Spinoza e Leibniz: 
os antípodas metafísicos 
FAF1010 – Metafísica 
Bacharelado em Filosofia 
Universidade Federal de Sant...
Os antípodas metafísicos 
Metafísica é a “[…] tentativa mais geral de dar 
sentido às coisas” (A. W. Moore) 
Nos grandes t...
Usos da metafísica, motivações 
● Descartes: metafísica a serviço da ciência 
● Spinoza: dar sentido às coisas em geral (o...
Bento de Spinoza 
● Amsterdã, 1632-11-24 – 
Haia, 1677-02-21 
● Filósofo holandês, 
religião judaica, origem 
ibérica 
● S...
Principais obras de Spinoza 
● Correspondência (1661-74) 
● Tratado da reforma do intelecto, redigido 
em 1660-63, publica...
Leibniz 
● Leipzig, 1646-07-01 – 
Hannover, 1716-11-14 
● Filósofo alemão, religião 
protestante 
● Se manteve trabalhando...
Principais obras de Leibniz 
● Discurso de metafísica (1686) 
● Da origem primeira das coisas (1697) 
● Monadologia (1714)...
Focos de divergência 
● A noção de substância 
● A relação entre o indivíduo e o restante da 
realidade 
● A natureza das ...
Substância: 
antiguidade e modernidade 
● Teoria antiga da substância: Aristóteles 
● Teoria moderna da substância: Descar...
Substância – a herança antiga 
● O que está sob (etimologia) 
● Essência, ser (ousia) 
● Identidade na multiplicidade (suj...
Substância: o que está sob 
● A essência de uma coisa está sob as aparências 
que a envolvem e ocultam 
● A permanência de...
Substância: essência, ser 
● O termo ousia, do grego antigo, pode ser 
traduzido tanto por essência como por ser 
● Tradic...
Essência 
A natureza de uma coisa 
O ser verdadeiro e profundo de uma coisa, em 
contraste com as aparências, as quais são...
Substância: 
o idêntico sob o múltiplo 
● A substância é o sujeito da mudança 
● Quando os acidentes (propriedades) de uma...
Substância: 
o sujeito gramatical de uma frase 
● Uma substância é uma coisa da qual se pode 
afirmar ou negar alguma cois...
Substâncias primeiras e segundas 
● “Eduardo passeou.” 
● Substância: Eduardo (um indivíduo); 
propriedade: ter passeado (...
Substância em Descartes 
● “Por ‘substância’ não podemos entender senão 
a coisa que existe de tal maneira que não 
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Substância na modernidade: 
uma ambiguidade decisiva 
● “E, de certo, só há uma única substância que 
se pode entender com...
Divergências modernas sobre a 
substância 
● Spinoza: só há uma única substância, pois 
somente um indivíduo que seja caus...
Spinoza 
Metodologia 
O método racionalista 
O método da geometria 
Substância
O método racionalista 
Descobrir a verdade, caso a busquemos 
Demonstrá-la, quando a possuímos 
Discernir o verdadeiro do ...
O método da geometria euclidiana 
Provar cada proposição 
Dispor as proposições na melhor ordem 
PASCAL, B. Do espírito ge...
Uma demonstração geométrica 
Postulado: dados dois pontos distintos, uma única reta 
os contém 
Teorema: duas retas concor...
Substância em Spinoza 
● “Por substância compreendo aquilo que existe 
em si mesmo e que por si mesmo é concebido, 
isto é...
Como citar a Ética 
● Parte: 1, 2, 3, 4 ou 5 (ex. Ética 2, a 2ª parte da Ética) 
● Axioma: a (ex. 2a4, o axioma 4 da 2ª pa...
Monismo substancial spinozano 
● A realidade é composta de um único indivíduo 
que é ontologicamente independente de todos...
Descartes vs Spinoza: 
Deus, mente e corpo 
● Descartes: Deus é substância distinta das 
mentes finitas e da matéria 
● Sp...
Metafísica spinozana 
● Tudo é na Substância (1a1, 1p15) 
● Não há diferentes domínios do ser (diferente de 
Kant e Frege,...
Substância 
● Produtividade pura; os modos são as estruturas 
que a Substância se dá (MATHERON, 1988, p. 
13) – e a Substâ...
Plenitude 
● “Deus é a projeção ontológica da proposição: 
‘Todos os indivíduos possíveis devem existir.’” 
