimentação que precedem uma dada inovação e o longo período de aperfeiçoamento que se segue. Onde está o começo e onde O núcleo do processo: John Hicks, A Theory of Economic History, p. 147, e Carlo Cipolla, Before the Industrial Revolution, p. 291, não concordariam. Hicks considerou a pri- mitiva maquinaria de fiação de algodão "um apêndice na evolução da antiga indústria”, mais do que o começo de uma nova. Pensou que algo semelhante a isso poderia ter ocorrido em Florença, no século XV, se então se dispusesse de energia hidráulica (mas a Itália dispu- nha de energia hidráulica). "Talvez não tivessem existido Crompton nem Arkwright, e mesmo assim teria acontecido uma Revolução Industrial. ” "Ferro e carvão, ” escreve Cipolla, “muito mais do que algodão, apresentam-se como fatores críticos nas origens da Revolução Industrial. ” Talvez; não é fácil situar progressos por ordem de impacto e signifi- cação. Mas eu daria ainda o lugar de honra à mecanização como um fenômeno geral susce- tível da mais vasta aplicação e à organização do trabalho sob supervisão e disciplina (o siste- ma de fábrica).
  9. 9. 214 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES está o fim? O núcleo do processo mais amplo ~ mecanização da indús~ tria e adoção da fábrica - reside, porém, na história da manufatura têx- tild' A rápida mudança começou com a fiadeira de vários fusos (jenny) de James Hargreaves (c. 1766), seguida pela máquina de fiar algodão operada com energia hidráulica (water frame) de Thomas Arkwright (1769) e a mule, uma máquina de fiar intermitente de . Samuel Crompton (1779), assim chamada porque era um cruzamento da jenny e do water frame. Com a mula era possível fiar tanto material de fibra fina quanto grossa, melhor e mais barato do que qualquer fiadeira manual. Depois, em 1787, Edmund Cartwright construiu o primeiro tear mecânico bem-sucedido, o qual transformou gradualmente a fia- ção, primeiro de fio grosso, que resistia melhor ao vaivém da lançadei- ra, e em seguida de fio fino; e em 1830, Richard Roberts, um experien- te construtor de máquinas, criou - a pedido do empregador - uma máquina de fiar de funcionamento automático (self-acting male), que libertava a fiação da dependência da força e da habilidade especial de uma indócil aristocracia operária. (A máquina independente funcionou mas a aristocracia permaneceu. ) Essa seqüência de invenções demorou cerca de sessenta anos e dominou por completo a tecnologia mais antiga - ao invés da máquina a vapor que, durante muito tempo, conviveu com a energia hidráulica. ” A nova técnica gerou uma acentuada queda em custos e preços, e um rápido aumento na produção e consumo de algodâo.3 Nessa base, a Revolução Industrial britânica percorreu em cerca de um século, diga» mos, desde 1770 até 1870, “todo o intervalo entre a antiga ordem e o estabelecimento de relações bastante estáveis dos diferentes aspectos da indústria sob a nova ordem. ” Outros especialistas adotaram periodizações ligeiramente diferen- tes. ” Seja como for, estamos falando sobre um processo que durou um i Deve-se distinguir aqui entre os setores de fiação e tecelagem da indústria. Na fiação de algodão, a maquinaria simplesmente eliminou por compieto as mais antigas técnicas manuais. . Até a fiandeira indiana, trabalhando por uma pequena fração dos salários ingleses, teve que desistir em face da fiação mecânica. Na tecelagem, porém, o tear mecânico levou décadas para atingir o ponto em que se podia trabalhar com o fio mais delicado. Assim, os tecelões de tear manual agarraram-se obstinadamente a sua própria técnica, reduzindo para sempre as expectativas e o padrão de vida no esforço , de permanecerem fora das fábricas, .até que a morte ou a velhice os eliminasse. Na segunda metade do século XIX, mesmo aqueles fabricantes que tinham razões especiais para contratar tecelões de tear manual não puderam encontrar mais nenhum. As pessoas jovens não estavam dispostas a ingressar numa profissão agonizante.
