Vidinha besta - ebook edição gratuita

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Edição gratuita do livro Vidinha Besta, da escritora potiguar Carmen Lobbo.

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Vidinha besta - ebook edição gratuita

  1. 1. VIDINHA BESTA CARMEN LOBBO
  2. 2. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 1 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Vidinha besta
  3. 3. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 2 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Diagramação e fotografias: Cássia de Lourdes Baia Equipe de Revisão: Caroline Lima Cássia de Lourdes Baia João Carlos de Vasconcelos Costa Lobbo, Carmen. Vidinha Besta / Carmen Lobbo, pseudônimo de Cássia de Lourdes Baia – 1ª ed. – Natal, RN: 2013. IMPORTANTE: Todos os direitos desta obra pertencem à Cássia de Lourdes Baia de Souza e, salvo citação, ficam expressamente proibidas quaisquer reprodução total ou parcial dos textos e imagens sem a prévia autorização da detentora dos direitos autorais. Ano 2013 Esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com fatos e/ou pessoas reais com quaisquer personagens terá sido mera coincidência. No entanto, utilizou-se de alguns lugares reais públicos existentes na cidade de Natal Esta é uma obra independente e caso alguma editora se interesse em deter os direitos da mesma, favor entrar em contato com a autora pelos e-mails: carmenlobbo@gmail.com carmenlobbo@hotmail.com
  4. 4. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 3 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria DEDICATÓRIA Aos meus falecidos pais: Severino Baia (Vinho) Maria de Lourdes Viana (Lourdinha) Aos meus irmãos (ãs): Emerson, Marielena, Adriana, Alexandre, Emersandra, Rainel E cada um de seus respectivos filhos e filhas.
  5. 5. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 4 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria AGRADECIMENTOS: À minha família, tias, tios, primos e primas e aos amigos em especial: João Carlos de Vasconcelos Costa Izabel Cristina Alves de Moura. Pela crença, apoio, paciência e compreensão durante toda a concepção desta obra.
  6. 6. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 5 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria PESSOAS ESPECIAIS (em ordem de chegada ao mundo) Helena, Helaine, Rebeca, Eloysa, Caroline, Amanda, Aline, Esther, Edom, Artur, Ewerton, Milena, Severino
  7. 7. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 6 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria CARMEN LOBBO Vidinha besta 1ª Edição Natal - Brasil 2013
  8. 8. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 7 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria CAPÍTULO UM evido a ocupação americana em Parnamirim Field, de 1942 até depois do final da II Grande Guerra, a Cidade de Natal teve dias muito agitados. Em 1942 um grande contigente de soldados desembarcou na capital, tanto que para cada cinco ou oito habitantes (varia de acordo com a fonte) havia um americano. E eles estavam por todos os lados: cortando os céus da cidade, realizando construções, lutando contra os nazistas e apresentando ao povo local inúmeros costumes e produtos até então desconhecidos em nossas terras como a goma de mascar (chiclet), a Coca Cola, eletrodoméstico e seus dólares. Os saudosistas da época relatam inúmeros causos destes idos tempos e lembram com saudades dos fartos bordéis da cidade, sendo o mais famoso o lendário Maria Boa. Conta-se que as garotas de programa só queriam atender aos americanos por causa de seus dólares, deixando os brasileiros em segundo plano. Mas, para muitos, a Conferência do Potengi no ano de 1943 foi o acontecimento ícone local do período, quando da presença dos presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, respectivamente Getúlio Vargas e Franklin Delano Roosevelt. A grande visita deu-se para debater o assunto mais em voga na época: A Guerra que movimentava e dividia o Mundo. Os dois poderosos homens circularam pela cidade a bordo de um jipe dirigido por um militar. Exibiram-se pelas principais avenidas sob a aclamação popular e uma fotografia da ocasião imortalizou a Conferência. Trata-se de famoso retrato dos dois presidentes sorrindo a bordo do famoso jipe. No mais tradicional Jornal da cidade, localizado na Avenida Duque de D
  9. 9. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 8 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Caxias, logo na recepção, vê-se um mural com enormes fotografias históricas do Estado sendo a grande foto da ponta esquerda a que retrata a Visita de Roosevelt (o povo estava mais honrado com a visita do presidente americano que do próprio presidente brasileiro, por isso o episódio também ficou popularmente conhecido como a Visita de Roosevelt). Acabada a Guerra, os americanos vivos ou mortos retornam para sua terra e Natal retoma seus ares de pequena capital de um estado pouco expressivo no mapa do Brasil. Nas escolas quase nada se fala a respeito do importante episódio e as novas gerações apenas ouvem um pouco sobre o assunto, graças a alguns insistentes amantes daqueles tumultuados anos militares. Alguns grupos destes amantes mais fervorosos reúnem-se para estudar, recordar e redescobrir os Anos de Ouro da Base Aérea de Natal. Livros foram e são publicados sobre o tema. Cines documentários são realizados onde contemporâneos dos acontecimentos relatam como era agitada aquela vida na cidade daquela época; os aviões que se podia ver cortando os céus, as figuras ilustres que circulavam, o medo que a Guerra impunha aos cidadãos locais, o comércio que se ergueu, a cultura, os bailes e os cinemas de então. Mas toda essa paixão por aqueles anos permanece restrita. A massa da população atual é alheia aos fatos por puro desinteresse ou ignorância. Os grupos que insistem em tocar no assunto, estudá-lo e preservá-lo são formados quase sempre por descendentes de quem direta ou indiretamente participou e/ou beneficiou-se daqueles episódios: militares, comerciantes, jovens garotas que namoraram soldados americanos. Enfim, protagonistas, coadjuvantes ou figurantes. Mesmo assim há aqueles que apenas ouvem os fatos e despertam interesse pelo assunto. Estes então se juntam aos apreciadores mais antigos e assim os grupos vão aumentando daqui
  10. 10. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 9 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria e dali, não permitindo que os fatos e suas provas palpáveis sejam esquecidos. Em Natal, a cada desfile cívico em todos os dias 7 de setembros, os Ex-Combatentes, assim designados os então jovens brasileiros que seguiram para combater o Inimigo Nazista na Europa, desfilam orgulhosos em um carro aberto. Ano a ano o número de Ex- Combatentes se reduz dada a avançada idade dos que não podem comparecer, ou mesmo pela morte de alguns destes. Coronel da reserva, tendo servido sua amada Aeronáutica, o velho João Lopes reunia-se regularmente com um pequeno número de colegas e simpatizantes saudosistas dos Anos de Ouro da Base Aérea de Natal. Não havia um nome para o grupo daqueles saudosistas assim como não havia um horário nem um local específicos. Apenas uniam-se e entre doses de uísque, conhaque, cerveja ou cachaça, aqueles homens relembravam um passado em comum: o serviço militar e a presença norte americana na Natal da II Guerra. Nenhum deles havia servido durante aquele período. Alguns nem mesmo eram nascidos enquanto outros ainda eram crianças. João Lopes era um adolescente com seus 15 anos de idade no ano em que a Guerra se deu por encerrada. Desde menino, Fernando testemunhava os encontros do seu avô com os velhos amigos. O garotinho era conduzido às tardes de infindáveis diálogos onde predominava o passado e os assuntos se repetiam: O museu da aviação sai ou não sai? E a preservação da Rampa? Aquilo ali merece ser ponto atrativo da história da nossa querida cidade! E o jipe dos presidentes? (melhor dizendo: o jipe de Roosevelt). Destes amigos e colegas do seu avô, Fernando destaca o pequeno, porém elegante, oriundo de Minas Gerais o octogenário Pedro Alencar, também coronel da reserva. Seu Pedro era o gentleman do grupo. Muito educado e polido, seus modos e suas palavras eram sempre naturalmente carregados de cavalheirismo e
  11. 11. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 10 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria amabilidade. Agraciado com uma cabeleira vasta, livre de calvície, sofria acusações, por parte dos amigos, de ser o preferido pelas mulheres. Mas seu Pedro apenas sorria ternamente e repetia: – Fátima não gosta destas chacotas para comigo! – dizia referindo-se à fiel esposa. Vaidoso, seu Pedro cultivava o hábito de pintar os cabelos de castanho, a cor original. Quando iniciou o hábito, Alfredo, amigo de longa data, foi o primeiro a declarar que aquilo não era hábito de homem sério. Onde já se viu cabra macho pintar os cabelos? Os outros amigos socorriam seu Pedro alegando que era cultivando e tratando a cabeleira que ele atraía os olhares femininos. – Não digam isso! Olha que a Fátima fica braba, se escuta uma coisa destas! Ai de mim! Alfredo Lisboa Corte, ex-tenente e depois próspero comerciante de tecidos. De estatura mediana, gorducho, dono de brilhantes olhos azuis e escassos cabelos brancos, fora colega de João Lopes desde o ginásio nos velhos tempos do Colégio Atheneu. Tinham a mesma idade e juntos ambicionaram a carreira militar, tendo João Lopes levado o sonho mais a sério enquanto Alfredo conquistava as garotas, casara-se e separara-se por três vezes, acumulando um total de sete filhos. Vivia às voltas com uma eterna amante e atual namorada. Relacionamento este que Fernando considerava muito moderno. Alfredo não tinha papas na língua. Falava palavrão, contava piadas, divertia os amigos e não se cansava de investir nas mulheres solteiras que lhe cruzassem o caminho. Assim, mesmo quase octogenário, contava suas recentes aventuras amorosas garantindo que eram todas verdadeiras. Quando estava em companhia dos amigos e tentava investir seu charme da terceira idade em uma mulher e não lograva êxito, geralmente atribuía, com muito bom humor, o seu fracasso ao fato do alvo não ter cedido por causa do Pedro. – Ela gostou do Pedro! – Dizia – esse Pedro é um fura olho! Vou mandar umas cartas anônimas à Fátima pra ela segurar esse fura olho em casa.
