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A Sombra
Humana
~
O Resgate Do Ser
Humano Completo
Emídio Carvalho
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  3 
Título: A Sombra Humana – O resgate do ser
humano completo
Autor: Emídio Carvalho
Editor: IRIEC, LDA.
Rª da Nestlé, 1 – R/c Dto.
3860-071 Avanca
Portugal
Capa: João Bizarro (www.joaobizarro.com)
Paginação: IRIEC, LDA.
ISBN:
Depósito Legal:
1ª Edição: Dezembro, 2009
Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido,
no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico,
electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa
base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso
público ou privado – além do uso legal com breve citação em
artigos e criticas – sem prévia autorização do autor.
  4
Nota do autor
Querido leitor,
Não faço pretensão de vir a ser psicólogo, nem esta é a
minha área de estudos convencionais. Ao longo dos anos
interessei-me sempre pelo estudo da mente humana e do
comportamento do homem enquanto animal social. Todavia,
nunca encontrei um curso académico que considerasse útil ao
meu desenvolvimento pessoal nesta esfera.
Saltitando de seminário em seminário, e de workshop em
workshop, fui ligando as pontas soltas de um conhecimento
que vejo como a resposta a muitos dos dilemas que nos
afectam hoje. Tudo começou com um livro da Debbie Ford,
seguido de seminários em que participei dedicados à Sombra.
Consegui fazer as pazes com o meu passado. Consegui
perdoar todos aqueles que me tinham causado danos. E,
mais importante, consegui perdoar-me a mim mesmo, pela
responsabilidade de co-criação de cada evento doloroso da
minha vida.
Neste processo criei a estrutura necessária para dar vida a
um curso de Educação Emocional baseado em princípios
espirituais. Este pequeno manual é um resumo daquilo que
ensino. Os meus seminários contêm uma componente prática
bastante acentuada, onde cada participante é guiado no seu
processo de fazer as pazes com o passado e disponibilizar
assim toda a energia empregue na camuflagem das suas
vergonhas, medos, raivas e culpas.
Espero que a leitura deste manual lhe seja benéfica.
Com amor,
Emídio Carvalho
Índice Remissivo
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  5 
Como surge a sombra humana..........................................6
Ir ao encontro da sombra....................................................9
Uma pessoa – muitas pessoas..........................................12
Porque projectamos...........................................................17
Conhece a tua sombra, conhece-te a ti mesmo.................22
Descobrir alguns aspectos da sombra...............................27
Eu sou isso.........................................................................30
A Sombra Inconsciente.......................................................34
A natureza humana escondida do ser humano..................39
A Sombra Projectada..........................................................43
A solidão.............................................................................47
Abraçar a nossa sombra.....................................................49
Aquilo a que resiste, persiste..............................................56
A nossa história..................................................................61
Como criamos o Eu Falso...................................................64
A Sombra Integrada............................................................69
Controladores.....................................................................78
A doença como reflexo da Sombra.....................................82
A pandemia da alegria – e o ódio que esconde..................85
A Sombra Nos Relacionamentos........................................90
Reinterpretar o seu Eu........................................................95
Ressentimento ou Paz de Espírito....................................101
O Perdão...........................................................................105
Deixa que a tua luz brilhe..................................................110
Descobrir o dom................................................................118
Ferramentas Adicionais Para Descobrir O
Seu Propósito De Vida......................................................122
Agradecimentos................................................................124
Bibliografia.........................................................................125
  6
Como surge a sombra humana
Durante a leitura deste texto mantenha presente apenas esta
imagem: um recém-nascido é capaz de ir da raiva mais
agressiva até um estado de alegria eufórica em menos de
dois minutos!
Imagine que quando nasce você é um castelo. Um castelo
com mais de duas centenas de aposentos! Possui uma
cozinha da generosidade e um salão do egoísmo. Uma cave
da maldade e um quarto da bondade. Uma sala da amizade e
outra da traição. Possui ainda aposentos de inteligência,
amor, humildade, paz e respeito. E possui aposentos de
estupidez, ódio, arrogância, guerra e desprezo. Muitos
aposentos e todos eles úteis no momento certo. Os adultos à
sua volta deveriam ensinar-lhe quando é apropriado visitar
cada um dos aposentos. Deveriam dizer-lhe que possui
aposentos que muito provavelmente nunca sentirá
necessidade de visitar, e outros que lhe serão úteis inúmeras
vezes, à medida que passeia pelo seu castelo.
O que acontece na realidade é isto: um dia visita o aposento
do egoísmo e um adulto diz-lhe que esse aposento é feio. E
você fecha a porta e atira com a chave. Algum tempo mais
tarde visita a sala da bondade e outro adulto bate palmas e
diz-lhe que essa sala é muito bonita. E você decide que irá
passar muitos dias aí, mesmo que isso signifique sacrificar
uma grande parte de quem é. Noutro dia visita a cave do
desprezo. E outro adulto, que vê a sua visita, diz-lhe que essa
cave é má! E mais: se você insistir em visitar essa cave
novamente será punido! E você fecha a porta e atira com a
chave dessa cave!
Por volta dos oito anos encontra-se a viver em cerca de 10
por cento dos aposentos do seu castelo. Aos vinte anos vive
num T2, dentro do seu castelo!
Isto é o que acontece a todos os seres humanos!
Exceptuando os muito poucos que foram educados por pais
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  7 
verdadeiramente iluminados que compreendiam o ser
completo que você era, e é!
Durante os primeiros quarenta anos da sua vida,
aproximadamente, irá fechar aposento atrás de aposento.
Limitar-se-á mais e mais. Porque, ainda por cima, ensinaram-
no a não correr riscos, a procurar a segurança da rotina, nem
que sacrifique mais um pouco da sua vida e de quem é!
Por volta dos vinte e poucos anos começa a ter problemas
com os aposentos que fechou. E ensinam-lhe a decorar
afirmações positivas e a recitar mantras! Isto é o mesmo que
viver numa casa que está a cair e você, num acto louco,
decide pintar a casa de rosa, para criar a ilusão que a casa é
nova em folha! É claro que ela irá cair!
As afirmações positivas são boas, deliciosas na verdade. Mas
primeiro verifique o que está escondido na sua mente! A sua
sombra, aquilo que você “não é”, os aposentos que se
esqueceu já que existem. A maior parte dos nossos
pensamentos são projectados a partir do subconsciente.
Chamo-lhe a “vozinha da caixa da sombra”. O que temos nos
pensamentos das pessoas que recitam afirmações positivas é
um monólogo parecido a isto: “Eu amo-me e aceito-me tal
como sou... (sorriso) Olha-me para aquele velho que não vê
para onde vai, o estúpido!... Eu sou um com o amor Divino
(mais um sorriso)... Odeio esta gente que fuma e não tem
respeito pelos outros! Javardolas!... Eu perdoo todos os que
me magoaram... Agora, como é que posso estragar o dia ao
palhaço do meu colega?... Meu Deus, esta dor de costas não
me larga! Será que é alguma coisa grave?... A minha mãe
deixa-me com os nervos em franja! Se ela hoje me diz que
preciso de mudar de vida outra vez, mato-a!... O dinheiro vem
a mim facilmente... Eu não posso focar a atenção no que não
quero! Eu amo-me e amo os outros... (outro sorriso, mas
menos convincente) Estou outra vez atrasado, raios!
O problema real é que não nos apercebemos sequer do
diálogo que coloco a itálico! É o diálogo que vem da sombra e
  8
que nem nos apercebemos! Excepto se começarmos a
prestar verdadeira atenção aos nossos pensamentos. Sei do
que falo por experiência própria.
Ainda não encontrei uma pessoa que pratique “pensamento
positivo” que esteja verdadeiramente de bem com a vida! Que
esteja verdadeiramente entusiasmado e apaixonado pela
vida. Há aquelas pessoas que se esforçam tanto por mostrar
que isto funciona, mas basta picar as suas sombras e vê-los a
espernear! É giro! E assim lá se expressa o meu lado sádico
de uma maneira pouco saudável! (Eu sei que essas pessoas,
com uma vida fantástica porque recitavam continuamente
afirmações positivas, existem! Conheço inclusive alguns dos
livros, que podem ser uma ajuda preciosa para acordar – mas
para a maioria dos mortais é só isso: servem para acordar).
Há ainda pessoas que fazem muita meditação e paz e amam
tudo e todos... E depois alguém trata-os abaixo de cão! Ou
são vítimas de violência física... E lá cai por terra a teoria da
Lei da Atracção! (Eu também já acreditei nessa teoria –
infelizmente está incompleta).
Será que você seria capaz de matar, de atraiçoar, de mentir?
Claro que sim! Em dois minutos mostro-lhe uma situação em
que o faria sem pensar! Há em nós uma coisa que se chama
“instinto de sobrevivência” o qual ultrapassa, fisicamente, a
mente consciente, os nossos preceitos morais e todo o lixo
mental acumulado, e simplesmente entra em acção.
O problema para muitos pais é como explicar a um filho em
que situações o seu medo, estupidez, arrogância, egoísmo,
maldade e inveja, para nomear apenas alguns dos
comportamentos humanos “negativos”, podem ser úteis.
Dedique algum tempo a estudar isto. Veja em que situações
ser mau pode ser bom.
Nós passamos os primeiros 40 anos da nossa vida a
acumular sombra. E os restantes a tentar recuperar essa
sombra. Os ingleses chamam-lhe “midlife crisis”. Os Sábios
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  9 
chamam-lhe a “noite escura da alma” – uma idade em que
perdemos a segurança numa área da nossa vida que nos é
querida. E isto acontece por um único motivo: “Aquilo que tu
não queres ser não te deixará ser”.
Ir ao encontro da sombra
A nossa sombra usa uma série interminável de disfarces:
gananciosa, maldosa, manipulativa, egoísta, controladora,
não merecedora, preguiçosa, fraca, hostil, vingativa,
destrutiva, etc.
A nossa sombra funciona um pouco como um armazém, onde
guardamos todas estas partes de nós que não aceitamos.
Todos os aspectos que aparentemente não somos e que
gastamos tanta energia a fazer de conta que não existem.
São as faces que não queremos mostrar ao mundo. Nem a
nós!
Tudo aquilo que odiamos, resistimos ou afirmamos que não
somos, toma uma vida própria dentro de nós, no nosso
subconsciente, destruindo qualquer sentimento de auto-
estima que tenhamos.
Quando enfrentamos a nossa sombra pela primeira vez a
nossa atitude é quase sempre de negação. Fugimos daquilo
que não aceitamos ou não gostamos em nós. Outras vezes
optamos por negociar com a sombra. Fingimos que sim, que
reconhecemos o potencial para ser isto ou aquilo, mas
viramos as costas na esperança de que nunca aconteça.
Mas são estes aspectos escondidos que mais atenção
precisam de nós. Temos que fazer as pazes com eles, aceitá-
los na totalidade. São os nossos tesouros escondidos.
Dois exemplos. Você poderá pensar que mentir é feio e os
mentirosos são pessoas indignas de ser amadas. É capaz de
pensar numa situação em que mentir possa ser útil a uma
  10
pessoa? Imagine uma criança de dez anos a conversar, na
internet, com um suposto ‘amigo’ que vem a descobrir tratar-
se de um pedófilo... Se a criança mentisse e dissesse ao
agressor que na verdade era um agente da Policia Judiciária?
Não lhe parece que nesta situação, mentir, seja a diferença
entre a liberdade e as garras de um predador?
Ou imagine a situação em que um assassino vai matar a
pessoa que mais ama. E você tem uma oportunidade para lhe
dar com um martelo na cabeça. Seria capaz de o fazer? Claro
que sim. É uma questão de sobrevivência.
Começa a ver como a sombra, aqueles aspectos que
negamos, podem ser úteis?
Mas tenha cuidado neste processo da sombra! Um dos
nossos maiores problemas, nestes dias de informação
excessiva, é o sindroma “Eu já sei isso”. Uma coisa é saber,
intelectualizar, outra, muito diferente, é sentir. Este processo
da sombra não é algo a intelectualizar, mas sim uma viagem
que tem início na cabeça mas cujo destino final é o coração.
A nossa sombra é a porta para a verdadeira liberdade. Temos
que tomar a decisão de explorar, reconhecer e aceitar cada
faceta da nossa sombra, para sermos verdadeiramente livres.
E quer você goste ou não, enquanto ser humano, possui uma
sombra. Qualidades de luz e escuridão desconhecidas da
mente consciente.
Abraçar um aspecto do nosso ser significa amá-lo e aceitá-lo
tal como é. Não significa torná-lo mais do que é, nem menos
do que é. Simplesmente aceitar que é apenas mais um
aspecto de nós.
Vivemos hoje sob a falsa pretensão de que para algo ser
divino tem que ser perfeito. Isto é um erro. De facto o oposto é
que é verdade. Ser divino significa ser-se completo. E ser-se
completo significa ser tudo, o positivo e o negativo, o bonito e
o feio, o santo e o pecador.
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  11 
Quantas vezes, enquanto crescíamos, nos foi dito para não
nos portarmos mal? Para não sermos preguiçosos? Para não
dizer asneiras? Para não falar alto? Para não sermos
egoístas? A mensagem era sempre a mesma: Não ser!
Ensinaram-nos a “não ser”!
Você nunca soube o que era ser belo, porque passou a maior
parte da infância a esconder o feio! Você nunca soube o que
era a verdadeira bondade porque passou a maior parte do
tempo a esconder a ganância! E assim foi perdendo uma
parte importante de si mesmo.
E como aprendeu tão bem a ‘não ser’, começou a
desenvolver uma certa impaciência por aqueles que eram. Os
maus da fita. E os maus da fita tinham que existir sempre,
para a lhe mostrar as partes de si que aos poucos ía
escondendo.
E foi assim que você caiu na ratoeira do “se apenas”. Se
apenas as pessoas fossem mais simpáticas.. Se apenas as
pessoas fossem mais generosas... Se apenas eu tivesse uma
relação mais amorosa... Se apenas eu tivesse mais dinheiro...
Querido amigo, vai precisar de algum tempo para sentir amor
por quem é na totalidade.
Já reparou que a maior parte das pessoas com problemas
sérios de saúde são pessoas que nunca mostram raiva, nem
se queixam, colocam sempre os outros em primeiro lugar. E
depois têm doenças graves e nem sabe porquê.
Escondido nos seus corpos há toda a raiva, sonhos, desejos e
tristezas que nunca foram capazes de mostrar ao mundo.
Foram ensinados a colocar os outros em primeiro lugar,
porque é isso o que as pessoas boas fazem.
  12
Dentro de nós há todos os aspectos, positivos e negativos,
que observamos na espécie humana. Cada emoção, cada
impulso, cada necessidade.
Quando observar um comportamento humano, qualquer
comportamento humano, e for capaz de afirmar “eu sou
assim” ao nível mais profundo do seu ser, então será capaz
de se aproximar da verdadeira iluminação.
Lembre-se que só saberá verdadeiramente o que é o amor,
quando aceitar em si a capacidade para odiar. O ódio só tem
poder sobre si enquanto não o reconhecer, enquanto não o
aceitar. A partir do momento que aceita a sua capacidade
para odiar irá estar livre para amar sem impor condições.
A nossa sombra existe para nos mostrar que somos
incompletos. Existe para nos ensinar o amor, a compaixão e o
perdão. Não só em relação aos outros mas, acima de tudo,
em relação a nós mesmos. E quando abraçamos a nossa
sombra, tem início a cura da nossa alma. É que a nossa
sombra só é sombra porque permanece escondida. Quando
trazemos a nossa sombra à presença da luz, quando
descobrimos o presente da nossa sombra, ela transforma-
nos. Liberta-nos.
Quando abraçar a sua sombra, dará início ao processo da
cura. E quando cura a sua sombra torna-se livre para amar na
totalidade.
Em cada ser humano há uma divindade à espera de ser
descoberta.
Esquecemo-nos que já somos completos.
Uma pessoa – muitas pessoas
Em cada um de nós há uma série de subpersonalidades (em
psicologia o termo utilizado é “complexos”). Não podemos cair
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  13 
na asneira de acreditar que conhecemos quem quer que seja,
porque nunca iremos conhecer a totalidade da pessoa com
quem partilhamos um momento ou uma vida.
As nossas subpersonalidades formam-se antes de sermos
capazes de construir um raciocínio lógico capaz de filtrar a
informação vinda do exterior. E muitas das subpersonalidades
são-nos tão repugnantes que optamos por fechá-las num
recanto escuro da nossa mente. Pensamos que aí, na
escuridão, não causarão qualquer problema. Fazemos isto
por um único motivo: ser aceites pelos outros.
Imagine uma criança de 4 anos que mente à mãe e é
apanhada na mentira. A mãe, tendo como único objectivo
ensinar a criança a viver em sociedade, diz à criança que
mentir é feio. Dependendo da forma como esta mensagem é
transmitida, a criança pode escolher ignorar a admoestação
da mãe ou, caso seja severamente castigada, decidir
esconder o aspecto de si capaz de mentir. De uma maneira
simplista a criança decide que jamais voltará a mentir. Mais
tarde essa mesma criança é apanhada pelo pai a roubar o
brinquedo de outra criança. Se o pai possuir as características
do tirano ou do moralista, irá punir a criança. Explicar à
criança que roubar é errado, fazê-la ver a situação sem
qualquer interpretação moralista, e ajudar a criança a
descobrir de que maneira o acto de roubar pode ser útil (e há
situações em que pode ser útil, acredite) seria a atitude mais
apropriada. Mas isto ocuparia algum do tempo do progenitor.
Por outro lado, se o pai tiver as suas próprias feridas
emocionais relacionadas com o furto irá projectar estes
aspectos no filho e punirá de acordo com a infracção. E a
criança decide que jamais roubará – outro aspecto da sua
personalidade que é abafado na mente subconsciente. Pouco
tempo depois a criança faz um desenho que é o orgulho da
tia. A tia mostra a toda a gente, à frente da criança, a
criatividade e brilhantismo da mesma. Elogia-a sem fim! Se a
criança tiver uma tendência para a timidez irá sentir-se mal
com os elogios e com o facto de ser o centro das atenções. E
  14
mais uma vez, decide que ser criativo é contraproducente e
esconderá este aspecto na sua mente subconsciente.
Por volta dos 20 anos, estaremos perante um adulto que não
mente, não rouba nem é criativo. Mas estes aspectos estão
todos em si! E cada um deles irá criar uma batalha na sua
psique porque cada um quer ser experienciado. Daí que eu
diga “aquilo que tu não queres ser, não te deixará ser”. O
jovem torna-se na verdade incompleto. A partir daqui várias
situações irão surgir.
O jovem poderá escolher projectar os aspectos que rejeita em
si. Assim, irá atrair a si pessoas que mentem, roubam e que
são genialmente criativas. Estas pessoas existem apenas
para lhe mostrar as partes de si que está a deserdar. Nós
somos animais sociais e é através da socialização que
aprendemos sobre quem somos. Contudo, em qualquer
ambiente social em que nos encontremos há sempre uma
pessoa que não conseguimos ver: nós próprios. Como não
nos conseguimos ver iremos projectar aspectos de nós sobre
os outros. Uma forma brilhante de descobrirmos quem somos:
o santo e o pecador, a luz e a escuridão. Não conseguimos
estar muito tempo na luz sem ter a experiência da escuridão.
O jovem acima descrito irá ainda fazer exactamente aquilo
que não aceita nele. Irá mentir, roubar e ser criativo. Mas fá-
lo-á de uma maneira velada, em que ele próprio não tem
consciência de o estar a fazer. Pode mentir quando afirma
que está bem e não está. Pode roubar tempo aos outros,
chegando sempre atrasado a qualquer compromisso, e
poderá ser bastante criativo nas suas desculpas.
Este jovem irá atrair a si, para vivenciar uma relação a dois, a
pessoa que melhor lhe mostre todos os seus aspectos
rejeitados. De início irá ver na pessoa que é objecto da sua
atenção apenas os aspectos positivos, como a criatividade.
Depois de oficializada a união, os aspectos negativos
projectados na outra pessoa começarão a mostrar a sua feia
cara. É comum a muitas pessoas, quando se encontram
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  15 
próximas do divórcio, afirmarem que não conhecem a pessoa
com quem se casaram. A verdade é que elas não se
conhecem a si mesmas.
Por volta dos quarenta anos de idade, os aspectos negados
da sua personalidade terão obtido energia suficiente para
causar danos na vida desta pessoa. A Debbie Ford explica
este fenómeno de uma maneira fácil de compreender.
Imagine que cada aspecto que rejeita em si é uma bola de
praia. Há uma bola da estupidez, outra da arrogância, outra
do egoísmo, outra ainda da prepotência, outra da mentira,
outra da infidelidade. Cada um de nós possui muitas bolas. E
como temos pavor que os outros descubram estes aspectos
deserdados, iremos gastar uma energia descomunal a manter
cada uma das bolas debaixo de água, para que ninguém as
consiga ver. E, se possível, para que nós mesmos não as
consigamos ver. A energia que utilizamos para manter estas
bolas fora do nosso campo de visão é a da raiva. A energia
mais poderosa que algum ser humano é capaz de possuir.
Num momento de distracção, em que pensamos que a nossa
vida não podia estar melhor, estas bolas saltam! E vão molhar
muitas pessoas! Irão magoar-nos a nós e aos que nos são
queridos. Vemos isto todos os dias!
O condutor que insulta outro e ameaça, podendo chegar ao
extremo de sair do carro para agredir. O padre que é
descoberto a “dedicar-se” à pedofilia. A boa mãe que bate no
filho num centro comercial. A empregada doméstica que
rouba um anel da patroa. O político que usa o seu poder para
beneficiar um amigo. O director da empresa que se deixa
subornar. A professora que tem um caso com um aluno
menor. A boa rapariga que come mais do que precisa e se
torna obesa. O juiz que se descobre pertencer a uma rede de
prostituição.
Basta-nos ver um telejornal para verificar a sombra em acção.
Os nossos aspectos deserdados.
  16
Por detrás destes comportamentos inapropriados há apenas a
vergonha, a culpa, o medo e a raiva. Emoções tóxicas que
surgiram na infância e adolescência e não foram devidamente
reconhecidas nem expressas. E que eventualmente serão a
origem dos danos que causamos a nós próprios e aos que
nos são queridos. Ninguém é inocente. As pessoas mais
perigosas são precisamente as que se encontram em estado
de negação ou que são moralistas. São estas as que
possuem a sombra mais densa e nefasta. Parece um
pesadelo de antagonismos. Mas a pessoa boa que não é
capaz de reconhecer os seus impulsos mais animais é a que
é capaz das maiores atrocidades.
Temos que nos recordar continuamente que de cada vez que
apontamos o dedo a alguém, há três dedos a apontar na
nossa direcção.
É aqui que o sentimento da compaixão é importante. Em vez
de nos apressarmos a julgar os outros, seria mais apropriado
julgar a acção. Porque a pessoa que mente não é mentirosa.
É mentirosa e honesta. É maldosa e bondosa. É bela e feia. É
traiçoeira e fiel. E cada um de nós pode escolher o que quer
ver. Posso escolher ver que uma pessoa mentiu, mas o acto
de mentir é apenas um de muitos aspectos da pessoa. Se
reparar à sua volta irá ver que as pessoas que mais danos lhe
causaram são as mesmas pessoas capazes do maior gesto
de bondade.
Por este motivo é que afirmo que o divórcio pode ser um
catalizador para o nosso crescimento espiritual. Se formos
capazes, se tivermos a coragem, de resgatar todos os
aspectos que víamos na pessoa que deixámos de amar.
O maior passo que pode dar no seu crescimento pessoal é
precisamente resgatar tudo aquilo que vê nos outros. Nós
gastamos uma quantidade considerável de energia a
esconder os nossos aspectos de vergonha e culpa. Enquanto
não tivermos a coragem de mostrar a nossa vulnerabilidade, a
nossa humanidade, as nossas feridas, nunca teremos
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  17 
disponível a energia suficiente para vivermos na autenticidade
de quem somos. E iremos continuamente sabotar os nossos
maiores sonhos. Não é por acaso que a grande maioria das
pessoas desconhece completamente qual o seu propósito
nesta vida.
Porque projectamos
Nós projectamos todos os aspectos que negamos em nós
mesmos porque é demasiado doloroso aceitá-los.
