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O mistério reside no malogro da China em converter todo o seu
potencial em realidade....
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redundaram em evasão e contrabando,  e o contrabando trouxe a cor-
rupção (suborno a título de ...
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moderna,  não fosse esse sufocante controle estatal.   o Estado que mata o
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tarefas pesadas.  O emprego de mão-de-obra assalariada estimulou,  por
sua vez,  a atenção ao t...
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imitação e a emulação,  a par de um sentimento de poder que,  a longo
prazo,  ergueri...
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NOTAS 599

Hipócrates,  Air Waters Places,  citado em March,  Idea of China,  p.  29. Para March, 
a própria...
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Sivin,  “Science an...
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A respeito dos países europeus em relação ao resto do mundo, procura saber “como justificar essa cultura da invenção, ‘a Invenção da invenção’.” E por que o fracasso das outras civilizações em suplantar a Europa. Respostas do autor baseadas na Europa: predominância das características judaico-cristãs sobre a valorização do trabalho manual, subordinação do homem pela natureza, a noção do tempo linear e principalmente a existência do mercado livre na Europa.

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Landes.2003.a.riqueza.e.a.pobreza.das.nações.capítulo.04.a.invenção.da.invenção

  1. 1. r/ Am, A Invenção da Invenção uando Adam Smith decidiu escrever sobre essas coisas no século XVIII, sublinhou que a divisão do trabalho e a ampliação do mercdo estimulam a inovação tecnológica. Foi exatamente isso o que aconteceu na Europa na Idade Média - uma das sociedades mais inven- tivas que a história tinha conhecido. Alguns leitores podem ficar surpre- sos: por muito tempo, esses séculos foram vistos como um escuro inter- lúdio entre a grandeza de Roma e o resplendor da Renascença. Esse lugar-comum não tem a menor justificativa em assuntos tecnológicos¡ Alguns exemplos: 1. A roda dkígua (ou azenha). Era conhecida dos romanos, que começaram fazendo coisas interessantes com ela durante o último sécu- lo do império, quando as conquistas haviam chegado ao fim e o supri- mento de escravos se reduzira a quase zero. Nessa altura dos aconteci- mentos, era tarde demais; a ordem e o comércio estavam em colapso. O aparelho pode ter sobrevivido em propriedades da Igreja, onde liberava os clérigos para as orações. Em todo o caso, foi revivida nos séculos X e XI, multiplicando-se facilmente numa região de vastas precipitações pluviais e numerosos cursos de água. Na Inglaterra, essa periférica e atrasada ilha, o cadastramento de 1086 das terras do Reino que resultou
  2. 2. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 49 A no Domesday Boo/ e registrava a existência de cerca de 5.600 desses moi- nhos; o continente possuía muito mais. Ainda mais impressionante é o modo como avançou a técnica de energia hidráulica: os construtores de moinhos aumentaram a pressão e a eficiência construindo represas e lagos, e enfileiraram as rodas para utilizar a energia decrescente numa variedade de tarefas, começando por aquelas que necessitavam de mais força e descendo gradualmente. Ao mesmo tempo, a invenção ou o aperfeiçoamento de dispositivos acessórios - manivelas, rodas dentadas - tornou possível usar a energia a uma certa distância, mudar sua direção, converter seu movimento de rotativo em alternativo, e aplica-la a uma crescente variedade de tarefas: portanto, não só moer grão mas também pisoar o pano, contribuindo assim para a transformação da manufatura da lã; martelar metal; lami- nar metal e trefilar arame; moer lúpulo para a cerveja; reduzir trapos a uma pasta para a fabricação de papel - "O papel, que durante mil anos, aproximadamente, era fabricado mediante o emprego de mãos e pés, após sua invenção pelos chineses e adoção pelos árabes, foi manufatura- do mecanicamente logo que chegou à Europa medieval no século XIII. (. ..) O papel tinha viajado por meio mundo, mas nenhuma cultura ou civilização em seu percurso tentara mecanizar sua manufatura. ” A Europa, comonenhum outro lugar, era uma civilização baseada na energia. 2. Óculos. Um objeto aparentemente banal, o gênero de coisa que de tão comum se tornou trivial. Mas, no entanto, a invenção dos óculos mais do que duplicou o período de vida ativa de artesãos talentosos, especialmente aqueles que executavam tarefas delicadas: escribas (indis- pensáveis antes da invenção da imprensa), copistas e leitores, fabricantes de instrumentos e ferramentas, tecelões finos, metalúrgicos. O problema é biológico: como o cristalino do olho humano começa a endurecer por volta dos quarenta anos, produz uma condição seme- lhante à hipermetropia (na realidade, presbiopia). O olho deixa de poder focalizar objetos próximos. Mas nessa idade um artesão medieval podia razoavelmente esperar viver e trabalhar outros vinte anos, os melhores anos de sua vida ativa (. ..) se sua vista não declinasse de forma considerável. Os óculos resolveram o problema. Pensamos saber onde e quando apareceram os primeiros óculos. Cristais e lentes de aumento rudimentares (lapides ad legendum) tinham sido descobertos antes e usados para leitura? O problema consistia em aperfeiçoa-los de modo a reduzir a distorção e em conectar um par de
  3. 3. 5 0 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES lentes numa armação usável que deixasse as mãos livres. Segundo parece, isso aconteceu pela primeira vez em Pisa, em fins do século XIII. Temos um testemunho da época (1306) que diz ter conhecido o inventor: Nem todas as artes [no sentido de artes e ofícios] foram descobertas. Nunca veremos um fim à tarefa de descobri-las. Todos os dias alguém era capaz de descobrir uma nova arte. .. Ainda não passaram vinte anos desde que se descobriu a arte de fazer óculos que ajudam uma pessoa a ver bem, uma arte que é uma das melhores e mais Iiecessárias no mundo. E foi há tão pouco tempo que uma nova arte que nunca existira antes foi inventada. (. ..)Eu pró- prio vi o homem que a descobriu e praticou, e conversei com ele.4 Obviamente, essas lentes convexas não eram uniformes ou dotadas do que chamaríamos qualidade de prescrição. Mas, neste caso, a tecnologia óptica medieval, embora primitiva, foi salva pela natureza da dificulda- de: as lentes para corrigir a presbiopia não têm de ser extremamente