Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´ - edi¸ao revisada e ampliada de
e
a
c˜
Carlos A. P. Campani ´ licenciado sob uma Lice...
Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´
e
a
Edi¸ao revisada e ampliada
c˜
Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´
e
a
Edi¸ao revisada e ampliada
c˜
Carlos A. P. Campani
Obra publicada pela Universidade Federal de Pelotas
Reitor: Prof. Dr. Antonio Cesar Gon¸alves Borges
c
Vice-Reitor: Prof. ...
Para meu amor,
Tanise

Para meus filhos,
Jo˜o Vitor e Luana
a

Para meus pais,
Pedro e Theresinha
“Se algu´m deseja adquirir conhecimento de Deus, ele ou ela deve
e
concentrar-se de uma forma especial . . . e ir´ ent˜o e...
Agradecimentos
Gostaria de agradecer a todos que, de alguma forma, cooperaram para
que este livro se tornasse realidade. O...
Sum´rio
a
Pref´cio ` Edi¸ao Revisada e Ampliada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . xxi
a
a
c˜...
xiv
Cap´
ıtulo 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ....
xv
Anexo 2: Ad˜o Kadmon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 277
a
Anex...
Lista de Figuras
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
Figura
...
Lista de Tabelas
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela
Tabela

1:
2:
...
Pref´cio ` Edi¸˜o Revisada e
a
a
ca
Ampliada
Foi com grande j´bilo que me envolvi no esfor¸o para a publica¸ao desta
u
c
c...
xxii

´
`
PREFACIO A EDICAO REVISADA E AMPLIADA
¸˜

pr´ticas da cabala m´
a
ıstica e adapt´-las `s suas pr´prias cren¸as. ...
´
`
PREFACIO A EDICAO REVISADA E AMPLIADA
¸˜

xxiii

n˜o se compatibilizam com o estudo de filosofia. Aos primeiros respondo...
xxiv

´
`
PREFACIO A EDICAO REVISADA E AMPLIADA
¸˜

7. A existˆncia de duas almas no ser humano, uma divina e uma humana
e...
Pref´cio
a
N˜o ´ casualidade que o Sˆfer Yetsir´ seja um dos textos cabal´
a e
e
a
ısticos mais
importantes, e para o qual...
xxvi

´
PREFACIO

Mesmo n˜o havendo men¸ao expl´
a
c˜
ıcita a outras vertentes da cabala, acredito que o leitor habituado ...
´
PREFACIO

xxvii

um componente f´lico muito semelhante ao culto ao lingam na ´
a
India. Podese perceber semelhan¸as em a...
xxviii

´
PREFACIO

Quanto ` pron´ncia das palavras hebraicas, devemos observar que a letra
a
u
hˆi, transliterada como H,...
Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´
e
a
Edi¸ao revisada e ampliada
c˜
Introdu¸˜o
ca
O Cabalismo
A palavra “cabala” (dlaw) significa literalmente “tradi¸ao” em hebraico.
c˜
A cabala ´ a tradi¸˜o...
INTRODUCAO
¸˜

4

´
na consciˆncia ´
e
ıntima e direta da Presen¸a Divina. E a religi˜o no seu est´gio
c
a
a
5
mais vivo, ...
INTRODUCAO
¸˜

5

totalidade, e a lei da Tor´ torna-se o s´
a
ımbolo da lei c´smica12 .
o
Segundo os cabalistas, as escrit...
INTRODUCAO
¸˜

6

uso dela, ressuscitar os mortos e operar milagres21 .
De fato, a Tor´ foi usada para fins te´rgicos e de ...
INTRODUCAO
¸˜

7

criou o mundo. Para os cabalistas, essa “cria¸ao da Tor´” ´ a forma com
c˜
a e
que as Sefir´t (zexitq), q...
INTRODUCAO
¸˜

8

pr´prios est´gios do caminho inverso, do retorno do homem ao seu Criador.
o
a
Assim, o estudo da cosmogo...
INTRODUCAO
¸˜

9

o segundo por Chesed, Guebur´ e Tiferet, e o ultimo por Netsach, Hod e
a
´
Yesod, fazem paralelo no home...
10

INTRODUCAO
¸˜

Longa), Aba (Pai), Ima (M˜e), Zair Anpin (Face Curta) e Shekin´ 47 . Os
a
a
partsufim s˜o faces ou aspec...
INTRODUCAO
¸˜

11

Bri´ ´ o mundo da cria¸ao, que representa a manifesta¸ao do esp´
a e
c˜
c˜
ırito.
Este ´ o mundo do Tro...
12

INTRODUCAO
¸˜

O texto possui seis cap´
ıtulos na maioria das edi¸oes, embora fontes antigas
c˜
afirmem que originalmen...
INTRODUCAO
¸˜

13

ˆ
para a constru¸˜o do Tabern´culo durante o Exodo. O Talmude deriva essa
ca
a
afirma¸˜o da passagem b´
...
INTRODUCAO
¸˜

14

as vers˜es possuem seis cap´
o
ıtulos, ` exce¸ao da Saadia, que possui oito73 . A
a
c˜
vers˜o Curta, ap...
INTRODUCAO
¸˜

15

Rev. Dr. Isidor Kalisch, intitulada A Book on Creation; or the Jewish Metaphysics of Remote Antiquity, ...
16

INTRODUCAO
¸˜

cism. A Source Reader: The Merkabah Tradition and the Zoharic Tradition,
publicado em Nova Iorque, pela...
INTRODUCAO
¸˜

17

Nome do Livro e Temas Abordados
O nome mais antigo, usado para referenciar o livro, foi “As Palavras do...
18

INTRODUCAO
¸˜

na86 . No entanto, existem interpreta¸oes do texto que consideram signific˜
87
cados m´gicos e meditativ...
INTRODUCAO
¸˜

19

pelo pr´prio Abra˜o.
o
a
Observa-se que o livro tenta conciliar os aspectos transcendente e imanente de...
20

INTRODUCAO
¸˜

como os mais influentes nas ideias dos cabalistas97 . No entanto, limitar-nosemos, neste trabalho, a esb...
INTRODUCAO
¸˜

21

Essas “chaves de interpreta¸ao” baseiam-se nas rela¸oes entre palavras e
c˜
c˜
vers´
ıculos com o conte...
22

INTRODUCAO
¸˜

A forma das letras hebraicas tamb´m pode sugerir interpreta¸˜es. Sabee
co
mos que as letras hebraicas u...
INTRODUCAO
¸˜

23

mos aceitar a antiguidade e a existˆncia concomitante de trˆs vers˜es prine
e
o
cipais (Curta, Longa e ...
24

INTRODUCAO
¸˜

usado neste livro n˜o possui os §§ 35, 36, 54 e 55 da numera¸˜o de Hayman,
a
ca
o que confirma que ele n...
Cap´
ıtulo 1
1:1
ze`ilt zeaizp mizye miylya ` dpyn
ze`av dedi di wwg dnkg
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Fundamentos da Cabala: Sêfer Yetsirá - Edição revisada e ampliada
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Fundamentos da Cabala: Sêfer Yetsirá - Edição revisada e ampliada
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Fundamentos da Cabala: Sêfer Yetsirá - Edição revisada e ampliada
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“Fundamentos da Cabala: Sêfer Yetsirá” busca apresentar e elucidar um dos mais conhecidos textos cabalísticos, o Livro da Criação, Sêfer Yetsirá. O livro procura introduzir os fundamentos da cabala por meio dos temas mencionados no Sêfer Yetsirá. O Sêfer Yetsirá é um dos mais importantes textos cabalísticos e foi escrito, provavelmente, no séc. III da era cristã, sob inspiração gnóstica. Ele versa sobre o misticismo e a tradição mágico-esotérica judaica, descrevendo a criação divina, que é apresentada como sendo resultante das combinações e permutações das letras do Nome de Deus (YHVH). Sua importância para o cabalismo pode ser inferida do fato dele ser o texto judaico mais antigo que cita o conceito de Sefirá. Também é inegável a importância do Sêfer Yetsirá para maçons, rosacruzes e estudantes de ciências ocultas em geral. A tradução do Sêfer Yetsirá para o português foi feita diretamente do texto hebraico, que é apresentado na íntegra no livro. A tradução é acompanhada de explicações do autor e citações dos comentários dos mais renomados rabinos, eruditos e estudiosos, entre eles: Gershom Scholem, Aryeh Kaplan, Leonard Glotzer, Ithamar Gruenwald, Peter Hayman, Isidor Kalisch, Gaon de Vilna, Ramban, Raivad, Isaque o cego, Moisés Botarel, Otsar HaShem e Saadia Gaon. O livro inclui ainda uma introdução aos principais conceitos da cabala, um glossário de termos hebraicos que aparecem no texto e anexos sobre Adão Kadmon, cifras cabalísticas e Ain Sóf. Cada capítulo do livro finaliza com um exercício prático de meditação cabalística. Este livro procura relacionar as ideias da cabala, que aparecem no Sêfer Yetsirá, com correntes da filosofia e religião, principalmente neoplatonismo, vedanta, budismo e ioga. Ele foi escrito em uma perspectiva multirreligiosa e multicultural, para que pessoas de diferentes crenças possam usufruir das ideias da cabala judaica e das práticas da cabala mística e adapta-las às suas próprias crenças.

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Fundamentos da Cabala: Sêfer Yetsirá - Edição revisada e ampliada