Quando ainda muito jovens (por volta dos dois anos de idade)
aprendemos que certos comportamentos eram do agrado dos
nossos pais, e outros afastavam os seus afectos. E
escondemos os aspectos reprovados pelos nossos pais. E
mais tarde também pelos nossos professores e líderes
religiosos.
Mas nós vivemos numa realidade de paradoxos e não de
contradições. A contradição, que nos é ensinada, diz que ou
somos bons ou somos maus, não podemos ser as duas
coisas. Ou somos bonitos ou somos feios. Ou somos
bondosos ou maldosos. Impossível ser as duas coisas.
Já pensou como seria a vida se não houvesse noite? Ou
quente? Ou alto? Ou subir? Num mundo assim, que
significado teria o dia? E o frio? O baixo? O descer?
A realidade é paradoxal e no entanto ensinam-nos a ser
contraditórios. Infelizmente qualquer aspecto necessita do seu
oposto para existir. Não é possível ser honesto sem aceitar o
desonesto. Ou ser bondoso sem a maldade.
Eu não tenho que manifestar o meu lado desonesto, mas
tenho que o abraçar. Tenho que sentir que está presente e
poderá ser-me útil no contexto adequado. Por exemplo,
suponhamos que vivemos num pais ditatorial em que as
pessoas que professam o hinduísmo são mortas?... Se eu for
  18
hinduísta e for ainda desonesto quando me perguntam qual a
minha religião, este acto de desonestidade pode ser a
salvação da minha vida e da dos meus familiares. Saber que
em mim há o potencial para ser desonesto é saudável. Mais
ainda, tenho que expressar essa desonestidade! Como?
Através da pintura, por exemplo. Ou da dança. Ou de uma
escultura.
Este é um dos motivos porque encontramos na índia, china ou
em países árabes, gravuras, estátuas e literatura que no
ocidente é considerada pornografia. No entanto esta é uma
forma muito saudável de expressar a sexualidade animal
presente em cada um de nós.
Se eu sou uma pessoa que se considera extremamente
inteligente, em mim há o potencial para ser o maior burro da
história. E tenho que abraçar, e expressar esse burro. Só
consigo expressar o burro que há em mim através da escrita,
por exemplo. Ou de uma “dança do burro”. Ou de uma
escultura que represente o burro em mim.
Mas como não estamos conscientes deste processo da
Sombra iremos fazer apenas uma de duas coisas:
projectamos o nosso burro interior em outros, ou
amordaçamo-lo durante anos e um dia, sem qualquer aviso, o
nosso burro interior salta para fora e expomos a nossa parte
mais desprezível e abominável! Fazemos uma burrice
descomunal!
Isto é apenas um exemplo. Mas pode ter a certeza que o
aspecto de si que mais nega, mais despreza, e mais medo
tem de ser, irá causar-lhe danos na sua vida mais cedo ou
mais tarde. Se anula a sua sexualidade, irá atrair um/a
companheiro/a tarado, ou então frígido e incapaz de uma
relação sexual saudável. Se anula a sua estupidez irá atrair
um colega insuportável e, claro, estúpido. Se anula o ladrão
em si, irá ser assaltado. Se anula o tirano em si,
provavelmente irá atrair um cônjuge controlador e
manipulador.
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  19 
E todas as pessoas que atrai a si são projecções suas, partes
de si que recusa aceitar. Isto também se aplica aos aspectos
mais nobres de quem é. Se anula a sua criatividade irá atrair
um amigo carregado de ideias geniais. Se anula a sua
centelha divina irá atrair um ‘mestre’ iluminado. Se anula a
sua beleza e sensualidade, irá atrair verdadeiros grupos de
amigos e conhecidos que o são.
O problema é que ninguém aguenta muito tempo a ser a
projecção de outro. E é aqui que começam os nossos
problemas nos relacionamentos.
Houve pessoas que me perguntaram se podiam deixar de
projectar ou de ser projecções de outros. Apenas se morrer.
Mesmo que decida isolar-se numa floresta, irá projectar-se na
natureza. O dia bonito, a erva suave, o rato nojento. Tudo
projecções!
Há de facto uma maneira de deixar de projectar e ser
projecção. É um processo delicado, em que o amor por nós
próprios tem que permanecer sempre presente. Este
processo não pode nunca ser intelectual. Desengane-se já se
pensa que por ler sobre o assunto é capaz: irá falhar
redondamente!
Terá que abraçar todas as qualidades que há em si, as que
sabe que estão lá e as que nem imagina que existem! E fazê-
lo a partir do coração. Tem que sentir e nunca intelectualizar.
O processo em si é doloroso (que o digam as pessoas
presentes nos seminários dedicados ao Caminho da
Sombra!). Mas ao mesmo tempo libertador. Com tempo dá-
nos muita energia, criatividade, poder pessoal.
Se estiver consciente da sua Sombra e da Sombra dos que o
rodeiam, ser-lhe-á também fácil projectar aspectos da Sombra
dos outros. E neste processo expressa a sua própria Sombra!
Por exemplo, se estiver com um amigo que odeia o roubo.
Todos temos uma aversão visceral a ser roubados. Então,
para não ferir susceptibilidades, a rir-se, irá roubar uma
caneta ao seu amigo. Sempre consciente que é o seu “Eu
  20
Ladrão” a expressar-se. Não só consegue manifestar um
aspecto da sua Sombra, mas mostra esse mesmo aspecto ao
seu amigo de uma maneira divertida e que o seu
subconsciente aceite que ser roubado não é o fim do mundo.
Porque motivo pensa que as pessoas têm uma reacção
emocional forte quando são insultadas? O medo que a sua
Sombra seja descoberta, ou pior ainda, que essa sombra se
exponha.
Para ter uma ideia, no último seminário pedi aos participantes
para me insultarem. Esta é uma forma de eu descobrir
aspectos de mim que ainda não abracei. E podem ter a
certeza que este processo é violento!
Chamaram-me muitas coisas. Ladrão (sim, já roubei – era
criança, mas roubei). Mentiroso (sim, já menti). Assassino
(reconheço que tenho todo o potencial para matar a sangue
frio outro ser humano). Nojento (já fui, e de que maneira!).
Maricas (e de que maneira! Todos os dias!). E o meu querido
amigo Rui lá estava para ‘mexer’ comigo: chamou-me
ciumento! Todos puderam observar (e não, aqui não há
possibilidade de fingir) a minha primeira reacção. “Não! Eu
não sou ciumento”!
Toda a minha vida adulta me lembro de trabalhar para não ser
ciumento. E este aspecto, claro, permaneceu na minha
sombra, a alimentar-se secretamente da minha energia! Não
era por acaso que eu atraía pessoas ciumentas! E enquanto
eu não aceitasse que era capaz de ser ciumento, a partir do
coração, continuaria a projectar este meu aspecto em outros.
Não sei se começa a ver o seu drama pessoal. Se uma
determinada característica do comportamento de outro ser
humano lhe provoca uma reacção emocional, isto significa
que este aspecto permanece na sua sombra. E irá
permanecer até ser capaz de o abraçar com o coração. Não
funciona fingir que não tem uma reacção emocional aos
comportamentos de outros. Poderá enganar os outros, mas
jamais será capaz de se enganar a si mesmo. Foi educado
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  21 
para se julgar e julgar os outros continuamente – de
preferência os aspectos negativos, claro.
Como é que sabe que abraçou a sua sombra na totalidade?
Quando for capaz de aceitar todos os seres humanos, com
todas as suas virtudes e defeitos. Quando permitir que sejam
quem são. E não projectar nada de volta. Como sabe que não
está a projectar? Os outros irão querer projectar em si um
comportamento, por exemplo, através de uma discussão, e
você permanece em paz, calmo, a aceitar que é ok. Mas ao
mesmo tempo é capaz de soltar a sua bruxa má, no momento
apropriado. Isto não significa que é aceitável roubar, ou matar,
ou prostituir-se! Significa que a menos que abrace o seu
potencial para o ser, terá que projectar noutros.
E ainda aceitar calmamente quando alguém lhe diz “és belo e
magnífico” porque sabe, e sente, que é verdade. Não fica
corado nem se diminui perante um cumprimento.
Cristo foi um excelente exemplo do parodoxo da Sombra. Ao
mesmo tempo que era amor que curava os enfermos, também
mostrava o seu lado tirano e sádico, ao chicotear os
vendedores no templo. Se ele fosse um dos ‘novos
iluminados’ dos nossos dias, em vez do chicote teria dito
qualquer coisa como “este templo está agora carregado de
energias negativas. Temos que construir um novo templo.” Ou
algo parecido, com muito amor e ternura. E hipocrisia. Mas
não. Cristo mostrou a sua Sombra, o seu lado cruel, frio,
distante, ignorante dos sentimentos dos outros. Perfeição e
imperfeição. Dócil e selvagem. Belo e terrível.
Há uma urgência em abraçar a nossa sombra. O quanto
antes. Se o não fizermos iremos caminhar para a nossa
destruição. Uma vez que projectamos os aspectos que não
aceitamos em nós, iremos sempre projectá-los, nos outros!
Iremos projectar o louco suicida num árabe. Iremos projectar
o ladrão no director financeiro de uma empresa. Iremos
projectar o corrupto num politico. E iremos projectar a nossa
sombra colectiva numa outra sociedade. Olhem para o
  22
exemplo dos americanos! Depois de anos a projectar a sua
sombra sobre os russos (que muitos já esqueceram), como
não a abraçaram quando a Rússia abraçou a sua (que
projectava nos americanos), agora a América projecta a sua
sombra nos árabes. Que por sua vez projectam a sua própria
sombra nos americanos!
Este processo tem que se dar primeiro ao nível de cada
individual. E não são precisos muitos indivíduos para fazer a
diferença em toda a sociedade. Vejo-o diariamente. Tenho
trabalhado a sombra de alguns amigos e é fascinante ver
como a dinâmica da família de cada um deles vai mudando,
para melhor!
Aceite o desafio: comece hoje mesmo a praticar e a expressar
a sua sombra de maneiras criativas.
Conhece a tua sombra, conhece-te a ti mesmo
Dentro de cada um de nós existe um verdadeiro tesouro. Este
tesouro é o nosso espírito, puro e magnificente, livre e
brilhante! Mas este tesouro foi escondido por uma camada
espessa de preconceitos. Estes preconceitos têm a sua
origem nos nossos medos. É a nossa máscara social: a cara
que mostramos ao mundo. Revelar a nossa sombra é colocar
a descoberto a nossa máscara. Temos que olhar para esta
máscara com amor e compaixão, pois há um enorme tesouro
à nossa espera quando compreendemos porque motivo nos
escondemos por detrás dela.
Há uma história curiosa que podemos aplicar a este tema. Em
1957 um grupo de monges na Tailândia estava a ser
deslocado para outra parte do país. Um dos monges ficou
responsável por tratar da deslocação de uma enorme estátua
de barro do Buda que se encontrava à entrada do templo.
Como a estátua era de barro todo o cuidado era pouco para
não a estragar. Ainda por cima notava-se umas rachadelas
num dos pés da estátua. O monge não sabia o que fazer.
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  23 
Durante a noite não conseguia adormecer, a pensar como
melhor deslocar a estátua sem causar danos. A meio da noite
levantou-se, pegou numa lanterna e foi ver mais uma vez a
estátua. Ao incidir o foco de luz sobre o barro estalado notou
que por debaixo do barro reflectia-se um brilho forte. O monge
começou a arranhar o barro com as unhas, e o brilho
aumentava cada vez mais. Por fim surgiu ouro! Algumas
centenas de anos antes, os monges daquele mosteiro foram
atacados e saqueados. Para protegerem a única coisa de
valor que tinham colocaram barro a cobrir uma enorme
estátua de ouro do Buda! E foi essa estátua que o monge
tinha tentado manter no seu estado original de barro!
Da mesma maneira que este Buda, o nosso aspecto exterior
serve para nos proteger do mundo à nossa volta. O nosso
verdadeiro tesouro esconde-se por debaixo! Nós
escondemos, inconscientemente, o nosso tesouro. A maneira
mais fácil de descobrir este tesouro é arranhando e
quebrando a nossa estrutura superficial.
Nos meus seminários encontro muitas pessoas que investem
anos e dinheiro em seminários, tratamentos e cursos.
Procuram respostas. E quando é que a procura irá terminar?
Quando é que obterão as respostas? Estas pessoas não se
vêem como um Buda de ouro escondido por detrás de uma
camada de preconceitos. Na verdade estas pessoas não
suportam a sua camada superficial. Ainda não descobriram
que esta camada superficial as protege muito mais do que
imaginariam algum dia. Nós precisamos da nossa camada
protectora por muitos motivos, e para cada um de nós os
motivos são diferentes. Apesar de que o nosso objectivo
último é ver-nos livres da camada protectora, primeiro temos
que compreender e aceitar estas máscaras.
Acha que o Buda de ouro, depois de lhe terem retirado a
camada de barro, disse “porque motivo me tiraram o barro?!
Eu gosto deste barro que me esconde!!” Ou será que o Buda
sentia uma imensa gratidão pela protecção que o barro lhe
tinha dado no passado, e que agora já não precisava?
  24
A sua camada exterior é a face que mostra ao mundo.
Esconde todas as características que compõem a sua
sombra. As nossas sombras escondem-se tão bem que
muitas vezes mostramos ao mundo uma cara, quando no
fundo nos sentimos exactamente o oposto. Há pessoas que
usam uma camada de frieza, para esconder a sua
sensibilidade, ou usam uma camada de humor para esconder
a tristeza interior. As pessoas que acreditam que ‘já sabem’,
escondem sentimentos de estupidez. Enquanto que aquelas
que agem de maneira arrogante, ainda têm que revelar as
suas inseguranças. As pessoas ‘cool’ ainda têm que mostrar a
sua parte desenxabida. E as pessoas sorridentes, a sua cara
de zangadas.
Nós temos que olhar para além das nossas máscaras sociais
para poder descobrir quem somos de verdade. Nós somos
mestres dos disfarces, enganando os outros mas, acima de
tudo, enganando-nos a nós mesmos. São as mentiras que
contamos a nós mesmos que temos que decifrar. Quando não
nos sentimos completamente satisfeitos, felizes, saudáveis ou
a viver os nossos sonhos, sabemos que as nossas mentiras
estão activas. É assim que descobrimos a nossa sombra em
acção.
A mudança que tem que ocorrer é perceptual. Você tem que
ver as suas camadas exteriores como estando a servir uma
função protectora, e não apenas como algo que o impede de
viver os seus sonhos. As suas camadas exteriores foram
concebidas de maneira divina para o ajudar no seu processo
espiritual. Ao visitar e explorar cada incidente, emoção e
experiência que o levou a construir as suas camadas
exteriores, será conduzido de volta a casa para que possa
abraçar a totalidade do seu ser. As nossas camadas
exteriores são o mapa do nosso desenvolvimento pessoal.
Contêm tudo o que somos, e tudo o que não queremos ser.
Independentemente do quão doloroso tenha sido o seu
passado, se olhar para si mesmo com total honestidade e
utilizar a informação guardada nas suas camadas exteriores
como um guia, irá encontrar o caminho de volta à iluminação.
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  25 
Quando conhecer o seu Eu Total deixará de ter necessidade
das camadas exteriores para protecção. Irá deixar que as
suas máscaras caiam naturalmente. Todos os seres humanos
que partilham o planeta serão seus iguais. Literalmente.
As nossas camadas exteriores são criadas pelo ego. Ou
melhor, são criadas pelo ideal que o ego cria. O ego é o ‘eu’
que se diferencia dos outros. O Espírito une este ‘eu’ com a
totalidade de quem é. Quando esta união entre espírito e ego
ocorre, tornamo-nos um com nós mesmos e com o mundo.
Muitas pessoas não conseguem ir muito longe neste processo
de desvendar a sombra porque não têm a vontade de ser
honestas com elas próprias. O ego não gosta muito de perder
o controlo! Mas a partir do momento que é capaz de
reconhecer todos os aspectos de quem é, o bom e o mau, o
ego começa a sentir que perde o seu poder.
Comece por desafiar a pessoa que pensa que é para poder
revelar a pessoa que é capaz de se tornar.
Usar as outras pessoas como espelhos ajuda-nos a decifrar
as nossas máscaras.
Vá ter com os seus amigos e familiares mais próximos e
peça-lhes para lhe dizerem as três qualidades e os três
defeitos que mais admiram/não suportam em si. É importante
dizer-lhes primeiro que não ficará ofendido pelas suas
respostas! Torne o espaço das perguntas um local seguro
para todos. Só assim os outros se sentirão bem em revelar-
lhe o que pensam de si. Descubra depois se aquilo que
mostra aos outros é o que mostra a si mesmo. Muitas
pessoas conseguem ver mais qualidades em nós do que nós
mesmos. E, ao mesmo tempo, vêem mais características
negativas em nós do que seríamos capazes de admitir.
Muitas pessoas resistem este exercício. Têm medo de ser
julgadas. Em vez de pensar que vai ser julgado, pense neste
exercício como uma forma de feedback, informação que lhe
será útil. Nós não temos que acreditar naquilo que os outros
  26
pensam de nós, mas se temos receio de ouvir o que as
pessoas que nos são mais próximas pensam de nós,
deveríamos prestar atenção aos motivos.
A maioria das pessoas tem receio de ouvir aquilo que mais as
aterroriza. A isto chama-se ‘negação’. Nós só temos medo se,
a um outro nível, soubermos que temos andado a enganar-
nos a nós mesmos. Se você pensar, do mais fundo do seu
ser, que aquilo que outros pensam de si não é verdade, não
irá dar qualquer significado ao que é dito.
Pense por instantes na quantidade de energia que necessita
para esconder algo de si mesmo e do mundo. Pegue, por
exemplo, numa laranja, e ande com ela na mão todo o dia.
Mas sempre a tentar não ver a laranja nem deixando que
outros a consigam ver. Depois de algumas horas repare na
quantidade de energia que gasta para conseguir esconder a
laranja! É isto o que os nossos corpos têm que fazer ao longo
de cada dia. Com uma excepção: os nossos corpos não têm
que esconder apenas uma peça de fruta. Têm que esconder
todas as peças de fruta que temos medo de ver e mais medo
que outros vejam.
Quando finalmente deixar que a sua verdade venha ao de
cima irá descobrir-se livre! Irá ter disponível toda aquela
energia que consumia a esconder cada peça de fruta que
transportava, e neste processo irá ver-se no caminho dos
seus objectivos. Nós só estamos tão doentes quanto os
nossos segredos. Estes segredos fazem com que seja
impossível sermos nós mesmos.
Outra forma de expor quem é de verdade é fazendo uma lista
de três pessoas que admira e três pessoas que odeia. Podem
ser amigos, actores, políticos, e até pessoas que já morreram
há centenas de anos. As pessoas que mais admira deverão
inspirá-lo com qualidades que gostaria de possuir. As pessoas
que odeia deverão deixá-lo mal-disposto, zangado ou mesmo
com raiva.
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  27 
Depois, numa folha de papel, faça uma lista de todas as
qualidades que admira nas primeiras três pessoas e no outro
lado da folha as características que não suporta nas últimas
três pessoas.
Estas listas são uma boa maneira de descobrir as partes de
nós que não aceitamos. Aconselho-o a começar pelas
características negativas. De início poderá ter alguma
dificuldade em reconhecer em si as características que odeia.
Não deve ser fácil descobrir em nós características de um
Hitler. É importante decifrar qualquer palavra mais
abrangente, como por exemplo ‘assassino’. A pergunta que
tem que se fazer é “que tipo de pessoa cometeria estes
actos?”. Seguindo o exemplo do assassino, poderia ser uma
pessoa egoísta, enraivecida, que não valoriza a vida humana.
Se lhe surgir a expressão “não valoriza a vida humana”,
pergunte-se que tipo de pessoa é que não valoriza a vida
humana? Poderá surgir-lhe, como resposta, um narcisista,
uma pessoa doente, demente. A parte importante deste
processo é tornar a linguagem simples até chegar a uma
palavra específica ou uma característica que gosta ou
desgosta. Descubra as características que possuem, para si,
uma carga emocional.
Mantenha presente as palavras de Nietzsche: “nós não temos
nada a dizer sobre as coisas que acontecem nas nossas
vidas, mas temos sempre algo a dizer sobre a forma como
interpretamos essas coisas:”
Descobrir alguns aspectos da sombra
Uma das formas mais fáceis de descobrir aspectos da sua
sombra e onde esconde não só aquilo que mais rejeita em si
mas também alguns dos seus aspectos mais luminosos, é
através de uma série de perguntas directas.
Por favor seja 100% honesto. Este é um trabalho seu e só
você é que vê, e sabe, as respostas. Esta é a oportunidade de
  28
começar a abraçar uma parte de si que faz de conta que não
existe.
1. Qual é o aspecto de si que o deixa mais orgulhoso? Aquele
que gostaria que todos soubessem que possui? E qual o
oposto desse aspecto?
Esta primeira questão toca na imagem social que você deseja
mostrar aos que o rodeiam. A segunda questão mostra o
oposto, ou seja, aquilo que teve que reprimir ou rejeitar
(colocando na sombra) para que os outros pudessem ver a
qualidade positiva. Se a sua primeira resposta foi generoso,
inteligente, alegre, ou altruísta, terá que esconder na sua
sombra o avarento, burro, triste, ou egoísta. Preste atenção
ao que sente quando afirma em voz alta, em frente a um
espelho, o aspecto da sombra. “Eu sou avarento!” ou “Eu sou
estúpido!”... Algumas pessoas sentem-se confusas, outras
culpadas ou envergonhadas. E outras ainda afirmam sentir-se
com mais energia.
2. Quais os tópicos que tem tendência a evitar numa
discussão num grupo ? A sexualidade, agressividade, fé,
ambição, incompetência?...
O que quer que seja, pode ter a certeza que aquilo que evita
mostra um medo de revelar um aspecto de si do qual tem
vergonha. O dia que conseguir falar deste tópico com um
amigo que o compreenda e não julgue, em quem confia
plenamente, terá sucedido em abraçar mais um aspecto da
sua sombra.
3. Em que situações dá por si a ficar nervoso, mais sensível
ou na defensiva? Que tipo de afirmação o levaria a uma
reacção imediata?
Fica surpreendido pela forma como reage? Se sim, isto
mostra que alguém acaba de pisar num aspecto seu que não
aceita. O seu nível de desconforto e de reacção são uma
evidência de que alguém acaba de mexer num aspecto muito
sensível da sua sombra.
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  29 
4. Em que situações se sente inferior ou com falta de auto-
confiança?
Pode ser que se sinta assim em frente a um artista famoso,
ou um colega que tem melhores resultados, ou um familiar
que desfruta de sucesso. Isto mostra-lhe um aspecto de si
que não está a expressar, mas que existe.
5. Em que situações se sente embaraçado ou envergonhado?
Em que situações entra em pânico ao pensar permitir que
outros vejam a sua fraqueza?
Por exemplo, se lhe pedissem para discursar em frente a um
grupo de 500 pessoas, ou para dançar em frente a um grupo
de estranhos. Aqui está frente a mais um aspecto da sua
sombra que quer expressar-se mas ainda não encontrou
maneira de o fazer.
6. Tem a tendência a ficar ofendido quando alguém o critica?
Que tipo de criticas considera ofensivas ou irritantes?
Uma reacção inapropriada é também sinal de que alguém
acaba de pisar num aspecto deserdado e, por conseguinte,
escondido na sua sombra. Reagimos mais fortemente quando
alguém expõe um aspecto da nossa sombra do qual temos
um medo aterrador de vir a encontrar. Também pode
acontecer ter esta reacção porque é o recipiente da sombra
de um grupo, ou seja, a projecção. Neste caso tem que se
perguntar porque se permite ser a “ovelha negra” do grupo.
7. É-lhe difícil aceitar um cumprimento?
Se alguém o cumprimenta por algo, como por exemplo, o seu
aspecto jovem, a sua criatividade ou a maneira como faz tudo
na perfeição, reage imediatamente rejeitando o cumprimento?
Diz coisas como “não foi nada, qualquer um faria a mesma
coisa...” ou “deves andar a precisar de óculos, estou cada vez
com mais rugas!” Neste caso está a tentar camuflar na sua
sombra um aspecto que deseja ardentemente seja
reconhecido por outros. Deverá perguntar-se: “Qual o aspecto
pelo qual eu desejo que os outros me admirem?”
  30
8. Em que aspectos se sente insatisfeito ou zangado consigo?
Por exemplo, com a aparência física, ou um hábito
desagradável?
