Curso bíblico

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Curso bíblico

  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3 CrônicasNormalmente as traduções da Bíblia apresentam apenas uma introdução para os dois livros dasCRÔNICAS, porque na Bíblia hebraica eles constituíam um todo, num único livro chamado"Dibrê hayyamîm" (Anais).A Bíblia grega dos Setenta chamou-lhes "Paralipômenos", isto é, coisas transmitidasparalelamente, porque boa parte do seu conteúdo constava já dos livros de Samuel e Reis.CONTEXTO HISTÓRICO Deve tratar-se de uma obra da segunda metade do séc. IV, entre350-250 a.C.; no entanto, reflete a restauração religiosa do reino de Judá, depois do exílio daBabilônia, nos fins do séc. VI a.C..Nesta História têm lugar de relevo a tribo de Judá (que é a tribo de David), a tribo de Levi (porcausa de Aarão, o protagonista do sacerdócio e do culto divino) e a tribo de Benjamim (à qualpertence a família de Saul, e em cujo território está implantado o templo).Isto explica o silêncio acerca do reino do Norte, ou Israel, e a omissão de muitas coisas -sobretudo as negativas referentes a David - que se encontram noutros livros históricos,especialmente nos de Samuel. David e Jerusalém, com o seu templo, estão no centro dasCRÔNICAS, tal como Moisés e o Sinai estão no centro do Pentateuco e da HistóriaDeuteronomista.DIVISÃO E CONTEÚDO As CRÔNICAS visam apresentar a grande História do povo de Israel.Por isso, no seguimento do Pentateuco, estão na linha dos livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1e 2 Reis (História Deuteronomista) e de Esdras e Neemias. Constituem, com Esdras e Neemias,um conjunto chamado "Obra do Cronista". Além de terem o mesmo estilo e pensamento, osúltimos versículos de 2 Cr (36,22-23) repetem-se no início de Esdras (Esd 1,1-3).Como dissemos, no centro destes livros está David e o seu reinado, para o qual converge toda aHistória precedente, e radicam, não só a organização do povo como, sobretudo, as estruturascultuais do templo. O seu conteúdo pode resumir-se deste modo:I. História do povo desde Adão até David (1 Cr 1,1-10,14). É como que a pré-história de David,com início em Adão, constituída quase totalmente por listas genealógicas, algumas das quais vãoaté ao pós-exílio (cap. 1-9). Termina com a morte de Saul (cap. 10). A genealogia, ou sucessão degerações, era um gênero literário freqüente na Bíblia e nas culturas antigas, como forma deexprimir a fé na presença da divindade nos meandros da História dos homens. Mas não se lheexija o rigor da árvore genealógica dos tempos modernos: os nomes que a integram podemexprimir apenas vagas relações de parentesco ou de simples vizinhança, afinidades de ordempolítica e econômica; por vezes, nomes de povos e de regiões passam a ser nomes de pessoas.Para os hebreus, era através da genealogia que alguém podia tornar-se participante das bênçãosprometidas por Deus a Abraão. As listas das CRÔNICAS veiculam a promessa messiânica, de queDavid é sinal privilegiado. Estas genealogias afirmam, ainda, a importância do princípio dacontinuidade do povo de Deus através de um período de ruptura nacional, causada pelo exílio naBabilônia, e fundamentam a esperança da restauração.II. História de David (1 Cr 11,1-29,30). Faz-se a História do reinado de David desde a sagração ea entronização até à sua morte, dando especial relevo à atuação do rei nos preparativos para aconstrução do templo e a organização do culto litúrgico.
  4. 4. 4III. História de Salomão (2 Cr 1,1-9,31). Destaca-se a sua sabedoria, a construção e dedicação dotemplo de Jerusalém e outros acontecimentos já narrados em 1 Rs. Termina com a morte deSalomão.IV. História dos reis de Judá (2 Cr 10,1-36,23). Começa com a divisão do reino davídico, depoisda morte de Salomão, e termina com o édito de Ciro, após um relato resumido da atividade dosreis de Judá.FONTES LITERÁRIAS E OBJECTIVO Aonde foi o Cronista buscar todo este material? Asgenealogias (sobretudo 1 Cr 1-9) estavam nos livros do Gênesis, Êxodo, Números, Josué e Rute;Samuel e Reis - por vezes transcritos textualmente - forneceram-lhe grande parte do restantematerial histórico.Mas o autor tem ainda as suas próprias fontes literárias, às quais acrescenta a reflexão pessoal,colocando-a, por vezes, na boca de grandes personagens sob forma de discursos. É o caso daorganização davídica do culto em Jerusalém (1 Cr 22-26) e das reformas religiosas dos reis Asa eJoás (2 Cr 15 e 24). Quanto aos discursos, ver, por exemplo: 1 Cr 28,2-10; 29,1-5.10-19; 2 Cr12,5-8; 13,4-12; 15,2-7; 21,12-15; 30,6-9.Tudo foi utilizado nesta perspectiva: pôr em relevo Judá, sobretudo o rei David e a cidade deJerusalém. Para isso, o Cronista engrandece os aspectos positivos e elimina os negativos; retoca eadapta este e outro material, a fim de fazer sobressair as preocupações teológicas.TEOLOGIA O lugar central da dinastia davídica na História de Israel é a idéia teológica maisimportante do Cronista. As genealogias de 1 Cr 1-9 preparam-na; o resto do 1.° livro (11-29) estáinteiramente consagrado a David e à sua atividade, tanto profana como litúrgica; o 2.° livro é aHistória dos descendentes de David, que devem ver nele o rei modelo e o ponto de referência dafidelidade a Deus e ao povo. Seu filho Salomão é idealizado por ter construído o templo deJerusalém e ter cumprido, assim, o testamento de David seu pai.O relevo dado ao culto e ao templo é complementar daquela idéia teológica. Por isso, o Cronistadá maior atenção aos reis que se preocuparam com o culto do templo ou o reformaram: além deDavid e Salomão, os reis Asa (2 Cr 14-16), Josafat (2 Cr 17-20) e, sobretudo, Ezequias (2 Cr 29-32) e Josias (2 Cr 34-35). Esta mesma atenção é dada pelos livros de Esdras e Neemias aosministros do culto: Aarão e os sacerdotes e levitas (1 Cr 9; 15-16; 23-26; 2 Cr 29-31; 35; Ne 12);mas só o Cronista atribui aos levitas o título e a função de profetas (1 Cr 25,1-8).Por isso, poderá pensar-se num levita ou num grupo de levitas como autores desta obra.O fato de o Cronista se cingir ao reino do Sul, aos seus reis e ao seu culto, poderá indiciar umacerta atitude polêmica em relação ao Norte: a Samaria, que há muito se havia afastado do culto aoDeus verdadeiro. Mais um sinal de que a fidelidade a Deus, manifestada no cumprimento da Lei eno ritual do culto de Jerusalém, constitui o propósito fundamental desta obra.
  5. 5. 5 Cântico dos CânticosO título de CÂNTICO DOS CÂNTICOS representa, em hebraico, uma fórmula de superlativo;significa o mais belo dos cânticos ou o cântico maior e coincide com as duas primeiras palavras dotexto. Nessa espécie de introdução, muito sumária, a autoria do livro é atribuída a Salomão, comoacontece com os Provérbios e a Sabedoria. Não sendo verossímil, tal atribuição exprime a fama desábio que o antigo rei conservou na tradição hebraica (ver 1 Rs 5,12-14). Com este espíritocondizem bem algumas conotações salomônicas da própria figura do amado.GÉNERO LITERÁRIO E DIVISÃO Apesar da grande antiguidade do tema da poesia lírica nasculturas orientais, os eruditos tendem atualmente a situar, com bastante consenso, a origem dotexto na época pós-exílica recente, possivelmente na Palestina.É universalmente aceite que o código utilizado para escrever o CÂNTICO DOS CÂNTICOS é ode um epitalâmio ou cântico nupcial. Neste gênero literário, e nesta obra em concreto, estãopresentes os modelos de poesia lírica que floresceram no Próximo Oriente Antigo, tanto naMesopotâmia como no Egito.Talvez este último tenha servido particularmente de modelo para o autor hebraico do CÂNTICO.Derivará ele das canções de divertimento egípcias? Teodoro de Mopsuéstia tinha alguma razãoquando o descrevia como encenação literária das núpcias de Salomão com uma filha do faraó?Na literatura mesopotâmica temos um paralelo tentador: os textos religiosos sobre Dummuzi eInanna, textos religiosos de comprovada utilização cultual, para simbolizar as grandes questões dafertilidade e da sexualidade com um casamento divino que serve de paradigma. Em que medida adramática da sexualidade deste livro não depende daquela mentalidade hierogâmica?No folclore siro-palestinense há também um ritual de matrimônio cuja ação decorre em sete diasfestivos. O núcleo central é constituído pela coroação dos esposos, à semelhança de uma coroaçãoreal e sublinhado por cantos vários, exaltando a beleza física dos amantes e os ideais guerreiros dogrupo. Por aqui se pode ver a subtileza de sentimentos e emoções na relação amorosa, de que ohomem oriental adquirira consciência e que formulava como uma dimensão transcendente da suaprópria experiência humana.A sublimidade das vivências que integram a experiência do amor constitui, de imediato, e por simesma, um importantíssimo conteúdo para a leitura do CÂNTICO.O gênero literário da poesia lírica, estruturada segundo o modelo estilístico e teatral de umepitalâmio, pode também explicar a composição literária deste poema em quadros, cujadelimitação e atribuição a cada uma das duas principais personagens se torna difícil de fazer. Daívariarem tanto as opiniões sobre a divisão de um texto aparentemente muito simples.A atual divisão em oito capítulos não significa sequer uma repartição do texto com maiorevidência do que muitas outras já propostas. Para maior facilidade de leitura, identificaremos por"Ele" ou "Ela" a personagem que cada parte do poema parece sugerir.TEOLOGIA E LEITURA CRISTÃ Apesar do que dissemos acima, a leitura do CÂNTICODOS CÂNTICOS está sobretudo marcada, desde sempre ou quase, por uma transposição desentido que faz dele uma alegoria, em que o amado é Deus ou o Messias, novo Salomão, e aamada é Israel ou a Igreja, como nova comunidade de Israel. Pode subsistir alguma dificuldade emdefinir quando é que começou esta leitura alegórica do CÂNTICO. Há quem pense que talsignificado já está presente no momento da composição do texto, como intenção primeira doautor. Pelo menos, parece verossímil considerar que a atribuição de tal significado alegórico tenha
  6. 6. 6constituído a razão principal para a inclusão definitiva deste livro no Cânon dos livros da Bíbliahebraica, no séc. I d.C..Deste modo, o CÂNTICO DOS CÂNTICOS transformou-se no principal veículo para exprimiruma antiga concepção bíblica da experiência religiosa, sobretudo como uma relação amorosa comDeus. Algumas das mais conseguidas formulações anteriores desta concepção de Deusencontravam-se em Oséias (Os 2,4-25), em Jeremias (Jr 2,20; 31,1) e Isaías (Is 57,3-33). E assim,para além da leitura mais explícita na tradição judaica desde a antiguidade, que entende oCÂNTICO DOS CÂNTICOS como uma grande alegoria messiânica, avulta igualmente, e comraízes bíblicas não menos antigas, a leitura deste poema como a metáfora universal da relaçãoreligiosa com Deus.O NT fez a transposição da metáfora do esposo-esposa do AT para Cristo-Igreja (Ef 5,21-33; verJo 3,29; Ap 22,17). Aqui se joga uma sutilíssima concepção de Deus, ainda não suficientementeexplorada; e aqui se encontra o essencial da leitura mística e poética que o CÂNTICO DOSCÂNTICOS tem recebido na tradição ocidental e cristã e da qual podemos dar como exemplosmaiores as leituras de São Bernardo, na Idade Média, e de São João da Cruz, na Idade Moderna.Possivelmente, a grande dificuldade na leitura do CÂNTICO residiu no desequilíbrio instauradopor uma espécie de totalitarismo alegórico das interpretações. Só muito tarde se permitiuconsiderá-lo naquilo que ele é: epitalâmio, canto de admiração e de um grande amor entre umamulher e um homem, onde o desejo e o corpo fazem parte do jogo de sedução e fruição.É este o sentido natural do CÂNTICO DOS CÂNTICOS. E, porque não se teme enunciar osentido das palavras, é que nos podemos abrir à revelação escatológica da presença guardada entreelas: a presença de Deus.