  12. 12. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 11 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Tancredo Alves Fontes Filho, funcionário da Caixa Econômica Federal. Aposentado, natural do Mato Grosso, mas casado com uma potiguar, portanto residente em terras de Poti há mais de trinta anos. Chamavam-no de Armário, por causa do seu tamanho e porte atlético. Os amigos diziam sempre que ao lado de Armário estariam seguros, já que sua aparência e sua voz grave fariam qualquer mal intencionado bater em retirada. Alfredo não se cansava de questionar aos outros colegas, em tom de chacota, porque cargas d’águas justamente o único dali que possuía porte atlético não havia sido militar, e sim um preguiçoso bancário que deveria ter deixado a barriga crescer enquanto permanecia sentado a um birô na Caixa Econômica. Por fim, o mais jovem, seu Emanoel (não sabe o sobrenome) que fora sargento do exército e atual proprietário de imóveis espalhados pela cidade e adjacências. Homem careca e de orelhas muito afastadas do crânio, davam a Fernando uma visão engraçada, além do seu andar empertigado e camisas excessivamente coloridas, o que fazia Alfredo não se cansar de perguntar se no lugar onde ele comprava aquelas camisas havia camisas para homem. Não se sabia ao certo o que acontecera ao famoso jipe que entrou para a História por ter conduzido os Presidentes em 1943. Aquele carro era objeto de desejo de todos os amantes do tema “Natal na II Guerra”. Não era incomum que alguém aparecesse com modelo idêntico alegando tratar-se do imortalizado veículo. Havia sempre um saudosista disposto a pagar por um jipe que se passasse pelo “jipe dos Presidentes” mesmo assumindo o risco de aquele não ser exatamente o veículo imortalizado pela ocasião e pela fotografia. E quem sabia o paradeiro do verdadeiro jipe? Ninguém, ora! Mas bastava surgir um modelo idêntico e não faltavam amantes do tema II Guerra dispostos a pagarem o preço. Fora seu vizinho Climério quem soube de um jipe do mesmo modelo. Fernando visualizou neste carro a possibilidade de ganhar
  13. 13. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 12 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria algum dinheiro às custas daqueles homens, amigos do seu avô. Bastava localizar o referido carro, ver seu estado, fazer eventuais reformas e apresentá-lo aos “coroas” sob a alegação de que aquele era o famoso jipe que havia conduzido os Presidentes em 1943. Se por acaso nenhum dos amigos do seu avô se interessasse pela réplica falsa não haveria problemas, visto que o rapaz acreditava que amantes do tema II Guerra se interessariam. Bastaria anunciar nos classificados e na internet. Um leve sorriso deformou o canto de sua boca enquanto o rapaz sonhava acordado com o dinheiro que lucraria na transação. – Belo plano Fernando! – disse a si mesmo diante do espelho enquanto penteava seus volumosos cabelos.
  14. 14. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 13 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria CAPÍTULO DOIS ntimo da casa desde os tempos de menino, Fernando vai emburacando enquanto adverte que se há alguém pelado, que vista a roupa. Faxineira da residência há pouco mais de um mês, a cinquentona dona Mateusa já nem estranhava os modos do jovem vizinho. Orlando, o cãozinho pequinês, corria até os pés da habitual visita, latia dando as boas vindas e retornava para seu dono, Climério. Batizaram-no de Orlando devido à pequena confusão feita em relação ao seu gênero sexual tendo sido a princípio, chamado de Lady. A veterinária por fim esclareceu que se tratava de um macho. Então, diante do mal entendido, Climério resolveu batiza-lo definitivamente de Orlando, tal qual o personagem de Virgínia Wolf que ora fora homem, ora fora mulher. Mesmo diante das muitas intimidades que desfrutava da casa, o rapaz adentrava a sala ou, quando ia pelos fundos, a cozinha. Nunca avançando os cômodos sem ser convidado. E o convite não tardava. Climério logo gritava do seu quarto, pedindo que entrasse. Naquela casa tudo era antigo, dos móveis às roupas dos habitantes. Estofados dos anos 70, geladeira com mais de 30 anos de uso, cristaleiras, candelabros, a arquitetura, os azulejos, as fotografias, os quadros na parede, o bidê no banheiro. Os carros eram modelos que já nem se fabricavam mais e até o cãozinho, o pequinês Orlando, era de uma raça já em “desuso” na era dos poodles, pinschers e pitt bulls. Novo naquela casa havia apenas o que era reposição, depois que o antigo havia se inutilizado por desgaste. Climério parecia usar as roupas de outrora do seu pai que por sua vez vivia quase sempre vestido de pijama. Í
  15. 15. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 14 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Fernando encontrou o vizinho e amigo sentado em uma confortável poltrona, com os pés suspensos em um puff. Diante dele, um aparelho de TV em LCD muito grande, moderno, novinho em folha, pois a TV antiga queimara. – Assistindo Barbarella pela enésima vez? Se quiser eu saio pra deixar você bater sua bronha em paz, enquanto fantasia com a outrora jovem Jane Fonda. – Vai te foder! – rebate calmamente sem desviar o olhar da TV – senta por aí. O recém-chegado puxa a cadeira do birô e a arrasta pelas rodinhas, conduzindo-a para o lado do anfitrião. Senta-se e cruza os braços e as pernas. Nada dizem. Apenas assistem a um filme antigo com Louise Brooks. Desta vez não era, mais uma vez, Barbarella. A diferença de idade entre os dois era de 25 anos. Desde que chegou à casa ao lado, Fernando, segundo as palavras do próprio Climério, o tem importunado. O então menino invadia o jardim dos vizinhos para perturbar o cachorrinho dali, roubar as rosas vermelhas e perseguir os pardais. Climério perdeu as contas das vezes que o expulsara aos gritos e ameaças de meter-lhe uns cascudos para afundar sua moleira. Felizmente as ameaças ficavam por ali mesmo e o então menino passava a frequentar a casa cada vez mais a convite do velho delegado aposentado, pai de Climério, seu Clemente Jordão. O idoso já contava 90 anos. Dono de casa exemplar e ativo cuidador de plantas, andava levemente curvado, sofria de catarata da qual se recusava a se oprerar, alé, de quê era quase surdo. Gostava também de cuidar de Orlando. Além de Climério, teve três filhas. Com orgulho casou todas as três e com o coração partido as viu indo embora morarem em diferentes estados do Brasil. Apenas o caçula o fazia companhia. Já era viúvo há 25 anos. O filho, a pretexto da surdez do velho pai, gritava com este durante todo o dia. Gritaria esta que já nem importunava os vizinhos que apesar de reprovarem a atitude de Climério para com o pai, ninguém ousava meter-se.
  16. 16. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 15 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Algumas histórias perseguiam seu Clemente e não se sabe aonde se iniciam os mitos e destaca-se a realidade: Em 1938, aos 18 anos, tornou-se perseguidor e matador de cangaceiros; Getúlio Vargas em pessoa, na então capital do país, Rio de Janeiro, o nomeou delegado nos anos 40; “roubou” a filha mais velha do Coronel Jerônimo Furtado no Estado de Alagoas. Aos 60 anos reagiu a um assalto, deixando o saldo dos dois bandidos mortos. Dizia-se que Clemente não tinha clemência. Orgulhoso dos feitos e lendas sobre o pai, Climério costumava repetir exaustivamente tudo o que já vira e ouvira a respeito da macheza do seu genitor. Alto e rechonchudo Climério tinha uma aparência robusta. Seu palavreado era eclético, porém os mais usuais pertenciam aos baixos calões. Para ele nada era ruim. Preferia dizer que o que julgava ruim era na verdade uma merda, ou uma bosta. Nunca trabalhou e fiava-se nos bens do pai, possuidor de terras, imóveis e uma boa pensão federal. Desde menino vivia de uma glória que não era sua e de um passado que não era seu. Em seus tempos de escola quando importunado, ameaçava bater nos colegas a ponto de quebrar-lhes os dentes. Gostava de dizer que era brabo igual ao seu pai. A verdade é que, na prática, não passava de um covarde. Contador de histórias, isso sim, ele era. Sempre enfiado em um livro ou em gibis coloridos. Na adolescência conheceu e encantou-se com filmes de ficção científica. Ganhou um vídeo cassete do pai (na verdade exigiu que o pai o comprasse) e quando não estava na vídeo locadora estava trancado no quarto assistindo Barbarella e todas as fitas de Jornada nas Estrelas, dentre outras. Em pouco tempo também se apaixonou pelos filmes do James Bond, Bruce Lee e qualquer filme de ação ou qualquer um onde apareciam mulheres com pouca roupa. Também gostava dos clássicos. A partir dos anos 80 passou a admirar os filmes de John Woo. Depois, nos anos 90 vieram os filmes de Quentin Tarantino e Roberto Rodrigues. Despertara também para o cinema antigo: Greta Garbo, Louise
  17. 17. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 16 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Brooks, Marlene Dietrich, Audrey Hepburn, Elisabeth Taylor e, claro, Marilyn Monroe, dentre outras tantas. As pornochanchadas brasileiras não ficavam de fora assim como os famosos filmes de Glauber Rocha e Anselmo Duarte (Absolutamente Certo era um dos seus preferidos e o título transformara-se em um dos seus bordões). Suas preferências iam se somando, nunca se segregando. O resultado era uma coleção de fitas, DVD´s e pôsteres de cinema que ele conseguia graças a seus ativos contatos com todos os fãs clubes de que tinha conhecimento pelo Brasil. Tamanho empenho o fez separar um quarto em anexo apenas para acomodar as suas paixões. No seu quarto de dormir Jane Fonda, vestida de Barbarella, reinava em sua cabeceira, estampada em um pôster que ele mandara buscar há anos no Fã Clube Oficial Barbarella Brasil, de São Paulo. No quarto anexo, os pôsteres eram mais variados: Bond girls para todos os gostos, Brigite Bardot, Gina Lollobrigida, Claudia Cardinale, Bo Dereck, Vanessa Redgrave. Enfim, musas e mais musas. Todas suas, só suas. Era evidente que sua Barbarella possuía um lugar todo especial em suas preferências. Mesmo assim ele negava: não tinha preferidas. Amava a todas. Assim, Fernando sempre o flagrava revendo os mesmos filmes e jurando amores pelas mesmas mulheres. O apaixonado por Barbarella não fazia muito sucesso com as mulheres. Sovina famoso, quase nunca levava suas poucas namoradas para passeios. Mentiroso, bem cedo percebeu que seu perfil verdadeiro não agradava às moças. Por isso se utilizou algumas vezes de “identidades secretas”. Acreditava estar fazendo a coisa certa e alimentava a esperança de que quando suas mentiras fossem descobertas, seria devidamente perdoado por quem o amasse de verdade, assim como nos contos de fadas em que o amor verdadeiro desfaz feitiço e maldições. Apesar de se esforçar não conseguia esconder sua verdadeira personalidade por muito tempo e o resultado era o abandono seguido por um período onde ele mergulhava em seu mundo próprio de fantasias cinematográficas para logo depois buscar outra pretendente no mundo real. Mas
  18. 18. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 17 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria quanto mais o tempo passava mais Climério acumulava a fama de mentiroso, preguiçoso e desavergonhado. Apenas uma única vez ele julgou ter amado. Foi aos 27 anos de idade, quando sofreu um atropelamento ao retornar de uma festa pela manhã. O acidente não fora grave, mas se fez necessário permanecer alguns dias no hospital até ser liberado para dar continuidade ao tratamento em sua casa. Acontece que uma das enfermeiras do hospital o tratava com tanta solicitude e atenção que o solitário e emocionalmente desafortunado jovem logo se sentiu atraído pela enfermeira do turno diurno. Marluce devia ter 21 anos e era possuidora de um grande sorriso meigo. Nunca se aborrecia e parecia sempre estar desenvolvendo suas obrigações com prazer. Inexplicavelmente Climério sentia-se tímido diante dela. Talvez tomado de um sentimento tão profundo que temia dizer ou fazer algo que desagradasse sua amada. Quando recebeu alta do hospital exigiu que a família contratasse Marluce para cuidar dele em sua casa. A moça aceitou, mas só podia comparecer nos momentos de folga do hospital. Para Climério qualquer segundo ao lado da amada era consolador e diante da escolhida comportava-se excelentemente bem, não xingava os pais e ostentava sorrisos, além de destilar todo o seu pouco usual cavalheirismo e desapego material. Infelizmente, como era de se esperar, Climério ao final de três meses estava completamente recuperado e Marluce teve de ser dispensada. Mesmo assim ele ainda fingiu estar adoentado por mais duas semanas até que o médico o declarou completamente curado. Marluce partiu e nunca mais se viram, apesar das promessas de se reencontrarem. Ele ainda a procurou no hospital tempos depois, mas não obteve sucesso. Soube apenas informalmente que a sua querida havia se casado e mudado para uma cidade do interior do Estado. Ainda fantasiou que se reencontrariam e que poderia impressioná-la de alguma forma, mas isso não aconteceu. Passados dois anos e meio do seu último contato com Marluce, ele resolveu tatuar uma enfermeira na parte interna do seu flácido braço esquerdo.