  10. 10. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 215 século, geração a mais, geração a menos. Isso pode parecer lento para algo a que se pôs o nome de revolução, mas o tempo econômico trans- corre mais lentamente que o tempo político. As grandes revoluções eco- nômicas do passado tinham demorado muito mais. Mesmo quando se levam em conta os dados quantitativos apresen- tados pelos adeptos da autoproclamada Nova História Econômica, ainda assim temos uma interrupção na tendência de crescimento por volta de 1760-1770; taxas de crescimento sem precedentes; sobretudo os primórdios de uma profunda transformação do modo de produção. A tecnologia faz a diferença. Os números agregados mostram isso, e a lógica elementar esclarece-o. Mesmo que utilizemos as estimativas mais baixas de aumento para a parte final do século XVIII e as extrapolemos retroativamente, chegaremos logo a níveis de renda insuficientes para sustentar a vida. Portanto, algo tinha mudado. Subsiste a questão: por que o crescimento geral não era mais rápi- do? uma questão anacrônica que reflete as expectativas de temas mais recentes ~ de uma era de inovação mais célere e mais potente, e de recu- perações a passos largos. Apesar disso, vale a pena formular a pergunta. A resposta é que a Revolução Industrial foi desigual e demorada em seus efeitos; que começou e floresceu mais cedo em alguns ramos que em outros; que deixou para trás e até destruiu antigas profissões e áreas de atividade enquanto criava e construía outras; que não substituiu nem podia substituir da noite para o dia tecnologias mais antigas. (Até o todo-poderoso computador não eliminou a máquina de escrever, para não citar a caneta e o papel. )“ Essa é a razão pela qual as estimativas de crescimento para esses anos são tão sensíveis a pesos; se damos mais importância ao algodão e ao ferro, o crescimento parece mais rápido; se damos menos importância a esses produtos, o crescimento modera o ritmo. Tudo isso, é claro, era óbvio para os primeiros estudiosos da mudança tecnológica, como A. P. Usher e J. H. Clapham. Os “novos his- toriadores econômicos” que enfatizaram o tema da continuidade revive- ram essencialmente sua obra sem os citar, talvez sem os conhecer. " i A economia é uma disciplina que seria uma ciência e, como todos sabem, a ciência avança sempre. Assim, se deixam de lado as monografias e artigos de predecessores. Daí os parado- xos de uma disciplina que estaria sempre atualizada e, no entanto, está sempre redescobrir]- clo as descobertas de ontem -muitas vezes sem se aperceber disso. )
  11. 11. 216 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES Muitos dos anti-revolucionistas cometeram também o pecado do “ou isto. ..ou aquilo”. Sua tese sobre continuidade está bem sustentada. A história abomina saltos, e as grandes mudanças e revoluções econômi- cas não surgem do nada. Elas são, invariavelmente, bem preparadas por largo tempo. ” Mas a continuidade não exclui mudança, até mudança drástica. Um verdadeiro crente na coerência e irrefutahilidade da teoria econômica e da cliométrica assinala que a renda britânica per capita duplicou entre 1780 e 1860, e depois sextuplicou entre 1860 e 1990, e reconhece que temos aqui mais do que urna simples continuação de ten- dências mais antigas: “Os primeiros oitenta anos de crescimento foram deveras surpreendentes, mas constituíam meramente um prelúdio. ”13 Ao que eu acrescentaria que a Grã-Bretanha foi detentora do mais impressionante desempenho durante todo esse longo periodo. A conseqüência desses avanços foi um crescente hiato entre países industriais modernos e os retardatários, entre ricos e pobres. Para come- çar, na Europa: em 1750, a diferença entre a renda per capita da Europa ocidental (excluindo a Grã-Bretanha) e da oriental era em torno de 15%; em 1800, um pouco mais de 20%; em 1860, subira para 64%; na década de 1900 era de quase 8O°/0.14 A mesma