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SILVA, Bruna de Lima. Internet use in the practice of community communication :Analysis of the project Índios Online. 2010...
LISTA DE ILUSTRAÇÕESFigura 1 – Página inicial do portal Índios Online (05 de outubro de 2010) ... .......... 18Figura 2 – ...
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLASAJI – Ação dos Jovens IndígenasAL - AlagoasANAI – Associação Nacional de Ação IndigenistaAPO...
SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................
91. INTRODUÇÃO      A profusão da Internet e das tecnologias mais recentes como alternativas decomunicação de certo modo l...
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11indígenas passam a se expressar através da Internet: para esses povos, o contatodinâmico com as redes digitais é um modo...
12de conteúdo, são oficialmente de tribos indígenas da região nordeste, de estadoscomo Bahia, Alagoas e Pernambuco. No ent...
13citadas, que detalharemos mais adiante, caracterizam a tendência de se reafirmar apresença indígena no ambiente digital ...
14CAPÍTULO 2A REDE ÍNDIOS ONLINE E A PRESENÇA INDÍGENA NA INTERNET       Como explicamos, o meio digital é atualmente um c...
15Thydewá, e cada etnia saiu com um computador para ser instalado em suas aldeias,num total de sete aparelhos, além de sei...
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22página da APOINME, com um texto denominado “Campanha Opará – Povosindígenas em defesa do rio São Francisco”. No artigo, ...
23página solicita o nome utilizado pelo usuário no chat e seu endereço de email, paraonde a respectiva senha será enviada....
24visualizados 15.173 vezes. A página da Índios Online no Youtube possuía 1223acessos e 22 colaboradores, outros usuários ...
25fevereiro de 2009, posta vídeos sobre manifestações e histórias que retratam ocotidiano de sua aldeia.        O uso de a...
26sociedade urbana e apresentando a real identidade e capacidade de independênciadas comunidades e seus membros é um dos o...
27novas instituições, agências, empresas, como elas atuam... pesquisar na rede digitalpara saber como se comunicar adequad...
28abordagem no Índios Online. Tudo isso sempre com um tom crítico e de análise, quedireciona para a reflexão dos próprios ...
29reconhecido pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) de 47300 hectares, ao sul daBahia. No entanto nem todas essas áreas ...
30tipo de serviço. Já no Flickr basta fazer um cadastro no site indicado. O projetoFotografia Tupinambá ainda conta com a ...
31                         morrendo assassinados. por falta de condições melhores para                         poder cuida...
32                         PROFICIONAIS, CHEGA DE IMPUNIDADE, VAMOS FAZER                         JUSTIÇA, VAMOS COLOCAR O...
33                                       Figura 8           Página do artigo "A beleza do Rio São Francisco", publicado po...
34      O encontro contou com a presença de representantes indígenas da FUNASAe psicólogos, além de depoimentos de índios ...
35      A preservação dos hábitos e tradições indígenas é tema de muitos artigos,além de depoimentos e opiniões de vida do...
36                          Depois o branco pegava a terra e dava só a cabeça do animal,                          não era ...
37multiplicação do material publicado no portal Índios Online inclui as funções deimpressão e divulgação por email das mat...
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A comunicação comunitária na internet caso da rede índios online
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A comunicação comunitária na internet caso da rede índios online

  1. 1. BRUNA DE LIMA SILVAO USO DA INTERNET NA COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA: ANÁLISE DO PORTAL ÍNDIOS ONLINE LONDRINA 2010
  2. 2. BRUNA DE LIMA SILVAO USO DA INTERNET NA PRÁTICA DA COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA: ANÁLISE DO PORTAL ÍNDIOS ONLINE Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Orientador: Prof. Dr. Rozinaldo Antonio Miani LONDRINA 2010
  3. 3. BRUNA DE LIMA SILVAO USO DA INTERNET NA PRÁTICA DA COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA: ANÁLISE DO PORTAL ÍNDIOS ONLINE Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. COMISSÃO EXAMINADORA ____________________________________ Prof. Dr.Rozinaldo Antonio Miani Universidade Estadual de Londrina ____________________________________ Prof. Dra. Florentina das Neves Souza Universidade Estadual de Londrina ____________________________________ Prof. Dra. Rosane da Silva Borges Universidade Estadual de Londrina Londrina, _____de ___________de _____.
  4. 4. AGRADECIMENTO (S) A Deus, o primeiro e verdadeiro motor e incentivo de todas as açõese etapas realizadas desde a idealização deste projeto, até sua finalização. Ao professor e orientador Rozinaldo Antonio Miani e todos osdemais professores da Universidade Estadual de Londrina que de alguma formacontribuiram e apoiaram a elaboração e andamento deste trabalho em todas as suasetapas. Aos amigos e colegas que serviram de incentivo durante a execuçãodo trabalho, sendo importante base de sustentação diante das limitações eoferecendo apoio constante. Aos familiares pela presença imprescindível, o apoio, o carinho e adedicação pessoal em todos os momentos. Agradecimentos também a Anápuáka Muniz, da Web BrasilIndígena, Potyra Tê Tupinambá e Sebastián Gerlic, da gestão da rede Índios Online,pela receptividade e disposição em colaborar com informações via email para aexecução do trabalho.
  5. 5. SILVA, Bruna de Lima. O uso da Internet na prática da comunicação comunitária:Análise do portal Índios Online. 2010. Número total de folhas. Trabalho deConclusão de Curso (Graduação em Comunicação Social - Jornalismo) –Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2010. RESUMO O seguinte trabalho tem como objetivo analisar o projeto Índios Online eatravés dele avaliar como a Internet e seus recursos de mídia digital podem serutilizados em benefício da comunicação comunitária. O portal Índios Online existedesde 2004 e caracteriza-se no padrão de comunicação comunitária pois todo o seuconteúdo é produzido e divulgado por grupos indígenas, além de ser voltadotambém para esse público. É coordenado pela ONG Thydewá, com apoio doMinistério da Cultura e do governo federal. Faremos uma abordagem sobre a história e desenvolvimento do site, além deuma descrição estrutural. Observaremos de que maneira os recursos multimidia(como vídeos e fotos) são utilizados e o padrão de conteúdo e de forma observadonos textos e na linguagem. Além disso, avaliaremos quais são os meios usados parainteração com o público fora das comunidades indígenas que colaboram com o site,os resultados positivos que o projeto da rede Índios Online trouxe para ascomunidades integrantes e quais expectativas ainda devem ser atendidas.Palavras-chave: Comunicação. Comunidade. Indígenas. Interatividade. Internet.
  6. 6. SILVA, Bruna de Lima. Internet use in the practice of community communication :Analysis of the project Índios Online. 2010. Número total de folhas. Trabalho deConclusão de Curso (Graduação em Comunicação Social - Jornalismo) –Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2010. ABSTRACT The following study aims to analyze the project Índios Online and through it toevaluate how the Internet and its digital media capabilities can be used to benefit thecommunity communication. Portal Índios Online exists since 2004 and characterizedthe pattern of community communication for all its content is produced anddisseminated by indigenous groups, and is also directed to that audience. It iscoordinated by the NGO Thydewá, supported by the Ministry of Culture and thefederal government. We will make an approach on the history and development of the site, beyonda structural description. We will see how the multimedia features (such as picturesand videos) are used and the standard of content and form found in the texts andlanguage. In addition, we will assess what means are used to interact with the publicoutside of indigenous communities that contribute to the site, the positive results thatthe network project Índios Online brought to the community members andexpectations what still must be metKey-words: Communication. Community. Interactivity. Internet. Native.
