Fundhist mod02 08_ratio_studiorium

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FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E POLITICOS DA EDUCAÇÃO

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Fundhist mod02 08_ratio_studiorium

  1. 1. Educação a Distância – Fundamentos Históricos e Políticos da Educação O Ratio Studiorium e a missão no Brasil Karen Fernanda da Silva Bortoloti Mestranda UNESP/ Franca Agência financiadora: FAPESP Currículo Humanista: base comum O Ratio Studiorium fora pensado para ordenar as instituições de ensino de uma única maneira, com vistas a permitir uma formação uniforme a todos que freqüentassem os colégios da Ordem Jesuítica em qualquer lugar do mundo. Exceções foram necessárias para que as diversidades mais “berrantes” de algumas localidades fossem minimamente respeitadas. Assim, o Ratio Studiorium seria a base comum que serviria de suporte do trabalho dos jesuítas. Em todos os lugares essas normas deveriam ser seguidas da maneira como estavam prescritas no documento, em coerência com os preceitos e os interesses da Igreja Católica. A elaboração de regras pelos colégios das diferentes localidades, que trabalhavam com realidades distintas, serviu para que os pontos positivos de cada uma delas fosse aproveitado para a elaboração final do documento. Até a redação definitiva muitas correspondências foram trocadas e muitas críticas, experimentações e correções foram feitas. O documento final publicado em 1599, intitulado Ratio atque Institutio Studiorum Societatis Iesu, compõem-se de trinta conjuntos de regras que foram analisadas em nossa pesquisa. Trata-se de um detalhado manual com a indicação da responsabilidade, do desempenho, da subordinação e do relacionamento dos membros da hierarquia, dos professores e dos alunos. Além de ser também um manual de organização e administração escolar. A metodologia é bastante pormenorizada, com a sugestão de processos didáticos para a aquisição de conhecimento e incentivo pedagógico para assegurar e consolidar a formação do aluno. A rápida expansão dos colégios fez surgir questões que precisavam ser solucionadas da melhor maneira possível. Em geral, o plano de estudos, elaborado em Messina e desenvolvido no Colégio romano, constituíra a primeira norma orientadora das novas funções. A diversidade dos costumes regionais e a variedade dos homens não tardaram a introduzir-lhes alterações mais ou menos profundas. Para estabilizar o governo dos colégios adotou-se, durante algum tempo, o alvitre das visitas de Comissários Gerais, diríamos hoje de inspetores de ensino, incumbidos de manter, quando possível, a uniformidade de estrutura e desenvolver a eficiência da obra educativa da ordem, Durante quinze anos desincumbiu-se desta tarefa o infatigável P. Nadal[1].
  2. 2. Educação a Distância – Fundamentos Históricos e Políticos da Educação Tais visitações também ocorreram no Brasil, porém aqui o caráter delas eram, a nosso ver, um pouco mais rígido e voltado para a catequização. Alguns caracteres das casas e colégios precisavam assumir as mesmas formas, tais como a administração e a metodologia, que foram as duas que se mantiveram mais inflexíveis durante todo o desenvolvimento dos trabalhos da Companhia. Porém, podemos destacar que desde os primeiro momentos em que a Ordem enveredou-se pelo caminho educacional, as casas e colégios apresentaram certos traços comuns, o que não poderia ser diferente, uma vez que os jesuítas deveriam trabalhar sempre de maneira uniforme com vistas à universalização de seus resultados. Retornando ao currículo comum, é necessária uma breve caracterização dos pontos que não dizem respeito diretamente ao currículo, mas que não deixaram de ser comuns e sofreram poucas, ou nenhuma, modificação nos diferentes locais. O plano de estudos dos jesuítas em suas regras gerais ditava qual o comportamento mais aconselhável ao Provincial, ao Reitor, ao Prefeito de estudos, aos Professores e até aos funcionários menos graduados para o bom funcionamento do estabelecimento e resultados positivos da educação[2]. Além de ditar o comportamento dos membros da hierarquia educacional jesuítica, esse documento apontava o que os mestres deveriam ensinar e o modo como os assuntos predeterminados deveriam ser abordados. Portanto, o Ratio não era apenas um programa, mas um rigoroso método de ensino. Administrativamente a Companhia dividia-se em Províncias que englobavam várias casas e colégios e poderia ocupar território de uma nação ou apenas parte dele. O Provincial era o principal chefe dessas unidades, porém era o Reitor a figura central dos colégios. A principal função do Provincial era zelar pelo bom andamento do trabalho dos missionários, cuidando o Reitor mais diretamente das atividades relacionadas à educação e à catequese. Este era auxiliado pelo Prefeito de Estudos, seu