polarização, só que muito mais acentuada, ocorreu entre a Europa e aqueles países que mais tarde passaram a ser definidos como um Terceiro Mundo - em parte porque as modernas indústrias fabris engoliram suas rivais obsoletas, dentro e fora do país. Paradoxo: a Revolução Industrial aproximou mais o mundo, tor- nou-o menor e mais homogêneo. Mas a mesma revolução fragmentou o globo ao separar os Vencedores dos perdedores. “(93 QUANDO UMA REVOLUÇÃO NÃo É UMA REVOLUÇÃO? A confiança dos primeiros estudiosos da Revolução Industrial nos dados de produção e preço para determinadas indústrias refletiu as limitações estatísticas dessa época: isso era tudo o que eles tinham e conheciam para realizar seu trabalho. Os dados não os decepcionavam. Represen- tavam Simples e diretos retornos, e quando o historiador tinha que fazer uso de medidas substitutivas (as importações de algodão em rama, por exemplo, como representativas da produção de fio de algodão em paí- : a : Katja: " " " 1.1. . . . .. .is-
  12. 12. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 217 ses que não cultivam este produto), esses eram bons e razoavelmente estáveis indicadores de uma realidade definida e não ambígua. ” A partir do final da década de 1950, entretanto, os historiadores de mentalidade numérica e econômica começaram a construir medidas de crescimento agregado durante os séculos XVIII e XIX. Isso era uma extensão natural do trabalho histórico sobre renda nacional para perío- dos mais recentes, onde os dados eram mais completos e mais idôneosÍi Mas quando se retrocede no tempo para antes da coleta sistemática de números por burocratas do governo, tais reconstruções acarretam um heróico exercício de imaginação e engenhosidade: uso e fusão de núme- ro díspares, calculados ou coletados em diferentes períodos de tempo, para diferentes fins, em bases diferentes; uso de substitutos justificado, com freqüência, por suposições arbitrárias e nem sempre especificadas a respeito da natureza da economia; atribuição de pesos extraídos de outros contextos e períodos; abundância de índices problemáticos; uso de preços comunsiou nominais, em vez de preços de mercado; interpo- lações e extrapolações, moderando e tornando pouco nítidas as inter- rupções na tendência corrente. Não surpreenderá, portanto, que essas construções tenham variado com o construtor e mudado com o tempo; que a mais recente estimativa não seja necessariamente melhor do que a antecedente (os autores das estimativas não concordariam); e que o apa- recimento da precisão não é uma garantia da robustez ou uma predição de durabilidade. ” Tampouco a aparência de precisão constitui um indicador de signifi- cação inequívoca. Os dados podem ser merecedores de crédito e sua interpretação continuar sendo um problema. Os economistas teóricos já se deram conta há muito tempo dessa dificuldade. Citemos um “nobe- lista” que expõe a questão com desconcertante franqueza: “Os primei- i O modelo foi o trabalho feito -por Simon Kuznets e seus colegas no National Bureau of Economic Research. Após trabalhar sobre dados norte-americanos, Kuznets ajudou a asses- sorar e financiar projetos análogos em outros países a partir da década de 1960. O trabalho pioneiro sobre a produção industrial britânica é ainda mais antigo, remontando aos cálculos de Waither Hoffmann, mas um novo impulso teve início com as investigações de Phyllis Deane, seguidas após um intervalo pelas pesquisas de Charles Feinstein, Nick Crafts, Knick Harley e outros. Sobre as fraquezas e armadilhas dessas elucubrações quantitativas, ver Hoppit, “Counting the Industrial Revolution”, que cita (p. 189) Thomas Carlyle: “Existe, lamentavelmente, uma espécie de alquimia sobre números que transforma os materiais mais duvidosos, mais ambíguos, em algo puro e precioso; por conseguinte, o preço de trabalhar com estatísticas históricas e' a eterna vigilância. " Assim, meados do século XIX e já desiludido.