  7. 7. 7 DeuteronômioDas cinco narrativas históricas que integram o Pentateuco, o DEUTERONÔMIO constitui aunidade literária mais heterogênea e diferenciada. Com razão, os exegetas falam de uma novatradição ou fonte documental, que se distingue das outras fontes do Pentateuco por motivos deestilo e de teologia e se prolonga até ao fim do 2.° Livro dos Reis, formando a "Fonte ou HistóriaDeuteronomística".NOME "Deuteronômio" quer dizer "segunda Lei". Foi o nome dado a este livro nas traduçõesgrega e latina, porque se apresenta como a reedição ou síntese dos textos legislativos anteriores,enquadrada por um estilo diferente. Na tradição hebraica, chama-se apenas "Debarim" (Palavras),pelo modo como o texto começa: "Estas são as Palavras". Mas a designação greco-latina sintetizabem o conteúdo deste livro, o qual, mais do que um final do Pentateuco, parece representarsobretudo o começo de uma nova maneira de escrever a História do Povo Eleito.TEXTO E CONTEXTO O texto deste livro teve uma história complicada.A sua origem é geralmente colocada no Reino do Norte, antes da conquista da Samaria, em 722,quando da invasão dos assírios. Na bagagem dos levitas do Norte terá vindo uma primeira redaçãodo DEUTERONÔMIO, que teria como esquema base uma celebração litúrgica da Aliança (ver aaliança de Siquém: Js 24). Curiosamente, um século mais tarde, foi encontrado no templo deJerusalém o "Livro da Lei do Senhor" ou "Livro da Aliança" (2 Rs 22,8.11; 23,2.21). O rei Josiascomeçou imediatamente a pôr esta Lei em prática, fazendo uma reforma do culto (2 Rs 23,3-20).A relação entre esta reforma e o DEUTERONÔMIO encontra-se na insistência da centralização doculto em Jerusalém e na destruição dos cultos idolátricos.Mas a Lei encontrada no templo poderá ter sido uma redação posterior ao "esquema da aliança"que veio do Norte, onde a temática da Palavra, do profeta, da Aliança e do Sinai-Horeb sesobrepunham à temática do culto e do sacerdócio, que prevaleciam - como era natural - emJerusalém. No Sul, deve ter sido feita uma primeira redação elaborada depois da falhada reformade Exéquias, ou seja, a meados do séc. VII a.C.. A última redação deve ter acontecido quando daredação final do Pentateuco: séc. V-IV a.C. Tudo isto denota um contexto posterior e umafinalidade catequética.É no contexto destas diferentes etapas da redação do DEUTERONÔMIO que deve entender-se oconstante vaivém do tu e do vós no discurso de Moisés, quando se dirige ao povo de Israel (ver6,1-3). Apesar desse tu e vós parecer por vezes ilógico, na nossa tradução preferimos respeitar oestilo do texto original hebraico.DIVISÃO Em três grandes discursos atribuídos a Moisés. Com estilo direto, num tom exortativo eprofético, usando temas e frases estereotipadas e repetitivas, o redator final sintetiza o programaou projeto que torna possível fazer de Israel uma nova sociedade, segundo os ideais dos tempospuros da caminhada pelo deserto, num "hoje" de eterno presente. Assim, temos:I. Primeiro Discurso (1,6-4,43): de forma historicizante, recapitula o passado, desde a planíciedesértica da Arabá até à entrada na Terra Prometida de Canaã.II. Segundo Discurso (4,44-28,68): Moisés apresenta os fundamentos da Aliança e asdeterminações da Lei.Código Deuteronômio: 11,29-26,15.III. Terceiro Discurso (28,69-30,20): últimas instruções de Moisés.
  8. 8. 8IV. Apêndice (31,1-34,12): narra os últimos dias de Moisés, com cânticos e bênçãos, bem como asua morte.Os exegetas apresentam ainda uma outra divisão, atendendo à estrutura da Aliança que percorreo DEUTERONÔMIO do princípio ao fim:Introdução: 1,1-51. Recordação do passado e exortação a servir o Senhor: 1,6-11,282. Proclamação da Lei da Aliança: 11,29-26,153. Compromisso mútuo entre Deus e Israel: 26,16-194. Bênçãos e maldições: 27,1-30,185. Testemunhas da Aliança: 30,19-20.Este esquema vem confirmar que estamos perante o livro da Aliança por excelência.TEOLOGIA O DEUTERONÔMIO é, sem dúvida, um livro de grande riqueza doutrinal, semprepreocupado em inculcar a fidelidade de Israel a Deus, que é chamado Pai (1,31), e a estabelecerentre os membros do povo escolhido uma verdadeira fraternidade.Defende a centralização do culto, dentro do princípio da aliança, que os profetas evidenciaram.Mesmo insistindo na observância das leis, não deixa de salientar a responsabilidade da consciênciaindividual e o compromisso pessoal, que a fé no Deus único exige.Apesar da visão profundamente religiosa e das preocupações teológicas mais voltadas para osproblemas institucionais e nacionais, não deixa de reclamar o amor fraterno e a justiça social,apresentando leis verdadeiramente humanitárias.Pela sua intenção de recapitular a Lei e repor o conceito de aliança, e pela influência que teve nareflexão sobre a História de Israel, o livro do DEUTERONÔMIO ocupa um lugar central dentroda Bíblia. E é, por conseguinte, de primeira importância para qualquer tentativa de sistematizaçãode uma teologia bíblica.
  9. 9. 9 EclesiastesO livro começa com a expressão "Palavras de Qohélet, filho de David, rei de Jerusalém", geralmenteconsiderada como título da obra. No contexto da literatura sapiencial do Médio Oriente, encontram-se obrassemelhantes a este livro, tanto no Egito (o "Diálogo do Desesperado com a sua Alma", os "Cantos doHarpista") como na Mesopotâmia (especialmente o diálogo acróstico chamado "Teodiceia Babilônica").NOME Etimologicamente, "Qohélet", parece ter conexão com o termo "Qahal", isto é, "assembléia"."Qohélet" designa um substantivo comum, aparecendo, por vezes, acompanhado de artigo. É alguém quetem a função de pregador ou de presidente da assembléia cultual. O texto grego traduziu o termo hebraico"Qohélet" por "Eclesiastes", que se transferiu para o latim e, depois, para as outras línguas. Daí o título dolivro aparecer como ECLESIASTES, por influência grega e latina, ou como QOHÉLET, que é a tendênciadas traduções modernas, transliterando o hebraico.Qohélet é identificado em 1,1 com o filho de David, rei de Jerusalém. Um tal filho de David só poderia serSalomão. Porém, um estudo sério, tanto no plano da linguagem como no plano da doutrina, situa o livro numperíodo posterior ao regresso do Exílio e anterior à época dos Macabeus. O fato de aludir ao rei Salomão,nada significa; atribuí-lo àquele soberano não passa de uma ficção literária por parte de alguém que procuraum patrocínio de peso para as suas próprias reflexões.DIVISÃO E CONTEÚDO Devido a variados fluxos e refluxos, o ECLESIASTES apresenta um carátercompósito que torna difícil a sua compreensão. Mas nem por isso pode pôr-se em causa a unidade da suaautoria. Podemos dividir assim o livro:Prólogo (1,2-11): fala do retorno cíclico das coisas.I. 1,12-2,26: O autor faz a sua autocrítica, constatando a inutilidade dos esforços do homem para se libertarda condição humana. A conclusão a que chega é: "também isto é ilusão" (2,26), princípio, aliás, solenementeafirmado logo em 1,2 e que dá o tom de fundo ao livro.II. 3,1-6,12: demonstra o aspecto negativo e os limites de toda a realidade humana, ao mesmo tempo quetoma consciência de que tudo é dom de Deus.III. 7,1-12,7: apresenta algumas reflexões sobre a sabedoria e a sua relação com a justiça, a mulher, oexercício do poder, o problema da justiça imanente e as anomalias que existem no mundo.TEOLOGIA Em forma tipicamente sapiencial de reflexão, de confissão, de máximas e de consideraçõesvárias de cariz autobiográfico, o autor chama a atenção para a finalidade da existência humana. Este não épessimista, nem otimista, nem oportunista; mas sim realista, lúcido, inconformista e franco, atento ao próprioritmo da vida e consciente da radical insuficiência do homem, face à realidade da morte, para resolver omistério da existência.Refletindo sobre a própria experiência o autor não orienta o seu pensamento segundo um plano bemdefinido; vai seguindo a mesma dinâmica da vida, marcada por antinomias, paradoxos, enigmas, dramas,repetições, correções, mistérios... e por clareiras de felicidade. E chega à célebre conclusão de que tudo éilusão, isto é, inconsistente e incompreensível à razão humana. Esta expressão aparece no princípio e no fimdo livro (1,2 e 12,8), formando uma inclusão literária, sinal da importância que o autor lhe quer conferir.O livro é uma obra desconcertante, ao questionar valores que, na perspectiva da sabedoria tradicional,gozavam de um estatuto especial. O próprio autor procura identificar-se com Salomão (1,1), que tivera tudoo que um hebreu podia idealizar para uma vida feliz: sabedoria, poder, glória, riqueza, amor, fama eprestígio. Tal identificação realça melhor a ilusão de tudo o que existe sobre a terra.