Neste caso estará a tentar esconder um aspecto seu que
considera uma fraqueza. Ou o seu Falso Eu está a tentar
impingir-lhe uma ideia irrealista de quem é e/ou do que é
capaz. Pode ter a certeza de uma coisa: a partir do momento
que começa a aceitar as suas fraquezas e os seus erros
estará a dar início ao processo de fazer as pazes com a sua
sombra.
9. Qual a qualidade que a sua família mais se esforça por
mostrar à sociedade?
Cada família torna-se conhecida por uma qualidade distinta.
Pode ser a integridade, a honestidade, a alegria, a coragem,
ser trabalhadora, hospitalidade...
Uma família que queira manter a imagem de honestidade, por
exemplo, terá que meter na sombra a mentira. Por forma a
poder funcionar (embora de uma maneira disfuncional) esta
família precisa de uma “ovelha negra” que carregue a sua
sombra. Verifique qual a qualidade que define a sua família.
Veja depois o oposto dessa qualidade, e não lhe será muito
difícil descobrir a “ovelha negra”.
Na maioria das famílias a “ovelha negra” vai mudando de um
membro para outro. Isto porque ninguém consegue ser a
projecção de um grupo por muito tempo sem sofrer sequelas
ao nível físico, emocional e espiritual.
Eu sou isso
Uma vez que sejamos capazes de ver as partes de nós que
andámos a negar, estamos prontos a avançar para a próxima
etapa deste processo. Iremos aceitar cada um destes
aspectos negados. Aceitar significa reconhecer que
determinada característica lhe pertence. Podemos assim
começar a aceitar a responsabilidade pelo todo que somos.
Neste momento não tem que gostar de cada parte de si, tem
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  31 
apenas que estar preparado para reconhecer cada uma delas
em si e nos outros. há três questões que lhe poderão ser úteis
nesta etapa: alguma vez demonstrei este comportamento no
passado? Ando a demonstrar este comportamento agora?
Sob circunstâncias diferentes, seria capaz de demonstrar este
comportamento? Uma vez que responda “sim” a qualquer
destas questões terá dado início ao processo de aceitação de
qualquer comportamento.
Alguns comportamentos são mais fáceis de reconhecer e
aceitar que outros. Aqueles aspectos de nós que mais
negamos, e que continuamente projectamos nos outros, serão
os mais difíceis de aceitar. Daí que é tão importante ser
implacável consigo mesmo, sendo, simultaneamente,
carinhoso.
Esteja preparado para aceitar que “é” aquilo que menos
desejaria ser. Esteja preparado para ver com novos olhos,
para além dos mecanismos de defesa, tudo aquilo que lhe diz
“eu não sou isso”. Olhe, com olhos que digam “eu sou isso.
Em que situações sou eu assim?”. E resista à tentação de se
julgar.
Não crie decisões repentinas e pense que é uma pessoa má,
se descobrir que é invejoso ou egoísta. Todos nós possuímos
essas características, bem como os seus pólos opostos.
Fazem parte da nossa humanidade. Todas estas
características existem para nos guiar e ajudar. Pode ser que
neste momento esteja céptico, mas dê a si mesmo a
oportunidade de descobrir todas as características que o
tornam completo. Prometo-lhe que no final irá descobrir o
tesouro que sempre esteve dentro de si.
Aceitar é uma etapa essencial deste processo de cura e de
criação de uma vida de amor. Nós não podemos abraçar
aquilo que não aceitamos. Se quiser manifestar todo o seu
potencial tem que ir buscar as partes de si que tem negado,
escondido ou dado a outros ao longo dos anos.
  32
Se há um aspecto de si que não aceita pode ter a certeza que
irá continuamente atrair as pessoas que lhe irão mostrar esse
mesmo aspecto. O Universo irá mostrar-lhe quem é de
verdade através dos outros, continuamente até aceitarmos
esses aspectos negados.
Já alguma vez pensou porque motivo atrai o tipo de pessoa
que não gosta mesmo nada? Não é por acaso.
Há muitas maneiras de descobrir as partes de si que tem
negado. Comece por estudar as características que mais o
ofendem. Faça uma lista com as palavras que melhor
descrevem as pessoas que detesta, ou gosta menos. Não
importa o quanto lhe possa custar, enquanto não aceitar estas
características em si não conseguirá avançar. Descubra uma
altura da sua vida em que demonstrou essa característica.
Experimente cada um dos aspectos que não é capaz de
aceitar como quem experimenta um casaco. Veja como se
sente, o que terá que fazer para servir. Imagine como reagiria
se alguém que o ama lhe chamasse isso. Terá que analisar
que tipo de juízos faz sobre cada aspecto, e ainda que juízos
faz sobre as pessoas que demonstram esse mesmo aspecto.
Veja quantas pessoas ‘eliminou’ da sua vida por possuírem
esse aspecto. Não tente comparar-se de maneira positiva em
relação a essas pessoas. Não deixe que o seu ego se
justifique ou justifique o seu comportamento. Lembre-se que o
mundo vê um invejoso apenas como um invejoso.
Desista de investir tanta energia e tempo em ter razão, em se
justificar. É preciso compaixão para aceitar uma parte de nós
que negámos, escondemos, ou odiámos durante muito tempo.
As pessoas espelham de volta aquilo que já está dentro de
nós porque subconscientemente nós atraímos precisamente
esses aspectos. É por este motivo que há um determinado
tipo de pessoas e situações que parecem repetir-se. Quando
nós somos finalmente capazes de aceitar um determinado
aspecto de nós, estas pessoas mudam de comportamento, ou
então nós simplesmente tornamo-nos livres para as
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  33 
abandonar. E uma vez que você aceite a totalidade de quem
é irá ser atraído pelo campo gravitacional daqueles que
também se aceitam na totalidade.
Leve o seu tempo a verificar os aspectos de si mesmo que
não aceita. Lembre-se que sempre que descobrir um aspecto
em alguém que considere negativo, isto acontece apenas
porque você já possui esse mesmo aspecto.
As palavras mais difíceis de aceitar são sempre aquelas
relacionadas com incidentes do passado em que sentimos
que fomos magoados. O nosso ego irá resistir a aceitação das
características daqueles que nos magoaram e que culpamos
pelos nossos infortúnios. Em vez de se agarrar ao
ressentimento tente aprender com ele. Olhe para a pessoa
que o magoou, verifique que aspectos dessa pessoa mexem
consigo. E quando conseguir encontrar esses aspectos em si,
deixará de ser afectado por essa pessoa.
Muitas vezes, para aceitar um aspecto de si tem que libertar a
raiva acumulada – raiva contra a situação, contra a pessoa
que o magoou e contra si por ter permitido a ocorrência do
evento. Gritar é uma excelente forma de nos libertarmos
dessa raiva. Desde que não estejamos a magoar outros
deveríamos sempre libertar a nossa raiva. Quando se
encontrar cara a cara com um aspecto de que não gosta não
tenha receio de demonstrar a raiva sentida. Demonstre-a com
a intenção de se libertar, de deixar partir os juízos, a
vergonha, a dor, e a sua resistência a aceitar este aspecto de
si.
Se nós pudéssemos aceitar a maldade e o ódio dentro de nós
não teríamos a necessidade de os projectar nos outros.
Quando negamos um aspecto de quem somos, tentamos
compensar essa “perda” tornando-nos no seu oposto. É então
que criamos personagens para tentar provar a nós mesmos e
aos outros que não somos isso. Confesse, se olhar para si
com bastante atenção, consegue ver a parte de si que é
aborrecida? E a parte de si que é estúpida? Consegue ainda
  34
ver a parte de si capaz de mentir ou de atraiçoar? Permita-se
gritar quando descobrir estes aspectos em si. Aceite-os e
liberte-se do seu peso. Se formos honestos, e não estamos a
demonstrar estes aspectos no presente, então teremos que
identificar um tempo em que fomos aborrecidos e estúpidos e
mentimos e atraiçoámos.
Nós gastamos na totalidade os nossos preciosos recursos
quando “tentamos” não ser algo. Nós estamos aqui para
aprender algo com cada um destes aspectos e fazer as pazes
com cada um. Para sermos pessoas autênticas temos que
permitir que os aspectos que amamos e aceitamos co-
habitem com todos os aspectos de nós que desprezamos,
julgamos e decidimos que estão errados. Quando
conseguirmos segurar em todos os nossos aspectos numa
mão, sem qualquer juízo, eles irão integrar-se naturalmente
no nosso ser. É ai que podemos tirar as nossas máscaras e
confiar que o Universo criou cada um de nós com um motivo
divino. Poderemos então olhar desde cima, abraçando todo o
mundo.
A Sombra Inconsciente
A pergunta à qual nenhum de nós tem resposta é: o que
guardamos no nosso subconsciente?
Por definição, jamais poderemos saber o que permanece
inconsciente. Ou seja, não conhecemos algo que nos
conhece a nós. E, muito pior, aquilo que não conhecemos
sobre nós persiste e infiltra-se subtilmente nos nossos valores
e escolhas.
Uma das formas de começarmos a reconhecer a nossa
Sombra é a forma como muito prontamente racionalizamos ou
justificamos as nossas atitudes, comportamentos e escolhas.
É-nos tão fácil criticar outros indivíduos, ou grupos de
indivíduos. É tão fácil ajudar os sem-abrigo, mais que não
seja para que a nossa Sombra absorva mais daquele
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  35 
sentimento de superioridade. Notei já diversas vezes que as
pessoas que se envolvem em projectos de apoio aos sem-
abrigo abandonam os mesmos em muito pouco tempo. Sem
se aperceberem, as suas sombras indicaram-lhes que não
têm necessidade de se sentirem superiores. É claro que é
importante ajudar quem precisa de ajuda, mas mais
importante é verificarmos os nossos verdadeiros motivos.
Muitas das pessoas envolvidas em projectos humanitários
têm uma necessidade de sentir que prestam, que são boas ou
que valem enquanto seres humanos. Este motivo irá alimentar
a sombra e criar projecções monstruosas. Mas fazê-lo pelo
simples facto de querer ter a experiência, de ser útil sem
esperar algo em troca, aí vale a pena.
Se você está envolvido num qualquer projecto de ajuda aos
mais carenciados verifique se comenta o seu envolvimento
com outros. Se tem necessidade de fazer saber aos outros
que está neste projecto é preferível que o abandone
imediatamente pois está apenas a alimentar a sua Sombra.
Mas se o trabalho que faz passa despercebido, se não sente
necessidade de informar os seus amigos e conhecidos, então
continue! Está a prestar um óptimo serviço.
A sombra inconsciente manifesta-se de muitas maneiras.
Quando contamos uma anedota sobre os Alentejanos. Ou
quando criticamos os produtos das lojas Chinesas. Ou
quando manifestamos a nossa veemente oposição a um
político. Ou temos pena da família que sofre a tortura de um
patriarca alcoólico. Quando lemos meia dúzia de livros de
auto-ajuda e acreditamos ter a resposta para os problemas
dos nossos amigos (alguma vez se ouviu a dizer “Se ela
fizesse as coisas como eu lhe tinha dito...”). Ou, entre as
pessoas ‘espirituais’: “O meu mestre disse que o melhor
era...”
A Sombra inconsciente leva-nos a procurar a nossa
espiritualidade em muitos lugares, excepto naquele onde
sempre esteve: dentro de nós.
  36
Mantenha sempre presente que a complexidade do universo,
assim como a complexidade das nossas vidas, nunca será
completamente compreendida nem revelada. Mas nós
podemos viver a fantasia de que sabemos muito bem quem
somos e o que queremos. E criamos um conjunto de
situações problemáticas no processo de tentar compreender
tudo à nossa volta. E o nosso problema é apenas um: não
aceitar Aquilo Que É.
A nossa Sombra contém tudo aquilo que nos causa
preocupações, aquilo que é estranho ao ideal do ego, tudo o
que é contrário aquilo que desejamos que os outros pensem
de nós. Tudo aquilo que ameaça criar instabilidade no
ambiente ‘seguro’ que nos esforçamos tanto por criar.
Da mesma maneira que o ego é formado a partir dos pedaços
quebrados de muitas experiências, assim também é
ameaçado pelo seu próprio lado mais escuro. Tudo o que
contradiga o ego é uma ameaça. A Sombra é a maior ameaça
ao nosso ego. E o perigo verdadeiro surge quando esta
Sombra começa a ter mais energia do que o próprio ego.
Eventualmente irá tomar posse dele.
Por este motivo, este sentimento de ameaça desconhecida, é
que o nosso ego não sabe nada sobre a sua sombra. A
sombra é inconsciente. Será que os peixes sabem que nadam
na água? Não creio. São um com o elemento que os rodeia.
Será que o ego sabe que nada num mar de contradições que
competem por atenção? Raramente.
Quem, de entre nós, tem a coragem de admitir que por vezes
(ou muitas vezes), faz o que faz por motivos menos íntegros?
Quem é capaz de admitir que por vezes dá aos amigos os
conselhos que o próprio precisa urgentemente de colocar em
prática? Quem é capaz de admitir que por vezes tem inveja
de um amigo? A nossa sombra tem uma agenda diferente da
do nosso ego. E tudo fará para conseguir os seus objectivos.
Quem, de entre nós, não se sente por vezes necessitado,
vaidoso, narcisista, hostil, dependente ou manipulativo?
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  37 
Pergunto-me se as esposas dos grandes homens da História
seriam felizes partilhando as suas camas com amantes
poderosas como eram as causas dos seus maridos.
Será que as pessoas que dedicam toda a sua vida ao serviço
dos outros, vivendo sem qualquer conforto ou prazer, não o
farão movidas apenas por uma enorme insatisfação,
depressão e raiva? Será que o seu sacrifício é uma coisa
assim tão boa? Será que é mesmo uma escolha? Será que a
pessoa que ganha o prémio Nobel da paz não terá a
necessidade de ser necessário? Será que estamos a ser
cínicos ao tornarmo-nos conscientes dos valores opostos
aqueles que expressamos conscientemente, ou será uma
forma muito profunda de honestidade?
Será que uma pessoa foi ‘santa’ porque sacrificou a sua
viagem nesta realidade em serviço aos outros? Será que a
sua vida poderia ser tão tenebrosa que a única opção era não
a viver? Será que um dos aspectos dos santos é que de facto
não são capazes de viver a sua própria aventura nesta vida?
E quem, entre nós, poderá fazer este tipo de juízo?
Será possível que uma vida de boas obras pode existir lado a
lado com uma vida interior carregada de sentimentos
torturados? Não será possível que uma vida interior rejeitada,
apesar de no exterior aparentar muita iluminação, possa
mascarar uma sombra poderosa?
Para responder à questão anterior basta olharmos para
qualquer noticiário. O padre acusado de pedofilia, o líder
político acusado de corrupção, o bom samaritano que bate
nos filhos. Não podemos cair na tentação de subestimar o
poder da sombra do ser humano.
Será que o fundamentalista que tenta desesperadamente
converter todos à sua ideologia está convencido que isto é
para o melhor bem de todos, ou será que o que o leva a agir
assim são sentimentos de culpa, frustração, ansiedade e
dúvidas existenciais?
  38
Um autor que muito admiro, Nicholas Mosley, afirma que
“pessoas como os católicos ou islamitas, são-no muito mais
para poder pertencer a um grupo que ofereça um apoio
emocional num mundo conturbado, do que por motivos de
escolha feita depois de uma busca da verdade e significado
na vida”. E lá se vai por terra a teoria das revelações divinas e
da integridade individual! Repare ainda que este tipo de
questão levanta de imediato, em muitas pessoas, um
sentimento de ofensa. Naturalmente lutamos para defender os
nossos valores morais (mesmo que nunca tenham sido
nossos). Ao defendermos as nossas escolhas, justificando-
nos por cada decisão, estamos a dar poder à sombra.
Lembre-se apenas que a verdade nunca precisou de ser
defendida.
E mesmo assim, e porque a sombra se mantém inconsciente,
longe da nossa vista, em oceanos demasiado profundos para
nos atrevermos a mergulhar, não compreendemos como é
que ela brinca com as nossas vidas. E onde é que está a
nossa rectidão? Será que a humanidade é inerentemente
boa? Seremos pessoas boas apenas porque a nossa cultura
nos criou assim? Será que é possível existir a bondade sem o
seu oposto? Será que uma bondade constante, ao longo de
muitos anos, não pode tornar-se numa força demoníaca?
Basta-nos olhar para a história da humanidade para ver que
muitos dos actos bondosos tiveram o seu peso e preço.
Quantas pessoas não chegam à segunda parte das suas
vidas sem uma certa quantidade de arrependimentos,
rancores, ressentimentos, culpas e desculpas? E contudo, na
altura, pensámos que estávamos a agir para o melhor bem de
todos, com a melhor das intenções. Fazer um levantamento
da nossa história pessoal é o primeiro passo para reconhecer
aquilo que permanece no inconsciente: a presença e
actividade da nossa sombra.
Quem, de entre nós, poderá afirmar: “Eu estou consciente da
vida do meu inconsciente?”
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  39 
O que permanece no inconsciente é como um segundo
governo, ou governo-sombra, capaz de a qualquer momento
destruir toda uma vida, assim como a vida daqueles que mais
ama.
A natureza humana escondida do ser humano
Observo à minha volta muita gente com aquilo que chamo de
Ego Espiritualizado. Espiritualizam os seus egos. Sei-o
porque também já o fiz. Aquelas pessoas que são tão boas, e
simpáticas e sempre prontas a ajudar o próximo, e que só
querem ser úteis aos demais. E são “oh-tão-dóceis”! Sempre
a pensar nos outros! E afirmam que vivem no presente, e que
as suas vidas são equilibradas e super saudáveis. E só
comem os alimentos mais nutritivos. E não fumam, nem
bebem álcool, nem praticam actos sexuais ‘perversos’, nem
fogem ás suas responsabilidades, nem procuram ter razão,
nem mentem... Estas pessoas são nada mais que um ego
monstruoso incapaz de abraçar o lado negro. E, como
resultado, irão precisar que outros lhes mostrem o seu lado
escuro que não conseguem aceitar.
Nós somos uns seres muito especiais. A vida acontece dentro
de nós, e depois projectamo-la para o exterior. Sempre. Tudo
o que vê à sua volta é uma projecção do que vai dentro de si.
Veja-se o exemplo da Igreja Católica.
Uma instituição que possui uma carga emocional
negativíssima sobre a prostituição, o aborto, a
homossexualidade, as drogas, o sexo antes do casamento
(na verdade tudo o que seja sexual). E o que acontece? Tudo
o que nega e repudia é projectado no exterior! Por isso temos
prostituição, e temos toxicodependentes, e temos mulheres a
abortar, e temos a pedofilia e tudo o mais que esta instituição
nega. Em realidade a própria Igreja Católica esconde no seu
seio muitos pedófilos.
  40
Isto aplica-se a todas as instituições. Sejam religiosas,
politicas, económicas, sociais... Aquilo a que resiste, persiste.
E o mesmo acontece consigo. O que mais odeia nos outros?
O que ‘mexe’ consigo? Se é a mentira, pode ter a certeza que
irá atrair pessoas mentirosas. Se é o sexo ‘sujo’, irá atrair
verdadeiros tarados sexuais. Se é a dependência de drogas,
irá atrair pessoas viciadas em qualquer substância.
Tem que se perguntar o que há de errado com mentir. O que
há de errado com o sexo ‘perverso’. O que há de errado com
a dependência de drogas. Estas são as áreas da sua vida a
trabalhar. A única maneira de sair da vida que tem é aceitá-la
na totalidade e atravessá-la, sentindo a dor que causa a si
mesmo e aos que o rodeiam.
Porque há-de ter uma reacção emocional quando vê um
fumador? Que tipo de pessoa é capaz de fumar? Uma pessoa
que não se cuida? E de que forma você não se cuida? Porque
há-de ter uma reacção emocional quando vê uma prostituta?
Que tipo de pessoa se prostitui? Uma pessoa que não possui
amor-próprio? De que forma é que você não demonstra amor-
próprio? Porque há-de ter uma reacção emocional quando
ouve falar de pornografia? Que tipo de pessoa gosta de
pornografia? Talvez uma pessoa incapaz de lidar com a sua
sexualidade ou partilhar a sua intimidade?
Estas são as perguntas que deverá fazer-se sempre que tiver
uma reacção emocional perante o comportamento de outro
ser humano. Pode ter a certeza de uma coisa: tudo aquilo que
nega, tudo aquilo que rejeita, irá aparecer na sua vida vezes
sem conta.
Alguma vez pensou porque motivo as pessoas ‘boazinhas’
parecem ter tanto azar? Porque não aceitam que podem ser
tudo aquilo que vêem nos outros.
O Caminho da Sombra não é para os fracos. É para os que
têm a coragem de expor os seus segredos, as suas raivas, as
suas vergonhas. E perdoar-se por tudo o que são e tudo o
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  41 
que não são. É viver a partir do coração e não da mente. É
ser quem é sem medo do que os outros vão pensar ou dizer.
Todos nós, sem excepção, guardamos segredos dos quais
nos envergonhamos. Segredos que pensamos que iriam
afastar os que nos são mais queridos se apenas eles
soubessem. E se você neste momento está a pensar “eu não
tenho segredos” está na hora de abraçar o seu lado
mentiroso.
Este processo é sempre mais fácil para as pessoas com um
passado doloroso. Isto porque aquelas pessoas que,
aparentemente, tiveram uma infância e adolescência sem
grandes problemas, não conseguirão ver tão facilmente a
forma como foram abusadas.
Quando tinha 9 anos, ía tomar banho quando um adulto,
familiar muito próximo, me mexeu nos genitais e masturbou-
me. Até há uns dias não era capaz sequer de reviver o
evento. Foi demasiado doloroso e vergonhoso. E perseguiu-
me até há bem pouco tempo. Uma parte de mim acreditou
que o sexo era sujo, que eu tinha que ser, no fundo, uma
pessoa má. Hoje consigo ver o presente daquela experiência.
Protegeu-me em mais do que uma situação. Hoje dou graças
pela experiência e pela dor causada. Aprendi a ser
compassivo e aceitar os que sofrem. Essa experiência
ensinou-me a amar os que sofrem.
E agora que você sabe deste meu ‘segredo’... O que vai
fazer? Nada que não tivesse feito antes. Se pensava bem de
mim, irá sentir uma maior aproximação. Se sentia desprezo
por mim, irá sentir-se envergonhado/a quando me vir. Mas eu
vou continuar a ser quem sempre fui.
Vivi alguns anos com um familiar que me aterrorizava. De
cada vez que esse familiar gritava o meu nome eu mijava-me
nas calças (não vale a pena utilizar eufemismos). A vergonha
e dor desses anos perseguiu-me até há bem pouco tempo.
Aprendi a ter medo de ser eu mesmo. Mas aprendi também
uma valiosa lição: não temos o direito de magoar quem quer
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que seja. E ajudou-me a sentir proximidade e carinho pelos
que sofrem abusos.
E agora que sabe isto de mim, o que vai pensar? Que estou a
vitimizar-me? Não, estou a dizer-lhe apenas que é ok ser
humano.
Quando tinha 15 anos fui sexualmente violado. E durante
estes anos todos carreguei comigo a raiva, a vergonha e o
desespero. A única pessoa que magoei fui eu mesmo. Todos
estes anos a carregar estas emoções altamente tóxicas. E a
utilizar estas situações como desculpa para não viver o meu
eu mais brilhante e corajoso. Qual é a sua desculpa?
Cada situação do seu passado encerra um presente valioso.
Cada situação dolorosa do seu passado encerra a chave para
quem você é e o dom que tem para dar ao mundo. Tenha
apenas a coragem de enfrentar os seus medos, as suas
vergonhas, as suas frustrações. Garanto-lhe que se o fizer
será um ser diferente. Irá começar a brilhar. Irá mostrar aos
outros que também são um presente divino que têm algo para
dar ao mundo.
Posso ainda garantir-lhe que se decidir um dia fazer o
Caminho da Sombra irá sentir dores físicas, irá ter dores de
estômago, náuseas. Irá passar por emoções que
desconhecia. Mas terá que o fazer se quer abraçar o seu lado
da Luz.
Cada um de nós tem uma história diferente. Há muitas formas
de abusar de uma criança. Muitas formas de dizer “tu não és
importante”, “tu mereces ser abandonado”, “tu não prestas”,
“tu não podes ter ideias próprias”, “tu deves obedecer
sempre”, “Tu não podes sobressair”, “Tu tens que sofrer”...