  13. 13. 218 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES ros economistas não eram inundados com estatísticas. Poupava-se-lhes o ônus da prova estatística. Apoiavam-se na história e nas observações pessoais. Hoje, depositamos nossa confiança nos dados inquestionáveis, desde que sejam sancionados por teoria? ” À luz desse princípio, o menos que se poderia esperar de historiadores econômicos é que depo- sitassem sua confiança em “dados inquestionáveis [leia-se: numéricos? ” desde que sancionados por provas históricas. Em vez disso, eles saltam para juízos que, com freqüência, superam os limites da credulidade. O ponto crucial de discordância neste caso foi o que tem sido apre- sentado por alguns autores como uma revolução não-revolucionária (“evolucionária”). Por mais impressionante que seja o crescimento de certos ramos de produção, o desempenho geral da economia britânica (ou indústria britânica) durante os cem anos de 1760-1860, conforme se destaca de alguns exercícios numéricos recentes, tem uma aparência modesta: uma pequena percentagem anual para a indústria; ainda menos para o produto agregado. E se deflacionarmos esses dados em função do crescimento populacional (portanto, a renda ou produto per capita), eles reduzem-se a um ou dois por cento ao ano. ” Dada a mar- gem de erro intrínseca nessa espécie de manipulação estatística, isso poderia ser alguma coisa. E também poderia não ser nada. Mas por que acreditamos nas estimativas? Porque são mais recentes? Porque os autores nos garantem sua confiabilidade? Os métodos empre- gados estão aquém de convincentes. Começa-se com o construto agre- gado (uma invenção) e depois trata-se de fazer com que os ramos com- ponentes se lhe encaixem. Um exercício recente apurou que, depois de somar os ganhos britânicos de produtividade em meia dúzia de ramos importantes - algodão, ferro, transporte, agricultura -, não sobrou espa- ço para novos ganhos nos demais ramos: outros têxteis, cerâmica, papel, ferragens, construção de máquinas, relógios. O que fazer? É sim~ ples. O autor decidiu que a maior parte da indústria britânica “sofria baixos níveis de produtividade de mão-de-obra e lento crescimento da produtividade - sendo possível que não tivesse havido, de fato, qual~ quer progresso no período de 1780-1860”.18 Isto é a carroça da história à frente dos bois, os resultados antes dos dados, a imaginação antes da experiência. Também está errado. Além do mais, essas estimativas, baseadas como são em pressupostos de homogeneidade ao longo do tempo - ferro é ferro, algodão é algo- dão -, subestimam inevitavelmente o ganho implícito em melhorias de qualidade e em novos produtos. Como se pode medir a significação de
  14. 14. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 219 um novo tipo de aço (aço de Cadinho) que torna possíveis melhores cro- nometragens e melhores registros para as tarefas de acabamento e ajuste de peças de máquinas, se nos limitarmos simplesmente a contar tonela- das de aço? Como apreciar a produção de jornais que se vendem por dez centavos em vez de cinqüenta centavos graças às rotativas? Como medir o valor de navios de aço que duram mais do que os navios de madeira e recebem consideravelmente mais carga? Como avaliar a pro- dução de luz se calcularmos em termos de lâmpadas em vez da luz que elas emitem? Uma tentativa recente para quantificar a tendência decli- nante da estatística agregada com base no preço do lúmen de luz sugere que, nesse caso, a diferença entre ganhos reais e estimados ao longo de duzentos anos é da ordem de 1.000 para 1.19 Nesse meio tempo, os novos historiadores econômicos quantitativos (“cliometristas”) anunciaram em tom triunfante a demolição da doutri- na recebida. Um historiador econômico reclamou em todas as direções o abandono da designação imprópria “revolução industrial”, enquanto outros passaram a escrever histórias do período sem usar o detestado nome - um considerável inconveniente para autores e estudantes. ” Alguns, trabalhando na fronteira entre a história econômica e outros gêneros de história, ou simplesmente fora desse campo, chegaram à conclusão de que todos tinham interpretado mal a história britânica. Pretendiam eles fazer~nos crer que a Grit-Bretanha nunca fora uma nação industrial (seja o que for que isso significa); os mais importantes desenvolvimentos econômicos do século XVIII tiveram lugar na agricul- tura e na finança, ao passo que o papel da indústria, muito exagerado, foi, de fato, subalterno. ” E alguns procuraram argumentar que a Grã- Bretanha pouco mudou durante esses anos supostamente revolucioná- rios (assim se jogou fora um século de historiografia), enquanto outros, reconhecendo que o crescimento foi, de fato, mais rápido, deram, não obstante, maior ênfase à continuidade do que à mudança. Escreveram sobre "crescimento da tendência” ou “aceleração da tendência”, e afir- maram não haver “desvios” na linha convencional que descreveu o aumento no produto ou renda nacional. E quando alguns sc/ aolars se recusaram a adotar essa nova disposição, um historiador rejeitou-os como "um cavalo moribundo que não esta de todo disposto a submeter- se sem resistir? ” Quem diz que a torre de marfim da erudição é um lugar tranqüilo?