(MATHERON, 198...
Atributos 
● Extensão é atividade espacializante 
(MATHERON, 1988, p. 13) 
● Infinidade de atributos: cada um dos infinito...
Substância em Leibniz 
● “[…] a natureza de uma substância individual ou 
de um ser complexo consiste em ter uma noção 
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Leibniz: tudo é dedutível da noção 
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Noção completa de César: 
César nasceu em SJC e fez ensi...
Sistema leibniziano 
● Princípio de identidade, A é A: Toda proposição 
analítica é verdadeira 
● Princípio de razão sufic...
Analiticidade 
● Uma frase é analítica caso o predicado esteja 
contido no sujeito 
Definições: Ouro é o elemento químico ...
Expressão 
● “[…] essa acomodação de todas as coisas 
criadas a cada uma, e de cada uma a todas as 
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Indivíduo 
● Spinoza: os indivíduos, ou modos, ou coisas 
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● Leibniz: indivíduos são substânci...
Indivíduo em Spinoza 
● “Por modo compreendo as afecções de uma 
substância, ou seja, aquilo que existe em outra 
coisa, p...
Spinoza: indivíduos 
● Só existem em comunidade (MATHERON, 1988, 
p. 19). 
● Se há um, há muitos – argumento contra o 
cog...
Singularidade 
● É pressuposto que há indivíduos (BARTUSCHAT, 
2010, p. 47) 
● Várias coisas que em conjunto são a causa d...
Corpos 
● Se distinguem pelo movimento e repouso 
(2p13l1) 
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Indivíduo em Leibniz 
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ou de um ser complexo consiste em ter uma 
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Modalidades 
● Spinoza: tudo o que pode existir existe em ato. 
● Leibniz: o entendimento divino é a terra dos 
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Modalidades em Spinoza 
● “[…] as coisas não poderiam ter sido produzidas 
por Deus de nenhuma outra maneira, nem em 
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● “Toda a gente concordará estarem assegurados 
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Supondo a existência de ao menos um indivíduo… 
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O quadrado, Spinoza e Leibniz 
Spinoza: a realidade não contém nem 
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Leibniz: a realidade n...
Leis naturais 
● Spinoza: 
– Leis naturais são invioláveis 
– As mesmas leis naturais explicam tudo, inclusive a 
mente e ...
Natureza em Spinoza 
● “[…] a substância pensante e a substância 
extensa são uma só e a mesma substância, 
compreendida o...
Natureza em Leibniz 
● “Como estabelecemos acima uma Harmonia 
perfeita entre dois Reinos Naturais, um das 
causas Eficien...
Conhecimento e realidade 
● Spinoza: não podemos conhecer tudo, o que 
nos impede de ter liberdade total 
● Leibniz: em ce...
Conhecimento em Spinoza 
● “[…] as paixões só estão referidas à mente 
enquanto ela tem algo que envolve uma 
negação, ou ...
Gêneros de conhecimento (2p40e2) 
1.Particular e inadequado (por passividade, percepção 
sensível, 2p29c) 
• Conhecimento ...
Conhecimento do 3º gênero 
● Conhecer uma coisa singular do seu interior, 
como se a tivéssemos feito, podendo deduzir 
da...
Conhecimento em Leibniz 
● “Ora, esse vínculo ou essa acomodação de 
todas coisas criadas a cada uma, e de cada uma 
a tod...
Liberdade 
● Spinoza: a crença no livre-arbítrio é fruto da 
ignorância. Mas podemos nos libertar: nos 
esclarecendo, send...
Liberdade em Spinoza 
● “Diz-se livre a coisa que existe exclusivamente 
pela necessidade de sua natureza e que por si só ...
Liberdade em Leibniz 
● “Diz-se que a criatura age exteriormente na 
medida em que possui perfeição; e que padece 
de outr...
Epílogo: Deus 
● “Não poderíamos […] dizer que […] o divino, longe 
de ser um constrangimento para o pintor, é o lugar 
da...