  7. 7. LISTA DE ILUSTRAÇÕESFigura 1 – Página inicial do portal Índios Online (05 de outubro de 2010) ... .......... 18Figura 2 – Página do Google Maps mostrando as aldeias onde estãopresentes pontos do Índios Online: cada "@" marcada no maparepresenta uma aldeia diferente (06 de outubro de 2010) ....................................... 19Figura 3 – Janela do chat do portal Índios Online (06 de outubro de 2010) ............ 20Figura 4 – Perfil na rede social de comunicação Twitter do portal ÍndiosOnline (06 de outubro de 2010)................................................................................ 21Figura 5 – Página inicial do canal da Índios Online no portal Youtube(06 de outubro de 2010) ........................................................................................... 24Figura 6 – Página inicial do blog Retomada Tupinambá (13 de outubro de 2010) .. 29Figura 7 – Fotografia tirada durante oficina realizada pelo projetoFotografia Tupinambá. Autor: Alessandro Tupinambá (13 de outubro de 2010) ..... 30Figura 8 – Página do artigo "A beleza do Rio São Francisco", publicadopor Juayran (11 de outubro de 2010) ....................................................................... 33Figura 9 – Página inicial do portal da rede Grumin (16 de outubro de 2010) .......... 41Figura 10 – Página inicial do portal do grupo Esperança da Terra(13 de outubro de 2010) ........................................................................................... 55Figura 11 – Página inicial do portal da Web Brasil Indígena(13 de outubro de 2010) ........................................................................................... 58Figura 12 – Cartaz de divulgação da pré-estreia do documentárioIndígenas Digitais em Salvador - BA (18 de outubro de 2010)................................. 61Figura 13– Página inicial do portal Indígenas Digitais (17 de outubro de 2010) ...... 64
  8. 8. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLASAJI – Ação dos Jovens IndígenasAL - AlagoasANAI – Associação Nacional de Ação IndigenistaAPOINME - Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste Minas Gerais e EspíritoSantoBA - BahiaBNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e SocialCedi – Centro Ecumênico de Documentação e InformaçãoCESE – Coordenadoria Ecumênica de ServiçoEmbratel – Empresa Brasileira de TelecomunicaçõesFUNAI – Fundação Nacional do ÍndioFunarte – Fundação Nacional de ArtesFUNASA – Fundação Nacional de SaúdeGESAC – Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao CidadãoInbrapi – Instituto Indígena para Propriedade IntelectualISA -Instituto SocioambientalMinC – Ministério da CulturaMS – Mato Grosso do SulNDI – Núcleo de Direitos IndígenasONG – Organização Não GovernamentalPDF – Portable Document Format – Documento em Formato PortátilPE - PernambucoPIB – Povos Indígenas no BrasilRJ – Rio de JaneiroS/A – Sociedade AnônimaSP – São PauloSTF – Supremo Tribunal FederalUnesco – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization -Organização Educacional, Cultura e Científica das Nações Unidas
  9. 9. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 092 A REDE ÍNDIOS ONLINE E A PRESENÇA INDÍGENA NA INTERNET ............... 142.1 O PORTAL ÍNDIOS ONLINE E O ARCO DIGITAL ........................................................... 172.2 O QUE TÊM A DIZER OS ÍNDIOS ONLINE..................................................................... 272.3 A PRESENÇA INDÍGENA NA INTERNET ....................................................................... 373 A COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA NA INTERNET ............................................. 454 A WEB BRASIL INDÍGENA E O PROJETO ESPERANÇA DA TERRA .............. 544.1 O DOCUMENTÁRIO INDÍGENAS DIGITAIS ................................................................... 594.2 OBJETIVOS ATINGIDOS, EXPECTATIVAS E NECESSIDADES PENDENTESNA COMUNICAÇÃO DIGITAL ............................................................................................ 705 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 78REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 80ANEXOS ................................................................................................................... 83ANEXO A – Documentário Indígenas Digitais ........................................................... 84
  10. 10. 91. INTRODUÇÃO A profusão da Internet e das tecnologias mais recentes como alternativas decomunicação de certo modo levou a mídia, que até o final do século XX seconcentrava em difundir seu conteúdo de forma massiva através dos meioseletrônicos - rádio, TV e impressos -, a descobrir e explorar esse potencial ambientecomunicativo digital. Em seus estudos sobre o ciberespaço, definidosuperficialmente com “um espaço de comunicação aberto pela interconexão mundialdos computadores e de suas memórias” (LÉVY, 1999, p.92), o filósofo francês PierreLévy já apresentava esse novo meio digital como um espaço de interações, depráticas e relacionamentos humanos antes restritos apenas ao ambiente físico. A prática da comunicação comunitária, vista como uma alternativa desociabilidade dos grupos minoritários (FERNANDES, 2007), encontra nos meiosdigitais e na Internet uma alternativa simples, relativamente barata e que não exigeexperiência elevada. Entre os diferenciais da rede estão a estrutura basicamentenão-linear, ausente no material impresso, por exemplo, e as ligações hipertextuais,que permitem ao usuário se movimentar mediante as estruturas de informação dosite sem uma sequência predeterminada, mas sim saltando entre os vários tipos edados que necessita (PINHO, 2003), com o auxílio dos chamados links. A Internet também se destaca pelo modo ágil e instantâneo como asinformações podem ser apuradas, publicadas e dispersas por todos os limites darede; a perenidade das informações, que ficam arquivadas (e muitas vezesacessíveis a maioria das pessoas) por tempo indeterminado; e talvez um dos fatoresmais importantes, a interatividade digital: a Internet possibilitou uma grandevariedade de opções de interação online entre usuários, até então não exploradapelos meios de comunicação convencionais. A interação é característica comum dasinterações sociais do cotidiano, mas a ascensão das tecnologias e relações digitaisajudou a ampliar esse conceito. O conceito de comunidade, incluindo aí o de comunicação comunitária, nãose restringe mais à prática social e comunicativa realizada dentro de um espaçogeográfico limitado:
  11. 11. 10 Há mudanças substanciais nas concepções de comunidade, ao mesmo tempo em que alguns de seus princípios ainda se verificam. O sentimento de pertença, a participação, a conjunção de interesses e a interação, por exemplo, são características que persistem ao longo da história, enquanto a noção de lócus territorial específico como elemento estruturante de comunidade está superada pelas alterações provocadas pela incorporação de novas tecnologias da informação e comunicação. Sem menosprezar que a questão do espaço geográfico continua sendo um importante fator de agregação social em determinados contextos e circunstâncias (PERUZZO, 2008, p.12). Os meios de comunicação digitais tecnicamente são um campo ainda poucoexplorado dentro da prática comunitária, mas com grande potencial de expansão eutilização, como veremos a partir do exemplo do portal Índios Online 1, que desde2004 serve como veículo de comunicação para grupos nativos indígenas e mesmonão-indígenas de todo o país. No caso da criação da rede Índios Online, a partir dainiciativa da Organização Não-Governamental (ONG) Thydewá (sediada emSalvador - BA), é relevante lembrar que esta iniciativa de inclusão digital é paralela aoutras atividades de caráter voluntário: oficinas realizadas por facilitadores nas áreasde saúde, jornalismo étnico, educação, cidadania e direitos, economia solidária eagroflorestagem; atividades voltadas tanto para os próprios indígenas quanto para acomunidade em geral. A descoberta e exploração adequada de todas as ferramentasproporcionadas pelos meios digitais, além da superação dos desafios que aindaseparam a prática comunitária das novas tecnologias, como a necessidade de maioriniciativa de inclusão digital, são questões fundamentais para potencializar o uso daInternet como meio de comunicação comunitária. Como lembra Marili de Souza, emseus estudos sobre a prática comunicativa no contexto das comunidades “o custodos equipamentos ainda é uma barreira que deixa de fora as populações pobres,embora os telecentros e os softwares livres já enfrentem essa realidade, fazendoaumentar a inclusão entre as camadas mais populares” (SOUZA, 2007, p. 02). A partir dessa iniciativa, é possível expandir os limites dos meios decomunicação comunitários, fortalecendo os grupos e as iniciativas sociais quesustentam esses veículos. No caso da rede Índios Online, de certo modo é possível,inclusive, quebrar a ideia da perda de identidade étnica, a partir do momento que os1 http://www.indiosonline.org.br
  12. 12. 11indígenas passam a se expressar através da Internet: para esses povos, o contatodinâmico com as redes digitais é um modo de se manter sintonizado às mudanças eavanços sociais e tecnológicos. No entanto a Internet funciona principalmente comouma forma de registrar, manter e globalizar as tradições indígenas, sem esquecer desuas raízes. Através da análise do conteúdo, estrutura e funcionamento do portal ÍndiosOnline, nosso objetivo é constatar como as funcionalidades da Internet, da rededigital, podem ser exploradas na prática da comunicação comunitária. O uso daInternet na comunicação comunitária ainda é uma ideia em ascensão, envolta empreconceitos, mas que pode ser bem explorada. A rede tira as pessoas do papel demeros espectadores ou ouvintes – comum na mídia tradicional – e as coloca comodifusoras e produtoras de conteúdo (PERUZZO, 2008). A Internet ajuda a romperlimites geográficos, quebrando a ideia de que a comunicação comunitária estárestrita a um limite territorial, além de possibilitar o uso de diversas mídias (som,texto, imagens) simultaneamente (a chamada convergência) e de forma eficiente. Os desafios da prática da comunicação comunitária na Internet também serãoabordados. A administração de funções e objetivos dentro do grupo - comum emqualquer prática comunitária -, a necessidade de recursos materiais para a práticacomunicativa, a habilitação adequada para o uso das ferramentas de comunicação.No caso específico da rede Índios Online, a preocupação com a perda da identidadeindígena a partir do momento em que esses grupos se identificam na Internettambém é vista como um desafio a ser superado. Os próprios indígenas enxergam arede como uma forma de se integrarem ao mundo globalizado sem perder suasraízes, perpetuando suas tradições e divulgando-as para o resto do mundo(PEREIRA, 2008). São essas questões que abordaremos adiante. A pesquisa apresentada caracteriza-se como um trabalho de observação,exploração, análise e descrição. Através da observação geral do funcionamento,ferramentas e características do site Índios Online tentaremos aplicar estudosteóricos sobre as funcionalidades da Internet e elementos que definem a prática dacomunicação comunitária, para mostrar que é possível unir de forma efetiva a rededigital e o conceito comunitário. Estudaremos o site Índios Online em um período de aproximadamente duassemanas, com suas atualizações e todo o material publicado (textos, vídeos,imagens etc). É válido lembrar que os membros da rede Índios Online, os produtores
  13. 13. 12de conteúdo, são oficialmente de tribos indígenas da região nordeste, de estadoscomo Bahia, Alagoas e Pernambuco. No entanto, a participação no site e produçãode conteúdos é disponibilizada a qualquer membro da população indígena (e mesmonão-indígena), contanto que o tema apresentado seja de interesse desses grupos,sem teor ofensivo. Como explicado anteriormente, a análise do conteúdo e dos recursosaplicados na estrutura e alimentação do portal Índios Online serão feitos com basena observação, além do contato com representantes do grupo. A princípio adistância geográfica da sede da ONG Thydewá, principal responsável pelaorganização do projeto, poderia caracterizar uma certa limitação na realização dapesquisa: o contato direto com o processo de produção de conteúdos para o siteproporcionaria uma abordagem mais delicada e aprofundada do assunto. Noentanto, considerando-se que um dos objetivos do site Índios Online é justamentepoder expandir fronteiras de comunicação, levando seu conteúdo para públicosgeograficamente mais distantes, pareceu adequado e conveniente manter toda acomunicação necessária através da rede digital. Após a pesquisa teórica, cujo objetivo é coletar o máximo de conteúdo sobrea comunicação digital na Internet e a prática da comunicação comunitária, a próximaetapa é a análise do site e aplicação dos conceitos estudados no modelo do portalÍndios Online. Com isto posto, podemos concluir o cumprimento das expectativas jáapresentadas. Nos capítulos seguintes apresentaremos, inicialmente, uma descriçãogeral da estrutura do portal Índios Online, a história do projeto, os principaisconteúdos abordados e recursos (que a rede digital disponibiliza) utilizados.Também destacaremos as demais formas de presença indígena desenvolvidasdentro da Internet, direta ou indiretamente inspiradas pelas atividades da rede ÍndiosOnline. A partir dessa experiência, ofereceremos a seguir uma abordagem teórica decomo a Internet pode ter seus recursos utilizados em benefício da prática dacomunicação comunitária. Em destaque apresentaremos também três projetos desenvolvidos comparticipação direta de membros da equipe da rede Índios Online, que utilizamdinâmicas distintas e demonstram diferentes fases de desenvolvimento da presençaindígena na Internet: o portal Web Brasil Indígena, a rede de informaçãocompartilhada Esperança da Terra e o documentário Indígenas Digitais, iniciativa daprópria Thydewá que teve seu lançamento no início de 2010. Todas as iniciativas
  14. 14. 13citadas, que detalharemos mais adiante, caracterizam a tendência de se reafirmar apresença indígena no ambiente digital pelas próprias aldeias, inserindo o cotidiano ea cultura desses povos dentro da sociedade urbana sem que eles se percam desuas origens e tradições. A ideia é mostrar que, embora ainda existam muitos limitesa ser superados (como falta de equipamentos e questões de acessibilidade, porexemplo), a Internet se encaixa adequadamente na atividade da prática dacomunicação comunitária. Não só entre os indígenas, mas em todas ascomunidades e grupos que de alguma forma são considerados socialmenteexcluídos. O ambiente digital tem se tornado não apenas uma extensão da comunicaçãoconvencional, praticada no dia a dia, mas de todo tipo de atividade praticada nocotidiano. As práticas sociais em geral aos poucos migraram e se adaptaram aoscaminhos e possibilidades digitais. A Internet, por ser um espaço relativamenteacessível a qualquer indivíduo e pela sua facilidade de compartilhamento edivulgação de informações tem todo o potencial para ser uma ferramenta útil nacomunicação comunitária. É com essa constatação e seus desdobramentos queconcluímos nosso trabalho.