  15. 15. 220 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES A VANTAGEM DE FICAR GIRANDo A grande vantagem do movimento rotativo sobre o movimento alterna- tivo reside em sua eficiência energética: não requer que a parte móvel mude de direção a cada curso; ela continua girando. (Tem, é claro, suas próprias limitações, decorrentes em grande parte da força centrífuga, a qual está sujeita às mesmas leis do movimento. ) Tudo é função de massa e velocidade: se o trabalho for feito com bastante lentidão e equipamen- to leve, o movimento alternativo dará conta do recado, embora por um determinado custo. Suba-se para as grandes peças e velocidades mais elevadas, e o movimento alternativo torna-se impraticável. Nada ilustra melhor o princípio do que a mudança de máquinas a vapor alternativas para rotativas em navios a vapor. As marinhas mer- cantes e de guerra estavam pressionando os projetistas e construtores por navios cada vez maiores e mais velozes. Para a Grit-Bretanha, a maior potência naval do mundo, a decisão definitiva de adotar a nova tecnologia veio com a construção do Dreadnoug/ ot, o primeiro dos encouraçados equipados com canhões de grosso calibre. Estávamos em 1905. A Marinha Real queria um navio de linha que pudesse desenvol- ver 21 nós, uma velocidade impraticãvel com máquinas alternativas. Embora navios anteriores tivessem sido projetados para 18 ou 19 nós, só podiam fazer isso por curtos períodos; oito horas a 14 nós constantes eram o suficiente para os rolamentos começarem a esquentar e o siste- ma entrar em colapso. Uma corrida à velocidade máxima podia signifi- car dez dias imobilizado no porto para reparos - o que não é medida aconselhável no caso de prontidão para combate. Alguns oficiais da Marinha receavam arriscar-se com a nova tecno- logia. Uma coisa era usar turbinas em destróieres, mas na maior e mais poderosa belonave da Armada? ! E se a inovação fosse um fracasso? Philip Watts, diretor de Construção Naval, resolveu a questão apontan- do o custo do antigo sistema. Utilizem motores alternativos, disse ele, e o Dreadnougbt estará obsoleto em cinco anos. O resultado mais do que justificou suas esperanças. O capitão do navio, Reginald Bacon, que tinha previamente comandado o Irresistible (a Marinha Real adora a hipérbole), ficou maravilhado com a diferença: [As turbinas] eram silenciosas. De fato, visitei freqüentemente a casa de máquinas do Dreadnougbt quando navegava à velocidade de 17 nós em alto- mar e era incapaz de dizer se elas estavam funcionando ou não. Durante uma
  16. 16. A NATUREZA DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL 221 travessia feita a toda a força das máquinas, a diferença entre o Dreadizoztg/ vt e o Irresistible era extraordinária. Na casa de máquinas do Dreadnought não havia ruído, nenhum vapor era visível, nada de esguichos de água ou óleo aqui e ali, os oficiais e os homens estavam com seus uniformes limpos; de fato, toda a aparência era a de um navio que podia perfeitamente estar fundeado num porto com as turbinas paradas. No Irresistible, o ruído era ensurdecedor. Era impossível se fazer ouvir e os interfones eram inúteis. As chapas do convés estavam gordurosas de óleo e água, de modo que era difícil caminhar sem escorregar. Era mais do que certo que alguma válvula estava deixando escapar um pouco de vapor, o que tornava a atmosfera da casa de máquinas sombria e enfumaçada. Uma ou mais mangueiras estariam assestadas para um dos marca- dores de rumo que ameaçava dar problemas. Os homens que trabalhavam constantemente em torno da máquina tateavam os marcadores para ver se estavam frios ou davam sinais de aquecimento; e se viam os oficiais com seus capotes abotoados até o pescoço, alguns deles com impermeãveis, os rostos enfarruscados e as roupas empapadas de óleo e água. ” O passo seguinte seria o combustível líquido, que ardia mais quente, criava pressões