  1. 1. Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´ - edi¸ao revisada e ampliada de e a c˜ Carlos A. P. Campani ´ licenciado sob uma Licen¸a Creative Commons e c Atribui¸ao-Vedada a cria¸˜o de obras derivativas 3.0 Unported c˜ ca
  2. 2. Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´ e a Edi¸ao revisada e ampliada c˜
  3. 3. Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´ e a Edi¸ao revisada e ampliada c˜ Carlos A. P. Campani
  4. 4. Obra publicada pela Universidade Federal de Pelotas Reitor: Prof. Dr. Antonio Cesar Gon¸alves Borges c Vice-Reitor: Prof. Dr. Manoel Luiz Brenner de Moraes ´ Pr´-Reitor de Extens˜o e Cultura: Prof. Dr. Luiz Ernani Gon¸alves Avila o a c Pr´-Reitora de Gradua¸˜o: Prof. Dra.Eliana P´voas Brito o ca o Pr´-Reitor de Pesquisa e P´s-Gradua¸˜o: Prof. Dr. Manoel de Souza Maia o o ca ´ Pr´-Reitor Administrativo: Prof. Ms. Elio Paulo Zonta o Pr´-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento: Rog´rio Daltro Knuth o e Pr´-Reitor de Recursos Humanos: Admin. Roberta Trierweiler o Pr´-Reitor de Infra-Estrutura: Renato Brasil Kourrowski o Pr´-Reitora de Assistˆncia Estudantil: Assistente Social Carmen de F´tima de Mattos do Nascimento o e a Profa. Profa. Profa. Profa. Profa. Profa. Dra. Dra. Dra. Dra. Dra. Dra. CONSELHO Carla Rodrigues Cristina Maria Rosa Flavia Fontana Fernandes Francisca Ferreira Michelon Luciane Prado Kantorski Vera Lucia Bobrowsky EDITORIAL Prof. Dr. Carlos Eduardo Wayne Nogueira Prof. Dr. Jos´ Estevan Gaya e Prof. Dr. Luiz Alberto Brettas Prof. Dr. Vitor Hugo Borba Manzke Prof. Dr. Volmar Geraldo da Silva Nunes Prof. Dr. William Silva Barros Editora e Gr´fica Universit´ria a a Rua Lobo da Costa, 447 – Pelotas, RS – CEP 96010-150 Fone/fax: (53) 3227 8411 e-mail: editora@ufpel.edu.br Diretor da Editora e Gr´fica Universit´ria: Carlos Gilberto Costa da Silva a a Gerˆncia Operacional: Jo˜o Henrique Bordin e a Impresso no Brasil Edi¸˜o: 2011 ca ISBN: 978-85-7192-803-9 Tiragem: 300 exemplares Dados Internacionais de Cataloga¸˜o na Publica¸ao: ca c˜ (Bibliotec´ria Daiane Schramm – CRB-10/1881) a C186f Campani, Carlos A. P. Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´./ Carlos A. P. e a Campani. – Edi¸ao revisada e ampliada. – Pelotas: Editora c˜ Universit´ria/UFPEL, 2011. a 346p. : il. : gr´fs. , tabs. a ISBN 978-85-7192-803-9 1. Religi˜o. 2. Cabala. 3. Ocultismo. 4. Misticismo. I. T´ a ıtulo. CDD 290
  5. 5. Para meu amor, Tanise Para meus filhos, Jo˜o Vitor e Luana a Para meus pais, Pedro e Theresinha
  6. 6. “Se algu´m deseja adquirir conhecimento de Deus, ele ou ela deve e concentrar-se de uma forma especial . . . e ir´ ent˜o entender a a os segredos ocultos da espiritualidade e emergir´ com o Divino, a alcan¸ando a unidade.” c – Mois´s Cordovero (Rabino espanhol do s´c. XVI) e e
  7. 7. Agradecimentos Gostaria de agradecer a todos que, de alguma forma, cooperaram para que este livro se tornasse realidade. O seu apoio foi muito importante para mim. Espero n˜o ser injusto ao n˜o lembrar de algu´m, mas gostaria de a a e citar, em especial, Francisca Hardy e Jaime Roberto Bendjouya.
  8. 8. Sum´rio a Pref´cio ` Edi¸ao Revisada e Ampliada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . xxi a a c˜ Pref´cio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .xxv a Introdu¸˜o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 ca O Cabalismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 Origem e Autoria do Sˆfer Yetsir´ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 e a Vers˜es do Sˆfer Yetsir´ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 o e a Tradu¸oes do Sˆfer Yetsir´ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 c˜ e a Nome do Livro e Temas Abordados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 M´todo Exeg´tico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 e e Manuscritos e Tradu¸˜o . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 ca Cap´ ıtulo 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 1:1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 1:2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 1:3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52 1:4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57 1:5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 1:6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 1:7 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73 1:8 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80 1:9 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 1:10 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .88 1:11 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .90 1:12 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .96 1:13 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .99 1:14 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106 Pr´tica de medita¸ao 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108 a c˜ Cap´ ıtulo 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 2:1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .111 2:2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .118 2:3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .121 2:4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .124 2:5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .133 2:6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .144 Pr´tica de medita¸ao 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152 a c˜
  9. 9. xiv Cap´ ıtulo 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155 3:1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .155 3:2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .157 3:3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .161 3:4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .163 3:5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .166 3:6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .168 3:7 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .170 3:8 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .171 Pr´tica de medita¸˜o 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 173 a ca Cap´ ıtulo 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175 4:1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .175 4:2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .181 4:3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .182 4:4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .186 4:5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .190 4:6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .195 4:7 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .197 4:8 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .198 4:9 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .200 4:10 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201 4:11 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202 4:12 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203 Pr´tica de medita¸˜o 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207 a ca Cap´ ıtulo 5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209 5:1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .209 5:2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .221 5:3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .229 5:4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .230 Pr´tica de medita¸˜o 5 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 232 a ca Cap´ ıtulo 6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 233 6:1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .233 6:2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .240 6:3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .244 6:4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .248 Pr´tica de medita¸˜o 6 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 263 a ca Anexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .265 Anexo 1: Sˆfer Yetsir´ – Vers˜o Gra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267 e a a
  10. 10. xv Anexo 2: Ad˜o Kadmon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 277 a Anexo 3: Cifras Cabal´ ısticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 283 Anexo 4: Ain S´f . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 287 o Anexo 5: Gloss´rio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 293 a ´ Indice Remissivo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 305
  11. 11. Lista de Figuras Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura Figura 1: 2: 3: 4: 5: 6: 7: 8: 9: 10: 11: 12: 13: 14: 15: 16: 17: 18: 19: 20: 21: ´ Arvore da Vida de acordo com o Ari . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 ´ Arvore da Vida de acordo com o Gra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 ´ Arvore da Vida com Daat . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 Polariza¸˜o das Sefir´t em masculino e feminino . . . . . . . . . . . . . 53 ca o Bˆn¸ao sacerdotal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54 e c˜ ´ Arvore da Vida tridimensional segundo o Ari . . . . . . . . . . . . . . . . 65 Dimens˜es circunscritas em uma esfera . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 o ´ As letras Emesh e a Arvore da Vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113 Os 231 port˜es em arranjo triangular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130 o Os 231 port˜es segundo o m´todo cabal´ o e ıstico . . . . . . . . . . . . . . . 132 Pr´ticas de Abra˜o Abul´fia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 a a a ´ As letras Begued Kafarta e a Arvore da Vida . . . . . . . . . . . . . . . 179 ´ As letras elementares e a Arvore da Vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 210 Cubo do espa¸o – vers˜o Curta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 c a Cubo do espa¸o – vers˜o Gra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 c a Letra bˆt (a) nas faces do cubo do espa¸o . . . . . . . . . . . . . . . . . . 215 e c Os 72 Nomes de Deus . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219 Quadratura do Tetragrama . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 220 Equador celestial e a el´ ıptica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236 Triˆngulos truncados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 246 a Ad˜o Kadmon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 281 a
  12. 12. Lista de Tabelas Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela Tabela 1: 2: 3: 4: 5: 6: 7: 8: 9: 10: 11: 12: 13: 14: Alfabeto hebraico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 Letras sof´t . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 ı As Sefir´t e sua interpreta¸ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 o c˜ Associa¸˜o das Sefir´t no Zohar e no Sˆfer Yetsir´ . . . . . . . . . . 64 ca o e a Diferentes representa¸˜es das dire¸˜es . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102 co co Resumo das Sefir´t . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107 o Atributos e os tempos do Eclesiastes 3:2-8 . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180 Associa¸˜es com as sete letras duplas – vers˜o Curta . . . . . . . 191 co a Associa¸˜es com as sete letras duplas – vers˜o Gra . . . . . . . . . 191 co a Associa¸oes com as doze letras elementares – vers˜o Curta . 223 c˜ a Associa¸oes com as doze letras elementares – vers˜o Gra . . . 224 c˜ a Associa¸oes nas vers˜es Longa e Saadia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225 c˜ o Associa¸oes entre as Sefir´t e os nomes divinos . . . . . . . . . . . . . 231 c˜ o Principais cifras cabal´ ısticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 286
  13. 13. Pref´cio ` Edi¸˜o Revisada e a a ca Ampliada Foi com grande j´bilo que me envolvi no esfor¸o para a publica¸ao desta u c c˜ edi¸˜o revisada e ampliada da tradu¸˜o comentada do Sˆfer Yetsir´, publica ca e a cada originalmente no ano de 2009. Desde o momento em que o livro, com a tradu¸ao desse antigo texto c˜ judaico pertencente ` tradi¸ao cabal´ a c˜ ıstica, junto a numerosos coment´rios, a foi publicado pela primeira vez, surgiram diversas ideias para melhor´-lo e a explicar melhor os temas presentes no Sˆfer Yetsir´. e a Desde ent˜o, permanece esta a unica tradu¸˜o do Sˆfer Yetsir´ feita a ´ ca e a diretamente do texto hebraico para o portuguˆs – outras tradu¸˜es para e co o portuguˆs, publicadas no Brasil, basearam-se em tradu¸oes para o inglˆs. e c˜ e Os coment´rios apresentados no livro, em sua maioria, ficam dentro dos a limites do juda´ ısmo mais tradicional. No entanto, s˜o apresentados alguns a paralelos com outras tradi¸˜es religiosas e com a filosofia cl´ssica – o que ´ um co a e m´rito e um diferencial deste livro, permitindo que se vislumbre o quanto a e essˆncia da cabala foi absorvida e distribu´ em diversas tradi¸oes m´ e ıda c˜ ısticas. Infelizmente, o juda´ ısmo rab´ ınico, apegado `s concep¸oes de pureza lev´ a c˜ ıtica, afastou-se um pouco do verdadeiro esp´ ırito vivo da Tor´ e da genu´ traa ına di¸˜o m´ ca ıstica do povo nˆmade, descendente do patriarca Abra˜o, esquecendoo a se muitas vezes de procurar a experiˆncia direta de Deus. Espero que este e livro possa ser uma ajuda e motiva¸ao para que mais judeus e n˜o-judeus c˜ a reencontrem a tradi¸ao m´ c˜ ıstica esquecida dos tempos de Abra˜o. a De um modo geral, com algumas poucas exce¸˜es, o rabinismo propaga co a ideia de que o estudo da cabala judaica ´ vedado `queles n˜o nascidos de e a a pais judeus. No entanto, as ideias, profundas e inspiradoras, do misticismo judaico e as pr´ticas da cabala m´ a ıstica devem ser entendidas em um contexto universalista. Mais do que nunca a tolerˆncia e o di´logo interreligioso faz-se necess´rio a a a para que a humanidade possa caminhar em dire¸˜o ` paz e compreens˜o entre ca a a os povos. N˜o h´ nenhuma raz˜o para que n˜o-judeus, crist˜os, mu¸ulmanos a a a a a c ou budistas, n˜o possam usufruir dos conhecimentos da cabala judaica como a um auxiliar para o aprofundamento de sua pr´pria f´. Por isso, este livro foi o e escrito em uma perspectiva multirreligiosa e multicultural, para que pessoas de diferentes cren¸as possam usufruir das ideias da cabala judaica e das c
