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Capitulo 1

E

sta é a pior ideia que já escutei — eu disse ao Eric, tomando
mais um gole de cerveja. — Vamos!
— Meg — Tif...
excitávamos. Estávamos quase transando em uma ponte de ferrovia. Pena que
não gostávamos muito um do outro.
Olhei para o f...
Por meio de minhas meias de algodão, aos poucos comecei a sentir as
traves frias e duras. O ar parecia mais frio à medida ...
agarravam às laterais do desfiladeiro; suas pequenas folhas primaveris
cintilavam brancas com a luz da lua. As pessoas diz...
— Já falei — disse Eric — essa história não pode ser verdadeira. — Que
idiota se deixaria ser atropelado por um trem por c...
ruído. — Vocês estão escutando?
— Não — disse Brian.
Meu coração batia aceleradamente em meu peito. Eu odiava ser a pessoa...
Capitulo 2

-S

aiam da ponte e venham em direção à minha voz — escutamos o
comando metálico por meio de um megafone.
Sent...
definitivamente não ficaria do lado dela. Ele já estava seguindo a ordem do
policial, pisando de trave em trave da ferrovi...
de motorista — eu disse.
— O que importa? Ele vai contar para meus pais!
Quase fazia sentido, se não fosse pelo fato de qu...
escutar o que estava dizendo, mas podia ouvir Eric mentindo.
— Não estou chapado. Você acha que alguma pessoa nesta cidade...
ordens — Eric disse ao policial. — Já tentei isso também.
— Parece um bom motivo para não beber, sendo menor de idade, e n...
metálico.
— Vejam! — gritei, quando mais luzes azuis surgiram de entre as
árvores. Uma segunda viatura chegou à clareira. ...
não ter serviço. — Lá está McPherson — Quincy, o paramédico que por acaso
eu conhecia. — Eu sabia, mesmo quando você só ti...
monitoramento. Já tive bastante do tratamento Big Brother com meus pais em
casa. E minha prisão não ajudaria essa situação...
contestou. — Deixe-o algemar você à ponte.
Tentei abrir a maçaneta uma vez mais, brincando. — Portas fechadas —
mas comece...
— Por que você está tão nervoso? — perguntei ao policial. — É verdade
que dois adolescentes foram mortos aqui há muito tem...
de inglês estava ameaçado, poderia derreter em uma poça de lágrimas e cerveja
bem aqui no banco de couro sintético rasgado...
direção a ele no assento e ele se ajoelhou para abrir as algemas.
— Aqueles meninos só querem levar vocês para a cama — el...
um choramingo e esfregou os pulsos. Ele bateu a porta, deu uma volta por
detrás do carro e abriu minha porta.
— Saia.
Salt...
Graças a Deus ele acreditou em mim. Talvez eu tenha conseguido livrar
Tiffany.
— E você?
— Eu? — ri — Sou culpada.
Ele ind...
— Nem tanto. O que acontece é que Eric é como eu.
— Eric é... — ele se interrompeu com uma careta. Depois tentou de
novo. ...
Mas eu o conhecia bem o suficiente para saber qual seria a sua reação.
Se eu o entregasse e ele ficasse encrencado, me cha...
divertido. Invasão de propriedade. Posse de maconha. Menor de idade
comprando álcool. O que mais? Intoxicação pública, vag...
Tiffany. E talvez sinta muito por ter prendido Brian. Eu estava com raiva do
Brian por ter abandonado Tiffany, mas ele me ...
Capitulo 3