precisas. Sua função consiste, primordialmente, em ampliar e, embora algumas lentes ampliem mais do que outras, todas ou quase todas elas ajudarão o usuãrio. por isso que pessoas às Vezes pedem óculos emprestados num restaurante só para ler o cardápio, e lojas populares colocam à venda caixas e caixas de tais óculos. O comprador simples- mente experimenta alguns e escolhe os mais convenientes. Os míopes (pessoas de vista curta) não podem fazer isso. Esse foio princípio. Em meados do século XV, a Itália, especialmen- te Florença e Veneza, estava produzindo milhares de óculos, ajustados para lentes côncavas e convexas, tanto para míopes quanto para pres- bíopes. Além disso, foi percebido, pelo menos pelos florentinos (e pre- sumivelmente por outros), que a acuidade visual declina com a idade e, por conseguinte, as lentes convexas eram feitas para durar cinco anos e as côncavas, dois, habilitando os usuários a comprã-las em lotes e substi- tuí-las em seu devido tempo. Os óculos possibilitaram a execução de trabalhos de grande refina- mento e o uso de instrumentos de precisão. Mas também o inverso: os óculos estimularam a invenção de novos e mais refinados instrumentos de precisão; na verdade, impeliram a Europa numa direção ímpar, não encontrada em nenhum outro lugar. Os muçulmanos conheciam o astrolábio, mas isso era tudo. Os europeus seguiram adiante para inven- tar instrumentos-padrão de medição - Calibradores, aferidores, micrô- metros etc. ~ toda uma bateria de ferramentas ligadas à medição e ao
  4. 4. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 51 controle de precisão. Eles criaram assim as bases para máquinas articula- das com peças ajustáveis. Trabalho preciso: quando outras civilizações o realizaram, foi após demorada habituação. A habilidade estava na mão, não no olho-e-ferra- menta. Eles obtiveram notáveis resultados, mas nenhuma peça era igual a qualquer outra; ao passo que a Europa já estava a caminho da replica- ção - primeiro a fornada ou o lote, mais tarde a produção em massa. Esse conhecimento de lentes, além disso, era uma escola para novos avanços ópticos, e não só na Itália. O telescópio e o microscópio foram inventados nos Países Baixos por volta de 1600 e disseminaram-se rapi- damente a partir daí. A Europa desfrutou de um monopólio de lentes corretivas durante trezentos a quatrocentos anos. Com efeito, duplicaram a força de traba- lho artesanal; mais do que isso, se levarmos em conta o valor da expe- riência.5 3. O relógio nrecânico. Outra banalidade, tão comum que a conside- ramos de um óbvio incontestável. Entretanto, Lewis Mumford chamou- lhe corretamente “a máquina-chave. ” Antes da invenção dessa máquina, as pessoas determinavam a hora pelo sol (varetas de sombra ou relógios de sol) e por relógios de água (clepsidras). Os relógios de sol só trabalhavam, obviamente, em dias cla- ros; os relógios de água comportavam-se mal quando a temperatura caía e ficava próxima do congelamento, para não citar o prolongado bloqueio causado por sedimentação e entupimento. Ambos os aparelhos serviram razoavelmente bem nas regiões ensolaradas, mas ao norte dos Alpes é possível passar muitas semanas sem ver o sol, ao passo que as temperaturas variam não só com as estações do ano mas também do dia para a noite. A Europa medieval atribuiu nova importância à medição confiável do tempo. A Igreja, em primeiro lugar, com seus sete ofícios diários, um dos quais, as matinas, era apesar do nome um rito noturno e que reque- ria um arranjo de despertador para acordar os clérigos antes do alvore- cer. (Nisso se inspirou a Cantiga de roda, Frêre jacques: frei Jacques dor- miu além da conta e não fez soar os sinos para as matinas. )l Depois, as novas cidades e vilas tinham suas rotinas de trabalho. Espremidas entre muros, tinham de conhecer e ordenar o tempo a fim de organizar a ati- As versões inglesa e alemã do verso (e talvez outras) traduzem o significado dizendo que “os sinos matinais estão repicando”. A questão é que eles não estão repicando.
  5. 5. 52 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES vidade coletiva e racionar o espaço. Fixaram uma hora para despertar, para ir trabalhar, para abrir e fechar o mercado, deixar o trabalho e, finalmente, a hora para extinguir o fogo nas lareiras (couUre-feu deu ori- gem à palavra inglesa curfew, com o significado de toque de recolher) e ir dormir. Tudo isso era compatível com os dispositivos mais antigos enquanto existisse apenas um cronometrista investido de autoridade; mas com o crescimento urbano e a multiplicação de sinais relacionados com o tempo, a discrepância gerou discórdia e rivalidade. A sociedade precisa- va de um instrumento mais confiável de medição do tempo e encon- trou-o no relógio mecânico. Não sabemos quem inventou essa máquina ou onde. Parece ter apa- recido na Itália e Inglaterra (talvez uma invenção simultânea) no último quartel do século XIII. Uma vez conhecido, espalhou-se rapidamente, expulsando os relógios de água mas não os relógios solares, necessários para que as novas máquinas pudessem ser aferidas pelo mais recente cronometrista disponível. Essas primeiras versões eram rudimentares, imprecisas e enguiçavam com facilidade - tanto que compensava con- tratar um relojoeiro junto com a compra do relógio. ironicamente, a tendência da nova máquina foi para abalar a auto- ridade eclesiãstica. Embora o ritual da Igreja tivesse mantido interesse em cronometrar o tempo ao longo de todos os séculos de colapso urbano que se seguiram à queda de Roma, o tempo da Igreja era o tempo da natureza. Dia e noite eram divididos no mesmo número de partes, de modo que, exceto nos equinócios, as horas do dia e da noite eram desiguais e, além disso, é claro, a duração dessas horas variava com as estações. Mas o relógio mecânico mantinha as horas iguais e isso implicava em novo cálculo de tempo. A Igreja resistiu, só vindo a aceitar as novas horas cerca de um século depois. Desde o começo, entretanto, as vilas e cidades adotaram horas iguais como padrão, e os relógios públicos instalados nas torres e campanários de municipalida- des e praças cle mercado tornaram-se o próprio símbolo de uma nova e secular autoridade municipal. Toda a cidade queria ter um; os conquis- tadores tomavam-nos como despojos de guerra especialmente precio- sos; forasteiros vinham ver e ouvir essas máquinas do mesmo modo como faziam peregrinações para admirar relíquias sagradas. Novos tempos, novos costumes. O relógio foi a maior realização da engenhosidade mecânica medie- val. Revolucionário na concepção, era mais radicalmente novo do que