Qual é a sua história? Olhe para a sua vida, para o que está
mal na sua vida, e ficará a saber as lições que lhe ensinaram
na infância.
Eu tenho uma amiga que aparentemente tem uma vida de
sonho. Tudo está bem, a sua infância foi fabulosa. Nada a
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  43 
relatar. Ao ponto de afirmar que vive sempre no presente”. Na
verdade não conheço pessoa mais ausente do presente! Ela é
falsa (eu também sou), mentirosa (eu também sou),
superficial (eu também sou) e fútil (eu também sou). Na
verdade ela não tem relações amorosas com o marido há
mais de 10 anos, os 3 filhos têm relações frustrantes com ela,
um deles é toxicodependente, não fala com a irmã há mais de
5 anos... Esta é a pessoa que jamais aceitará enfrentar o seu
lado negro. Por outro lado, é uma pessoa cheia de compaixão
(eu também sou), que irradia alegria (eu também irradio), e
que tenta sempre ver o lado bom das coisas (eu também o
faço).
Faça um favor a si mesmo: esteja preparado para abraçar o
seu lado negro. A sua sombra. Nem imagina os presentes que
ela tem para si! Enquanto não tiver a coragem de abraçar o
seu passado, de fazer as pazes com todos os que o
magoaram, de fazer as pazes consigo mesmo, não poderá
ser livre. Não poderá mostrar ao mundo quem é de verdade.
Tem que abandonar a sua mente, amar o seu ego, e viver a
partir do coração. Não adie este processo.
A Sombra Projectada
Pense na pessoa que, quanto a si, é prepotente, preguiçosa,
desonesta e corrupta. É capaz de dizer “fulano é prepotente,
preguiçoso, desonesto e corrupto... Tal como eu!”?
Pense na antipatia à volta dos homossexuais... que parte
destas pessoas, que rejeitam de uma forma mais ou menos
velada a homossexualidade, é que nunca se sentiu
completamente confortável na sua própria sexualidade. Pense
na conveniência de conhecer os seus inimigos a todo o
momento – se o inimigo está ‘lá fora’, então não está ‘cá
dentro’. Logo, não tenho que carregar esse peso na
consciência, nenhuma obrigação de me auto-examinar.
  44
A consciência do ego, aquele pedaço de bolacha Maria a
flutuar num vasto e profundo oceano, desconhece por
completo o que se esconde nas águas profundas sob si. A
verdade é que aquilo que está contido no subconsciente são
um sem fim de sistemas energéticos, dinâmicos e activos,
capazes de invadir e controlar na totalidade a mente
consciente.
Será possível que um homem, qualquer homem, mesmo o
mais sincero de todos, seja capaz de erradicar toda a sua
sexualidade? E se é, qual o preço a pagar? É fácil responder
a esta questão: basta olhar para todos os escândalos à volta
do clero, desde os filhos bastardos até à pedofilia. E quem
são os ‘mais puros’ que exigem este sacrifício do clero? Que
Deus é esse que apregoam e que aniquilam em simultâneo
ao negar uma parte da natureza humana? Que sombra
poderemos encontrar nestes homens?
Limitar-se a negar algo nunca irá funcionar a seu favor. Os
nossos componentes inconscientes englobam um quantum
energético que possui o poder para abandonar o oceano
profundo e entrar no nosso mundo, completamente livre de
qualquer interdição da mente consciente. Se isto não fosse
verdade os nossos políticos, propagandistas e agências de
publicidade ficariam rapidamente sem emprego. Na verdade
as técnicas e ferramentas utilizadas durante a Segunda
Guerra Mundial para desinformar, manipular e esconder
informação não teriam sido adquiridas pelos acima referidos.
O objectivo é sempre o mesmo: apelar ao subconsciente e
provocar projecções positivas sobre produtos, de um simples
caramelo ao detergente da roupa, do carro de luxo ao político
que quer chegar a primeiro-ministro.
Ninguém projecta conscientemente. Isso seria pura e
simplesmente uma contradição. Ninguém acorda pela manhã
com a intenção de sair à rua e projectar os seus aspectos
negados, rejeitados e escondidos. E, contudo, a energia
psíquica em cada um de nós, principalmente a que se
encontra fora do nosso alcance, no subconsciente, manifesta-
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  45 
se através de uma dinâmica que o próprio ego não consegue
compreender, nem conter. É assim que nos apaixonamos,
que tememos um estranho na rua, e recriamos as histórias
dos nossos relacionamentos uma e outra vez.
A mente é como um computador analógico capaz de
funcionar apenas devido à nossa história pessoal. Até certo
ponto, a mente procura situações análogas para poder atribuir
significado a algo ou alguém. “Quando é que no passado senti
o que estou a sentir agora?”, “O que sei eu sobre esta
situação’”, “O que posso ir buscar ao passado para melhor
processar este evento?”. Apesar de cada momento na nossa
vida ser absolutamente único, o nosso sistema psíquico,
funcionando a partir de dados da experiência do passado,
como a ansiedade, inunda o campo da nova experiência com
a informação antiga. E assim projectamos a nossa vida
interior, ou aspectos dela, para cima de indivíduos, grupos,
nações. É desta mesma maneira que os propagandistas, os
publicitários e os políticos procuram invocar em nós respostas
positivas ou negativas. Com frequência a capacidade de
crítica do ego consciente é suplantada pelos poderes da
programação histórica e os novos momentos da nossa vida
sofrem em benefício do passado.
Tenho um vizinho que apelida todos os políticos e homens
com poder de decisão de “bananas”. Para ele são todos uns
“bananas”! Está a ver televisão, surge um politico e a reacção
dele, colérica, é sempre a mesma: “Olha para aquele
banana!” O curioso deste meu vizinho é que a sua esposa,
enquanto foi viva, tratou-o sempre por “banana”. Ele não
consegue ver a ironia nem a projecção. Uma vez que a
esposa partiu, o “banana” deixou de estar nele e passou a ser
projectado em todos os homens com poder de decisão. Este
exemplo ilustra o que disse até agora.
Assim, aquilo que não somos capazes, ou não queremos, ver
em nós próprios, ou aquilo que perturba a imagem que
queremos mostrar ao mundo de nós, é muitas vezes
distanciada do ego consciente através de um mecanismo de
  46
projecção que desassocia estes aspectos negados. Uma vez
que a energia, a maldade, se encontra agora ‘lá fora’, eu não
tenho que lidar com ela ‘cá dentro’.
Mais uma vez, nós não projectamos conscientemente, motivo
pelo qual as nossas projecções são tão poderosas, tão
capazes de reacções desproporcionais ao que está a
acontecer. Quem seria capaz de imaginar que aquilo ‘lá fora’
a que eu reajo tem a sua origem ‘cá dentro’? Quem seria
capaz de imaginar que a realidade que eu vejo ‘lá fora’ é mais
um aspecto de quem eu sou? Não admira que eu tenha a
reacção que tenho, e que sinta uma enorme atracção pela
situação ou pessoa!
Nós estamos continuamente a correr em direcção à nossa
Sombra, e acreditamos ser algo ‘lá fora’ da qual podemos
distanciar-nos. Com cada projecção da Sombra, a nossa
alienação potencial daquilo a que se chama realidade
aumenta. Quanto mais despejamos os nossos detritos sobre
os outros, mais iremos ganhar uma visão distorcida da
realidade. Muito raramente conseguimos ver o mundo, e os
outros, tal como são de verdade. Guerras foram feitas,
romances conquistados, relacionamentos iniciados e
terminados sobre as projecções da Sombra. No final
perguntamo-nos para quê tanto esforço...
Quantas pessoas projectaram na Princesa Diana as suas
vidas por viver? Os seus sonhos, os seus sorrisos, a sua
bondade? Tudo projecções da Sombra. E depois, na sua
morte prematura, choraram as suas próprias vidas por viver.
Quanta da vida sofrida desta mulher não foi apenas um
carregar aos ombros as Sombras de milhares, senão milhões,
de pessoas? De que se alimenta a bisbilhotice e a inveja se
não da fuga de nós próprios?
Aquilo que não conhecemos, ou temos receio de conhecer,
magoa-nos de verdade. E muitas vezes magoa ainda os que
nos rodeiam. Muito frequentemente aquele que recebe a
projecção da Sombra dos outros – seja ele um bruxo,
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  47 
pedófilo, toxicodependente, ladrão, judeu, chinês,
homossexual, ou qualquer outro mártir do nosso inconsciente
– irá ser acusado, humilhado, marginalizado, morto, ou
ignorado. Mas estes são apenas os corajosos que carregam a
nossa vida secreta, a nossa Sombra, e por este motivo iremos
odiá-los, humilhá-los e destrui-los, porque cometeram o pior
dos crimes: mostraram-nos o que se esconde dentro de nós.
Infelizmente, quanto mais fraco for o estado do ego mais
intolerável se torna, e maior o potencial para julgar os demais
de maneira categórica. O mesmo é dizer: maior o preconceito
e a intolerância.
Exercício
Arranje um caderno e durante esta semana, todos os dias,
aponte as várias formas em que gasta a sua energia e tempo
a queixar-se dos outros. Todas as vezes que aponta o dedo
aos outros. Todas as vezes que critica o comportamento dos
outros. Sem se justificar! Irá assim começar a ver o que
esconde a sua Sombra.
A solidão
Vivemos num planeta com mais de sete mil milhões de
habitantes e, todavia, sentimo-nos cada vez mais sós.
Os motivos que nos levam a sentirmo-nos cada vez mais sós
são vários, mas as causas são sempre as mesmas. Sentimo-
nos na solidão, ou pelas coisas que aconteceram nas nossas
vidas, e gostaríamos que voltassem a acontecer, ou sentimo-
nos envolvidos na solidão pelas coisas que ainda não
aconteceram e desejamos ardentemente que aconteçam. Em
ambos os casos é tudo um trabalho interior, mental.
Como podemos estar sós quando vivemos num mar de
gente? Como podemos afirmar que os outros não nos
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compreendem quando nós próprios não sabemos quem
somos e muito menos sabemos pedir aquilo que desejamos?
Conheço muitas pessoas que vivem em relacionamentos
mortos, onde não há qualquer partilha, excepto aqueles
momentos em que a sombra começa a fazer algum barulho.
Quando o marido chega tarde a casa. Quando os filhos tiram
más notas na escola. Quando a esposa se senta em frente à
televisão à espera que sejam horas de ir dormir. E nunca,
mas mesmo nunca, conseguimos arranjar uma hora para
partilhar a nossa vida com aqueles que são de facto
importantes. E nunca, mas mesmo nunca, temos a coragem
para dizer que não gostamos do caminho que estamos a
percorrer com aqueles que nos deveriam dizer algo ao
coração.
O motivo está directamente escondido na nossa Sombra.
Temos a sombra de escuridão, em que projectamos tudo
aquilo que rejeitamos em nós nos outros. E conseguimos
assim um marido infiel, uma esposa prepotente, um filho
preguiçoso, um pai déspota, uma mãe mártir, um sogro frio e
distante, uma sogra bisbilhoteira, uma amiga viperina e um
patrão sádico. E não temos tempo para nos aperceber que
todas estas pessoas, que mexem emocionalmente connosco,
com a nossa essência, são simples projecções dos nossos
aspectos negados, rejeitados e atirados para o saco da
inconsciência.
Mas temos também a nossa sombra de luz. E a sombra de luz
é ainda mais pesada e difícil de carregar aos ombros. Então
atiramos com o que de melhor há em nós para cima dos
outros. Para o marido que é um exemplo da honestidade, a
esposa que é a pessoa mais carinhosa que conhecemos, o
filho que é um génio, o pai que sabe ouvir os nossos
problemas, a mãe que nos prepara as refeições mais
saborosas do mundo, o sogro que nos ajuda quando estamos
preocupados, a sogra que pinta quadros maravilhosos, a
amiga que é capaz de uma empatia extraordinária, o patrão
que é criativo como mais ninguém.
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  49 
E mais uma vez estamos a projectar todas as nossas
qualidades. E, eventualmente, temos que resgatar essas
qualidades, trazê-las para o nosso consciente e aplicá-las
para uma vida mais.
Mas como podemos nós resgatar a criatividade genial do
nosso patrão quando não estamos minimamente preparados
para a pôr em prática? Não podemos. É necessário todo um
treino mental para que nos seja possível abraçar a nossa luz,
o nosso Ouro Interior.
O trabalho do resgate do nosso Ouro Interior tem que
começar sempre por um estudo, uma observação. Em que
situações seria de benefício, para mim, possuir a criatividade
do meu patrão? Em que situações me seria útil possuir o
afecto da minha esposa?
Para avançar neste processo iremos encontrar o maior
obstáculo de todos: o medo. É o medo de sermos autênticos,
verdadeiros à nossa essência, que nos impede de brilhar. E
temos medo porque fomos ensinados há muitas gerações
atrás, a ter medo do desconhecido. E, assim, perpetuamos
este medo de nos descobrir, de nos revelarmos a nós
mesmos.
Então, o primeiro passo que temos que dar é o de verificar
quais as qualidades que vemos naqueles que têm um
significado especial para nós. Só o facto de estarmos
conscientes destes aspectos irá ajudar-nos a dar o próximo
passo.
Atreva-se a sentir o medo de ser quem é.
Abraçar a nossa sombra
A maioria das pessoas tem um desejo inato de sentir paz.
Mas só conseguiremos essa paz quando formos capazes de
abraçar a totalidade que somos. Descobrir as qualidades dos
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nossos aspectos mais negativos é um processo criativo que
necessita apenas de um desejo profundo de ouvir e aprender,
uma vontade de deixar partir juízos de valor disfuncionais e
crenças limitadoras, e a intenção de querer sentirmo-nos
melhor. O seu Eu verdadeiro não cria juízos de valor. Apenas
o nosso ego, conduzido pelo medo, cria juízos de valor com o
intuito de nos proteger – protecção essa que, ironicamente,
nos impede de uma realização pessoal plena.
Para poder ultrapassar o ego e as suas defesas tem que
procurar o silêncio, ser corajoso, e ouvir as vozes dentro da
sua cabeça. Por detrás das nossas máscaras sociais existem
milhares de faces. Cada face possui uma personalidade.
Cada personalidade possui características específicas. Ao
conseguir dialogar com cada uma destas subpersonalidades
irá transformar os seus preconceitos egoístas em tesouros
valiosos. Quando for capaz de abraçar cada aspecto da sua
sombra irá buscar o poder que deu a outros, irá criar uma
ligação verdadeira com o seu Eu autêntico.
Quando permitir que as vozes das suas subpersonalidades se
tornem conscientes, elas irão criar equilíbrio e harmonia com
os seus ritmos naturais.
Para mim foi uma experiência única o descobrir algumas das
minhas subpersonalidades. Descobri partes de mim que,
acreditava, nunca tinha sequer rejeitado porque nem sabia
que existiam!
É importante que comece por identificar cada uma das
subpersonalidades e depois dar-lhes um nome. O facto de dar
um nome a uma subpersonalidade específica irá torná-la
consciente.
A maneira mais interessante de descobrir as suas
subpersonalidades é através de um exercício criado por
Roberto Assagioli, fundador da Psicossíntese.
Comece por se sentar confortavelmente e fazer cinco ou seis
inspirações calmas e profundas. Com cada inspiração sinta-
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  51 
se a ir mais dentro de si. Depois imagine que está numa
paragem de autocarro. Pode ser numa cidade, no campo, até,
porque não, numa auto-estrada (a sua imaginação decide os
seus limites)! Imagine que ao longe se aproxima um autocarro
cheio de gente. Haverá nele pessoas novas e velhas, miúdos
e graúdos, gente magra e gorda, bonita e feia, inteligente e
estúpida. Todo o tipo de pessoas! Só que você ainda não
sabe que pessoas estão dentro do autocarro!
O autocarro pára e você entra. Há apenas um lugar vazio, o
seu. Repare no ambiente dentro do autocarro. Comece a
reparar nas pessoas. Sente-se. O autocarro não arranca. Em
vez disso uma das pessoas no autocarro avança até si e
estende-lhe a mão, para que a acompanhe. Repare na
pessoa que o convida. Verifique o que sente na presença
desta pessoa. Depois saia com ela para fora. Fora do
autocarro, apenas os dois, sentam-se num banco e
conversam. Como se chama? O que pretende? Qual o seu
presente para si? Como lhe pode ser útil? Quando tiver
terminado a conversa agradeça-lhe a sua presença. Abrace-a
se sentir que é apropriado, ou dê-lhe um aperto de mão.
Depois regresse ao autocarro e deixe que outra pessoa se
aproxime de si. Repita o processo. Faça por conhecer três ou
quatro “pessoas” (subpersonalidades) de cada vez que faz
este exercício.
O meu exemplo... Quando esperava pelo autocarro estava no
campo, com árvores frondosas na berma de uma estrada
velha, com ervas que cresciam nas bermas. O autocarro era
novo e, à medida que se aproximava, tinha a percepção de
muito ruído, algazarra, dentro do autocarro. Senti um aperto
no peito quando o autocarro parou e as portas se abriram. A
primeira pessoa que vi foi o motorista – simpático e
sorridente, acenou-me para entrar como se estivesse com
pressa. Sentei-me no fim do autocarro – o único lugar vazio.
Não me apetecia muito olhar à minha volta. Tinha a nítida
sensação de que todas as pessoas se encontravam em
alvoroço, irrequietas, barulhentas. Quando levantei a cabeça
  52
estava um idoso ao meu lado que me estendia a mão. A sua
expressão facial era de preocupação e ressentimento.
Confesso que não me apetecia muito sair e conversar com
aquela pessoa, mas fui. Perguntei-lhe como se chamava.
Disse-me que era o Queirós Queixinhas. Quando nos
sentámos no banco, já fora do autocarro, o Queirós começou
logo a falar. Não se calava! Queixava-se dos políticos, dos
amigos, do tempo, do trabalho, até do autocarro que o
transportava! Perguntei-lhe porque se queixava tanto.
Respondeu-me que se não se queixasse eu ficaria sempre
para o fim! (E de repente apercebi-me que o único lugar no
autocarro era mesmo na traseira!). Ele tinha que se queixar
porque era a única maneira de eu prestar atenção ás minhas
necessidades. Enquanto se queixava senti uma enorme
tristeza no meu coração. Quando ele terminou agradeci-lhe a
sua presença e prometi-lhe que iria prestar mais atenção ás
minhas necessidades. Abraçámo-nos durante bastante
tempo. Quando deixei o Queirós Queixinhas regressar ao
autocarro reparei que já não caminhava curvado e com andar
arrastado. Por outro lado eu sentia-me pesado.
Abri os olhos, escrevi numa folha um pequeno relato e
regressei ao trabalho. A segunda pessoa que veio ter comigo
(desta vez o lugar vazio no autocarro era muito mais à frente!)
era um jovem musculado, com uma feição bruta, ameaçadora.
Chamava-se Tomás Teimoso. Mais uma vez, senti alguma
resistência em sair para fora do autocarro com esta
personagem. Uma vez fora do autocarro preparei-me para me
sentar no banco e ouvir o que o Tomás Teimoso tinha para
me dizer. A primeira coisa que disse foi que iríamos caminhar!
Respondi-lhe que a ideia era de nos sentarmos e termos uma
conversa. Ele agarrou-me por um braço e disse que iríamos
caminhar! A sua voz era bastante persuasiva. Respirei fundo
e lá fui. Perguntei-lhe primeiro porque motivo queria ele
caminhar. Respondeu-me que era simples: ele tinha sempre
razão! Uma nova pergunta surgiu na minha mente. Mas então
ter sempre razão não é algo que sempre combati?... Claro,
por isso é que o Tomás Teimoso era forte e bruto! Alimentei-o
muito bem ao longo dos anos, negando a sua existência!
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  53 
Disse-me que o querer ter razão é um jogo do ego. O ter
razão força-nos a aceitar que somos vítimas de uma maneira
perniciosa. Quando quis saber qual a sua prenda, informou-
me, a sorrir, que muitas vezes a minha intuição me tentava
empurrar numa direcção mas, seguindo a lógica do ego, eu ía
no sentido oposto! E como não aceitava que era teimoso, o
Tomás aparecia de vez enquando, em conversas internas que
alimentavam o corpo de dor! Tinha que aceitar que muitas
vezes me tornava teimoso em situações mesquinhas quando
deveria fazê-lo nos momentos em que estava em jogo o meu
desenvolvimento pessoal. Achei curioso quando o Tomás
Teimoso me disse que teríamos que voltar a encontrar-nos,
ainda era cedo para me dizer tudo o que tinha a dizer...
Apertámos as mãos, mais como sinal de respeito mútuo.
Abri os olhos e escrevi um relatório. Depois do Queirós
Queixinhas e do Tomás Teimoso, tive a oportunidade de
conhecer o Victor Violento, a Zulmira Zangada, o Afonso
Alegre, o Manuel Mentiroso, o Carlos Comilão, a Belita Boa-
Vida, o Ivo Invejoso, a Maria Mordaz, a Vera Venenosa, o
Sebastião Sabichão, o Pedro Parvalhão, a Otília Otária, o
Rafael Rancoroso, a Teresa Trombuda, o Nelson Nega-Tudo,
o Augusto Arrogante, o Carlos do Contra, o Diogo Deprimido,
o Teodoro Tudo-Bem, o Luís Luxúria, a Vânia Vai-com-Todos,
o Fernando Faz-de-Conta, o Mário Masoquista, a Sandra
Sádica, a Elsa Engraçadinha, o Belmiro Beato, o Angélico
Angelical, o Mário Maricas, a Vanda Vaidosa, a Carlota
Cobardolas, o Alberto Abandonado, a Inês Insaciável, a Joana
Jurista, o Luís Larápio, a Tânia Traiçoeira, a Laura Lapa, o
Bartolomeu Bestial...
Ao longo deste processo irá ter momentos divertidos e
momentos de tristeza. Irá descobrir facetas que desconhecia
e encontrar velhos amigos. No fim irá descobrir que está tudo
em si. Depois, é importante que escolha meia dúzia de
subpersonalidades que de facto estejam activas ao longo do
dia. São aquelas responsáveis pelos nossos hábitos. Por
exemplo, se tem o hábito de praguejar a outros condutores,
talvez haja em si uma Carla Cabra ou um Pedro Petulante...
  54
Da próxima vez que se encontrar na situação habitual fale
com essa subpersonalidade! Não só irá ser divertido como a
situação se dissolverá muito rapidamente.
Por exemplo, uma das minhas subpersonalidades mais
activas era o Sebastião Sabichão. Agora, sempre que alguém
comenta algo e eu sinto vontade de elaborar ou oferecer
ainda mais informação sobre o assunto, penso qualquer coisa
como “Hallo! Sr. Sebastião Sabichão, agradecemos a sua
amabilidade mas neste momento os seus serviços não são
necessários”. Ou quando alguém me fala de uma situação de
injustiça e a Joana Jurista começa aos pulos para dizer de
sua sentença, posso pedir-lhe que se acalme porque não se
trata de uma situação de vida ou morte.
Mas o benefício maior é para as pessoas que estão em
relacionamentos estáveis. Se ambos souberem da existência
das principais subpersonalidades um do outro, é fácil
dissolver situações conflituosas. Por exemplo, a Carlota
Chorona chega a casa a choramingar porque teve um dia
difícil e o marido, o Sandro Sádico, está à sua espera...
Podem imaginar a situação?... Explosiva! Mas se o marido
disser qualquer coisa como “Aha! Hoje temos a Carlota
Chorona no palco!” ou a esposa afirmar “Podias pedir ao
Sandro Sádico que se acalme?”, a situação mudaria
completamente!
Para melhor poder encontrar as suas subpersonalidades,
enquanto casal, deixo-lhe o exemplo de um casal meu amigo.
A Andreia encontrou as seguintes subpersonalidades:
Rita Resistente, Zulmira Zangada, Dora Dominante, Paula
Polícia, Rafaela Rainha, Carla Controladora, Ana Amante,
Sandra Sempre-Certa.
O Paulo encontrou as seguintes subpersonalidades:
A Sombra Humana 
Emídio Carvalho  55 
Dionísio Dominador, Sebastião Sabe-Tudo, António À-Minha-
Maneira, Manuel Musculado, Alfredo Amante, Carlos
Competente, Paulo Professor.