  10. 10. 10A morte é apresentada como o absurdo de toda a existência, atingindo a todos igualmente, ricos e pobres,sábios e insensatos, homens e animais (3,19-22.Seguindo o exemplo de Job, ECLESIASTES também apresenta o problema da retribuição do bem e do mal,contradizendo as posições tradicionais (8,9-15). O mistério do além atormenta-o, mas ele não vislumbranenhuma saída (3,21; 9,10; 12,7). A realidade encontra-se cheia de coisas incompreensíveis: a natureza nãofaz mais do que repetir-se ciclicamente; a História não traz nada de novo porque, na verdade, cada geraçãoapenas repete o que outras precedentes fizeram; a incongruência e o acaso dominam a vida; falta uma lei deretribuição inequívoca, de modo a convencer o homem acerca do valor do seu comportamento moral.No entanto, ECLESIASTES é um homem de fé. Perante situações absolutamente incompreensíveis para arazão humana, acaba reconhecendo que a Deus não se pode pedir contas (7,13); que o homem deve aceitarna vida tanto as provações como as alegrias (7,14) e que é preciso observar os mandamentos e temer a Deus.Diante da incompreensibilidade da vida e o absurdo da morte, o homem, por um dom especial que Deuscolocou no seu coração, acaba por intuir uma certa visão de conjunto da realidade (3,11.14), percebendo quedeve existir um sentido global das coisas (8,17).Para ECLESIASTES, a sabedoria vale mais do que a insensatez, mas apenas na ordem prática, para ummelhor adestramento nas tarefas da vida quotidiana; por vezes, a riqueza faz viver melhor do que a pobreza.Neste caso, deve--se viver intensamente as alegrias que a vida possa oferecer. Estas são um dom de Deus, noverdadeiro sentido da palavra (3,13; 5,17; 8,15; 9,9). Tudo isso depende unicamente de uma intervençãoimperscrutável de Deus na vida da humanidade, sem que esta possa fazer algo para merecê-lo. Por isso, cadahomem e cada mulher deve viver no temor de Deus, consciente de estar totalmente nas suas mãos. O temorde Deus parece ser a atitude religiosa fundamental de ECLESIASTES que, não rejeitando a prática religiosahebraica (4,17-5,6), não a considera uma garantia para a prosperidade e a felicidade humanas.Na linha do livro de Job, ECLESIASTES põe em causa as certezas da sabedoria tradicional, mas ainda nãotem soluções para as substituir. É uma obra de transição, situando-se na encruzilhada do pensamentohebraico; e cria expectativa para uma nova luz que, sendo dom de Deus, ilumina todo o homem que vem aeste mundo (Jo 1,9). Representa ainda uma etapa do progresso religioso que, superando as concepçõesantigas, prepara os espíritos para uma revelação mais perfeita.
  11. 11. 11 EclesiásticoO livro do ECLESIÁSTICO coloca ao tradutor e ao leitor vários problemas difíceis. É um livro muito usadono judaísmo; especialmente citado no Talmud, exerceu bastante influência na liturgia judaica (festa doGrande Perdão; Oração das 18 Bênçãos). Apesar de ser estimado e usado pelos cristãos e de fazer parte dacoleção dos livros religiosos em Alexandria, os cristãos dos primeiros séculos tiveram alguma hesitação emrelação a ele, provavelmente por causa da história complicada da sua transmissão e pelo fato de não ter sidointegrado no Cânon judaico. É, portanto, um livro Deuterocanónicos.NOME Desde os primeiros séculos do Cristianismo até há pouco tempo, o nome mais comum para designareste livro era "Eclesiástico" (do latim "Ecclesiasticus liber"), o que significa o livro da igreja ou daassembléia, por antonomásia. São Cipriano, falecido em 248, parece ter sido o primeiro a usar esse nome,devido ao uso que dele se fazia na Igreja antiga. Com efeito, de entre os Livros Sapienciais, é este o maisrico de ensinamentos práticos, apresentados de um modo paternal e persuasivo.Apesar de se lhe chamar também "Sirácide", derivado de uma forma alternativa de "Sira", os principaismanuscritos gregos usam o título de "Sabedoria de Jesus, filho de Sira" (51,30), ou então, "Sabedoria deSira". Porque o texto considerado pela Igreja como canônico é o grego, parece aceitável a adoção modernade livro de "Sirácide" ou de ECLESIÁSTICO como título, apesar da longa tradição do uso de " Ben Sira".AUTOR E DATA Excetuando os escritos proféticos, é este o único livro do Antigo Testamento do qualtemos a certeza de conhecer o autor: "Sabedoria de Jesus, filho de Sira", como vem assinalado no fim, emjeito de assinatura (51,30; ver 50,27). Segundo muitos autores, terá assinado a sua própria obra, porinfluência helenística.Jesus Eclesiástico, ou Sirácide, terá vivido em Jerusalém (50,27) no início do séc. II a.C., como se podededuzir do louvor que faz a Simão, Sumo Sacerdote (50,1-21). Para a identificação de tal Simão com SimãoII é decisiva a notícia que nos é dada pelo tradutor grego da obra, filho ou neto do autor, que escreve porvolta de 132 a.C., correspondente ao ano 38 de Ptolomeu VII Evergetes (ver Prólogo).O livro deve ter sido escrito por volta de 180 a.C. e antes da trágica situação que começa com a destituiçãode Onias III, filho de Simão, em 174 a.C., a quando da violenta perseguição de Antíoco Epifânio (175 a.C.) eda conseqüente sublevação dos Macabeus (167 a.C.). O próprio ECLESIÁSTICO nos fornece alguns dadossobre a sua identidade e o seu trabalho. Em 51,23 fala da própria escola e convida os ignorantes ainscreverem-se para poderem adquirir gratuitamente a sabedoria (51,25).O período em que ECLESIÁSTICO compõe a sua obra e estabelece, na sua própria casa, uma escola deformação sapiencial, está profundamente marcado por uma forma de civilização que se chama "helenismo."É uma forma nova de vida, cuja expansão no Médio Oriente ocorreu depois de Alexandre; caracterizava-seessencialmente pela convivência de culturas, pelo sincretismo religioso, por um universalismo que tende aabolir as fronteiras de raças e de religião, pela glorificação das forças da natureza e pelo culto do homem.Perante o dinamismo e a expansão sempre crescente do helenismo na própria Palestina, o judaísmo começoua sentir ameaçada a sua própria existência. E ECLESIÁSTICO, apesar da sua abertura de espírito em relaçãoa certos valores do mundo grego, toma consciência de que esse novo movimento de idéias e de costumes seopõe a certas exigências fundamentais da religião judaica (2,12-14). Com outros judeus piedosos, pressenteo fim da coexistência pacífica entre o helenismo e o judaísmo e prevê o momento da cisão entre as duasvisões diferentes do mundo.Em 198 a.C., depois da batalha de Pânias, a Palestina passou do domínio dos Ptolomeus do Egito para umaoutra, mais hostil, dos Selêucidas de Antioquia da Síria. Antíoco III (223-187) e o seu sucessor Seleuco IV(187-175) ainda foram bastante favoráveis aos judeus, concedendo-lhes privilégios e isenções, contribuindoaté, pessoalmente, para as despesas do culto no templo (2 Mac 3,3). Mas a situação política precipitou-se
  12. 12. 12rapidamente com Antíoco Epifânio (175-164), que, devido ao jogo de influências, destituiu Onias III docargo de Sumo Sacerdote e desencadeou uma violenta perseguição contra os seus opositores.Esta situação política posterior a Eclesiástico, aliada à situação religiosa e cultural acima descrita, viria aprovocar a sublevação judaica chefiada pelos Macabeus. Foi precisamente perante a invasão avassaladora dohelenismo que ele escreveu para defender o patrimônio religioso, histórico, sapiencial e cultural dojudaísmo, a sua concepção de Deus, do mundo e da eleição privilegiada de Israel. Neste livro procuraconvencer os seus compatriotas de que possuem, na sua Lei revelada, a sabedoria autêntica e, por isso, nãodevem capitular perante o pensamento e a civilização dos Gregos.TEXTO Originariamente, ECLESIÁSTICO foi escrito em hebraico; mas esse texto, perdido duranteséculos, só foi descoberto a partir de 1896 na velha sinagoga do Cairo, em diversos fragmentos de váriosmanuscritos medievais. Mais tarde, outros pequenos fragmentos foram encontrados numa gruta de Qumrân.Em 1964 foi encontrado na fortaleza de Maçada, junto ao Mar Morto, um longo texto que abrange 39,27-44,17, numa escrita do início do século I a.C.. O texto hebraico ainda foi conhecido por São Jerônimo, quefaleceu em 419.Felizmente já havia, pelo menos, uma tradução grega, feita no Egito pelo neto do autor. Foi esta que entroupara a Bíblia grega, sendo depois aceite pela Igreja como texto canônico. O autor da tradução acrescenta-lheum prólogo. Hoje reconhecem-se dois estados do texto hebraico: um antigo, que serviu de base à versãogrega feita no Egito por volta de 130 a.C. (texto grego I); outro mais recente, revisto na perspectiva dasidéias farisaicas, entre 50 e 150 da nossa era, e utilizado para uma revisão do texto grego, entre 130 e 215 danossa era (texto grego II). A versão siríaca estará ligada ao texto hebraico revisto.O texto seguido nesta Bíblia é o tradicional da tradução grega dos Setenta (texto longo), inclusivamenteentre os capítulos 30 e 36, onde algumas traduções optam pela ordem da Vulgata e do Siríaco. Colocamosem itálico as passagens do texto longo. Os algarismos entre parênteses correspondem a linhas do textooriginal.DIVISÃO O livro pode dividir-se pelo menos em duas etapas: 1-23 e 24-50, começando cada uma delaspor um elogio da sabedoria. Alguns autores apresentam outra divisão, também em duas partes, depois doPrólogo: uma primeira propriamente sapiencial, segundo o gênero e o estilo dos Provérbios (1,1-42,14); euma segunda, que é mais de meditação sobre as obras de Deus na Criação e na História (42,15-50,29). É aque seguimos nesta edição.TEOLOGIA O livro de ECLESIÁSTICO testemunha uma época de transição onde já se começam aesboçar os traços característicos do judaísmo como forma evoluída de religião bíblica. Trata-se de umjudaísmo poliforme, onde o próprio cristianismo viria lançar raízes. Mas é diferente da tendência rabínicaposterior, a que o ramo preponderante do farisaísmo, especialmente a partir de 70 da nossa era, viria dar umaspecto monolítico.Do confronto helenismo-judaísmo, ECLESIÁSTICO assimila o que considera bom e compatível com a suafé; mas rejeita o que se opõe à essência da fé judaica e alerta para os perigos da cultura envolvente edominante. A respeito do Cânon das Escrituras, o Prólogo menciona já a divisão tripartida "Lei, Profetas e osoutros livros" (ver 39,1-3), e o próprio livro cita ou menciona mais ou menos diretamente muitos desseslivros sagrados.O autor faz ainda uma síntese da religião tradicional e da sabedoria comum, à luz da sua própria experiência.O tradutor grego quis tornar este manual de conduta acessível a todos aqueles "que, em terra estrangeira,querem instruir-se, reformar os seus costumes e viver segundo a Lei" (Prólogo). A identificação entre asabedoria e a Lei de Deus (24,23) é a afirmação mais inovadora e característica de ECLESIÁSTICO, talcomo é inovadora a inserção da História no gênero sapiencial.