  6. 6. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 53 os seus fabricantes imaginavam. Foi esse o primeiro exemplo de um mecanismo digital, em contraste com um analógico: ele contava uma seqüência regular e repetitiva de ações distintas (o movimento ritmado de um regulador Oscilante), em vez de rastrear um movimento regular e contínuo, como a sombra movente de um relógio de sol ou o fluxo de água. Hoje, sabemos que tal freqüência repetitiva de ações distintas pode ser mais regular do que qualquer fenômeno contínuo, e pratica- mente todos os aparelhos de alta precisão baseiam-se agora no princípio digital. Mas ninguém podia ter compreendido isso no século XIII, no qual se pensava que, como o tempo era contínuo, devia ser rastreado e medido por alguma outra continuidade. O relógio mecânico tinha que satisfazer os padrões inexoráveis da terra e do sol, sem vacilar ou ocultar suas deficiências. O resultado foi uma constante pressão para aperfeiçoar técnica e design. Em todas as etapas, os relojoeiros lideraram o caminho para a exatidão e a precisão: mestres da miniaturização, detectores e corretores de erros, explorado- res do novo e do melhor. Continuam a ser os pioneiros da engenharia mecânica - exemplos e mestres para outros ramos. Finalmente, o relógio proporcionou ordem e controle, nos planos coletivo e pessoal. Sua exibição pública e posse particular lançaram as bases para a autonomia temporal: as pessoas podiam agora coordenar idas e vindas sem imposição superior. (Contraste-se com o exército, onde somente os oficiais precisam saber a hora. ) O relógio forneceu os sinais de pontuação para a atividade do grupo, ao mesmo tempo que habilitava os indivíduos a ordenarem seu próprio trabalho (e o de outros) com vistas ao aumento de produtividade. Com efeito, a própria noção de produtividade é um subproduto do relógio: a partir do momento em que se pôde relacionar o desempenho com unidades de tempo uniformes, o trabalho nunca mais foi o mesmo. Passa-se da cons- ciência do tempo do camponês, orientada para a tarefa (uma tarefa após outra, segundo permitam o tempo e a luz), e dos afazeres do servidor doméstico (sempre alguma coisa a fazer) para um esforço de maximiza- ção do produto por unidade de tempo (tempo é dinheiro). A invenção do relógio mecânico antecipa em seus efeitos a análise econômica de Adam Smith: o aumento da riqueza das nações deriva diretamente do aumento da produtividade do trabalho. O relógio mecânico permaneceu um monopólio europeu (ocidental) por cerca de trezentos anos; em suas formas superiores, até o século XX. Outras civilizações ou, mais exatamente, seus governantes e elites,
  7. 7. 5 4 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES admiraram e cobiçaram relógios; mas nenhuma delas pôde igualar-se ao padrão europeu. Os chineses construíram alguns relógios de água astronômicos nas eras Tang e Sung - peças complicadas e engenhosas que podem ter dado excelentes resultados a curto prazo, antes de começarem a entupir, (Devido à sedimentação, o rendimento dos relógios de água era sofrível com o passar do tempo. ) Essas máquinas monumentais eram projetos imperiais, feitos e reservados ao imperador e seus astrólogos. Os chine- ses tratavam o tempo e o conhecimento do tempo como um aspecto confidencial da soberania, que não podia ser compartilhado com o povo. Esse monopólio dizia respeito ao tempo cotidiano e ao que regu- lava as atividades do ano inteiro. Nas cidades, tambores e outras formas de produzir ruído assinalavam as horas (equivalentes a duas de nossas horas), e por toda a parte o calendário imperial definia as estações e suas atividades. Esse calendário tampouco era um dado uniforme, obje- tivamente determinável. Cada sucessivo imperador tinha o seu próprio calendário e colocava seu próprio selo na passagem do tempo. Os cálcu- los para elaboração de um calendário privado teriam sido irrelevantes. Esses sinais de intervalos horários em grandes cidades não eram substitutos para a continuidade do conhecimento e da percepção cons- ciente. Em particular, os ruídos não eram significantes numéricos. Em vez de números, as horas tinham nomes e isso era um testemunho per se da ausência de um cálculo temporal. Sem uma base no consumo popu- lar, sem um comércio relojoeiro, a relojoaria chinesa regrediu e estag- nou. Nunca foi além dos relógios de água, e quando a China veio a tomar conhecimento do relógio mecânico ocidental, estava desprepara- da para entendê-lo e copia-lo. Não porque não o quisessem: a corte imperial chinesa e as elites ricas tinham grande interesse por essas máquinas, mas como sentiam profunda relutância em reconhecer a superioridade tecnológica européia, procuraram trivializá-las como meros brinquedos. Um grande erro. O Islã também poderia ter desejado possuir e copiar o relógio, que mais não fosse para fixar o tempo de orações. E, tal como na China, os relojoeiros muçulmanos fabricaram relógios de água muito antes de qualquer objeto nessa linha ser conhecido na Europa. É o caso do len- dário relógio que Harun al-Rachid enviou de presente a Carlos Magno por volta do ano 800; ninguém na Corte franca sabia bem o que fazer com ele, e o relógio desapareceu por ignorância e desleixo. À semelhan- ça dos chineses, os muçulmanos eram muito atraídos pelos relógios oci-
  8. 8. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 55 dentais, empenhando-se em adquiri-los por compra ou tributo. Mas nunca os usaram para criar uma noção pública de tempo que fosse além da convocação para as orações. Temos aqui o testemunho de Ghiselin de Busbecq, embaixador do Sacro Império Romano junto à Sublime Porta em Constantinopla, numa carta de 1560: “(. ..)se instalassem reló- gios públicos, pensariam que a autoridade de seus muezins e de seus antigos ritos sofreria uma diminuição. ” Sacrilégio. 