Já imaginaram o que acontecia neste casal quando a Dora
Dominante se encontrava com o Sebastião Sabe-Tudo?...
A confiança absoluta é algo que tem que existir antes de
darmos início a qualquer diálogo interior. Isto porque haverá
alturas em que poderá estar a falar com uma das suas
subpersonalidades e alturas em que estará a ouvir a vozinha
interior (ego) que nunca tem nada de bom para dizer. Como
distinguir as duas? A vozinha que está sempre a deitar abaixo
nunca terá algo de positivo para lhe dizer, nunca haverá uma
prenda ou algo a aprender.
É ainda importante receber as suas subpersonalidades de
braços abertos. Isto é mais fácil de dizer do que fazer. Esta é
muito provavelmente a única situação em que estar à espera
do pior pode funcionar a seu favor.
À medida que for abraçando as partes de si que nunca
aceitou, é uma óptima ideia tentar descobrir onde é que essa
subpersonalidade teve início. O que o levou a acreditar que
determinada característica era má e indesejada.
Se estiver preparado para ouvir, irá descobrir que a grande
maioria das suas subpersonalidades são engraçadas,
divertidas, cheias de recursos, honestas e capazes de
perdoar tudo e todos. Em realidade cada uma das suas
subpersonalidades é uma das pessoas mais sábias em todo o
Universo (o seu Universo). Isto porque lhe dão respostas que
vêm de si, do mais profundo do seu ser. Na verdade você
pode ter acesso a qualquer pessoa indo bem dentro de si.
Tudo o que tem a fazer é encontrar o silêncio interior e
chamar a pessoa à sua presença. Lembre-se, se essa pessoa
não tem nada de bom para lhe dizer, é a sua vozinha interna,
parte do ego, que mais uma vez tem a oportunidade de
vitimizar.
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  • 1.
  • 2.   2 A Sombra Humana ~ O Resgate Do Ser Humano Completo Emídio Carvalho
  • 3. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  3  Título: A Sombra Humana – O resgate do ser humano completo Autor: Emídio Carvalho Editor: IRIEC, LDA. Rª da Nestlé, 1 – R/c Dto. 3860-071 Avanca Portugal Capa: João Bizarro (www.joaobizarro.com) Paginação: IRIEC, LDA. ISBN: Depósito Legal: 1ª Edição: Dezembro, 2009 Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado – além do uso legal com breve citação em artigos e criticas – sem prévia autorização do autor.
  • 4.   4 Nota do autor Querido leitor, Não faço pretensão de vir a ser psicólogo, nem esta é a minha área de estudos convencionais. Ao longo dos anos interessei-me sempre pelo estudo da mente humana e do comportamento do homem enquanto animal social. Todavia, nunca encontrei um curso académico que considerasse útil ao meu desenvolvimento pessoal nesta esfera. Saltitando de seminário em seminário, e de workshop em workshop, fui ligando as pontas soltas de um conhecimento que vejo como a resposta a muitos dos dilemas que nos afectam hoje. Tudo começou com um livro da Debbie Ford, seguido de seminários em que participei dedicados à Sombra. Consegui fazer as pazes com o meu passado. Consegui perdoar todos aqueles que me tinham causado danos. E, mais importante, consegui perdoar-me a mim mesmo, pela responsabilidade de co-criação de cada evento doloroso da minha vida. Neste processo criei a estrutura necessária para dar vida a um curso de Educação Emocional baseado em princípios espirituais. Este pequeno manual é um resumo daquilo que ensino. Os meus seminários contêm uma componente prática bastante acentuada, onde cada participante é guiado no seu processo de fazer as pazes com o passado e disponibilizar assim toda a energia empregue na camuflagem das suas vergonhas, medos, raivas e culpas. Espero que a leitura deste manual lhe seja benéfica. Com amor, Emídio Carvalho Índice Remissivo
  • 5. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  5  Como surge a sombra humana..........................................6 Ir ao encontro da sombra....................................................9 Uma pessoa – muitas pessoas..........................................12 Porque projectamos...........................................................17 Conhece a tua sombra, conhece-te a ti mesmo.................22 Descobrir alguns aspectos da sombra...............................27 Eu sou isso.........................................................................30 A Sombra Inconsciente.......................................................34 A natureza humana escondida do ser humano..................39 A Sombra Projectada..........................................................43 A solidão.............................................................................47 Abraçar a nossa sombra.....................................................49 Aquilo a que resiste, persiste..............................................56 A nossa história..................................................................61 Como criamos o Eu Falso...................................................64 A Sombra Integrada............................................................69 Controladores.....................................................................78 A doença como reflexo da Sombra.....................................82 A pandemia da alegria – e o ódio que esconde..................85 A Sombra Nos Relacionamentos........................................90 Reinterpretar o seu Eu........................................................95 Ressentimento ou Paz de Espírito....................................101 O Perdão...........................................................................105 Deixa que a tua luz brilhe..................................................110 Descobrir o dom................................................................118 Ferramentas Adicionais Para Descobrir O Seu Propósito De Vida......................................................122 Agradecimentos................................................................124 Bibliografia.........................................................................125
  • 6.   6 Como surge a sombra humana Durante a leitura deste texto mantenha presente apenas esta imagem: um recém-nascido é capaz de ir da raiva mais agressiva até um estado de alegria eufórica em menos de dois minutos! Imagine que quando nasce você é um castelo. Um castelo com mais de duas centenas de aposentos! Possui uma cozinha da generosidade e um salão do egoísmo. Uma cave da maldade e um quarto da bondade. Uma sala da amizade e outra da traição. Possui ainda aposentos de inteligência, amor, humildade, paz e respeito. E possui aposentos de estupidez, ódio, arrogância, guerra e desprezo. Muitos aposentos e todos eles úteis no momento certo. Os adultos à sua volta deveriam ensinar-lhe quando é apropriado visitar cada um dos aposentos. Deveriam dizer-lhe que possui aposentos que muito provavelmente nunca sentirá necessidade de visitar, e outros que lhe serão úteis inúmeras vezes, à medida que passeia pelo seu castelo. O que acontece na realidade é isto: um dia visita o aposento do egoísmo e um adulto diz-lhe que esse aposento é feio. E você fecha a porta e atira com a chave. Algum tempo mais tarde visita a sala da bondade e outro adulto bate palmas e diz-lhe que essa sala é muito bonita. E você decide que irá passar muitos dias aí, mesmo que isso signifique sacrificar uma grande parte de quem é. Noutro dia visita a cave do desprezo. E outro adulto, que vê a sua visita, diz-lhe que essa cave é má! E mais: se você insistir em visitar essa cave novamente será punido! E você fecha a porta e atira com a chave dessa cave! Por volta dos oito anos encontra-se a viver em cerca de 10 por cento dos aposentos do seu castelo. Aos vinte anos vive num T2, dentro do seu castelo! Isto é o que acontece a todos os seres humanos! Exceptuando os muito poucos que foram educados por pais
  • 7. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  7  verdadeiramente iluminados que compreendiam o ser completo que você era, e é! Durante os primeiros quarenta anos da sua vida, aproximadamente, irá fechar aposento atrás de aposento. Limitar-se-á mais e mais. Porque, ainda por cima, ensinaram- no a não correr riscos, a procurar a segurança da rotina, nem que sacrifique mais um pouco da sua vida e de quem é! Por volta dos vinte e poucos anos começa a ter problemas com os aposentos que fechou. E ensinam-lhe a decorar afirmações positivas e a recitar mantras! Isto é o mesmo que viver numa casa que está a cair e você, num acto louco, decide pintar a casa de rosa, para criar a ilusão que a casa é nova em folha! É claro que ela irá cair! As afirmações positivas são boas, deliciosas na verdade. Mas primeiro verifique o que está escondido na sua mente! A sua sombra, aquilo que você “não é”, os aposentos que se esqueceu já que existem. A maior parte dos nossos pensamentos são projectados a partir do subconsciente. Chamo-lhe a “vozinha da caixa da sombra”. O que temos nos pensamentos das pessoas que recitam afirmações positivas é um monólogo parecido a isto: “Eu amo-me e aceito-me tal como sou... (sorriso) Olha-me para aquele velho que não vê para onde vai, o estúpido!... Eu sou um com o amor Divino (mais um sorriso)... Odeio esta gente que fuma e não tem respeito pelos outros! Javardolas!... Eu perdoo todos os que me magoaram... Agora, como é que posso estragar o dia ao palhaço do meu colega?... Meu Deus, esta dor de costas não me larga! Será que é alguma coisa grave?... A minha mãe deixa-me com os nervos em franja! Se ela hoje me diz que preciso de mudar de vida outra vez, mato-a!... O dinheiro vem a mim facilmente... Eu não posso focar a atenção no que não quero! Eu amo-me e amo os outros... (outro sorriso, mas menos convincente) Estou outra vez atrasado, raios! O problema real é que não nos apercebemos sequer do diálogo que coloco a itálico! É o diálogo que vem da sombra e
  • 8.   8 que nem nos apercebemos! Excepto se começarmos a prestar verdadeira atenção aos nossos pensamentos. Sei do que falo por experiência própria. Ainda não encontrei uma pessoa que pratique “pensamento positivo” que esteja verdadeiramente de bem com a vida! Que esteja verdadeiramente entusiasmado e apaixonado pela vida. Há aquelas pessoas que se esforçam tanto por mostrar que isto funciona, mas basta picar as suas sombras e vê-los a espernear! É giro! E assim lá se expressa o meu lado sádico de uma maneira pouco saudável! (Eu sei que essas pessoas, com uma vida fantástica porque recitavam continuamente afirmações positivas, existem! Conheço inclusive alguns dos livros, que podem ser uma ajuda preciosa para acordar – mas para a maioria dos mortais é só isso: servem para acordar). Há ainda pessoas que fazem muita meditação e paz e amam tudo e todos... E depois alguém trata-os abaixo de cão! Ou são vítimas de violência física... E lá cai por terra a teoria da Lei da Atracção! (Eu também já acreditei nessa teoria – infelizmente está incompleta). Será que você seria capaz de matar, de atraiçoar, de mentir? Claro que sim! Em dois minutos mostro-lhe uma situação em que o faria sem pensar! Há em nós uma coisa que se chama “instinto de sobrevivência” o qual ultrapassa, fisicamente, a mente consciente, os nossos preceitos morais e todo o lixo mental acumulado, e simplesmente entra em acção. O problema para muitos pais é como explicar a um filho em que situações o seu medo, estupidez, arrogância, egoísmo, maldade e inveja, para nomear apenas alguns dos comportamentos humanos “negativos”, podem ser úteis. Dedique algum tempo a estudar isto. Veja em que situações ser mau pode ser bom. Nós passamos os primeiros 40 anos da nossa vida a acumular sombra. E os restantes a tentar recuperar essa sombra. Os ingleses chamam-lhe “midlife crisis”. Os Sábios
  • 9. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  9  chamam-lhe a “noite escura da alma” – uma idade em que perdemos a segurança numa área da nossa vida que nos é querida. E isto acontece por um único motivo: “Aquilo que tu não queres ser não te deixará ser”. Ir ao encontro da sombra A nossa sombra usa uma série interminável de disfarces: gananciosa, maldosa, manipulativa, egoísta, controladora, não merecedora, preguiçosa, fraca, hostil, vingativa, destrutiva, etc. A nossa sombra funciona um pouco como um armazém, onde guardamos todas estas partes de nós que não aceitamos. Todos os aspectos que aparentemente não somos e que gastamos tanta energia a fazer de conta que não existem. São as faces que não queremos mostrar ao mundo. Nem a nós! Tudo aquilo que odiamos, resistimos ou afirmamos que não somos, toma uma vida própria dentro de nós, no nosso subconsciente, destruindo qualquer sentimento de auto- estima que tenhamos. Quando enfrentamos a nossa sombra pela primeira vez a nossa atitude é quase sempre de negação. Fugimos daquilo que não aceitamos ou não gostamos em nós. Outras vezes optamos por negociar com a sombra. Fingimos que sim, que reconhecemos o potencial para ser isto ou aquilo, mas viramos as costas na esperança de que nunca aconteça. Mas são estes aspectos escondidos que mais atenção precisam de nós. Temos que fazer as pazes com eles, aceitá- los na totalidade. São os nossos tesouros escondidos. Dois exemplos. Você poderá pensar que mentir é feio e os mentirosos são pessoas indignas de ser amadas. É capaz de pensar numa situação em que mentir possa ser útil a uma
  • 10.   10 pessoa? Imagine uma criança de dez anos a conversar, na internet, com um suposto ‘amigo’ que vem a descobrir tratar- se de um pedófilo... Se a criança mentisse e dissesse ao agressor que na verdade era um agente da Policia Judiciária? Não lhe parece que nesta situação, mentir, seja a diferença entre a liberdade e as garras de um predador? Ou imagine a situação em que um assassino vai matar a pessoa que mais ama. E você tem uma oportunidade para lhe dar com um martelo na cabeça. Seria capaz de o fazer? Claro que sim. É uma questão de sobrevivência. Começa a ver como a sombra, aqueles aspectos que negamos, podem ser úteis? Mas tenha cuidado neste processo da sombra! Um dos nossos maiores problemas, nestes dias de informação excessiva, é o sindroma “Eu já sei isso”. Uma coisa é saber, intelectualizar, outra, muito diferente, é sentir. Este processo da sombra não é algo a intelectualizar, mas sim uma viagem que tem início na cabeça mas cujo destino final é o coração. A nossa sombra é a porta para a verdadeira liberdade. Temos que tomar a decisão de explorar, reconhecer e aceitar cada faceta da nossa sombra, para sermos verdadeiramente livres. E quer você goste ou não, enquanto ser humano, possui uma sombra. Qualidades de luz e escuridão desconhecidas da mente consciente. Abraçar um aspecto do nosso ser significa amá-lo e aceitá-lo tal como é. Não significa torná-lo mais do que é, nem menos do que é. Simplesmente aceitar que é apenas mais um aspecto de nós. Vivemos hoje sob a falsa pretensão de que para algo ser divino tem que ser perfeito. Isto é um erro. De facto o oposto é que é verdade. Ser divino significa ser-se completo. E ser-se completo significa ser tudo, o positivo e o negativo, o bonito e o feio, o santo e o pecador.
  • 11. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  11  Quantas vezes, enquanto crescíamos, nos foi dito para não nos portarmos mal? Para não sermos preguiçosos? Para não dizer asneiras? Para não falar alto? Para não sermos egoístas? A mensagem era sempre a mesma: Não ser! Ensinaram-nos a “não ser”! Você nunca soube o que era ser belo, porque passou a maior parte da infância a esconder o feio! Você nunca soube o que era a verdadeira bondade porque passou a maior parte do tempo a esconder a ganância! E assim foi perdendo uma parte importante de si mesmo. E como aprendeu tão bem a ‘não ser’, começou a desenvolver uma certa impaciência por aqueles que eram. Os maus da fita. E os maus da fita tinham que existir sempre, para a lhe mostrar as partes de si que aos poucos ía escondendo. E foi assim que você caiu na ratoeira do “se apenas”. Se apenas as pessoas fossem mais simpáticas.. Se apenas as pessoas fossem mais generosas... Se apenas eu tivesse uma relação mais amorosa... Se apenas eu tivesse mais dinheiro... Querido amigo, vai precisar de algum tempo para sentir amor por quem é na totalidade. Já reparou que a maior parte das pessoas com problemas sérios de saúde são pessoas que nunca mostram raiva, nem se queixam, colocam sempre os outros em primeiro lugar. E depois têm doenças graves e nem sabe porquê. Escondido nos seus corpos há toda a raiva, sonhos, desejos e tristezas que nunca foram capazes de mostrar ao mundo. Foram ensinados a colocar os outros em primeiro lugar, porque é isso o que as pessoas boas fazem.
  • 12.   12 Dentro de nós há todos os aspectos, positivos e negativos, que observamos na espécie humana. Cada emoção, cada impulso, cada necessidade. Quando observar um comportamento humano, qualquer comportamento humano, e for capaz de afirmar “eu sou assim” ao nível mais profundo do seu ser, então será capaz de se aproximar da verdadeira iluminação. Lembre-se que só saberá verdadeiramente o que é o amor, quando aceitar em si a capacidade para odiar. O ódio só tem poder sobre si enquanto não o reconhecer, enquanto não o aceitar. A partir do momento que aceita a sua capacidade para odiar irá estar livre para amar sem impor condições. A nossa sombra existe para nos mostrar que somos incompletos. Existe para nos ensinar o amor, a compaixão e o perdão. Não só em relação aos outros mas, acima de tudo, em relação a nós mesmos. E quando abraçamos a nossa sombra, tem início a cura da nossa alma. É que a nossa sombra só é sombra porque permanece escondida. Quando trazemos a nossa sombra à presença da luz, quando descobrimos o presente da nossa sombra, ela transforma- nos. Liberta-nos. Quando abraçar a sua sombra, dará início ao processo da cura. E quando cura a sua sombra torna-se livre para amar na totalidade. Em cada ser humano há uma divindade à espera de ser descoberta. Esquecemo-nos que já somos completos. Uma pessoa – muitas pessoas Em cada um de nós há uma série de subpersonalidades (em psicologia o termo utilizado é “complexos”). Não podemos cair
  • 13. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  13  na asneira de acreditar que conhecemos quem quer que seja, porque nunca iremos conhecer a totalidade da pessoa com quem partilhamos um momento ou uma vida. As nossas subpersonalidades formam-se antes de sermos capazes de construir um raciocínio lógico capaz de filtrar a informação vinda do exterior. E muitas das subpersonalidades são-nos tão repugnantes que optamos por fechá-las num recanto escuro da nossa mente. Pensamos que aí, na escuridão, não causarão qualquer problema. Fazemos isto por um único motivo: ser aceites pelos outros. Imagine uma criança de 4 anos que mente à mãe e é apanhada na mentira. A mãe, tendo como único objectivo ensinar a criança a viver em sociedade, diz à criança que mentir é feio. Dependendo da forma como esta mensagem é transmitida, a criança pode escolher ignorar a admoestação da mãe ou, caso seja severamente castigada, decidir esconder o aspecto de si capaz de mentir. De uma maneira simplista a criança decide que jamais voltará a mentir. Mais tarde essa mesma criança é apanhada pelo pai a roubar o brinquedo de outra criança. Se o pai possuir as características do tirano ou do moralista, irá punir a criança. Explicar à criança que roubar é errado, fazê-la ver a situação sem qualquer interpretação moralista, e ajudar a criança a descobrir de que maneira o acto de roubar pode ser útil (e há situações em que pode ser útil, acredite) seria a atitude mais apropriada. Mas isto ocuparia algum do tempo do progenitor. Por outro lado, se o pai tiver as suas próprias feridas emocionais relacionadas com o furto irá projectar estes aspectos no filho e punirá de acordo com a infracção. E a criança decide que jamais roubará – outro aspecto da sua personalidade que é abafado na mente subconsciente. Pouco tempo depois a criança faz um desenho que é o orgulho da tia. A tia mostra a toda a gente, à frente da criança, a criatividade e brilhantismo da mesma. Elogia-a sem fim! Se a criança tiver uma tendência para a timidez irá sentir-se mal com os elogios e com o facto de ser o centro das atenções. E
  • 14.   14 mais uma vez, decide que ser criativo é contraproducente e esconderá este aspecto na sua mente subconsciente. Por volta dos 20 anos, estaremos perante um adulto que não mente, não rouba nem é criativo. Mas estes aspectos estão todos em si! E cada um deles irá criar uma batalha na sua psique porque cada um quer ser experienciado. Daí que eu diga “aquilo que tu não queres ser, não te deixará ser”. O jovem torna-se na verdade incompleto. A partir daqui várias situações irão surgir. O jovem poderá escolher projectar os aspectos que rejeita em si. Assim, irá atrair a si pessoas que mentem, roubam e que são genialmente criativas. Estas pessoas existem apenas para lhe mostrar as partes de si que está a deserdar. Nós somos animais sociais e é através da socialização que aprendemos sobre quem somos. Contudo, em qualquer ambiente social em que nos encontremos há sempre uma pessoa que não conseguimos ver: nós próprios. Como não nos conseguimos ver iremos projectar aspectos de nós sobre os outros. Uma forma brilhante de descobrirmos quem somos: o santo e o pecador, a luz e a escuridão. Não conseguimos estar muito tempo na luz sem ter a experiência da escuridão. O jovem acima descrito irá ainda fazer exactamente aquilo que não aceita nele. Irá mentir, roubar e ser criativo. Mas fá- lo-á de uma maneira velada, em que ele próprio não tem consciência de o estar a fazer. Pode mentir quando afirma que está bem e não está. Pode roubar tempo aos outros, chegando sempre atrasado a qualquer compromisso, e poderá ser bastante criativo nas suas desculpas. Este jovem irá atrair a si, para vivenciar uma relação a dois, a pessoa que melhor lhe mostre todos os seus aspectos rejeitados. De início irá ver na pessoa que é objecto da sua atenção apenas os aspectos positivos, como a criatividade. Depois de oficializada a união, os aspectos negativos projectados na outra pessoa começarão a mostrar a sua feia cara. É comum a muitas pessoas, quando se encontram
  • 15. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  15  próximas do divórcio, afirmarem que não conhecem a pessoa com quem se casaram. A verdade é que elas não se conhecem a si mesmas. Por volta dos quarenta anos de idade, os aspectos negados da sua personalidade terão obtido energia suficiente para causar danos na vida desta pessoa. A Debbie Ford explica este fenómeno de uma maneira fácil de compreender. Imagine que cada aspecto que rejeita em si é uma bola de praia. Há uma bola da estupidez, outra da arrogância, outra do egoísmo, outra ainda da prepotência, outra da mentira, outra da infidelidade. Cada um de nós possui muitas bolas. E como temos pavor que os outros descubram estes aspectos deserdados, iremos gastar uma energia descomunal a manter cada uma das bolas debaixo de água, para que ninguém as consiga ver. E, se possível, para que nós mesmos não as consigamos ver. A energia que utilizamos para manter estas bolas fora do nosso campo de visão é a da raiva. A energia mais poderosa que algum ser humano é capaz de possuir. Num momento de distracção, em que pensamos que a nossa vida não podia estar melhor, estas bolas saltam! E vão molhar muitas pessoas! Irão magoar-nos a nós e aos que nos são queridos. Vemos isto todos os dias! O condutor que insulta outro e ameaça, podendo chegar ao extremo de sair do carro para agredir. O padre que é descoberto a “dedicar-se” à pedofilia. A boa mãe que bate no filho num centro comercial. A empregada doméstica que rouba um anel da patroa. O político que usa o seu poder para beneficiar um amigo. O director da empresa que se deixa subornar. A professora que tem um caso com um aluno menor. A boa rapariga que come mais do que precisa e se torna obesa. O juiz que se descobre pertencer a uma rede de prostituição. Basta-nos ver um telejornal para verificar a sombra em acção. Os nossos aspectos deserdados.