  19. 19. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 18 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria A diferença de idade e temperamento entre Climério e Fernando não afetava a amizade. De vez em quando este último visitava o vizinho para simplesmente conversarem ou sugeria verem um filme que já haviam visto antes. De preferência um bem violento. John Woo ou Tarantino eram os preferidos por Fernando. Sentavam-se lado a lado fazendo intervalos ocasionais para prepararem um lanche e aproveitavam o filme. Quando estava cansado do dia a dia e não podia despejar seus dissabores somente conversando com Jurema, era com o vizinho que o jovem procurava desopilar. Mesmo tendo este amigo largado os estudos, Fernando o considerava como um sábio. Então se aconselhava com este, ainda que não acatasse os seus conselhos. Às vezes nem era necessário trocarem palavras. A visita apenas chegava em silêncio sentava-se ao lado do anfitrião e assistia ao filme que Climério estivesse vendo naquele momento. Só depois que o vídeo acabava é que trocavam algumas palavras. Às vezes o visitante se demorava; às vezes ia-se logo. Mas nesse dia ele queria tratar de negócios. Louise Brooks. Mais uma vez Climério via “A Caixa de Pandora”. Fernando já nem fazia observações irônicas quanto às preferências do vizinho. Mas cinema mudo era o cúmulo Climério! Gracejava: – Como é sentir tesão por uma mulher que em 1922 tinha 20 anos de idade e que agora já está morta? – Não tenho tesão por ela, seu doente! Se você sair por aí falando essas coisas vão acreditar nisso. E aquelas conversas sobre bronhas e Barbarella... Fernando explodiu numa gargalhada. O ofendido continuou: – O que sinto por Barbarella é amor à arte! – Não quero discutir isso. Só estou brincando com você! Adoro lhe perturbar!
  20. 20. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 19 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Absolutamente certo! – remexeu-se na poltrona – Você já me perturba há mais ou menos – fingiu puxar pela memória – 15 anos! – Mas eu não vim aqui pra relembrar o passado. Vim falar de negócios. – Lá vem você... – disse se erguendo da poltrona para escancarar a janela do quarto e logo retornar ao confortável assento. O dia estava muito quente. – Qual é o problema? Eu vou comprar um velho jipe nos moldes legais, fazer uns testes e reparos e vendê-lo para um interessado. Existe algo desonesto nisto? – Esse lance de você dizer pros coroas, amigos do teu avô que o jipe é o mesmo que conduziu Vargas e Roosevelt é uma sacanagem! – E daí? Os velhos tem grana, e eu preciso de grana. Quem é que sabe do paradeiro desse maldito jipe? Além do mais, e em todo caso, o modelo é um clássico. Os colecionadores amam esse carro. – Eu nem vi o carro ainda. Nem sei o estado dele. Tudo começou com um comentário ingênuo sobre carros... – Ok, esquece essa parte. Quero ver essa moça amanhã. Quero ver esse carro o quanto antes. – Vou ligar p’ro cara e pegar o endereço direitinho. – Absolutamente certo!
  21. 21. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 20 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria CAPÍTULO TRÊS stava cansada, mas sua sorte era maior que a da maioria naquele ônibus lotado. Conseguira um lugar onde seguia viagem sentada ao lado de uma janela pela qual se podia admirar a paisagem. Gostava de ver a cidade. A mesmíssima paisagem de todos os dias. Na Avenida Bernardo Vieira os motoristas faziam o que podiam ora freando, ora acelerando, mediante as cores que se acendiam nos semáforos. A cada freio acionado pelo motorista, o ônibus exalava um forte cheiro nauseante que, silenciosamente incomodava os passageiros, apesar de ninguém reclamar. Alguém, alguma vez (ela já não se lembrava quem) disse-lhe que aquele forte cheiro de ferro quente provinha das pastilhas de freios já gastas. No ônibus da linha 73 ela já conhecia, mesmo que apenas de vista, quase todos os passageiros daquele horário. Um sorriso, um aceno de cabeça ou uma gentileza ao carregar as bagagens uns dos outros eram as maneiras de se cumprimentarem. As mesmas caras, as mesmas companhias na viagem da zona sul à zona norte de Natal. Nem precisou solicitar que a condução parasse quando chegou ao seu ponto final, pois algum de seus companheiros de desembarque assim o fez. O ônibus parou fazendo barulho como que “resfolegando’, ela pensou. Esperou que uma pequena aglomeração humana próxima à porta de desembarque se esvaísse. Então desceu. Alguém lhe dirigiu um até amanhã, ao que ela acenou com um sorriso. A maioria desembarcava e já ia correndo, saltando para evitar uma poça d’água ali, acolá, ou andavam apressadamente por causa da fina e insistente chuva que caia e mais se parecia com E
  22. 22. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 21 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria borrifos contínuos de água caídos do céu. Permaneceu andando, sem se importar. Seguiu pela rua até alcançar uma esquina e entrar á direita, parando em seguida no número 20. Saudou uma velha vizinha negra sentada à porta sob um alpendre feio e mal projetado no outro lado da rua, um pouco mais adiante. Ainda fitando a velha do outro lado da rua, a jovem abriu com gestos automáticos, um portão bem maior que ela mesma. Passou por ele e acessou um pequeno pátio todo ornamentado de plantas envasadas e coloridas. Ainda lembrava como se fosse ontem, de suas primeiras impressões sobre aquele lugar quando, pela primeira vez, chegou àquele endereço simples, pequeno, mas com ares de “condomínio residencial” (tal qual insistia a proprietária). “O cortiço” pensou lembrando-se do velho clássico da literatura que lera quando adolescente. A fina chuva lhe caia sobre o corpo encharcando-lhe a roupa e deixando seu rosto crivado de gotículas d’águas que lembravam orvalhos. Alguns lhe escorriam rosto abaixo. Ela não se incomodava. Alcançou um pequeno trecho lajeado que dava acesso a uma escada em “L” formada por 16 degraus. Degraus estes que ela não se cansava de contar pisando em cada um deles e marcando mentalmente as pisadas, como se fosse uma criança que brinca ao pisar nos ladrilhos das ruas e calçadas. A chuva já não caia mais sobre seu corpo. Caia agora tamborilando sobre o telhado a metro e meio acima de sua cabeça. Ao final dos 16 degraus chegou num pequeno corredor onde à esquerda havia duas portas distantes poucos metros uma da outra; à direita um parapeito grosseiro que se resumia a meio muro mal alinhado onde, ao se debruçar, avistava-se o pequeno pátio logo lá embaixo. Dali, daquela pequena altura podia sentir o cardápio do jantar da vizinhança: o cheiro de pão vindo da padaria, o café sendo preparado, o cuscuz cozinhando no vapor, e o cheiro de sopa de feijão invadiam-lhe as narinas despertando nela lembranças tão antigas de quando era criança, ou menos antigas, de quando era casada. Enfiou a chave pela fechadura da primeira porta
  23. 23. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 22 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria à sua esquerda e adentrou em seu pequeno apartamento fechando a porta logo após. Sua pequena morada ganhava vida após passar um dia inteiro trancada. Como ainda chovia, não abriu as janelas para arejar o recinto. Limitou-se a acender uma lâmpada e ligou a TV. Gostava de ficar ouvindo a TV enquanto andava ocupada pela casa. Deixou a bolsa em cima de sua pequena mesa redonda de refeições, próxima à entrada. Dados poucos passos, chegou ao quarto, ainda escuro. Tirou a roupa e caminhou assim até o banheiro. Achava que uma das grandes vantagens de morar sozinha era não temer ser surpreendida nua pela casa. Acendeu a luz do banheiro. Iniciou seu banho enquanto o som da TV ligada na sala misturava-se ao barulho da água descendo do chuveiro e escorrendo ralo abaixo. O banho foi rápido. A água estava fria. Vestiu-se agilmente e foi até a cozinha a fim de preparar a cafeteira. A despeito do cardápio alheio que sentira ainda há pouco, teria de se contentar com café e pão amanhecido com manteiga. Café pronto pôs-se, como de costume, a comer na pequena mesa redonda, sem desgrudar os olhos do noticiário local. Desviou a atenção por poucos segundos em direção à porta de entrada de onde ouvia passos vindos da escada de 16 degraus lá fora. Era o seu vizinho Antônio, que chegava em casa. Ele morava com uma irmã solteira no apartamento do lado. Vinha assoviando e cantarolando enquanto dava passos arrastados (coisa que irritava sua vizinha). Os passos iam ficando cada vez mais próximos até que passou direto e ela ouviu o tilintar da chave ao abrir a porta quase ao lado da sua. Gostava de ouvir que havia gente por perto, sentia-se menos sozinha. De repente, ao bebericar seu café, por cima da xícara, seus olhos pousaram sobre um pequeno papel verde no chão próximo à porta. Levantou-se sem largar a xícara e se dirigiu até o papel largado no chão. Abaixou-se para apanhá-lo. Com certeza, pensou, fora colocado por baixo da porta. Leu: “Quero lhe falar sobre o carro. Interesso-me em adquiri-lo. Por favor, ligue-me. João Fernando”. Deixou escapar um muxoxo. Nunca falara em vender seu velho jipe. Quem era João Fernando? Não conhecia nenhum. Voltou
  24. 24. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 23 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria para sua posição inicial, a tomar café vendo TV. Deixou o papel verde sobre a mesa de jantar. A chuva, do lado de fora, parecia ter ficado mais forte. Pela manhã não havia indicio algum de que chovera na noite passada. O Sol brilhava forte e leves nuvens pairavam no Céu azul. O bairro acordava freneticamente com um intenso cheiro de café no ar. Da padaria exalava o cheiro de lenha queimando e um forte cheiro de pão. A sirene da escola na quadra logo atrás do “condomínio” acabara de ser acionada anunciando a hora de entrar. Eram sete da manhã. A vila possuía oito apartamentos. Seis embaixo e dois em cima. Estes últimos eram os mais novos em relação aos outros. A entrada principal da vila era estreita na frente. O pátio ia do portão de entrada até a parede lisa e sem janela da lateral do primeiro apartamento. A estrutura externa do conjunto de apartamentos nada mais era que uma comprida construção com seis portas e seis janelas. De frente às portas dos apartamentos havia ainda um espaço de dois metros cimentado grosseiramente, que terminava em um muro não rebocado, mostrando a estrutura dos tijolos intercalados com cimento. Apesar deste descuido, o muro era caiado. Ao fundo avistava-se a escada de alvenaria com 16 degraus. Esta escada dava acesso aos dois únicos apartamentos no andar superior. Todo o pátio era ornamentado com vasos de plantas variadas e coloridas. Cuidar destas plantas era o passatempo preferido da proprietária do “condomínio”, d. Dalva. Esta podia ser encontrada sempre pelas manhãs ou ao entardecer, a cuidar de suas plantas. D. Dalva era uma mulher pequena. Devia ter uns cinqüenta anos. Possuía cabelos loiros e encaracolados. Seu corpo era esguio e sua brancura estava queimada pelo Sol. Era casada com um antigo funcionário do departamento de trânsito do Estado e tinham cinco filhos. Diziam as más línguas que o marido de d. Dalva havia construído o “condomínio” com o dinheiro que recebia das propinas. Enquanto