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Spinoza e leibniz, antipodas metafisicos

  1. 1. Spinoza e Leibniz: os antípodas metafísicos FAF1010 – Metafísica Bacharelado em Filosofia Universidade Federal de Santa Maria Prof. César Schirmer dos Santos cesarschirmer@gmail.com 18 de setembro de 2013
  2. 2. Os antípodas metafísicos Metafísica é a “[…] tentativa mais geral de dar sentido às coisas” (A. W. Moore) Nos grandes temas relacionados à metafísica, Spinoza é o anti-Leibniz, Leibniz é o anti- Spinoza. MOORE, A. W. The evolution of modern metaphysics: making sense of things. Oxford: Oxford University Press, 2012.
  3. 3. Usos da metafísica, motivações ● Descartes: metafísica a serviço da ciência ● Spinoza: dar sentido às coisas em geral (ou seja, a metafísica) é uma realização ética (MOORE, 2012, p. 50) ● Leibniz: metafísica a serviço de uma questão metafísica, a teodiceia ● MOORE, A. W. The evolution of modern metaphysics: making sense of things. Oxford: Oxford University Press, 2012.
  4. 4. Bento de Spinoza ● Amsterdã, 1632-11-24 – Haia, 1677-02-21 ● Filósofo holandês, religião judaica, origem ibérica ● Se manteve trabalhando com instrumentos óticos ● Influenciado por Descartes e Hobbes, influência de Leibniz e Deleuze
  5. 5. Principais obras de Spinoza ● Correspondência (1661-74) ● Tratado da reforma do intelecto, redigido em 1660-63, publicado postumamente em 1677 ● Princípios da filosofia de Descartes + Pensamentos metafísicos (1663) ● Tratado teológico-político (1670, anônimo) ● Ética (1675, publ. post. 1677) ● Tratado político (1676-77, póstumo)
  6. 6. Leibniz ● Leipzig, 1646-07-01 – Hannover, 1716-11-14 ● Filósofo alemão, religião protestante ● Se manteve trabalhando até como engenheiro ● Influenciado por Spinoza, influência de Kant e Russell
  7. 7. Principais obras de Leibniz ● Discurso de metafísica (1686) ● Da origem primeira das coisas (1697) ● Monadologia (1714) ● Correspondência com Clarke (1715-16) Consulte http://www.leibnizbrasil.pro.br/
  8. 8. Focos de divergência ● A noção de substância ● A relação entre o indivíduo e o restante da realidade ● A natureza das modalidades ● O estatuto das leis naturais ● Relação entre conhecimento e realidade ● A questão da liberdade
  9. 9. Substância: antiguidade e modernidade ● Teoria antiga da substância: Aristóteles ● Teoria moderna da substância: Descartes
  10. 10. Substância – a herança antiga ● O que está sob (etimologia) ● Essência, ser (ousia) ● Identidade na multiplicidade (sujeito da mudança) ● O sujeito gramatical de uma frase ● Substâncias primeiras e segundas ● COMTE-SPONVILLE, A. Substância. In: ___. Dicionário filosófico. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 573-574.
  11. 11. Substância: o que está sob ● A essência de uma coisa está sob as aparências que a envolvem e ocultam ● A permanência de uma coisa está sob a mudança das suas propriedades ● O sujeito de uma frase está sob os predicados que o determinam
  12. 12. Substância: essência, ser ● O termo ousia, do grego antigo, pode ser traduzido tanto por essência como por ser ● Tradicionalmente se traduz o termo ousia por substância
  13. 13. Essência A natureza de uma coisa O ser verdadeiro e profundo de uma coisa, em contraste com as aparências, as quais são superficiais e podem ser enganadoras O que a coisa é, em contraste com sua existência (o que a coisa é vs. que a coisa é) e com aquilo que lhe sucede (seus acidentes) COMTE-SPONVILLE, A. Essência. In: ___. Dicionário filosófico. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 211-212.