mais elevadas e impelia os eixos e hélices mais velozmen- te. As velhas tulhas de carvão ocupavam um espaço exagerado e os fogueiros comiam grandes quantidades de alimentos pesados - as máqui- nas humanas também necessitam de combustível. À medida que os esto- ques de carvão iam diminuindo, mais homens eram chamados para transferi-lo das tulhas mais distantes para as que ficavam perto das máquinas; centenas deles nunca viram as fornalhas que alimentavam. Em contraste, reabastecer com óleo significava simplesmente conectar man- gueiras e algumas horas de bombeamento, muitas vezes no mar; com o carvão, o navio tinha que ficar atracado num porto por alguns dias. Diga~se de passagem que muitas dessas melhorias não seriam capta- das pelas medidas convencionais de produção e produtividade. Estas adicionariam o custo do novo equipamento mas não a mudança na qua- lidade do trabalho.
  17. 17. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30. 1. NOTAS 61 3 de Leewarderadeel subiu de 2% em 1677-86 para 70,5% em 1711-50. É claro, tra- tava-se de casas de família suficientemente abastadas para efetuar um inventário após a morte do proprietário. Cf. Michaud, “Orleans au XVIIIême siêcle", p. 11. Mesmo assim, certas ordens de cavalaria estavam fechadas para esses novos homens, e tais exclusões agiam contra os esforços dos que se empenhavam em homenagear os êxitos nos negócios, a tal ponto que alguns defenderam a criação de uma nova espécie de ordem que propi- ciasse a elevação do status desses grandes mas pouco apreciados realizadores. Essas afirmações de apreço não soam falsas, mas dizem-nos haver outras pessoas que dis- cordavam delas. Benassar, Ulnquisition espagnole, cap. viii: "Refus de la Réforme", em especial pp. 289-90. Uma vez mais, a reação da Espanha foi moldada, à sua própria custa, pela sua extensa história de obstinada submissão religiosa e de paixões por ela engen- dradas. Cf. Goodman, “Scientific Revolution”, pp. 163-64, que sugere que a escas- sez de médicos católicos na Espanha quínhentista pode ter refletido o vínculo racial (congênito) que alguns espanhóis estabeleceram entre judaísmo e medicina. "Podia muito bem ser que, numa sociedade que tinha em alto apreço aqueles que podiam demonstrar a total ausência de ascendentes judaicos ou mouros, os cristãos velhos evitassem a profissão médica, a qual, no caso de ser bem-sucedida, poderia desper- tar suspeitas de sangue judeu. ” Goodman, "Scientific Revolution in Spain and Portugal", em Porter e Teich (orgs. ), Scientific Revolution, p. 172. Alguns historiadores espanhóis, procurando defender o indefensável, argumentaram que as universidades estrangeiras eram tão medíocres e tacanhas que os estudantes espanhóis não estavam perdendo grande coisa ao não freqüenta-las. Talvez; embora universidades protestantes, na Ingla- terra e na Holanda, por exemplo, fossem substancialmente melhores. Cf. Smith, A Riqueza das Nações. Livro V, cap. í, Parte 3, Art°. 3d, sobre a drenagem de talento do ensino universitário para a Igreja em países católicos. Crow, Spain: The Root and the Flower, p. 149. Em sua Carta jfilosofica, medico-chymica (Madri, 1687), citado por Goodman, “Scientific Revolution", p. 173. Trevor-Roper, "Religion, the Reformation and Social Change", na coleção de ensaios do Inesmo título. O trabalho foi originalmente lido em 1961 durante a V Conferência irlandesa de Historiadores em Galway. Deve ter perturbado muitos ouvintes. Sobre Giordano Bruno e a campanha da Igreja para domesticar a ciência, ver Minois, L'Eglise et la science, I, cap. ix: “Contre-Réforme et reprise en main des sciences". Sobre a proveniência da "ciência" de Bruno, ver Yates, Giordano Bruno, e a discussão em Copenhaver, "Natural Magic”. Grenet, Passion des astres, p. 87. Ibid. , p. 79. Ver especialmente La Lumia, Histoire de Pexpulsion des juifs de Sicile. CAPÍTULO 13 OED, 5.1x. Revolution, III, 6, b.