  25. 25. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 24 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria ele trabalhava para o Estado, sua esposa administrava os aluguéis, inquilinos e plantas. A pequena mulher era exigente em relação aos seus inquilinos. – Num alugo meus quartos a todo mundo não! Criança não, que tira o sossego dos vizinhos, né minha filha? – Costumava dizer entre os vizinhos, com seu velho costume de se dirigir aos seus interlocutores por “meu filho” ou “minha filha”. E continuava: - também os quartos são pequenos, só sala, cozinha, banheiro e uma areazinha de serviço. É p’rá, se muito, dois ou três adultos, né filha? Invariavelmente, quando fechava negócio com um novo inquilino (seus apartamentos eram disputados, pois eram considerados sossegados e bem seguros) d. Dalva costumava entregar aos novos moradores uma folha de papel, digitada por sua filha do meio, contendo o salmo 23 e as regras básicas de convivência do “condomínio”:  Não permitimos som alto;  Não permitimos bebedeiras;  Não permitimos animais;  Não permitimos gritarias;  Não permitimos veículos motorizados nas dependências do condomínio;  Não permitimos brigas;  Após as 20:00 hrs. o portão principal deverá ser fechado, devendo cada um dos moradores ser responsável por suas cópias de chaves;  Zele pela sua segurança e pela segurança coletiva. “O Senhor te abençoe e te guarde”. Ângela estava de folga do trabalho, mas mesmo assim acordou cedo. Era uma quarta feira. Constatou que precisaria ir à padaria comprar algo para o seu café da manhã. Vestiu-se
  26. 26. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 25 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria casualmente e saiu com os cabelos soltos. Desceu as escadas de 16 degraus e ao acessar o pátio encontrou d. Dalva agachada sobre um vaso de planta. A proprietária, que tinha um conhecido faro para o comportamento alheio, percebeu a jovem viúva e antes que esta se aproximasse, a mulher voltou-se e a cumprimentou: – Bom dia minha filha! – Bom dia D. Dalva. – Ontem veio aqui um rapaz atrás de você. Eu disse que você não estava. Aí ele perguntou um bocado de coisa mais eu num disse mais nada não, minha filha! Dizia ela remexendo na terra do vaso. E continuou: me desculpe, mais eu num conheço ele, e você mora só... (a reticência deu ao final da frase uma ênfase de cautela). – Tem razão, d. Dalva. Eu realmente não recebo ninguém, a senhora sabe. – Por isso mesmo minha filha - continuou enquanto se levantava e enxugava o suor da testa utilizando-se da parte externa do seu antebraço, – nunca se sabe. Mais ele fez questão de deixar um papelzinho e pediu pra eu colocar por debaixo de sua porta. Aí isso eu fiz porque num achei nada demais! Fez-se silêncio enquanto vinha à memória de Ângela o bilhete lido por ela na noite anterior. Então ela disse: – Li o papelzinho. Muito obrigada d. Dalva! – De nada minha filha. Eu até fiquei com pena do bichinho! – De quem? – Do rapaz! – Ah... – estava absorta em seus próprios pensamentos – O coitado ficou parado no portão, batendo palmas debaixo do Sol do meio dia. Eu tava lavando roupa (d. Dalva residia numa espaçosa casa logo ao lado da vila) e saí para ver quem era. – Muito obrigada d. Dalva. A proprietária do condomínio a olhava sem mais nada a acrescentar.
  27. 27. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 26 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Enquanto a senhora conversa com as suas plantas, eu vou à padaria. Estou com uma fome! – disse e retirou-se. Transpôs o portão que dava acesso à rua, rumou à direita até atingir a esquina e, novamente à direita dirigiu-se à modesta padaria do bairro. A circulação de pessoas na panificadora naquele horário era grande. No balcão algumas pessoas aguardavam para serem atendidas. Havia no salão do estabelecimento algumas poucas mesinhas de vinil onde fregueses sentados tomavam seu café da manhã. A maioria dos clientes do lugar eram os mesmos de sempre, afinal o bairro era completamente residencial, não tendo deste modo nada que atraísse visitantes à comunidade. Mas naquela manhã Ângela, ao colocar seu primeiro pé na soleira do estabelecimento não pôde deixar de notar figura diferente dos freqüentadores do local. ”Rapaz bonito!” pensou logo consigo mesma. Era um rapaz de seus 19 anos, alto, atlético, pele clara como uma folha de papel e cabelos negros e lisos a lhe caírem sobre o perfil. Ele virou-se rapidamente para o lado da moça que acabara de adentrar o local. Não atraído por ela, mas por um buzinar de carro. A viúva então pôde ver melhor o rosto do desconhecido e o achou parecido com os tipos de rapazes que se vêem nos filmes sempre representando os papéis de príncipes. E ele parecia mesmo ser nobre. Seus modos eram elegantes e seu olhar firme. Cílios longos e negros causavam inveja às mulheres que precisavam recorrer à maquiagem para conseguirem o efeito que, naquele rapaz, era pura graça da natureza. Tinha ainda lábios carnudos, nariz afilado, maçãs do rosto bem preenchidas, queixo levemente largo e carnudo e olhos amendoados. O rapaz olhava tudo em volta. Era um olhar firme, desses que não se alteram facilmente. Apesar de ser quase um homem, aquele jovem tinha ares impúbere, devido suas feições, seus cabelos lisos e inquietos e a pele do rosto extremamente lisa sem marca alguma de pêlos. Ela comprou seu café da manhã e rumou de volta para casa.
  28. 28. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 27 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Desfrutou de um dia de folga preguiçoso alternado entre leitura, TV, incursões culinárias e música. Sentiu que o dia passou rápido. Dormira cedo na noite anterior e em conseqüência acordara cedo. Abriu os olhos e tentou enxergar as horas em miúdos números acesos no painel do antigo vídeo cassete adquirido por George. Precisou esfregar os olhos duas vezes para visualizar as horas. Eram seis da manhã. Permaneceu deitada planejando dormir um pouco mais. Só trabalharia às dez da manhã e tinha bastante tempo até lá. Virou-se e se deparou com o livro que estava tentando ler há um mês. Era uma ótima história, mas ela estava desanimada e não conseguia concentrar-se. Fechou os olhos na esperança de dormir um pouco mais. Constatou, porém, que não conseguiria. Pela luminosidade através da janela fechada presumiu que o dia seria ensolarado. E, não resistindo a um insistente cheiro de café que vinha da vizinhança, levantou-se. Antes de qualquer outra atitude, preparou a cafeteira elétrica e a acionou. Foi até o banheiro desanimadamente e não pôde evitar o espelho logo acima da pequena pia. Olhou-se estudando os traços do próprio rosto. A boca carnuda, o nariz pequeno, as sobrancelhas e as tímidas olheiras. Achava incrível como o seu olhar e seus olhos eram uma marca tão evidente de sua família. Sua falecida mãe havia involuntariamente transposto seu olhar e seus olhos para os filhos e, olhando-se no espelho, Ângela podia enxergar em seu próprio rosto o rosto de sua falecida mãe e até mesmo de suas irmãs e irmão. Lembrou-se da infância, de quando ainda era tão pequena e já se olhava no espelho estudando suas feições e perguntando-se por que era filha de pais separados. Por que nascera pobre? Por que não era tão bonita? E agora, tantos anos depois, acrescentava à sua lista de “porquês”: por que perdera os pais? Por que perdera George? Por que não prosseguira nos estudos? Por que era tão desprovida de sorte? Não sabia as respostas. Apalpou o rosto de leve com as mãos e as deslizou testa acima terminando por alisar os cabelos. Ainda se
  29. 29. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 28 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria encarou com dureza diante do espelho, mas finalmente sorriu de leve. Sentiu-se uma idiota. Despiu-se e ligou o chuveiro. A água estava tão fria que pôde sentir os pêlos do corpo se eriçarem. Sua pele ardia em frio e por causa disso não se demorou sob a água e muito apressadamente se enxugou para em seguida vestir um roupão muito maior que ela. Seguiu para a cozinha a fim de tomar café à base de pão, queijo regional. Meditava enquanto comia. Não quis ligar a TV. De súbito, levantou-se para ir ao quarto apanhar o livro que tentava ler. Voltou para a mesa. Acomodou-se e entre um gole e outro, folheou o livro sem conseguia se concentrar. Pôs-se, languidamente, a percorrer a vista por seu pequeno apartamento e sem perceber um sorriso teimoso estampava-lhe o rosto. Tantos objetos naquela pequena morada que tanto testemunharam os últimos quatro anos da união daqueles dois. Ela não tentava enganar a si mesma. Sabia que mais cedo ou mais tarde abandonaria o marido, que já não o amava mais. Mas ele não precisava morrer. No entanto ele morreu em um sábado em que estava de folga e foi para um trabalho extra em um hotel em construção. Ele saiu de casa para nunca mais voltar. Ela se lembrava e se culpava pelo medo que teve de tocá-lo durante todo o funeral. Não podia acreditar que toda aquela pele que um dia já teve tanto contato com a sua estivesse agora tão pálida e sem vida. De ônibus ela levava em torno de uma hora para se locomover da zona norte até a zona sul, ou seja, de sua casa até o seu trabalho. Se não havia embaraços no trânsito ganhava quinze minutos de vantagem. Em sua bolsa carregava o uniforme do trabalho e alguns pertences, além de pentes, batons e tudo o mais que uma moça, mesmo as menos vaidosas precisam. Logo que o shopping abria e as lojas punham-se a funcionar, já surgiam os primeiros clientes. Entre um atendimento e outro, Antunes, Camila e ela trocavam alguns assuntos. Por volta do meio dia toda a praça de alimentação do shopping se povoava de clientes ávidos a comerem.