  14. 14. Substância: o idêntico sob o múltiplo ● A substância é o sujeito da mudança ● Quando os acidentes (propriedades) de uma coisa mudam, a coisa permanece idêntica a si mesma, pois a substância é aquilo que permanece na mudança, dado que permite a mudança ● Se não há substância, então não há mudança, mas apenas substituição de um indivíduo por outro
  15. 15. Substância: o sujeito gramatical de uma frase ● Uma substância é uma coisa da qual se pode afirmar ou negar alguma coisa ● Não se pode negar ou afirmar uma substância de coisa alguma ● O que se pode afirmar ou negar de algo é uma propriedade ● Assim, uma substância corresponde ao sujeito gramatical, uma propriedade a um predicado gramatical
  16. 16. Substâncias primeiras e segundas ● “Eduardo passeou.” ● Substância: Eduardo (um indivíduo); propriedade: ter passeado (algo geral, repetível) ● “Passeios são divertidos.” ● Substância segunda: os passeios ● Uma substância segunda não é uma substância legítima (um indivíduo), é apenas uma propriedade ocupando o lugar gramatical do sujeito da frase; substância por analogia
  17. 17. Substância em Descartes ● “Por ‘substância’ não podemos entender senão a coisa que existe de tal maneira que não precise de nenhuma outra coisa para existir.” (Descartes, Princípios da filosofia, art. 51) ● Independência ontológica como critério da substancialidade ● Uma substância é um indivíduo que não depende de nenhum outro indivíduo para existir. ● DESCARTES, R. Princípios da filosofia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002.
  18. 18. Substância na modernidade: uma ambiguidade decisiva ● “E, de certo, só há uma única substância que se pode entender como absolutamente independente de qualquer outra coisa, a saber, Deus. Todas as outras, porém, percebemos que não podem existir a não ser graças ao concurso de Deus. E, por isso, o nome ‘substância’ não convém a Deus e a elas univocamente […].” (Descartes, Princípios da filosofia, art. 51) ● DESCARTES, R. Princípios da filosofia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2002.
  19. 19. Divergências modernas sobre a substância ● Spinoza: só há uma única substância, pois somente um indivíduo que seja causa de si mesmo (causa sui) pode ser ontologicamente independente ● Leibniz: há uma quantidade atualmente infinita de substâncias, pois cada indivíduo é logicamente autossuficiente, isto é, logicamente independente de todos os outros
  20. 20. Spinoza Metodologia O método racionalista O método da geometria Substância
  21. 21. O método racionalista Descobrir a verdade, caso a busquemos Demonstrá-la, quando a possuímos Discernir o verdadeiro do falso, quando examinamos Em suma, provar as verdades já encontradas, e torná-las tão claras que a prova seja incontestável. PASCAL, B. Do espírito geométrico. In: ___. Do espírito geométrico e da arte de persuadir. Porto: Porto Editora, 2003. p. 11-56.
  22. 22. O método da geometria euclidiana Provar cada proposição Dispor as proposições na melhor ordem PASCAL, B. Do espírito geométrico. In: ___. Do espírito geométrico e da arte de persuadir. Porto: Porto Editora, 2003. p. 11-56.
  23. 23. Uma demonstração geométrica Postulado: dados dois pontos distintos, uma única reta os contém Teorema: duas retas concorrentes (distintas e que se interseccionam) se interseccionam em um único ponto Demonstração: digamos que duas retas r e s concorram no ponto P. Seja Q outro ponto qualquer que está nas duas retas. Pelo Postulado, P e Q determinam a reta r, e também a reta s. Logo, r e s são a mesma reta, o que mostra que a concorrência só se dá em um único ponto. Q.E.D. (Quod Erat Demonstrandum, “o que era para ser demonstrado”) Ver o cap. 1 de: REZENDE, A. Q. F.; DE QUEIROZ, M. L. B. Geometria euclidiana e construções geométricas. 2. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2008.