  14. 14. xxii ´ ` PREFACIO A EDICAO REVISADA E AMPLIADA ¸˜ pr´ticas da cabala m´ a ıstica e adapt´-las `s suas pr´prias cren¸as. Acredito a a o c que a verdadeira e fundamental utilidade do estudo de misticismo e cabala ´ a obten¸ao da experiˆncia da Presen¸a Divina – independente da religi˜o e c˜ e c a adotada pelo praticante. Assim, onde se sugere que seja usado o Tetragrama judaico como foco para medita¸ao, entenda-se que ele pode ser substitu´ c˜ ıdo pelo nome de Allah em ´rabe ou a imagem da cruz crist˜, por exemplo. a a Acreditamos na unidade de todas as tradi¸˜es religiosas, cujas diferen¸as co c s˜o apenas na forma, mas nunca na essˆncia. Como diz Ren´ Gu´non (em a e e e aula proferida em 1925): “a pura metaf´ ısica est´ essencialmente acima e al´m a e de toda forma e toda contingˆncia . . . sob a aparˆncia de diversidade existe e e sempre uma base de unidade, ao menos, onde a verdadeira metaf´ ısica existe, pela simples raz˜o de que a verdade ´ unica.” a e´ O texto deste livro foi inteiramente revisado e corrigido, tendo sido adicionado um novo anexo referente a Ain S´f, cuja falta foi sentida na primeira o edi¸˜o do livro. Esparsas explica¸˜es sobre esse importante conceito da caca co bala judaica ficavam distribu´ ıdas ao longo do livro, n˜o permitindo ao leitor a ter uma ideia mais ampla dele, o que agora foi corrigido com a inclus˜o do a novo anexo. No anexo apresento diversas compara¸˜es das ideias da cabala com a co vedanta, pois acho que h´ grande proximidade entre essas duas filosofias, para ticularmente no que se refere a Ain S´f e o Absoluto Brahman, Parabrahman. o Nesse sentido, n˜o h´ incompatibilidades entre os ensinamentos dos grandes a a mestres vedˆnticos, como Bhagavan Sri Rˆmakrishna, Bhagavan Sri Ramana a a Maharshi, Sri Nisargadatta Maharaj e Shankaracharya, e os ensinamentos cabal´ ısticos. Foi acrescentado um gloss´rio dos termos hebraicos que aparecem no Sˆfer a e Yetsir´, de grande utilidade para o entendimento da tradu¸ao. O gloss´rio a c˜ a organiza-se por versos do Sˆfer Yetsir´, o que facilitar´ a consulta. e a a Coment´rios e referˆncias bibliogr´ficas adicionais foram inclu´ a e a ıdos nas notas de rodap´ do livro, com importantes explica¸˜es aos temas apresentae co dos, principalmente paralelos dos conceitos da cabala com outras tradi¸˜es co religiosas e filos´ficas. o Os leitores perceber˜o que o livro, a despeito de ser um livro m´ a ıstico, desenvolve o tema em uma abordagem acadˆmica, preocupando-se longae mente com a fundamenta¸˜o te´rica para as pr´ticas apresentadas no texto ca o a – embora as pr´ticas sejam de aplica¸˜o relativamente simples. Isso pode a ca ser alvo de cr´ ıticas, tanto daqueles que possam opinar que nos excedemos em explica¸˜es te´ricas, quanto daqueles que possam opinar que as pr´ticas co o a
  15. 15. ´ ` PREFACIO A EDICAO REVISADA E AMPLIADA ¸˜ xxiii n˜o se compatibilizam com o estudo de filosofia. Aos primeiros respondo que a a pr´tica, sem a devida fundamenta¸˜o te´rica, perde grande parte de suas a ca o vantagens, derivadas da compreens˜o do seu significado. Aos outros respona do que o estudo de religi˜o e misticismo, ausente da efetiva busca de Deus, a torna-se tarefa pedante, ins´ ıpida, vazia e in´til. u Importante que se considere que o autor deste livro evitou as crendices que cercam o tema. Sobre isso e a importˆncia do estudo da Cabala, diz a Gershom Scholem no pref´cio de Origins of the Kabbalah: “Uma vez que o a gelo da ignorˆncia tenha sido quebrado e o charlatanismo que domina a ´rea a a tenha sido vencido, o caminho estar´ aberto para posterior pesquisa frut´ a ıfera. Estudos judaicos, assim como da hist´ria das religi˜es orientais e ocidentais, o o ser˜o beneficiados igualmente por um estudo mais penetrante do tema e a a discuss˜o do problema da Cabala.” a Espero que todo este esfor¸o, empreendido na publica¸ao da nova edi¸˜o c c˜ ca do livro, possa ajudar ainda mais os estudantes interessados na cabala judaica. O estudo do Sˆfer Yetsir´ ´ de grande importˆncia para o esoterismo e ae a ocidental, fortemente baseado na tradi¸ao apresentada no livro. c˜ Acredito que as ideias da filosofia cabal´ ıstica s˜o relevantes para todos a aqueles que desejam compreender a natureza de Deus. As principais ideias que formam os fundamentos da cabala s˜o: a 1. A existˆncia de uma Realidade Absoluta, eterna, incriada e autocontie da, onde toda a cria¸ao tem sua raiz, e que os cabalistas judeus chamam c˜ de Ain S´f ; o 2. A existˆncia concomitante de dois aspectos de Deus, um transcendente e e outro imanente; 3. O Nome de Deus, a Tor´ e as permuta¸˜es das letras hebraicas como a co origem da cria¸ao; c˜ 4. A manifesta¸˜o divina dividida em dez entidades abstratas chamadas ca Sefir´t e a unidade de Deus; o 5. A divis˜o da realidade em quatro mundos que representam diferentes a n´ ıveis da cria¸˜o; ca 6. O equil´ ıbrio entre elementos opostos, que s˜o conciliados por um tera ceiro elemento, como origem e caracteriza¸ao dos fenˆmenos do mundo c˜ o (coincidentia oppositorum);
  16. 16. xxiv ´ ` PREFACIO A EDICAO REVISADA E AMPLIADA ¸˜ 7. A existˆncia de duas almas no ser humano, uma divina e uma humana e (fazendo paralelo com os personagens b´ ıblicos Jac´ e Esa´), que est˜o o u a em constante conflito, a primeira almejando alcan¸ar Deus, a segunda c ego´ e envolvida com as coisas mundanas; ısta 8. O homem foi dotado por Deus de livre-arb´ ıtrio e essa ´ a raz˜o para a e a existˆncia do bem e do mal; e 9. A reencarna¸˜o da alma (gilgul ha-neshamot) para que ela possa comca pletar sua miss˜o neste mundo; a 10. A vida humana e o mundo f´ ısico s˜o uma ilus˜o transit´ria, uma cona a o di¸˜o vaporosa e sem substˆncia – este mundo ´ formado apenas por ca a e consciˆncia. e Todos esses temas s˜o discutidos neste livro, em maior ou menor profuna didade, junto com os coment´rios ao texto do Sˆfer Yetsir´. a e a N´s que temos como guia e ideal, residindo em nossos cora¸oes, este Deus o c˜ Vivo e Rei do Mundo, sabemos da importˆncia do que este livro cont´m, e a e n˜o o temos como apenas um assunto para entreter nossas mentes, mas como a uma ferramenta para compreender a realidade que nos cerca e encontrar nela a essˆncia de Deus. Nosso verdadeiro e unico guia ´ Deus. Citando as e ´ e palavras de Daniel Feldman: “Deus ´ o unico Guru; Deus ´ o unico Rabi”. e ´ e ´ Que o Santo Nome de Deus possa iluminar-te leitor amigo e possa ser ref´gio seguro para ti. Que pela lembran¸a constante e repeti¸˜o do Nome u c ca possas experimentar a essˆncia de Deus. Como diz o livro sagrado: “S´ s˜o e o a fi´is aqueles cujos cora¸˜es, quando lhes ´ mencionado o nome de Deus ese co e tremecem e, quando lhes s˜o recitados os Seus vers´ a ıculos, ´-lhes acrescentada e a f´, e se encomendam ao seu Senhor.” (Alcor˜o 8:2). e a Na escrita desta obra fui meramente um humilde servidor de Deus, o supremo e verdadeiro autor de todas as obras, a quem sou submisso, pois n˜o somos n´s que vivemos, mas Deus que vive em n´s. a o o Com os votos que as rosas flores¸am em sua cruz. c Assalam aleikum. Prof. Dr. C. A. P. Campani R+C Pelotas, RS, mar¸o de 2010 (Nissan, 5770; ano 1431 da H´gira) c e
  17. 17. Pref´cio a N˜o ´ casualidade que o Sˆfer Yetsir´ seja um dos textos cabal´ a e e a ısticos mais importantes, e para o qual os eruditos judeus mais escreveram coment´rios. a O livro Sˆfer Yetsir´ teve uma influˆncia fundamental no pensamento e no e a e misticismo judaico na Idade M´dia, e fascina os estudiosos at´ hoje. e e Se o texto mais conhecido e influente da cabala ´ o Zohar, o Sˆfer Yetsir´ ´ e e ae um texto fundamental, pois nele pela primeira vez ´ mencionado o conceito de e Sefir´. Sua antiguidade e sua credibilidade o tornam uma leitura obrigat´ria a o a todo estudante de cabala. Sabemos de sua importˆncia para os ma¸ons, a c rosacruzes e estudantes de ciˆncias ocultas em geral. e Embora o Sˆfer Yetsir´ seja um texto que convida ` compreens˜o por e a a a meio da intui¸˜o, acredito ser muito importante conhecer os coment´rios dos ca a grandes rabinos, s´bios judeus e estudiosos. O fato de toda essa literatura n˜o a a estar dispon´ ao leitor brasileiro, por encontrar-se quase toda em hebraico ıvel e inglˆs, foi uma motiva¸ao para a escrita deste livro. e c˜ Procurei tomar alguns cuidados, evitando misturar os coment´rios rab´ a ınicos com interpreta¸oes n˜o judaicas. No entanto, apresento associa¸˜es das c˜ a co ideias dos cabalistas com o gnosticismo crist˜o e algumas escolas da filosofia, a particularmente com os pitag´ricos, com o neoplatonismo e com a filosofia o de Hegel. Essas compara¸oes visam evidenciar as influˆncias recebidas pelos c˜ e cabalistas judeus, as rela¸˜es do cabalismo com o gnosticismo e a influˆncia co e da cabala na filosofia contemporˆnea. Tamb´m fa¸o compara¸oes das ideias a e c c˜ da cabala com conceitos da filosofia oriental, particularmente com o budismo e com a ioga hindu. Compreendo a importˆncia da cabala herm´tica e da simbologia ma¸ˆnica. a e co Por´m, ao n˜o abordar esses aspectos, proporcionei ao leitor um texto mais e a claro, seguindo uma linha mais estreita, n˜o o confundindo com interprea ta¸˜es diferentes e, muitas vezes, inconsistentes. co Ao abordar a cabala judaica, optei por apresentar as diversas interpreta¸˜es existentes, sem omitir mesmo as conflitantes, para permitir ao co leitor uma vis˜o mais ampla. Essas vis˜es conflitantes, dentro da cabala a o judaica, n˜o s˜o consideradas contradit´rias, mas sim complementares. Ao a a o mostrar esses casos de conflito nas interpreta¸oes, apresento tamb´m alguc˜ e mas poss´ ıveis formas de concilia¸˜o, propostas pelos comentaristas do Sˆfer ca e Yetsir´. a
  18. 18. xxvi ´ PREFACIO Mesmo n˜o havendo men¸ao expl´ a c˜ ıcita a outras vertentes da cabala, acredito que o leitor habituado ` literatura herm´tica e ma¸onica ir´ perceber as a e cˆ a rela¸˜es da cabala judaica com essas vertentes, e o quanto o estudo dela ´ co e fundamental para a compreens˜o do pensamento herm´tico e ocultista. a e Desde o princ´ me pareceu que este trabalho deveria ser constru´ em ıpio ıdo um formato cient´ ıfico, o que lhe daria mais credibilidade perante o leitor. No entanto, este livro n˜o ´ simplesmente uma monografia acadˆmica, e sim um a e e livro m´ ıstico, contendo pr´ticas para a vida espiritual. a O livro apresenta uma grande quantidade de notas de rodap´, contendo e referˆncias bibliogr´ficas, explica¸oes adicionais e sugest˜es de leituras come a c˜ o plementares. Numa leitura mais r´pida e superficial do livro, essas notas a podem ser omitidas, n˜o sendo essenciais para o entendimento do texto. a A escolha das duas vers˜es do Sˆfer Yetsir´ apresentadas, a Curta para o o e a texto principal, em hebraico e tradu¸ao para o portuguˆs, com coment´rios c˜ e a verso a verso, e a Gra para o anexo, deveu-se a serem essas duas as mais conceituadas entre os rabinos, especialistas e estudiosos. No entanto, as outras vers˜es tamb´m s˜o mencionadas e comparadas com essas duas, principalo e a mente por meio do uso de tabelas comparativas. Este livro apresenta os meus coment´rios ao Sˆfer Yetsir´, assim como cia e a ta¸˜es dos coment´rios dos mais renomados eruditos judeus: Gaon de Vilna, co a Ramban, Raivad, Mois´s Botarel, Otsar HaShem, Saadia Gaon, entre outros. e O texto evolui-se iniciando com a discuss˜o sobre os aspectos mais elevados a da natureza divina, passando para a an´lise da influˆncia divina no mundo a e da miseric´rdia, e terminando por descrever aspectos ´ticos que est˜o relao e a cionados com os temas tratados no Sˆfer Yetsir´. e a Assim, procurei mostrar um quadro o mais completo poss´ de todas ıvel as nuances que o Sˆfer Yetsir´ apresenta, em suas interpreta¸˜es religiosa, e a co te´rgica, meditativa e filos´fica. Procurei apresentar n˜o s´ os fundamentos u o a o te´ricos, mas tamb´m as pr´ticas meditativas tradicionalmente associadas a o e a ele. Neste livro apresento e defendo brevemente duas teses originais. A primeira refere-se ` rela¸ao e semelhan¸a na interpreta¸˜o entre o mito da quebra a c˜ c ca dos vasos da cabala, o mito gn´stico de Sofia e o mito manique´ o ısta da derrota do Homem Celestial para a divindade das trevas. Essa ideia baseia-se muito na tese de Gershom Scholem sobre a existˆncia de um gnosticismo e judaico, que antecedeu o gnosticismo crist˜o, e ela foi inicialmente apresena tada em artigo de minha autoria, cuja publica¸˜o ´ referenciada no texto. ca e Em segundo lugar, defendo a ideia da presen¸a, no juda´ c ısmo primitivo, de