O

policial acalmou-se no caminho até a delegacia de polícia. Ou talvez

fosse apenas o rádio na viatura que t...
você sabe o que nós somos?
— Criminosas? — arrisquei.
— Sim, mas o que mais?
— Bandidas?
— Somos malvadas!
Através do espe...
— Senhor policial, fui à Inglaterra com minha avó no verão passado e tomei
uma lata de shandy, que é cerveja misturada com...
de formatura. Ele provavelmente se recusaria a ir comigo.
Tiffany coçou a testa. — Convide-o. Vamos todos juntos. Você
con...
eles como um pequinês apavorado que foi separado de seus donos em um
tornado. Eu já tinha me perguntado por que Tiffany nã...
precisava de um shandy. O pai do Eric o levou para casa.
Depois o policial ficou um bom tempo ao telefone em um escritório...
mesa da escrivã.
— Não perca seu tempo. Esta foi a última gota — repeti o que meu pai
me disse ao telefone. — Eles já desi...
ela estava falando com o policial, pois after quer dizer depois em inglês. Sim, eu
gostaria de fazer esse passeio pela pri...
meu corpo par ficar de frente para ele e com uma mão alcancei seu ombro. Eu
não sabia o que estava fazendo. Só estava dese...
intermitentes.
— Meg.
Estranho, este policial. — Como você sabe o meu nome?
— Estou familiarizado com sua carteira de moto...
Repassei o que podia ter acontecido. Desmaiei no chão da cela da
prisão. Eca. E o policial me levantou com seus grandes e ...
cela.
— Você não vai colocá-la de novo naquele lugar — Lois disse, incrédula.
— Lois, eu não a trouxe aqui por atravessar ...
Ela murmurou no fone de ouvido Depois perguntou:
— Miami? Para quê? Férias de primavera?
— Sim — eu disse, sonhadora.
— Co...
— Odeio planos.
— Um de vocês passará uma semana com os bombeiros, outro com a
ambulância e um com a patrulha policial. To...
Levou um segundo para cair a ficha. Depois gritei: — O quê? Aquele
policial é o demônio!
— Não, ele simplesmente entende c...
tribunal. Provavelmente eu não seria presa, mas havia uma possibilidade
remota. Tremi e coloquei minha jaqueta em volta do...
Capitulo 4

L

ois saiu do trabalho às 6 horas da manhã e me ofereceu uma carona
para casa. Disse que eu deveria ter ficad...
Ele abaixou o vidro da janela e olhou para Lois com cara feia, obrigandoa a abaixar o vidro também. Opa! Ele a repreenderi...
Ela parou no estacionamento do restaurante. O cascalho saltou sob os
pneus. Limpando as mãos em um pano, meu pai me olhou ...
uma camiseta decotada que parecia inapropriada para trabalhar, mas 50%
menos provocante do que minha camiseta "pressão soc...
apuros com os chefões, quando meu pai resmungou na chapa: — É muita cara
de pau sua voltar aqui.
Sua barba escondia o quei...
estridente, igual ao da porta da cela da prisão se fechando. O sangue sumiu do
meu rosto e se concentrou nos pés. Meu cora...
indefeso. Agora que eu sabia sobre minha punição, estava gostando da ideia de
provocá-lo com minha sensualidade se por aca...
apesar do frio.
— Parte da minha tarefa é ir com você a todos os lugares e descobrir
como realmente é seu trabalho. Não po...
me prendeu sobre como ele queria que eu visse alguma coisa, isso é o que eu
tinha visto: um policial retirar as vacas dos ...
pedido, da mesma forma que fez comigo. O estranho é que isso acontecia em
meu quintal e eu nem sabia, porque normalmente s...
passear pela cidade com um policial a noite toda? Ele não precisava me deixar
entediada também.
Mas agora pelo menos haver...
salvá-la caso a ambulância em alta velocidade capotasse. Essa era uma
emergência parecida.
— Alô — ela disse, sonolenta.
—...
— Meg, quer fazer o favor de se acalmar? Nunca te vi tão chateada.
Nada te chateia. Exceto, você sabe, claustrofobia.
— Ag...
Ele me levava na ambulância até o hospital em Birmingham.
— Sério? Bom, eles têm muitas histórias. Dizem que quase todos o...
um relacionamento, eu queria uma aventura.
— Qual o nome de seu policial? — ela perguntou. — Você disse que ele
parecia no...
Capitulo 5