  24. 24. Substância em Spinoza ● “Por substância compreendo aquilo que existe em si mesmo e que por si mesmo é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado.” (Spinoza, Ética 1d3) ● “Além de Deus, não pode existir nem ser concebida nenhuma substância.” (1p14) ● “Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido.” (1p15) ● SPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
  25. 25. Como citar a Ética ● Parte: 1, 2, 3, 4 ou 5 (ex. Ética 2, a 2ª parte da Ética) ● Axioma: a (ex. 2a4, o axioma 4 da 2ª parte da Ética) ● Definição: def (ex. 4def1, a definição 1 da 4ª parte da Ética) ● Proposição: p (ex. 2p1, a proposição 1 da 2ª parte da Ética) ● Demostração: d (ex. 3p10d, a demonstração da proposição 10 da 3ª parte da Ética) ● Corolário: c (ex. 2p9c, o corolário da proposição 9 da 2ª parte da Ética) ● Escólio: e (ex. 3p9e, o escólio da proposição 9 da 3ª parte da Ética)
  26. 26. Monismo substancial spinozano ● A realidade é composta de um único indivíduo que é ontologicamente independente de todos os outros: a natureza, isto é deus ● Tudo o mais que existe, existe na natureza, e não é substância, mas sim modo (modificação) da substância ● A natureza é composta de infinitas modificações (1p16)
  27. 27. Descartes vs Spinoza: Deus, mente e corpo ● Descartes: Deus é substância distinta das mentes finitas e da matéria ● Spinoza: Deus é em si mesmo, Deus não tem uma mente tal como a humana, as mentes finitas são em Deus, assim como os corpos
  28. 28. Metafísica spinozana ● Tudo é na Substância (1a1, 1p15) ● Não há diferentes domínios do ser (diferente de Kant e Frege, p.ex.), mas há diferentes graus de realidade ou perfeição: mais atributos = mais realidade (CHAUI, 1999, p. 837) ● Chaui, M. A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
  29. 29. Substância ● Produtividade pura; os modos são as estruturas que a Substância se dá (MATHERON, 1988, p. 13) – e a Substância se dá todas as estruturas que pode se dar (Princípio de Plenitude; LOVEJOY, 2005, p. 57-59) ● Concebido por = engendrado por; princípio de inteligibilidade = causa eficiente (MATHERON, 2012, p. 16) ● LOVEJOY, A. O. A grande cadeia do ser. São Paulo: Palíndromo, 2005 (1936). ● MATHERON, A. Individu et communauté chez Spinoza. Paris: Minuit, 1988 (1969).
  30. 30. Plenitude ● “Deus é a projeção ontológica da proposição: ‘Todos os indivíduos possíveis devem existir.’” (MATHERON, 1988, p. 16) ● A matéria toma todas as formas possíveis sucessivamente (MATHERON, 1988, p. 27) ● Matheron, A. Individu et communauté chez Spinoza. Paris: Minuit, 1988 (1969).
  31. 31. Atributos ● Extensão é atividade espacializante (MATHERON, 1988, p. 13) ● Infinidade de atributos: cada um dos infinitos modos é dado de uma infinidade de maneiras (MATHERON, 1988, p. 16) ● Matheron, A. Individu et communauté chez Spinoza. Paris: Minuit, 1988 (1969).
  32. 32. Substância em Leibniz ● “[…] a natureza de uma substância individual ou de um ser complexo consiste em ter uma noção tão perfeita que seja suficiente para compreender e fazer deduzir de si todos os predicados do sujeito a que se atribui esta noção […].” (Leibniz, Discurso de metafísica, §8) ● Leibniz sacrifica a independência ontológica em nome da independência lógica ● LEIBNIZ, G. W. Discurso de metafísica. In: Os pensadores: Newton / Leibniz. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 117-152.
  33. 33. Leibniz: tudo é dedutível da noção de uma substância individual Noção completa de César: César nasceu em SJC e fez ensino médio em Taquara e se graduou em Porto Alegre e … Disso se deduz, pela regra da eliminação da conjunção (simplificação: se p e q, então p): César nasceu em SJC A noção de cada indivíduo expressa todo o universo a partir de um ponto de vista
  34. 34. Sistema leibniziano ● Princípio de identidade, A é A: Toda proposição analítica é verdadeira ● Princípio de razão suficiente: Toda proposição verdadeira é analítica ● Princípio de causalidade: A noção de um indivíduo inclui a totalidade do mundo ● Individualidade: A noção de um indivíduo expressa o universo inteiro ● Perspectivismo: O ponto de vista constitui o sujeito ● Modalidades: Nem todos os possíveis são compossíveis DELEUZE, G. Exasperación de la filosofia: el Leibniz de Deleuze. Buenos Aires: Cactus, 2006.
  35. 35. Analiticidade ● Uma frase é analítica caso o predicado esteja contido no sujeito Definições: Ouro é o elemento químico de número atômico 79, Dança é a arte e técnica de seguir ritmos musicais com o corpo (Míni Houaiss de 2001) ● Para Leibniz, qualquer frase verdadeira é analítica, pois a verdade da frase se deduz do fato do predicado pertencer ao sujeito
  36. 36. Expressão ● “[…] essa acomodação de todas as coisas criadas a cada uma, e de cada uma a todas as outras, faz com que cada substância simples tenha relações que exprimem todas as outras e seja, por conseguinte, um perpétuo espelho vivo do universo.” (Leibniz, Monadologia, §56) ● LEIBNIZ, G. W. A monadologia. In: ___. A monadologia e outros textos. São Paulo: Hedra, 2009. p. 25-42.