  • 16.   16 Por detrás destes comportamentos inapropriados há apenas a vergonha, a culpa, o medo e a raiva. Emoções tóxicas que surgiram na infância e adolescência e não foram devidamente reconhecidas nem expressas. E que eventualmente serão a origem dos danos que causamos a nós próprios e aos que nos são queridos. Ninguém é inocente. As pessoas mais perigosas são precisamente as que se encontram em estado de negação ou que são moralistas. São estas as que possuem a sombra mais densa e nefasta. Parece um pesadelo de antagonismos. Mas a pessoa boa que não é capaz de reconhecer os seus impulsos mais animais é a que é capaz das maiores atrocidades. Temos que nos recordar continuamente que de cada vez que apontamos o dedo a alguém, há três dedos a apontar na nossa direcção. É aqui que o sentimento da compaixão é importante. Em vez de nos apressarmos a julgar os outros, seria mais apropriado julgar a acção. Porque a pessoa que mente não é mentirosa. É mentirosa e honesta. É maldosa e bondosa. É bela e feia. É traiçoeira e fiel. E cada um de nós pode escolher o que quer ver. Posso escolher ver que uma pessoa mentiu, mas o acto de mentir é apenas um de muitos aspectos da pessoa. Se reparar à sua volta irá ver que as pessoas que mais danos lhe causaram são as mesmas pessoas capazes do maior gesto de bondade. Por este motivo é que afirmo que o divórcio pode ser um catalizador para o nosso crescimento espiritual. Se formos capazes, se tivermos a coragem, de resgatar todos os aspectos que víamos na pessoa que deixámos de amar. O maior passo que pode dar no seu crescimento pessoal é precisamente resgatar tudo aquilo que vê nos outros. Nós gastamos uma quantidade considerável de energia a esconder os nossos aspectos de vergonha e culpa. Enquanto não tivermos a coragem de mostrar a nossa vulnerabilidade, a nossa humanidade, as nossas feridas, nunca teremos
  • 17. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  17  disponível a energia suficiente para vivermos na autenticidade de quem somos. E iremos continuamente sabotar os nossos maiores sonhos. Não é por acaso que a grande maioria das pessoas desconhece completamente qual o seu propósito nesta vida. Porque projectamos Nós projectamos todos os aspectos que negamos em nós mesmos porque é demasiado doloroso aceitá-los. Quando ainda muito jovens (por volta dos dois anos de idade) aprendemos que certos comportamentos eram do agrado dos nossos pais, e outros afastavam os seus afectos. E escondemos os aspectos reprovados pelos nossos pais. E mais tarde também pelos nossos professores e líderes religiosos. Mas nós vivemos numa realidade de paradoxos e não de contradições. A contradição, que nos é ensinada, diz que ou somos bons ou somos maus, não podemos ser as duas coisas. Ou somos bonitos ou somos feios. Ou somos bondosos ou maldosos. Impossível ser as duas coisas. Já pensou como seria a vida se não houvesse noite? Ou quente? Ou alto? Ou subir? Num mundo assim, que significado teria o dia? E o frio? O baixo? O descer? A realidade é paradoxal e no entanto ensinam-nos a ser contraditórios. Infelizmente qualquer aspecto necessita do seu oposto para existir. Não é possível ser honesto sem aceitar o desonesto. Ou ser bondoso sem a maldade. Eu não tenho que manifestar o meu lado desonesto, mas tenho que o abraçar. Tenho que sentir que está presente e poderá ser-me útil no contexto adequado. Por exemplo, suponhamos que vivemos num pais ditatorial em que as pessoas que professam o hinduísmo são mortas?... Se eu for
  • 18.   18 hinduísta e for ainda desonesto quando me perguntam qual a minha religião, este acto de desonestidade pode ser a salvação da minha vida e da dos meus familiares. Saber que em mim há o potencial para ser desonesto é saudável. Mais ainda, tenho que expressar essa desonestidade! Como? Através da pintura, por exemplo. Ou da dança. Ou de uma escultura. Este é um dos motivos porque encontramos na índia, china ou em países árabes, gravuras, estátuas e literatura que no ocidente é considerada pornografia. No entanto esta é uma forma muito saudável de expressar a sexualidade animal presente em cada um de nós. Se eu sou uma pessoa que se considera extremamente inteligente, em mim há o potencial para ser o maior burro da história. E tenho que abraçar, e expressar esse burro. Só consigo expressar o burro que há em mim através da escrita, por exemplo. Ou de uma “dança do burro”. Ou de uma escultura que represente o burro em mim. Mas como não estamos conscientes deste processo da Sombra iremos fazer apenas uma de duas coisas: projectamos o nosso burro interior em outros, ou amordaçamo-lo durante anos e um dia, sem qualquer aviso, o nosso burro interior salta para fora e expomos a nossa parte mais desprezível e abominável! Fazemos uma burrice descomunal! Isto é apenas um exemplo. Mas pode ter a certeza que o aspecto de si que mais nega, mais despreza, e mais medo tem de ser, irá causar-lhe danos na sua vida mais cedo ou mais tarde. Se anula a sua sexualidade, irá atrair um/a companheiro/a tarado, ou então frígido e incapaz de uma relação sexual saudável. Se anula a sua estupidez irá atrair um colega insuportável e, claro, estúpido. Se anula o ladrão em si, irá ser assaltado. Se anula o tirano em si, provavelmente irá atrair um cônjuge controlador e manipulador.
  • 19. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  19  E todas as pessoas que atrai a si são projecções suas, partes de si que recusa aceitar. Isto também se aplica aos aspectos mais nobres de quem é. Se anula a sua criatividade irá atrair um amigo carregado de ideias geniais. Se anula a sua centelha divina irá atrair um ‘mestre’ iluminado. Se anula a sua beleza e sensualidade, irá atrair verdadeiros grupos de amigos e conhecidos que o são. O problema é que ninguém aguenta muito tempo a ser a projecção de outro. E é aqui que começam os nossos problemas nos relacionamentos. Houve pessoas que me perguntaram se podiam deixar de projectar ou de ser projecções de outros. Apenas se morrer. Mesmo que decida isolar-se numa floresta, irá projectar-se na natureza. O dia bonito, a erva suave, o rato nojento. Tudo projecções! Há de facto uma maneira de deixar de projectar e ser projecção. É um processo delicado, em que o amor por nós próprios tem que permanecer sempre presente. Este processo não pode nunca ser intelectual. Desengane-se já se pensa que por ler sobre o assunto é capaz: irá falhar redondamente! Terá que abraçar todas as qualidades que há em si, as que sabe que estão lá e as que nem imagina que existem! E fazê- lo a partir do coração. Tem que sentir e nunca intelectualizar. O processo em si é doloroso (que o digam as pessoas presentes nos seminários dedicados ao Caminho da Sombra!). Mas ao mesmo tempo libertador. Com tempo dá- nos muita energia, criatividade, poder pessoal. Se estiver consciente da sua Sombra e da Sombra dos que o rodeiam, ser-lhe-á também fácil projectar aspectos da Sombra dos outros. E neste processo expressa a sua própria Sombra! Por exemplo, se estiver com um amigo que odeia o roubo. Todos temos uma aversão visceral a ser roubados. Então, para não ferir susceptibilidades, a rir-se, irá roubar uma caneta ao seu amigo. Sempre consciente que é o seu “Eu
  • 20.   20 Ladrão” a expressar-se. Não só consegue manifestar um aspecto da sua Sombra, mas mostra esse mesmo aspecto ao seu amigo de uma maneira divertida e que o seu subconsciente aceite que ser roubado não é o fim do mundo. Porque motivo pensa que as pessoas têm uma reacção emocional forte quando são insultadas? O medo que a sua Sombra seja descoberta, ou pior ainda, que essa sombra se exponha. Para ter uma ideia, no último seminário pedi aos participantes para me insultarem. Esta é uma forma de eu descobrir aspectos de mim que ainda não abracei. E podem ter a certeza que este processo é violento! Chamaram-me muitas coisas. Ladrão (sim, já roubei – era criança, mas roubei). Mentiroso (sim, já menti). Assassino (reconheço que tenho todo o potencial para matar a sangue frio outro ser humano). Nojento (já fui, e de que maneira!). Maricas (e de que maneira! Todos os dias!). E o meu querido amigo Rui lá estava para ‘mexer’ comigo: chamou-me ciumento! Todos puderam observar (e não, aqui não há possibilidade de fingir) a minha primeira reacção. “Não! Eu não sou ciumento”! Toda a minha vida adulta me lembro de trabalhar para não ser ciumento. E este aspecto, claro, permaneceu na minha sombra, a alimentar-se secretamente da minha energia! Não era por acaso que eu atraía pessoas ciumentas! E enquanto eu não aceitasse que era capaz de ser ciumento, a partir do coração, continuaria a projectar este meu aspecto em outros. Não sei se começa a ver o seu drama pessoal. Se uma determinada característica do comportamento de outro ser humano lhe provoca uma reacção emocional, isto significa que este aspecto permanece na sua sombra. E irá permanecer até ser capaz de o abraçar com o coração. Não funciona fingir que não tem uma reacção emocional aos comportamentos de outros. Poderá enganar os outros, mas jamais será capaz de se enganar a si mesmo. Foi educado
  • 21. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  21  para se julgar e julgar os outros continuamente – de preferência os aspectos negativos, claro. Como é que sabe que abraçou a sua sombra na totalidade? Quando for capaz de aceitar todos os seres humanos, com todas as suas virtudes e defeitos. Quando permitir que sejam quem são. E não projectar nada de volta. Como sabe que não está a projectar? Os outros irão querer projectar em si um comportamento, por exemplo, através de uma discussão, e você permanece em paz, calmo, a aceitar que é ok. Mas ao mesmo tempo é capaz de soltar a sua bruxa má, no momento apropriado. Isto não significa que é aceitável roubar, ou matar, ou prostituir-se! Significa que a menos que abrace o seu potencial para o ser, terá que projectar noutros. E ainda aceitar calmamente quando alguém lhe diz “és belo e magnífico” porque sabe, e sente, que é verdade. Não fica corado nem se diminui perante um cumprimento. Cristo foi um excelente exemplo do parodoxo da Sombra. Ao mesmo tempo que era amor que curava os enfermos, também mostrava o seu lado tirano e sádico, ao chicotear os vendedores no templo. Se ele fosse um dos ‘novos iluminados’ dos nossos dias, em vez do chicote teria dito qualquer coisa como “este templo está agora carregado de energias negativas. Temos que construir um novo templo.” Ou algo parecido, com muito amor e ternura. E hipocrisia. Mas não. Cristo mostrou a sua Sombra, o seu lado cruel, frio, distante, ignorante dos sentimentos dos outros. Perfeição e imperfeição. Dócil e selvagem. Belo e terrível. Há uma urgência em abraçar a nossa sombra. O quanto antes. Se o não fizermos iremos caminhar para a nossa destruição. Uma vez que projectamos os aspectos que não aceitamos em nós, iremos sempre projectá-los, nos outros! Iremos projectar o louco suicida num árabe. Iremos projectar o ladrão no director financeiro de uma empresa. Iremos projectar o corrupto num politico. E iremos projectar a nossa sombra colectiva numa outra sociedade. Olhem para o
  • 22.   22 exemplo dos americanos! Depois de anos a projectar a sua sombra sobre os russos (que muitos já esqueceram), como não a abraçaram quando a Rússia abraçou a sua (que projectava nos americanos), agora a América projecta a sua sombra nos árabes. Que por sua vez projectam a sua própria sombra nos americanos! Este processo tem que se dar primeiro ao nível de cada individual. E não são precisos muitos indivíduos para fazer a diferença em toda a sociedade. Vejo-o diariamente. Tenho trabalhado a sombra de alguns amigos e é fascinante ver como a dinâmica da família de cada um deles vai mudando, para melhor! Aceite o desafio: comece hoje mesmo a praticar e a expressar a sua sombra de maneiras criativas. Conhece a tua sombra, conhece-te a ti mesmo Dentro de cada um de nós existe um verdadeiro tesouro. Este tesouro é o nosso espírito, puro e magnificente, livre e brilhante! Mas este tesouro foi escondido por uma camada espessa de preconceitos. Estes preconceitos têm a sua origem nos nossos medos. É a nossa máscara social: a cara que mostramos ao mundo. Revelar a nossa sombra é colocar a descoberto a nossa máscara. Temos que olhar para esta máscara com amor e compaixão, pois há um enorme tesouro à nossa espera quando compreendemos porque motivo nos escondemos por detrás dela. Há uma história curiosa que podemos aplicar a este tema. Em 1957 um grupo de monges na Tailândia estava a ser deslocado para outra parte do país. Um dos monges ficou responsável por tratar da deslocação de uma enorme estátua de barro do Buda que se encontrava à entrada do templo. Como a estátua era de barro todo o cuidado era pouco para não a estragar. Ainda por cima notava-se umas rachadelas num dos pés da estátua. O monge não sabia o que fazer.
  • 23. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  23  Durante a noite não conseguia adormecer, a pensar como melhor deslocar a estátua sem causar danos. A meio da noite levantou-se, pegou numa lanterna e foi ver mais uma vez a estátua. Ao incidir o foco de luz sobre o barro estalado notou que por debaixo do barro reflectia-se um brilho forte. O monge começou a arranhar o barro com as unhas, e o brilho aumentava cada vez mais. Por fim surgiu ouro! Algumas centenas de anos antes, os monges daquele mosteiro foram atacados e saqueados. Para protegerem a única coisa de valor que tinham colocaram barro a cobrir uma enorme estátua de ouro do Buda! E foi essa estátua que o monge tinha tentado manter no seu estado original de barro! Da mesma maneira que este Buda, o nosso aspecto exterior serve para nos proteger do mundo à nossa volta. O nosso verdadeiro tesouro esconde-se por debaixo! Nós escondemos, inconscientemente, o nosso tesouro. A maneira mais fácil de descobrir este tesouro é arranhando e quebrando a nossa estrutura superficial. Nos meus seminários encontro muitas pessoas que investem anos e dinheiro em seminários, tratamentos e cursos. Procuram respostas. E quando é que a procura irá terminar? Quando é que obterão as respostas? Estas pessoas não se vêem como um Buda de ouro escondido por detrás de uma camada de preconceitos. Na verdade estas pessoas não suportam a sua camada superficial. Ainda não descobriram que esta camada superficial as protege muito mais do que imaginariam algum dia. Nós precisamos da nossa camada protectora por muitos motivos, e para cada um de nós os motivos são diferentes. Apesar de que o nosso objectivo último é ver-nos livres da camada protectora, primeiro temos que compreender e aceitar estas máscaras. Acha que o Buda de ouro, depois de lhe terem retirado a camada de barro, disse “porque motivo me tiraram o barro?! Eu gosto deste barro que me esconde!!” Ou será que o Buda sentia uma imensa gratidão pela protecção que o barro lhe tinha dado no passado, e que agora já não precisava?
  • 24.   24 A sua camada exterior é a face que mostra ao mundo. Esconde todas as características que compõem a sua sombra. As nossas sombras escondem-se tão bem que muitas vezes mostramos ao mundo uma cara, quando no fundo nos sentimos exactamente o oposto. Há pessoas que usam uma camada de frieza, para esconder a sua sensibilidade, ou usam uma camada de humor para esconder a tristeza interior. As pessoas que acreditam que ‘já sabem’, escondem sentimentos de estupidez. Enquanto que aquelas que agem de maneira arrogante, ainda têm que revelar as suas inseguranças. As pessoas ‘cool’ ainda têm que mostrar a sua parte desenxabida. E as pessoas sorridentes, a sua cara de zangadas. Nós temos que olhar para além das nossas máscaras sociais para poder descobrir quem somos de verdade. Nós somos mestres dos disfarces, enganando os outros mas, acima de tudo, enganando-nos a nós mesmos. São as mentiras que contamos a nós mesmos que temos que decifrar. Quando não nos sentimos completamente satisfeitos, felizes, saudáveis ou a viver os nossos sonhos, sabemos que as nossas mentiras estão activas. É assim que descobrimos a nossa sombra em acção. A mudança que tem que ocorrer é perceptual. Você tem que ver as suas camadas exteriores como estando a servir uma função protectora, e não apenas como algo que o impede de viver os seus sonhos. As suas camadas exteriores foram concebidas de maneira divina para o ajudar no seu processo espiritual. Ao visitar e explorar cada incidente, emoção e experiência que o levou a construir as suas camadas exteriores, será conduzido de volta a casa para que possa abraçar a totalidade do seu ser. As nossas camadas exteriores são o mapa do nosso desenvolvimento pessoal. Contêm tudo o que somos, e tudo o que não queremos ser. Independentemente do quão doloroso tenha sido o seu passado, se olhar para si mesmo com total honestidade e utilizar a informação guardada nas suas camadas exteriores como um guia, irá encontrar o caminho de volta à iluminação.
  • 25. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  25  Quando conhecer o seu Eu Total deixará de ter necessidade das camadas exteriores para protecção. Irá deixar que as suas máscaras caiam naturalmente. Todos os seres humanos que partilham o planeta serão seus iguais. Literalmente. As nossas camadas exteriores são criadas pelo ego. Ou melhor, são criadas pelo ideal que o ego cria. O ego é o ‘eu’ que se diferencia dos outros. O Espírito une este ‘eu’ com a totalidade de quem é. Quando esta união entre espírito e ego ocorre, tornamo-nos um com nós mesmos e com o mundo. Muitas pessoas não conseguem ir muito longe neste processo de desvendar a sombra porque não têm a vontade de ser honestas com elas próprias. O ego não gosta muito de perder o controlo! Mas a partir do momento que é capaz de reconhecer todos os aspectos de quem é, o bom e o mau, o ego começa a sentir que perde o seu poder. Comece por desafiar a pessoa que pensa que é para poder revelar a pessoa que é capaz de se tornar. Usar as outras pessoas como espelhos ajuda-nos a decifrar as nossas máscaras. Vá ter com os seus amigos e familiares mais próximos e peça-lhes para lhe dizerem as três qualidades e os três defeitos que mais admiram/não suportam em si. É importante dizer-lhes primeiro que não ficará ofendido pelas suas respostas! Torne o espaço das perguntas um local seguro para todos. Só assim os outros se sentirão bem em revelar- lhe o que pensam de si. Descubra depois se aquilo que mostra aos outros é o que mostra a si mesmo. Muitas pessoas conseguem ver mais qualidades em nós do que nós mesmos. E, ao mesmo tempo, vêem mais características negativas em nós do que seríamos capazes de admitir. Muitas pessoas resistem este exercício. Têm medo de ser julgadas. Em vez de pensar que vai ser julgado, pense neste exercício como uma forma de feedback, informação que lhe será útil. Nós não temos que acreditar naquilo que os outros
  • 26.   26 pensam de nós, mas se temos receio de ouvir o que as pessoas que nos são mais próximas pensam de nós, deveríamos prestar atenção aos motivos. A maioria das pessoas tem receio de ouvir aquilo que mais as aterroriza. A isto chama-se ‘negação’. Nós só temos medo se, a um outro nível, soubermos que temos andado a enganar- nos a nós mesmos. Se você pensar, do mais fundo do seu ser, que aquilo que outros pensam de si não é verdade, não irá dar qualquer significado ao que é dito. Pense por instantes na quantidade de energia que necessita para esconder algo de si mesmo e do mundo. Pegue, por exemplo, numa laranja, e ande com ela na mão todo o dia. Mas sempre a tentar não ver a laranja nem deixando que outros a consigam ver. Depois de algumas horas repare na quantidade de energia que gasta para conseguir esconder a laranja! É isto o que os nossos corpos têm que fazer ao longo de cada dia. Com uma excepção: os nossos corpos não têm que esconder apenas uma peça de fruta. Têm que esconder todas as peças de fruta que temos medo de ver e mais medo que outros vejam. Quando finalmente deixar que a sua verdade venha ao de cima irá descobrir-se livre! Irá ter disponível toda aquela energia que consumia a esconder cada peça de fruta que transportava, e neste processo irá ver-se no caminho dos seus objectivos. Nós só estamos tão doentes quanto os nossos segredos. Estes segredos fazem com que seja impossível sermos nós mesmos. Outra forma de expor quem é de verdade é fazendo uma lista de três pessoas que admira e três pessoas que odeia. Podem ser amigos, actores, políticos, e até pessoas que já morreram há centenas de anos. As pessoas que mais admira deverão inspirá-lo com qualidades que gostaria de possuir. As pessoas que odeia deverão deixá-lo mal-disposto, zangado ou mesmo com raiva.
  • 27. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  27  Depois, numa folha de papel, faça uma lista de todas as qualidades que admira nas primeiras três pessoas e no outro lado da folha as características que não suporta nas últimas três pessoas. Estas listas são uma boa maneira de descobrir as partes de nós que não aceitamos. Aconselho-o a começar pelas características negativas. De início poderá ter alguma dificuldade em reconhecer em si as características que odeia. Não deve ser fácil descobrir em nós características de um Hitler. É importante decifrar qualquer palavra mais abrangente, como por exemplo ‘assassino’. A pergunta que tem que se fazer é “que tipo de pessoa cometeria estes actos?”. Seguindo o exemplo do assassino, poderia ser uma pessoa egoísta, enraivecida, que não valoriza a vida humana. Se lhe surgir a expressão “não valoriza a vida humana”, pergunte-se que tipo de pessoa é que não valoriza a vida humana? Poderá surgir-lhe, como resposta, um narcisista, uma pessoa doente, demente. A parte importante deste processo é tornar a linguagem simples até chegar a uma palavra específica ou uma característica que gosta ou desgosta. Descubra as características que possuem, para si, uma carga emocional. Mantenha presente as palavras de Nietzsche: “nós não temos nada a dizer sobre as coisas que acontecem nas nossas vidas, mas temos sempre algo a dizer sobre a forma como interpretamos essas coisas:” Descobrir alguns aspectos da sombra Uma das formas mais fáceis de descobrir aspectos da sua sombra e onde esconde não só aquilo que mais rejeita em si mas também alguns dos seus aspectos mais luminosos, é através de uma série de perguntas directas. Por favor seja 100% honesto. Este é um trabalho seu e só você é que vê, e sabe, as respostas. Esta é a oportunidade de
  • 28.   28 começar a abraçar uma parte de si que faz de conta que não existe. 1. Qual é o aspecto de si que o deixa mais orgulhoso? Aquele que gostaria que todos soubessem que possui? E qual o oposto desse aspecto? Esta primeira questão toca na imagem social que você deseja mostrar aos que o rodeiam. A segunda questão mostra o oposto, ou seja, aquilo que teve que reprimir ou rejeitar (colocando na sombra) para que os outros pudessem ver a qualidade positiva. Se a sua primeira resposta foi generoso, inteligente, alegre, ou altruísta, terá que esconder na sua sombra o avarento, burro, triste, ou egoísta. Preste atenção ao que sente quando afirma em voz alta, em frente a um espelho, o aspecto da sombra. “Eu sou avarento!” ou “Eu sou estúpido!”... Algumas pessoas sentem-se confusas, outras culpadas ou envergonhadas. E outras ainda afirmam sentir-se com mais energia. 2. Quais os tópicos que tem tendência a evitar numa discussão num grupo ? A sexualidade, agressividade, fé, ambição, incompetência?... O que quer que seja, pode ter a certeza que aquilo que evita mostra um medo de revelar um aspecto de si do qual tem vergonha. O dia que conseguir falar deste tópico com um amigo que o compreenda e não julgue, em quem confia plenamente, terá sucedido em abraçar mais um aspecto da sua sombra. 3. Em que situações dá por si a ficar nervoso, mais sensível ou na defensiva? Que tipo de afirmação o levaria a uma reacção imediata? Fica surpreendido pela forma como reage? Se sim, isto mostra que alguém acaba de pisar num aspecto seu que não aceita. O seu nível de desconforto e de reacção são uma evidência de que alguém acaba de mexer num aspecto muito sensível da sua sombra.
  • 29. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  29  4. Em que situações se sente inferior ou com falta de auto- confiança? Pode ser que se sinta assim em frente a um artista famoso, ou um colega que tem melhores resultados, ou um familiar que desfruta de sucesso. Isto mostra-lhe um aspecto de si que não está a expressar, mas que existe. 5. Em que situações se sente embaraçado ou envergonhado? Em que situações entra em pânico ao pensar permitir que outros vejam a sua fraqueza? Por exemplo, se lhe pedissem para discursar em frente a um grupo de 500 pessoas, ou para dançar em frente a um grupo de estranhos. Aqui está frente a mais um aspecto da sua sombra que quer expressar-se mas ainda não encontrou maneira de o fazer. 6. Tem a tendência a ficar ofendido quando alguém o critica? Que tipo de criticas considera ofensivas ou irritantes? Uma reacção inapropriada é também sinal de que alguém acaba de pisar num aspecto deserdado e, por conseguinte, escondido na sua sombra. Reagimos mais fortemente quando alguém expõe um aspecto da nossa sombra do qual temos um medo aterrador de vir a encontrar. Também pode acontecer ter esta reacção porque é o recipiente da sombra de um grupo, ou seja, a projecção. Neste caso tem que se perguntar porque se permite ser a “ovelha negra” do grupo. 7. É-lhe difícil aceitar um cumprimento? Se alguém o cumprimenta por algo, como por exemplo, o seu aspecto jovem, a sua criatividade ou a maneira como faz tudo na perfeição, reage imediatamente rejeitando o cumprimento? Diz coisas como “não foi nada, qualquer um faria a mesma coisa...” ou “deves andar a precisar de óculos, estou cada vez com mais rugas!” Neste caso está a tentar camuflar na sua sombra um aspecto que deseja ardentemente seja reconhecido por outros. Deverá perguntar-se: “Qual o aspecto pelo qual eu desejo que os outros me admirem?”