braço direito que acompanhava de perto toda a vida escolar. Assim, fica demonstrado, minimamente, a hierarquia administrativa das instituições de ensino da Ordem. A Companhia dedica-se à obra dos colégios e universidade, afim de que nestes estabelecimentos melhor se formem os nossos estudantes no saber e em tudo quanto pode contribuir para o auxílio das almas e por sua vez comuniquem ao próximo o que aprenderem. Abaixo, portanto, do zelo pela formação das sólidas virtudes religiosas, que é o principal, procure o Reitor, como ponto de máxima importância, que, com a graça de Deus, se alcance o fim que teve em mira a Companhia ao aceitar colégios[3]. De modo geral, o programa educacional lançado pela Companhia de Jesus dividia- se em três períodos ou cursos: curso de Letras ou Humanidades, curso de Filosofia e Ciências, também denominado curso de Artes e o curso de Teologia ou Ciências Sagradas. Essa divisão básica deveria ser rigorosamente seguida por todos os colégios[4]. De acordo com a leitura que fizemos do plano de estudo, o curso de Letras ou Humanidades dividia-se em gramática, humanidades e retórica, tendo duração média de sete anos. A “Arte da gramática” do P. Manoel Alváres, dividido em três partes era o livro- base do curso e correspondia às divisões do estudo da gramática em inferior, média e superior.
  3. 3. Educação a Distância – Fundamentos Históricos e Políticos da Educação Como a formação da eloqüência era muito importante para os jesuítas, o curso de gramática tinha o intuito de fazer o aluno saber expressar-se de forma clara e correta. Em três ou quatro anos de estudo os alunos já estavam preparados para o curso de humanidades. O alvo desse segundo momento do curso, apoiado no currículo elaborado pelos jesuítas era formar o estilo na escrita, aperfeiçoando os estudos gramaticais e preparando a base da eloqüência e da poesia. A classe de retórica ou eloqüência para utilizar um termo mais adequado ao que era ensinado nesta, pretendia formar o perfeito orador, com uma expressão enérgica e convincente. Nas aulas de retórica, como complemento, estudavam-se também história, geografia e cronologia. De modo geral, a classe de retórica abrangia, segundo as regras apresentadas pelo Ratio, três pontos principais: regras de oratória, estilo e erudição[5]. Para reger o estudo nesse curso, bem como para nos demais, o método jesuítico partia do princípio da educação através do estudo das línguas clássicas e de acordo com a oratória de Quintiliano[6]. No estudo das línguas clássicas viam esses educadores uma cultura que deveria ser conservada, como revela o próprio pensamento do momento histórico denominado Renascimento. No secundário, predominava o modo artístico de ensinar, já no universitário, o modo científico. O curso de Filosofia, também denominado na época curso de Artes, tinha como ideal proporcionar à seus alunos uma formação científica da inteligência, o que podemos notar ao analisar atentamente as regras apresentadas no Ratio no tocante a este curso, que deveria durar três anos. Entretanto, era estritamente proibida a leitura ou mera citação de autores “infensos ao cristianismo”, o que nos faz crer que os professores tinham suas atividades dirigidas pelo plano de estudos, restando-lhes pouca ou nenhuma autonomia. As matérias que julgavam menos necessárias para a educação e desenvolvimento científico e moral eram totalmente excluídas. Aristóteles e São Tomás eram as leituras-base deste curso. A Teologia, como não poderia deixar de ser, era a matéria que mais servia aos interesses da Ordem. Todas as outras disciplinas, a nosso ver, eram ensinadas para conduzirem ao estudo da Teologia. Para os jesuítas, o ensino jamais seria seguro e eficaz sem esta. O curso de Teologia dividia-se em Teologia Escolástica e Teologia Moral (casos de consciência), esta última destinada à formação de párocos ou administradores de sacramentos, durando todo o curso de quatro anos. Todas as regras que ordenavam o andamento desses cursos buscavam, antes de tudo, o que consideravam como sendo a formação plena do homem, daí esse conjunto de regras ter sido muitas vezes classificado como humanista, a nosso ver, denominação plausível. Como o objetivo inicial ao estabelecimento das instituições de ensino dos inacianos era a formação de seus membros, essa questão ocupou posição relevante no corpo do plano de estudos. Em cada uma das partes de sua formação, o futuro jesuíta entregava-se ao estudo e à oração, sendo seu horário preenchido por ocupações religiosas e intelectuais. Para tornar- se o que eles denominavam “mestre-escola”, o interessado deveria entregar-se a uma rígida formação intelectual e moral, para as quais havia a orientação nas letras clássicas e na Filosofia. Principiava o magistério pelos níveis inferiores e evoluía de acordo com sua experiência e constante estudo.
