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A grande mudança de atitude nos historiadores existente pós-48 se manifestana forma como a disciplina histórica passa a en...
EXEMPLOS DA CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA PÓS-48A concepção de História dessa época é fortemente influenciada pelodarwinismo socia...
Ranke é o grande historiador alemão desse período e a escola que elerepresenta mantêm distância das concepções iluministas...
Nietzsche também influencia os escritores com seu agnosticismo (nem creionem descreio da existência de Deus, simplesmente ...
REFLEXOS NA LITERATURA E NOS ROMANCES HISTÓRICOSComo os escritores refletem essa nova tendência? Numa época em que existeu...
que o cerca. O desejo de individualidade, a experiência individualista daburguesia como viria a observar posteriormente Wa...
OS PLEBEUS ESCREVENDOQuanto aos escritores desse período ligados ao povo, sua produção édeterminada pela cólera e irritaçã...
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Aula e resenha critica do livro "O romance historico" de Georg Lukacs, abordando a crise do romantismo burgues e a afirmacao de uma concepcao de historia baseada no evolucionismo e no positivismo na segunda metade do seculo XIX

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A teoria da Historia e o romance historico em Lukacs

  1. 1. A teoria da História, o romance histórico e a crise do realismo burguês.Livro base: O Romance Histórico de Georges LUKACSCapítulo 3:INTRODUÇÃO:A Revolução de 1848 representa um divisor de águas. É a primeira vez que aclasse proletária surge na cena histórica, efetivamente como protagonista daluta. Os acontecimentos de 1848 provocaram uma reorientação nos objetivosda burguesia, de uma democracia revolucionária em direção a um liberalismode compromisso. Essa reorientação burguesa se dá em todos os camposideológicos.Na Alemanha, particularmente, a mudança dos objetivos revolucionáriosburgueses leva ao desaparecimento da filosofia hegeliana. As lutas filosóficaspré-48 foram de tendências próprias da época, preparatórias da revolução de1848. Hegel sustentava os princípios da revolução burguesa dentro daAlemanha. Já, com Marx, a burguesia teve a clara visão de que as armas queela havia forjado contra o feudalismo voltaram-se contra ela mesma. Essacompreensão dos novos conflitos provoca uma reação que leva a uma revisãono processo histórico. Para Marx, Hegel que era a figura central da vidaespiritual (cultural) alemã, torna-se um cachorro morto no campo das idéias.No período anterior a 1848, a burguesia direcionava o desenvolvimento socialtambém no terreno ideológico, ou seja, na produção de uma literaturarevolucionária, através dos romances de crítica social como, por exemplo, Acomédia humana de Honoré de Balzac. Antes de 1848, tinha-se ummovimento espiral nas concepções filosóficas, criticadas, destruídas e levadassempre a um plano superior. As lutas de classe ocorridas durante a 1 ª metadedesse século desembocaram na formulação científica do marxismo e assim, aconcepção histórica do proletariado superou as limitações da ideologiaburguesa que se viu acuada e reformulou sua crítica social.A IDÉIA DE PROGRESSO
  2. 2. A grande mudança de atitude nos historiadores existente pós-48 se manifestana forma como a disciplina histórica passa a encarar o progresso. Os ideólogosda burguesia observando a evolução da luta de classes perceberam os perigosiminentes com o surgimento de uma futura sociedade proletária. Assim, omedo freia o ímpeto na busca pelo novo. Por exemplo, Teophile Gauthier (Ocapitão Fracasso), escritor francês mestre em descrever o espírito elevado danobreza, um cavalheirismo em extinção no mundo burguês, critica as idéias deprogresso da ciência a serviço do homem, ironizando, por exemplo, as utopiaspropostas pelo anarquista Charles Fourier (os Falansterios, projetos de cidadesmodernas onde a população viveria uma vida comunitária e de bem estarsocial).Essa involução na idéia de progresso que toma conta do pensamento burguêspós-48 afasta-se das concepções hegelianas que dominaram a mentalidade dosfilósofos e historiadores na primeira metade do século XIX. Para Hegel, oprogresso é contraditório, dialético, um choque de forças antagônicas queproduz novas situações antagônicas. Portanto, o progresso ocorre através doconflito. Já, para os novos ideólogos da burguesia liberal o progresso nahistória mostra-se como uma evolução linear, retilínea. Esses são os princípiosde Auguste Comte que constituirão a escola positivista francesa e marcaramdecisivamente a República brasileira. A segunda metade do século XIXacentua esse conflito existente entre uma concepção de história dialética quevinha em gestação desde Hegel e se consolida com Marx, para oestabelecimento dominante na academia da época de uma concepção dehistória evolutiva com idéias negadoras sobre a contradição existente noprogresso histórico.Podemos classificar esse período da segunda metade do século XIX comouma época de reorientação ilustrada em que são retomadas as idéias de Baylee de Voltaire. Inicia-se uma construção ideológica que recupera justamente astendências mais aristocráticas do iluminismo afastando-se do pensamentodesenvolvido por Rousseau e depois por Kant e que levou ao conceito dedialética. Retornam, então, as idéias da natureza linear do progresso dahumanidade, do evolucionismo adequado ao conhecimento acumulado até oséculo XIX. Dentre os grandes intelectuais desse período, talvez o único amanter a atualidade da análise mesmo seguindo essa concepção aristocráticatenha sido Alex de Tocqueville, A democracia na América, o grande nome daburguesia liberal do XIX.