  37. 37. Indivíduo ● Spinoza: os indivíduos, ou modos, ou coisas singulares, existem em Deus ● Leibniz: indivíduos são substâncias
  38. 38. Indivíduo em Spinoza ● “Por modo compreendo as afecções de uma substância, ou seja, aquilo que existe em outra coisa, por meio da qual é também concebido.” (Spinoza, Ética, 1def5)
  39. 39. Spinoza: indivíduos ● Só existem em comunidade (MATHERON, 1988, p. 19). ● Se há um, há muitos – argumento contra o cogito cartesiano (LEVY, 1997) ● Não separar a atividade produtora do produto (MATHERON, 1988, p. 21) ● Levy, L. “‘Eu sou, eu existo: isto é certo; mas por quanto tempo?’ (AT VII, 27; IX-1, 21): o tempo, o eu e os outros eus.” Analytica, v. 2, n. 2, p. 161-185. ● Matheron, A. Individu et communauté chez Spinoza. Paris: Minuit, 1988 (1969).
  40. 40. Singularidade ● É pressuposto que há indivíduos (BARTUSCHAT, 2010, p. 47) ● Várias coisas que em conjunto são a causa de um único efeito são uma coisa singular (2d7) ● Humanos em harmonia como que formam um único corpo (4p18e) ● Realidade irredutível do indivíduo, e da sua essência (MATHERON, 1988, p. 9-10). ● Bartuschat, W.. Espinosa. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. ● Matheron, A. Individu et communauté chez Spinoza. Paris: Minuit, 1988 (1969).
  41. 41. Corpos ● Se distinguem pelo movimento e repouso (2p13l1) ● Dois corpos podem se unir, formando um terceiro mais forte, ou se destruirem ● John + Paul + George + Ringo = The Beatles ● Animal + ferramenta = animal saudável, ferramenta preservada ● Animal + comida = animal saudável, comida destruída ● Animal + projétil = cadáver
  42. 42. Indivíduo em Leibniz ● “[…] a natureza de uma substância individual ou de um ser complexo consiste em ter uma noção tão perfeita que seja suficiente para compreender e fazer deduzir de si todos os predicados do sujeito a que se atribui esta noção […].” (Leibniz, Discurso de metafísica, §8) ● Nos anos 1710s, Leibniz passará a usar o termo técnico mônada para designar as substâncias individuais
  43. 43. Modalidades ● Spinoza: tudo o que pode existir existe em ato. ● Leibniz: o entendimento divino é a terra dos possíveis. Deus contempla os indivíduos possíveis, e cria o universo com os melhores indivíduos possíveis que são compossíveis.
  44. 44. Modalidades em Spinoza ● “[…] as coisas não poderiam ter sido produzidas por Deus de nenhuma outra maneira, nem em qualquer outra ordem, […] não há certamente qualquer razão sólida que possa nos persuadir a crer que Deus não tenha querido criar todas as coisas que existem em seu intelecto e com a mesma perfeição com que as compreende.” (Spinoza, Ética, 1p33e2) ● Necessitarismo: é necessário que as coisas sejam como são, é impossível que sejam de outro modo
  45. 45. Modalidades em Leibniz ● “Toda a gente concordará estarem assegurados os futuros contingentes, visto Deus os prever, mas daqui não segue a sua necessidade. […] há duas espécies de conexão ou consecução: é absolutamente necessária só aquela cujo contrário implique contradição […].” (Leibniz, Discurso de metafísica, §13) ● Somente o contraditório é impossível, tudo o mais é possível
  46. 46. Modalidades: Kant, Leibniz, Platão “[…] Kant traduz realidade de maneira bastante pertinente como coisidade, como determinação da coisa [KrV B 182]. Real é aquilo que pertence à res. Quando Kant fala da omnitudo realitas, da totalidade das realidades, ele não tem em vista a totalidade daquilo que é efetivamente presente à vista, mas, ao contrário, precisamente a totalidade das determinações possíveis da coisa, a totalidade dos conteúdos materiais, das essencialidades, das coisas possíveis. A realitas é, por conseguinte, equivalente à expressão leibniziana: possibilitas, possibilidade. As realidades são os conteúdos quiditativos das coisas possíveis em geral, abstraindo-se do fato de elas serem realmente efetivas, em nosso sentido moderno ‘reais’, ou não. O conceito de realidade é equivalente ao conceito da idea platônica como aquilo que é apreendido de um ente quando eu pergunto: ti esti, o que é o ente? Neste caso, a resposta me é fornecida pelo conteúdo quiditativo da coisa, um conteúdo que a escolástica designava com o termo res.” (Heidegger, Probl. fund. fen., p. 53-54) HEIDEGGER, M. Os problemas fundamentais da fenomenologia. Petrópolis: Vozes, 2012.