-D

roga! — gritei. O passageiro do Cadillac abriu a porta e correu
em direção à floresta. O policial After o ...
Escutei um grito do lado de fora do carro e um barulho de cassetete. A
porta traseira se abriu e o policial After empurrou...
Desliguei o telefone, e coloquei-o em meu bolso e me agachei para
alcançar meu caderno no chão. Eu tinha dito ao policiai ...
das cavernas que me salvou de um tigre dente de sabre. Na ponte, quando ele
me ameaçou, eu havia notado apenas o uniforme ...
Ela não exagerava no bolo de frutas para manter a forma. Era uma das
mulheres nesta cidade que parecia uma caipira, mas mu...
— As japonesas sem noção que trabalham na fábrica de carros e usam
aquelas sandálias esquisitas de plástico? Muito obrigad...
— Seus filhos leem mangá? — ele provavelmente tinha uma filha que
gostava de mangá e eu era parecida com ela. Ele tinha fi...
pai (ainda que não gostasse dele), pensei que poderiam me proteger dos
suspeitos. E do policial After. Engraçado como um h...
esperando ser transferido para a penitenciária estadual por tráfico de drogas.
E vamos encontrar algo bom aqui também diss...
Era verdade. Esse era o primeiro cigarro que ele fumava nas quase oito
horas que passamos juntos em seu turno. Seu vício n...
— disse, virando-se para Zeke. — Se você disser mais alguma coisa para ela
vou adicionar corrupção de menor em sua lista d...
é mais seguro, e eu estava cansado de discutir com você, mais viaturas policiais
não saem do lugar se os cintos de seguran...
— Meg, sinto muito — ele disse. — É ilegal no Alabama dirigir sem o
cinto de segurança. Não posso deixar que você faça uma...
— Acho que quebrei o braço do suspeito — o policial After me olhou de
lado — Por acidente.
Segui a uma distância segura en...
— O Sr. Harrison, meu patrocinador do anuário, também ensinou inglês
para o programa avançado de seleção no ano passado El...
Capitulo 6