  15. 15. 14CAPÍTULO 2A REDE ÍNDIOS ONLINE E A PRESENÇA INDÍGENA NA INTERNET Como explicamos, o meio digital é atualmente um campo bastante viável paraa prática da comunicação, por seus custos reduzidos, manejo simples, grandeabrangência e imensa possibilidade de liberdade de comunicação que garante. Noentanto, quando se pensa em comunicação na Internet é necessário planejar umaestrutura atraente, prática e que ofereça o máximo de interatividade ao internauta. Apartir de uma apresentação do portal Índios Online e uma observação sobre algunsde seus conteúdos, definiremos quais recursos digitais são explorados, suasprincipais características e também o teor do conteúdo publicado: uma espécie delinha editorial do site. Interessante recordar que o portal Índios Online é essencialmente decomunicação, não de jornalismo; como veremos nos exemplos adiante, o materialpublicado se caracteriza por possuir um teor opinativo visível. É certo dizer que amaioria das notícias publicadas exprime o sentimento, a visão dos própriosindígenas sobre os atos acontecidos no cotidiano desses grupos. Divulgação deeventos, projetos realizados por ou para a comunidade indígena, denúncia de crimesou ilegalidades praticadas contra índios ou contra o meio ambiente, atividades do diaa dia das comunidades indígenas, protestos, conflitos indígenas contra órgãos dogoverno etc., qualquer assunto voltado ao universo indígena, de cultura à política,tem espaço para ser abordado. O portal Índios Online passou a funcionar ativamentea partir de abril de 2004. Foi uma iniciativa da Organização Não-GovernamentalThydewá, sediada em Salvador, na Bahia, com colaboração da rede desupermercados Bompreço do Nordeste S/A e do Programa governamentalFazcultura de incentivo ao patrocínio cultural. Em 2004 o governo da Bahia apoiou um projeto de conexão entre aldeias.Foram comprados sete computadores com conexão pelo serviço Star One, daEmbratel, com o apoio da Unesco. Foi feito contato com diversas aldeias, das quaisforam escolhidos dois representantes de cada uma delas para uma oficina dequalificação, a fim de orientar para o uso dos computadores. A primeira oficina foidesenvolvida em uma semana, em horário integral, em Salvador, na sede da
  16. 16. 15Thydewá, e cada etnia saiu com um computador para ser instalado em suas aldeias,num total de sete aparelhos, além de seis meses de conexão de Internet. O site do portal Índios Online é hospedado atualmente pelo serviço gratuito degerenciamento de conteúdos na Internet Wordpress 2, e elaborado pelo tambémgratuito sistema de tecnologia digital Livresoft. Atualmente, onze nações indígenascolaboram ativamente no portal: Kiriri, Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe, Tumbalalá naBahia, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó em Alagoas e os Pankararu em Pernambuco. Nopróprio site o projeto Índios Online é descrito como uma oportunidade de diálogo,encontro e troca de experiências entre indígenas e não-indígenas de tribos diversas.A conexão com a Internet é feita dentro das próprias aldeias, buscando o benefíciodessas mesmas comunidades. Como explicado no site do portal: Nossos objetivos são: Facilitar o acesso à informação e comunicação para diferentes nações indígenas, estimular o dialogo intercultural. Promover aos próprios índios pesquisarem e estudarem as culturas indígenas. Resgatar, preservar, atualizar, valorizar e projetar as culturas indígenas. Promover o respeito pelas diferenças. Conhecer e refletir sobre o índio de hoje. Salvaguardar os bens imateriais mais antigos desta terra Brasil. Disponibilizar na internet arquivos (textos, fotos, vídeos) sobre os índios nordestinos para Brasil e o Mundo. Complementar e enriquecer os processos de educação escolar diferenciada multicultural indígena. Qualificar índios de diferentes etnias para garantir melhor seus direitos (ÍNDIOS ONLINE, 2010). Todos colaboram na rede voluntariamente e, desde 2005, o projeto conta como apoio do Ministério da Cultura (MinC), que auxilia através dos programas Pontosde Cultura Viva e Associação Nacional de Apoio ao Índio (ANAI). O Pontos deCultura Viva é uma parceria do MinC com os Ministérios das Telecomunicações e doTrabalho e Renda criado em 2006 como parte do programa Governo Eletrônico –Serviço de Atendimento ao Cidadão (GESAC). O programa trata exatamente dadisponibilização de computadores conectados à Internet em postos da FundaçãoNacional de Saúde (FUNASA) instalados nas aldeias. Novos povos se integraram àrede e a ideia inicial era de que cada aldeia pudesse participar ativamente,representando um ponto de cultura. Já a ANAI é uma ONG também sediada emSalvador existente desde 1978 e que trabalha com práticas de inclusão e2 http://pt-br.wordpress.com/
  17. 17. 16reafirmação dos grupos indígenas na sociedade, cuidando pela manutenção dosdireitos dos povos indígenas e sua representatividade cultural e social. Em relação ao GESAC, é interessante recordar que este tipo de apoio doMinistério da Cultura em recursos materiais e estruturais não significa que a redeÍndios Online se submeta a alguma gestão ou critério governamental: o trabalho nãoperde seu perfil independente, alternativo, comunitário. A ideia da criação da redeÍndios Online surgiu depois da organização Águia Dourada, fundada pelo argentinoSebastián Gerlic, radicado há 15 anos na Bahia, e constituída por grupos indígenase não-indígenas, criar a série de livros Índios na visão dos índios. A coleção continhatextos, fotos e desenhos feitos pelos indígenas das etnias Kiriri, Tupinambá e Truká.Em 2001 os membros da Águia Dourada se dividiram e em 2002 foi fundada a ONGThydewá (“esperança da terra” no idioma Pankararu), coordenada por Gerlic. Entre1997 e 2004 foram publicados oito livros pelas instituições. Sebastián Gerlic passoua se dedicar à causa das comunidades indígenas depois que ele e um grupo deíndios foram vítimas de um ataque feito pela Polícia Militar, quando Gerlic gravavaum documentário na Bahia. A ideia das iniciativas da ONG seria dar mais espaço deatuação e representatividade para os indígenas brasileiros. No ano de 2006, na ocasião de um encontro da rede Índios Online (chamadode “Encontrão”), em Ilhéus, na Bahia, foi eleito um coordenador indígena geral parao grupo (Alex Pankararu), além de outros responsáveis principais pela coordenaçãode setores específicos como administração, informática, monitoramento, contatoscom parceiros etc. Até então os coordenadores responsáveis eram Ivana Cardoso,Laura Juliani, Sebastián Gerlic e Luis Henrique Moreira. No Encontrão, além daeleição dos novos administradores, feita por representantes das aldeias integrantesda rede, também foram discutidas novas ideias de gestão, parceria, expansão etrabalho em rede, além de atividades culturais e apresentação dos principaistrabalhos desenvolvidos até ali. Em 2007 a Thydewá, pelo projeto Índios Online, recebeu o selo de IniciativaReconhecida Prêmio Cultura Viva, do MinC, através do Programa Cultura Viva, deincentivo a práticas culturais executadas pelo Brasil. No ano de 2008 o projetorecebeu o prêmio AREDE de inclusão digital. Em 2009, o Índios Online tambémganhou os prêmios Rodrigo Melo Franco de Andrade (por divulgação do patrimônionacional através da Internet, livros e campanhas) e Prêmio Mídias Livres do MinC. Apartir do recebimento deste último, a Índios Online se expandiu e com o objetivo de
  18. 18. 17afirmar ainda mais a presença indígena no projeto foi criado o método de GestãoCompartilhada: a partir dele, representantes de todas as aldeias ligadas à ÍndiosOnline e espalhadas pelo Brasil passaram a ter o mesmo peso, o mesmo poder degestão e administração. Isso eliminava a necessidade de um coordenador geral parao conteúdo publicado no site, resultando numa atividade mais igualitária e bemdistribuída para todos. Inicialmente foram escolhidos oito representantes de povosdiferentes: dois Pankararu, dois Tupinambá, um Kariri-Xocó, um Guarani, um Terenae um Potiguara. Em janeiro de 2010 a Thydewá organizou o I Encontro Nacional daRede Índios Online no Pontão de Cultura Esperança da Terra em São José daVitória, na Bahia. Hoje, lembra Sebastián, a Índios Online é uma rede independente,administrada por seus próprios integrantes. A Thydewá, que antes era a principalgestora da rede, hoje trabalha em um sistema de parceria. Nas palavras de Gerlic, Entendemos que Índios On-Line é uma rede de comunicação indígena, onde dá oportunidade e autonomia aos índios de todos os povos brasileiros e não brasileiros, a expressar suas opiniões e ser um etnojornalista, ciberativista, etnocelumetrista e ser o protagonista de sua própria cultura, historia, costumes e tradições. Para que assim possam ser compartilhada com outros povos e vice versa (GERLIC, 2010).2.1 O portal Índios Online e o Arco Digital O site da rede Índios Online é considerado um pioneiro na ideia daorganização, representação e interatividade das comunidades indígenas de diversasetnias através da Internet. Atualizado pelos próprios indígenas, o site (figura 1)apresenta conteúdo em formato de textos, fotos, vídeos (gravados através deaparelhos celulares), além de ser aberto a comentários. Também é disponibilizadoum chat (sistema de bate papo virtual), promovendo a ideia do diálogo intercultural.Atualmente são mais de 3000 matérias publicadas e 10000 comentários no site, queconta com cerca 500 participantes de 25 etnias diferentes. Atualmente o grupo de gestão da rede Índios Online conta com oitointegrantes, de diferentes aldeias indígenas do Brasil: Alex Pankararu, GracielaGuarani (Cunha Poty Rory), Ivana Cardoso (Potyra Tê Tupinambá), JaborandyYandê Tupinambá, Diana Terena (Diana Davilã), Luciano Pankararu, Jaqueline