4. Imprensa. A imprensa foi inventada na China (que também inventou o papel) no sécL1lo IX e encontrou uso geral no século seguin- te. Essa realização é tanto mais impressionante porquanto a língua chi- nesa, escrita mediante símbolos ideográficos (não alfabéticos), não se presta facilmente ao tipo móvel. Isso explica por que a imprensa chinesa - consistia primordialmente em impressões de bloco de página inteira e também por que grande parte dos antigos textos chineses consiste em desenhos. Se se vai recortar um bloco, é mais fácil desenhar do que entalhar uma multidão de caracteres. Além disso, a escrita ideográfica funciona contra a capacidade de ler e escrever: uma criança pode apren- der os caracteres, mas se não continuar a usa-los esquece como ler. As imagens ajudavam. A impressão de blocos limita o âmbito e a difusão de publicação. Ajusta-se bem à divulgação de textos clássicos e sagrados, mantras budistas etc. , mas aumenta o custo e o risco de publicação de obra mais recente e tende para as pequenas impressões. Alguns impressores chineses usaram o tipo móvel, mas, dado o caráter da linguagem escri- ta e o investimento requerido, a técnica nunca vingou como no Ocidente. De fato, como outras invenções chinesas, pode muito bem ter sido abandonada por um tempo, para ser reintroduzida mais tarde.3 De modo geral, apesar de tudo o que a imprensa fez pela preserva- ção e difusão do conhecimento na China, nunca “explodiu” como na Europa. Muitas publicações dependiam da iniciativa do governo, e o mandarinato confuciano desencorajava a dissensão e as novas idéias. Até mesmo a evidência da falsidade do conhecimento convencional podia ser rechaçada como aparência? Como resultado, a atividade intelectual segmentou-se de acordo com linhas pessoais e regionais, e a realização científica mostra surpreendentes descontinuidades. “O grande matemá- tico Chu Shih-chieh, treinado na escola setentrional, migrou para Yang chu, no sul, onde seus livros eram impressos, mas não pôde encontrar discípulos. Em conseqüência, as mais sofisticadas de suas realizações tor-
  9. 9. 5 6 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES naram-se incompreensíveis às gerações seguintes. Mas os textos científi- cos básicos eram propriedade comum por toda a parte. ”1° Textos bási- cos, uma espécie de escritura canônica, não são suficientes; pior, podem até esfriar o pensamento. A imprensa chegou à Europa séculos depois. Não se deve pensar, entretanto, que a imprensa fez o livro e inventou a leitura. Pelo contrá- rio, o interesse pela palavra escrita cresceu rapidamente na Idade Média, sobretudo depois que a burocracia e a ascensão das cidades aumentaram a demanda de registros e documentos. O governo funda- mentava-se em papel. Muita de sua verbiagem, além disso, era escrita no vernãculo, destruindo o monopólio hierático de uma língua morta mas sagrada (o latim) e abrindo para um conjunto mais amplo de leito- res e uma literatura de discordância. Como resultado, os copistas não conseguiam dar conta dos pedi- dos. Foram concebidas todas as combinações a fim de aumentar o material de leitura. Manuscritos foram preparados e encadernados em fascículos separáveis; isso dividia o trabalho de escrever, enquan- to permitia que muitas pessoas lessem o livro ao mesmo tempo. E, tal como na China, a impressão em bloco chegou antes dos tipos móveis, produzindo mais panfletos do que livros e, uma vez mais, copiosamente ilustrados. Assim, quando Gutenberg publicou sua Bíblia em 1452-55, o primeiro livro ocidental impresso por tipo móvel (e há quem o considere o mais belo livro impresso de todos os tempos), ele levou a nova técnica para uma sociedade que tinha aumentado significativamente sua produção de escrita e estava ansio- sa por LItilízá-la. Em meados do século seguinte, a imprensa propa- gou-se da Renânia a toda a Europa ocidental. A produção estimada de incunábulos (livros publicados antes de 15 O1) chegou a milhões - dois milhões só na Itália. Apesar das visíveis vantagens da imprensa, ela não foi aceita por toda a parte. Os países muçulmanos rejeitaram-na por muito tempo, em grande parte por razões fundamentalmente religiosas: a idéia de um Alcorão impresso era inaceitável. Judeus e cristãos tinham impressoras em Istambul, mas não os muçulmanos. O mesmo na Índia: só no come- ço do século XIX foi aí instalada a primeira impressora. Na Europa, por outro lado, ninguém podia deter a nova tecnologia. A autoridade políti- ca estava fragmentada demais. A Igreja tentara pôr um freio às tradu- ções em vernáculo das Escrituras Sagradas e proibir a disseminação de textos canônicos e não-canônicos. Agora sentia-se impotente. Os demô-
  10. 10. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 5 7 nios da heresia achavam-se à solta muito antes de Lutero e a imprensa tornou impossível metê-los de volta na caixa. 5. Pólvora. Os europeus provavelmente receberam-na dos chineses no século XIV, talvez em fins do século XIII. Os chineses conheceram a pólvora no século XI e usaram-na primeiro como um dispositivo incen- diário, em fogos de artifício e na guerra, freqüentemente na forma de lança-chamas tubulares. Seu uso como propulsor veio mais tarde, come- çando com ineficientes bombardas e lançadores de flechas, e passando em seguida ao canhão (fins do século XIII). A eficiência e racionalidade de alguns desses engenhos pode ser inferida de seus nomes: “o impres- sionante canhão octogonal mágico de vento-e-fogo” ou o “fogo trove- jante de nove flechas magicamente venenosas que trespassam o cora- ção. ”11 Segundo parece, eram apreciados tanto pelo ruído que produ- ziam como por seu poder mortífero. A mente pragmática acha descon- certante essa visão metafórica e retórica da tecnologia. Os chineses continuaram confiando mais nos engenhos incendiários do que nos explosivos, talvez pela sua superioridade numérica, talvez porque lutar contra adversários nômades não exige o recurso a uma guerra de cerco. ” Os tratados militares do século XVI descrevem cente- nas de variações: os “tubos voadores” descendiam, segundo parece, das lanças de fogo de quinhentos anos antes 'e eram usados para pulverizar pólvora e pedacinhos de papel em chamas nas velas do inimigo; “Caçambas de pólvora” e “tijolos de fogo” - granadas e papel embebido em veneno; outros engenhos cheios de produtos químicos e excremen- tos humanos, com o propósito de assustar, cegar e presumivelmente causar repugnância ao inimigo; finalmente, granadas mais letais rechea- das de pelotas metálicas e explosivos. ”- Algumas destas eram lançadas, outras disparadas de arcos. Não deixa de surpreender esse deleite na variedade, como se a guerra fosse uma exibição de receitas. Os chineses pulverizavam a pólvora e obtinham uma fraca reação, porque a massa de grão muito fino retardava a ignição. Os europeus, por outro lado, aprenderam no século XVI a “granular” o pó, dando- lhe a forma de pequenas amêndoas ou seixos. Obtiveram ignição mais rápida e, misturando com mais cuidado os ingredientes, uma explosão mais completa e poderosa. Com isso, era possível concentrarem-se no i Os chineses pareciam estar mais ternerosos de rebelião interna do que de invasão externa. Os armamentos mais modernos poderiam cair nas mãos erradas, entre as quais se incluíam as dos generais. Cf. I-Iall, Powers and Liberties, pp. 46-47.