  13. 13. 13A série de personagens da História de Israel, cujo relato se apresenta na parte final do livro (44,1-50,21), temo objetivo pedagógico de despertar o orgulho em pertencer a um povo de grandes homens. Porque elesseguiram a palavra de Deus com toda a fé e coragem e foram bem sucedidos, são uma lição para o povo eserão sempre lembrados na posteridade.ECLESIÁSTICO defende a fé tradicional do seu povo: Deus é eterno e único (18,1; 36,4; 42,21), é autor deuma criação perfeita, apesar dos seus mistérios e contradições aparentes (42,21.24); e, diante dela, o próprioEclesiástico, como o salmista, enche-se de um especial entusiasmo (39,12-35; 42,15-43,33). Deus tudoconhece (42,15-25); "Ele é tudo" (43,27), governa o universo com justiça e prudência (16,17-23) e retribuicom equidade (33,13); é misericordioso, capaz de perdoar e de salvar no tempo da aflição (2,11); é Pai, nãoapenas de Israel, de quem é o Deus único (17,17-18; 24,12), mas também de cada indivíduo (23,1). Estaconcepção constitui um progresso considerável na teologia do judaísmo.PRÓLOGO DO TRADUTOR GREGO(1)"Muitos e excelentes ensinamentos nos foram transmitidos pela Lei, pelos Profetas, e por outros Escritosque se lhes seguiram; e, por causa disso, convém louvar Israel pela sua instrução e pela sua sabedoria. E,como não se deve aprender a ciência apenas pela leitura, (5)é preciso que os amigos do saber possamtambém ser úteis aos de fora, tanto por palavras como por obras escritas.Foi por isso que Jesus, meu avô, depois de se ter aplicado com afinco ao estudo da Lei, dos Profetas (10)edos outros Livros dos nossos antepassados, e tendo adquirido neles uma grande ciência, quis tambémescrever alguma coisa de instrução e de sabedoria, a fim de que as pessoas desejosas de aprender,familiarizando-se com essas coisas, pudessem progredir ainda mais em viver segundo a Lei.(15)Sois, portanto, convidados a ler este livro com benevolência e atenção, e a ser indulgentes pois, nãoobstante todo o engenho com que nos aplicamos, (20)parece não termos conseguido traduzir adequadamentea ênfase de certas expressões, porque as coisas ditas em hebraico perdem muita da sua força, quandotraduzidas em língua estrangeira. E isto não acontece somente com este livro, pois também a Lei, os Profetas(25)e os outros Livros são muito diferentes, quando se compara a versão com o texto integral.No ano trinta e oito do reinado de Evergetes, cheguei ao Egito e, tendo ali permanecido algum tempo,observei uma diferença não insignificante na instrução. (30)Por isso, julguei muito necessário trabalhar comcuidado e zelo para traduzir este livro. Durante esse tempo, empreguei muitas vigílias e muita ciência, a fimde concluir e publicar esta obra, para utilidade dos que, em terra estrangeira, querem instruir-se,(35)reformar os seus costumes e viver segundo a Lei."
  14. 14. 14 Esdras e NeemiasOs livros de ESDRAS e de NEEMIAS formavam um só "Livro de Esdras", na Bíblia Hebraica e na versãogrega dos Setenta. Como esta versão recolhia também o livro apócrifo grego de Esdras e lhe dava o primeirolugar (1 Esdras), o livro de ESDRAS-NEEMIAS era denominado 2 ESDRAS. Na época cristã foi divididoem dois. A Vulgata latina adotou essa divisão em 1 Esdras (=ESDRAS) e 2 Esdras (=NEEMIAS),reservando ao apócrifo grego a designação de 3 Esdras. A designação dos dois livros a partir das respectivaspersonagens principais, Esdras e Neemias, é mais recente, mas foi assimilada mesmo nas edições impressasda Bíblia massorética.AUTORIA E DATAÇÃO Não é dada qualquer indicação sobre o autor destes livros, mas admite-se ser umsó: o mesmo chamado Cronista, que redigiu e compôs a vasta síntese histórica dos dois livros das Crônicas,seguidos de ESDRAS E NEEMIAS. Um dos indícios mais significativos é a identidade entre os últimosversículos de 2 Crônicas (36,22-23) e os primeiros versículos de ESDRAS (1,1-3), o que sugere acontinuidade da narrativa. Pode, assim, situar-se esta obra nos finais do séc. IV ou início do séc. III a.C..QUESTÃO CRONOLÓGICA Discute-se qual dos dois deverá ser colocado em primeiro lugar. Muitospreferem a sucessão NEEMIAS-ESDRAS; mas ainda não se encontrou uma solução satisfatória paraestabelecer a cronologia dos acontecimentos em questão. O texto fala da chegada de Esdras a Jerusalém, nosétimo ano do rei Artaxerxes (Esd 7,7) e indica a sua atividade reformadora (Esd 8-10); depois, vemNeemias, no vigésimo ano de Artaxerxes (Ne 2,1) e a sua preocupação pela reconstrução das muralhas (Ne1-7); surge outra vez Esdras, para a leitura solene da Lei (Ne 8-9); e, finalmente, Neemias, por ocasião deuma segunda estadia em Jerusalém, no ano 32.° de Artaxerxes (Ne 13,6-7).Teriam estado estes dois homens ao mesmo tempo em Jerusalém, a trabalhar independentemente? A respostamais aceitável é a seguinte: a atividade de Neemias seria toda ela anterior a Esdras (Ne 1-7 e 10-13, ondeaparece como construtor e reformador); mais tarde, talvez no ano 7.° de Artaxerxes II (e não Artaxerxes I),por volta de 398-397 a.C., veio Esdras a Jerusalém: empreendeu reformas (Esd 7-10), restaurou o culto e feza solene leitura pública da Lei (Ne 8-9). Ao aplicar a sua perspectiva teológica a este emaranhado de dados,o redator final é que terá desorganizado a cronologia real dos acontecimentos.No entanto, não se pode negar ou diminuir o valor histórico das informações veiculadas por estes livros.Concordam perfeitamente com os dados das fontes bíblicas e profanas, como, por exemplo, os papiros dasilhas Elefantinas (Egito).DOCUMENTAÇÃO UTILIZADA Na composição destes dois livros, o Cronista utilizou como fontesdiversos documentos antigos (entre eles, as memórias pessoais das duas personagens em questão), que elereproduziu e organizou, relacionando-os uns com os outros, segundo a sua visão teológica, de forma a obterum conjunto harmonioso. Assim, podem encontrar-se:a) documentos oficiais em hebraico (listas, estatísticas, como as de Esd 2 e Ne 7,6-68; 10,3-30; 11,3-36;12,1-26) e em aramaico (correspondência diplomática, decretos oficiais: Esd 4,6-6,18; 7,12-26;b) memórias de Esdras (Esd 7-10), com partes redigidas na primeira pessoa (Esd 7,27-9,15) e outras naterceira: Esd 7,1-10; 10; Ne 8-9;c) memórias de Neemias: Ne 1-7; 10; 12,27-13,31.DIVISÕES E CONTEÚDOO livro de ESDRAS divide-se em duas grandes partes:I. Regresso do Exílio e reconstrução do templo: 1,1-6,22;II. Organização da comunidade: 7,1-10,44.
  15. 15. 15O livro de NEEMIAS consta também de duas partes:I. Reconstrução das muralhas de Jerusalém: 1,1-7,72;II. Proclamação da Lei e Reformas: 8,1-13,31.Estas duas partes andam à volta de certos temas dominantes, que se apresentam por esta ordem:1. Neemias passa da corte persa para governador de Jerusalém: 1-2;2. Construção das muralhas, apesar de inúmeras dificuldades: 3-6;3. Recenseamento do povo, celebração da Lei e renovação da aliança: 7-10;4. Repovoamento de Jerusalém e das terras da Judéia: 11;5. Medidas para garantir o culto e a pureza dos costumes: 12-13.PERSPECTIVA TEOLÓGICA ESDRAS e NEEMIAS narram acontecimentos ocorridos logo após o éditode Ciro (538 a.C.), que permitia o regresso do cativeiro da Babilônia. Mostrando a situação difícil dosrepatriados, fazem sobressair o esforço pela restauração do povo, no aspecto material e religioso.Contêm uma admirável mensagem doutrinal, centrada em três preocupações fundamentais: o templo, acidade de Jerusalém e a comunidade do povo de Deus.Após as provas do Exílio, com as suas más conseqüências no aspecto religioso, o povo organiza-se numagrande unidade nacional e religiosa.Meditando na Lei, compreende como o castigo lhe foi mandado por Deus, devido à sua infidelidade, e como,apesar de tudo, a misericórdia divina se mantém para com o resto de Israel, detentor das grandes promessasem relação ao Messias. A Palavra de Deus é, assim, a base da reconstrução do povo que volta do Exílio.
  16. 16. 16 EsterO livro de ESTER é uma apaixonada descrição das experiências dramáticas por que passou a comunidadehebraica de Susa, quando esta cidade era capital do império persa.O texto sugere que esses acontecimentos afetariam a vida de todos os judeus residentes dentro das fronteirasdaquele imenso império, que se estendia desde a Índia até à Etiópia. Quer dizer que os episódios narradosatingiam todos os judeus do mundo e as conseqüências diziam respeito à sua sobrevivência.As figuras centrais são um judeu de nome babilônico Mardoqueu e uma sua parente e protegida, chamadaEster, nome de ressonâncias simultaneamente babilônicas e persas. Mardoqueu surge como chefe dacomunidade judaica; Ester é a personagem decisiva no desenrolar dos acontecimentos.O livro descreve uma ameaça de morte que se transformou numa afirmação de triunfo. Semelhante sucessomerece ser celebrado e recordado. E, de fato, o livro de ESTER culmina numa festa anual, ainda hojecelebrada entre os judeus: a festa de "Purim", ou das "sortes" lançadas e transformadas.Esta multiplicidade de experiências tem a sua expressão no próprio estado do texto chegado até nós, comdois estratos bem distintos: algumas secções, que constituem a parte mais longa e mais antiga estão emhebraico e parecem representar o fio condutor da história; outras encontram-se só em grego e sãosuplementos, ampliações e reformulações do mesmo assunto, mas com um espírito e um horizonte algodiferentes, tentando recriar e reformular novas perspectivas. Estas novidades do texto grego vão sendoinseridas ao longo de toda a história descrita.São Jerônimo, ao preparar a edição da Bíblia em latim, chamada Vulgata, para que estas interrupções nãocortassem a seqüência do texto hebraico, decidiu colocar em primeiro lugar a tradução contínua do hebraicoe acrescenta-lhe os suplementos em grego, numerados nos capítulos 11 a 16. E assim se apresentava o livrode ESTER, nas traduções que dependiam diretamente da Vulgata.No entanto, esta solução tornava mais difícil a leitura dos suplementos, que não representavam umaseqüência completa. Por isso, é hoje mais habitual manter as interpolações do texto grego no seu lugarcorrespondente na narrativa, distinguindo-as do texto hebraico por um tipo de letra e por uma numeraçãodiferentes.HISTORICIDADE Literariamente, esta narrativa apresenta-se como descrição histórica. Aliás, em 9,32 e10,2 existem alusões explícitas ao fato de ter sido escrito aquilo que acontecera com Ester e comMardoqueu. Esta fisionomia literária condiz bem com o caráter mais ou menos histórico do seu conteúdo. Adescrição dos ambientes e dos costumes tem alguma exatidão.No entanto, numerosos indícios levam-nos a pensar que os muitos elementos de figuras e experiênciashistóricas podem ter sido elaborados nesta obra, que é construída segundo o modelo literário de um romancehistórico. Os nomes de Mardoqueu e de Ester dão aos seus heróis certa verossimilhança histórica. O nome deAssuero, dado ao rei, é a versão bíblica normal para o bem conhecido nome de Xerxes. E isto constitui maisuma razão de verossimilhança histórica. A vida da corte, aqui descrita, corresponde igualmente bem àimagem histórica; pelo contrário, o fato de Mardoqueu ter sido exilado de Jerusalém no tempo deNabucodonosor e estar ainda, mais de cem anos depois, a dirigir estes acontecimentos levanta fortes dúvidas.Além disso, os conflitos religiosos e culturais descritos, e mesmo os nomes da rainha rejeitada e da novarainha escolhida por Assuero, ou Xerxes, são inteiramente desconhecidos na corte persa.É possível, por conseguinte, que tenham sido acumuladas aqui, numa única história, muitas experiênciasdramáticas de comunidades judaicas em contextos sociais adversos; e também muitas esperanças que,entretanto, as foram reanimando, garantindo-lhes a sobrevivência. De tudo isso poderá ter resultado estelivro, como memória exultante e como razão de esperança.