  19. 19. 18Potiguara (Irembé) e Nhenety Kariri Xocó. Todos os integrantes da rede podempostar no site, com periodicidades variáveis. Aos membros da gestão é exigidoapenas que se comprometam a gerenciar e postar conteúdo no site, além de cuidardo chat que o portal oferece. Os elementos gráficos que compõem a apresentaçãovisual do site, como os detalhes que lembram o desenho do trançado da fabricaçãode cestos de sisal e os tons esverdeados e terrosos reforçam a ideia dos elementosda cultura e do cotidiano indígenas mantidos firmemente mesmo no contexto dapresença no ambiente digital. Na página inicial do site estão organizados links paratodos os serviços oferecidos pelo portal, além das chamadas dos textos publicadosmais recentemente (com o link Leia mais para se acessar o texto completo). Figura 1 Página inicial do portal Índios Online (05 de outubro de 2010) No menu, localizado logo acima do logotipo Índios Online são visíveis osseguintes botões de acesso: Oca – direciona para a página inicial do Índios Online. Mapa – através de imagem obtida pelo programa de mapeamento geográfico 3digital via satélite Google Maps é mostrada a região das comunidades indígenas3 http://maps.google.com.br/
  20. 20. 19que integram a rede Índios Online. Cada “ponto” de acesso do programa érepresentado pelo símbolo “@” (figura 2). Arquivos – são exibidos links das postagens mais recentes publicadas no site. Chat – é o programa de comunicação instantânea do portal. Para acessá-lo énecessário criar um cadastro na página com email, uma senha e um nome deusuário. No site Índios Online, o serviço é normalmente frequentado por fundaçõesou grupos interessados na temática indígena, além de estudantes que buscaminformações para trabalhos escolares. A página exibe também o número de usuáriosconectados no chat. Elaborado pelo Livresoft, o serviço é semelhante à estrutura deuma sala de bate papo digital comum (figura 3): uma janela lateral com a listagemdos usuários, uma janela onde se escreve a mensagem e outra maior, onde aparecetodo o conteúdo da conversa. Figura 2 Página do Google Maps mostrando as aldeias onde estão presentes pontos do Índios Online: cada "@" marcada no mapa representa uma aldeia diferente (06 de outubro de 2010) Também é possível enviar emoticons (as “carinhas” animadas que ajudam aexpressar o que o usuário está sentindo, de forma bem humorada) e sinais sonorospara chamar a atenção dos outros usuários. Além disso, existe a possibilidade decompartilhar jogos com outros usuários, utilizar cores e fontes de textopersonalizadas e avatares, ilustrações que representam a figura do usuário dentrodo chat. O serviço conta ainda com um botão de registros, marcando as últimas
  21. 21. 20atividades do chat, e um link de ajuda com instruções (em inglês) de utilização dosrecursos do programa. Quem somos – a página contém uma espécie de editorial, com explicando oque é e quais os objetivos e as metas do projeto Índios Online. Participe – uma espécie de convite para os indígenas ainda não incluídos narede Índios Online. Para o cadastro, é necessário apenas informar nome, email paracontato e a etnia, a “nação” a qual o indígena pertence. Figura 3 Janela do chat do portal Índios Online (06 de outubro de 2010) Contato – espaço aberto para comunicação direta com a administração doportal. Para isto é apenas necessário informar o nome e email para contato,deixando a mensagem desejada. Ainda no alto da página inicial, há um botão de busca onde o usuário podepesquisar um elemento desejado no conteúdo do site. Nos resultados da busca, sãoexibidos integralmente artigos relacionados ao tema procurado. À esquerda dapágina inicial, uma série de janelas/links levam a outros pontos ligados ao portal. Decima para baixo, pode-se ver:
  22. 22. 21 4 Siga nosso Twitter – abre uma nova janela para o perfil no Twitter (redesocial de que permite a troca de mensagens instantâneas curtas) do Índios Online(figura 4). Atualmente o perfil do Índios Online, descrito por seus criadores como “umportal de diálogo intercultural”, conta com 435 seguidores. No perfil do Twitter darede Índios Online são postadas algumas atualizações do portal, com as manchetese os links para cada texto publicado. O primeiro registro de atividade do perfil daÍndios Online no Twitter data do dia 5 de maio de 2010. Figura 4 Perfil na rede social de comunicação Twitter do portal Índios Online (06 de outubro de 2010) Imprima e difunda a petição! - clicando nesta caixa, o usuário é direcionadopara um link do site da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas doNordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME). A APOINME 5, sediada emOlinda, Pernambuco (PE), integra 64 povos indígenas e atua em defesa dos direitose causas desses grupos: demarcação e identificação de terras; educação escolarrespeitando a cultura e tradições indígenas; assistência técnica e extensão ruralpara as comunidades; respeito ao meio ambiente e uso consciente de recursosnaturais (APOINME, 2010). O link no portal da Índios Online redireciona para uma4 http://twitter.com/indiosonline5 http://www.apoinme.org.br/
  23. 23. 22página da APOINME, com um texto denominado “Campanha Opará – Povosindígenas em defesa do rio São Francisco”. No artigo, a organização convoca ospovos indígenas a se manifestarem contra o trabalho de transposição do rio SãoFrancisco, operado pelo governo federal. A obra - ainda não concluída totalmente - teria como objetivo irrigar as regiõesdo nordeste e semi-árido brasileiros, mas o argumento da APOINME é de que oprojeto danifica o ecossistema às margens do rio (onde estão localizadas aldeiasindígenas) e o próprio São Francisco, além de não suprir as necessidades dapopulação instalada na região do semi-árido. A transposição do rio beneficiariaapenas o agronegócio, latifundiários e empresas multinacionais com instalações na 6região. Em documento publicado no mês de junho de 2010 no Blog do Planalto –site com informações gerais do governo mantido pela Presidência da República – opresidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a previsão é de que o projeto sejaconcluído no final de 2012, e a APOINME orienta a população a assinar uma petição(disponível no site) contra o andamento do projeto, que posteriormente seriaencaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF). No documento, a APOINME requere ao STF uma audiência pública dandovoz a especialistas na área do meio ambiente e ecologia, além dos residentes naregião afetada pelo trabalho de transposição, a fim de averiguar se os impactosambientais realmente têm ligação com a transposição do rio. Se comprovados osdanos ao ecossistema, o documento pede ainda que sejam aplicadas ações judiciaisreferentes ao projeto. Além da versão digital, a instituição também orienta para que apetição seja enviada via fax ou correio, disponibilizando cópias do documento paradownload em cinco idiomas (português, alemão, francês, inglês e italiano). O focoatual das reivindicações da APOINME é o prejuízo provocado pelo andamento dasobras do São Francisco, e informações gerais relativas ao tema estão publicadas nosite da organização. Índio off- line? Você é a nossa Rede. Fique on! - o link redireciona para apágina de cadastro dos usuários indígenas (em Participe). Novo chat no ar!!! Acesse aqui - redireciona para a página de login (entrada)no chat, onde o usuário pode criar seu cadastro no bate papo (se ainda não possuir)ou solicitar o reenvio de sua senha, caso se esqueça dela. Nesse caso, uma nova6 http://blog.planalto.gov.br/
  24. 24. 23página solicita o nome utilizado pelo usuário no chat e seu endereço de email, paraonde a respectiva senha será enviada. Indígenas Digitais – o filme - clicando na janela, o usuário é direcionado aosite Indígenas Digitais 7. Nele, é possível assistir e saber mais detalhes sobre odocumentário Indígenas Digitais, com depoimentos de indígenas das naçõesTupinambá e Pataxó Hahahãe, da Bahia, Kariri-Xocó de Alagoas, Pankararu dePernambuco, Potiguara da Paraíba, Makuxi de Roraima e Bakairi de Mato Grosso. Odocumentário foi produzido por indígenas e não indígenas integrantes da Thydewá,além da empresa de capacitação e gerenciamento de projetos sociais, educacionaise culturais Cardim Soluções Integradas, sediada em Salvador. Adiante detalharemoscom mais cuidado o projeto do documentário Indígenas Digitais. Login - clicando no link dentro da caixa de cor verde, o usuário é direcionadopara o site da APOINME, citado anteriormente. Abaixo da caixa há outro linktambém escrito Login, mas este serve para que aqueles cadastrados no site (atravésda página Participe) tenham acesso à administração do portal, publicando seumaterial no Índios Online. Na página inicial do portal Índios Online também é possível visualizar a barraCanal Celulares Indígenas Youtube. São vídeos produzidos pelos própriosindígenas, com o uso de câmeras de aparelhos celulares, que também sãopublicados na rede de compartilhamento de vídeos Youtube. Segundo Potyra TêTupinambá, entre computadores, filmadoras e câmeras digitais os celulares são osaparelhos mais comuns e utilizados pelos indígenas no dia a dia, justamente porserem os de mais fácil transporte e praticidade. Os assuntos abordados sãovariados: cultura, manifestações artísticas, opiniões, eventos, apresentação deprojetos realizados e dos integrantes da rede, até “tutoriais” que ensinam os demaisparticipantes da Índios Online a postar matérias no site principal da rede, porexemplo. No portal Youtube é possível encontrar inclusive uma página exclusiva 8criada pela rede Índios Online (figura 5) com todos os vídeos produzidos pelogrupo. Esse tipo de serviço é totalmente gratuito; para ter acesso a ele basta possuirum endereço de email e criar uma conta no site. No Canal somos informados de que ele foi criado no dia 28 de maio de 2009,e até o último dia 07 de outubro tinha 70 vídeos publicados no total, que juntos foram7 http://www.indigenasdigitais.org/8 http://www.youtube.com/indiosonline