  3. 3. EXEMPLOS DA CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA PÓS-48A concepção de História dessa época é fortemente influenciada pelodarwinismo social da segunda metade do XIX. Historiadores e sociólogosconvertem diretamente os princípios do darwinismo, ou seja, as idéias daseleção natural e da evolução das espécies em fundamento para o estudo dodesenvolvimento social do ser humano. É a apologia do domínio do Capitalque está presente em Spencer, para quem o homem burguês é superior porqueé o ser humano mais bem adaptado ao meio e ao tempo em que vive.Surge, paralelamente, também o conceito de raça, que é uma idéia muito forteem Taine, e a interpretação racial da evolução da humanidade torna-se ocentro da Sociologia, pelo menos no campo da Antropologia Humana. EmTaine vislumbra-se o mito da superioridade física e intelectual da raçacaucasiana sobre as demais raças, uma apologia que fundamentou astendências nazi-fascistas do século XX. Taine embasou-se conceitualmenteem Thierry, iluminista inglês do XVIII, para negar a existência do conflitomarxista de luta de classes em uma sociedade que está em vias de tornar-seglobal, interpretando os conflitos humanos como sendo conflitos entre raças.Assim, procurou provar a superioridade da raça caucasiana uma vez que foi araça que estabeleceu o domínio econômico sobre todo o planeta. Porém, Taineesqueceu-se que mesmo para Thierry, escrevendo 100 anos antes, a luta deraças era entendida somente como precursora da luta social, a futura luta declasse marxista, e não como sua instância última. Então em Taine há umretorno a formas de pensamento anteriores ao período do iluminismo.Da mesma forma na Filosofia, a partir da década de 1880 as idéias metafísicasde Schopenhauer, que acreditava na existência de uma vontade natural nosseres humanos, uma vontade inata, prévia, independente do meio social emque se cresce, suplantam as idéias de Hegel que já havia superado as idéias deuma essência natural humana. Assim, uma interpretação a-histórica daHistória passa novamente a predominar na maior parte da produção intelectualdesse período com as concepções de que a qualidade da natureza humana e asdivisões sociais inerentes a essa natureza são imutáveis, permanecem ao longodo tempo. O progresso permanece como apenas uma transformação científicae tecnológica, mas não como uma transformação social e espiritual também doser humano.