  30. 30. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 29 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria O movimento persistia até as 15:00hrs. Yara chegava às 14:00 hrs. e trabalhavam juntas até às 18:00hrs e a partir daí Yara trabalhava sozinha até às 22:00hrs. Cinco horas e quarenta e cinco minutos da tarde e Ângela contava os segundos para poder ir embora. Tivera um dia difícil com um intenso movimento dos clientes. Em dado momento daquele dia enquanto servia uma dupla de rapazes ela passou por apuros devido a gracejos de mau gosto por parte da dupla que insistia em lhe convidar para sair em troca de dinheiro. Constrangida e impedida de replicar, pois se o fizesse temia iniciar uma discussão que assustasse os outros clientes, ela limitou-se a tratar a desagradável dupla como se nada estivesse acontecendo, mesmo abalada por dentro. Por fim a dupla tentou evadir-se do local sem pagar a conta e ela precisou ser rápida e acionar os seguranças que agiram imediatamente. O desfechou ficou oficialmente caracterizado como “um mal entendido” já que os potenciais caloteiros alegaram que haviam se esquecido de pedir a conta. A poucos minutos de largar o seu turno, todas as mesas do Café estavam ocupadas e ela não parava um minuto sequer. Servia café, limpava mesas, fechava contas, agradecia sorrindo e tudo o mais que uma garçonete faz rotineiramente. Estava limpando uma mesa que havia acabado de ser desocupada quando um jovem aproximou-se fazendo menção de ocupá-la. – Fique à vontade! Disse graciosamente enquanto puxava a cadeira para o cliente. Ele sentou-se e ela, mecanicamente recolheu algumas xícaras sujas da mesa. Fitou o recém-chegado e só então se deu conta de já tê-lo visto alguma vez anteriormente. Não se espantou, afinal atendia muitas pessoas e ele podia ser só mais um dos tanto clientes. – Trás uma torta de limão e uma água com gás, por favor!
  31. 31. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 30 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Ela assentiu com a cabeça e virou-se. Voltou em menos de dois minutos e enquanto o servia, notou que ele não tirava os olhos do crachá que ela carregava no peito. – Ân-ge-la! - disse soletrando com um ar divertido. Ela não se abalou. Estava acostumada com gracejos e brincadeirinhas provenientes de clientes além de temer que os infortúnios de horas atrás se repetissem. Afastou-se e o deixou à vontade. Vinte minutos depois ele lhe fez um sinal e, enquanto falava ao celular, lhe pediu um café puro. Ela retirou-se levando consigo os utensílios que ele acabara de usar e um minuto depois retornou com o café. Ele já não falava mais ao celular. Seus olhos se encontram e ela se lembrou de onde o conhecia: o vira no dia anterior na padaria do bairro do Santarém. Era ele o belo rapaz do dia anterior. Que mundo pequeno, pensou. Ele coçou a cabeça desconcertadamente e a chamou quando notou que ela se afastava de sua mesa em direção ao balcão. – Moça! Ela voltou-se: – Pois não? Fitaram-se. Ele se ergueu e lhe estendeu a mão: – Sou Fernando! Ela, impassível com a bandeja inox na mão esquerda, limitou-se a dizer com um misto de ironia e curiosidade ao retribuir o aperto de mão: – Prazer. Sou a garçonete. Ele sorriu com cinismo e como que achando desnecessário dar explicação, mas o fez: – Estive em sua casa. Deixei um bilhete e um número de telefone. – Isso! Você é o Fernando! – ela disse, lembrando-se do bilhete. Ele suspirou e continuou: – Serei rápido por que acho que você está ocupada agora. Quero comprar um jipe que você possui. É só me dizer quanto quer e
  32. 32. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 31 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria eu lhe passo um cheque ou faço um depósito em sua conta. Só espero que peça um preço compatível com o mercado – ele falou friamente e com secura como se dar alguma explicação fosse muito custoso. Seus modos irritaram sua interlocutora que, não sabia ele, ainda carregava o sangue quente dos acontecimentos de horas antes: – Escuta: eu não fiz anúncio nenhum, certo? – disse olhando-o nos olhos. Prosseguiu: – Sinto muito, senhor João Fernando, o carro não está à venda! E agora preciso trabalhar. – Virou-se e saiu. Ele ficou parado observando a garçonete se distanciar. – Gentinha complicada! – pensou. Como não havia pago a conta, supôs que a moça voltaria. Afinal ele era um cliente e estava consumindo. Fez um sinal para que a garçonete fosse até sua mesa. Mas, para sua surpresa ela mandou outra em seu lugar. – Pois não senhor! – acudiu Yara com gestos e atenção exagerados. Ângela já havia adiantado alguns fatos para a colega, dizendo-lhe que “aquele arrogante está querendo comprar uma coisa que eu não quero vender! Termina de atender para mim. Já deu minha hora e eu preciso ir.” Ao vê-lo de longe, Yara sorriu maliciosamente e disse ao pé do ouvido da colega: “Isso! se manda! deixa-o comigo! com essa carinha de bebê eu o boto no colo.” Mesmo sem saber o que se passava na cabeça da moça, sorriu desconcertado e deb ruçado sobre os braços cruzados pousados à mesa, pediu: – Moça, sua amiga estava me atendendo e eu acho que – deu de ombros fazendo uma leve careta – por algum motivo eu a irritei... Traga-me a conta e, por favor, diga-lhe que eu me expressei mal e desejo continuar determinado assunto que ela conhece. – Bem senhor, a conta eu posso trazer, mas minha amiga acabou de largar e à esta altura esta trocando de roupa para ir para casa.
  33. 33. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 32 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Sem abandonar a posição inicial o jovem rapaz lhe sorriu de leve. Levantou-se e tirou do bolso da camisa uma nota e lhe entregou acrescentando: – Acho que isso paga a conta. Fique com o troco e me diga onde está a sua amiga – olhou em volta e continuou: – Ela ainda deve está por perto, não faz nem um minuto que eu a vi aqui no salão. Como o rapaz parecia inofensivo e Yara já sabia mais ou menos do que se tratava, julgou que não faria mal algum em dar a informação: – O banheiro feminino fica para este lado – apontou – ela já deve estar trocando de roupa agora. É só esperar por ela na saída. Ele agradeceu e afastou-se na direção apontada pela moça. Andou até o corredor dos toaletes e, com as mãos nos bolsos da calça, sorriu com ironia, pensando o quão ridículo era prostrar-se na saída de um banheiro à espera de uma garota que ele nem conhecia. Aguardou dez minutos sem tirar os olhos do corredor de onde ela possivelmente surgiria. De vez em quando consultava o relógio, até que a viu surgir fechando uma porta atrás de si. Ela não o notou e caminhou em sua direção. O rapaz ao vê-la passar, alheia, apressou o passo para alcançá-la e pôs-se a acompanhar a jovem garçonete. Ao notá-lo, ela parou e o encarou com um ar divertido. Ele quebrou o silêncio entre os dois: – Ainda tenho tempo para minhas desculpas? – Você é muito descarado! E continuou andando. Ele continuou seguindo-a. – Ângela... - começou. Procurava o que dizer sem ofender – eu sinto muito por ter sido tão irritante. – Mesmo? – disse ela num tom desdenhoso enquanto subia pela escada rolante, sempre seguida por ele. – Se você me ouvisse, mesmo que não quiser fazer negócio, pelo menos vai mudar sua opinião em relação a minha pessoa. Ela virou o rosto para encará-lo. Estavam subindo pela escada rolante e ela estava dois degraus acima dele. Mesmo assim não
  34. 34. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 33 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria atingia a altura do rapaz e precisava erguer o rosto de leve para poder fita-lo. Então disse: – Duvido que minha opinião em relação a você o perturbe. – A primeira impressão é a que fica. Essa frase é correta, mas não quero que pense mal de mim. De minha pessoa. A escada chegou ao final e ela continuou seu caminho para alcançar a saída através de um pátio amplo e cheio de carros estacionados. Seguindo sempre em frente e cortando o pátio, passando por algumas grades com estreitas aberturas, chegava-se a um calçadão sob uma passarela em área urbana da BR 101. Neste calçadão vendedores ambulantes e pessoas comuns disputavam o espaço. Os ambulantes a vender e as pessoas comuns por esperarem suas conduções. Ângela, ignorando propositalmente o rapaz, alcançou o ponto de ônibus, sempre seguida por ele. Remexeu na bolsa a fim de pegar o dinheiro da condução fingindo o tempo todo não notá-lo. Ele não se intimidou: – Como já falei, vim de longe... – É mesmo! E como foi que você me encontrou? E como sabe do jipe? – ela quis saber, interrompendo-o, falando alto por causa do barulho dos ônibus que paravam ali perto e posteriormente partiam acelerando. – O seu jipe pertenceu ao meu pai – mentiu. – Mesmo? E você tem certeza que o meu jipe foi do seu pai? – ela quis saber, desconfiada, sempre com o rosto erguido, para poder encará-lo. – Pra ser sincero, não tenho certeza. Mas o modelo é o mesmo e eu preciso fazer essa surpresa ao meu pai doente. Ela suspirou devagar e olhou fixamente para o lado. Não olhava nada em especial, só queria tempo para pensar. De início achou a história interessante e ao mesmo tempo romântica: um filho que vai em busca do carro que outrora fora a paixão de seu pai. Parecia sinopse de filme. Além do mais ela nunca achou que ganharia algum dinheiro com aquele carro. Porque não podia parar para ouvir
  35. 35. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 34 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria a proposta? Assim se livraria de vez do carro onde seu marido morrera e ainda ganhava um dinheiro. Voltou a encará-lo. Ele não tirava os olhos dela. Permanecia impassível com seus longos cílios a olhar aquela jovem. – Bem... – ela balbuciou – podemos falar de negócios então. – Na verdade o meu pai se desfez deste jipe antes de eu nascer. Não quero te obrigar a nada, mas se você pudesse compreender o quanto é importante para meu velho rever este carro e acreditar que este fora o dele, eu ficaria realmente muito grato! – Já que ele amava tanto o carro, como foi que se desfez dele? – Numa aposta! – Numa aposta? – É. Numa aposta! Ela sorriu e apareceram-lhe covinhas nas bochechas: – Que louco! E olha que amava o carro! Ele assentiu sorrindo de leve. Passou as mãos nos cabelos, olhou em volta e propôs que retornassem para dentro do shopping a fim de conversarem melhor sobre o carro e a possibilidade de fecharem negócio. Ela achou que sim, que deveriam ver com cuidado o assunto, mas não no Natal Shopping, onde ela trabalhava. – Por quê? – ele espantou-se. – Porque que não quero que as pessoas do trabalho me vejam. – E o que você tem a esconder deles? Que mal há em você conversar com um rapaz? – É que a língua alheia é terrível... Você deve saber. – Hum. Então não podemos conversar? – Podemos sim! É só atravessarmos a passarela e sentarmos nos cafés de lá, do Via Direta. – Qual passarela? Perguntou olhando para a avenida. – Esta sobre nossas cabeças. Você não é daqui de Natal não, não é?