  25. 25. 24visualizados 15.173 vezes. A página da Índios Online no Youtube possuía 1223acessos e 22 colaboradores, outros usuários do Youtube que podem se inscreverpara contribuir com o Canal na administração e em postagem de vídeos. Ao acessaro site é possível aos demais usuários postar comentários nos vídeos, fazeravaliações positivas ou negativas do conteúdo, pesquisar vídeos por ordem depostagem no site, número de visualizações ou pela ordem dos melhor avaliados pelopúblico. O usuário também pode recomendar e compartilhar os vídeos desejadosatravés de outras redes sociais, como Twitter, Orkut, blogs e mesmo por email. Figura 5 Página inicial do canal da Índios Online no portal Youtube (06 de outubro de 2010) É importante lembrar que, no caso da rede Youtube, a participação indígenanão se restringe apenas ao canal do portal Índios Online. Outros índios, a maiorialigados de alguma forma ao projeto Índios Online, mantém canais com vídeospróprios mostrando entrevistas com representantes indígenas, o cotidiano dasaldeias, eventos etc. É o caso de Graciela Guarani, de Dourados, Mato Grosso doSul (MS). A jovem, além de ser membro da equipe de gestão da Índios Online, fazparte do grupo de representação socio-cultural Ação de Jovens Indígenas (AJI) desua cidade. Em sua página no Youtube 9, Graciela, que mantém o perfil desde9 http://www.youtube.com/gracielaguarani
  26. 26. 25fevereiro de 2009, posta vídeos sobre manifestações e histórias que retratam ocotidiano de sua aldeia. O uso de aparelhos celulares para a produção de vídeos na rede ÍndiosOnline passou a ser facilitado a partir do estabelecimento do projeto CelularesIndígenas, em 2009. O programa, uma parceria com o programa Oi Futuro, ofereceuoficinas de etnojornalismo, publicação digital, fotografia e vídeo para seterepresentantes indígenas em janeiro do ano passado. A partir daí, esses agentespuderam reproduzir e integrar todos os conceitos aprendidos aos demais integrantesda rede. Foram distribuídos 60 aparelhos celulares para representantes indígenasde 24 nações diferentes. Vídeos de poucos minutos até pequenos documentários,como o filme Indígenas Digitais, que aprofundaremos adiante, foram produzidosbasicamente com o uso desses celulares. Entre 2006 e 2007, também em parceria com o programa Oi Futuro, aThydewá criou dentro da rede Índios Online a proposta da comunidade colaborativade aprendizagem Arco Digital. A ideia do Arco Digital foi fornecer a indígenas detodo o Brasil cursos de aprendizagem colaborativa através de um programa gratuito 10de educação digital à distância, o Moodle . A metáfora do arco digital é associadapelos próprios indígenas à figura do arco e flecha, ferramentas que simbolizam aomesmo tempo, caça (sustento) e arma (ataque e defesa). As novas tecnologiasrepresentariam os mesmos significados da caça e da guerra no contexto dasociedade informacional contemporânea. No projeto Arco Digital foram oferecidas oficinas realizadas por facilitadoresigualmente atuantes nas áreas de saúde indígena, jornalismo étnico, educação,cidadania e direitos, economia solidária e agrofloresta, voltadas para qualquerindígena, sem nenhum custo e dentro do princípio colaborativo. O objetivoimpulsionador do Arco Digital foi a troca de ideias e reflexão sobre desenvolvimento,cidadania, tecnologias de Informação e comunicação, bem como compartilharexperiências, práticas e saberes. A partir da realidade dos povos indígenas, tomou-se a iniciativa do diálogo (como forma de construção coletiva de conhecimento einteração para a transformação) no qual os próprios índios são protagonistasresponsáveis por decidir o caminho de suas comunidades, lutando e seguindo pormelhores condições de vida. O incentivo constante à autonomia entre os indígenas,rompendo os estereótipos em relação a esses povos enraizados dentro da1 0 http://www.moodle.org
  27. 27. 26sociedade urbana e apresentando a real identidade e capacidade de independênciadas comunidades e seus membros é um dos objetivos dessas iniciativasdesenvolvidas. Numa espécie de reflexão integrada em rede, esses povos passam a refletir,planejar, elaborar e executar suas próprias ações e projetos. No ano de 2008, com oapoio do MinC, a Thydewá lançou a publicação @rco Digital com 3000 exemplares,narrando as experiências dos integrantes da Índios Online dentro do Arco Digital. Olivro é descrito por seus organizadores como uma oportunidade de refletir sobre atecnologia, a realidade contemporânea dos povos indígenas e suas relações com asnovas tecnologias, rompendo possíveis preconceitos e ajudando a estender asiniciativas do Arco Digital. O “criador” do Arco Digital, Nhenety Kariri-Xocó, descrevedeste modo o início das atividades no programa e seus objetivos: Pela primeira vez, índios de comunidades distantes se encontravam num chat para dialogar sobre seus interesses... intercambiar ideias, experiências...se apoiar...pesquisam e projetam suas culturas publicando suas matérias no portal. Abrem espaços para divulgar suas visões com o objetivo de serem mais respeitados...dialogam com os internautas promovendo a paz... (NHENETY KARIRI-XOCÓ, 2007). Nhenety ainda realça a importância do computador como ferramenta útil aospovos indígenas: Nós índios já estamos usando o computador como ferramenta de buscar soluções. O computador nos serve para escrever projetos ou cartas, que nos auxiliam para buscar melhorias na saúde, educação, sustentabilidade e tudo que se refere a nossa sobrevivência e desenvolvimento, servindo como um Arco e Flecha. O arco e flecha é um instrumento de defesa, de caça… Hoje em dia, um computador com internet também pode ser utilizado pelos índios como um instrumento de defesa e caça [...] Hoje em dia, também nos reunimos em grupo e através do computador e a Internet nós estudamos todas as possibilidades: os órgãos do governo e seus editais e suas leis, as agências de cooperação, os financiadores, os programas, os patrocínios de empresas, o mundo das parcerias...Preparamos nossos projetos e saímos na busca de concretizar nossa caçada. (Idem, 2007). Para o índio online, ou “caçador eletrônico”, Nhenety recorda a necessidadeda prática no aprendizado do uso da informática. Com a Internet é possível descobrir
  28. 28. 27novas instituições, agências, empresas, como elas atuam... pesquisar na rede digitalpara saber como se comunicar adequadamente, como atrair o “público” que sequer. O fato do projeto Arco Digital não existir mais dentro da rede Índios Online nãosignifica que seus ideais, ações, práticas e projetos se perderam. As iniciativas epropostas de reflexão e discussão levantadas pelo projeto continuam se propagandopor todas as vias da rede Índios Online, a cada nova geração que ingressa noprojeto, na produção de vídeos, textos e nos debates e discussões levantadas.2.2 O que têm a dizer os Índios Online O conteúdo do portal Índios Online, totalmente produzido pelos própriosindígenas membros da rede, é marcado por um forte teor opinativo, muitas vezes emtom de denúncia, e não há uma preocupação rígida em relação à linguagem formal,organização da página, harmonia estrutural entre texto e fotos, quantidade decaracteres etc. É visível a liberdade que os autores dos artigos publicados no ÍndiosOnline têm não só na seleção e produção de todo o conteúdo publicado, mastambém para reproduzir sua opinião no texto, denunciar ou criticar o que julgarnecessário, e mesmo organizar o modo como será publicado no site (ordem dasimagens, fonte de texto) da maneira que considerar mais adequada e de fácil leiturapara o internauta. O teor do material produzido e abordado no portal Índios Online demonstrabem a força dessa proposta de reflexão, de autodescobrimento, a iniciativa queconduz ao fortalecimento da cidadania, da representação social e cultural dessesgrupos. Denúncias, artigos, opinião, material político, eventos, cotidiano das aldeiasindígenas: tudo isso atua em benefício da demarcação do espaço e inclusão dessesindígenas não só no campo geográfico, mas no ciberespaço, em todas as áreas dasociedade, de forma independente, livre e realmente atuante. O portal Índios Onlinepode ser visto como um canal sem restrições de comunicação dos indígenas dequalquer lugar do país com toda a população, uma oportunidade de livremanifestação de expressões. Questões sobre demarcação e posse de terras, resistência de gruposindígenas, preservação do meio ambiente, histórias de antepassados, novidades naárea de tecnologia e infra-estrutura para os índios, tudo isso ganha espaço para