  11. 11. 58 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES alcance e peso do projétil; pararem de se preocupar com ruído, cheiro e efeitos visuais. Esse foco no lançamento, quando combinado com a experiência na confecção de sinos (o bronze para sinos era conversível em bronze para canhões, e as técnicas de fundição eram intercambiáveis), deu à Europa o melhor canhão e a supremacia militar. ” Como esses casos deixam claro, outras sociedades estavam sendo suplantadas pela Europa mesmo antes da abertura do mundo (século XV) e do grande confrontar' Por que razão isso teria acontecido assim é uma importante questão histórica - aprende-se tanto com o fracasso quanto com o sucesso. Não podemos debruçar-nos aqui sobre todas as sociedades ou civilizações não-européias, mas duas merecem um momento de atenção. A primeira, o Islã, absorveu e desenvolveu inicialmente o conheci- mento e os métodos de povos conquistados. Durante o período de que estamos nos ocupando (1000 a 1500, em números redondos), o domí- nio muçulmano ia desde a extremidade ocidental do Mediterrâneo até às Índias. Antes disso, desde cerca de 700 até 1100, a ciência e a tecno- logia islâmicas superavam largamente as da Europa, que precisava recu- perar sua herança e o fez, em certa medida, através dos contatos com muçulmanos em áreas fronteiriças, tais como a Espanha. O Islã era o professor da Europa. Mas a partir de certo momento as coisas enveredaram por um cami- nho errado. A ciência islâmica, denunciada como herética por fanáticos religiosos, submeteu-se à pressão teológica exercida em nome do »con- formismo espiritual. (Para pensadores e pesquisadores, isso podia ser uma questão de vida e morte. ) Para o Islã militante, a verdade tinha sido revelada. O que levava de volta à verdade era útil e permissível, tudo o mais era erro e fraude. ” O historiador Ibn Khaldun, conserva- dor em matérias religiosas, mostrava-se consternado com a hostilidade muçulmana ao saber: Quando os muçulmanos conquistaram a Pérsia (637-642) e se depararam com uma quantidade indescritivelmente grande de livros e estudos científicos, i Por razões que Inerecem ser exploradas no contexto da história das idéias e da invenção do folclore, um certo número de scholars tentou recentemente propagar a noção de que a tecnologia européia só conseguiu ultrapassar a da Ásia no final do século XVIII. A fonte mais ativa no momento é o site H-X/ orld na Internet - um ímã para falácias e fantasias.
  12. 12. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 59 Saad ibn Abi Waqqas escreveu a Umar ibn al-Khattab pedindo-lhe permissão para toma-los e distribui-los como butim entre os muçulmanos. Nessa ocasião, Umar escreveu-lhe: "Jogue-os na água. Se o que contêm é uma orientação certa, Deus já nos concedeu melhor guia. Se está errado, Deus nos terá prote- gido contra isso? ” Recorde-se aqui que o Islã, ao contrário do cristianismo, não separa o religioso do secular. Os dois constituem um todo integrado. O Estado ideal seria uma teocracia; e na ausência de tal realização, um bom governante deixa as questões do espírito e da mente (em sua mais ampla acepção) para os doutores da fé. Isso pode significar um duro golpe para os cientistas. Quanto à tecnologia, o Islã conheceu áreas de mudança e progresso, como a adoção do papel; a introdução e difusão de novas Culturas, como o café e o açúcar; a facilidade com que os turcos otomanos apren- deram a usar (mas não a fabricar) canhões e relógios. Mas a maior parte disso veio de fora e continuou dependendo de apoio externo. As fontes nativas de invenção parecem ter secado. Mesmo durante a idade de ouro (75 O-1100), a especulação esteve desvinculada da prática: “Por cerca de quinhentos anos os maiores cientistas do mundo escreveram em árabe; no entanto, uma ciência florescente em nada contribuiu para impulsionar e acelerar o lento avanço da tecnologia no Islã. ”16 A única civilização que poderia ter suplantado a realização européia era a da China. Pelo menos, isso é o que os registros históricos parecem mostrar e a extensa lista de invenções chinesas testemunha: o carrinho de mão, o estribo, a coelheira (para impedir o estrangulamento do cava~ lo de tiro), a bússola, o papel, a impressão, a pólvora, a porcelana. E no entanto, em matéria de ciência e tecnologia, a China continua sendo um mistério - e isso apesar de um esforço monumental do falecido Joseph Needham e outros para coligir os fatos e esclarecer as questões. Os especialistas dizem, por exemplo, que a indústria chinesa antecipou-se consideravelmente à européia: nos têxteis, onde os chineses dispunham de uma máquina de propulsão hidráulica para fiar o cânhamo no século XII, cerca de quinhentos anos antes da Inglaterra da Revolução Industrial conhecer os bastidores e filatórios hidrãulicosr” ou na meta- lurgia, onde os chineses aprenderam cedo a usar carvão e coque em altos fornos para a fundição do ferro (pelo menos é o que dizem) e esta- vam produzindo 125 mil toneladas de ferro gusa em finais do século XI - um montante alcançado pela Grã~Bretanha setecentos anos depois. ”