  4. 4. Educação a Distância – Fundamentos Históricos e Políticos da Educação Assim, podemos observar que o Ratio apresentava uma preocupação geral com a formação de todo o quadro que comporia as instituições a ele subordinadas. Reitera essa preocupação ao apontar que era de suma importância a existência de Academias ou Seminários pedagógicos destinados à formação de bons professores. Nessas academias, os futuros professores deveriam aprimorar seus conhecimentos, mantendo o mínimo contato com os alunos externos que não seguiriam a carreira. No tocante à disciplina, o Ratio prescrevia que esta deveria estender-se a todos que faziam parte do corpo do colégio desde o Geral da Companhia até o alunado mais jovem. Os padrões disciplinares nesses colégios chegaram a ter, como era de se esperar em virtude da formação militar de Inácio de Loyola, características acentuadamente militares. Para manter a ordem, tão respeitada por esses religiosos, os alunos poderiam ser advertidos verbalmente e até fisicamente, em casos de extrema necessidade, pois este era o último recurso a ser utilizado, e com ressalvas. O mestre jamais agredia seu aluno, sendo reservada esta função ao corretor, que não poderia dar mais que seis golpes de palmatória. Não seja precipitado no castigar, nem demasiado no inquerir; dissimule de preferência quando puder sem prejuizo de ninguém, não só não inflija nenhum castigo físico (este é o ofício do corretor) mas abstenha-se de qualquer injúria, por palavras ou atos. Não chame ninguém senão pelo nome ou cognome; por vezes é útil em lugar de castigo acrescentar algum trabalho literário além do exercício de cada dia[7]. A aula, de acordo com análise que fizemos do Ratio, poderia ter seus alunos divididos em dois campos, romanos e cartagineses, por exemplo, e em cada lado dispunham-se os alunos, de acordo com o merecimento, conforme a hierarquia militar. Dessa forma, dava-se o desafio que, conforme as regras do plano de estudo, deveria manter o aluno sempre atento para não ser rebaixado na hierarquia presente durante os desafios. As competições faziam florescer um outro braço de apoio ao desenvolvimento intelectual dos alunos: as Academias. Estas, como bem frisa o Ratio nas Regras da Academia, eram “uma união de estudantes (distintos pelo talento e pela piedade), escolhidos entre todos os alunos, que, sob a presidência de um membro da Companhia, se congregavam para entregar-se a certos exercícios relacionados com os assuntos[8].” Um fator que estimulava a disciplina dentro dos colégios era a preleção, uma espécie de lição prévia, que deveria estar presente em todas as classes prescritas pelo documento. Como era a apresentação do que seria estudado, esta servia principalmente para estimular a imaginação e não a memória, como nas outras etapas do aprendizado jesuítico. Prendia a atenção e mantinha a disciplina, cremos que porque despertavam a curiosidade do estudante e o faziam inquietar-se intelectualmente. As competições, mais uma das marcas dos jesuítas, poderiam ser públicas ou apenas na presença de membros ilustres da ordem, semanais ou mensais, e tinham o intuito de estimular, através de um verdadeiro duelo intelectual, o aprendizado. Considere o tempo, o modo e o lugar em que deverão reunir as aulas para os desafios entre si; não só prescreva com antecedência o método da discussão, mas ainda, durante o debate, procure
  5. 5. Educação a Distância – Fundamentos Históricos e Políticos da Educação com a sua segurança que tudo proceda com fruto, modéstia e serenidade. Do mesmo modo esteja presente as declamações ou preleções que os retóricos e humanistas costumam realizar no ginásio[9]. Segundo recomendações do Ratio, a avaliação deveria ser feita diariamente pelo mestre, onde este deveria observar o interesse, o engajamento e o desenvolvimento do aluno durante o andamento da aula. Os exames, de maneira geral, eram escritos podendo ser dois ou mais, de acordo com a necessidade de cada curso. A prescrição de como deveria ser feita a correção dos exames também aparece no plano. O bedel ou ajudante auxiliava o mestre nas avaliações, pois falava sobre a aplicação e o desenvolvimento dos alunos, principalmente