  18. 18. 614 2. (II 11. 12. 13. 14. 15. A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES Sobre a roda de peitoril: Mokyr, Leuer ofRiches, pp. 90-92. Sobre energia hidráuli- ca us. vapor: Tunzelmann, Steam Power; e Greenberg, “Reassessing the Power Patterns”. . Esta é a explicação tradicional - ver Ashton, Iron and Steel. Hyde, Technological Change, p. 40, afirma não ser essa a razão; argumenta que Darby teve êxito porque sabia como fundir moldes de ferro de paredes finas, usando areia em vez de marga, economizando assim metade do metal, e que podiam ser mais facilmente feitos a partir do ferro gusa em forno a coque. . John U. Nef, Rise of the British Coal Industry. O Scholar que usou os argumentos mais convincentes a favor da importância do combustível fóssil e da energia a vapor foi E. A. Wrigley. Ver o seu livro Continuity, Chance and Change, e o seu ensaio "The Classical Economists, the Stationary State, and the Industrial Revolution”, p. 31. Adam Smith, A Riqueza das Nações, Livro V, cap. 2, Art°. 4, assinala a tendência da indústria britânica para concentrar-se perto das jazidas car- boníferas. Atribui isso ao efeito do combustível barato sobre os salários (podiam ser mais baixos) e aos custos de tais indústrias com forte proporção de combustível (uso de calor), como o vidro e o ferro. Ele não fala do carvão como combustível para lo- comotivas e máquinas; quanto a isso, não alude às locomotivas a vapor e pouco diz sobre máquinas. Smith tinha os seus pontos cegos. . Esta é a estimativa de A. P. Usher, History of Mechanical Inuentions. . A. Rees, The Cyclopaedia, Vol. 38 (Londres, 1819), citado em Randall, Before de Luddites, p. 13. . Citado em Kindleberger, World Economic Primacy, viii, 6. . Essa seqüência levou A. P. Usher, o pioneiro dos estudos sobre as ligações entre tecnologia e indústria, a descrever a trajetória da Revolução Industrial, seu progres- so e tempo, com base nesses dados -Industrial History, pp. 304-13. . Ihid. , p. 306. . Assim T. S. Ashton, cujo clássico e "elegante" pequeno manual, The Industrial Revolution, adota como suas datas terminais 1760 e 1830. Comparar com a análise semelhante por Christopher Freeman do retardamento em ganhos de produtividade em países industriais avançados nas décadas de 1970 e 1980 - The Economics ofHope, pp. 86-89. Cf. Landes, "What Room for Accident in History? ” McCloskey, “Statics, Dynamics and Persuasion”. Aldcroft, "Europe's Third WOrIdP”, p. 2. A obra pioneira nessas comparações his- tóricas é a de Paul Bairoch; ver o seu "Main Trends in National Economic Dis- parities”. Entretanto, mesmo nesses assuntos evidentemente simples, é possível cometer fla- grantes erros. Ver a discussão em j. Cuenca Esteban, "British Textile Prices”, dos preços do pano de algodão de N. F. R. Crafts e Knicl( Harley, usados no cálculo do crescimento industrial britânico. Estes últimos autores propõem-se apontar aumentos (sic) ou estabilidade dos preços do algodão durante a Revolução Industrial. Eles foram, infelizmente, mal escolhidos para tal fim (entre outras coi- sas, os índices apóiam-se mais em contratos do que em preços de mercado, em parte, sem dúvida, por causa da conveniência e acessibilidade. Ainda assim, toda a espécie de alarmes deve ter soado. Os números deviam fazer sentido e quem estiver