  19. 19. ´ PREFACIO xxvii um componente f´lico muito semelhante ao culto ao lingam na ´ a India. Podese perceber semelhan¸as em algumas descri¸oes b´ c c˜ ıblicas do culto ao Senhor ´ Deus de Abra˜o com o culto a Shiva na India. a A despeito de este livro ter sido escrito como uma an´lise cr´ a ıtica do Sˆfer e Yetsir´, ele ´ tamb´m um livro m´ a e e ıstico. Por isso, cada cap´ ıtulo termina com uma pr´tica, em um crescendo que acompanha a evolu¸ao do texto. a c˜ As pr´ticas est˜o relacionadas com as ideias apresentadas ao longo do livro e a a devem ser feitas na ordem sugerida. S´ se deve passar para a pr´xima pr´tica o o a meditativa ap´s dominar a anterior. o A tradu¸ao do hebraico representou um desafio muito grande, pois ´ c˜ e uma l´ ıngua de dif´ compreens˜o, apresentando muitas ambiguidades. A ıcil a tradu¸˜o feita foi cuidadosamente comparada e refinada com as tradu¸˜es ca co mais conceituadas, de forma a oferecer ao leitor a seguran¸a de que o texto c original em hebraico n˜o tenha sido desvirtuado. a At´ onde sabemos, este livro apresenta a unica tradu¸ao, at´ o momento, e ´ c˜ e do Sˆfer Yetsir´ para o portuguˆs, feita diretamente do hebraico, ao contr´rio e a e a das outras tradu¸oes dispon´ c˜ ıveis no mercado editorial brasileiro, que s˜o a tradu¸˜es de vers˜es em inglˆs. co o e As cita¸oes da Tanakh (B´ c˜ ıblia hebraica) foram confrontadas com a tradu¸˜o Almeida Revista e Atualizada no Brasil, 2a. edi¸˜o, de Jo˜o Ferreira ca ca a de Almeida, e com a B´ ıblia – Tradu¸˜o Ecumˆnica (TEB). A escolha dessas ca e duas tradu¸oes da B´ c˜ ıblia deve-se ao fato de a primeira ser bastante popular e acess´ e a segunda ser de grande respeitabilidade. Em alguns casos foi ıvel usado o texto d’A Tor´ Viva de Aryeh Kaplan. a Sempre que poss´ ıvel optou-se por usar as palavras hebraicas na forma com que foram incorporadas ao nosso idioma, como ´ o caso, por exemplo, e das palavras “cabala” e “gematria”, consagradas com essa grafia na l´ ıngua portuguesa. As palavras hebraicas restantes s˜o apresentadas, no livro, ou em a hebraico, ou usando uma translitera¸ao que sugere a pron´ncia da palavra. c˜ u Diferente do que ocorre com o nosso idioma, as palavras hebraicas s˜o a escritas da direita para a esquerda. No entanto, na translitera¸˜o usada, ca optamos por escrevˆ-las da esquerda para a direita, para facilitar a leitura. e Muitos dizem que a translitera¸˜o ´ mais uma arte que uma ciˆncia exata. ca e e Cada autor translitera o idioma hebraico de uma forma diferente, partindo de objetivos diferentes. Procurei valorizar, na translitera¸ao, a pron´ncia da c˜ u palavra, mais do que as letras hebraicas que a comp˜em. Assim, o leitor o n˜o deve se surpreender se a translitera¸ao usada neste livro for diferente da a c˜ usada em outros livros, de outros autores.
  20. 20. xxviii ´ PREFACIO Quanto ` pron´ncia das palavras hebraicas, devemos observar que a letra a u hˆi, transliterada como H, deve ser pronunciada como um “r” muito suave, e apenas aspirado. A letra rˆt, transliterada como Ch, deve ser pronunciada e como um “r” gutural. Algumas letras hebraicas tˆm som duplo, como ´ o e e caso da letra bˆt, que pode ter o som de “b” ou de “v”. A letra shin tem e som chiado (como um “x”) ou som de “s”. Outras letras s˜o mudas, como ´ a e o caso da letra ´lef, que pode assumir o som de uma vogal. a Fico feliz em ter colaborado, com a reda¸ao deste livro, para que mais c˜ pessoas conhe¸am e compreendam os conceitos fundamentais da cabala e tec nham acesso ao Sˆfer Yetsir´. Este livro representa o resultado do esfor¸o e a c de levar ao p´blico brasileiro, de forma clara, sint´tica, sistem´tica e mais u e a completa poss´ ıvel, os conhecimentos presentes neste texto cabal´ ıstico e os coment´rios indispens´veis para sua compreens˜o. a a a Ele foi escrito de forma a ser util tanto para estudantes iniciantes, que ´ conseguir˜o acompanhar o texto sem maiores dificuldades, quanto para estua diosos avan¸ados da cabala que desejam aprofundar seus conhecimentos no c assunto. Grandes pensadores, que deixaram a sua marca na hist´ria, como o o fil´sofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o m´dico e m´ o e ıstico Robert Fludd, o pensador Jacob Boehme, o fil´sofo Baruch Espinoza e o psiquiatra Carl o Gustav Jung, para citar apenas cinco nomes, receberam influˆncia da cabala e judaica em suas ideias. Grandes m´ ısticos crist˜os, como Pico della Mirandola, a Meister Eckhart e S˜o Tom´s de Aquino, tamb´m encontraram inspira¸ao a a e c˜ no misticismo judaico. Nos dias de hoje, com a humanidade contaminada por um materialismo calcinante, a luz que emana da cabala e do misticismo judaico aparece como um farol, para servir de guia aos que procuram pela verdade e pelo conhecimento de Deus. Que o caro leitor possa usufruir deste conhecimento milenar, para a sua evolu¸˜o pessoal e para a evolu¸˜o espiritual de toda a humanidade. ca ca Com os votos de que as rosas flores¸am em sua cruz. c Prof. Dr. C. A. P. Campani R+C Pelotas, RS, maio de 2008 (Iyar, 5768)
  21. 21. Fundamentos da Cabala: Sˆfer Yetsir´ e a Edi¸ao revisada e ampliada c˜
  22. 22. Introdu¸˜o ca O Cabalismo A palavra “cabala” (dlaw) significa literalmente “tradi¸ao” em hebraico. c˜ A cabala ´ a tradi¸˜o das coisas divinas, o conhecimento sagrado (a gnosis), e ca o misticismo judaico, a suma do juda´ ısmo1 . As ra´ ızes da cabala podem ser encontradas na literatura judaica da Maase Bereshit e Maase Merkab´ . a N˜o existe uma “cabala”, como um corpo dogm´tico fechado, mas sim a a m´ltiplas ideias m´ u ısticas e interpreta¸oes das escrituras sagradas. No entanto, c˜ mesmo que possam parecer conflitantes, essas diferentes interpreta¸˜es s˜o co a vistas de forma relativa e consideradas como vis˜es complementares. o A cabala permaneceu por muito tempo como um ensinamento secreto, dispon´ ıvel apenas a um grupo seleto de pessoas. No entanto, mais recentemente, os seus ensinamentos passaram a ser amplamente acess´ ıveis ao p´blico em geral, por meio de tradu¸oes dos textos cabal´ u c˜ ısticos e dos seus coment´rios. Isso permitiu o surgimento de uma nova gera¸˜o de estudantes a ca de cabala, que procuram encontrar sabedoria interior em seu estudo2 . O cabalismo teve grande influˆncia nas ciˆncias ocultas e na Ma¸onaria, e e c e para provar isso basta citar uma reconhecida autoridade ma¸onica que diz: cˆ “A tradi¸ao dos Mist´rios Judaicos ´ a que tem exercido maior influˆncia em c˜ e e e nossa Ordem, e por isso a maioria de nossas cerimˆnias e s∴s se reveste agora o 3 de uma forma judaica” . Segue o mesmo autor dizendo que “T˜o estreitas a s˜o as analogias entre certas doutrinas da Cabala e as dos primeiros graus a da Ma¸onaria, que se chegou a supor que foram estudantes cabalistas os c introdutores da Ma¸onaria especulativa em nossa Oficina Moderna”4 . c Constitui um problema definir claramente o que entendemos por “misticismo”, pois h´ tantas defini¸oes quantos autores que tenham discorrido sobre a c˜ o tema. O Dr. Rufus Jones, em Estudos sobre a Religi˜o M´ a ıstica, citado por Scholem ao definir misticismo, diz: “Vou usar a palavra para designar o tipo de religi˜o que coloca o ˆnfase na percep¸ao imediata da rela¸ao com Deus, a e c˜ c˜ 1 Gershom Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, 2a. edi¸˜o, S˜o Paulo: Perspectiva, ca a 2004, p´g. 7. a 2 David Cooper, Ecstatic Kabbalah, Sounds True, 2005, p´g. 1. a 3 C. W. Leadbeater, Pequena Hist´ria da Ma¸onaria, S˜o Paulo: Pensamento, p´g. 90. o c a a 4 Ibidem, p´g. 102; cf. tamb´m Albert C. Mackey, Encyclopedia of Freemasonry. a e
  23. 23. INTRODUCAO ¸˜ 4 ´ na consciˆncia ´ e ıntima e direta da Presen¸a Divina. E a religi˜o no seu est´gio c a a 5 mais vivo, agudo e intenso” . O misticismo significa um contato mais ´ ıntimo com a Essˆncia de Deus, e que o salmista enfatiza ao dizer: “Provai e vede que o Senhor ´ bom” (Salmos e 34:9). O misticismo judaico surge como uma totalidade de fenˆmenos hiso t´ricos concretos, representando um est´gio definido no desenvolvimento da o a religi˜o judaica6 . Neste aspecto, a Revela¸˜o, dada a Mois´s e aos profetas, a ca e representa a sua formaliza¸˜o hist´rica. ca o No entanto, para o m´ ıstico, a Revela¸ao n˜o ´ concebida apenas como um c˜ a e fato hist´rico, mas como sendo uma fonte cont´ o ınua de experiˆncia religiosa e que brota de seu pr´prio cora¸˜o. Assim, para ele, a Revela¸ao dada no o ca c˜ 7 Monte Sinai, e estabelecida na lei sagrada, a Tor´ (dxez) , aparece como a algo cujo verdadeiro significado ainda est´ por se manifestar8 . a O m´ ıstico procura a experiˆncia direta de Deus. Essa uni˜o com Deus e a permanece uma experiˆncia sem forma, uma unio mistica, uma comunh˜o e a 9 com o divino . Para o m´ ıstico, essa ´ a experiˆncia suprema da vida. De e e um modo geral, os m´ ısticos acreditam que esse contato mais direto com Deus pode ser alcan¸ado por meio do estudo dos ensinamentos de um determinado c corpus. Entre os mais importantes tratados que pertencem ao corpus cabal´ ıstico, podemos citar o Zohar (xdfd xtq), o Bahir (xidad xtq) e o Sˆfer Yetsir´ e a (dxivi xtq) como os mais destacados e citados. A influˆncia do Zohar ao e longo da evolu¸ao do pensamento cabal´ c˜ ıstico foi grande, inclusive nos coment´rios ao Sˆfer Yetsir´10 . a e a Os ensinamentos cabal´ ısticos incluem explica¸oes e especula¸oes m´ c˜ c˜ ısticas sobre a origem do mundo e do homem. Os cabalistas procuram explicar o mist´rio do mundo como reflexo do mist´rio da vida divina11 , muito como e e tamb´m o fizeram os gn´sticos. Assim, para a cabala, cada indiv´ e o ıduo ´ a e 5 Gershom Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, 3a. edi¸˜o revisada, ca S˜o Paulo: Perspectiva, 1995, p´g. 6. a a 6 Ibidem, p´gs. 8-9. a 7 Cf. Alan Unterman, Dicion´rio Judaico de Lendas e Tradi¸˜es, Rio de Janeiro: Jorge a co Zahar, 1992, p´g. 264. a 8 Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´g. 11. a 9 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 18. a 10 Leonard R. Glotzer, The Fundamentals of Jewish Mysticism, New Jersey: Jason Aronson, 1992, p´g. xvi. a 11 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 8. a
  24. 24. INTRODUCAO ¸˜ 5 totalidade, e a lei da Tor´ torna-se o s´ a ımbolo da lei c´smica12 . o Segundo os cabalistas, as escrituras sagradas possuem quatro significados ou interpreta¸˜es diferentes, usualmente identificados pelo acrˆnimo “pardes” co o (qcxt), formado pelas quatro letras iniciais de pashut, remez , derush e sod , e significando “pomar”. Esses quatro significados s˜o comparados com as a 13 trˆs cascas da noz e seu cerne , sendo o significado sod o mais profundo e e m´ ıstico, associado ao cerne da noz e identificado com a cabala14 . Na linguagem da cabala, os conceitos espirituais s˜o apresentados pelo a uso de termos f´ ısicos, tais como “luz”, “vaso”, etc. Os objetos f´ ısicos que esses termos denotam servem de s´ ımbolo para ideias espirituais de natureza diferente daquela do mundo f´ 15 . Cada um desses objetos ´ uma contraısico e parte f´ ısica dos conceitos espirituais que representam. A linguagem cabal´ ıstica faz uso dos nomes ang´licos e dos nomes divinos, e que s˜o usados para fins te´rgicos. Os cabalistas d˜o grande importˆncia ao a u a a Nome de Deus. A cria¸ao ´ considerada como resultado das combina¸˜es e c˜ e co permuta¸˜es das letras do alfabeto hebraico, sendo os nomes divinos um dos co primeiros resultados dessas opera¸oes16 . c˜ A pr´pria Tor´ ´ um nome, que ´ constru´ como um organismo vivo17 o ae e ıdo e expressa todo o poder de Deus18 . Gicatila, citado por Scholem no livro A Cabala e seu Simbolismo, diz: “Sua Tor´ est´ n’Ele, ´ o que os cabalistas a a e afirmam, isto ´, o Santo, louvado seja Ele, est´ no Seu Nome e Seu Nome e a est´ n’Ele, e Seu Nome ´ a Sua Tor´”19 . a e a A ideia da natureza m´gica da Tor´ pode ser encontrada em especula¸˜es a a co sobre a passagem b´ ıblica “O homem n˜o lhe conhece a ordem” (J´ 28:13)20 . a o De acordo com os coment´rios rab´ a ınicos sobre ela, as se¸oes da Tor´ n˜o c˜ a a est˜o na ordem correta, pois se estivessem, qualquer pessoa poderia, fazendo a 12 Ibidem, p´g. 9. a A passagem b´ ıblica “Desci ao jardim das nogueiras” (Cˆnticos 6:11) ´ considerada a e uma referˆncia a essas quatro interpreta¸˜es; cf. Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, e co p´g. 73. a 14 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 72; cf. F. V. Lorenz, Cabala: A tradi¸˜o a ca esot´rica do ocidente, S˜o Paulo: Pensamento, p´g. 15. e a a 15 Glotzer, p´g. xvii. a 16 Cf. Lorenz, p´g. 37. a 17 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 58. a 18 Ibidem, p´g. 53. a 19 Op. cit., p´g. 57. a 20 Essa tradu¸˜o ´ bem aceita pelos s´bios judeus. Na vers˜o Almeida Revista da B´ ca e a a ıblia, a passagem est´ traduzida como “O homem n˜o conhece o valor dela.” a a 13
