Foram muitos, os professores

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Foram muitos, os professores

  1. 1. Bartolomeu Campos de QueirósLEITURA DELEITE
  2. 2. Minha mãe guardava com cuidados de sete chaves, sobre a cômoda doquarto, três cadernos. No primeiro ela copiava receitas de amorososdoces: suspiros, amor em pedaços, baba-de-moça, casadinho, e fazia oolho de sogra de cor. No segundo caderno, ela anotava riscos debordado, com nomes camuflados em pesares: ponto atrás, ponto desombra, ponto de cadeia, laçadas e nós. No terceiro ela escondia longaspoesias boiando em sofrimentos: “A louca de Albano”, “Tédio”, “Obeijo do papai”. Eu reparava seus cadernos, encardidos pelo tempo epelo uso, admirava sua letra redonda e grande, com caneta de molhar,sem ainda desconfiar das palavras. Eu sabia o todo, sem suspeitar dasDurante muitas tardes, com opartes.pensamento enfastiado de passado, elapassava as páginas, lentamente,espreitando as folhas vazias, como secansada de escrever e de poucoexercer. Eram sempre as mesmascomidas, os mesmos pontos, a mesmapoesia e muito por decidir.
  3. 3. Meu pai, junto ao rádio no alto da cristaleira e longe do meualcance, protegia alguns poucos livros sobre homens célebres, comvidas prósperas, sem precisar viajar de sol a sol. Aos pedaços ele liaos compêndios, escutando a Voz do Brasil ou o Repórter Esso. Euapreciava seu silêncio, sem me aventurar em perguntas oudemandas. De vez em quando ele interrompia a leitura e meacariciava com os olhos, me amando sem mãos, como se medesejando outros futuros diferentes do seu. (...)
  4. 4. Minha avó, toda manhã, ainda emjejum, arrancava a página dafolhinha Mariana e lia asrecomendações. Meditava,cambaleando no meio da sala, sobreo pensamento escrito no verso dopapel para depois conferir a fase daLua, a previsão das enchentes eestiagens. Em seguida, acendia maisuma vela para os santos do dia:santa Genoveva, são Philippus, sãoClemente Maria, santo Antão, santoAgripino. Eu reparava sua fé eguardava o papelzinho como searmazenando sabedoria, como seacreditando na possibilidade de opassado se repetir no futuro. (...)
  5. 5. Maria Turum, empregada antiga demeu avô, sabia de tudo semconhecer as letras. Conforme omeu olhar, ela me oferecia umpedaço de doce ou me abraçavaem seu colo. Combinava o tempode chuva com comida de angu,carne moída e quiabo, semconsultar cadernos de receitas.Se meu avô pisasse mais forte, ela apressava o almoço; e se tossiadurante a noite, vinha um prato de mingau, com pedaços de queijo,no café da manhã. Ao apertar com os dedos um grão de feijão, sabiase estava cozido ou se precisava de mais um caneco de água. Olhava océu e deixava a roupa para ser lavada em outro dia, pois faltaria solpara secar os lençóis. (...)
  6. 6. Meu avô, arrastando solidão, escrevia nas paredes da casa. As palavrasabandonavam sua tristeza, organizavam sua curiosidade silenciosamente.Grafiteiro, afiava o lápis como fazia com a navalha. A cidade era seuassunto: amores desfeitos, madrugadas e fugas, casamentos e traições,velórios e heranças. Contornava objetos: serrote, tesoura, faca, machado– e ainda escrevia dentro dos desenhos o destino de cada coisa: o serrotesumiu, a tesoura quebrou, o machado perdeu o corte. Eu, devagarinho,fui decifrando sua letra, amarrando as palavras e amando seu significado.Meu avô era um construtivista (sem conhecer nem a Emília do Lobato)pela capacidade de não negar sentido às coisas. Tudo lhe servia de pretexto. Eu restava horas sem fim, de coração aflito, seduzido pelas histórias de amor, de desafeto, de ingratidão, de mentiras do meu primeiro livro – as paredes da casa de meu avô. Assim, percebi o serviço das palavras.
  7. 7. Meu avô poderia ter sido meu primeiroprofessor se fizesse plano de aula,fichas de avaliação, tivesselicenciatura plena. O fato é que elenão aplicava prova, não passava deverde casa nem brincava de exercício decoordenação motora. Jamais me pediuque eu acompanhasse o caminho que ocoelhinho fazia para comer acenourinha nem me deu flor paracolorir. Minha coordenação motora eudesenvolvi andando sobre os muros oupernas de pau, subindo em árvores,acertando as frutas com estilingue ouenfiando linha de agulha para minhaavó chulear. (...) Meu avô escancaravao mundo com letra bonita e medeixava livre para desvendar suaescritura.
  8. 8. Mesmo assim eu conhecia mais palavras e maisdistâncias, combinando melhor as orações. E suasparedes mais se enchiam de avisos sobre o mundoe as fronteiras do mundo. Eu decorava tudo erepetia timidamente. Eram tranquilas suas aulas, eo maior encanto era ver meu avô cultivar suasdúvidas. (...) Às vezes ele me pegava esticando opescoço, tentando alcançar um pedaço mais longe,um parágrafo mais alto. (...)