  47. 47. Modalidades e realidade Tradição, renovada por Leibniz (e D. Lewis): essência → real → possível Visão contemporânea: real → atual Visão de Spinoza: real → necessário
  48. 48. Modalidades, estilo séc. XIII Imagem retirada de: KNUUTTILA, S. Medieval Theories of Modality. In: ZALTA, E. N. (Ed.). The Stanford encyclopedia of philosophy, 05 feb. 2013. Disponível em: < http://plato.stanford.edu/entries/modality-medieval/>. Acesso em: 11 set. 2013.
  49. 49. Versão contemporânea A Todos os animais são antas (x)(x é animal → x é anta) E Todos os animais não são antas (x)(x é animal → x não é anta) I Existe um animal que é anta (x)(x é animal e x é anta) O Existe um animal que não é anta (x)(x é animal e x não é anta) Cf. p. 289-90 de: COPI, I. M. Introdução à lógica. São Paulo: Mestre Jou, 1978.
  50. 50. Interpretação do quadrado Supondo a existência de ao menos um indivíduo… Contrárias: podem ser ambas falsas, mas não podem ser ambas verdadeiras – “Todos os animais são antas” e “Todos os animais não são antas” Subcontrárias: podem ser ambas verdadeiras, mas não podem ser ambas falsas – “Existe um animal que é anta” e “Existe um animal que não é anta” Contraditórias: uma tem que ser verdadeira, a outra falsa Subalternas: a verdade da de baixo está suposta na verdade da de cima Cf. p. 287 de: COPI, I. M. Introdução à lógica. São Paulo: Mestre Jou, 1978.
  51. 51. O quadrado, Spinoza e Leibniz Spinoza: a realidade não contém nem contraditórios, nem contrários Leibniz: a realidade não contém contraditórios, mas contém contrários Isto é: faz parte da realidade (considerada como o conjunto de todos os mundos possíveis) como um todo (mas não de um dado mundo possível) poder haver coisas que são de um jeito e coisas que não são de um jeito, como animais que são antas e animais que não são antas
  52. 52. Leis naturais ● Spinoza: – Leis naturais são invioláveis – As mesmas leis naturais explicam tudo, inclusive a mente e o corpo ● Leibniz: – Por elegância, Deus cria o universo segundo umas poucas leis primárias invioláveis. Mas o universo também é regido por leis secundárias que podem ser violadas. (Logo, milagres são possíveis.) – As mentes seguem a causalidade final, os corpos seguem a causalidade eficiente
  53. 53. Natureza em Spinoza ● “[…] a substância pensante e a substância extensa são uma só e a mesma substância, compreendida ora sob um atributo, ora sob o outro.” (Spinoza, Ética, 2p7e) ● Se tudo o que há é uma única substância, só há um tipo de lei natural ● É possível explicar capacidades mentais (como a memória) por configurações corporais (do cérebro, por exemplo) – neurociência
  54. 54. Natureza em Leibniz ● “Como estabelecemos acima uma Harmonia perfeita entre dois Reinos Naturais, um das causas Eficientes, outro das Finais, devemos notar aqui, ainda, uma outra harmonia entre o reino físico da Natureza e o Reino Moral da Graça, isto é, entre Deus considerado Arquiteto da Máquina do universo e Deus considerado Monarca da Cidade divina dos Espíritos.” (Leibniz, Monadologia, §87)
  55. 55. Conhecimento e realidade ● Spinoza: não podemos conhecer tudo, o que nos impede de ter liberdade total ● Leibniz: em certo sentido, conhecemos tudo, ainda que confusamente
  56. 56. Conhecimento em Spinoza ● “[…] as paixões só estão referidas à mente enquanto ela tem algo que envolve uma negação, ou seja, enquanto ela é considerada uma parte da natureza, a qual, por si só, sem as outras partes, não pode ser percebida clara e distintamente.” (Spinoza, Ética, 3p3e) ● Conhecimento sensível é paixão; logo, é negação da independência ontológica do sujeito ● Conhecimento racional é ação; logo, afirmação da própria liberdade
  57. 57. Gêneros de conhecimento (2p40e2) 1.Particular e inadequado (por passividade, percepção sensível, 2p29c) • Conhecimento adequado → fundado apenas no sujeito, e portando suas próprias credenciais (2p31; MOORE, 2012, p. 59) 2. Geral e adequado, de propriedades comuns a todas as coisas (2p37, 2p40e2; MOORE, 2012, p. 61) 3.Particular e adequado, da essência (singular) de uma coisa singular (2p40e, 3p7; MOORE, 2012, p. 62) • Saber o que x pode fazer, pois isto é o que x é (o poder fazer é a essência [o o-que-é] de x) ● MOORE, A. W. The evolution of modern metaphysics: making sense of things. Oxford: Oxford University Press, 2012.