  25. 25. INTRODUCAO ¸˜ 6 uso dela, ressuscitar os mortos e operar milagres21 . De fato, a Tor´ foi usada para fins te´rgicos e de encantamento tanto por a u judeus quanto por n˜o judeus. O aspecto m´gico da Tor´ ´ enfatizado pela a a ae ideia de que Deus usou a Tor´ para o ato da cria¸ao, como em um texto a c˜ judaico antigo que diz que Deus “olhou dentro da Tor´ e criou o mundo”22 . a O poder m´gico das letras e das palavras hebraicas dificilmente poderia a ser melhor representado do que na ideia do Golem23 , uma criatura que ´ e feita por meios m´gicos. O Golem ´ criado pelo uso do Nome de Deus ou por a e combina¸˜es das letras do Sˆfer Yetsir´. Para dar vida ao Golem, usa-se o co e a Tetragrama (dedi), o Nome de Deus, escrito em um papel e posto na l´ ıngua 24 da criatura . A express˜o “Rava criou um homem”, Rava bara gabara (`xab `xa `ax), a refere-se ` cria¸ao de um Golem e ´ a origem da express˜o “Abracadabra”. a c˜ e a Observe-se que as trˆs palavras da frase s˜o varia¸oes das mesmas letras, e a c˜ sendo a segunda palavra apenas uma permuta¸ao da primeira. A frase possui c˜ dez letras e tem valor gem´trico de 61225 , um a menos que 613, o n´mero a u de mandamentos da Tor´ e de ossos e vasos sangu´ a ıneos no corpo humano segundo a tradi¸˜o judaica26 . Isso significa que o homem criado por Rava ´ ca e 27 algo menos que um homem, um Golem sem alma . A Tor´ n˜o aparece na tradi¸ao judaica como um simples rolo de papel a a c˜ coberto de tinta. Existe a tradi¸˜o de uma Tor´ preexistente, anterior ao ca a 28 pr´prio mundo . Segundo essa tradi¸ao, foi por meio da Tor´ que Deus o c˜ a 21 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´gs. 49-50. a Ibidem, p´g. 53. a 23 Cf. Alan Unterman, p´g. 107. a 24 Cf. Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´gs. 110-111, que sugere a que a cria¸˜o do Golem representa uma experiˆncia m´ ca e ıstica, resultante do uso das letras do alfabeto hebraico. 25 Sobre valores gem´tricos, consulte os coment´rios ao verso 1:1 no primeiro cap´ a a ıtulo e Tabelas 1 e 2 na p´gina 31. Sobre cabala literal e gematria consulte tamb´m An Introduca e tion to the Study of the Kabalah, de William Wynn Westcott, e a introdu¸˜o do Kabbalah ca Unveiled, de S. L. MacGregor Mathers. 26 Carl S. Ehrlich, Make Yourself no Graven Image: The second commandment and Judaism, in Textures and Meaning: Thirty years of judaic studies at the University of Massachusetts Amherst, ed. L. Ehrlich, S, Bolozky, R. Rothstein, M. Schwartz, J. Berkovitz, J. Young, Dept. of Judaic and Near Eastern Studies, University of Massachusetts Amherst, p´gs. 254-255. a 27 Aryeh Kaplan, Sefer Yetzirah: The book of creation, revised edition, Boston: Weiser, 1997, p´g. xxi. a 28 Cf. Prov´rbios 8:22-23, que os rabinos entendem como uma referˆncia ` Tor´. e e a a 22
  26. 26. INTRODUCAO ¸˜ 7 criou o mundo. Para os cabalistas, essa “cria¸ao da Tor´” ´ a forma com c˜ a e que as Sefir´t (zexitq), que constituem o Nome de Deus, foram emanadas o da Essˆncia divina29 . e Um dos ensinamentos mais essenciais da cabala ´ que Deus emana para e dentro do mundo fenomˆnico. Isso forma um fluxo de energia divina de Deus e para o mundo30 . Essa ideia representa o aspecto mais elevado da cria¸˜o ca divina. Essa emana¸˜o divina ocorre por est´gios que s˜o representados ca a a pelas Sefir´t. o As dez Sefir´t (plural de Sefir´ ) s˜o um conceito central da cabala, paro a a ticularmente no Sˆfer Yetsir´, e elas recebem, no Zohar , os nomes de Keter , e a Chokm´ , Bin´ , Chesed , Guebur´ , Tiferet, Netsach, Hod , Yesod e Malkut. a a a A cria¸˜o do mundo come¸a com a emana¸ao das Sefir´t. As Sefir´t s˜o os ca c c˜ o o a atributos de Deus, sua manifesta¸ao. S˜o entidades espirituais sem suporte c˜ a ´ f´ 31 que, em seu conjunto, formam a Arvore da Vida (veja Figuras 1 e 2, ısico na p´gina 35), uma hierarquia espiritual que representa a natureza divina (o a pleroma)32 . ´ A Arvore da Vida ´ um s´ e ımbolo que descreve os processos pelos quais Deus manifestou-se e criou o mundo. Se um f´ ısico fosse descrever a forma¸ao c˜ do universo, certamente faria referˆncia `s particulas subatˆmicas como os e a o elementos constitutivos deste universo. Um cabalista descreveria a natureza ´ divina por meio das Sefir´t e da Arvore da Vida. o As dez Sefir´t representam uma restri¸ao dos aspectos infinitamente enuo c˜ mer´veis com que Deus se manifesta a apenas dez categorias, que s˜o vistas a a 33 como n´meros arquet´ u ıpicos . As Sefir´t respondem a um problema filos´fico e teol´gico muito imo o o portante, que ´ a concilia¸˜o entre um Deus que ´ indivis´ e ca e ıvel e uno com a diversidade do mundo. Elas servem como intermedi´rias entre um Deus a 34 indiferenciado e sua manifesta¸ao multifacetada . c˜ Para os cabalistas, estes est´gios da manifesta¸˜o divina representam os a ca 29 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 54. a Rabbi Bradley Shavit Artson and Deborah Silver, Walking with God, The Ziegler School of Rabbinic Studies, American Jewish University, p´g. 71. a 31 Glotzer, p´g. xvii. a 32 Conceito semelhante aparece no gnosticismo; sobre pleroma e aeons, consulte os coment´rios de Harold W. Attridge e Elaine H. Pagels ao “O Tratado Tripartido (I,5)”, em a A Biblioteca de Nag Hammadi, James M. Robinson (editor), Madras, 2006, p´gs. 64-66. a 33 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 121. a 34 Glotzer, p´g. xxi-xxii. a 30
  27. 27. INTRODUCAO ¸˜ 8 pr´prios est´gios do caminho inverso, do retorno do homem ao seu Criador. o a Assim, o estudo da cosmogonia cabal´ ıstica reveste-se de um aspecto escatol´gico. Essa ideia revela uma convergˆncia entre a cabala e o neoplatoo e nismo, pois ambos afirmam que “a progress˜o e a invers˜o constituem em a a 35 conjunto um processo unico, a di´stole-s´ ´ a ıstole” . Esses processos, na terminologia do neoplatonismo, s˜o chamados de Pr´odos e Epistroph´ 36 . a o e Keter ´ a Sefir´ mais elevada, estando em conex˜o direta com Deus, na e a a fronteira com o divino. Considera-se Keter um aspecto incompreens´ da ıvel 37 natureza divina . Chokm´ e Bin´ , as Sefir´t que se seguem a Keter, comp˜em os n´ a a o o ıveis 38 mais altos do intelecto divino . Por isso, os cabalistas fazem um paralelo dessas duas Sefir´t com a cabe¸a do homem. Chokm´ representa a sabedoria o c a emp´ ırica, baseada na acumula¸˜o de fatos e ideias, enquanto que Bin´ repreca a senta a sabedoria intuitiva, intelectual. Por ser associada ` intui¸ao, Bin´ ´ a c˜ a e considerada uma Sefir´ feminina, m˜e das Sefir´t inferiores, que a seguem a a o ´ na Arvore da Vida39 . Chesed , Guebur´ e Tiferet comp˜em o aspecto psicol´gico e emocional da a o o alma. Chesed ´ amor incondicional, em oposi¸ao a Guebur´, que representa e c˜ a a justi¸a rigorosa. O ponto intermedi´rio entre esses dois extremos ´ Tiferet, c a e visto como seu elemento conciliador. Tiferet tamb´m representa o poder e agregado de seis Sefir´t: Chesed, Guebur´, Tiferet, Netsach, Hod e Yesod . o a Juntas, essas seis Sefir´t formam o consorte de Malkut (associada ` Shekin´ ). o a a Por isso, essas seis Sefir´t s˜o representadas pela letra hebraica v´v (e), um o a a s´ ımbolo f´lico, cujo valor gem´trico ´ 640 . a a e Netsach, Hod e Yesod representam a conex˜o da totalidade das Sefir´t a o com a ultima Sefir´, Malkut. Yesod representa o dom´ ´ a ınio da sexualidade, o poder criativo de Deus. Yesod est´ em conex˜o com a mulher, representada a a por Malkut. Por isso, Yesod faz paralelo no homem com o org˜o sexual a 41 masculino . Esses trˆs grupos de Sefir´t, o primeiro formado por Chokm´ e Bin´, e o a a 35 Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´g. 22. a C´ ıcero C. Bezerra, Compreender: Plotino e Proclo, Editora Vozes, 2006, p´gs. 74-78. a 37 Walking with God, p´g. 74. a 38 Ibidem, p´g. 73. a 39 Ibidem. Interessante observar que a tradi¸˜o popular associa “intui¸˜o” com a mulher ca ca e diz que “a mulher ´ a cabe¸a do homem”. e c 40 Ibidem. 41 Ibidem, p´g. 72. a 36
  28. 28. INTRODUCAO ¸˜ 9 o segundo por Chesed, Guebur´ e Tiferet, e o ultimo por Netsach, Hod e a ´ Yesod, fazem paralelo no homem com o c´rebro, o cora¸ao e o org˜o sexual, e c˜ a respectivamente, que s˜o a sede, no corpo humano, do intelecto, da emo¸˜o a ca e do poder procriativo (cf. versos 2:1 e 3:4). Cada um desses grupos de Sefir´t formam uma tr´ o ıade de duas Sefir´t opostas e uma terceira que faz a o concilia¸˜o das outras duas. ca Veremos que a Sefir´ que faz a concilia¸ao de Chokm´ e Bin´ ´ uma a c˜ a a e Sefir´ oculta chamada Daat. A Figura 3, na p´gina 38, mostra a posi¸˜o a a ca ´ de Daat na Arvore da Vida, assim como as tr´ ıades de Sefir´t opostas e suas o mediadoras42 . Malkut, a Sefir´ inferior, mais pr´xima do mundo material, representa a o a pr´pria existˆncia, tanto animada quanto inanimada; as duas, segundo a o e cabala, compartilham essa dimens˜o. Por isso, muitos sistemas cabal´ a ısticos ensinam que os seres humanos podem reencarnar43 em pedras ou riachos, pois todos compartilham as qualidades de Malkut 44 . Existe uma associa¸˜o entre Malkut e a Shekin´ , a presen¸a de Deus no ca a c mundo, que, segundo a tradi¸ao judaica, era o aspecto de Deus que habitava c˜ no Primeiro e no Segundo Templo em Jerusal´m, na parte mais interna do e Templo, o “Santo dos Santos”. Com a destrui¸˜o do Segundo Templo, a ca Shekin´ foi para o ex´ a ılio, junto com o povo judeu. Normalmente, considerase a Shekin´ como o aspecto feminino de Deus, sendo ela referenciada em a alguns tratados cabal´ ısticos como “princesa”, “filha”, “noiva” ou “esposa”45 . O nome de Shekin´ (dpiky) ´ derivado de shikun (oeky), que significa a e “habita¸˜o”. A Shekin´ est´ associada ` kavod (ceak), a gl´ria de Deus46 . ca a a a o As Sefir´t ser˜o explicadas em maior profundidade mais adiante, ao lono a go do Cap´ ıtulo 1, especialmente nos coment´rios ao verso 1:1. Importante a observar que elas s˜o citadas apenas no primeiro cap´ a ıtulo do Sˆfer Yetsir´, e a n˜o sendo mais citadas nos cap´ a ıtulos seguintes. As dez Sefir´t formam os cinco partsufim (faces): Ar´k Anpin (Face o o 42 Essas tr´ ıades s˜o estruturas dial´ticas, e n˜o as devemos interpretar como alguma ideia a e a de “trinitarismo”. Os judeus n˜o professam a cren¸a em uma Trindade, como o fazem os a c crist˜os. a 43 A reencarna¸˜o, gilgul ha-neshamot (zenypd leblb), foi doutrina aceita pelos judeus. ca Particularmente, ela ´ um conceito importante na cabala luriˆnica, fundada pelo Rabino e a Isaque Luria. Ela tamb´m foi uma das doutrinas popularizadas pelo Hassidismo, movie mento m´ ıstico judaico cujo maior expoente foi o Rabino Baal Shem Tov (c. 1700-1760). 44 Walking with God, p´g. 71. a 45 Ibidem, p´g. 72. a 46 Ibidem.
  29. 29. 10 INTRODUCAO ¸˜ Longa), Aba (Pai), Ima (M˜e), Zair Anpin (Face Curta) e Shekin´ 47 . Os a a partsufim s˜o faces ou aspectos de Ad˜o Kadmon, o Homem Primordial, a a a manifesta¸˜o de Deus representada de forma antropomorfizada (cf. Anexo 2, ca p´g. 277)48 . a H´ uma associa¸ao entre as Sefir´t e esses partsufim. No entanto, cada a c˜ o partsuf constitui-se em um objeto separado completo, cada um com suas dez ´ Sefir´t. Assim, h´ uma Arvore da Vida completa para cada partsuf. o a A existˆncia das dez Sefir´t provoca um problema para a concep¸˜o e o ca monote´ ısta do juda´ ısmo. Se a manifesta¸˜o divina pode ser dividida em ca dez Sefir´t, ent˜o o pr´prio Deus o pode. Essa quest˜o sens´ foi tema de o a o a ıvel longa discuss˜o entre os rabinos e foi resolvida ao se considerarem as Sefir´t a o como cria¸oes de Deus, fora dos limites d’Ele pr´prio49 . c˜ o A necessidade dos cabalistas de apresentar a manifesta¸˜o divina dividida ca em dez entidades ´ explicada pela rela¸˜o entre os n´meros 1 e 10, j´ que 10 e ca u a torna-se 1, pela soma dos d´ ıgitos do n´mero 10 (1+0=1). O significado disso u ´ que, embora do ponto de vista do homem existam dez Sefir´t, do ponto de e o 50 vista de Deus h´ apenas Um, o Deus indiferenciado . a A manifesta¸ao divina, representada pela emana¸˜o das Sefir´t, divide-se c˜ ca o ao longo de quatro mundos: Atsilut, Bri´ , Yetsir´ e Assi´ . Esses mundos a a a representam planos que se projetam desde Deus em dire¸ao ao mundo materic˜ al. Os mundos emanam em sequˆncia e s˜o progressivamente mais afastados e a de Deus e mais pr´ximos da mat´ria. Eles s˜o entendidos pelos cabalistas o e a como est´gios do caminho em dire¸ao ao divino. Neste sentido, faz-se um a c˜ paralelo dos mundos da cabala com a escada de Jac´. Segundo os cabalistas, o ´ cada mundo cont´m uma Arvore da Vida completa, com dez Sefir´t. e o Considera-se que a passagem b´ ıblica “todos aqueles que s˜o chamados a com o meu nome e que, para minha gl´ria [Atsilut], criei [Bri´ ], formei o a [Yetsir´] e fiz [Assi´ ]” (Isa´ 43:7) seja uma referˆncia aos quatro mundos a a ıas e da cabala. Atsilut ´ o mundo da emana¸˜o, a sede das Sefir´t. Emana¸ao ´ o processo e ca o c˜ e em que o nada relativo passa a ser realidade. O mundo de Atsilut ´ o mais e elevado, sendo considerado a fronteira com o divino. Atsilut ´ associado a e Chokm´ . a 47 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 137. a Ibidem, p´g. 125; cf. William Wynn Westcott, An Introduction to the Study of the a Kabalah. 49 Glotzer, p´gs. xix-xx. a 50 Ibidem, p´g. xxi. a 48