  13. 13. 60 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES O mistério reside no malogro da China em converter todo o seu potencial em realidade. Supõe-se geralmente que o conhecimento e 0 know-how são cumulativos; por certo, uma técnica superior, uma vez conhecida, substituirá métodos mais antigos. Mas a história industrial chinesa oferece exemplos de esquecimento e regressão tecnológicos. Vimos que a relojoaria teve um retrocesso. Analogamente, a máquina de fiar cânhamo nunca foi adaptada para a manufatura de algodão, e a fia- ção de algodão nunca foi mecanizada. E permitiu-se que a fundição de ferro em fornos alimentados a carvão/ coque caísse em desuso como um todo. Por quê? Dir-se-ia que nenhuma das explicações convencionais nos conta de modo convincente por que o progresso técnico estava ausente na economia chinesa durante um período que, de modo geral, foi de prosperidade e expansão. Quase todos os elementos usualmente considerados pelos historiadores como importantes causas contributivas para a revolução industrial no noroeste da Europa também estavam presentes na China. Tinha ocorrido até uma revolu- ção nas relações entre classes sociais, pelo menos no interior, mas isso não tivera nenhum efeito significativo sobre as técnicas de produção. Faltava somente a ciência galileana~newtoniana; mas a curto prazo isso não era impor- tante. Tivessem os chineses possuído, ou desenvolvido, a mania européia seis- centista de consertar e aperfeiçoar, eles poderiam ter facilmente fabricado uma eficiente máquina de fiar a partir do modelo descrito por Wang Chen. (. ..)Uma máquina a vapor teria sido mais difícil, mas não apresentaria dificul- dades insuperáveis para um povo que havia construído os lança-chamas de êmbolo de dupla ação na dinastia Sung. O ponto crucial é que ninguém ten- tou. Na maioria das áreas, sendo a agricultura a principal exceção, a tecnolo- gia chinesa parou de progredir muito antes do ponto em que uma falta de conhecimento científico tinha-se tornado um sério obstáculo. ” Por quê? Os sinólogos propuseram várias explicações parciais. Entre as mais persuasivas: ° A ausência de um mercado livre e de direitos de propriedade insti- tucionalizados. O Estado chinês sempre interferia na iniciativa privada - encampando atividades lucrativas, proibindo outras, manipulando pre~ ços, praticando a corrupção, restringindo o enriquecimento privado. Um alvo favorito era o comércio marítimo, que o Reino Celestial via como um desvio das preocupações imperiais, uma força desarticuladora e fonte de desigualdade de renda, pior ainda, um convite a sair do país. A situação atingiu um clímax na dinastia Ming (1368-1644), quando o Estado tentou proibir todo o comércio marítimo. Tais interdições
  14. 14. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 61 redundaram em evasão e contrabando, e o contrabando trouxe a cor- rupção (suborno a título de proteção), confiscos, violência e punição. O mau governo estrangulou a iniciativa, elevou o custo das transações, desviou o talento do comércio e da indústria. ° Os valores mais amplos da sociedade. Um eminente historiador sociológico vê as relações entre os sexos como um importante obstácu- lo: o quase confinamento das mulheres ao lar tornou impossível, por exemplo, explorar lucrativamente a maquinaria têxtil num ambiente fabril. Nisso a China divergiu profundamente da Europa ou do Japão, onde as mulheres tinham livre acesso ao espaço público e esperava-se com freqüência que trabalhassem fora de casa para acumular um dote ou contribuir com recursos para a família. ” e O grande sinólogo húngaro-germano-francês, Etienne Balazs, sublinharia o contexto mais amplo. Ele vê a tecnologia abortiva da China como parte de um padrão mais amplo de controle totalitário. Não explica isso em termos de centralismo hidráulico, mas reconhece a ausência de liberdade, o peso do costume, o consenso, o que se fazia passar por uma sabedoria superior. Sua análise merece ser reproduzida: . ..Se entendermos por totalitarismo o completo domínio pelo Estado, através de seus órgãos executivos e funcionários, de todas as atividades da vida social, sem exceção, a sociedade chinesa era sumamente autoritária. (. ..)Nenhuma iniciativa privada, nenhuma expressão de vida pública que pudesse escapar ao controle oficialuPara começar, existia toda uma série de monopólios do Estado, os quais abrangiam os grandes artigos de consumo: sal, ferro, chá, álcool, comércio externo. Havia um monopólio da educação, ciosamente protegido. Existia praticamente um monopólio das letras (eu quase ia dizendo da imprensa): qualquer coisa não oficialmente escrita, que escapas- se à censura, teria poucas chances de chegar ao público. Mas o longo braço do Estado-Moloch, a onipotência da burocracia, alcançavam muito mais longe. Havia regulamenos para o vestuário, um regulamento da construção pública e particular (dimensões das casas); as cores das vestimentas, a música que se ouvia, os festivais ~ tudo era regulamentado. Havia regras para o nascimento e regras para a morte; o Estado providencial vigiava minuciosamente cada passo de seus súditos, do berço à sepultura. Era um regime de papelada e de imperti~ nências [papemsseries et tracasseriesL intermináveis montanhas de papéis e de constrangimentos sem fim. O talento e a inventiva dos chineses, que tanto proporcionaram à humani- dade - seda, chá, porcelana, papel, imprensa e muito mais - teriam enriqueci- do ainda mais a China, sem dúvida, e a colocariam no limiar da indústria