  17. 17. 17De fato, em ESTER condensam-se experiências de rejeição e de ameaça, que punham em causa asobrevivência do judaísmo e, por antítese, descreve-se a forma como todos os perigos se transformaram emretumbante afirmação dos seus ideais. Tão entusiasta quiseram os judeus tornar a sua vitória, que nãoconseguiram evitar excessos: da pura autodefesa, passaram a gestos exagerados de vingança.ORIGEM, ACEITAÇÃO E DIVISÃO Os problemas quanto ao seu conteúdo vão desembocar na data decomposição deste livro. A opinião mais aceite é a de que o texto hebraico teria sido escrito durante o séc. IIIou II a.C.. Nessa altura, o império persa já tinha terminado. Significaria isto que as situações descritas sereferiam ao tempo dos persas, mas os problemas e as preocupações reais que, naquele momento, levavam aescrever este livro, podiam ser confrontações com outros inimigos. De fato, no séc. III a.C. ou depois, osconflitos do judaísmo eram sobretudo com o helenismo. E, se assim foi, o livro de Daniel e o de Judite dãotestemunho de um recurso literário muito semelhante: servir-se de uma história referente a épocas dopassado para enfrentar e combater dramas próprios do momento presente.O Novo Testamento não deu muita importância a este livro, pois não se refere a ele. O judaísmo, pelocontrário, sempre o valorizou bastante. A festa de Purim, aqui iniciada, também não consta no calendário deQumrân, nem o livro é referido na biblioteca da seita. Mas, para o judaísmo, ESTER foi sempre um dos maisimportantes dos cinco "rolos" ou "livros" cuja leitura ocorria regularmente em certas festas. O Cânonhebraico ou judeo-palestinense inclui só o texto hebraico de ESTER, classificando-o na categoria dos"Escritos" ou "Literatura". O Cânon grego ou judeo-alexandrino inclui também os suplementos gregos,considerando-os igualmente canônicos, aparecendo ESTER entre os livros históricos.O esquema geral do livro é aquele que se nos apresenta através da narrativa em hebraico:I. Ester torna-se rainha: A,1-2,23;II. Conspiração contra os judeus: 3,1-5,14;III. Haman é condenado à morte: 6,1-7,10;IV. Os hebreus vingam-se dos inimigos: 8,1-F,11.TEOLOGIA É, sobretudo, na teologia que se nota a diferença mais sensível entre o texto hebraico e ostextos em grego. No texto hebraico não existe sequer referência ao nome de Deus. Seja qual for a razão quelevou a uma narrativa de aspecto aparentemente laico, pressupõe-se que, por detrás das vicissitudes daexperiência histórica, existe uma outra instância da qual poderá vir a resposta para os problemas, se oshumanos não forem capazes de os resolver (ver 1,14). É uma evidente referência a Deus, implícita mas forte.Além disso, toda a narrativa se desenvolve num ambiente e com uma ressonância sapiencial clara. Ora toda asabedoria oriental, mesmo quando expressa numa linguagem aparentemente profana, está imbuída de umprofundo humanismo religioso.Uma das evidentes novidades do texto grego é a maneira como sublinha os vários aspectos teológicos, emconcreto a intervenção de Deus como providente condutor dos acontecimentos históricos. À primeira vista,pareceria que foi esta a razão que levou aos acrescentos gregos. Mas, fosse ou não essa a intenção principal,o fato é que o texto grego enquadra toda a história no contexto de um sonho, que é contado no princípio eexplicado no fim. Tudo o que acontecera já tinha sido revelado a Mardoqueu por meio daquele sonho: estavaprevisto e cumpriu-se tal qual.Isto é a expressão de uma concepção de História conduzida providencialmente, que vê os acontecimentoscomo um plano de Deus. Precisamente no final do capítulo 4, ao aproximar-se o momento decisivo, é que otexto grego insere os suplementos da letra C, com uma oração de Mardoqueu e outra de Ester, cheias deressonâncias bíblicas.Aliás, conflitos como os apresentados neste livro costumam empurrar as partes em litígio paracomportamentos, que só quando excessivos dão a sensação de vitória. De fato, na Bíblia, o castigo dos maus,
  18. 18. 18mesmo quando é atribuído a Deus, tem freqüentemente aspectos excessivos.É também importante, do ponto de vista religioso, o fato de o livro de ESTER servir como texto justificativoda festa religiosa de "Purim", que se tornou uma das mais pitorescas do calendário religioso dos judeus,semelhante ao nosso Carnaval.
  19. 19. 19 ÊxodoO ÊXODO é o segundo livro da Bíblia e do Pentateuco. Na Bíblia Hebraica recebe otítulo de Shemôt, isto é, "Nomes", de acordo com o hábito judaico de intitular os livrosa partir das suas palavras iniciais: "Weelleh shemôt" (= "E estes os nomes dos filhos deIsrael que vieram para o Egito": 1,1).O título de ÊXODO provém da versão grega dos Setenta, que procura dar a cada livroum título de acordo com o seu conteúdo. Neste caso, privilegia os 15 primeiroscapítulos, pois é aí que propriamente se descreve o "Êxodo", isto é, a "saída" dosisraelitas do Egito.Este léxico tem a ver prevalentemente com os grupos recalcitrantes que Moisés "fezsair" do Egito pela "estrada do deserto"; mas, dada a importância determinante deMoisés, dos seus grupos e das suas experiências para a constituição de Israel e aformação da Bíblia, o seu léxico torna-se patrimônio comum, podendo expressartambém as "libertações" de outros grupos da "opressão" do domínio egípcio.CONTEÚDO E DIVISÃO Pode dividir-se o seu conteúdo do seguinte modo:I. "Opressão" e "Libertação" dos filhos de Israel no Egito. Este é o tema fundamentalde 1,1-15,21. Nesta secção merecem especial relevo as peripécias no Egito (1,1-7,8),como um povo que nasce no sofrimento. Seguem-se as pragas (7,8-12,32), como meioviolento de libertação.II. Caminhada pelo deserto (15,22-18,27) do povo, agora livre do Egito.III. Aliança do Sinai (19,1-24,18). Esta aliança é o encontro criacional ou fundacionalde Javé com os "israelitas", em que o Senhor se dá a si mesmo ao homem e restitui cadahomem a si mesmo, e em que o homem aceita a dádiva pessoal de Deus e se aceita a simesmo como dom de Deus com tudo o mais que lhe é dado: a natureza, a razão, a Lei, aHistória, o mundo. Por sua vez, a dádiva e a sua aceitação também reclamam dádivamútua e, portanto, responsabilidade. O pecado surge como possibilidade da liberdadehumana; mas Deus pode sempre recomeçar tudo de novo.IV. Código sacerdotal, com especial relevo para a construção do santuário (25,1-31,18). A execução do mesmo vai ser revelada em 35,1-40,33, com a correspondenteorganização do culto. Esta narrativa está encerrada numa inclusão significativa: 40,34-38 descreve a descida do Senhor sobre o santuário com as mesmas características(nuvem, glória, fogo) com que 24,12-15a descreveu a descida do Senhor sobre o Sinai,mostrando, assim, que o santuário assumiu o papel do Sinai como lugar da manifestaçãode Deus. É a presença da ideologia sacerdotal (conhecida por fonte P), que projetaretrospectivamente no Sinai a imagem do segundo templo, do seu sacerdócio e do seuculto - em suma, o ideal da comunidade judaica pós-exílica (ver VI).V. Renovação da Aliança do Sinai, relatada em 32,1-34,35.VI. Código sacerdotal (35,1-40,38): execução das obras relativas ao santuário (ver IV).O texto normativo do livro do ÊXODO é sobretudo um entrançado de peças narrativas elegislativas. Nestas últimas, destacam-se o "Decálogo" propriamente dito (20,1-17) e oschamados "Código da aliança" (20,22-23,19) e "Decálogo ritual" (34,12-26). São a Leidada por Deus, mas formulada pelo homem a partir da razão e da experiência.
  20. 20. 20AUTOR A antiga tradição judaica, tal como a antiga tradição cristã, atribuíam a Moisésa autoria de todo o Pentateuco e, por isso, também do livro do ÊXODO. Este modo depensar está hoje claramente ultrapassado. Contudo, talvez hoje se avalie também, commais clareza do que nunca, a eventual ação determinante de Moisés na constituição deIsrael e do corpo bíblico do Pentateuco e do ÊXODO.GÊNERO LITERÁRIO O tecido literário deste livro resulta em parte da acostagemhorizontal de temáticas por via redacional ("teoria fragmentária"), masfundamentalmente da complexidade dinâmica da vida de múltiplos grupos cujasexperiências no terreno vão sendo recolhidas e integradas em contextos ideológicosmais amplos.É ainda a questão da "teoria documentária", embora redimensionada, nas suascomponentes Javista (J), Eloista (E), Deuteronômico-Deuteronomista (D-Dtr) eSacerdotal (P); das múltiplas "fichas" que recolhem e da ideologia e intenção dasredações; sem esquecer, também, a redação final.LEITURA CRISTÃ E TEOLOGIA O acontecimento do Êxodo relata a libertação deIsrael do Egito pelo Senhor, que faz com esse povo uma Aliança. Tal acontecimentofundador foi objeto de várias releituras, já dentro da própria Bíblia, pois toda a teologiae espiritualidade do povo de Israel ficou profundamente marcada por ela. Assim, oSegundo e Terceiro Isaías vêem a libertação de Judá do domínio da Babilônia como umnovo Êxodo.Os primeiros discípulos de Jesus e as primeiras comunidades cristãs, que eram deorigem judaica, viram na doutrina de Jesus um "êxodo" novo e definitivo (Lc 4,16-21);e, na sua pessoa, o verdadeiro libertador, à vista do qual o próprio Moisés era simplesfigura, e a Lei do Sinai mero pedagogo para conduzir o povo até ao verdadeiro Mestre,que é Cristo (Gl 3,24). O Novo Testamento apresenta Moisés como muito inferior aJesus, que veio trazer a nova Lei (Mt 5,17-48). A Carta aos Hebreus chega mesmo adizer que Moisés já considerava os opróbrios por Cristo superiores aos tesouros doEgito, seguindo em frente com firmeza, "como se contemplasse o Invisível" (Heb11,27).