  30. 30. INTRODUCAO ¸˜ 11 Bri´ ´ o mundo da cria¸ao, que representa a manifesta¸ao do esp´ a e c˜ c˜ ırito. Este ´ o mundo do Trono Sagrado da vis˜o de Ezequiel (veja o primeiro e a cap´ ıtulo do livro de Ezequiel), que ´ associado a Bin´ . e a Yetsir´ ´ o mundo da forma¸ao. Forma¸ao ´ o processo em que algo ´ a e c˜ c˜ e e criado a partir de algo. Este mundo est´ relacionado com o pr´prio nome do a o livro Sˆfer Yetsir´. Ele ´ associado ao partsuf Zair Anpin. e a e Finalmente, Assi´ ´ o mundo da a¸ao ou produ¸ao, representando o munae c˜ c˜ do sens´ ıvel. Assi´ ´ o mundo inferior, o que est´ mais pr´ximo da mat´ria, a e a o e 51 sendo associado a Malkut . Origem e Autoria do Sˆfer Yetsir´ e a O Sˆfer Yetsir´ ´ um texto judaico-gn´stico, provavelmente composto e a e o no s´c. III, com n´ e ıtidas influˆncias neopitag´ricas52 , pertencendo ao in´ e o ıcio da tradi¸ao Maase Bereshit. As ideias expressas no texto s˜o pr´ximas da c˜ a o tradi¸˜o cabal´ ca ıstica que aparece no Bahir, e muitos ensinamentos do Bahir e do Sˆfer Yetsir´ parecem provir da mesma fonte53 . O aspecto m´gico e a a associado ao Sˆfer Yetsir´ pode ser apreendido dos in´meros relatos do uso e a u do texto para fins te´rgicos, particularmente para a fabrica¸ao do Golem54 . u c˜ O Sˆfer Yetsir´ ´ considerado pelos estudiosos o mais antigo texto cae a e bal´ ıstico, embora alguns atribuam ao Bahir esse privil´gio55 . O mais antigo e manuscrito conhecido ´ do s´c. X, e o coment´rio ao Sˆfer Yetsir´ escrito por e e a e a Isaque Israeli (c. 832-932) ´ testemunho da existˆncia do texto j´ no in´ e e a ıcio 56 do s´c. IX . As suas origens s˜o desconhecidas, e os estudiosos deparam-se e a 57 com diversas hip´teses . o O texto ´ muito pequeno, tendo a vers˜o Curta cerca de mil e trezentas e a palavras. As diversas vers˜es que existem s˜o devidas ` incorpora¸ao no o a a c˜ 58 texto de notas de margem e omiss˜es, feitas por copistas . o 51 Ibidem, p´g. xx; cf. Lorenz, p´gs. 60-61. a a Cf. a cr´ ıtica a essa ideia no artigo de Ithamar Gruenwald, Some Critical Notes on the ´ First Part of Sefer Yezira, Revue des Etudes Juives, CXXXII (4), 1973, p´gs. 484-485. a 53 Aryeh Kaplan, The Bahir, Boston: Weiser, 1979, Introduction, nota 5, p´g. 185. a 54 Scholem, A Cabala e seu Simbolismo, p´g. 200; cf. Alan Unterman, p´gs. 107,122-123. a a 55 Kaplan, The Bahir, Introduction, nota 5, p´g. 185. a 56 A. Peter Hayman, Sefer Yesira: Edition, translation and text-critical commentary, Tuebingen: Mohr Siebeck, 2004, p´g. 41. a 57 Glotzer, p´g. xiv. a 58 Sobre a incorpora¸˜o de notas de margem no texto e omiss˜es cometidas pelos copistas ca o cf. Hayman, p´gs. 1-2,6. a 52
  31. 31. 12 INTRODUCAO ¸˜ O texto possui seis cap´ ıtulos na maioria das edi¸oes, embora fontes antigas c˜ afirmem que originalmente eram cinco cap´ ıtulos e que os atuais cap´ ıtulos 59 cinco e seis sejam produto do desmembramento do ultimo . Aparentemente ´ o texto ´ a fus˜o de dois textos independentes. Isso ´ indicado pelo fato de e a e que o primeiro cap´ ıtulo introduz a ideia de Sefir´t, mas essa ideia n˜o ´ mais o a e referenciada no resto do texto60 . Como o pr´prio texto, cujo significado ´ enigm´tico, tamb´m a sua autoria o e a e ´ tema de discuss˜o. H´ alguma especula¸ao, bem enraizada na tradi¸ao e a a c˜ c˜ judaica, de que o autor do Sˆfer Yetsir´ seja o patriarca Abra˜o. J´ no s´c. X, e a a a e Saadia Gaon afirmava que “os antigos dizem que Abra˜o o escreveu”61 . a Essa hip´tese est´ alicer¸ada no ultimo verso (mishn´ ) do texto, que cita o a c ´ a o pr´prio Abra˜o, e na passagem das escrituras que diz “e as almas que eles o a fizeram em Har˜” (Gˆnesis 12:5)62 , referindo-se a Abra˜o, que lembra o uso a e a do texto para fins te´rgicos e para a fabrica¸ao do Golem. A hip´tese fica u c˜ o mais forte pois as escrituras dizem “as almas que eles fizeram”, indicando que Abra˜o n˜o estava sozinho, o que ´ coerente com os coment´rios judaicos a a e a 63 sobre o uso te´rgico do Sˆfer Yetsir´ . H´ uma prescri¸ao de que o estudo u e a a c˜ dos mist´rios do Sˆfer Yetsir´, assim como o uso de seus poderes, n˜o pode ser e e a a feito por uma pessoa s´. Essa interpreta¸˜o baseia-se nas passagens b´ o ca ıblicas que dizem que “Melhor ´ serem dois do que um” (Eclesiastes 4:9) e “N˜o ´ e a e bom que o homem esteja s´” (Gˆnesis 2:18). o e Al´m disso, muitos dos manuscritos do Sˆfer Yetsir´ tˆm em seu pref´cio e e a e a a frase “as palavras de Abra˜o nosso pai, o qual ´ chamado Sˆfer Yetsir´ ”64 . a e e a No entanto, a an´lise gramatical do texto revela que o Sˆfer Yetsir´ foi a e a escrito no per´ ıodo talm´dico, tendo semelhan¸a gramatical com o Mishn´ 65 . u c a Os mist´rios do Sˆfer Yetsir´, relacionados com o uso m´gico das letras e e a a do alfabeto hebraico, aparecem tamb´m na literatura talm´dica, onde podee u se ler que “Bezalel sabe como combinar as letras pelas quais os c´us e a terra e foram criados”, numa referˆncia ao uso dos poderes te´rgicos do Sˆfer Yetsir´ e u e a 59 Kaplan, Sefer Yetzirah, p´g. xi. a Ibidem. 61 Ibidem, p´g. xii. a 62 Essa ´ uma tradu¸˜o aceita pelos estudiosos e rabinos. Na vers˜o Almeida Revista da e ca a B´ ıblia, essa passagem foi traduzida como “e as pessoas que lhes acresceram em Har˜.” a 63 Kaplan, Sefer Yetzirah, p´g. xiii. a 64 Christopher P. Benton, An Introduction to the Sefer Yetzirah, The Maqom Journal for Studies in Rabbinic Literature, vol. VII, winter 2004. 65 Ibidem. 60
  32. 32. INTRODUCAO ¸˜ 13 ˆ para a constru¸˜o do Tabern´culo durante o Exodo. O Talmude deriva essa ca a afirma¸˜o da passagem b´ ca ıblica que diz: “Eis que chamei pelo nome a Bezalel . . . e o enchi do Esp´ ırito de Deus, de habilidade [Sabedoria], de inteligˆncia e ˆ e de conhecimento em todo o artif´ ıcio” (Exodo 31:2-3)66 ; onde “sabedoria” (Chokm´ ), “inteligˆncia” (Bin´ ) e “conhecimento” (Daat) s˜o associados `s a e a a a trˆs Sefir´t superiores e a estados de consciˆncia67 . e o e Um outro exemplo dessa tradi¸˜o m´gico-esot´rica na literatura talm´ca a e u dica, relacionada com Abra˜o, aparece quando o Talmude diz que “Abra˜o a a tinha uma pedra preciosa pendurada em seu pesco¸o, com a qual produzia c imediata cura em qualquer pessoa doente que olhasse para ela”68 . Finalmente, outra possibilidade de autoria ´ que o Sˆfer Yetsir´ tenha e e a sido escrito pelo Rabino Akiva (c. 50-132), o unico rabino, segundo a tradi¸˜o ´ ca talm´dica, de quatro que empreenderam jornada m´ u ıstica ao para´ ıso, que voltou inc´lume da experiˆncia69 . Segundo tradi¸˜o antiga, as semelhano e ca ¸as que aparecem nos ensinamentos do Sˆfer Yetsir´ e do Bahir podem ser c e a explicadas por terem sido, ambos os textos, escritos pelo Rabino Akiva70 . Uma das hip´teses a serem consideradas sobre a autoria do livro ´ que o e ele tenha sido, em vez de uma obra individual, uma obra coletiva, que reflete as concep¸oes de um grupo m´ c˜ ıstico judaico com influˆncias gn´sticas. Um e o fato que refor¸a essa hip´tese est´ relacionado com a autoria e preserva¸ao c o a c˜ do texto do Bahir, que foi mantido secreto e estudado, durante s´culos, por e um grupo fechado de s´bios judeus71 . a Vers˜es do Sˆfer Yetsir´ o e a Existem quatro principais vers˜es do texto do Sˆfer Yetsir´ : a Curta, a o e a 72 Longa, a Saadia e a Gra . A vers˜o Curta tem cerca de mil e trezentas a palavras; a Longa, duas mil e quinhentas; e a Gra, mil e oitocentas. Todas 66 Essa ´ a tradu¸˜o encontrada na vers˜o Almeida Revista. Na vers˜o TEB, a passagem e ca a a foi traduzida como “chamei pelo seu nome Besalel, . . . eu o enchi com o esp´ ırito de Deus para que tenha sabedoria, inteligˆncia, conhecimento e aptid˜o para todos os trabalhos”, e a em que a palavra hebraica Chokm´ est´ corretamente traduzida como “sabedoria”. a a 67 Kaplan, Sefer Yetzirah, p´g. xiv. a 68 Christopher P. Benton, An Introduction to the Sefer Yetzirah. 69 Cf. Alan Unterman, p´g. 200. a 70 Kaplan, The Bahir, Introduction, nota 5, p´g. 185. a 71 Cf. Kaplan, The Bahir, p´gs. xi-xviii. a 72 Devemos ter cuidado em aceitar facilmente a teoria que posiciona a vers˜o Curta como a origem da Longa e da Saadia; cf. Hayman, p´g. 27. a
  33. 33. INTRODUCAO ¸˜ 14 as vers˜es possuem seis cap´ o ıtulos, ` exce¸ao da Saadia, que possui oito73 . A a c˜ vers˜o Curta, apresentada neste livro, tem quatorze versos (mishnayot) em a seu primeiro cap´ ıtulo, seis versos no segundo cap´ ıtulo, oito no terceiro, doze no quarto, quatro no quinto e quatro no sexto e ultimo cap´ ´ ıtulo. Nas vers˜es com seis cap´ o ıtulos, o primeiro trata das Sefir´t; enquanto o os cinco seguintes, das associa¸oes entre as letras do alfabeto hebraico e os c˜ signos do zod´ ıaco, os planetas e as partes do corpo humano. A vers˜o de Saadia teve pouca influˆncia no pensamento cabal´ a e ıstico. As duas vers˜es mais conceituadas pelos estudiosos e rabinos s˜o a Curta e a Gra. o a A raz˜o para a vers˜o Curta ser respeitada ´ que ela ´ considerada aquela que a a e e recebeu menos inclus˜es esp´rias, sendo assim a mais fiel ao texto original. A o u vers˜o Gra deriva da vers˜o Ari, do Rabino Isaque Luria (1534-1572), tendo a a sido compilada por Gaon de Vilna, o Gra (1720-1797). Isso fornece a essa vers˜o muita respeitabilidade entre os cabalistas. a As duas vers˜es apresentadas neste livro, a Curta e a Gra, s˜o bastante o a semelhantes. A vers˜o Gra foi escrita de forma a compatibilizar o Sˆfer a e Yetsir´ com o Zohar . H´ diferen¸as na representa¸ao das dire¸oes com as a a c c˜ c˜ letras do Tetragrama (veja 1:13 e Tabela 5), nos lugares em que s˜o fixadas a as letras na boca (veja 2:3), nas associa¸˜es entre as letras duplas e seus co atributos (veja 4:1 e Tabelas 8 e 9), na defini¸ao do cubo do espa¸o (veja 5:1, c˜ c 5:2 e Figuras 14 e 15) e nas associa¸oes entre as letras elementares e seus c˜ atributos (veja 5:2 e Tabelas 10 e 11). Tradu¸oes do Sˆfer Yetsir´ c˜ e a Diversas tradu¸˜es do Sˆfer Yetsir´ foram publicadas, a maioria em inco e a glˆs. Uma das mais antigas ´ a tradu¸˜o, para o latim, do cabalista crist˜o e e ca a Joannes Stephanus Rittangelius (c. 1606-1652). Essa vers˜o foi a prov´vel a a fonte para a conhecida tradu¸˜o de William Wynn Westcott, intitulada ca The Book of Formation and the Thirty-two Paths of Wisdom, publicada em Londres em 1887 pela Sociedade Teos´fica. Westcott foi um dos fundadores o da Hermetic Order of the Golden Dawn e um ocultista respeitado. Apesar da alega¸˜o do autor de que a tradu¸ao foi feita do hebraico, existem opini˜es ca c˜ o de que a tradu¸ao para o inglˆs de Westcott tenha sido realizada a partir da c˜ e vers˜o em latim de Rittangelius74 . a A mais antiga tradu¸ao do Sˆfer Yetsir´ para o inglˆs foi feita pelo c˜ e a e 73 74 O Rolo Gueniz´ tamb´m ´ uma exce¸˜o pois n˜o possui divis˜o em cap´ a e e ca a a ıtulos. Don Karr, Notes on Editions of Sefer Yetzirah in English, p´g. 4. a