  • 30.   30 8. Em que aspectos se sente insatisfeito ou zangado consigo? Por exemplo, com a aparência física, ou um hábito desagradável? Neste caso estará a tentar esconder um aspecto seu que considera uma fraqueza. Ou o seu Falso Eu está a tentar impingir-lhe uma ideia irrealista de quem é e/ou do que é capaz. Pode ter a certeza de uma coisa: a partir do momento que começa a aceitar as suas fraquezas e os seus erros estará a dar início ao processo de fazer as pazes com a sua sombra. 9. Qual a qualidade que a sua família mais se esforça por mostrar à sociedade? Cada família torna-se conhecida por uma qualidade distinta. Pode ser a integridade, a honestidade, a alegria, a coragem, ser trabalhadora, hospitalidade... Uma família que queira manter a imagem de honestidade, por exemplo, terá que meter na sombra a mentira. Por forma a poder funcionar (embora de uma maneira disfuncional) esta família precisa de uma “ovelha negra” que carregue a sua sombra. Verifique qual a qualidade que define a sua família. Veja depois o oposto dessa qualidade, e não lhe será muito difícil descobrir a “ovelha negra”. Na maioria das famílias a “ovelha negra” vai mudando de um membro para outro. Isto porque ninguém consegue ser a projecção de um grupo por muito tempo sem sofrer sequelas ao nível físico, emocional e espiritual. Eu sou isso Uma vez que sejamos capazes de ver as partes de nós que andámos a negar, estamos prontos a avançar para a próxima etapa deste processo. Iremos aceitar cada um destes aspectos negados. Aceitar significa reconhecer que determinada característica lhe pertence. Podemos assim começar a aceitar a responsabilidade pelo todo que somos. Neste momento não tem que gostar de cada parte de si, tem
  • 31. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  31  apenas que estar preparado para reconhecer cada uma delas em si e nos outros. há três questões que lhe poderão ser úteis nesta etapa: alguma vez demonstrei este comportamento no passado? Ando a demonstrar este comportamento agora? Sob circunstâncias diferentes, seria capaz de demonstrar este comportamento? Uma vez que responda “sim” a qualquer destas questões terá dado início ao processo de aceitação de qualquer comportamento. Alguns comportamentos são mais fáceis de reconhecer e aceitar que outros. Aqueles aspectos de nós que mais negamos, e que continuamente projectamos nos outros, serão os mais difíceis de aceitar. Daí que é tão importante ser implacável consigo mesmo, sendo, simultaneamente, carinhoso. Esteja preparado para aceitar que “é” aquilo que menos desejaria ser. Esteja preparado para ver com novos olhos, para além dos mecanismos de defesa, tudo aquilo que lhe diz “eu não sou isso”. Olhe, com olhos que digam “eu sou isso. Em que situações sou eu assim?”. E resista à tentação de se julgar. Não crie decisões repentinas e pense que é uma pessoa má, se descobrir que é invejoso ou egoísta. Todos nós possuímos essas características, bem como os seus pólos opostos. Fazem parte da nossa humanidade. Todas estas características existem para nos guiar e ajudar. Pode ser que neste momento esteja céptico, mas dê a si mesmo a oportunidade de descobrir todas as características que o tornam completo. Prometo-lhe que no final irá descobrir o tesouro que sempre esteve dentro de si. Aceitar é uma etapa essencial deste processo de cura e de criação de uma vida de amor. Nós não podemos abraçar aquilo que não aceitamos. Se quiser manifestar todo o seu potencial tem que ir buscar as partes de si que tem negado, escondido ou dado a outros ao longo dos anos.
  • 32.   32 Se há um aspecto de si que não aceita pode ter a certeza que irá continuamente atrair as pessoas que lhe irão mostrar esse mesmo aspecto. O Universo irá mostrar-lhe quem é de verdade através dos outros, continuamente até aceitarmos esses aspectos negados. Já alguma vez pensou porque motivo atrai o tipo de pessoa que não gosta mesmo nada? Não é por acaso. Há muitas maneiras de descobrir as partes de si que tem negado. Comece por estudar as características que mais o ofendem. Faça uma lista com as palavras que melhor descrevem as pessoas que detesta, ou gosta menos. Não importa o quanto lhe possa custar, enquanto não aceitar estas características em si não conseguirá avançar. Descubra uma altura da sua vida em que demonstrou essa característica. Experimente cada um dos aspectos que não é capaz de aceitar como quem experimenta um casaco. Veja como se sente, o que terá que fazer para servir. Imagine como reagiria se alguém que o ama lhe chamasse isso. Terá que analisar que tipo de juízos faz sobre cada aspecto, e ainda que juízos faz sobre as pessoas que demonstram esse mesmo aspecto. Veja quantas pessoas ‘eliminou’ da sua vida por possuírem esse aspecto. Não tente comparar-se de maneira positiva em relação a essas pessoas. Não deixe que o seu ego se justifique ou justifique o seu comportamento. Lembre-se que o mundo vê um invejoso apenas como um invejoso. Desista de investir tanta energia e tempo em ter razão, em se justificar. É preciso compaixão para aceitar uma parte de nós que negámos, escondemos, ou odiámos durante muito tempo. As pessoas espelham de volta aquilo que já está dentro de nós porque subconscientemente nós atraímos precisamente esses aspectos. É por este motivo que há um determinado tipo de pessoas e situações que parecem repetir-se. Quando nós somos finalmente capazes de aceitar um determinado aspecto de nós, estas pessoas mudam de comportamento, ou então nós simplesmente tornamo-nos livres para as
  • 33. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  33  abandonar. E uma vez que você aceite a totalidade de quem é irá ser atraído pelo campo gravitacional daqueles que também se aceitam na totalidade. Leve o seu tempo a verificar os aspectos de si mesmo que não aceita. Lembre-se que sempre que descobrir um aspecto em alguém que considere negativo, isto acontece apenas porque você já possui esse mesmo aspecto. As palavras mais difíceis de aceitar são sempre aquelas relacionadas com incidentes do passado em que sentimos que fomos magoados. O nosso ego irá resistir a aceitação das características daqueles que nos magoaram e que culpamos pelos nossos infortúnios. Em vez de se agarrar ao ressentimento tente aprender com ele. Olhe para a pessoa que o magoou, verifique que aspectos dessa pessoa mexem consigo. E quando conseguir encontrar esses aspectos em si, deixará de ser afectado por essa pessoa. Muitas vezes, para aceitar um aspecto de si tem que libertar a raiva acumulada – raiva contra a situação, contra a pessoa que o magoou e contra si por ter permitido a ocorrência do evento. Gritar é uma excelente forma de nos libertarmos dessa raiva. Desde que não estejamos a magoar outros deveríamos sempre libertar a nossa raiva. Quando se encontrar cara a cara com um aspecto de que não gosta não tenha receio de demonstrar a raiva sentida. Demonstre-a com a intenção de se libertar, de deixar partir os juízos, a vergonha, a dor, e a sua resistência a aceitar este aspecto de si. Se nós pudéssemos aceitar a maldade e o ódio dentro de nós não teríamos a necessidade de os projectar nos outros. Quando negamos um aspecto de quem somos, tentamos compensar essa “perda” tornando-nos no seu oposto. É então que criamos personagens para tentar provar a nós mesmos e aos outros que não somos isso. Confesse, se olhar para si com bastante atenção, consegue ver a parte de si que é aborrecida? E a parte de si que é estúpida? Consegue ainda
  • 34.   34 ver a parte de si capaz de mentir ou de atraiçoar? Permita-se gritar quando descobrir estes aspectos em si. Aceite-os e liberte-se do seu peso. Se formos honestos, e não estamos a demonstrar estes aspectos no presente, então teremos que identificar um tempo em que fomos aborrecidos e estúpidos e mentimos e atraiçoámos. Nós gastamos na totalidade os nossos preciosos recursos quando “tentamos” não ser algo. Nós estamos aqui para aprender algo com cada um destes aspectos e fazer as pazes com cada um. Para sermos pessoas autênticas temos que permitir que os aspectos que amamos e aceitamos co- habitem com todos os aspectos de nós que desprezamos, julgamos e decidimos que estão errados. Quando conseguirmos segurar em todos os nossos aspectos numa mão, sem qualquer juízo, eles irão integrar-se naturalmente no nosso ser. É ai que podemos tirar as nossas máscaras e confiar que o Universo criou cada um de nós com um motivo divino. Poderemos então olhar desde cima, abraçando todo o mundo. A Sombra Inconsciente A pergunta à qual nenhum de nós tem resposta é: o que guardamos no nosso subconsciente? Por definição, jamais poderemos saber o que permanece inconsciente. Ou seja, não conhecemos algo que nos conhece a nós. E, muito pior, aquilo que não conhecemos sobre nós persiste e infiltra-se subtilmente nos nossos valores e escolhas. Uma das formas de começarmos a reconhecer a nossa Sombra é a forma como muito prontamente racionalizamos ou justificamos as nossas atitudes, comportamentos e escolhas. É-nos tão fácil criticar outros indivíduos, ou grupos de indivíduos. É tão fácil ajudar os sem-abrigo, mais que não seja para que a nossa Sombra absorva mais daquele
  • 35. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  35  sentimento de superioridade. Notei já diversas vezes que as pessoas que se envolvem em projectos de apoio aos sem- abrigo abandonam os mesmos em muito pouco tempo. Sem se aperceberem, as suas sombras indicaram-lhes que não têm necessidade de se sentirem superiores. É claro que é importante ajudar quem precisa de ajuda, mas mais importante é verificarmos os nossos verdadeiros motivos. Muitas das pessoas envolvidas em projectos humanitários têm uma necessidade de sentir que prestam, que são boas ou que valem enquanto seres humanos. Este motivo irá alimentar a sombra e criar projecções monstruosas. Mas fazê-lo pelo simples facto de querer ter a experiência, de ser útil sem esperar algo em troca, aí vale a pena. Se você está envolvido num qualquer projecto de ajuda aos mais carenciados verifique se comenta o seu envolvimento com outros. Se tem necessidade de fazer saber aos outros que está neste projecto é preferível que o abandone imediatamente pois está apenas a alimentar a sua Sombra. Mas se o trabalho que faz passa despercebido, se não sente necessidade de informar os seus amigos e conhecidos, então continue! Está a prestar um óptimo serviço. A sombra inconsciente manifesta-se de muitas maneiras. Quando contamos uma anedota sobre os Alentejanos. Ou quando criticamos os produtos das lojas Chinesas. Ou quando manifestamos a nossa veemente oposição a um político. Ou temos pena da família que sofre a tortura de um patriarca alcoólico. Quando lemos meia dúzia de livros de auto-ajuda e acreditamos ter a resposta para os problemas dos nossos amigos (alguma vez se ouviu a dizer “Se ela fizesse as coisas como eu lhe tinha dito...”). Ou, entre as pessoas ‘espirituais’: “O meu mestre disse que o melhor era...” A Sombra inconsciente leva-nos a procurar a nossa espiritualidade em muitos lugares, excepto naquele onde sempre esteve: dentro de nós.
  • 36.   36 Mantenha sempre presente que a complexidade do universo, assim como a complexidade das nossas vidas, nunca será completamente compreendida nem revelada. Mas nós podemos viver a fantasia de que sabemos muito bem quem somos e o que queremos. E criamos um conjunto de situações problemáticas no processo de tentar compreender tudo à nossa volta. E o nosso problema é apenas um: não aceitar Aquilo Que É. A nossa Sombra contém tudo aquilo que nos causa preocupações, aquilo que é estranho ao ideal do ego, tudo o que é contrário aquilo que desejamos que os outros pensem de nós. Tudo aquilo que ameaça criar instabilidade no ambiente ‘seguro’ que nos esforçamos tanto por criar. Da mesma maneira que o ego é formado a partir dos pedaços quebrados de muitas experiências, assim também é ameaçado pelo seu próprio lado mais escuro. Tudo o que contradiga o ego é uma ameaça. A Sombra é a maior ameaça ao nosso ego. E o perigo verdadeiro surge quando esta Sombra começa a ter mais energia do que o próprio ego. Eventualmente irá tomar posse dele. Por este motivo, este sentimento de ameaça desconhecida, é que o nosso ego não sabe nada sobre a sua sombra. A sombra é inconsciente. Será que os peixes sabem que nadam na água? Não creio. São um com o elemento que os rodeia. Será que o ego sabe que nada num mar de contradições que competem por atenção? Raramente. Quem, de entre nós, tem a coragem de admitir que por vezes (ou muitas vezes), faz o que faz por motivos menos íntegros? Quem é capaz de admitir que por vezes dá aos amigos os conselhos que o próprio precisa urgentemente de colocar em prática? Quem é capaz de admitir que por vezes tem inveja de um amigo? A nossa sombra tem uma agenda diferente da do nosso ego. E tudo fará para conseguir os seus objectivos. Quem, de entre nós, não se sente por vezes necessitado, vaidoso, narcisista, hostil, dependente ou manipulativo?
  • 37. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  37  Pergunto-me se as esposas dos grandes homens da História seriam felizes partilhando as suas camas com amantes poderosas como eram as causas dos seus maridos. Será que as pessoas que dedicam toda a sua vida ao serviço dos outros, vivendo sem qualquer conforto ou prazer, não o farão movidas apenas por uma enorme insatisfação, depressão e raiva? Será que o seu sacrifício é uma coisa assim tão boa? Será que é mesmo uma escolha? Será que a pessoa que ganha o prémio Nobel da paz não terá a necessidade de ser necessário? Será que estamos a ser cínicos ao tornarmo-nos conscientes dos valores opostos aqueles que expressamos conscientemente, ou será uma forma muito profunda de honestidade? Será que uma pessoa foi ‘santa’ porque sacrificou a sua viagem nesta realidade em serviço aos outros? Será que a sua vida poderia ser tão tenebrosa que a única opção era não a viver? Será que um dos aspectos dos santos é que de facto não são capazes de viver a sua própria aventura nesta vida? E quem, entre nós, poderá fazer este tipo de juízo? Será possível que uma vida de boas obras pode existir lado a lado com uma vida interior carregada de sentimentos torturados? Não será possível que uma vida interior rejeitada, apesar de no exterior aparentar muita iluminação, possa mascarar uma sombra poderosa? Para responder à questão anterior basta olharmos para qualquer noticiário. O padre acusado de pedofilia, o líder político acusado de corrupção, o bom samaritano que bate nos filhos. Não podemos cair na tentação de subestimar o poder da sombra do ser humano. Será que o fundamentalista que tenta desesperadamente converter todos à sua ideologia está convencido que isto é para o melhor bem de todos, ou será que o que o leva a agir assim são sentimentos de culpa, frustração, ansiedade e dúvidas existenciais?
  • 38.   38 Um autor que muito admiro, Nicholas Mosley, afirma que “pessoas como os católicos ou islamitas, são-no muito mais para poder pertencer a um grupo que ofereça um apoio emocional num mundo conturbado, do que por motivos de escolha feita depois de uma busca da verdade e significado na vida”. E lá se vai por terra a teoria das revelações divinas e da integridade individual! Repare ainda que este tipo de questão levanta de imediato, em muitas pessoas, um sentimento de ofensa. Naturalmente lutamos para defender os nossos valores morais (mesmo que nunca tenham sido nossos). Ao defendermos as nossas escolhas, justificando- nos por cada decisão, estamos a dar poder à sombra. Lembre-se apenas que a verdade nunca precisou de ser defendida. E mesmo assim, e porque a sombra se mantém inconsciente, longe da nossa vista, em oceanos demasiado profundos para nos atrevermos a mergulhar, não compreendemos como é que ela brinca com as nossas vidas. E onde é que está a nossa rectidão? Será que a humanidade é inerentemente boa? Seremos pessoas boas apenas porque a nossa cultura nos criou assim? Será que é possível existir a bondade sem o seu oposto? Será que uma bondade constante, ao longo de muitos anos, não pode tornar-se numa força demoníaca? Basta-nos olhar para a história da humanidade para ver que muitos dos actos bondosos tiveram o seu peso e preço. Quantas pessoas não chegam à segunda parte das suas vidas sem uma certa quantidade de arrependimentos, rancores, ressentimentos, culpas e desculpas? E contudo, na altura, pensámos que estávamos a agir para o melhor bem de todos, com a melhor das intenções. Fazer um levantamento da nossa história pessoal é o primeiro passo para reconhecer aquilo que permanece no inconsciente: a presença e actividade da nossa sombra. Quem, de entre nós, poderá afirmar: “Eu estou consciente da vida do meu inconsciente?”
  • 39. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  39  O que permanece no inconsciente é como um segundo governo, ou governo-sombra, capaz de a qualquer momento destruir toda uma vida, assim como a vida daqueles que mais ama. A natureza humana escondida do ser humano Observo à minha volta muita gente com aquilo que chamo de Ego Espiritualizado. Espiritualizam os seus egos. Sei-o porque também já o fiz. Aquelas pessoas que são tão boas, e simpáticas e sempre prontas a ajudar o próximo, e que só querem ser úteis aos demais. E são “oh-tão-dóceis”! Sempre a pensar nos outros! E afirmam que vivem no presente, e que as suas vidas são equilibradas e super saudáveis. E só comem os alimentos mais nutritivos. E não fumam, nem bebem álcool, nem praticam actos sexuais ‘perversos’, nem fogem ás suas responsabilidades, nem procuram ter razão, nem mentem... Estas pessoas são nada mais que um ego monstruoso incapaz de abraçar o lado negro. E, como resultado, irão precisar que outros lhes mostrem o seu lado escuro que não conseguem aceitar. Nós somos uns seres muito especiais. A vida acontece dentro de nós, e depois projectamo-la para o exterior. Sempre. Tudo o que vê à sua volta é uma projecção do que vai dentro de si. Veja-se o exemplo da Igreja Católica. Uma instituição que possui uma carga emocional negativíssima sobre a prostituição, o aborto, a homossexualidade, as drogas, o sexo antes do casamento (na verdade tudo o que seja sexual). E o que acontece? Tudo o que nega e repudia é projectado no exterior! Por isso temos prostituição, e temos toxicodependentes, e temos mulheres a abortar, e temos a pedofilia e tudo o mais que esta instituição nega. Em realidade a própria Igreja Católica esconde no seu seio muitos pedófilos.
  • 40.   40 Isto aplica-se a todas as instituições. Sejam religiosas, politicas, económicas, sociais... Aquilo a que resiste, persiste. E o mesmo acontece consigo. O que mais odeia nos outros? O que ‘mexe’ consigo? Se é a mentira, pode ter a certeza que irá atrair pessoas mentirosas. Se é o sexo ‘sujo’, irá atrair verdadeiros tarados sexuais. Se é a dependência de drogas, irá atrair pessoas viciadas em qualquer substância. Tem que se perguntar o que há de errado com mentir. O que há de errado com o sexo ‘perverso’. O que há de errado com a dependência de drogas. Estas são as áreas da sua vida a trabalhar. A única maneira de sair da vida que tem é aceitá-la na totalidade e atravessá-la, sentindo a dor que causa a si mesmo e aos que o rodeiam. Porque há-de ter uma reacção emocional quando vê um fumador? Que tipo de pessoa é capaz de fumar? Uma pessoa que não se cuida? E de que forma você não se cuida? Porque há-de ter uma reacção emocional quando vê uma prostituta? Que tipo de pessoa se prostitui? Uma pessoa que não possui amor-próprio? De que forma é que você não demonstra amor- próprio? Porque há-de ter uma reacção emocional quando ouve falar de pornografia? Que tipo de pessoa gosta de pornografia? Talvez uma pessoa incapaz de lidar com a sua sexualidade ou partilhar a sua intimidade? Estas são as perguntas que deverá fazer-se sempre que tiver uma reacção emocional perante o comportamento de outro ser humano. Pode ter a certeza de uma coisa: tudo aquilo que nega, tudo aquilo que rejeita, irá aparecer na sua vida vezes sem conta. Alguma vez pensou porque motivo as pessoas ‘boazinhas’ parecem ter tanto azar? Porque não aceitam que podem ser tudo aquilo que vêem nos outros. O Caminho da Sombra não é para os fracos. É para os que têm a coragem de expor os seus segredos, as suas raivas, as suas vergonhas. E perdoar-se por tudo o que são e tudo o
  • 41. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  41  que não são. É viver a partir do coração e não da mente. É ser quem é sem medo do que os outros vão pensar ou dizer. Todos nós, sem excepção, guardamos segredos dos quais nos envergonhamos. Segredos que pensamos que iriam afastar os que nos são mais queridos se apenas eles soubessem. E se você neste momento está a pensar “eu não tenho segredos” está na hora de abraçar o seu lado mentiroso. Este processo é sempre mais fácil para as pessoas com um passado doloroso. Isto porque aquelas pessoas que, aparentemente, tiveram uma infância e adolescência sem grandes problemas, não conseguirão ver tão facilmente a forma como foram abusadas. Quando tinha 9 anos, ía tomar banho quando um adulto, familiar muito próximo, me mexeu nos genitais e masturbou- me. Até há uns dias não era capaz sequer de reviver o evento. Foi demasiado doloroso e vergonhoso. E perseguiu- me até há bem pouco tempo. Uma parte de mim acreditou que o sexo era sujo, que eu tinha que ser, no fundo, uma pessoa má. Hoje consigo ver o presente daquela experiência. Protegeu-me em mais do que uma situação. Hoje dou graças pela experiência e pela dor causada. Aprendi a ser compassivo e aceitar os que sofrem. Essa experiência ensinou-me a amar os que sofrem. E agora que você sabe deste meu ‘segredo’... O que vai fazer? Nada que não tivesse feito antes. Se pensava bem de mim, irá sentir uma maior aproximação. Se sentia desprezo por mim, irá sentir-se envergonhado/a quando me vir. Mas eu vou continuar a ser quem sempre fui. Vivi alguns anos com um familiar que me aterrorizava. De cada vez que esse familiar gritava o meu nome eu mijava-me nas calças (não vale a pena utilizar eufemismos). A vergonha e dor desses anos perseguiu-me até há bem pouco tempo. Aprendi a ter medo de ser eu mesmo. Mas aprendi também uma valiosa lição: não temos o direito de magoar quem quer
  • 42.   42 que seja. E ajudou-me a sentir proximidade e carinho pelos que sofrem abusos. E agora que sabe isto de mim, o que vai pensar? Que estou a vitimizar-me? Não, estou a dizer-lhe apenas que é ok ser humano. Quando tinha 15 anos fui sexualmente violado. E durante estes anos todos carreguei comigo a raiva, a vergonha e o desespero. A única pessoa que magoei fui eu mesmo. Todos estes anos a carregar estas emoções altamente tóxicas. E a utilizar estas situações como desculpa para não viver o meu eu mais brilhante e corajoso. Qual é a sua desculpa? Cada situação do seu passado encerra um presente valioso. Cada situação dolorosa do seu passado encerra a chave para quem você é e o dom que tem para dar ao mundo. Tenha apenas a coragem de enfrentar os seus medos, as suas vergonhas, as suas frustrações. Garanto-lhe que se o fizer será um ser diferente. Irá começar a brilhar. Irá mostrar aos outros que também são um presente divino que têm algo para dar ao mundo. Posso ainda garantir-lhe que se decidir um dia fazer o Caminho da Sombra irá sentir dores físicas, irá ter dores de estômago, náuseas. Irá passar por emoções que desconhecia. Mas terá que o fazer se quer abraçar o seu lado da Luz. Cada um de nós tem uma história diferente. Há muitas formas de abusar de uma criança. Muitas formas de dizer “tu não és importante”, “tu mereces ser abandonado”, “tu não prestas”, “tu não podes ter ideias próprias”, “tu deves obedecer sempre”, “Tu não podes sobressair”, “Tu tens que sofrer”... Qual é a sua história? Olhe para a sua vida, para o que está mal na sua vida, e ficará a saber as lições que lhe ensinaram na infância. Eu tenho uma amiga que aparentemente tem uma vida de sonho. Tudo está bem, a sua infância foi fabulosa. Nada a
  • 43. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  43  relatar. Ao ponto de afirmar que vive sempre no presente”. Na verdade não conheço pessoa mais ausente do presente! Ela é falsa (eu também sou), mentirosa (eu também sou), superficial (eu também sou) e fútil (eu também sou). Na verdade ela não tem relações amorosas com o marido há mais de 10 anos, os 3 filhos têm relações frustrantes com ela, um deles é toxicodependente, não fala com a irmã há mais de 5 anos... Esta é a pessoa que jamais aceitará enfrentar o seu lado negro. Por outro lado, é uma pessoa cheia de compaixão (eu também sou), que irradia alegria (eu também irradio), e que tenta sempre ver o lado bom das coisas (eu também o faço). Faça um favor a si mesmo: esteja preparado para abraçar o seu lado negro. A sua sombra. Nem imagina os presentes que ela tem para si! Enquanto não tiver a coragem de abraçar o seu passado, de fazer as pazes com todos os que o magoaram, de fazer as pazes consigo mesmo, não poderá ser livre. Não poderá mostrar ao mundo quem é de verdade. Tem que abandonar a sua mente, amar o seu ego, e viver a partir do coração. Não adie este processo. A Sombra Projectada Pense na pessoa que, quanto a si, é prepotente, preguiçosa, desonesta e corrupta. É capaz de dizer “fulano é prepotente, preguiçoso, desonesto e corrupto... Tal como eu!”? Pense na antipatia à volta dos homossexuais... que parte destas pessoas, que rejeitam de uma forma mais ou menos velada a homossexualidade, é que nunca se sentiu completamente confortável na sua própria sexualidade. Pense na conveniência de conhecer os seus inimigos a todo o momento – se o inimigo está ‘lá fora’, então não está ‘cá dentro’. Logo, não tenho que carregar esse peso na consciência, nenhuma obrigação de me auto-examinar.