  21. 21. 21 GênesisAo primeiro livro da Bíblia - e, portanto, do Pentateuco - damos hoje o nome deGÊNESIS. É termo grego e significa "origem", "nascimento". Os livros da BíbliaHebraica não tinham qualquer título. Eram chamados, simplesmente, pela primeira ouprimeiras palavras. Este chamava-se berechit. Os autores da tradução da Bíblia Hebraicapara o grego (Bíblia dos Setenta) acharam por bem dar aos livros um título de acordocom o seu conteúdo. Como este livro trata do princípio de tudo, chamaram-lheGÊNESIS, isto é, Livro das Origens.CONTEÚDO E ESTRUTURA Todos os povos se perguntaram alguma vez: Dondeviemos? Qual foi a nossa origem? Quem foi o fundador do nosso povo? Qual o nossodestino? Umas vezes, essas perguntas eram formuladas a partir de situações de desgraçacoletiva: Que sentido tem o nosso fracasso e o nosso sofrimento? Que sentido tem amorte irremediável? Há um Alguém que possa responder a todas as interrogações dohomem? Outras vezes, tinham um fundo político, pretendendo legitimar situações deprivilégio presente ou reclamar direitos fundados num passado mais ou menos remoto.O povo de Israel, na sua reflexão interna ou no confronto com outros povos, religiões eculturas, colocou a si próprio estas e outras questões semelhantes e deixou-nos as suasrespostas neste livro. O GÊNESIS é, pois, o livro das grandes interrogações e dasgrandes respostas, não só do povo de Deus, mas de toda a humanidade. Por isso se dizque este livro é uma espécie de grande pórtico da catedral da Bíblia, pois de algummodo a resume na totalidade da sua beleza e conteúdo.O GÊNESIS engloba, também, grande parte da História do povo de Israel: desde "asorigens" até à estadia de Jacob no Egito e a conseqüente formação das doze tribos.Pretendendo dar-nos uma concepção histórica, horizontal e dinâmica da História daSalvação, este livro faz a ligação entre "as origens" da humanidade (1,1) e a Históriaconcreta do povo de Israel. Por isso apresenta-nos, sobretudo nos 11 primeiroscapítulos, teologia e catequese em forma de História, ou melhor, de histórias e não defato históricos no sentido científico.Poderíamos resumir assim o seu conteúdo:I. História das Origens (1,1-11,32)1,1-2,4a: Criação do universo e dos seus habitantes (segundo a tradição Sacerdotal: P).2,4b-3,24: Formação do homem e da mulher. Origem do pecado (tradição Javista: J).4,1-24: "História de dois irmãos", Caim e Abel. Descendência do primeiro.4,25-5,32: Set e a sua descendência.6,1-9,17: Corrupção da humanidade e Dilúvio (anti-Criação).9,18-10,32: Re-criação, a partir de Noé, o homem novo. Lista de povos.11,1-9: Torre de Babel: a humanidade constrói uma sociedade sem Deus.11,10-32: Descendência de Sem até Abraão, promessa de um povo novo.II. História dos Patriarcas (12,1-50,26)Ciclo de Abraão (12,1-23,20): vocação, emigração para Canaã e Egito. Nascimentode Isaac e Ismael. Morte de Abraão.Ciclo de Isaac (24,1-27,46).Ciclo de Jacob (28,1-36,43): já a partir de 25,19, Jacob começa a tornar-se a
  22. 22. 22personagem principal, tanto em relação ao pai (Isaac), como em relação a seu irmãoEsaú.Ciclo de José (37,1-50,26): o penúltimo dos filhos de Jacob, vendido como escravopara o Egito, faz a ligação histórica e teológica com o livro seguinte, o Êxodo. É umciclo muito especial, também chamado História de José.Este esquema histórico-literário apresenta-se como uma obra prima, não só a nívelteológico, mas também na sua estrutura literária. De fato, a "História das Origens" (cap.1-11) aparece como Prólogo histórico-teológico da História de Israel e da humanidade.E pretende ser o elo de ligação entre a Criação do mundo e Abraão, o pai do povohebreu (cap. 12). O Egito, como lugar de escravidão do Povo, é lugar de peregrinaçãopara Abraão, Jacob e José. Estes e outros elementos fazem a ligação deste livro com oÊxodo e com os outros livros seguintes.FONTES E GÊNEROS LITERÁRIOS Donde vem todo este material? O povohebreu vivia numa região onde se cruzavam muitos povos e civilizações. Este fatooriginou um inegável intercâmbio cultural entre eles. Os impérios que dominaram aMesopotâmia e o Egito, assim como as civilizações da Fenícia e de Canaã, são a fonteliterária e histórica do GÉNESIS e do AT em geral.É inegável que nos 11 primeiros capítulos se encontram abundantes elementos dessasculturas, incluindo alusões a certos mitos da Suméria, da Babilônia e de Ugarit,especialmente aos poemas da Criação, Enuma-Elish e Atrahasis. O poema deGilgamesh está também presente no relato do Dilúvio. Muitas vezes, os autores doGênesis colocam-se em polêmica aberta contra os mitos pagãos, como no caso de 1,1-2,4a.A História Patriarcal (cap. 12-50) acolheu lendas antigas e referências a El, que faziamparte do espólio cultural dos santuários cananeus. Encontramos, igualmente, pequenosfatos alusivos ao convívio com povos vizinhos. No que se refere à origem dosPatriarcas, há relatos sobre os antepassados tribais, heróis antigos, genealogias ou listasde patriarcas (cap. 5) e de povos (cap. 10), e outras histórias que pretendiam explicar aorigem dos povos em geral e de Israel em particular. Por isso, este livro tem gênerosliterários variados:A lenda: é o mais comum e consiste em produzir um relato a partir de um fato real,nome de pessoa ou de lugar. Há lendas etiológicas, que pretendem explicar, nopassado, a "causa" de qualquer fenômeno ou acontecimento do presente. Um beloexemplo de lenda etiológica é o relato da destruição de Sodoma e Gomorra. Há aindalendas etiológicas para explicar a origem de nomes de pessoas (para Isaac, que significa"rir", ver 18,9-15; 21,2-7).A genealogia: é uma lista de nomes que recua o mais longe possível até ao passado, apartir do presente. Pretende justificar no aspecto jurídico certos acontecimentos,privilégios de uma classe social ou de um povo (5,1-32; 10; 11,10-32). É sua intençãopreencher o imenso espaço entre a Criação e a História do povo hebreu.As sagas ou histórias antigas de todo o gênero: luta pelos poços, guerras tribais,histórias de famílias...Também encontramos aqui a linguagem mítica. Sabemos que os autores do GÊNESIScombateram os mitos. Mas, para falar dos grandes problemas da humanidade, não
  23. 23. 23deixaram de utilizar a linguagem e certos elementos mitológicos que estavam em voga,como a criação do homem a partir do barro (2,7), a árvore da Vida e a árvore da ciência(2,9-10; 3,1-6), o mito da serpente (cap. 3).Todo este material foi colecionado muito lentamente. Primeiro surgiram pequenosconjuntos à volta de um santuário, de um acontecimento ou de uma personagem;podemos chamar-lhes tradições, e foram transmitidas oralmente, ao longo de muitosséculos. Quando aparece a escrita, essas tradições são fixadas em documentos. Com aqueda do Reino do Norte (Samaria), em 722, essas tradições são trazidas para o Sul(Jerusalém). Finalmente, no período do Exílio (587-538), os redatores da escolaSacerdotal reúnem todas as grandes tradições e documentos existentes, imprimindo-lheso seu próprio estilo e teologia. Podemos dizer que o GÊNESIS contém materialrecolhido entre os séculos XIII-V a. C.TEOLOGIA E LEITURA CRISTÃ Apesar de conter muitos elementos históricos, oGÊNESIS é uma obra essencialmente teológica que procurava responder aos problemasangustiantes colocados pelo acontecimento do Exílio (séc. VI): no meio das trevas,Deus é a luz do seu povo; no desespero do cativeiro, Deus há de renovar a Aliança feitadepois da saída do Egito.Por detrás das "histórias" contadas pelos seus autores, o GÊNESIS contém os grandestemas teológicos, não somente do Pentateuco mas da Bíblia em geral: a Aliança de Deuscom a humanidade, o pecado do homem, a nova promessa de Aliança, a promessa daTerra Prometida, a bênção de Deus garantindo a perenidade do Povo, o monoteísmojavista.O GÊNESIS não foi redigido para escrever História, mas para dizer que Deus domina aHistória. Por isso, é essencialmente um livro de catequese e de teologia, mesmo nos 11primeiros capítulos, em que não há preocupação histórica ou científica, no sentido atual.Por isso, a Pontifícia Comissão Bíblica, já em 16 de Janeiro de 1948, dizia, a esterespeito: "Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das nossas categoriasclássicas e não podem ser julgadas à luz dos gêneros literários greco-latinos emodernos."Todos os grandes temas teológicos do GÊNESIS foram relidos pelos cristãos à luz doautor da nova criação, Jesus Cristo (Jo 1,1-3). As grandes personagens do GÊNESIS -Adão, Eva, Noé, Abraão e os outros Patriarcas - aparecem freqüentemente ao longo doNovo Testamento para lembrar aos crentes que há uma só História da Salvação. Porisso, o Apocalipse - o último livro da Bíblia - não se compreende sem o primeiro.