  9. 9. Não sei se aprendi a fazer contas com o meu avô. Ele mais meensinava a “fazer de conta”. No entanto, eu diferenciava omais alto do mais baixo, o bife maior do menor, as noites maisfrias das noites mais quentes, o mais bonito do mais feio, amontanha mais longe, a dor mais pesada, a tristeza mais breve,a falta mais constante. Mas acreditava, e hoje ainda mais, nãoser a casa de meu avô uma escola. Ela não possuía cartazes decartolina na parede, vidros com sementes de feijão brotando,cantinho de leitura com livrinhos infantis, lista de ajudantes dodia, tanque de areia, palhacinho de isopor, flanelógrafo defeltro verde. (...)
  10. 10. (...) Meu avô não usava toquinhos coloridos, tampinhas degarrafa, palitos de picolé nem me exigia uniforme. Elenunca me convidou para fazer “rodinha”. Aprendi, porém,e como ninguém, a dar nós cegos em barbante, seupassatempo preferido. Meu avô me dizia: “Um bom nó cegotem que ser ainda surdo e mudo”. Penso ter vindo daí essaminha paixão pelos abraços e pelos laços.
  11. 11. Em minha casa ninguém atribuía importância às minhas leituras.Eu aproveitava pedaços de jornais que vinham embrulhando coisase lia em voz alta, procurando atenção e reconhecimentos. Meu paime olhava e repetia sempre: “Menino, deixe de inventar histórias,você não sabe ler, nunca foi à escola” ou “Menino, deixe essepapel e vá procurar o que fazer”.Passei a duvidar da escola.Parecia-me um lugar só paradar autorizações. Se a escolanão autorizasse eu nãopoderia saber. O medo desselugar passou a reinar emminha cabeça. (...) Mas logome veio uma ideia: quandoentrar para escola, eu façode conta que esqueci tudo ecomeço a aprender de novo.(...)
  12. 12. Cheguei (à escola) de uniforme novo costurado pelo carinho de minhamadrinha. O caderno era Avante, com menino bonito na capa,sustentando uma bandeira com um Brasil despaginado pelo vento. Meninorico, forte, com sapatos e meias soquete. O estojo de madeira estavacompleto: dois lápis Johann Faber com borracha verde na ponta e maisum apontador de metal. Um copo de alumínio, abrindo e fechando com oacordeom do Mário Zan, completava as exigências da escola. Só minhacabeça andava aflita para esquecer. E esquecer é não existir mais. Issonão é tarefa fácil para quem aprendia em liberdade, escolhia peloprazer, guardava pela importância.
  13. 13. Fui acolhido por Maria Campos,minha primeira professora, comlivro de chamada, caderno complano de aula encapado com papelde seda. No pátio ela nos leu dacabeça aos pés, conferindo alimpeza do uniforme, as unhaslavadas, o cabelo penteado. Pelaprimeira vez me senti o seu livro.Miúdo, descalço, morria de invejado menino Avante guardado noembornal. Fui o primeiro da fila.Dona Maria Campos segurou minhamão e a fila foi andado em direçãoà sala de aula. Mão fina e maciacomo algodão da paineira, queminha mãe colhia aos tufos ecosturava travesseiro com cheiro demato. Meu coração disparou deamor e mão. (...)
  14. 14. (...) Ela (a professora) me emprestou seu lenço quando minhamãe viajou doente para a capital. Eu não usei. Preferi usar,como de costume, a manga da camisa, com medo de sujar nonariz e ela não mais gostar de mim. Todo cuidado era poucopara não perder o seu amor. (...)Encher o caderno com fileiras e fileiras de a, e, i, o, u foi oprimeiro exercício. Vaidosa, ela me apresentava os sinais paraescrever e ler o mundo. Ganhar o seu visto feito com lápisazul ou vermelho riscava com alegria toda a minha vida. (...)
  15. 15. (...) Eu lia os cartazes, colava assílabas recortadas, com grude depolvilho, mentindo descobrir pelaprimeira vez as palavras. Venciaas horas folheando a cartilha,lendo até o fim em silêncio,guardando em segredo os depois.A professora jamais soube do meuadiantamento. Na primeiracarteira eu prestava atenção atudo, sendo elogiado como ummenino aplicado cheio de futuros.Nunca soube se precisava mesmode suas lições ou de seu carinho.E isso ela bem me presenteava.Eu aprendia para ela. Mas, se nãome esqueci de sua presença valeua pena.
  16. 16. (...) Sei que nesses atos singelos, praticados com gestos amorosos, donaMaria Campos me ensinou demais, muito além das paredes de meu avô.Ou melhor, me ensinava serem muitos os lugares da leitura e da escrita.De suas histórias lidas no fim da aula, eu ainda guardo o cheiro do livro.Ingênuo, supondo ser a vida um processo de soma e não de subtração,juntei de cada um de meus mestres um pedaço e protegi em minhaintimidade. Concluo agora que, de tudo que aprendi, resta a certeza doafeto como a primordial metodologia. Se dona Maria me tivesse dito estaro céu no inferno e o inferno no céu, seu carinho não me permitiriadúvidas.
  17. 17. Os cadernos de receitas deminha mãe, os livros velhos demeu pai, as paredes de meuavô, o livro de Sant’Ana, amudez de Maria Turum, a féviva de minha avó, a preguiçade meu irmão e tudo o mais,tudo ficou definitivamenteimpossível de ser desaprendido.(...)

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