  29. 29. 28abordagem no Índios Online. Tudo isso sempre com um tom crítico e de análise, quedireciona para a reflexão dos próprios leitores. Em relação ao assunto de posse deterras e resistência indígena, por exemplo, ou mesmo denúncia de atitudes violentascontra as comunidades indígenas, é possível notar que sempre se ressalta a posturapacífica entre os índios, cujo interesse maior é sempre a defesa dos próprios direitosda maneira mais justa e organizada possível. No artigo “Retomada Tupinambá – Nacomunidade Santana” (11 de outubro de 2010), assinado por Bruno Tupi, o rapazretrata a retomada dos indígenas Tupinambás daquela região a uma fazenda cujaterra lhes seria de direito. Segundo relato do próprio Bruno: Com o objetivo de reaver o que é nosso, e de maneira pacífica entramos na fazenda. Permanecemos ainda na fazenda, até o instante momento, e até agora graças ao nosso pai Tupã ainda não tivemos nenhum registro de conflito. Mas segundo o Administrador da FUNAI – Ilhéus – BA, a filha do Fazendeiro Juvenal que é o morador da fazenda retomada, foi informar a Polícia Federal, que nós estamos mantendo em cárcere privado, dois idosos hipertensos, mas isso não é um fato real, pois estamos abertos a diálogos pacíficos, pois não temos em mente maltratar ninguém, só apenas reaver o que é nosso e ampliar até porque essa fazenda se encontra dentro de nossa demarcação. Sendo assim reafirmamos mais uma vez, que essa retomada é pacífica, não queremos conflitos, só queremos o que é nosso de fato e se tem esses idosos com a gente é porque eles não tiveram tempo de se locomover ainda, e porque também não vamos colocar eles na rua de uma hora pra outra. Nesse instante estamos dentro da fazenda e se nosso pai Tupã permitir, nosso povo não sairá mais. Pois lá pertenceram os nossos ancestrais e agora pertenceram aos nossos herdeiros. (BRUNO TUPI, 2010). A causa da retomada de terras pelos Tupinambás também é um bomexemplo da utilização da Internet, da rede digital para divulgação de algum tipo demobilização popular. Neste caso, ela não se limita apenas ao que é publicado na 11rede Índios Online. No blog Retomada Tupinambá (figura 6) é possível fazer todoum acompanhamento das atividades dos Tupinambás pela retomada de suas terras.Textos, vídeos e fotos (a maior parte deles compartilhados com o portal ÍndiosOnline) expõem depoimentos do cotidiano desses indígenas. Segundo o RetomadaTupinambá, atualmente há cerca de 7000 Tupinambás no Brasil em um território1 1 http://www.retomadatupinamba.blogspot.com/
  30. 30. 29reconhecido pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) de 47300 hectares, ao sul daBahia. No entanto nem todas essas áreas ainda foram demarcadas, e esta é aprincipal luta atual dos indígenas. Figura 6 Página inicial do blog Retomada Tupinambá (13 de outubro de 2010) Além da Índios Online, o Retomada Tupinambá ainda conta com setecolaboradores oficiais e o apoio do projeto Fotografia Tupinambá. O programa nadamais é do que oficinas de fotografia oferecidas aos indígenas Tupinambás da Bahia. 12No site do Fotografia Tupinambá , é possível se informar sobre as oficinas járealizadas, ver fotografias tiradas durante os eventos (com direito a galerias de fotostiradas pelos participantes) (figura 7) e também um vídeo, realizado pela equipe darede Índios Online em parceria com a produtora Petei Xe Rajy, sobre a pintura e oartesanato praticado pelos Tupinambás. As fotos exibidas nas galerias sãohospedadas e visualizadas através de programas de distribuição e 13compartilhamento gratuito de imagens, como o PicLens e o Flickr , de 2004. Parautilizar o PicLens é necessário instalar uma das versões do programa em seucomputador, através de portais especializados em informática que oferecem esse1 2 http://fotografiatupinamba.com/novo/1 3 http://www.flickr.com
  31. 31. 30tipo de serviço. Já no Flickr basta fazer um cadastro no site indicado. O projetoFotografia Tupinambá ainda conta com a colaboração da Fundação Nacional deArtes (Funarte), do MinC e da Petrobrás. Figura 7 Fotografia tirada durante oficina realizada pelo projeto Fotografia Tupinambá. Autor: Alessandro Tupinambá (13 de outubro de 2010) Em alguns casos, o apelo mais explícito à comunidade não indígena a favordas causas desses grupos também se mostra presente. No texto intitulado “Árearetomada sofre ataque de pistoleiros na tarde de ontem” (08 de outubro de 2010),assinado por Fábio Titiá em nome da comunidade Pataxó Hãhãhãe, é relatado umataque violento a indígenas ocupantes de uma fazenda em terras que seriam de suapropriedade. Os Pataxó Hãhãhãe estão determinados a permanecer na áreas, e pede a justiça possa agora fazer o seu papel, devolvendo as nossas terras. As fazendas que antes servia para criatório de gado, de hoje em diante acreditamos que ela possa servir para buscar a sustentabilidade de várias familias indígenas que vivem a margem da linha da pobreza. e assim evitaríamos que mais de nossa terra fosse destruída, já que foi comprovado desmatamento por parte dos fazendeiros. Os índios Pataxó Hãhãhãe, está cansado de esperá pela a justiça, que anda lenta como uma tartaruga. Enquanto as “autoridade retarda o julgamento de nossas terras” tem índios
  32. 32. 31 morrendo assassinados. por falta de condições melhores para poder cuidar da saúde, de uma educação e alimentação de qualidade. Sendo que essas terras nos pertence temos prova, e a STF, continuam deixando o povo indígenas amingua. Através da rede indios online, levamos para a sociedade que nos ajude, a cobrar das autoridades desse país , que assuma a nossa causa com carinho e não permita mais que um pai de familias perca a sua vida nessa luta árdua e necessária. (FÁBIO TITIÁ, 2010). O texto é um exemplo claro de como a rede Índios Online é vista e utilizadacomo uma ponte de manifestação e contato entre os povos indígenas e acomunidade em geral. E é uma estrada de duas vias, considerando que o internauta,o público, também pode se comunicar de formas diversas com os autores do portal,expressar sua opinião e suas ideias. A participação de indígenas e não-indígenasnos comentários dos textos postados no site é constante, o que sinaliza um grandecomprometimento e interesse não só entre aqueles que já estão ingressos na redeÍndios Online, mas também da parte do público em geral. No artigo de Fábio Titiá,por exemplo, são vistos os seguintes comentários: Mauro Alessandro Zalcbergas – Salvador – BA - Estudante de Direito disse: sexta-feira, 08 de outubro de 2010 as 8:55 Diante de tal violência, procurem coletar o máximo de provas possíveis,como fotos dos carros, pistoleiros, placa dos carros, videos e testemunhas. Com todas essas provas em mãos, divulguem em todos os meios de comunicação, vamos fazer todo o Brasil saber quem são essas pessoas, mas somente com relatos não é suficientes, boas imagens são bem fortes e ajudam até nas decisões da justiça. Conseguindo boas imagens e fotos, vamos divulgar na internet e youtube, tenho certeza que a mobilização terá muita repercursão. ARATIMBÓ disse: sexta-feira, 08 de outubro de 2010 as 18:30 É UMA VERGONHA PARA AS AUTORIDADES O QUE ESTÁ ACONTECENDO, ELES FAZEM VISTA GROSSA QUE Ñ VER OS PISTOLEIROS É UMA TERRA SEM LEI. [...] SÓ PARA LEMBRAR A SOCIEDADE, QUE NA HISTORIA DE LUTA DO POVO PATAXÓ HÃ-HÃ-HÃE, NO DECORRER DO TEMPO ONDE FORAM MORTOS VÁRIAS LIDERANÇAS, ATÉ QUEM FIM ONTEM FOI UM BANDIDO PRA CADEIA O FAMOSO ”GILBERTO ALVES DE BRITO” ISSO DEPOIS DE MUITAS QUEIXAS NO MINISTÉRIO PUBLICO E NA POLICIA FEDERAL, DE ILHÉUS. [...] ESPERO QUE AS AUTORIDADES FAZ O SEU PAPEL QUE SEJAM
  33. 33. 32 PROFICIONAIS, CHEGA DE IMPUNIDADE, VAMOS FAZER JUSTIÇA, VAMOS COLOCAR OS CULPADOS NA CADEIA. sebas disse: domingo, 10 de outubro de 2010 as 6:07 Hoje de manha recebei varios recados no meu celular… [...] o recado era: “A retomada foi invadida pelos pistoleros hoje pela manha, só quem esta na área são os homens, as mulheres foram obrigadas a sai. ESTA VENDO UMA GUERRA HORRIVEL, por favor entre em contato com a funai para ajudar no reforço, Yonana diretamente da retomada” Existe uma corrente para divulgar os acontecimentos diretamente da retomada… (ÍNDIOS ONLINE, 2010). A presença constante dos comentários serve não apenas como uma forma deintervenção dos leitores, dos outros integrantes no conteúdo abordado, mas tambémcomo um meio de estímulo ao trabalho dos Índios Online. Ao final de cada texto,junto com o nome e uma breve descrição do usuário, é exibido o número de artigosjá postados por ele (com um link que leva para uma listagem desses textos). Nocaso de Juayran, por exemplo, que no dia 05 de outubro de 2010 apresentou o texto“A beleza do Rio São Francisco” (figura 8), descrevendo o rio São Francisco edestacando a necessidade de sua preservação, podem ser vistos os seguintescomentários sobre a matéria: seredser disse: quarta-feira, 06 de outubro de 2010 as 7:13 juayran sua materia é muito boa, nós temos o dever de presevar o nosso querido velho chico, por que como vc falou uma belesa como essa não passa despecebido por que o nosso rio é lindo demais. Josemar pires disse: quarta-feira, 06 de outubro de 2010 as 9:52 ola juayran , o são francisco apesar de tanta poluição ainda guarda suas belezas. (ÍNDIOS ONLINE, 2010).
  34. 34. 33 Figura 8 Página do artigo "A beleza do Rio São Francisco", publicado por Juayran (11 de outubro de 2010) Para Juayran, que até o momento registrava oito artigos publicados na redeÍndios Online, os comentários sobre seu trabalho podem manifestar não apenas ointeresse pelo assunto abordado, mas o incentivo para prosseguir suas experiênciase seguir cada vez mais atuante na rede Índios Online, além de estender sua voz,sua atividade para outras redes digitais de raiz indígena e não-indígena. Enfim,buscar oportunidades de atuação e representação na Internet, na sociedade digital,através da comunicação. Ainda em relação aos conteúdos observados nas matérias do Índios Online,percebe-se de que modo práticas culturais, religiosas, tendências e mesmo víciosantes considerados “não-indígenas” hoje se encontram inseridos, de alguma forma,no cotidiano desses grupos de forma bastante natural. Não estamos nos referindoapenas ao uso da Internet e da inclusão digital nessas tribos, mas de influênciasrelativas ao consumo em geral e mesmo à religião. Um exemplo interessante é otexto publicado por Hemerson Pataxó no dia 27 de setembro de 2010, “Um dia semdrogas”. Na matéria Hemerson destaca um seminário, organizado pelas própriasinstituições indígenas na cidade de Pau Brasil (BA), abordando os malefícios doconsumo de drogas em geral.