  4. 4. Ranke é o grande historiador alemão desse período e a escola que elerepresenta mantêm distância das concepções iluministas e hegelianas sobre ahistória, tornando-se a maior expressão intelectual da história da burguesiaapós 1848. A escola do historicismo alemão renega a idéia de que o progressose dá de forma dialética como uma superação das contradições. Portanto, ateoria dessa escola tem como fundamento a existência de uma linearidadehistórica. Ela também não compreende mais a história como sendo uma pré-história do presente, uma idéia que já se encontrava formulada em boa partedos iluministas franceses. Como Ranke pretende então escrever a história? Eletrata de modernizá-la, reinterpreta-la, uma vez que, segundo essa concepção,as velhas estruturas do passado permaneceriam, mas se tornariam maismodernas. Para ele, o presente sustenta as mesmas relações sociais jáexistentes no passado e vice-versa.O resultado da reação intelectual que surge após 1848 é a de que a crítica dadivisão social do trabalho na economia capitalista somente passa a serdefendida pelas classes mais revolucionárias. Em contrapartida, há naAcademia o domínio de uma elite intelectual conservadora, gerando reflexostambém na política com o aumento das tendências antidemocráticas. Isso sereproduz também no campo da literatura, principalmente entre os escritores doromance histórico. Os historiadores como Taine e Burckhardt e o filósofoNietzsche foram os pensadores que mais influenciaram os escritores desseperíodo.Jacob Burckhardt talvez tenha sido o historiador dessa época cuja obra maisresistiu ao tempo. A civilização do Renascimento na Itália é a obra maissignificativa do período e aquela que melhor compreendeu as tensões sociais eculturais existentes nesse período da história italiana. Burckhardt recoloca osubjetivismo na história, uma prática abandonada desde o início da análisedialética hegeliana. Recolocando a subjetividade como contingência quedefine o rumo da história, na perspectiva do historicismo, os grandes homenscondutores do destino da humanidade trilham um percurso que quase ossepara do processo histórico de seu tempo, levando a uma mitificação dosgrandes personagens. Abre-se o caminho para a realização de uma históriauniversal dos grandes nomes e acontecimentos. Não que esse seja o perfil daobra de Burckhardt, mas é como o senso comum e a maior parte doshistoriadores desse período utilizou-se do subjetivismo na produçãohistoriográfica.
  5. 5. Nietzsche também influencia os escritores com seu agnosticismo (nem creionem descreio da existência de Deus, simplesmente é algo que não meinteressa) e sua interpretação do passado chamada por ele de genealogia.Nietzsche combate o modo acadêmico de fazer a história com a separação quea ciência objetiva faz em relação àquilo que seria a vida mais verdadeira, avida humana das paixões, angústias, fraquezas, ressentimentos, vinganças,encantamentos, aquilo que ele chamará de humano, demasiadamente humano.A crítica desse filósofo à história iluminista e hegeliana é que a busca porencontrar uma verdade comum a toda humanidade de forma objetiva acabacriando uma análise histórica absurda sem fundamento na realidade edesprovida dos desejos e das paixões humanas. Assim, tanto Hegel comoMarx são os principais alvos dessa crítica que afirma não haver na história aidéia de processo histórico. Para os marxistas, essa concepção nietzschiana,embora não possa ser considerada nem liberal nem burguesa, lança a história eo progresso histórico em um caos onde é impossível dar um sentido à história,uma vez que cada um dá o seu próprio sentido a ela.Também a filosofia de Benedetto Croce influenciou os escritores desseperíodo. A concepção histórica de Croce, da história como uma história dopresente, ou da vivência e das experiências do cotidiano, foi muito valorizadapelos historiadores do fim do XIX. Mesmo Burckhardt é muito devoto aoidealismo de Croce, que não vincula a história aos problemas objetivos dopresente (luta entre classes, conflito distributivo, supremacia da economia).Para Croce a história é resultado de uma compreensão subjetiva dos fatos,depende dos interesses individuais e cada qual a vivência a seu modo.Em síntese, a maior parte da historiografia da segunda metade do século XIXsegue uma concepção a-histórica, com a valorização de uma substância eterna,de uma essência da natureza humana imutável, cuja organização social tomauma forma diferente em cada período da história, mas que isso não é resultadode um processo histórico ou de um progresso das idéias humanas em seucampo social. A geração liberal pós 48 vence uma disputa ideológica comseus predecessores, a supremacia do subjetivo sobre o objetivo, e dametafísica, ou da espiritualidade humana sobre o materialismo, com umabandono da perspectiva de transformação social iniciada no iluminismo, quelevou à Revolução Francesa, continuada posteriormente pelos hegelianos eque levou ao conceito de luta de classes inicialmente formulado por Marx naIdeologia alemã.