  34. 34. INTRODUCAO ¸˜ 15 Rev. Dr. Isidor Kalisch, intitulada A Book on Creation; or the Jewish Metaphysics of Remote Antiquity, e publicada em 187775 . Essa vers˜o em inglˆs a e ´ a fonte para a primeira tradu¸˜o do livro para o portuguˆs, que foi publie ca e cada pela AMORC, intitulada Sepher Yetzirah – Um livro sobre a cria¸˜o ca ou A metaf´sica judaica de remota antiguidade, volume XXXI da Biblioteca ı Rosacruz. A primeira edi¸ao brasileira foi publicada em 1950, com tradu¸˜o c˜ ca para o portuguˆs de Edmond Jorge e Equipe Renes, editada pela Editora e Renes, do Rio de Janeiro. Essa tradu¸ao ´ baseada em um manuscrito de c˜ e autoria do Rabino Isaque Luria (o Ari), apresentando o texto em hebraico, lado a lado com a tradu¸˜o para o portuguˆs. ca e A tradu¸ao de Papus, intitulada em inglˆs The Qabalah: Secret tradition c˜ e of the west, publicada originalmente em francˆs, em 1892, traduzida para o e inglˆs e publicada em Nova Iorque pela Weiser em 1977, tem uma forte oriene ta¸˜o ocultista. Embora importante do ponto de vista hist´rico, a tradu¸ao ca o c˜ de Papus ´ confusa e cheia de erros, misturando elementos judaicos com n˜o e a 76 judaicos . A primeira tentativa de separar a vers˜o Curta da Longa, apresentando a todo o texto e identificando as partes “esp´rias”, foi feita na tradu¸˜o de Knut u ca Stenring, de 1923, The Book of Formation (Sepher Yetzirah), que inclui os trinta e dois caminhos de sabedoria, a correspondˆncia deles com o alfabeto e hebraico e os s´ ımbolos do Tarˆ. No livro, o autor formula algumas afirma¸oes o c˜ duvidosas, reduzindo um pouco a sua credibilidade77 . A tradu¸ao para o alem˜o de Gershom Scholem, “Buch Jezira”, EJ, c˜ a vol. IX, 1932, ´ importante, pois o autor ´ reconhecidamente um dos mais e e conceituados estudiosos da cabala. O artigo de Ithamar Gruenwald, intitulado “Preliminary Critical Edition of Sefer Yezira”, publicado no Israel Oriental Studies, vol. 1 (Tel Aviv University), 1971, apresenta uma vers˜o em hebraico do Sˆfer Yetsir´ acoma e a panhada de cr´ ıtica textual. Esse artigo foi seguido pelo “Some Critical Notes ´ on the First Part of Sefer Yezira”, do mesmo autor, na Revue des Etudes Juives, CXXXII, n. 4, 1973, onde aparece a tradu¸ao para o inglˆs e uma c˜ e an´lise dos primeiros dezesseis versos do Sˆfer Yetsir´. O artigo ´ de grande a e a e importˆncia para os estudiosos78 . a O trabalho de David Blumenthal, intitulado Understanding Jewish Mysti75 Ibidem, Ibidem, 77 Ibidem, 78 Ibidem, 76 p´g. a p´g. a p´g. a p´g. a 2. 5. 7. 10.
  35. 35. 16 INTRODUCAO ¸˜ cism. A Source Reader: The Merkabah Tradition and the Zoharic Tradition, publicado em Nova Iorque, pela Ktav Publishing House, em 1978, ´ baseado e na tradu¸˜o publicada pelo grupo Work of the Chariot, intitulada Book of ca Formation (Sepher Yetzirah): The Letters of Our Father Abraham, de 1971. A tradu¸ao do Work of the Chariot apresenta diversas ilustra¸˜es, cujo obc˜ co jetivo, segundo o pr´prio livro, ´ ser usado para pr´ticas de medita¸ao79 . o e a c˜ Um dos mais completos livros sobre o Sˆfer Yetsir´ ´ o intitulado Sefer e a e Yetzirah: The book of creation, de Aryeh Kaplan, publicado pela Weiser, com primeira edi¸˜o em 1990. Esse livro apresenta a vers˜o Gra do Sˆfer Yetsir´ ca a e a em hebraico e inglˆs, com extensos coment´rios verso a verso. Al´m disso, o e a e livro apresenta as tradu¸˜es para o inglˆs das vers˜es Curta, Longa e Saadia co e o Gaon, assim como anexos com a descri¸˜o dos trinta e dois caminhos de ca sabedoria, a descri¸˜o dos port˜es, coment´rios e notas adicionais. O livro ca o a apresenta em profundidade os aspectos pr´ticos e te´ricos do Sˆfer Yetsir´. a o e a Foi traduzido em 2002 para o portuguˆs e publicado pela Editora Sˆfer, com e e o t´ ıtulo de Sˆfer Ietsir´: O livro da cria¸˜o. e a ca Outro livro sobre o assunto, que possui bastante profundidade, ´ o de e Leonard Glotzer, intitulado The Fundamentals of Jewish Mysticism, publicado em 1992 pela Jason Aronson. Apresenta a vers˜o Curta em hebraico a e inglˆs, acompanhada de coment´rios que citam os mais respeitados estue a diosos, como Gaon de Vilna, Saadia Gaon, Chaim Vital e Mois´s Cordovero. e Os coment´rios ficam nos limites do juda´ a ısmo mais tradicional. O texto ´ e acompanhado de uma introdu¸ao ` cabala e anexos que tratam das Sefir´t, c˜ a o valores gem´tricos das letras do alfabeto hebraico, os nomes de Deus, os a trinta e dois caminhos segundo o Raivad, os partsufim e os port˜es segundo o Shabetai Donolo e Otsar HaShem. O trabalho de Glotzer ´ de inestim´vel e a valor para o entendimento do Sˆfer Yetsir´. e a Finalmente, o livro de A. Peter Hayman, Sefer Yesira: Edition, translation and text-critical commentary, publicado em 2004, discute o texto do Sˆfer Yetsir´ e apresenta coment´rios tanto do ponto de vista religioso, quane a a to acadˆmico. Ele apresenta as vers˜es Curta, Longa e Saadia, lado a lado e o com a tradu¸ao para o inglˆs. O livro de Hayman ´ muito importante, pois c˜ e e se baseia em dezenas de manuscritos em hebraico que foram cuidadosamente investigados pelo autor. Por compara¸˜o entre os manuscritos, Hayman aca presenta uma proposta do texto mais antigo recuper´vel do Sˆfer Yetsir´. a e a 79 Work of the Chariot, Book of Formation (Sepher Yetzirah): The Letters of Our Father Abraham, 1971, nota 18.
  36. 36. INTRODUCAO ¸˜ 17 Nome do Livro e Temas Abordados O nome mais antigo, usado para referenciar o livro, foi “As Palavras do Patriarca Abra˜o” (epia` mdxa`c zeize` xtq), acompanhado do colof˜o a a “Leis da Cria¸ao” (ixwznc dxivi zekld) ou “Livro da Cria¸ao”, Sˆfer c˜ c˜ e Yetsir´ (dxivi xtq)80 . a Saadia Gaon, que escreveu o primeiro coment´rio completo ao livro, a chamava-o “Livro do Princ´ ıpio”, enquanto que Dunash ben Tamim o intitulou “Livro da Cria¸ao do Princ´ c˜ ıpio” (zelgzdd zxivi xtq)81 . O nome com o qual ele ficou conhecido, Sˆfer Yetsir´ (dxivi xtq), ´ e a e de dif´ tradu¸ao. Existem v´rios sinˆnimos em hebraico para a palavra ıcil c˜ a o “cria¸˜o”, e “yetsir´ ” (dxivi) ´ um deles. Assim, Sˆfer Yetsir´ ´ comumente ca a e e ae traduzido como “Livro da Cria¸˜o”. Segundo os coment´rios, “yetsir´ ” ca a a 82 refere-se ` cria¸ao a partir de algo, ao inv´s de cria¸˜o a partir do nada . a c˜ e ca A palavra usada no livro do Gˆnesis para indicar o ato criador de Deus e ´ “bara” (`xa). Essa express˜o ´ comumente usada para indicar a cria¸ao a e a e c˜ partir do “n˜o ser”. De um modo geral, os cabalistas rejeitam a creatio ex a nihilo. No entanto, eles ensinam que um dos passos da cria¸ao ´ o surgimento c˜ e do ser a partir do n˜o ser (Ain S´f ). A ideia de uma “cria¸ao a partir do a o c˜ nada”, como o pr´prio Sˆfer Yetsir´ sugere ao falar de “dez Sefir´t do nada”, o e a o esconde um significado para o cabalista muito diferente que a palavra “nada” pode sugerir. Esse “nada” n˜o ´ simplesmente uma nega¸˜o ou um vazio, a e ca 83 mas sim uma plenitude . Assim, a “cria¸ao a partir do nada” assume um c˜ significado, para o cabalista, de “cria¸˜o a partir de Deus”84 . ca Os cabalistas interpretam o “nada” como sendo o ser em sua plenitude, Ain S´f. Ain S´f ´ Deus antes de automanifestar-se. Neste sentido, os o o e cabalistas concordam com a filosofia platˆnica, que diz que o Uno ´ o “n˜o o e a ser” superior a toda a substˆncia, convertendo-se em um “hiper-ser”85 . a Fundamentalmente, o tema principal do texto ´ a cria¸ao divina, eme c˜ bora ele nada fale sobre a cria¸ao dos c´us, da terra e do mundo material, c˜ e preferindo discorrer sobre os princ´ ıpios da hierarquia da manifesta¸˜o divica 80 Gruenwald, p´gs. 475-476. a Ibidem, p´g. 476. Cf. tamb´m Alcor˜o 87:18-19 que referencia o “Livro de Abra˜o”. a e a a 82 Glotzer, p´g. xv; cf. Moses Maimonides, Guide for the Perplexed, M. Friedlander a (translator), 2nd edition, 1904, parte I, cap´ ıtulo XXIII, p´g. 109. a 83 Podemos comparar esse “Nada” ou “Vazio” com o conceito budista de sunyata. 84 Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´gs. 26-27. a 85 Cf. Bezerra, p´g. 34. a 81
  37. 37. 18 INTRODUCAO ¸˜ na86 . No entanto, existem interpreta¸oes do texto que consideram signific˜ 87 cados m´gicos e meditativos . Dependendo de como ele ´ lido, podemos a e entender essa “cria¸ao” como a obten¸ao, por parte do praticante, de estac˜ c˜ dos de consciˆncia mais elevados. O que deve ser criado ´ o “ve´ e e ıculo” que permite ao praticante a ascens˜o aos mundos superiores, para que ele possa a ter a vis˜o do Trono de Deus. Neste caso, o texto do Sˆfer Yetsir´ vincula-se a e a ` tradi¸˜o m´ a ca ıstica da Maase Merkab´ . a Comentando o uso de m´todos meditativos no misticismo judaico, David e Cooper, em Ecstatic Kabbalah, cita Mois´s Cordovero (o Ramak): “os antigos e m´ ısticos judeus tinham m´todos especiais de concentra¸ao os quais mostravam e c˜ como isolar-se dos seus corpos f´ ısicos e, desse modo, fortalecer suas mentes sutis de forma a perceber os sublimes dom´ ınios celestiais”88 . O texto do Sˆfer Yetsir´ trata principalmente de estabelecer uma liga¸˜o e a ca entre os dois mundos inferiores da cabala, Yetsir´ e Assi´ , fornecendo um a a caminho de ascens˜o aos mundos superiores de Bri´ e Atsilut, e essa ´ uma a a e 89 das raz˜es para o seu nome . o No texto s˜o introduzidos os trinta e dois caminhos de sabedoria e definia ´ das as Sefir´t e a Arvore da Vida. Nele, a cria¸˜o divina ´ apresentada como o ca e sendo originada do Nome de Deus. O texto trata tamb´m das combina¸˜es e co e permuta¸oes das letras do alfabeto hebraico, sua rela¸˜o com os signos do c˜ ca zod´ ıaco, os planetas e as partes da alma (corpo humano). As letras tamb´m e s˜o usadas para definir o cubo do espa¸o. Existem diversas interpreta¸˜es a c co m´gicas das associa¸oes apresentadas no texto. a c˜ As referˆncias feitas ao longo do Sˆfer Yetsir´ aos signos do zod´ e e a ıaco, aos planetas e ao ciclo lunar evidenciam os aspectos m´gicos e te´rgicos do livro. a u Esses aspectos n˜o s˜o estranhos ` tradi¸ao judaica, mas no Sˆfer Yetsir´ a a a c˜ e a eles est˜o em grande destaque90 . a H´ alguma rela¸˜o expl´ a ca ıcita do Sˆfer Yetsir´ com o livro de Ezequiel (veja e a 1:6 e 1:8) e com o Eclesiastes (veja 6:2). Al´m disso, em seu ultimo verso, o e ´ texto faz referˆncia ao patriarca Abra˜o, em cita¸oes do Gˆnesis e de Isa´ e a c˜ e ıas, que geraram, como vimos, especula¸oes sobre o Sˆfer Yetsir´ ter sido escrito c˜ e a 86 Gruenwald, p´g. 478. a Kaplan Sefer Yetzirah, p´gs. ix, 21-22; cf. Scholem, As Grandes Correntes da M´ a ıstica Judaica, p´g. 83. a 88 Op. cit., p´g. 3. a 89 Kaplan, Sefer Yetzirah, p´g. 43. a 90 Sobre a importˆncia da magia para a experiˆncia m´ a e ıstica, consulte Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´g. 55. a 87
  38. 38. INTRODUCAO ¸˜ 19 pelo pr´prio Abra˜o. o a Observa-se que o livro tenta conciliar os aspectos transcendente e imanente de Deus, que s˜o aparentemente contradit´rios. O aspecto transcena o dente denota que Deus est´ al´m do mundo, oculto e incompreens´ a e ıvel, sendo esse Seu aspecto sem forma e silencioso. Em Seu aspecto imanente, Deus est´ dentro do mundo, revelado e vivificador. Ao ensinar que Deus possui a ambos os aspectos, a cabala define-se como panente´ ısta. Sobre esse assunto, a opini˜o de Scholem confirma que o cabalismo cona sidera as diferen¸as entre o deus absconditus, Deus em Si mesmo, e o Deus em c Suas manifesta¸oes. Segundo o mesmo autor, o dualismo envolvido nesses c˜ dois aspectos do Deus unico foi assunto que preocupou profundamente os ´ m´ ısticos judeus91 . Esses dois aspectos aparecem, por exemplo, nas ideias do Hassidismo92 . O conceito de Sefir´ ´ um dos temas mais importantes do Sˆfer Yetsir´. a e e a De acordo com Lazarus Goldsmith, as Sefir´t s˜o “os n´meros abstratos os o a u quais s˜o algo e nada ao mesmo tempo”. O uso da express˜o “Sefir´ ” pelos a a a cabalistas, em vez da mais comum mispar (xtqn), que denota “n´mero” u em hebraico, indica que os n´meros mencionados no Sˆfer Yetsir´ n˜o s˜o u e a a a os n´meros da matem´tica, mas representam os mais elevados princ´ u a ıpios da manifesta¸˜o da atividade de Deus no mundo93 . ca Podemos identificar paralelos entre as dez Sefir´t e as henadas de Proclo, o que, para ele, s˜o as intermedi´rias entre a unidade original e a diversidade a a do mundo, hip´stases como as Sefir´t da cabala94 . o o Um estudo bastante profundo poderia ser feito sobre as influˆncias do e neoplatonismo e dos neopitag´ricos entre os cabalistas e, particularmente, o nos conceitos apresentadas no Sˆfer Yetsir´ 95 . Particularmente, entre os e a fil´sofos da primeira escola, Plotino e Proclo96 s˜o frequentemente citados o a 91 Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´g. 13. a Ibidem, p´gs, 119-120. a 93 Cf. Leo Baeck, Sefer Yetzirah, traduzido por Scott J. Thompson, Aus Drei Jahrtausenden, T¨bingen, J.C.B. Mohr (Paul Siebeck), 1958, p´gs. 256-271. u a 94 Ibidem. 95 Sobre a influˆncia do neoplatonismo entre os cabalistas, cf. Scholem, As Grandes e Correntes da M´ ıstica Judaica, nota 9, p´g. 14; devemos alertar o leitor sobre as cr´ a ıticas feitas `s tentativas de interpretar o Sˆfer Yetsir´ no sentido filos´fico, cf. ibidem, p´gs. a e a o a 4-5, 12-13, 25, 226. 96 Cf. Leo Baeck, Sefer Yetzirah. Para uma introdu¸˜o compreens´ ca ıvel ao neoplatonismo, particularmente discorrendo sobre a importˆncia da sua tradi¸˜o oral, cf. Bezerra, a ca Compreender: Plotino e Proclo. 92