  24. 24. 24 JóA questão da autoria do livro de JÓ está muito ligada aos modos e momentos segundoos quais se terá processado a formação deste conjunto literário. Definir a identidade deum autor por detrás da variedade literária que existe no livro, e que mais adianteanalisaremos, não será fácil. É provável, no entanto, que o seu autor principal tenha sidoum israelita, certamente bom conhecedor do pensamento hebraico tradicional; daí oscontínuos paralelismos literários e doutrinais entre este livro e outros da Bíblia. Poroutro lado, também conhecia as grandes preocupações do pensamento humanista nospaíses vizinhos da Bíblia. A síntese entre estes dois pólos está muito bem conseguida.NOME E DATA A personagem central desta história é que parece não ser uma figurahebraica. O nome de JÓ só aparece neste livro, em Ez 14,14.20 e Tg 5,11, como umafigura lendária do passado, situado nos tempos patriarcais e dotado de grande sabedoria.O autor israelita aproveitou tal figura para elaborar esta obra, do gênero sapiencial. Istodenota apreço pela sabedoria universal ou a vontade de reconhecer todos os valores,onde quer que eles se encontrem.A data do livro é outra difícil questão. Grande parte dos estudiosos situa--o após oExílio, baseando-se quer na dúvida corajosa face às categorias do pensamento religiosotradicional, quer em certas influências aramaicas sobre o hebraico em que o livro estáescrito, quer numa certa abertura ao mundo exterior a Israel, para contrariar o ambientexenófobo que se vivia em Jerusalém, depois do Exílio (séc. V a.C.), testemunhado emEsdras e Neemias. Mas há quem pense que o livro poderia ser bastante mais antigo.Argumentos: alguns aspectos lingüísticos e o tema, que já tinha raízes em realizaçõesmuito anteriores nas literaturas do Médio Oriente Antigo.LIVRO, TEMA E TEXTO O livro de JÓ constitui, no contexto da Bíblia, um dadobem característico e original. Em primeiro lugar, porque enfrenta a questão daexperiência religiosa pessoal como um objeto de reflexão e porque o faz com umaprofundidade humana e um dramatismo dignos do melhor humanismo e da maisrequintada arte literária; em segundo lugar, porque nem representa muito diretamente alinguagem teológica mais característica do Antigo Testamento.O fato é que este livro se impôs como um dos mais elevados momentos literários daBíblia; e, para a História da teologia, da filosofia e da cultura, até aos dias de hoje, ficoua ser um verdadeiro marco miliário da tomada de consciência dos dramas da experiênciahumana.A importância que este livro assumiu na Bíblia e nas religiões bíblicas - Judaísmo eCristianismo - veio-lhe também, em grande parte, do fato de nele se exprimir um dostemas máximos da cultura e da literatura humanistas do Médio Oriente Antigo. É aquestão do sofrimento e das suas repercussões, quer diretamente na experiência dequem sofre, quer indiretamente na interação que se produz entre as concepções morais eoutras categorias religiosas fundamentais, tais como sofrimento e doença, pecado ecastigo, santidade e felicidade. Enfim, é o problema de saber se existe algumacorrelação justa ou lógica entre a maneira honesta como se vive e a maneira como avida nos corre. Nos tempos bíblicos mais antigos, o Egito, a Mesopotâmia e Canaãdeixaram-nos exímios exemplos literários deste esforço de reflexão. É entre eles que olivro de JÓ encontra a sua base e se destaca como valor de primeira grandeza.A maior parte do livro está escrita num hebraico de grande qualidade literária, quelevanta, pelo seu estilo e vocabulário originais, algumas dificuldades de tradução. É
  25. 25. 25natural que os simples leitores de uma Bíblia o notem ao comparar várias traduções everificar como estas assinalam dificuldades de tradução de vários termos e passagens.Muito se tem estudado sobre ele e muito há ainda a estudar até se poder atingir a melhorcompreensão, tanto do vocabulário como das subtilezas de construção sintática.GÉNERO LITERÁRIO, ESTRUTURA E FORMAÇÃO Do ponto de vista literário,o livro de JÓ apresenta-se dividido em duas secções principais, que se notam bem pelaforma, pelo estilo e pelas idéias. A secção inicial e a final, ambas escritas em prosa,apresentam-nos a personagem central do livro, a figura de JÓ. É o que, no esquemaproposto mais adiante, se chama prólogo e epílogo biográficos. No prólogo, JÓ aparecebem situado numa vida honesta e simultaneamente feliz; mas, depois, passa porexperiências de desgraça que levantam a questão de saber se ele era, de fato, ou secontinuou ou não a ser honesto; no epílogo, a sua situação aparece, por fim,inteiramente restaurada.Esta evolução na ação dá importância à segunda secção do livro, que constitui a suamaior parte. Toda ela é uma discussão acesa sobre os problemas suscitados peloaparecimento do sofrimento e de grandes desgraças na vida de um homem que não tinhaculpa nem pecado. Esta parte em poesia é o essencial do livro, embora assente nasituação de vida descrita pelo texto em prosa. O modelo literário é inspiradopossivelmente nas discussões que se faziam nos ambientes culturais da época. Cadaamigo apresenta um tipo de argumentação, e a discussão decorre, sem que JÓ, apesar doseu estado de sofrimento, se mostre desfalecido. Até para esclarecer as relações comDeus é utilizado o mesmo esquema. Numa intervenção final, Deus responde a todas asdiscussões anteriores. O livro apresenta-se, assim, como um autêntico tribunal deconsciência, para o qual o próprio Deus é citado e onde toma assento.Muitos estudiosos pensam que estas duas secções podem não ser da mesma época nemter sido escritas pelo mesmo autor. A primeira é mais popular; a segunda é claramentemais complexa e profunda. Além disso, a parte designada como "Discurso de Eliú" (32-37) apresenta claros indícios de ter sido acrescentada posteriormente, quanto mais nãoseja porque ele não aparece na lista dos amigos que, segundo a narrativa inicial, foramter com JÓ para o consolar. Estes aspectos da formação e da estrutura do livro sãoindícios de que a sua redação pode ter tido uma história razoavelmente complexa.DIVISÃO E CONTEÚDO Propomos o esquema seguinte:I. Prólogo biográfico: 1,1-2,13;II. Primeiro debate: 3,1-14,22;III. Segundo debate: 15,1-21,34;IV. Terceiro debate: 22,1-27,23;V. Elogio da sabedoria: 28,1-28;VI. Monólogo de JÓ: 29,1-31,40;VII. Discurso de Eliú: 32,1-37,24;VIII. Intervenção de Deus: 38,1-42,6;IX. Epílogo biográfico: 42,7-17.Os números VI, VII e VIII podiam constituir uma roda dialogal final, mas dotada de umespírito razoavelmente diferente dos três primeiros debates. Por isso, o elogio dasabedoria (28) poderia estar a servir de separador e transição.TEOLOGIA O livro de JÓ é essencialmente uma obra de reflexão e meditação; émesmo um espaço para levantar questões ainda hoje dramáticas. Chamar teologia ao seupensamento pode até fazer crer que ali se apresenta uma catequese ortodoxa e tranqüila.
  26. 26. 26E não é o caso. No entanto, podemos servir-nos da palavra teologia, enquanto aqui éfocado um conjunto de problemas, cuja solução acaba por ir desembocar, em últimaanálise, na concepção que se tem sobre Deus.Por um lado, em JÓ rejeita-se um sistema de pensamento religioso: as posiçõesmoralistas e tradicionais da equivalência entre o sofrimento de uma pessoa e algumpecado por ela cometido. É o pensamento majoritariamente defendido pelos amigos deJÓ, com alguns matizes de diferença entre cada um deles.Por outro lado, o pensamento religioso do livro parece aproximar-se da novaconsciência de JÓ, de onde emergem verdades já bastante evidentes para ele, mas que odeixam ainda muito inseguro e mesmo escandalizado. Mas nem todas as suas idéias sãoconfirmadas, após a contemplação da sabedoria (28), o discurso de Eliú (32-37) e aintervenção final de Deus. Se as teses da religiosidade tradicional e popular sofrem umaforte contestação, também as novas sensações iniciais de JÓ chegam ao fim algoesbatidas. JÓ empreende uma reflexão amadurecida e profunda.Em suma, neste livro recusa-se que a causalidade de todo o sofrimento deva seratribuída, seja ao homem, seja a Deus. A ética e o ciclo da vida com os seus percursosnaturais de sofrimento e morte são dois processos coexistentes, mas autônomos.Pretender misturá-los é simplista e inútil. A justiça e a ação de Deus não se podemmedir com as regras de equivalência que são normais em justiça distributiva. Eis um dosmais marcantes contributos do livro de JÓ para esta importante questão do humanismo eda experiência religiosa. A sua atitude básica perante o sofrimento não é de morallegalista, nem é pietista, nem expiacionista. É uma atitude de corajoso acolhimento doreal; é contemplativa e verificadora; é um caminho de sabedoria. É, por conseguinte, umespaço de transformação de si mesmo e dos fatos. É ainda acolhimento do Deusinvisível nas experiências humanas de paraíso e de deserto (19,25-26; 1 Cor 13,12).
  27. 27. 27 JosuéEmbora nem sempre com a coerência que tanto agrada à nossa mentalidade atual, porefeito das diferentes tradições que lhe serviram de fonte, é possível apresentarresumidamente a figura de Josué. Inicialmente surge como um jovem ajudante deMoisés, com o nome de Oséias; depois, é um dos exploradores do Négueb, quandomanifesta, com Caleb, a sua disponibilidade para executar o plano libertador de Javé.Então lhe é mudado o nome de Oséias para "Yehoshua" ou Josué, prenúncio da novamissão em que Moisés o vai investir: será o seu sucessor.É a esta personalidade que a tradição atribui a autoria do livro de JOSUÉ, com ashabituais limitações que tal designação comporta quando se trata dos autores sagradosou hagiógrafos.DIVISÃO E CONTEÚDO Há quem considere o livro de JOSUÉ como umcomplemento do Pentateuco, constituindo a parte em que se cumpre a promessa dadoação da Terra Prometida: no Gênesis, Deus promete; em JOSUÉ, entrega e cumpre apromessa. Nesta hipótese, JOSUÉ seria constituído a partir da teoria clássica das quatrotradições: Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal. Não é esta, porém, a hipóteseaplaudida por muitos críticos modernos, a quem agrada mais integrar o livro em plenaHistória Deuteronomista, sem prejuízo de considerarem nele, de fato, a promessa doGênesis plenamente cumprida.É comum distribuir o conteúdo de JOSUÉ por três partes distintas:I. Conquista de Canaã (1,1-12,24): texto, predominantemente narrativo, conta osvários episódios da conquista de Jericó; a batalha de Guibeon; a leitura da Lei perante amultidão, que renova a sua promessa de fidelidade à aliança (8,29-35); a derrota dasvárias coligações contra Josué, com a conseqüente submissão de todo o Sul ao sucessorde Moisés.II. Distribuição do território pelas tribos (13,1-21,45). Após a atribuição dosterritórios às tribos da Transjordânia e da Cisjordânia, conclui-se com uma lista dascidades sacerdotais e de refúgio.III. Apêndice e conclusão (22,1-24,33). Nesta parte merecem especial atenção odiscurso de despedida de Josué e a assembléia magna de Siquém, no final do livro.GÊNERO LITERÁRIO E VALOR HISTÓRICO Em JOSUÉ, não temos Históriano sentido rigoroso deste conceito, uma vez que a aglutinação das diversas tradições foifeita em época muito posterior aos fatos. O rigor histórico das narrações é que seria,precisamente, de admirar. Comparando JOSUÉ com Jz 1, aquilo que em JOSUÉ se nosapresenta como campanha militar organizada, uma espécie de coligação de todo oIsrael, na verdade, parece ter sido uma iniciativa particular de cada tribo. Trata-se, pois,de apresentações esquematizadas. Do mesmo modo, não é de excluir a hipótese dealgumas tribos terem penetrado em Canaã pelo Sul e não por Jericó (Nm 21,1-3).Tribos houve, como as da região central, que nem sequer terão estado no Egito, maspermaneceram em Canaã. Outra hipótese admitida é que teria havido vários êxodos denatureza diferente: êxodo-expulsão e êxodo-libertação; assim no-lo deixam supor asvárias formas de texto, quando se fala da saída do Egito. Nesse caso, a campanha deJosué, na reconquista épica de Canaã, revestiria a forma de síntese narrativa comoreelaboração posterior das diversas tradições.
  28. 28. 28Os acontecimentos posteriores, até a época de David, mostram igualmente que acampanha da reconquista protagonizada por Josué não acabou com a posse total doterritório: muitos grupos de várias etnias não judaicas mantiveram-se autônomos pormuitos anos, só mais tarde acabando por ser integrados em Israel.De quanto ficou dito, pode-se legitimamente concluir que, em JOSUÉ, se encontrammisturados vários tipos de textos literários: a narração, a descrição, a lenda popular, aepopéia, etc.. Sacrificou-se o rigor da História ao interesse da doutrinação teológica,realçando esta última.TEOLOGIA Como já foi dito, JOSUÉ pretende mostrar que Javé é fiel à sua palavra:se prometeu, cumpre (Gn 12,1-3; 13,14-17; 15,7-21; 17,1-8). Como prometeu dar umaterra ao povo, tudo fará, mesmo milagres, para os opositores de Israel serem derrotadose as suas terras entregues ao "povo de Javé". Daí a freqüência da ação miraculosa daintervenção direta de Deus e dos seus anjos no decorrer das várias ações militares, bemcomo a idealização do herói, qual novo Moisés: tudo lhe é atribuído, participa em todasas batalhas e sobre ele se estende incessantemente a mão poderosa e protetora doSenhor.Para isso concorre enormemente a importância do fato Terra na trama da aliança: Javéfaz um pacto com um povo nômade, a quem promete entregar uma terra que vai ser ocenário dos fatos dessa aliança. Sem uma terra sua, o povo carece de raízes para a suasubsistência real. Foi assim que todo o israelita aprendeu a considerar a TerraPrometida como um dom do Senhor.Neste quadro, a guerra santa e a crueldade para com o vencido são um louvor a Javé, emcujo nome são praticadas. O enrolamento das ações, até se fazer delas milagresassombrosos, está plenamente justificado, uma vez que interessa, acima de tudo, exaltarJavé e engrandecer Josué, figura central da presente epopéia.