  • 44.   44 A consciência do ego, aquele pedaço de bolacha Maria a flutuar num vasto e profundo oceano, desconhece por completo o que se esconde nas águas profundas sob si. A verdade é que aquilo que está contido no subconsciente são um sem fim de sistemas energéticos, dinâmicos e activos, capazes de invadir e controlar na totalidade a mente consciente. Será possível que um homem, qualquer homem, mesmo o mais sincero de todos, seja capaz de erradicar toda a sua sexualidade? E se é, qual o preço a pagar? É fácil responder a esta questão: basta olhar para todos os escândalos à volta do clero, desde os filhos bastardos até à pedofilia. E quem são os ‘mais puros’ que exigem este sacrifício do clero? Que Deus é esse que apregoam e que aniquilam em simultâneo ao negar uma parte da natureza humana? Que sombra poderemos encontrar nestes homens? Limitar-se a negar algo nunca irá funcionar a seu favor. Os nossos componentes inconscientes englobam um quantum energético que possui o poder para abandonar o oceano profundo e entrar no nosso mundo, completamente livre de qualquer interdição da mente consciente. Se isto não fosse verdade os nossos políticos, propagandistas e agências de publicidade ficariam rapidamente sem emprego. Na verdade as técnicas e ferramentas utilizadas durante a Segunda Guerra Mundial para desinformar, manipular e esconder informação não teriam sido adquiridas pelos acima referidos. O objectivo é sempre o mesmo: apelar ao subconsciente e provocar projecções positivas sobre produtos, de um simples caramelo ao detergente da roupa, do carro de luxo ao político que quer chegar a primeiro-ministro. Ninguém projecta conscientemente. Isso seria pura e simplesmente uma contradição. Ninguém acorda pela manhã com a intenção de sair à rua e projectar os seus aspectos negados, rejeitados e escondidos. E, contudo, a energia psíquica em cada um de nós, principalmente a que se encontra fora do nosso alcance, no subconsciente, manifesta-
  • 45. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  45  se através de uma dinâmica que o próprio ego não consegue compreender, nem conter. É assim que nos apaixonamos, que tememos um estranho na rua, e recriamos as histórias dos nossos relacionamentos uma e outra vez. A mente é como um computador analógico capaz de funcionar apenas devido à nossa história pessoal. Até certo ponto, a mente procura situações análogas para poder atribuir significado a algo ou alguém. “Quando é que no passado senti o que estou a sentir agora?”, “O que sei eu sobre esta situação’”, “O que posso ir buscar ao passado para melhor processar este evento?”. Apesar de cada momento na nossa vida ser absolutamente único, o nosso sistema psíquico, funcionando a partir de dados da experiência do passado, como a ansiedade, inunda o campo da nova experiência com a informação antiga. E assim projectamos a nossa vida interior, ou aspectos dela, para cima de indivíduos, grupos, nações. É desta mesma maneira que os propagandistas, os publicitários e os políticos procuram invocar em nós respostas positivas ou negativas. Com frequência a capacidade de crítica do ego consciente é suplantada pelos poderes da programação histórica e os novos momentos da nossa vida sofrem em benefício do passado. Tenho um vizinho que apelida todos os políticos e homens com poder de decisão de “bananas”. Para ele são todos uns “bananas”! Está a ver televisão, surge um politico e a reacção dele, colérica, é sempre a mesma: “Olha para aquele banana!” O curioso deste meu vizinho é que a sua esposa, enquanto foi viva, tratou-o sempre por “banana”. Ele não consegue ver a ironia nem a projecção. Uma vez que a esposa partiu, o “banana” deixou de estar nele e passou a ser projectado em todos os homens com poder de decisão. Este exemplo ilustra o que disse até agora. Assim, aquilo que não somos capazes, ou não queremos, ver em nós próprios, ou aquilo que perturba a imagem que queremos mostrar ao mundo de nós, é muitas vezes distanciada do ego consciente através de um mecanismo de
  • 46.   46 projecção que desassocia estes aspectos negados. Uma vez que a energia, a maldade, se encontra agora ‘lá fora’, eu não tenho que lidar com ela ‘cá dentro’. Mais uma vez, nós não projectamos conscientemente, motivo pelo qual as nossas projecções são tão poderosas, tão capazes de reacções desproporcionais ao que está a acontecer. Quem seria capaz de imaginar que aquilo ‘lá fora’ a que eu reajo tem a sua origem ‘cá dentro’? Quem seria capaz de imaginar que a realidade que eu vejo ‘lá fora’ é mais um aspecto de quem eu sou? Não admira que eu tenha a reacção que tenho, e que sinta uma enorme atracção pela situação ou pessoa! Nós estamos continuamente a correr em direcção à nossa Sombra, e acreditamos ser algo ‘lá fora’ da qual podemos distanciar-nos. Com cada projecção da Sombra, a nossa alienação potencial daquilo a que se chama realidade aumenta. Quanto mais despejamos os nossos detritos sobre os outros, mais iremos ganhar uma visão distorcida da realidade. Muito raramente conseguimos ver o mundo, e os outros, tal como são de verdade. Guerras foram feitas, romances conquistados, relacionamentos iniciados e terminados sobre as projecções da Sombra. No final perguntamo-nos para quê tanto esforço... Quantas pessoas projectaram na Princesa Diana as suas vidas por viver? Os seus sonhos, os seus sorrisos, a sua bondade? Tudo projecções da Sombra. E depois, na sua morte prematura, choraram as suas próprias vidas por viver. Quanta da vida sofrida desta mulher não foi apenas um carregar aos ombros as Sombras de milhares, senão milhões, de pessoas? De que se alimenta a bisbilhotice e a inveja se não da fuga de nós próprios? Aquilo que não conhecemos, ou temos receio de conhecer, magoa-nos de verdade. E muitas vezes magoa ainda os que nos rodeiam. Muito frequentemente aquele que recebe a projecção da Sombra dos outros – seja ele um bruxo,
  • 47. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  47  pedófilo, toxicodependente, ladrão, judeu, chinês, homossexual, ou qualquer outro mártir do nosso inconsciente – irá ser acusado, humilhado, marginalizado, morto, ou ignorado. Mas estes são apenas os corajosos que carregam a nossa vida secreta, a nossa Sombra, e por este motivo iremos odiá-los, humilhá-los e destrui-los, porque cometeram o pior dos crimes: mostraram-nos o que se esconde dentro de nós. Infelizmente, quanto mais fraco for o estado do ego mais intolerável se torna, e maior o potencial para julgar os demais de maneira categórica. O mesmo é dizer: maior o preconceito e a intolerância. Exercício Arranje um caderno e durante esta semana, todos os dias, aponte as várias formas em que gasta a sua energia e tempo a queixar-se dos outros. Todas as vezes que aponta o dedo aos outros. Todas as vezes que critica o comportamento dos outros. Sem se justificar! Irá assim começar a ver o que esconde a sua Sombra. A solidão Vivemos num planeta com mais de sete mil milhões de habitantes e, todavia, sentimo-nos cada vez mais sós. Os motivos que nos levam a sentirmo-nos cada vez mais sós são vários, mas as causas são sempre as mesmas. Sentimo- nos na solidão, ou pelas coisas que aconteceram nas nossas vidas, e gostaríamos que voltassem a acontecer, ou sentimo- nos envolvidos na solidão pelas coisas que ainda não aconteceram e desejamos ardentemente que aconteçam. Em ambos os casos é tudo um trabalho interior, mental. Como podemos estar sós quando vivemos num mar de gente? Como podemos afirmar que os outros não nos
  • 48.   48 compreendem quando nós próprios não sabemos quem somos e muito menos sabemos pedir aquilo que desejamos? Conheço muitas pessoas que vivem em relacionamentos mortos, onde não há qualquer partilha, excepto aqueles momentos em que a sombra começa a fazer algum barulho. Quando o marido chega tarde a casa. Quando os filhos tiram más notas na escola. Quando a esposa se senta em frente à televisão à espera que sejam horas de ir dormir. E nunca, mas mesmo nunca, conseguimos arranjar uma hora para partilhar a nossa vida com aqueles que são de facto importantes. E nunca, mas mesmo nunca, temos a coragem para dizer que não gostamos do caminho que estamos a percorrer com aqueles que nos deveriam dizer algo ao coração. O motivo está directamente escondido na nossa Sombra. Temos a sombra de escuridão, em que projectamos tudo aquilo que rejeitamos em nós nos outros. E conseguimos assim um marido infiel, uma esposa prepotente, um filho preguiçoso, um pai déspota, uma mãe mártir, um sogro frio e distante, uma sogra bisbilhoteira, uma amiga viperina e um patrão sádico. E não temos tempo para nos aperceber que todas estas pessoas, que mexem emocionalmente connosco, com a nossa essência, são simples projecções dos nossos aspectos negados, rejeitados e atirados para o saco da inconsciência. Mas temos também a nossa sombra de luz. E a sombra de luz é ainda mais pesada e difícil de carregar aos ombros. Então atiramos com o que de melhor há em nós para cima dos outros. Para o marido que é um exemplo da honestidade, a esposa que é a pessoa mais carinhosa que conhecemos, o filho que é um génio, o pai que sabe ouvir os nossos problemas, a mãe que nos prepara as refeições mais saborosas do mundo, o sogro que nos ajuda quando estamos preocupados, a sogra que pinta quadros maravilhosos, a amiga que é capaz de uma empatia extraordinária, o patrão que é criativo como mais ninguém.
  • 49. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  49  E mais uma vez estamos a projectar todas as nossas qualidades. E, eventualmente, temos que resgatar essas qualidades, trazê-las para o nosso consciente e aplicá-las para uma vida mais. Mas como podemos nós resgatar a criatividade genial do nosso patrão quando não estamos minimamente preparados para a pôr em prática? Não podemos. É necessário todo um treino mental para que nos seja possível abraçar a nossa luz, o nosso Ouro Interior. O trabalho do resgate do nosso Ouro Interior tem que começar sempre por um estudo, uma observação. Em que situações seria de benefício, para mim, possuir a criatividade do meu patrão? Em que situações me seria útil possuir o afecto da minha esposa? Para avançar neste processo iremos encontrar o maior obstáculo de todos: o medo. É o medo de sermos autênticos, verdadeiros à nossa essência, que nos impede de brilhar. E temos medo porque fomos ensinados há muitas gerações atrás, a ter medo do desconhecido. E, assim, perpetuamos este medo de nos descobrir, de nos revelarmos a nós mesmos. Então, o primeiro passo que temos que dar é o de verificar quais as qualidades que vemos naqueles que têm um significado especial para nós. Só o facto de estarmos conscientes destes aspectos irá ajudar-nos a dar o próximo passo. Atreva-se a sentir o medo de ser quem é. Abraçar a nossa sombra A maioria das pessoas tem um desejo inato de sentir paz. Mas só conseguiremos essa paz quando formos capazes de abraçar a totalidade que somos. Descobrir as qualidades dos
  • 50.   50 nossos aspectos mais negativos é um processo criativo que necessita apenas de um desejo profundo de ouvir e aprender, uma vontade de deixar partir juízos de valor disfuncionais e crenças limitadoras, e a intenção de querer sentirmo-nos melhor. O seu Eu verdadeiro não cria juízos de valor. Apenas o nosso ego, conduzido pelo medo, cria juízos de valor com o intuito de nos proteger – protecção essa que, ironicamente, nos impede de uma realização pessoal plena. Para poder ultrapassar o ego e as suas defesas tem que procurar o silêncio, ser corajoso, e ouvir as vozes dentro da sua cabeça. Por detrás das nossas máscaras sociais existem milhares de faces. Cada face possui uma personalidade. Cada personalidade possui características específicas. Ao conseguir dialogar com cada uma destas subpersonalidades irá transformar os seus preconceitos egoístas em tesouros valiosos. Quando for capaz de abraçar cada aspecto da sua sombra irá buscar o poder que deu a outros, irá criar uma ligação verdadeira com o seu Eu autêntico. Quando permitir que as vozes das suas subpersonalidades se tornem conscientes, elas irão criar equilíbrio e harmonia com os seus ritmos naturais. Para mim foi uma experiência única o descobrir algumas das minhas subpersonalidades. Descobri partes de mim que, acreditava, nunca tinha sequer rejeitado porque nem sabia que existiam! É importante que comece por identificar cada uma das subpersonalidades e depois dar-lhes um nome. O facto de dar um nome a uma subpersonalidade específica irá torná-la consciente. A maneira mais interessante de descobrir as suas subpersonalidades é através de um exercício criado por Roberto Assagioli, fundador da Psicossíntese. Comece por se sentar confortavelmente e fazer cinco ou seis inspirações calmas e profundas. Com cada inspiração sinta-
  • 51. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  51  se a ir mais dentro de si. Depois imagine que está numa paragem de autocarro. Pode ser numa cidade, no campo, até, porque não, numa auto-estrada (a sua imaginação decide os seus limites)! Imagine que ao longe se aproxima um autocarro cheio de gente. Haverá nele pessoas novas e velhas, miúdos e graúdos, gente magra e gorda, bonita e feia, inteligente e estúpida. Todo o tipo de pessoas! Só que você ainda não sabe que pessoas estão dentro do autocarro! O autocarro pára e você entra. Há apenas um lugar vazio, o seu. Repare no ambiente dentro do autocarro. Comece a reparar nas pessoas. Sente-se. O autocarro não arranca. Em vez disso uma das pessoas no autocarro avança até si e estende-lhe a mão, para que a acompanhe. Repare na pessoa que o convida. Verifique o que sente na presença desta pessoa. Depois saia com ela para fora. Fora do autocarro, apenas os dois, sentam-se num banco e conversam. Como se chama? O que pretende? Qual o seu presente para si? Como lhe pode ser útil? Quando tiver terminado a conversa agradeça-lhe a sua presença. Abrace-a se sentir que é apropriado, ou dê-lhe um aperto de mão. Depois regresse ao autocarro e deixe que outra pessoa se aproxime de si. Repita o processo. Faça por conhecer três ou quatro “pessoas” (subpersonalidades) de cada vez que faz este exercício. O meu exemplo... Quando esperava pelo autocarro estava no campo, com árvores frondosas na berma de uma estrada velha, com ervas que cresciam nas bermas. O autocarro era novo e, à medida que se aproximava, tinha a percepção de muito ruído, algazarra, dentro do autocarro. Senti um aperto no peito quando o autocarro parou e as portas se abriram. A primeira pessoa que vi foi o motorista – simpático e sorridente, acenou-me para entrar como se estivesse com pressa. Sentei-me no fim do autocarro – o único lugar vazio. Não me apetecia muito olhar à minha volta. Tinha a nítida sensação de que todas as pessoas se encontravam em alvoroço, irrequietas, barulhentas. Quando levantei a cabeça
  • 52.   52 estava um idoso ao meu lado que me estendia a mão. A sua expressão facial era de preocupação e ressentimento. Confesso que não me apetecia muito sair e conversar com aquela pessoa, mas fui. Perguntei-lhe como se chamava. Disse-me que era o Queirós Queixinhas. Quando nos sentámos no banco, já fora do autocarro, o Queirós começou logo a falar. Não se calava! Queixava-se dos políticos, dos amigos, do tempo, do trabalho, até do autocarro que o transportava! Perguntei-lhe porque se queixava tanto. Respondeu-me que se não se queixasse eu ficaria sempre para o fim! (E de repente apercebi-me que o único lugar no autocarro era mesmo na traseira!). Ele tinha que se queixar porque era a única maneira de eu prestar atenção ás minhas necessidades. Enquanto se queixava senti uma enorme tristeza no meu coração. Quando ele terminou agradeci-lhe a sua presença e prometi-lhe que iria prestar mais atenção ás minhas necessidades. Abraçámo-nos durante bastante tempo. Quando deixei o Queirós Queixinhas regressar ao autocarro reparei que já não caminhava curvado e com andar arrastado. Por outro lado eu sentia-me pesado. Abri os olhos, escrevi numa folha um pequeno relato e regressei ao trabalho. A segunda pessoa que veio ter comigo (desta vez o lugar vazio no autocarro era muito mais à frente!) era um jovem musculado, com uma feição bruta, ameaçadora. Chamava-se Tomás Teimoso. Mais uma vez, senti alguma resistência em sair para fora do autocarro com esta personagem. Uma vez fora do autocarro preparei-me para me sentar no banco e ouvir o que o Tomás Teimoso tinha para me dizer. A primeira coisa que disse foi que iríamos caminhar! Respondi-lhe que a ideia era de nos sentarmos e termos uma conversa. Ele agarrou-me por um braço e disse que iríamos caminhar! A sua voz era bastante persuasiva. Respirei fundo e lá fui. Perguntei-lhe primeiro porque motivo queria ele caminhar. Respondeu-me que era simples: ele tinha sempre razão! Uma nova pergunta surgiu na minha mente. Mas então ter sempre razão não é algo que sempre combati?... Claro, por isso é que o Tomás Teimoso era forte e bruto! Alimentei-o muito bem ao longo dos anos, negando a sua existência!
  • 53. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  53  Disse-me que o querer ter razão é um jogo do ego. O ter razão força-nos a aceitar que somos vítimas de uma maneira perniciosa. Quando quis saber qual a sua prenda, informou- me, a sorrir, que muitas vezes a minha intuição me tentava empurrar numa direcção mas, seguindo a lógica do ego, eu ía no sentido oposto! E como não aceitava que era teimoso, o Tomás aparecia de vez enquando, em conversas internas que alimentavam o corpo de dor! Tinha que aceitar que muitas vezes me tornava teimoso em situações mesquinhas quando deveria fazê-lo nos momentos em que estava em jogo o meu desenvolvimento pessoal. Achei curioso quando o Tomás Teimoso me disse que teríamos que voltar a encontrar-nos, ainda era cedo para me dizer tudo o que tinha a dizer... Apertámos as mãos, mais como sinal de respeito mútuo. Abri os olhos e escrevi um relatório. Depois do Queirós Queixinhas e do Tomás Teimoso, tive a oportunidade de conhecer o Victor Violento, a Zulmira Zangada, o Afonso Alegre, o Manuel Mentiroso, o Carlos Comilão, a Belita Boa- Vida, o Ivo Invejoso, a Maria Mordaz, a Vera Venenosa, o Sebastião Sabichão, o Pedro Parvalhão, a Otília Otária, o Rafael Rancoroso, a Teresa Trombuda, o Nelson Nega-Tudo, o Augusto Arrogante, o Carlos do Contra, o Diogo Deprimido, o Teodoro Tudo-Bem, o Luís Luxúria, a Vânia Vai-com-Todos, o Fernando Faz-de-Conta, o Mário Masoquista, a Sandra Sádica, a Elsa Engraçadinha, o Belmiro Beato, o Angélico Angelical, o Mário Maricas, a Vanda Vaidosa, a Carlota Cobardolas, o Alberto Abandonado, a Inês Insaciável, a Joana Jurista, o Luís Larápio, a Tânia Traiçoeira, a Laura Lapa, o Bartolomeu Bestial... Ao longo deste processo irá ter momentos divertidos e momentos de tristeza. Irá descobrir facetas que desconhecia e encontrar velhos amigos. No fim irá descobrir que está tudo em si. Depois, é importante que escolha meia dúzia de subpersonalidades que de facto estejam activas ao longo do dia. São aquelas responsáveis pelos nossos hábitos. Por exemplo, se tem o hábito de praguejar a outros condutores, talvez haja em si uma Carla Cabra ou um Pedro Petulante...
  • 54.   54 Da próxima vez que se encontrar na situação habitual fale com essa subpersonalidade! Não só irá ser divertido como a situação se dissolverá muito rapidamente. Por exemplo, uma das minhas subpersonalidades mais activas era o Sebastião Sabichão. Agora, sempre que alguém comenta algo e eu sinto vontade de elaborar ou oferecer ainda mais informação sobre o assunto, penso qualquer coisa como “Hallo! Sr. Sebastião Sabichão, agradecemos a sua amabilidade mas neste momento os seus serviços não são necessários”. Ou quando alguém me fala de uma situação de injustiça e a Joana Jurista começa aos pulos para dizer de sua sentença, posso pedir-lhe que se acalme porque não se trata de uma situação de vida ou morte. Mas o benefício maior é para as pessoas que estão em relacionamentos estáveis. Se ambos souberem da existência das principais subpersonalidades um do outro, é fácil dissolver situações conflituosas. Por exemplo, a Carlota Chorona chega a casa a choramingar porque teve um dia difícil e o marido, o Sandro Sádico, está à sua espera... Podem imaginar a situação?... Explosiva! Mas se o marido disser qualquer coisa como “Aha! Hoje temos a Carlota Chorona no palco!” ou a esposa afirmar “Podias pedir ao Sandro Sádico que se acalme?”, a situação mudaria completamente! Para melhor poder encontrar as suas subpersonalidades, enquanto casal, deixo-lhe o exemplo de um casal meu amigo. A Andreia encontrou as seguintes subpersonalidades: Rita Resistente, Zulmira Zangada, Dora Dominante, Paula Polícia, Rafaela Rainha, Carla Controladora, Ana Amante, Sandra Sempre-Certa. O Paulo encontrou as seguintes subpersonalidades:
  • 55. A Sombra Humana  Emídio Carvalho  55  Dionísio Dominador, Sebastião Sabe-Tudo, António À-Minha- Maneira, Manuel Musculado, Alfredo Amante, Carlos Competente, Paulo Professor. Já imaginaram o que acontecia neste casal quando a Dora Dominante se encontrava com o Sebastião Sabe-Tudo?... A confiança absoluta é algo que tem que existir antes de darmos início a qualquer diálogo interior. Isto porque haverá alturas em que poderá estar a falar com uma das suas subpersonalidades e alturas em que estará a ouvir a vozinha interior (ego) que nunca tem nada de bom para dizer. Como distinguir as duas? A vozinha que está sempre a deitar abaixo nunca terá algo de positivo para lhe dizer, nunca haverá uma prenda ou algo a aprender. É ainda importante receber as suas subpersonalidades de braços abertos. Isto é mais fácil de dizer do que fazer. Esta é muito provavelmente a única situação em que estar à espera do pior pode funcionar a seu favor. À medida que for abraçando as partes de si que nunca aceitou, é uma óptima ideia tentar descobrir onde é que essa subpersonalidade teve início. O que o levou a acreditar que determinada característica era má e indesejada. Se estiver preparado para ouvir, irá descobrir que a grande maioria das suas subpersonalidades são engraçadas, divertidas, cheias de recursos, honestas e capazes de perdoar tudo e todos. Em realidade cada uma das suas subpersonalidades é uma das pessoas mais sábias em todo o Universo (o seu Universo). Isto porque lhe dão respostas que vêm de si, do mais profundo do seu ser. Na verdade você pode ter acesso a qualquer pessoa indo bem dentro de si. Tudo o que tem a fazer é encontrar o silêncio interior e chamar a pessoa à sua presença. Lembre-se, se essa pessoa não tem nada de bom para lhe dizer, é a sua vozinha interna, parte do ego, que mais uma vez tem a oportunidade de vitimizar.