  15. 15. 62 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES moderna, não fosse esse sufocante controle estatal. o Estado que mata o progresso tecnológico na China. Não só no sentido de que corta pela raiz tudo o que vã - ou pareça ir - contra os seus interesses, mas também pelos costu~ mes implantados inexoravelmente pela raíson d'Etat. A atmosfera de rotina, de traclicionalismo e de imobilidade, que torna suspeita qualquer inovação, qualquer iniciativa que não seja ordenada e sancionada de antemão, é desfavo- rável ao espírito de livre investigação. ” Em suma, ninguém se esforçava por fazer algo. Para que tentar? Qualquer que fosse a combinação de fatores, o resultado era um padrão extravagante de iniciativas isoladas e descontinuidades sisifianas ~ subir, subir, subir, e depois para baixo de novo. O resultado, senão o objetivo, era transformação-em-imobilidade; ou talvez imobilidade-em- transformação. inovação era permitido avançar (podia ir) até certo ponto e não além dele. Os europeus conheciam muito pouco dessas interferências. Pelo contrá- rio, foi durante esses séculos que eles ingressaram num excitante mundo de inovação e emulação que desafiou interesses adquiridos e sacudiu rui- dosamente as forças do conservadorismo. As mudanças eram cumulati- vas; a novidade propagava-se rapidamente. Um novo sentimento de pro- gresso substituiu a mais antiga e estéril reverência pela autoridade. Essa inebriante sensação de liberdade invadiu (contaminou) todos os domí~ nios. Foram anos de heresias na Igreja, de iniciativas populares que, podemos ver agora, prenunciaram a ruptura da Reforma; de novas for- mas de expressão e ação coletiva que desafiaram as mais tradicionais for- mas artísticas, contestaram estruturas sociais e ameaçaram outras comu- nidades organizadas; de novos modos de criar e produzir coisas que faziam da novidade uma virtude e uma fonte de prazer; de utopias que, em vez de recordar paraísos perdidos, imaginaram melhores futuros. Importante nisso tudo foi o papel da Igreja como guardiã do saber e escola para técnicos. Poder-se-ia ter esperado outra coisa: que a espiri- tualidade organizada, com sua ênfase na oração e contemplação, mos- trasse pouco interesse pela tecnologia. Por certo a Igreja, com sua visão do trabalho como castigo pelo pecado original, não desejaria atenuar a sentença. Mas, no entanto, tudo funcionou na direção oposta: o desejo de liberar os clérigos das tarefas terrenas e consumidoras de tempo levou à introdução e difusão de maquinaria de força e, a começar pelos cistercienses, à contratação de irmãos leigos (conversí) para executar as
  16. 16. A INVENÇÃO DA INVENÇÃO 63 tarefas pesadas. O emprego de mão-de-obra assalariada estimulou, por sua vez, a atenção ao tempo e à produtividade. Tudo isso deu origem, nas propriedades monásticas, a notáveis conjuntos de mecanismos - complexas seqüências destinadas a obter o máximo rendimento da energia hidráulica disponível e a distribui-la através de uma série de operações industriais. Uma descrição do trabalho na abadia de Clairvaux, em meados do século XII, revela o entusiasmo com essa ver- satilidade: “cozinhar, torcer, filtrar, mesclar, esfregar (polir), transmitir (a energia), lavar, moer, dobrar”. O autor, claramente orgulhoso dessas realizações, diz ainda aos seus leitores que tomará a liberdade de grace- jar: os martelos de pisoar, diz ele, parecem ter dispensado os ferreiros de penarem por seus pecados; e dá graças a Deus por tais ferramentas poderem mitigar o opressivo trabalho dos homens e poupar o dorso de seus cavalos. ” " Como justificar essa joie de ? from/ er peculiarmente européia? Esse prazer no novo e no melhor? Essa cultura da invenção - ou o que alguns chamaram "a invenção da invenção”? Diversos scholars sugeriram uma variedade de razões, tipicamente relacionadas a valores religiosos: 1. O respeito judaico-cristão pelo trabalho manual, sintetizado numa série de injunções bíblicas. Um exemplo: quando Deus adverte Noé do dilúvio iminente e lhe diz que ele será salvo, não é Deus quem o salva. “Tu, porém, fabrica uma arca com madeiras resinosas”, diz ele, e Noé constrói uma arca de acordo com as especificações divinas. 2. A subordinação judaico-cristã da natureza ao homem. Isto significa um nítido afastamento das muito difundidas crenças e práticas animistas que viram algo do divino em todas as árvores e cursos de água (daí as náiades e dríades). Hoje, os ecologistas poderiam pensar que essas cren- ças animistas eram preferíveis ao que as substituiu, mas ninguém estava escutando os adoradores da natureza pagã na Europa cristã. 3. A noção judaico-cristã de tempo linear. Outras sociedades conce- beram o tempo como cíclico, retornando a etapas anteriores e recome- çando de novo. O tempo linear é progressivo ou regressivo, avançando para coisas melhores ou declinando de um estado anterior e mais feliz. Para os europeus no período de que estamos tratando, predominava a visão progressiva. 4. Em última análise, porém, eu enfatizaria o mercado. A iniciativa era livre na Europa. A inovação funcionava e recompensava, e os gover- nantes e a influência de interesses egoístas estavam limitados em sua capacidade para impedir ou desencorajar a inovação. O sucesso gerou a
  17. 17. 64 A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES imitação e a emulação, a par de um sentimento de poder que, a longo prazo, ergueria os homens quase ao nível de deuses. As velhas lendas permaneceram - a expulsão do Jardim do Éden, Ícaro que voou alto demais, Prometeu agrilhoado - para advertir contra a Ímbrís. (A própria noção de hubrís - a insolência cósmica - é testemunho das pretensões de alguns homens e dos esforços de outros para frustrã-las. ) Mas os realizadores não estavam prestando atenção.