  29. 29. 29 JuditeEste livro, cujo nome é o da sua figura principal, mostra-nos como Israel domina todasas dificuldades quando obedece ao Senhor.As pessoas e os lugares nele descritos fazem crer que o autor pretendeu dar-lhes nomesfictícios, embora não se saiba exatamente porquê.O significado de alguns deles quadra bem com o próprio conteúdo do livro. O nome daheroína, Judite, que lhe serve de título, simboliza "a judia", expressão frágil edesamparada do próprio Israel, sob a ameaça dos inimigos.O importante, contudo, é a lição que nos é dada pelo seu cântico: só os que temem oSenhor podem ser grandes em todas as coisas.TEXTO Aquele que terá sido o texto original hebraico ou aramaico do Livro deJUDITE há muito que desapareceu. O testemunho escrito que chegou até nós eraconstituído por três recensões gregas, uma versão siríaca, a antiga versão latina e atradução latina feita por São Jerônimo. As poucas recensões hebraicas que se conhecemsão consideradas pouco fidedignas para nos darem a conhecer o texto original, uma vezque se apresentam como elaborações livres feitas sobre o mesmo texto.Segundo Orígenes e São Jerônimo, este livro não era considerado canônico pelos judeusda Palestina. Entretanto, foi traduzido pelo Targum, e o Talmude atribuiu-lhe um grauinferior de inspiração. Contudo, no séc. I d.C. o livro fazia parte do cânone dos judeusde Alexandria. Tudo isto contribuiu para o fato de alguns Padres da Igreja terem postoem causa, e mesmo negado, a sua inspiração.O texto desta Bíblia foi traduzido a partir da edição crítica dos Setenta de A. Rahlfs,Septuaginta, elaborada com os textos gregos recolhidos dos códices Vaticano, Sinaíticoe Alexandrino.CONTEXTO HISTÓRICO Estamos, muito provavelmente, diante de um textodidático, composto a partir de um núcleo original. Com efeito, o texto que chegou aténós apresenta dados históricos e geográficos que põem muitos problemas, quer desituação, quer de identificação. Por exemplo: Nabucodonosor é posto a lutar contra umMedo, de nome Arfaxad, que não se sabe exatamente quem é. Diz-se, igualmente, queconquistou Ecbátana, quando se sabe que ele nunca conquistou esta cidade nemcombateu os Medos. A cidade de Betúlia, o Sumo Sacerdote Joaquim e a própria Judite,excetuando a filha de Jacob e Lia, não aparecem referidos em nenhum outro texto doAntigo Testamento.DIVISÃO E CONTEÚDO O livro de JUDITE divide-se em duas partes:I. Antecedentes do cerco a Betúlia (1,1-6,21): o poder de Nabucodonosor (1);expedição de Holofernes (2); procedimento das nações gentias (3); os Judeus preparam-se para a guerra (4); discurso de Aquior a Holofernes (5); resposta de Holofernes (6).II. Vitória dos Judeus (7,1-16,25): a situação torna-se difícil em Betúlia (7); Juditediante dos chefes do povo (8); a oração de Judite (9); a caminho do acampamentoassírio (10); na presença de Holofernes (11); Judite na ceia de Holofernes (12); regressotriunfante à cidade (13); ataque contra os assírios (14); vitória completa dos Judeus (15);cântico de Judite (16,1-17); conclusão da história de Judite (16,18-25).
  30. 30. 30TEOLOGIA Quando Holofernes e os assírios sitiaram Betúlia, esgotou-se a água nacidade, e os seus habitantes estavam na iminência de perecer. Foi então que uma viúva,chamada Judite, traçou e pôs em prática um plano, que levou os sitiantes à debandada edeu a vitória final aos israelitas.Como quer que seja, e para além dos pormenores históricos e geográficos, a doutrina dolivro merece a nossa atenção. Estamos diante da afirmação de verdades que em nadapõem em causa o conjunto da teologia do AT: proclama-se a providência de Deus paracom o seu povo; a onipotência, realeza e sabedoria universal de Deus; a idéia da dor edo sofrimento como prova; a centralidade, reverência e valor do templo; o valor dojejum, da oração e dos atos de penitência.Este livro manifesta, sobretudo o amor de Deus pelos pequenos, servindo-se de todos osmeios para os defender. No nosso caso, de uma mulher, que nunca tinha participadonuma guerra.
  31. 31. 31 JúizesO Livro dos JUÍZES foi assim chamado pelo grande relevo que nele têm os chefes aquem se deu tal nome (chofetîm). Praticamente o livro é constituído por doze históriascorrespondentes aos doze juízes que nele desfilam aos olhos do leitor.CONTEXTO HISTÓRICO Depois da sua chegada a Canaã e do seu estabelecimentono território, como está descrito em Josué, as doze tribos ficaram um pouco à mercê dospovos que ainda ocupavam a terra. Cananeus e filisteus continuavam a sua luta paraexpulsar as tribos israelitas que se tinham infiltrado em algumas parcelas do seuterritório; e a conquista total da terra e o conseqüente predomínio dos israelitas sobre ospovos locais ficará para mais tarde, no tempo de David (séc. X a.C.).Depois da morte de Josué, por volta de 1200 a.C. (Js 24), as tribos ficaram sem umchefe que aglutinasse todas as forças para se defenderem dos inimigos estrangeiros. Aúnica autoridade constituída era a dos anciãos de cada tribo. Além disso, estas pequenastribos eram muito independentes entre si, e não era fácil congregá-las. Ficavam, assim,mais expostas aos ataques de filisteus, cananeus, madianitas, amonitas, moabitas, todosinimigos históricos de Israel.QUEM SÃO OS JUÍZES É nestas circunstâncias que aparecem os Juízes. Não sãochefes constituídos oficialmente, mas homens e mulheres carismáticos, atentos aoEspírito do Senhor, pessoas marcadas por uma forte personalidade, capazes de seimporem moralmente perante as outras tribos. Deste modo, quando alguma tribo eraatacada, o Juiz congregava as outras para irem em socorro da tribo irmã.Uma outra função que lhes poderia ser atribuída era a de julgar (da raiz chaphat, quesignifica "administrar a justiça", "proteger"), em casos especiais, função que terá estadona origem do nome de "Juízes".O tempo dos Juízes é, pois, o tempo da consolidação das tribos no seu território, peranteos inimigos estrangeiros, e o tempo das primeiras tentativas de federação entre as váriastribos com diferentes origens (ver Js 24).DIVISÃO E CONTEÚDO Na falta de escrita, as histórias e os feitos dos JUÍZESpassaram pelas tradições orais locais, sobretudo nos santuários, antes de fazerem parteda memória coletiva de Israel.Com o aparecimento da monarquia e a conseqüente organização política, social ereligiosa, todo este material de caráter histórico, mítico, poético e etiológico entrou noespólio coletivo de Israel, sendo posteriormente organizado por blocos literários maisamplos. É costume dividir o livro dos JUÍZES em dois grandes blocos literários:I. Tradições sobre a conquista de Canaã (1,1-3,6).II. História dos Juízes (3,7-16,31). Nestes, é costume distinguir:"Juízes Maiores" ou "salvadores": Oteniel (3,7-11), Eúde (3,12-30), Débora e Barac(4,1-5,32), Gedeão (6,11-8,35), Jefté (11,1-40) e Sansão (13,1-16,31); "JuízesMenores", que constituem um bloco literário acrescentado mais tarde: Chamegar(3,31), Tola (10,1-2), Jair (10,3-5), Ibsan (12,8-10), Elon (12,11-12) e Abdon (12,13-15). Deste modo se formou o "Livro dos doze Juízes de Israel" (3,7-16,31).III. Apêndices: 17-18, sobre a tribo de Dan, e 19-21, sobre a de Benjamim.
  32. 32. 32Posteriormente foram acrescentadas duas introduções: 1,1-2,5, que apresenta a situaçãogeral das tribos depois da morte de Josué; e 2,6-3,6, que apresenta a História de Israelcomo uma "História Sagrada": pecado do povo - castigo de Deus - perdão de Deus. É aconcepção deuteronomista da História de Israel, em cujo contexto teológico deverásituar-se este livro.O livro contém igualmente dois apêndices: os capítulos 17-18, que narram a migraçãoda tribo de Dan do Sul para a nascente do Jordão, no Norte; e os capítulos 19-21, quenarram o crime dos habitantes de Guibeá, da tribo de Benjamim, tribo que serádestruída.Todas estas tradições, que andavam de boca em boca, juntamente com as de outrosheróis nacionais, entram numa coleção comum depois da queda da Samaria (722/721a.C.). Mas só durante ou mesmo depois do exílio da Babilônia é que o livro foiintegrado na grande História de Israel, concluída pelos redatores deuteronomistas ecomposta pelos seguintes livros: Dt, Js, Jz, 1 Sm, 2 Sm, 1 Rs e 2 Rs.A estes redatores se devem, certamente, as introduções gerais já mencionadas (Jz 1,1-3,6), assim como a introdução a cada um dos Juízes. Esta redação deuteronomistaconferiu uma unidade teológica a todo o livro, que passou de amálgama de históriaslocais a um livro de caráter nacional.VALOR HISTÓRICO O livro dos JUÍZES é um dos chamados "Livros Históricos" daBíblia, mas é histórico segundo o modo de escrever História no seu tempo. Nessegênero literário cabiam não apenas os fatos e os documentos, como acontece nahistoriografia moderna, mas também o mito, discursos (veja-se o belo apólogo deJotam: 9,7-20), etiologias, pequenos fatos do dia a dia, etc. Este livro fornece-nos umquadro geral único do modo de vida das tribos de Israel, depois da instalação em Canaã,no que toca à vida política, social e religiosa. É também interessante o fato de nos falarjá do difícil relacionamento entre algumas tribos, que irá ter o seu desenlace naseparação entre o Norte e o Sul, depois de Salomão.O tempo dos JUÍZES corresponde a mais de dois séculos de História, o que lhe confereum valor especial, embora a contagem dos anos fornecidos pelo texto nos dê exatamente410 anos. Este fato é certamente devido ao uso corrente do número simbólico 40, quesignifica uma geração, isto é, a vida de uma pessoa. Esta indicação diz-nos bem docaráter aproximativo dos dados cronológicos do livro. A cronologia real da época dosJUÍZES nunca poderá afastar-se muito do período entre 1200 e 1030.TEOLOGIA Como qualquer livro da Bíblia, também o dos JUÍZES não foi escritopara nos fornecer simplesmente a História factual das tribos de Israel. Antes de mais, foiescrito para manifestar como Deus acompanha o seu povo na sua história concreta,mesmo no meio dos mais graves acontecimentos, como as guerras contra os povosinimigos.A sua teologia fundamental é proposta pelos redatores deuteronomistas nas Introduções(1,1-3,6), em que aparecem fórmulas características como "os filhos de Israel fizeram oque era mau aos olhos do Senhor" (2,11; 3,7.12; 4,1; 6,1; 10,6; 13,1). Desta infidelidadedo povo ao Deus fiel da Aliança segue-se o castigo, que aparece nas derrotas perante ospovos estrangeiros; e depois, a vitória, mediante os intermediários do Senhor, os Juízes"salvadores" (3,31; 6,15; 10,1). A idéia teológica que ressalta deste livro é, pois, aimagem que um povo livre tem de Deus, que o acompanha para o libertar.
  33. 33. 33Não nos devem escandalizar os "pecados" destes Juízes, homens rudes que precisamosde situar no seu tempo e que procedem segundo a moral de então. Caso paradigmático éa história de Sansão. Teremos que tentar, antes, descobrir o que há neles de positivo: aação de Deus, que os anima com o seu espírito para conduzir o povo de Deus (3,10;6,34; 11,29; 13,25). Neste sentido, eles foram uma antecipação dos reis de Israel.

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