  35. 35. 34 O encontro contou com a presença de representantes indígenas da FUNASAe psicólogos, além de depoimentos de índios ex-usuários de drogas. A matéria deHemerson Pataxó é só um exemplo de como as influências nascentes no centro dassociedades urbanas tem afetado essas comunidades, tanto para o bem quanto parao mal. Essa tendência é natural e praticamente inevitável, com a expansão daglobalização e a introdução cada vez mais profunda dos povos indígenas nasociedade e no ciberespaço. A preocupação, no entanto, é de se saber selecionarquais influências podem ser negativas ou positivas, usá-las com moderaçãoestabelecendo cada um seus devidos limites, e tomando iniciativas para repeliraquilo de negativo que possa se aproximar. Trata-se de uma questão deconscientização e bom senso que deveria estar presente e ser estimulada não sóentre os povos indígenas, mas em toda a sociedade. Outro ponto de miscigenação visível dentro da cultura indígena, e cujo teorfica claro no contexto das matérias publicadas no Índios Online diz respeito àreligião. A inserção dos costumes das igrejas cristãs na cultura indígena é assuntode bastante relevância e conflito para esses povos. Apesar da diversidade religiosapresente entre as comunidades indígenas atuais, existe um grande esforço para quesejam preservadas e respeitadas as tradições de culto de seus antepassados.Embora exista espaço para manifestações de fé católica e evangélica dentro dasaldeias, para muitos índios algumas dessas igrejas ameaçam as tradições,estruturas e direitos naturais dos povos indígenas. O desejo de preservação do patrimônio natural e passado histórico sãomarcantes na discussão da cultura religiosa indígena. O ponto de equilíbrio seriaconciliar a liberdade de culto cristão (daqueles que realmente desejarem seguir estecaminho) sem desvalorizar os valores, cultos e tradições históricas indígenas. Aconsciência crítica contra a simples imposição de tradições religiosas, sociais eculturais, a liberdade de culto sem ameaças nem preconceitos: este é o padrãobuscado pela maioria dos representantes indígenas. As igrejas católica e evangélicanormalmente são criticadas por tentarem afastar os povos das aldeias de suascrenças, valores e ideais tradicionais, o que é visto como abuso pelos indígenas.Portanto, além do respeito e tolerância por parte das instituições religiosas, énecessário estimular nos índios essa reflexão e visão crítica sobre os valores,ideologias e crenças que lhes são apresentados.
  36. 36. 35 A preservação dos hábitos e tradições indígenas é tema de muitos artigos,além de depoimentos e opiniões de vida dos próprios índios. No caso do texto de FaTupinambá, autora de “Pintura Tupinambá” (22 de setembro de 2010), a arte dapintura corporal indígena é mostrada como uma prova de resistência erepresentação deste povo que se mantém viva através dos tempos: Para nós Tupinambá a pintura é de muita importância, pois é uma forma de nos afirmamos como uma comunidade indígena, por conta que é uma pintura unica de nosso povo, fortalecendo assim nossa identidade étnica. Nossa pintura tanto a corporal como as diversas outras pinturas, que pertence ao nosso povo é repassada de pai para filho, e tem diversos significados que vai desde a pintura para guerrear até a pintura de festa. As tintas para pintura corporal é feita de jenipapo ainda verde, onde ralamos e esprememos para extrair o caldo do fruto, desse caldo misturamos com carvão para que ele fique mais escuro. A tinta do jenipapo demora em media 15 dias para sair do corpo, mesmo agente lavando e escovando bem a pele, a permanecia da tinta em nossa pele é a mesma. [...] é de costume da maioria dos índios se pintarem, assim quando estivermos na caminhada nos mostramos com uma cultura forte e resistente. Que mesmo depois de varias repressões, massacres e discriminações, o nosso povo se fortalece cada vez mais e mais, e a quem dizia que o povo Tupinambá era um povo extinto, estamos aqui para mostrar que não, e que somos um povo forte e resistente, com uma cultura forte e com pinturas lindas e expressivas. (FÁ TUPINAMBÁ, 2010). Além da arte e da cultura, manifestos, depoimentos e relatos de experiênciasde vida também compõem o material da rede Índios Online. Texto publicado emnome de Seu Gino, em julho de 2005, é um bom exemplo do registro histórico dasmemórias das tribos indígenas; intitulado “Nossos avós levantavam cedo”, o artigotraz uma visão crítica e pessoal da história da colonização e da atual situaçãoindígena. A tristeza pela exploração do passado e o desejo de um futuro melhor sãoas marcas do pensamento expresso por Seu Gino: Nossos avós levantavam cedo, pegavam seus arquinhos e iam para o mato. Matavam um nambu, um preá, um tatu, viviam comendo batatas do mato, tipã, gravitaia, agisaia, salbu (fruta selvagem), mandaunhão, não trabalhavam que nem hoje. Ele vivia do mato, caçando seus inhames. Depois o branco tomou conta, desmatou a floresta, aí o índio não teve como viver mais. Eles foram tomando as terras do índio, dizendo assim: “Índio vamos trocar essa terra por uma cabeça de animal!”.
  37. 37. 36 Depois o branco pegava a terra e dava só a cabeça do animal, não era um animal inteiro, se aproveitava da fome para enganar e pouco a pouco ia tirando nossas terras. [...] Os costume da gente é a parte da Natureza que Deus deixou aqui na terra e nós não podemos trocar essa sabedoria pela sabedoria do branco. Não podemos só estudar e esquecer nossos costumes. O branco quer que a gente esqueça até o nome de Deus, porque nosso direito é levantar e dar benção ao pai e a mãe, isso para o pai lembrar o nome de Deus todo dia. O estudo trás bom dia pai, bom dia mãe e faz esquecer o nome de Deus. Aqui na terra estamos todos juntos, com um Deus só. Nós temos que ser todos por um e um por todos. Nós temos que seguir um caminho. Estamos na beira do abismo, sem promessas para o futuro, muitas pessoas fazendo as coisas erradas, saindo do caminho. Nós temos que conversar, sentar juntos e combinar as coisas. (SEU GINO, 2005). Manifestos de necessidade de luta, mobilização e atuação indígena, como oartigo “Vida de Guerreiro”, assinado por Seredser em 07 de outubro de 2010,também representam o apelo dos indígenas na necessidade de manter suasculturas, raízes e objetivos, sem se deixar corromper por outros valores ouideologias que não sejam positivas. Desde que o Brasil foi descoberto que nós índios viemos lutando, lutando contra a escravidão, lutando pela democracia, lutando por uma vida melhor. Hoje que estamos totalmente civilizados, temos lutado pelos o que tiraram da nós,o que é nosso por direito, que é a nossa língua e o que é mais importante as nossas terras, quem é que não quer ter o seu pedaço de terra para criar o seu gado, para plantar legumes, fazer sua casinha e morar com sua família, fazer uma roda de toré todas as noite e repassar sua cultura. Guerreiro que é guerreiro luta pelos seus objetivos, luta para que eles nunca venham desaparecer, cultiva os seus costume, acredita que um dia vai vencer, nós podemos perde a batalha mais a guerra nós nunca perdemos, por que quem acredita em Deus enfrenta vários obstáculos mais no final sempre vence. (SEREDSER, 2010). Além de depoimentos, denúncias e cenas do cotidiano das aldeias indígenas,o Índios Online também procura dar destaque a todo assunto relativo à inclusão einvestimento digital entre os indígenas. Esse tipo de iniciativa também é ressaltada,justamente para estimular e mostrar que é possível a realização desse tipo deprojeto. Vale lembrar que, estruturalmente, parte da estratégia de divulgação e
  38. 38. 37multiplicação do material publicado no portal Índios Online inclui as funções deimpressão e divulgação por email das matérias publicadas, representadas porícones dentro da própria página de texto, contribuindo assim para a expansão edivulgação desses conteúdos para públicos mais amplos. Para facilitar a navegaçãodo internauta, cada página de texto também inclui links diretos para o último artigopublicado anteriormente e o que tenha sido publicado depois. Um marco importante para o trabalho dos integrantes da rede Índios Onlinefoi a representação nos anos de 2009 e 2010 no Campus Party Brasil, eventorealizado anualmente em São Paulo desde 2008. A exposição, realizada no mês dejaneiro, reúne novidades, grupos, palestras, debates, oficinas, tudo relacionado àInternet ou às novas tecnologias. Nas duas edições em que participou do evento, oÍndios Online manteve um estande próprio com exibição de vídeos, materiais econteúdo sobre o projeto. Durante os dias do evento, é feita uma cobertura diária,pelos próprios indígenas, de tudo o que acontece por ali, além de suas impressõesparticulares de tudo o que foi apresentado. No ano de 2009, por exemplo, quando oCampus Party deu destaque especial às mídias digitais móveis, o Índios Onlineaproveitou para promover a iniciativa Celulares Indígenas, além de apresentarpalestras e entrevistas sobre o tema. Naquele ano foram ao Campus Party seteintegrantes da Índios Online, seis da Bahia e um da Paraíba. A viagem e a estadiaem São Paulo, no período do evento, foi concedida pela própria organização doCampus Party e pelo MinC.2.3 A presença indígena na Internet O portal Índios Online, que de abril de 2004 até o dia 11 de outubro de 2010registrara 1.866.860 acessos, é considerado uma inovação entre os meios decomunicação digital feitos por e para os povos indígenas, pois ao contrário de outrastentativas postas em prática anteriormente, o site permite o uso e associação deferramentas colaborativas, onde qualquer usuário de postar, enviar informações oucolaborar, numa integração até então não experimentada na comunicação entreindígenas (PEREIRA, 2008). A presença indígena na Internet, embora relativamentepouco expressiva, tem se mostrado cada vez mais crescente, especialmente noBrasil. Em levantamento realizado no mês de setembro de 2008 por Eliete da Silva