  36. 36. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 35 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Não – ele respondeu fitando a passarela. – Então do outro lado tem outro shopping? – Tem. Não tem ar condicionado como esse aqui, mas tem uma bela vista para o campus. Vamos lá. – É eu sei. Estava só brincando com você. Moro aqui perto, no conjunto Ponta Negra. Ela não replicou. Seguiram subindo a passarela. Abstiveram-se de conversarem por causa da muvuca de sons provocada pelo vai e vem das pessoas, gritos dos camelôs (inclusive sobre a passarela) e pelo barulho dos carros sob seus pés. Ela andava sem se voltar para ele, que a seguia em silencio. Enquanto seguia a jovem rumo ao shopping sem ar condicionado, admirava-lhe os cabelos castanhos e ondulados. Revisitava os acontecimentos de poucos minutos atrás e tentava prevê se atingiria o seu objetivo. À primeira vista achou que seria fácil conseguir o jipe para dar continuidade ao plano de conseguir um bom rendimento. Muito esperto, no dia anterior (dia em que Ângela o vira tomando café na padaria), tinha ido ao bairro justamente colher informações sobre a jovem. Como percebera que de d. Dalva não conseguiria muitas informações, pois a precavida senhora parecia preocupar-se muito com a segurança de sua jovem inquilina, resolveu recorrer a Climério. Este por sua vez conhecia o padeiro da padaria onde Ângela era freguesa. O tal padeiro a conhecia de vista e lhes adiantou o que todo o bairro sabia: que Ângela estava viúva há coisa de um ano, que morava sozinha, que vivia trancada dentro de casa e que saia apenas para trabalhar em um shopping da zona sul. Desde que perdera o marido não recebia visitas e não era muito vista circulando pelo bairro. A dupla de amigos realizara buscas através de uma fonte no DETRAN. Ambos tomaram conhecimento que não constava nenhuma multa sequer contra o carro. Souberam também que os documentos estavam atrasados. Isto podia significar que o carro poderia estar no
  37. 37. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 36 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria ferro velho, ou que sua proprietária não tinha dinheiro para realizar os pagamentos obrigatórios e colocar o carro de volta em circulação. “É uma pobretona! Vai ver o cheque e vai ficar louquinha. Só espero que não seja muito esperta. Parece-me arrogante e se há uma coisa chata de se aturar é um pobre arrogante e insolente! Ainda por cima é viúva... Tão jovem! Se ela quiser posso lhe fazer uns favores íntimos. Aposto que não transa desde que o marido morreu”. Pensava ele consigo enquanto a acompanhava, embebido ao observar seus movimentos de mulher ao andar. De repente ela virou-se e o olhou inexpressivamente. Apenas disse: – Tem uns bancos ali. Acho que nem precisamos ir até a praça de alimentação. Podemos sentar ali mesmo e resolvermos logo nossa conversa. Não quero voltar para casa muito tarde. – Eu preciso de outro café. Vamos para a praça de alimentação – ele sugeriu – Acho que preciso de um também. Os dois eram igualmente frios e secos. Um só estava ali por causa do outro e cada um que estivesse sempre certo de que o outro o queria ludibriar. Ângela era vivida e as amarguras a haviam feito cautelosa e por vezes inflexível; Fernando julgava-se superior e subestimava seus interlocutores. Sem proferir palavras, Ângela escolheu uma mesa bem próxima a uma mureta onde além se podia ver o campus da UFRN, tranquilo e verde. Sentaram-se frente a frente tendo entre a mesa a lhes separar. Um garçom aproximou-se e Fernando pediu dois cafés. Ela mirou seu olhar para a mesma direção que ele olhava e disse, mesmo achando desnecessário: – Fim de tarde me dá nostalgia. Lembra-me de quando eu fazia jardim de infância. Para completar a viagem no tempo, só faltava uma cigarra cantando agora, rasgando o silêncio. O garçom aproximou-se e serviu os cafés. Ela bebericou e olhou o relógio. Ao ver as horas falou como se tivesse apressada:
  38. 38. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 37 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Olha com certeza você não sabe, mas fui casada e o jipe era do meu marido. – Mas os documentos estão no seu nome – disse enquanto adoçava o café. – Sim, é verdade – pousou a xícara sobre o pires – foi um presente que ele me deu. E aquele maldito carro significava muito para ele. Como já morreu, não sei se ele aceitaria a idéia de vender o carro que tanto amava. – Quem morreu? Seu marido? Nossa, que pena! – disse fingindo surpresa. Bebeu um pouco de café e continuou: – então o carro tinha muito valor sentimental para seu falecido esposo e você não sabe se deve vendê-lo? – É... Mais ou menos – ela hesitava. – Olha, já falei que pode dar o preço... – Não falo disso! – interrompeu com impaciência. Bebeu de um gole só e, sem fita-lo, continuou: – ele morreu no carro. Foi horrível. Com os dedos indicador e polegar de sua mão esquerda a segurar a asa da xícara pousada no pires sobre a mesa, Fernando olhava a jovem enquanto esta mirava o campus deixando, inconscientemente, seu perfil exposto para que seu interlocutor admirasse. Enquanto admirava o alvo pescoço da moça recoberto por madeixas castanhas claras, o rapaz pensou consigo: “essa parte eu não sabia”. – É por isso que você o chama de maldito? – ele perguntou quebrando o silencio. Ela virou-se para ele, contrariada: – A quem chamei de maldito? – O carro! – Ah, sim. Ele foi “alvejado”, como disse a polícia. – Foi assalto? Ela balançou a cabeça positivamente e, esforçando-se para parecer natural, continuou:
  39. 39. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 38 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Acho muito fofo você querer reaver o carro que foi do teu pai... Mas... Olha... – passou as mãos nos cabelos – esse carro, para mim, só causou sofrimentos... – Isso! Então o venda e livre-se das más lembranças! – exclamou ele obviamente. – É. Pode ser... – confirmou e ficou com o olhar fixo na xícara sobre a mesa. – Posso vê-lo? – Quem? – O carro! – Aí vem o problema! Ele está em outra cidade. Ele fez uma cara de quem não havia gostado da informação. Pensou rapidamente no tempo já gasto e agora descobrira que teria de ir um pouco mais longe. Então falou: – Nem me diga... É muito longe daqui? – Não. Fica mais a menos uma hora da minha casa. – Menos mal. Podemos ir lá hoje. Ainda mirando o campus ela pensou um pouco. Depois se voltou para o rapaz: – Hoje não. Estou cansada. Trabalhei o dia todo. Ele sorriu para disfarçar a impaciência e disse procurando não ser arrogante: – Ângela, eu gostaria muito de ver esse carro. – Posso te dar o endereço e você vai lá dar uma olhada. – A quem pertence o carro atualmente? – ele perguntou recostando-se na cadeira e cruzando os braços enquanto a observava. – Pertence a mim mesma. Mas logo depois do... – suspirou – ocorrido, eu não o queria mais, então meu irmão pediu para ficar com ele enquanto eu decidia o que fazer – explicou enquanto concentrava-se em brincar com a xícara. – E ele o utiliza?
  40. 40. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 39 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Sim. Como é no interior não tem fiscalização e ele transita pela área rural. O garçom aproximou-se e ofereceu água. O jovem casal aceitou e este se retirou após recolher as xícaras, retornando em seguida com água e copos. De vez em quando os dois olhavam em volta e alheavam-se um do outro procurando pensar em algo para dizer. Ele queria o mais rápido possível obter sucesso em seu intuito. Ela precisava de tempo para pensar. Não parecia ser má idéia se livrar do carro e todas as lembranças que ele lhe transmitia. O problema era que também havia boas lembranças. O Sol já havia se recolhido. Já estavam ali há quase meia hora. No horizonte avistava-se boa parte da extensão tranqüila do arborizado campus. Como que se esquecendo dos motivos que os levaram ali, os dois, cada um em seu assento um de frente para outro, tendo uma pequena mesa quadrada a separá-los, mas virados para a paisagem, deixaram-se embeber pela tranquilidade. De repente, Fernando quebrou o silêncio falando suavemente: – Você mora longe do seu trabalho e ainda precisa pegar ônibus. Ela virou-se e assentiu sem proferir palavra. Olharam-se. Ela enrubesceu diante do olhar descarado e virou o rosto. Ele então falou: – Acho que vou amanhã de manhã ver o carro. Farei como você sugeriu, já que não pode me acompanhar. Irei sozinho. Ela permaneceu em silêncio e pôs-se a pensar na possibilidade de acompanhá-lo. Aproveitaria a oportunidade para ver o irmão que não via há meses. Então disse que se ele fosse cedo ela poderia ir também. – Legal. Que tal às nove? – Tenho de estar no trabalho às dez! O ideal seria às seis da manhã. Gastaremos mais de meia hora indo, mais de meia hora voltando e se não demorarmos terei tempo de estar no horário para trabalhar.
  41. 41. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 40 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria Ele só balançou a cabeça afirmativamente. Fizeram silêncio. Meditaram cada um em seus próprios pensamentos. Ele supunha que o carro precisasse de reparos e que as taxas representariam mais dinheiro a gastar. Ela espreguiçou-se de leve esticando os braços para frente e anunciou que precisava ir embora. – Tenho de evitar o hush do trânsito, ônibus lotado e tudo o mais. Estamos combinados amanhã? – Estamos. Passo às seis da manhã na sua casa – disse enquanto fazia um sinal para o garçom se aproximar. Enquanto isso Ângela remexia na bolsa. Tirou uma nota da carteira. – Mas o que é isso? – Fernando perguntou. – Vou pagar minha parte, ora! – Não, nem pensar! Fui ensinado a ser um cavalheiro – ele bem sabia que o que dizia não era verdade. – Não seja tolo! O garçom permanecia em pé aguardando o desfecho da pequena disputa. Ângela, que era garçonete, particularmente não gostava quando seus clientes protagonizavam disputas para ver quem pagava a conta. Fernando levantou-se e rapidamente enfiou na mão do garçom uma nota que daria para pagar a conta duas vezes. – Aqui está meu caro rapaz. O troco é seu! – disse com altivez. Queria impressionar a jovem. O garçom agradeceu e se retirou. Ângela sorriu de leve. Fernando, com as mãos no bolso, aguardava que a jovem se levantasse para que pudesse acompanhá-lo. – Pois bem, vou pegar meu ônibus. E você, para onde vai? - perguntou ela ao se levantar e pondo-se a andar devagar. Ele mantinha-se no mesmo ritmo dela. – Ponta Negra. – Você vai ter de atravessar a passarela para pegar sua condução.