  19. 19. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 1. 2. 5. NOTAS 6 1 5 preparado para acreditar que os preços do fio ou do pano se mantiveram estáveis ou subiram após a invenção do tear hidráulico, do filatório e do tear mecânico, está pronto para acreditar em qualquer coisa. Sobre os perigos e banalidade da creduli- dade numérica, ver Landes, “What Room for Accident in History? ” Theodore W. Schultz, “On Investing in Specialized Human Capital”, p. 343. Jeffrey Williamson calcula 0,3% - “New Views on the Impact”, p. 1. Crafts, “British Industrialization in an International Context”, p. 425. Para uma análise mais idônea e empírica do crescimento e dos ganhos industriais sistemáti- cos, ver Temin, “Two Views”. Ver o artigo “The Price of Light”, The Economist, 22 de outubro de 1994, p. 84. Para um dos primeiros exemplos de tal evitação, Ver Youngson, Possibilities of Economic Progress, cap. viii: “The Acceleration of Economic Progress in Great- Britain, 1750-1800”, especialmente p. 117: “(. ..)nada pode ser provado ou desa- provado sobre a economia como um todo. ” Youngson assevera que "o progresso nunca foi constante" e que as respectivas contribuições de diferentes setores esta- vam sempre mudando. Resultado: muitas árvores, nada de floresta. Ward, “Industrial Revolution and Imperialism", p. 58, comentando sobre Cain e Hopkins, “Gentlemanly Capitalism”, pp. 510-12. Não me parece que Cain e Hopkins tenham dito exatamente isso. Eric Jones em Growth Recurring, p. 19. Ver Landes, “The Fable of the Dead Horse", que se ocupa do mais amplo debate. Citado em Massie, Dreadnought, p. 475. CAPÍTULO 14 Conforme citado em Mc Closkey, "1780-1860: A Survey”, p. 243. Conforme citado por White, “Cultural Climates and Technological Advance”, em Medieval Religion and Technology, p. 221, nota 16. O sermão, cumpre assinalar, foi proferido no vernáculo. Modifiquei ligeiramente a tradução de White do origi- nal. . Em seus Colóquios dos simples e drogas he cousas medicinais da India (Goa, 1563), citado em Goodman, “Scientific Revolutionf' pp. 16 8-69. . Citado em Smith, Science and Society, p. 51. Cf. a versão de hoje dessa dependên- S( cia da matemática, desta vez no campo da Cosmologia: .. .teoria da supergravida- de, teoria de Kaluza-Klein; e o Modelo Standard [obraj, mas somos totalmente incapazes de explicar por quê. (.. .)Existe a teoria de campo de String mas zomba de nós porque não somos suficientemente perspicazes para soluciona-la. O problema é que, enquanto a física do século XXI cai acidentalmente na do século XX, a matemática do século XXI ainda não foi inventada. " Michio Kaku, Hyperspace (Nova York: Oxford, 1993), citado no New York Times, 20 de março de 1994, "Book Review", p. 21. A referência aqui é à obra de Frances Yates: Giordano Bruno e “The Hermetic Tradition”. Yates sugere que a revolução científica pode muito bem ser vista como um processo em duas fases: “consistindo a primeira num universo animista que

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