  6. 6. REFLEXOS NA LITERATURA E NOS ROMANCES HISTÓRICOSComo os escritores refletem essa nova tendência? Numa época em que existeuma falta de perspectiva sobre a transformação da realidade social, resultadoda derrota sofrida pelos adeptos da democracia revolucionária durante arevolução de 1848, as obras literárias servem apenas como instrumento dedenúncia da mesquinharia burguesa. Porém, os escritores não compreendem ahistória como um processo histórico dialético e a contradição em que deleresulta a luta de classes.Salammbó de Gustave Flaubert, escritor que inaugurou a literatura modernacom Madame Bovary, é o romance histórico mais representativo dessa época.Trata das lutas entre Cartago e Tunis, não entre Cartago e Roma, portanto, daslutas entre duas culturas próximas, do Oriente, e não da contradição maiorexistente entre o Oriente fenício e o Ocidente greco-romano. Em Flaubert, aestética, a forma, impõe-se sobre o conteúdo, a história, ao contrário do seumestre e antecessor Balzac, para quem o conteúdo histórico é fundamentalnuma obra. Então, se a história não é o objeto mais importante para Flaubert,se ele entende também o tempo como um tempo a-histórico, ou seja, opassado lhe serve somente como pano de fundo para a discussão de temasatuais, por que esse escritor resolve ir ao passado para montar sua trama aoinvés de permanecer no presente? Porque em uma trama que se desenvolve2.000 anos atrás e em culturas diferentes da ocidental, Flaubert pôdedemonstrar todo o exotismo, a brutalidade e a perversão existente na essênciada alma humana. Na verdade, o romance de Flaubert importa-se e escancara asrelações burguesas do seu presente, transportadas anacronicamente para opassado distante de Cartago, onde lá ele pôde mostrar toda a contradição dasociedade burguesa, coisa que não poderia ter feito se a trama fosseambientada no presente, seja pelo conservadorismo moral de seu tempo, sejapela possível falta de um público leitor para uma obra que desvendassedeclaradamente a sua própria mesquinharia.O passado, então, serve apenas como cenário para a trama psicológica depersonagens do presente. Flaubert inicia, assim, um novo marco na literaturamoderna em direção ao mundo inumano. O mundo físico-sexual predominasobre o velho romantismo e as novelas passionais. A literatura de Flaubert,esteticamente moderna, reflete a angústia de seu tempo, a era inaugural domodernismo burguês, e antecipa o vazio existencial do fim do século XX,quando o ser humano, já tendo alcançado a maioridade prevista por Kant,mesmo assim, percebe sua absoluta impotência para transformar a realidade
  7. 7. que o cerca. O desejo de individualidade, a experiência individualista daburguesia como viria a observar posteriormente Walter Benjamin, inaugura odeclínio da arte narrativa. Nada mais é passível de narração nesse mundoburguês, uma vez que a vida, agora individualizada, não permite as velhasexperiências coletivas da existência. Assim, começa a ser suprimida daliteratura a narrativa histórica dos contos e das fábulas que são passados degeração para geração. Por extensão, a tradição oral desaparece namodernidade, perde significado e interesse, agora voltado para a realizaçãodos desejos pessoais rompendo definitivamente com a perspectiva do amorromântico. O romantismo dos contos de fadas e das novelas resta somentecomo uma subliteratura a adocicar a vida sofrida dos corações das gentes dopovo. Inaugura-se com Flaubert a era da liberdade erótica que irá, entre idas evindas, dominar o século seguinte.Contudo, numa época de moral ainda conservadora como proceder paramostrar isso? Remetendo o conteúdo da trama ao passado, para um tempo quenão é nosso tempo, mas que no inconsciente todos o reconhecem. Na narrativado passado tudo é permitido, é possível liberar todas as taras, angustias edeformações do ser humano moderno. É esse anacronismo deliberado,necessário em sua época, que faz Flaubert. Impedido pelo conservadorismoburguês de fazer a crítica do presente, ele a transporta ao passado.Da mesma forma o fazem seus contemporâneos naturalistas. Em Guy deMaupassant há também uma privatização da história, uma vez que ela ésomente pano de fundo para a trama individual (Uma vida). Emile Zola(Germinal) dirá que o naturalismo é o método cientificamente correto, porqueseria aquele capaz de descobrir e exprimir diretamente a ação das leis danatureza. O naturalismo quer captar a realidade diretamente, sem mediações,contudo, os escritores naturalistas não vivem nessa realidade, não nasceramnesse meio e essa captação sem mediações torna-se absolutamente abstrata esem fundamento.O realismo inglês segue o mesmo caminho equilibrando-se em dualismohistórico-social e individual-privado que tampouco faz sentido. A vida públicaé mostrada como sendo patética, exótica, perversa e é satirizada na escrita. Jáa vida privada, ao contrário, é descrita de forma realista e como sendo ética.Os escritores do realismo inglês de fins do XIX idealizam o mundo familiar eindividual burguês em detrimento da política e da vida pública, locais deexplicitação da torpeza humana, sem se dar conta da impossibilidade daexistência de um mundo sem o outro.