  39. 39. 20 INTRODUCAO ¸˜ como os mais influentes nas ideias dos cabalistas97 . No entanto, limitar-nosemos, neste trabalho, a esbo¸ar alguns poucos paralelos entre as ideias dos c cabalistas e as dos fil´sofos da escola neoplatˆnica, sugerindo ao leitor uma o o pesquisa posterior mais ampla. O Sˆfer Yetsir´ apresenta uma abordagem teor´tica aos problemas cose a e mogˆnicos, com liga¸˜es com a literatura da Merkab´ . Nele ´ desenvolvido o co a e um mosaico de ideias, apresentadas em um estilo enigm´tico, cobrindo temas a que versam sobre o misticismo e a tradi¸˜o m´gico-esot´rica judaica, associca a e ado a um per´ ıodo pr´-Zohar , em que essas ideias ainda n˜o estavam totale a mente sedimentadas na forma pela qual seriam organizadas posteriormente pelos cabalistas tardios. M´todo Exeg´tico e e Os textos sagrados do juda´ ısmo, particularmente a Tor´, podem ser ina terpretados em quatro n´ ıveis distintos, por´m todos considerados de igual e importˆncia: Pashut (hyt), remez (fnx), derush (yexc) e sod (ceq). Essas a quatro palavras formam o acrˆnimo “pardes” (qcxt), que significa “pomar”. o Pashut ´ o n´ de interpreta¸ao literal, ou significado textual. Embora e ıvel c˜ ele seja o mais simples, ´ de fundamental importˆncia para o entendimento e a da Tor´. Remez ´ o n´ a e ıvel de interpreta¸˜o simb´lica, aleg´rica, em que ca o o cada evento, narrado nas escrituras, ´ entendido como um s´ e ımbolo para um conceito espiritual. Derush ´ o n´ homil´tico, moral, utilizado em discursos e ıvel e rab´ ınicos. Finalmente, sod significa “mist´rio” e est´ associado ao n´ mais e a ıvel 98 profundo de interpreta¸ao das escrituras sagradas . c˜ Os cabalistas concebem a Tor´ como um corpus simbolicum que cont´m a e a descri¸ao da vida oculta de Deus99 . Assim, para eles, cada passagem das c˜ escrituras esconde um significado profundo. A interpreta¸ao dos textos judaicos segue regras bem definidas e conc˜ sagradas pelos rabinos e s´bios judeus. Essas regras est˜o documentadas a a na literatura midr´shica. As regras fornecem “chaves de interpreta¸ao” utia c˜ 100 lizadas pelos exegetas . 97 Cf. Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´g. 120; cf. ibidem, nota 128 a nas p´gs. 83-84, onde Scholem discorda da opini˜o de Baeck que a origem das ideias a a apresentadas no Sˆfer Yetsir´ remonta ` filosofia de Proclo. e a a 98 Auro del Giglio, Inicia¸ao ao Estudo da Tor´, S˜o Paulo: Sˆfer, 2003, p´gs. 18-19. c˜ a a e a 99 Scholem, As Grandes Correntes da M´ ıstica Judaica, p´g. 234. a 100 Auro del Giglio, p´g. 19. a
  40. 40. INTRODUCAO ¸˜ 21 Essas “chaves de interpreta¸ao” baseiam-se nas rela¸oes entre palavras e c˜ c˜ vers´ ıculos com o contexto do trecho b´ ıblico em que ocorrem, ou com por¸oes c˜ 101 do texto que lhe s˜o cont´ a ıguas ou que lhe s˜o semelhantes . Repeti¸oes de a c˜ palavras e redundˆncias tamb´m s˜o significativas e s˜o usadas na interprea e a a ta¸˜o. ca Para interpretar os textos judaicos, ´ necess´rio levar em considera¸ao a e a c˜ importˆncia do idioma hebraico. O hebraico ´ uma l´ a e ıngua conceitual. Assim, por exemplo, a palavra tsedak´ (dwcv) tem duplo significado, denotando ao a mesmo tempo “caridade” e “justi¸a”. Isso permite concluir, por interprec ta¸˜o, uma rela¸˜o entre a caridade e a justi¸a102 . ca ca c A semelhan¸a entre palavras hebraicas pode ser usada para obter equic valˆncias e novas interpreta¸oes. Por exemplo, a palavra “hod ” (ced), signie c˜ ficando “esplendor”, tamb´m pode ser entendida como hoda´ (d`ced), que e a significa “gratid˜o”. Segundo os coment´rios, isso indica que a Sefir´ Hod a a a est´ associada a uma permissividade que ´ consequˆncia da gratid˜o. Essa a e e a permissividade ´ uma explica¸˜o para a origem do mal, como mostraremos e ca nos coment´rios ao verso 1:5. a As letras hebraicas tamb´m s˜o importantes pois permitem estabelecer e a rela¸˜es de equivalˆncia entre palavras hebraicas. Esse m´todo ´ chamaco e e e do de gematria. Duas palavras que possuam o mesmo valor gem´trico s˜o a a consideradas equivalentes. Para obter o valor gem´trico de uma palavra, deve-se somar os valores a das letras que a formam. Os valores das letras hebraicas s˜o apresentados a nas Tabelas 1 e 2, na p´gina 31. Muitas vezes os valores das letras sof´ a ıt, apresentados na Tabela 2, s˜o substitu´ a ıdos, nos c´lculos, pelos valores das a letras normais equivalentes, apresentados na Tabela 1. Por exemplo, Shemo (eny), que significa “Seu Nome”, refere-se ao Nome de Deus e tem valor gem´trico de 346 (e=6, n=40, y=300, 6+40+300=346). a Ratson (oevx), que significa “vontade”, possui o mesmo valor (o=50, e=6, v=90, x=200, 50+6+90+200=346). Observe que o valor da letra sof´ o foi ıt substitu´ pelo da letra normal p. ıdo Essa equivalˆncia entre Shemo e ratson permite concluir que o Nome de e Deus representa a Sua vontade e tem papel importante na cria¸ao. Isso nos c˜ ensina que a vontade de Deus ´ a origem da inteligˆncia divina e de toda a e e cria¸˜o. ca 101 102 Ibidem. Ibidem, p´g. 18. a
  41. 41. 22 INTRODUCAO ¸˜ A forma das letras hebraicas tamb´m pode sugerir interpreta¸˜es. Sabee co mos que as letras hebraicas usadas hoje, criadas na ´poca de Ezra, s˜o conse a tru´ ıdas por partes formadas por outras letras. Por exemplo, podemos visualizar a letra d como formada por um e ou um i posto sob um x ou um c. Outro exemplo ´ a letra ` que pode ser decomposta em dois i separados por e um e103 . Essa t´cnica permite estabelecer novas rela¸oes num´ricas entre as e c˜ e letras. Os cabalistas usam um tipo de racioc´ ınio dial´tico para interpretar as e escrituras sagradas. Eles procuram trechos das escrituras que estejam em contradi¸˜o (oposi¸˜o) e encontram a resposta a essa contradi¸˜o em algum ca ca ca outro trecho que os concilia. Por exemplo, tomemos as passagens b´ ıblicas “Eis que o homem n˜o pode a olhar para o sol, que brilha no c´u” (J´ 37:21) e “Das trevas fez um manto e o em que se ocultou” (Salmos 18:11). O primeiro vers´ ıculo faz referˆncia ` e a Luz de Deus que tudo preenche (imanˆncia), enquanto o segundo sugere a e ausˆncia de Deus, que se oculta na escurid˜o (transcendˆncia). Segundo o e a e Bahir, esses dois vers´ ıculos s˜o conciliados pelo vers´ a ıculo “at´ as pr´prias e o trevas n˜o te s˜o escuras, as trevas e a luz s˜o a mesma coisa” (Salmos a a a 139:12)104 . Isso significa que Deus ao mesmo tempo que se revela e preenche a cria¸ao, tamb´m ´ transcendente a este mundo105 . c˜ e e Esse m´todo dial´tico ´ muito importante na cabala e ser´ usado com e e e a frequˆncia neste livro. e Manuscritos e Tradu¸˜o ca O Cat´logo Coletivo do Instituto de Microfilmagem da Universidade Jua daica registra a existˆncia de cento e trinta e um manuscritos do Sˆfer Yetsir´. e e a A diversidade de manuscritos e vers˜es constitui-se em um problema e um o desafio para aqueles que pretendem estudar o texto de um ponto de vista codicol´gico106 . o O problema da reconstru¸˜o do texto original do Sˆfer Yetsir´ foi enca e a frentado das mais diversas formas por diferentes estudiosos. Existem cr´ ıticas ao uso de um aparatus sin´tico, pois alguns estudiosos acreditam que deveo 103 Sobre isso cf. Kaplan, The Bahir, Fig. 3, p´g. 7, Fig. 4, p´g. 11, Fig. 6, p´g. 22, e a a a Fig. 7, p´g. 134. a 104 Cf. Kaplan, The Bahir, 1, p´g. 1. a 105 Ibidem, p´g. 87. a 106 Cf. Hayman, p´g. 10. a
  42. 42. INTRODUCAO ¸˜ 23 mos aceitar a antiguidade e a existˆncia concomitante de trˆs vers˜es prine e o cipais (Curta, Longa e Saadia) e as dificuldades para sintetizar centenas de manuscritos diferentes107 . Assim, a abordagem seguida neste livro foi a escolha de um manuscrito confi´vel para ser usado na tradu¸˜o, acompanhado de alguma cr´ a ca ıtica textual que apresente ao leitor as nuances presentes nos diversos manuscritos e vers˜es existentes. S˜o feitas compara¸oes entre as vers˜es Curta, Gra, o a c˜ o Longa e Saadia baseadas nas diferen¸as, acr´scimos e omiss˜es presentes nos c e o manuscritos de forma a compreender a inten¸˜o original do autor e dos copisca tas. Ao longo da evolu¸ao do texto do Sˆfer Yetsir´ diversas omiss˜es e c˜ e a o interpola¸˜es foram feitas, que podem ser percebidas ao se estudarem os co manuscritos. Por exemplo, foram omitidas as permuta¸˜es das letras Emesh co associadas ao macho e ` fˆmea no verso 3:8 da vers˜o Curta apresentada a e a neste livro. Um exemplo de interpola¸ao ´ a possibilidade de o verso 1:1 n˜o c˜ e a pertencer ao texto original do Sˆfer Yetsir´, embora tal possibilidade, defene a dida por Gruenwald como uma tentativa do copista de conectar a segunda parte do texto ` primeira, seja negada por Hayman108 . a Observam-se diferen¸as significativas, ocasionadas por omiss˜o e/ou inc a terpola¸ao, entre as vers˜es Curta e Longa, principalmente nos Cap´ c˜ o ıtulos 4 e 5. No esfor¸o de oferecer ao leitor a tradu¸˜o mais confi´vel, optamos por c ca a apresentar, no texto principal deste livro, o manuscrito cuja transcri¸ao em c˜ hebraico ´ apresentada no livro de Leonard Glotzer, que ´ uma vers˜o Curta e e a do Sˆfer Yetsir´, o que facilitou o desenvolvimento da pr´pria tradu¸ao e e a o c˜ dos coment´rios aqui apresentados. Para o Anexo 1 (p´g. 267) traduzia a mos o manuscrito transcrito em hebraico no livro de Aryeh Kaplan, Sefer Yetzirah: The Book of Creation, que ´ um exemplar da vers˜o Gra. Para e a refinar a nossa tradu¸˜o, consultamos tamb´m a transcri¸ao de manuscrito e ca e c˜ a tradu¸˜o apresentada no livro do Rev. Dr. Isidor Kalisch e as transcri¸˜es ca co de dezenas de manuscritos apresentadas no livro Sefer Yesira de A. Peter Hayman. A despeito de a vers˜o Curta n˜o possuir o que Hayman numera como a a § 52, que neste livro ´ o verso 5:2, correspondendo a uma camada mais e recente no desenvolvimento e evolu¸˜o do texto do Sˆfer Yetsir´, o texto ca e a 107 108 Ibidem, p´gs. 6-14. a Ibidem, p´g. 64. a
  43. 43. 24 INTRODUCAO ¸˜ usado neste livro n˜o possui os §§ 35, 36, 54 e 55 da numera¸˜o de Hayman, a ca o que confirma que ele n˜o deve ser classificado como uma vers˜o Longa109 . a a Para o texto hebraico, seguimos a pontua¸˜o sugerida por Glotzer, emca bora outras possam ser usadas. Procuramos traduzi-lo da forma mais literal poss´ ıvel, de maneira a manter ao m´ximo a fidelidade ao texto original, a sem introduzir, nem mesmo sutilmente, interpreta¸oes pessoais por meio de c˜ 110 tradu¸˜o direcionada e parcial . ca Para aproximar a tradu¸ao das conven¸oes do portuguˆs, a copula (e) foi c˜ c˜ e eliminada onde poss´ ıvel. No entanto, em alguns casos, fomos obrigados a usa-la de uma forma pouco ortodoxa para a l´ ıngua portuguˆsa. e Tanto na tradu¸˜o do Sˆfer Yetsir´ quanto na cita¸ao de coment´rios dos ca e a c˜ a estudiosos judeus, muitas omiss˜es foram “corrigidas” por meio da inser¸˜o o ca deliberada de texto, comumente indicada entre colchetes. Os coment´rios consideram as dificuldades relacionadas com a ambiguia dade do hebraico e o uso de palavras de significado obscuro no Sˆfer Yetsir´. e a Esse ´ o caso, por exemplo, da palavra gex (ruach), que ´ muitas vezes cone e fundida com xie` (avir, denotando “ar”)111 . As palavras Yetsir´ , Blim´ , Teli a a e Emesh, entre outras, tamb´m s˜o de dif´ tradu¸ao e essas dificuldades e a ıcil c˜ ser˜o abordadas em nossos coment´rios. a a Ao leitor recomenda-se uma consulta ao gloss´rio dos termos que aparea cem no Sˆfer Yetsir´, na p´gina 293. Esse gloss´rio pode ser de grande e a a a utilidade para o entendimento da tradu¸ao. c˜ 109 Cf. ibidem, Appendix I, p´gs. 43-45. a Parece-nos que a tradu¸˜o de Kalisch, a despeito de sua qualidade, padece desse ca problema e deve ser lida com cuidado. 111 Hayman, p´gs. 22, 81-82. a 110
  44. 44. Cap´ ıtulo 1 1:1 ze`ilt zeaizp mizye miylya ` dpyn ze`av dedi di wwg dnkg icy l` mler jlne miig midl` l`xyi idl` yecwe mexn cr okey `ype mx oepge megx xtqa mixtq dylya enler z` `xae eny : xetqe xtqe Com trinta e dois caminhos misteriosos de sabedoria, Ele gravou “Yah”, “YHVH ”, “Ex´rcitos”, “Deus de Israel”, “Deus Vivo e e Rei do Mundo”, “El Shadai ”, “Misericordioso e Af´vel”, “Nobre a e Elevado”, “Ele Que Habita na Eternidade”, “Sagrado e Altivo ´ o Seu Nome”1 , e Ele criou Seu mundo, com trˆs livros, com e e n´mero, livro e hist´ria. u o Esse primeiro verso (mishn´ ) trata da forma com que Deus fez Sua a cria¸˜o, referenciando os trinta e dois caminhos de sabedoria e, indiretaca mente, as dez Sefir´t e as vinte e duas letras do alfabeto hebraico. O verso o come¸a com a frase “com trinta e dois caminhos misteriosos de sabedoria”, c que ´ uma alus˜o ` passagem b´ e a a ıblica que diz “O Senhor com sabedoria fundou a terra” (Prov´rbios 3:19). Isso significa que a sabedoria ´ a base de e e 2 toda a cria¸˜o . ca O misticismo trata daquilo que ´ misterioso e que, portanto, n˜o pode e a ser compreendido. O m´ ıstico busca a transcendˆncia, a experiˆncia direta e e de Deus, mesmo que essa experiˆncia seja apenas um pequeno vislumbre e da presen¸a divina, j´ que a compreens˜o completa do infinito por parte do c a a 3 finito ´ imposs´ . Por isso est´ dito “N˜o me poder´s ver a face, porquanto e ıvel a a a homem nenhum ver´ a minha face e viver´ . . . em tirando eu a m˜o, tu me a a a ˆ ver´s pelas costas; mas a minha face n˜o se ver´” (Exodo 33:20,23). Essa ´ a a a e a raz˜o para que os trinta e dois caminhos de sabedoria sejam qualificados a como “misteriosos”. 1 Compare com Isa´ 57:15; O Sˆfer Yetsir´ inicia pela mesma letra que a Tor´ (a). ıas e a a Christopher P. Benton, An Introduction to the Sefer Yetzirah; cf. Salmos 104:24. 3 Glotzer, p´g. 4. a 2

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