  58. 58. Conhecimento do 3º gênero ● Conhecer uma coisa singular do seu interior, como se a tivéssemos feito, podendo deduzir da sua natureza o que é efeito (MATHERON, 1988, p. 11) ● Matheron, A. Individu et communauté chez Spinoza. Paris: Minuit, 1988 (1969).
  59. 59. Conhecimento em Leibniz ● “Ora, esse vínculo ou essa acomodação de todas coisas criadas a cada uma, e de cada uma a todas as outras, faz com que cada substância simples tenha relações que exprimem todas as outras e seja, por conseguinte, um perpétuo espelho vivo do universo.” (Leibniz, Monadologia, §56) ● “No entanto, quando há uma grande quantidade de pequenas percepções em que nada há de distinto, fica-se atordoado [...].” (§21)
  60. 60. Liberdade ● Spinoza: a crença no livre-arbítrio é fruto da ignorância. Mas podemos nos libertar: nos esclarecendo, sendo causas das nossas próprias ações. ● Leibniz: Deus cria indivíduos que têm livre-arbítrio.
  61. 61. Liberdade em Spinoza ● “Diz-se livre a coisa que existe exclusivamente pela necessidade de sua natureza e que por si só é determinada a agir. E diz-se necessária, ou melhor, coagida, aquela coisa que é determinada por outra a existir e a operar de maneira definida e determinada.” (Spinoza, Ética, 1def7) ● Um ser humano é um modo. Logo, algo que não pode ser absolutamente livre ● Mas a compreensão da realidade é uma espécie de terapia libertadora (aceitação do destino, estoicismo)
  62. 62. Liberdade em Leibniz ● “Diz-se que a criatura age exteriormente na medida em que possui perfeição; e que padece de outra na medida em que é imperfeita. Assim, atribui-se Ação à Mônada enquanto tem percepções distintas; e paixão, quando as tem confusas.” (Leibniz, Monadologia, §49) ● Há livre arbítrio, mas não há ação de uma coisa sobre outra, pois relações (inclusive causações de um ente criado sobre outro) são irreais (Monad., §7) ● RODRIGUEZ-PEREIRA, G. Leibniz: mind-body causation and pre-established harmony. In: LE POIDEVIN, R.; SIMONS, P.; McGONIGAL, A.; CAMERON, R. P. (Eds.). The Routledge companion to metaphysics. London: Routledge, 2009. cap. 11, p. 109-118.
  63. 63. Epílogo: Deus ● “Não poderíamos […] dizer que […] o divino, longe de ser um constrangimento para o pintor, é o lugar da sua emancipação máxima? […] com Deus se pode fazer qualquer coisa […].” (Deleuze, En medio de Spinoza, p. 22) ● “[…] assim como o pintor se servia de Deus para que linhas, cores e movimentos já não estivessemm obrigados a representar algo existente, o filósofo se serve de Deus, nessa época, para que os conceitos não estejam obrigados a representar algo prévio, totalmente dado.” (p. 25) ● DELEUZE, G. Exasperación de la filosofia: el Leibniz de Deleuze. Buenos Aires: Cactus, 2006.

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