  18. 18. 14. 15. 1. NOTAS 599 Hipócrates, Air Waters Places, citado em March, Idea of China, p. 29. Para March, a própria idéia de Ásia é um mito - um “eles" antitético que define a Europa em termos do que ela não é ou não quer ser. Isso, opina ele, reflete interesses ideológi- cos e de classe: “A nossa moderna “Ásia” é perpetuada não para a ciência mas em nome daqueles estratos cuja preocupação consiste em manter o ideal da civilização Ocidental e que se beneficiam de seus sagrados mitos de individualismo, proprieda- de privada e defesa agressiva da liberdade" (p. 35). Nada disso invalida necessaria- mente esses contrastes. Sobre o movimento “Paz de Deus" do final do século X e começo do século XI, o qual adotou a forma de maciços encontros públicos do clero, nobreza e povo, e produziu uma série de acordos sociais, cf. Head e Landes (orgs. ), The Peace of God: Social Violence and Religious Response. Esses acordos nem sempre foram res- peitados, mas o princípio é importante e, uma vez mais, as provas de iniciativa e expressão populares eram distintamente européias. CAPÍTULO 4 A peça fundamental é o fecundo artigo de Lynn White Jr. , “Technology and Invention in the Middle Ages”, Specnlum, 15 (1940): 141-5 9. 2. Jean Gimpel, The Medieval Machine, p. 14. Cf. White, Medieval Religion and Technology, pp. 226-27. White sublinha também que, ao passo que o papel prove- niente de terras muçulmanas (não mecanicamente produzido) nunca mostra mar- cas-d”água, estas aparecem no papel italiano a partir da década de 1280, um sinal de iniciativa comercial. . Sobre esses vidros de aumento, anteriores aos óculos, ver a obra de Zecchin, Vetro e vetrai di Murano (Veneza, 1989), citado por Ilardi, “Renaissance Florence”, p. 510. . O orador é o frade dominicano Giordano de Pisa, num sermão em Santa Maria Novella em Florença, em 1306. Citado em White, “Cultural Ciimates”, p. 174; também em reimpressão, 1978, p. 221. White cita o original italiano. Eu fiz peque- nas mudanças estilísticas na tradução. Ver também Rosen, “Invention of Eyeglasses"; e Ilardi, Occhiali e "Renaissance Florence". . Moses Abramovitz sustenta que um tempo de vida mais extenso encoraja o investi- mento em capital humano e torna as pessoas mais dispostas a mudar para novos lugares e ocupações. Muito mais ainda quando os anos extras podem ser os melho- res - “Manpower, Capital and Technology”, p. 5 5 . . “O relógio não é meramente um meio de acompanhar as horas, mas também de sincronizar as ações de homens. O relógio, não a máquina a vapor, é o mecanismo fundamental da moderna idade industrial(. ..)nos primórdios das técnicas modernas surgiu profeticamente a máquina automática de precisão. (.. .)Em suas relações com quantidades determináveis de energia, com a padronização, com a ação automática e, finalmente, com o seu próprio produto especial, a cronometragem exata, o reló- gio foi a máquina principal nas técnicas modernas; e em cada período manteve-se na liderança; marca uma perfeição à qual todas as outras máquinas aspiram” - Mumford, Technics and Civilization, pp. 14-15 . . Citado em Lewis, The Muslim Discovery of Europe. p. 233.
  19. 19. 600 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES Sivin, “Science and Medicine”, p. 165, diz que a imprensa com tipo móvel só subs- tituiu o método mais antigo a partir do século XII. Cf. Hall, Powers and Liherties, p. 49. Elvin, Pattern of the Chinese Past, p. 180. Needham, “The Guns of Khaifeng-fu”, p. 40. Levathes, When China Ruled the Seas, p. 102. Sobre este ponto, notar o desenvolvimento, já a partir do século XVI, de uma reclamação formal, por parte de exércitos vitoriosos, para que repiquem todos os sinos, ou o melhor dos sinos, numa localidade conquistada e em todas as suas redondezas: "o direito aos sinos. ” Cipolla, Guns, Sails and Empires, p. 30, nota 1. Em 885 , todos os copistas profissionais em Bagdá foram intimados a prestar jura- mento de que não copiariam livros de filosofia. Sobre os conflitos entre a ciência muçulmana e a doutrina islâmica, ver Hoodbhoy. Islam and Science, especialmente os capitulos 9 e 10. Ibn Kaldun, The Muqaddima: An Introduction to History (Londres: Routledge SC Kegan Paul, 1978), p. 373, citado em I-Ioodbhoy, Islam and Science, pp. 103-04. Temos um exemplo análogo de refinado cinismo e fanatismo nos anais cristãos: quando o exército de “cruzados” franceses enviado para reprimir a heresia cátara invadiu Béziers e lhe foi permitido (ordenado) que passasse seus habitantes a fio de espada, indagaram do comandante como poderiam distinguir os bons cristãos dos hereges, ao que ele respondeu: “Deus saberá distinguir quais são os seus. ” White, Medieval Religion and Technology, p. 227. Elvin, Pattern of the Chinese Past, p. 184. Ihid. , p. 85 . Elvin dá um número entre “35.000 a 40.000 e 125.000 toneladas", mas diz que prefere a estimativa mais elevada. Apoia-se para tanto em Yoshida Mitsukuni, um especialista japonês escrevendo em 1967 a esse respeito. Um estudo subseqüente de Robert Hartwell, “Markets, Technology and the Structure of Enterprise”, p. 34, também propõe o número mais elevado. Em Hall, Powers and Liherties, p. 46, a estimativa passa a ser de “pelo menos 125.000 toneladas”. É essa a tendência dos números históricos - eles crescem. Elvin, Pattern of the Chinese Past, pp. 297-98. Cf. Goldstone, "Gender, Work, and Culture”. Balazs, La hureaucratie celeste, pp. 22-23. Citado em White, Medieval Religion and Technology, pp. 245 -46. CAPÍTULO 5 . Schama, “They All Laughed", p. 30, diz que mesmo em 1892, manifestantes pro- testaram contra a celebração e retardaram-na por um ano. . Cf. “The Invasion of the Nina, the Pinta and the Santa Maria”, New York Times, 2 de junho de 1991; e a indignada refutação de Teresa de Balmaseda Milam, ibid. , 4 de julho de 1991. 3. James Barton, "He's the Explorer/ Exploiter You Just Have to Love/ Hate”, New York Times, 12 de outubro de 1992, p. B7. Ver também Sam Dillon, "Schools Grow Harsher in Scrutiny of Columbus”, ihid. , p. A1. Embora "americano nativo" seja

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