  42. 42. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 41 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Não! Não vou de ônibus. Tem um taxista que é meu amigo. Eu ligo para ele e ele vem me apanhar – ele não disse à jovem, mas além do taxista de quem era credor, tinha Climério que às vezes lhe dava caronas mediante algum dinheiro que este pedia sem constrangimentos para “ajudar no combustível”. Caminharam pelos corredores do shopping até alcançarem um caminho que cortava o estacionamento. Este caminho tratava-se de um charmoso telhado comprido sustentado por uma alameda de bonitas colunas que conduzia os pedestres até o ponto de ônibus sob a passarela que cortava a BR 101. Do lado oposto, as conduções seguiam para a zona sul e parte da zona oeste; do lado em que se encontravam, apanhavam-se conduções para o centro, zona norte, zona leste e parte da zona oeste. – Se você quiser posso te levar em casa – sugeriu Fernando. – Não, obrigada. – Não me custa nada. É só eu ligar para o taxista e ele chega aqui em quinze minutos. Aí você não vai precisar entrar em um ônibus lotado. – Eu realmente agradeço, mas você deve estar cansado de passar o dia... – Mas como você é arrogante! – exclamou ao interrompê-la. Ela sorriu: – Você acha? – Você ofende os homens com suas atitudes independentes – frisou a última palavra com uma divertida entonação de voz. Já haviam se juntado à massa de gente no ponto de ônibus e algumas pessoas ávidas por não perderem suas conduções, esbarravam neles. – E quais são estas “atitudes independentes”? – Recusar que um cavalheiro lhe pague um café, recusar uma carona do mesmo e tratá-lo com arrogância no primeiro contato. Ela sorriu: – Fiz tudo isso? – Fez sim!
  43. 43. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 42 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Eu só não quero ser incômoda. Se você for me levar em casa, vai fazer um percurso muito grande e vai ter de retornar tudo isso para voltar pra casa. – Não é problema – deu de ombros. – Vamos sentar em algum lugar dentro do shopping. Vou ligar para o taxista e aguardaremos que ele venha. Ela definitivamente não concordava com a idéia. Conhecia a língua dos vizinhos e ser vista chegando em um táxi com um desconhecido seria muito ruim para a sua reputação de jovem viúva. Lembrou-se que no dia seguinte ele iria apanhá-la para verem o carro, e isso também daria o que falar aos vizinhos. Ainda hesitando sobre a cortesia do jovem, viu seu ônibus parar um pouco mais à frente. – Meu ônibus! – Mesmo? Você o comprou? – ele perguntou com secura, depois acrescentou: – estou brincando! Mas, voltando a minha proposta: vamos aguardar nosso taxista e te levo em casa! Enquanto pensava, ela via o ônibus se distanciar. Ele desdenhou: – Que pena! Já foi! – Nem se preocupe pois daqui a menos de meia hora vem outro – rebateu num tom de quem não ligava para provocações. Olhou para o relógio dele, mas não conseguiu visualizar as horas. Ele nem notara sua atitude, olhava em volta com atenção. Ela perguntou-lhe que horas eram. – Sete e quinze. Vamos para um lugar mais tranqüilo onde eu possa ligar para o taxista. A jovem concordou. Caminharam de volta para o shopping a fim de sentaram-se em um banco. Escolheram um logo na entrada. Ela sentou e se recostou enquanto ele se afastou para poder falar ao telefone. Ângela estava cansada e desejava que tudo aquilo logo acabasse, que o rapaz avaliasse o velho jipe e que o levasse embora o mais rápido possível. Não seria grande perda, pois estaria se livrando
  44. 44. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 43 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria de uma lembrança ruim e ainda conseguiria algum dinheiro. Contou que seu irmão não ficasse chateado, afinal de contas ele utilizava o carro para se locomover do seu sítio para a cidade. Fernando não parecia ser um mau rapaz nem parecia estar mentindo. Inspirava confiança. E, se estivesse mentindo, quais seriam seus motivos? Pensava ela. Depois de fazer contato telefônico com o taxista, Fernando tratou de se juntar à jovem e lhe fazer companhia. Notou que a moça meditava de olhos fechados e recostada no banco. Preferiu não incomodá-la e resolveu imitá-la: recostou-se e fechou os olhos. Sentiu o vento fresco varrer seu rosto e brincar com seus teimosos cabelos. A sensação de bem-estar relaxou seus músculos tensos. Pensou então no quão agitado fora seu dia. Àquela altura, ali, sentados lado a lado, ele já sabia que estava bem perto do desejado e valioso veículo, já que o mesmo seria transformado no jipe dos dois presidentes. A pressão de suas costas nas grossas e rígidas ripas horizontais do banco onde repousava começaram a lhe causar dores e incômodos. Resolveu mudar de posição e sentou-se menos despojadamente. Percebendo seus movimentos, Ângela abriu os olhos e sentou-se ereta. Olharam-se e sorriram desconcertadamente. Haviam se conhecido há pouco menos de duas horas, não tinham nada em comum e aparentemente, devido aos julgamentos precipitados que faziam mutuamente, suportavam-se e desejavam não precisar do outro o mais rápido possível. Porém, enquanto fossem obrigados a manterem contato, seriam cordiais o máximo possível. – É legal trabalhar atendendo pessoas e servindo café o dia todo? – ele perguntou quebrando o silêncio. A resposta acompanhou um sorriso irônico: – Legal? Não! Mas também não é horrível. Digamos que seja suportável, afinal, é assim que pago as minhas contas. Como a área era externa, ele tirou do bolso da camisa um maço de cigarros e um isqueiro.
  45. 45. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 44 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Importa-se de que eu fume? – Não! O pulmão é seu! – disse secamente. – Mas você vai fumar passivamente – rebateu ele à altura da secura. Ela deu de ombros. O fumante acendeu seu cigarro e tragou. A garçonete resolveu perturbá-lo: – ”O Ministério da Saúde adverte: fumar é prejudicial à saúde”. Ele emendou: – ”O Ministério da Saúde adverte: a nicotina causa dependência” – ”O Ministério da Saúde adverte: fumar causa câncer de pulmão” – disse ela dando continuidade à brincadeira. Ele prosseguiu: – ”O Ministério da Saúde adverte: fumar causa impotência sexual”. A jovem sorriu corando: – Essa parte eu estava querendo pular! Ele esboçou um sorrisinho e continuou fumando virando o rosto para poupar a moça da fumaça. – Você é muito jovem para um fumante – observou. Não obteve resposta. O jovem parecia estar acostumado com aquele tipo de comentário. Ela continuou: – O que leva uma pessoa jovem a se iniciar no fumo? – Acho que o exemplo – deu de ombros – a banalização. E você, não tem vícios? – Tenho! Sou viciada em café. – Eu também. E de bebidas alcoólicas, você gosta? Ela limitou-se a balançar a cabeça negativamente. O telefone celular do rapaz tocou e ele atendeu. Era o taxista. Fernando lhe deu as instruções para que adentrasse o estacionamento e manobrasse a seu encontro. Em menos de dois minutos foram encontrados. Fernando abriu a porta para que a moça entrasse no carro e em seguida, após dar a volta para o outro lado, também se acomodou no
  46. 46. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 45 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria veiculo. Deu as instruções para o motorista, mesmo não sendo necessário, afinal já haviam estado no bairro do Satarém no dia anterior. Ângela estava tensa. Estava em companhia de dois desconhecidos. Durante o percurso perguntou-se como fora capaz de dar tanta confiança àquele rapaz. Alternava pensamentos de desconfiança com indícios de que o rapaz pudesse ser confiável. Sua conversa era consistente e ele falava com segurança. Durante o percurso ele não lhe fez perguntas, nem ela a ele. Estavam lado a lado no banco de trás do carro em movimento. O motorista de vez em quando os olhava discretamente pelo retrovisor. Apesar da tensão e desconfiança a jovem estava cansada e mesmo tentando aproveitar a viagem contemplando a paisagem não resistiu e adormeceu recostada ao assento. Fernando mantinha suas enormes pernas abertas, maneira que encontrou de não sentir seus joelhos serem espremidos contra o assento do motorista logo a sua frente. Olhou para a jovem ao seu lado e compreendera a fadiga dela. “Deve estar cansada”, pensou, e em pouco tempo ele novamente a imitava: adormecera. Estavam em plena hora do hush e, apesar da ausência de grandes engarrafamentos, o trânsito ficava lento em alguns trechos da Avenida Salgado Filho. Como o destino era a zona norte de Natal, a temidamente lenta Avenida Bernardo Vieira fora inevitável. O carro oscilava entre avanços, freadas e buzinadas, mas seus passageiros estavam bem guarnecidos pelos vidros fechados e pelo frescor do ar-condicionado. Ângela estava preocupada com o que seus vizinhos pensariam ao vê-la chegar em casa acompanhada de um rapaz que não era seu parente. Mesmo assim disfarçava o que realmente sentia. De todo modo estava satisfeita com a gentileza do rapaz em deixá-la em sua residência. Para ela fora maravilhoso não ter voltado para casa em um ônibus lotado e lento, como todos os dias. O carro parou defronte ao portão da vila.
  47. 47. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 46 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Aqui estamos moça! – Fernando falou numa voz cômica, imitando personagens que via nos filmes quando era criança. Fez um sinal com as mãos para que ela não se movesse e desceu do carro. Deu a volta pela parte de trás e abriu a porta para ela com uma saudação séria, porém cômica, mantendo-se exageradamente ereto e apresentando-lhe a mão esquerda para que ela a utilizasse como apoio ao sair do carro: – Tenha a bondade senhorita! – ele dizia querendo imitar um chofer inglês, ela presumiu. A jovem sorriu de leve e o encarou divertidamente. Notou que a velha vizinha negra do outro lado da rua os observava, mas não se importou e a cumprimentoou com um aceno com a cabeça, retribuído prontamente. – Não gostaria de entrar para tomar uma xícara de café? – ela o convidou com um ar de riso, dando continuidade à brincadeira que ele começara. Ao que o rapaz respondeu: – Não seria muito incômodo? – De jeito nenhum!! – Aceito com prazer! – Virou-se para o motorista e pediu que o esperasse. Ângela, por sua vez, desejou que o jovem rapaz não tivesse aceitado o convite. Continuava preocupada com a língua da vizinhança. Podia notar que era observada. A rua estava escura devido à má iluminação dos postes e ela sabia que cada um dos seus curiosos vizinhos tinha um modo incógnito de se posicionar atrás de portas e janelas para poderem apreciar a vida alheia sem perder um só detalhe. Apressou-se em abrir o portão e o fez com os gestos automáticos de sempre. Adentraram e ela o fechou logo atrás de si. Como não conhecia o lugar Fernando movimentava-se lentamente, esperando pelas orientações da anfitriã. – Pode me acompanhar sem medo. Aqui parece um labirinto – ela comentou tentando afastar a preocupação enquanto o conduzia, sabendo que podia estar sendo observada por algum vizinho ou mesmo por d. Dalva – Não se incomode com a pouca iluminação.