  39. 39. 38Pereira foi calculado um total de 39 sites brasileiros voltados para o públicoindígena, alguns infelizmente até já desativados. No Brasil, os primeiros registros de participação indígena na Internet datamde 2001, e de lá para cá essas manifestações se multiplicaram em sites, blogs,comunidades virtuais e portais. O portal, como é o caso da rede Índios Online, sedifere dos sites comuns exatamente pelas múltiplas funções e possibilidades deinteratividade e comunicação entre usuário e produtor de informação que oferece.Os participantes da rede podem se comunicar de qualquer distância em tempo real(via chat, por exemplo) e pela troca de mensagens e comentários simples. Segundoos dados da pesquisa de Pereira a presença indígena na Internet pode ser escaladado seguinte modo: 70,27% de sites; 27,02% de blogs e 2,70% de portais,equivalente à rede Índios Online. Desses, 56,7% utilizavam serviços de hospedagemde sites gratuitos e 43,25% domínios de sites pagos. No total são 48,64% dos sites em plena atividade e atualização, embora estaseja uma tendência crescente. Em 2008, 70,27% dos sites exploravam recursos deinteratividade. A Internet se tornou um importante ambiente interétnico e de(re)formulação étnica não só para os indígenas, mas para todos os povos muitasvezes considerados “excluídos”, à margem do contexto social. 62,71% dos sites eportais de atuação indígena no Brasil são gerenciados por organizações derivadasdas próprias aldeias, de abrangência nacional, regional ou local. Isso demonstra oquanto o ambiente digital tem sido visto e desenvolvido como meio propício à lutapor direitos, instrumento de reivindicações políticas e visibilidade étnica perante asociedade global. Aos poucos, essas organizações se aperfeiçoam no serviço de gestão deinformação e boa utilização dos recursos disponibilizados, criando mais experiênciae tomando consciência de como a comunicação pode servir positivamente aosmovimentos sociais. A atuação indígena na Internet, como vimos no exemplo doprojeto Arco Digital, vem associada a outras iniciativas de políticas públicas emáreas como a saúde, educação, conscientização ambiental e uso de informática.Portanto, é válido dizer que a inclusão digital nas aldeias reflete em benefícios edesenvolvimento para toda a comunidade, que consequentemente propiciam oincremento da experiência indígena na Internet. O protagonismo indígenaidentificável nos sites, portais e mesmo em redes sociais de relacionamentos (comoo Twitter e em comunidades virtuais do Orkut) permite que esses indivíduos
  40. 40. 39exerçam sua cidadania de forma mais atuante, ativa e consciente: fiscalização dagestão pública de recursos destinados às populações indígenas, denúncias contraviolação de direitos indígenas, articulações de apoio entre povos indígenas e nãoindígenas para ações específicas em rede, direito à voz e acesso ao conhecimento. Observa-se um amadurecimento constante do movimento indígena ecrescimento no número e na diversidade de organizações nativas, dirigidas pelospróprios índios, que buscam cada vez mais participar na formulação e execução daspolíticas para os povos indígenas. Além disso, organizações não-governamentais(ONGs) têm aumentado sua participação na formulação e execução de políticasindigenistas, função antes atribuída exclusivamente ao Estado brasileiro. A rededigital é importante também como instrumento político para as tribos indígenas, poisé um bom instrumento de reforço e difusão de ideias de identidade, o que aumenta aresponsabilidade das organizações indígenas em difundir ideias para a obtenção deações e conquistas políticas justas. Enfim, a rede digital abriu, como define YakuyTupinambá, do Índios Online, novas possibilidades para a comunidade indígena emtodas as áreas: A internet promoveu a abertura de horizontes – contrariando o pensamento de uma grande maioria interessada em nos manter amordaçados – trouxe-nos novos significados, sem que isso implique no abandono das nossas tradições. Devolvendo nossas vozes, que foram caladas por muito tempo, coberta pelas vozes dos que julgam especialistas. Conectar-se ao mundo através da internet é ter direito a ter um rosto, e fazer ouvir nossa voz é saber dos acontecimentos e interesses que envolvem toda a humanidade. Através desse mecanismo tecnológico conseguimos perceber uma janela para o mundo, a tão sonhada inclusão dos Povos Indígenas, como sociedade fundamentada, negada há décadas e décadas. (YAKUY TUPINAMBÁ, 2008).14 A presença indígena na Internet é importante não só para apresentar ocotidiano dessas tribos a um público mais extenso, mas também para que ascomunidades possam redefinir e atualizar a imagem que tem deles mesmo, e a quequerem passar a outros usuários indígenas e não indígenas. Esse processo de auto- O depoimento de Yakuy Tupinambá foi extraído do artigo Ciborgues Indígen@s.br: entre a atuação nativa no1 4ciberespaço e as (re)elaborações étnicas indígenas digitais, de Eliete da Silva Pereira, publicado no ano de 2008.
  41. 41. 40representação resulta num processo de fortalecimento cultural, elevando a autoconfiança desses povos muitas vezes tão sufocados por estigmas e preconceitos. Ofortalecimento cultural é justamente o conjunto da prática representativa, da atuaçãodos grupos indígenas na rede. A presença dos índios no ambiente de comunicaçãodigital mostra formas de compartilhamento de significados que rompem, pelo menosem parte, a dependência desses indivíduos em relação a instituiçõesgovernamentais incumbidas de representá-los, oferecendo uma visão particular elivre desses grupos. A ação comunicativa na rede digital tem resultados no modo em que essesgrupos são vistos pela sociedade não indígena e no modo como eles mesmos seveem e se definem em rede. Um dos resultados dessa expansão da participação erepresentação indígena na rede digital é demonstrado ativamente através da redeGrumin, de representação de mulheres indígenas. A rede Grumin surgiu oficialmenteno ano de 1987, e foi fundada por Eliane Potiguara em cima da experiência de vidade sua avó, Maria de Lourdes de Souza, índia nascida na Paraíba cuja história émarcada pela sobrevivência física, moral e étnica. Eliane ainda é conselheira doInstituto Indígena de Propriedade Intelectual (Inbrapi) – órgão promotor da defesa debens e direitos relativos ao meio ambiente e ao patrimônio intelectual dos povosindígenas - e coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet. A Grumin atua basicamente na defesa dos direitos dos povos indígenas,oferece projetos de capacitação e formação para mulheres em diversas áreas, atuaem parceria com diversas entidades de defesa do meio ambiente e movimentossociais, além de difundir informação sobre as ações do órgão através do portalGrumin Online15 (figura 9). O Grumin dá prioridade e assistência a mulheresindígenas ou afrodescendentes, de alguma forma excluídas socialmente. O site doprojeto Grumin, além de explicar as ações, objetivos, parceiros e iniciativas dogrupo, publica notícias referentes ao universo e às conquistas sociais, políticas eculturais dos negros e indígenas, especialmente as mulheres, com espaço abertoinclusive para comentários dos internautas. Além dessas iniciativas, o Instituto Socioambiental (ISA), ONG criada em1994 que incorpora o patrimônio do Programa Povos Indígenas no Brasil do CentroEcumênico de Documentação e Informação (PIB/Cedi), e o Núcleo de DireitosIndígenas (NDI), do Ministério da Justiça, em Brasília, também têm desenvolvido1 5 http://www.grumin.org.br/
  42. 42. 41trabalhos importantes na divulgação e preservação da cultura indígena. Todos essesprojetos estimulam e convergem para uma maior inserção e associação de todos osgrupos sociais considerados marginalizados ou não. Figura 9 Página inicial do portal da rede Grumin (16 de outubro de 2010) Cada um deles, a sua maneira, com os recursos e apoio disponíveis, sãoexemplos de como a rede digital, a Internet, pode ser campo fértil na prática dacomunicação popular. Com estrutura material disponível e gerenciamento adequado,é possível administrar e expandir um projeto de comunicação de qualidade voltadoàs comunidades, sem dependências governamentais e empresariais que aprisioneme restrinjam a prática comunicacional. E esse trabalho bem sucedido reflete emconquistas para toda a comunidade, não só em relação à comunicação, mas emvários âmbitos. Na interação com as modalidades de comunicação digital, oprotagonismo indígena assume formas criativas em que o diálogo intercultural não émediado por instituições indigenistas que antes eram as únicas mediadoras. Emmuitos momentos essa independência dessas instituições possibilita que os própriosindígenas exponham suas críticas em relação às entidades governamentais que osrepresentam. Para os próprios indígenas, no exemplo da rede Índios Online, acriação e desenvolvimento do projeto beneficia principalmente pelo intercâmbio
  43. 43. 42cultural, a troca de experiências entre os integrantes da rede. O que antes só podiaser discutido, debatido e compartilhado através de encontros pessoais, de formamuito limitada, a Internet ajudou a transformar para melhor. A Internet propicia um trabalho autônomo de comunicação e a não-interferência de instituições e órgãos majoritários, que poderiam acabar “desviando”o foco das necessidades e anseios dos povos indígenas também é vista como umponto positivo oferecido pelo ambiente da rede digital. Pela conexão e interação viaInternet os povos indígenas divulgam seus valores e pontos de vista para o mundoformando redes de apoio, conhecendo pessoas, construindo relacionamentos e sefazendo presentes além das aldeias e espaços territoriais demarcados. Comoexplica Yakuy Tupinambá: Novas realidades são construídas, sem que isso implique abandono de nossas tradições. Toda a sociedade se move, se expande, enquanto a nossa tem que permanecer fixa, imutável, para atender à necessidade de uma saudade da tradição? Tradições são sistemas intelectuais dinâmicos capazes de mudar... conectar-se ao mundo através da Internet é ter direito a ter um rosto e mostrar nossa voz. É saber dos acontecimentos e interesses que envolvem toda a humanidade. Fazemos parte desse contexto. (Idem, 2008). Em artigo publicado por Rodrigo Diego dos Santos (Rodrigo Makuxi) no dia 29de setembro de 2010, integrantes da rede expõem suas opiniões em relação aotrabalho do Índios Online como um movimento social indígena e as parcerias futuras(ou já realizadas) com organizações de iniciativas semelhantes dispostas a ajudarde alguma forma (principalmente na questão estrutural) no desenvolvimento da rede: RODRIGO MAKUXI - Quanto mais parcerias tivermos dos nossos parentes será muito melhor, pois é nelas que estão e saem as demandas do que realmente acontecem em nossas aldeias e comunidades indigenas. E nisso também ajudara a ficarmos muito mais autonomos contando com o apoio de cada uma delas. E rede ajudara a circula as necessidades e outros parentes puderam dar ideias. E sobre a reflexão acho que não diretamente mas a Rede Indios Online é sim movimento que esta se repercutindo no brasil. ALEX MAKUXI - Somos sim um movimento social indígenas. E isso está nas petições on line que fazemos. No apoio, quando fazemos matérias sobre o que acontece nas aldeias e nos estados. Mais de certa forma também estamos distantes. E acredito que com essa parceria podemos sim estar cada dia mais presentes nos movimentos sociais indígenas, e da

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