  8. 8. OS PLEBEUS ESCREVENDOQuanto aos escritores desse período ligados ao povo, sua produção édeterminada pela cólera e irritação das massas populares. Por exemplo, osromances históricos de Erckmann-Chatrian. Apesar do envolvimento pessoalcom os objetivos da democracia revolucionária, esses escritores somenteconseguem observar os efeitos provocados pela reação burguesa carregados deum sentimentalismo denunciativo sem análise histórica. Não há preocupaçãoou capacidade para entender as causas dessa reação burguesa contra oproletariado. A literatura então, cai em uma interpretação distorcida esimplificada da sociedade de classes (o rico é mau, o pobre é bom), pelo pontode vista da camada desfavorecida da população. Assim, perdendo a percepçãode mundo burguesa, não reconhece os motivos que fizeram essa burguesiareagir violentamente, nem as contradições existentes no próprio mundo doproletário. Não havendo essa visão global e dialética, o romance histórico nãopode dar conta das contradições do processo histórico.Ainda entre os representantes das classes populares temos a escrita da históriaanterior às teses de Marx, como em Saint-Simon e Proudhon. De orientaçãoanarquista, essa produção histórica tem como base do pensamento todarejeição ao poder, “o poder corrompe”. Guerra e Paz, o romance de LeonTolstoi descreve um panorama denso e intenso da Rússia dos tzares, noperíodo posterior à revolução francesa, e realiza uma obra de história socialfora de seu tempo. Em Tolstoi estão presentes as visões de mundo daburguesia e da nobreza e a dos camponeses e operários, trabalhada numaperspectiva dialética, mesmo sem o autor ser marxista. Talvez seja a grandeobra de história da segunda metade do XIX, mesmo Tolstoi não sendohistoriador.CONCLUSÃOA missão histórica da burguesia na primeira metade do século XIX, derompimento com as velhas estruturas do antigo regime, do feudalismo, danobreza da terra e dos regimes monárquicos de governo, acaba com oaparecimento do proletariado revolucionário em 1848. A partir daí se dá orompimento da ligação política existente entre a pequena burguesia e o povo.Entra em cena uma nova classe social dominante nas estruturas de poder, a
  9. 9. burguesia, no lugar da antiga, a nobreza. Quando a burguesia consolida-secomo classe dominante termina assim, o seu projeto revolucionário. Com isso,grande parte do pensamento anteriormente dominante entre os intelectuais,filósofos, historiadores e escritores, que desde o iluminismo municiaramteórica e artisticamente a burguesia com uma concepção transformadora darealidade social retiraram-se de cena. À exceção das correntes neo-hegelianas,marxistas e anarquistas (Stirner e Bakunin), a maioria dos intelectuaisacadêmicos dessa nova época vinculou-se ao pensamento político burguêsvencedor e rechaçaram as interpretações anteriores sobre o desenvolvimentodo processo histórico e social. Nasce o positivismo na França e o historicismona Alemanha, correntes acadêmicas dominantes na Europa da segunda metadedo século XIX. Afirmam-se em solo europeu e passam a ser exportadas paratodo o mundo como modelo, como padrão acadêmico, pelo menos até adécada de 1930, uma ideologia histórica que será tida como reacionária pelosmarxistas, pelo menos em relação aos últimos anos do pensamento iluministae do início da modernidade. Carlo Romani (Professor de Mundo Contemporâneo, História/UNIRIRO)

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