externos[10]. Ele tinha como função avisar o Superior se algum estudante não comparecesse às lições, repetições, disputas ou deixasse de cumprir algum dos deveres relativos ao estudo ou à disciplina[11] . O estudante deveria ser aprovado em uma dada etapa para poder prosseguir seus estudos. Dentre as regras que compunham o documento, havia as destinadas exclusivamente aos alunos externos. Essas prescreviam que mesmo esses alunos deveriam freqüentar as aulas de doutrina cristã, confessar e assistir à missa, além de proibir completamente a leitura de “livros pernicivos e inúteis” e a presença em espetáculos públicos[12]. Portanto, fica claro que mesmo não pretendendo tornar-se membro da Ordem o aluno deveria seguir uma vida cristã, correta e totalmente dedicada aos estudos. Diante disso, podemos concluir que todas as movimentações dos colégios eram rigorosamente coordenadas pelo Ratio Studiorum, devendo ser seguido por todas as unidades da Companhia, para garantir a universalidade do trabalho dos mestres espalhados por todo o mundo. Considerações Finais A Companhia de Jesus surgiu para atender às necessidades da Igreja Católica no momento em que esta precisava reagir contra as forças do movimento protestante. A Idade Moderna exigia uma transformação espiritual e a Igreja Católica não podia perder sua hegemonia. No contexto histórico em que nasceu, a Companhia não auxiliou a Igreja Católica apenas nos limites do território europeu. O Novo Mundo necessitava conhecer o evangelho e ser campo de batalha contra o protestantismo. Dessa forma, a Ordem foi escolhida para atuar na transformação dos “bárbaros” habitantes destas novas localidades e preservar o catolicismo. Fora eleita para adequar o Novo Mundo à “civilização européia”. Apesar dos impactos iniciais, os jesuítas encarregados da missão brasileira logo iniciaram, cheios de otimismo, o trabalho com os nativos e também com os colonos, que não viviam em harmonia com a moral pregada pelos padres e irmãos. As primeiras tentativas de conversão deram-se a partir da pregação e do batismo em massa, porém, estas fracassaram em virtude da efemeridade da crença dos nativos, que logo retornavam aos seus antigos costumes. Entretanto, os jesuítas, confiantes que eram, não tardaram em buscar soluções mais eficazes para a concretização de seus ideais. Tais soluções foram a educação e a catequese mais direta dos meninos índios e, a mais drástica e destrutiva delas, a criação dos aldeamentos, dentro dos quais os indígenas viveriam sob uma nova organização, dirigidos pelos padres e educados para se adequarem às “regras” da colônia.
  6. 6. Educação a Distância – Fundamentos Históricos e Políticos da Educação Dentro deste espaço arquitetado pelos padres e irmãos, meios pedagógicos, como a música e o teatro, foram buscados para atingir os objetivos da Igreja e do estado português. Concluímos que a experiência brasileira, mesmo que não esteja explícita nas correspondências, contribuiu para a redação final do Ratio Studiorum. As observações contidas nas cartas despertaram a atenção dos membros da comissão encarregada de elaborar as regras que deveriam reorientar parte do trabalho pedagógico dos jesuítas. Assim, as modificações e as inovações pensadas foram concretizadas no intuito de formar o cristão tendo em vista as necessidades dos novos tempos. Pensar a sociedade colonial sem uma compreensão do trabalho dos missionários da Companhia de Jesus e conseqüentemente sua atuação pedagógica é ver apenas parte de um complexo universo da História do Brasil. Disponível em: http://www.anpuh.uepg.br/historia-hoje/vol1n2/ratio.htm [1] FRANCA, L. O Método Pedagógico Jesuítico. O “Ratio Studiorium”: Introdução e Tradução. Rio de Janeiro: Agir, 1952, p.15 [2] MADUREIRA, J.M. A liberdade do índios. A Companhia de Jesus, sua pedagogia e seus resultados. São Paulo: [s.n.], 1929, p. 395. [3] FRANCA, L. Op. Cit., p. 133. [4] MADUREIRA, J.M. Op. Cit., p, 397. [5] FRANCA, L. Op. Cit., p.192. [6] MADUREIRA, J. M. Op. Cit., p. 401. [7] FRANCA, L. Op. Cit., p. 190. [8] Idem, p. 222. [9] Idem, p. 173. [10] Idem, p. 220. [11] Idem, p. 219. [12] Idem, p. 221

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