  48. 48. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 47 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Esse lugar tem um cheiro gostoso de plantas! – Fernando comentou respirando com força enquanto caminhava lentamente ao lado dela. Notou que já não brincavam mais, pois ambos estavam levemente tensos. Ela talvez por estar levando um estranho para seu apartamento presumiu ele. E ele estava tenso e tinha certeza de que o estava pelo fato de não saber exatamente o que iria fazer ali. Como a escada dos 16 degraus era muito estreita para que duas pessoas a subisse lado a lado, a anfitriã subiu na frente enquanto a visita a acompanhava. Alcançaram a porta e ela a abriu fazendo barulho com o tilintar das chaves. – Seja bem vindo em minha casa! – acendeu a luz e pediu que entrasse. O convidado entrou e a dona da casa fez sinal para que se sentasse na poltrona de cor pastel. Ele, porém, manteve-se de pé, olhando tudo em volta. – Vou preparar um café – disse ela enquanto puxava a porta, escancarando-a para que se abrisse por completo. Como temia a língua dos vizinhos, não queria que comentassem que havia “se trancado em casa com um homem estranho”. Podia imaginar os comentários dos conhecidos fofoqueiros da vizinhança. – Sua casa é muito bonitinha – ele disse ainda olhando tudo ao redor. – Bonitinha? Obrigada! – ela já estava preparando a cafeteira – não quer sentar-se? – novamente apontou para a poltrona de cor pastel. – Prefiro sentar aqui. – Disse enquanto puxava uma cadeira da mesa de refeições – você tem bom gosto. Ela riu. Achou que ele só podia estar tentando ser educado. – Falo sério. Sua casa é pequena, mas é organizada sem ser cafona. É clean. – Obrigada! Grande parte desse visual clean se deve à minha alergia, o que me impede de ter tapetes, cortinas ou móveis que possam hospedar muita poeira. De certa forma é econômico para mim.
  49. 49. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 48 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Aqui é ventilado! Continuou ele ainda observando o ambiente. – Vou preparar umas torradas. Gosta com queijo e presunto? – perguntou enquanto remexia na geladeira. – Não se dê ao trabalho! Não por mim! Já lhe falei que também sou corretor de imóveis? – Mesmo? Não, não tinha me falado. E então? – perguntou virando-se para vê-lo – como corretor experiente, que nota que você dá para meu “apê”? Ele sorriu com malícia, não era tão experiente assim. – Eu diria que não seria muito difícil conseguir inquilinos. Nota sete, para um kit net. Só não gostei muito da estrutura externa. – Isso aqui é um buraco – respondeu enquanto colocava fatias de queijo e presunto entre duas fatias de pão de fôrma. Ele levantou-se e se debruçou sobre a meia parede que separava a sala da cozinha. A anfitriã estava concentrada no que fazia e ele a admirou, encantado com sua aparência. Nunca havia imaginado que garotas tão bonitas como ela podiam sem tão independentes e tão solitárias. Ela levantou a cabeça e o encarou com serenidade. Como que apanhado fazendo algo errado, ele atalhou: – Não chega a ser um buraco. A arquitetura não é lá muita coisa, mas a parte interna é bem dividida e bem acabada. Precisa de ajuda? – Não, obrigada! Termino em um minuto. – Se quiser eu posso lavar a louça! – Ele disse, tentando parecer útil. – Fala sério? – perguntou com um largo sorriso enquanto acomodava as torradas na sanduicheira elétrica. A primeira vista ela o achara extremamente chato e ficou surpresa com seus elogios a casa e com sua intenção de lavar a louça. Ele deu de ombros e mentiu:
  50. 50. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 49 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Às vezes preciso lavar minha louça. Posso ver seus CDs? – perguntou apontando a bancada onde repousava o pequeno aparelho de som ladeado por alguns CDs. – Fique à vontade. Ele se aproximou e olhou um por um silenciosamente. A dona da casa continuava com os preparativos para o jantar. Arrumou a mesa sem cerimônias e logo que o café e as torradas ficaram prontos o convidou a sentar-se à mesa. Meio acanhado o jovem pediu para ir ao toalete. – Por ali – apontou – não repare a bagunça! Ficou tensa ao lembrar-se de que havia deixado algumas roupas íntimas penduradas no banheiro. Nunca se importara com a bagunça daquele cômodo – agora, já era – pensou. Ele deve estar pensando mil coisas sobre minha bagunça... O rapaz não se demorou retornando de pronto. Sentou-se sem preâmbulos obedecendo ao sinal da anfitriã que já estava acomodada. – O taxista não gostaria de tomar café também? – ela sugeriu enquanto enchia a caneca para a visita, ao que ele respondeu: – Não sei. Mas ele deve estar à vontade. Aposto que está fumando e que a essa altura já deve ter ido à padaria tomar um café. Eu pago bem, sabia? Ela sentiu uma ponta de arrogância naquelas observações, mas não fez comentários. Procurou deixá-lo à vontade: – Não faça cerimônias. E ele sentiu-se mesmo à vontade. Aquele lugar pequeno e aquela jovem mulher preparando uma humilde refeição deram-lhe ideias de uma vida doméstica a dois. Pensou em Carla e a imaginou sua esposa apenas por um segundo para depois admitir a realidade onde seus devaneios pareciam impossíveis. Como bom interlocutor que gostava de ser e para alívio da dona da casa, Fernando iniciou um assunto sobre músicas baseado na diversidade de gêneros que encontrara quando deu uma olhada
  51. 51. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 50 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria nos CD´s da jovem. A conversa tomou rumos diferentes e ela inevitavelmente falou de si, da escola onde estudou e que nunca havia pisado os pés fora do estado do Rio Grande do Norte. Ele, por sua vez a ouvia e fazia perguntas educadamente enquanto refletia sobre estar ali se sentindo realmente bem. Pousou a caneca vazia sobre a mesa e recostou-se na cadeira. Estava satisfeito. Ela automaticamente serviu mais café. Ele não queria beber mais, já estava farto de tanto café. Mesmo assim achou melhor não protestar. Manteve o olhar fixo na caneca, ainda recostado e com os braços relaxados sobre o corpo. Por alguns segundos ninguém falava. Ouvia-se o som de TV vindo de algum lugar lá fora. Alguém assistia ao noticiário local. Também se ouvia carros rosnando pelas ruas. O jovem começou a ter ideias: Ângela era bonita e seus modos, à primeira vista, o agradavam mais que a sua beleza simples e comum. Ele pensou que se insistisse mais uns dias podia levá-la para a cama. Ou, quem sabe, continuou pensando, podiam fechar a maldita porta do minúsculo apartamento e podiam transar na quarto que outrora ela transara com o marido agora morto. Teria ela posto outro homem naquela cama? Perguntou a sim mesmo. Seria uma pena não possuí-la. Seria só uma boa transa e de qualquer forma perderiam o contato. Tudo casual e passageiro. Levantou os olhos e a observou enquanto ela comia seu jantar. Constatou que ela era mesmo bonita e ao mesmo tempo diferente. Uma garçonete de um café. Ele lembrou-se de um filme francês que assistira há pouco tempo “O Fabuloso destino de Amelie Poulin”. Estava diante de uma espécie de Amelie Poulin, refletia. Tão jovem e já era viúva. Seus pais haviam falecido e a pobre moça precisava trabalhar para pagar o aluguel daquela joça e poder se alimentar. De repente ficou triste consigo mesmo e teve raiva dos pensamentos anteriores e tudo aquilo sobre levá-la para a cama. “Que cretino que eu sou!” pensaou. – Você tem muitas fotos pela casa. Posso ver de perto? – Disse para mudar de pensamentos, como se o que pensara o incomodasse grandemente.
  52. 52. VIDINHA BESTA (edição gratuita para internet) CARMEN LOBBO (Edição gratuita para internet - Todos os direitos reservados) ~ 51 ~ Edição Gratuita. Venda proibida. Disponível em www.carmenlobbo.blogspot.com.br CURTA A FAN PAGE DA AUTORA: www.facebook.com/CarmenLobboLiteraturaDiaria – Pode sim. Fique à vontade – ela autorizou. Ele então se levantou com a caneca na mão e foi até o móvel que acomodava a TV e alguns livros e porta-retratos. Com a mão desocupada, pegou uma fotografia grande onde Ângela aparecia ao lado do marido. Ambos haviam posado ao lado do velho Jipr. “Belo casal,” pensou. “Belo carro também. Acho que estou fazendo um favor em tirar esse calhambeque da vida dessa viúva, junto com todas as lembranças que ele carrega.” Continuou pensando. Ângela permanecia na mesa, observando os movimentos do visitante. Ele continuou admirando as fotos e de vez em quando desviava o olhar para a dona da casa que lhe explicava quem estava na fotografia e a ocasião em que foram fotografados. – Uma família muito bonita – observou o visitante. – Concordo – ela disse sem se preocupar em parecer vaidosa. – Pena que incompleta. Ela assentiu com a cabeça. Às nove da noite ela o acompanhou até o portão. O motorista fumava de pé recostado ao carro. Rapidamente Fernando sacou de seu bolso uma carteira de cigarros. Acendeu um e deu um longo trago, apertando os olhos por causa da fumaça. O tempo todo estava desejando fumar, mas não quis demonstrar a sua vontade à sua anfitriã. Presumiu que esta não lhe negaria por educação, memsmo assim não quis encher a casa alheia de fumaça. Lembrava-se de Jurema reclamando da fumaça em casa. Ela não suportava. – Muito obrigada pelo café, Ângela. – Não me agradeça – ela disse com formalidade. Havia algumas pessoas na rua. Algumas sentadas em calçadas, outras de pé e de braços cruzados a conversarem com seus vizinhos. Cenas típicas dos bairros de gente trabalhadora que gosta de se integrar aos vizinhos nos horários de folga. Ângela notava que alguns a olhavam. Ela os cumprimentou com um “boa noite” daqui e um aceno dali.

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