-D

ezenove ele disse, cheio de autoridade, como se fizesse a maior
diferença do mundo.
Depois acabou com meu ...
veterano em um smoking falso que eles obrigavam os garotos a vestir, com rosto
fino e cabelos loiros razoavelmente longos....
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  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3
  4. 4. 4
  5. 5. Capitulo 1 E sta é a pior ideia que já escutei — eu disse ao Eric, tomando mais um gole de cerveja. — Vamos! — Meg — Tiffany me chamou, mas eu já estava na porta da BMW do Eric. Minha cerveja respingou nas pedras enquanto eu os guiava pelo caminho escuro em direção à ponte da ferrovia. Eric me alcançou e me segurou pela nuca, me brecando no fim da ponte. Trocamos um olhar faminto. Ele tinha ficado maluco quando eu disse que Tiffany e Brian nos acompanhariam hoje à noite. E eu sabia por que ele estava com raiva: se não estivéssemos sozinhos, não faríamos sexo. E se não podíamos fazer sexo, para que estávamos saindo juntos? Nesse momento, sem dizer uma palavra, ele e eu entendemos que transaríamos de qualquer jeito. Afinal, nós quatro estávamos bêbados demais para querer privacidade. Sob a luz da lua cheia, busquei seu lindo rosto, impressionada com os cabelos negros cuidadosamente desgrenhados. Ele era atraente, e nós nos 5
  6. 6. excitávamos. Estávamos quase transando em uma ponte de ferrovia. Pena que não gostávamos muito um do outro. Olhei para o fim da ponte. — Não faz muito tempo que aqueles jovens morreram aqui. Parece que eles poderiam ter corrido para uma extremidade ou outra quando escutaram o trem se aproximar. — Você não acredita nessa história — ele disse. — Estraga prazeres. Pra quê você quer atravessar a ponte se não acredita na história? Não é um desafio se você não acredita no perigo. — A menina ficou com o sapato preso nos trilhos — Brian disse atrás da gente. É o que sempre escutei. E o garoto voltou para ajudá-la e acabou morrendo também. — Isso é tão romântico — Tiffany murmurou. Parecia que ela realmente pensava assim. Já estava completamente embriagada com as primeiras três cervejas que tomou na vida, bêbada demais para ser sarcástica. — E então, pam! — eu disse. — Muito perigoso. Agora sim — virei a cerveja em meu copo. — Talvez seja melhor tirarmos os sapatos. Apesar de ser um estraga prazeres, Eric tirou os sapatos. Deixamos nossos sapatos embaixo da placa que dizia não ultrapassar e mostrava o número da lei municipal que estávamos violando. Pisamos com nossas meias nas traves da ferrovia, em direção ao centro da ponte: Eric e eu, com Tiffany e Brian logo atrás. 6
  7. 7. Por meio de minhas meias de algodão, aos poucos comecei a sentir as traves frias e duras. O ar parecia mais frio à medida que nos distanciávamos da margem do rio. Escutei Tiffany tropeçar e rir. Brian provavelmente pensava que essa seria “sua noite”, e talvez fosse. Ele me incomodou durante meses no fundo da sala na aula de cálculo, querendo saber como avançar em sua relação com Tiffany. Eu lhe disse que não era mais tão próxima dela. Na verdade, não era muito próxima de ninguém. Ele disse que isso não importava. Acho que pensava que eu era uma especialista em sexo. O que eu poderia esperar? As notícias boas voam. E eu estava conseguindo o que queria com Eric. Eu assumia minha fama. Sendo a única adolescente no Condado de Shelby, no Alabama, com cabelos azuis, eu era uma referência para todos quando se tratava de mau comportamento. Esta noite eu vestia uma camiseta decotada que dizia “pressão social”, na esperança de seduzir Eric para outra aventura sexual. Mas até parece que ele precisava de alguma sedução, ele era praticamente autosseduzível. Quando chegamos à metade da ponte, ele me conduziu pelo pescoço até a parede de metal da armação. Eu não me importava de ser segurada pela nuca, mas me incomodava ser conduzida. O cheiro forte e enjoativo de ferrugem e alcatrão me deixou tonta. Eu estava prestes a me desvencilhar dele quando ele deslizou a mão até meu traseiro e me pressionou contra a parede. Tomei um gole de cerveja e segurei a parede enferrujada com a outra mão, olhando o reflexo da lua no rio escuro ao longe, sob nós. Árvores se 7
  8. 8. agarravam às laterais do desfiladeiro; suas pequenas folhas primaveris cintilavam brancas com a luz da lua. As pessoas diziam que a vista da ponte era linda, mas parece que ninguém a havia realmente presenciado. Agora eu a tinha visto. Agora eu tinha visto tudo. Brian Johnson, o segundo melhor aluno da escola, capitão da equipe de matemática, pressionava Tiffany Hart, a melhor aluna da escola, editora do anuário, contra a parede da ponte de que em frente a ele. Pelo menos ele teve o cuidado de colocar a cerveja no chão. Ele usava roupas esquisitas, um sinal claro de que os pais não o deixavam assistir TV. Ela estava bem-vestida, uma versão simples, sem muita pele exposta. As mãos de Brian se moviam em direção a uma área arriscada e eu quase ri. A todo o momento ele espiava Eric e eu, como se precisasse de instruções. Indiferente aos amassos de Brian, Tiffany retirou do rosto os cachos louros desalinhados pelo vento e perguntou: — Por que esses jovens não pularam para a lateral da ponte? Essa é uma pergunta estúpida? Não sei mais diferenciar uma pergunta estúpida — ela estava bêbada. Comecei a me arrepender de ter deixado ela e Brian, a inocência encarnada me acompanharem e meu passeio selvagem. — Estamos todos embriagados — Brian disse, no mesmo tom do professor de A Ilha dos birutas. Pular na água desta altura seria como pular em um concreto. — Ser atingido por um trem é doloroso também — eu disse. — Mas a garota ficou com o sapato preso, e o garoto não quis deixá-la para trás. Por isso, de qualquer forma, eles estavam presos aqui. 8
  9. 9. — Já falei — disse Eric — essa história não pode ser verdadeira. — Que idiota se deixaria ser atropelado por um trem por causa da sua namorada estúpida que ficou com o sapato preso? — imediatamente após declarar que o amor verdadeiro era algo que ele não podia compreender, começou a beijar minha nuca, quase deixando uma marca. Tentei aproveitar a situação, apesar da ironia. O vento frio de março beijou meu decote enquanto Eric me beijava. Um arrepio de excitação passou por meu corpo e inclinei a cabeça para expor mais de meu pescoço à sua boca. Eu tinha me agarrado a ele como a uma tábua de salvação para passar os últimos três meses do colegial. Ele não era grande coisa, mas era a única coisa que me mantinha em movimento, além da espera por minha viagem de férias de primavera para Miami em uma semana. Eu queria aproveitar o máximo possível aquela semana, o que me ajudaria a esperar minha formatura em junho e minha mudança para Birmingham para cursar a faculdade. Eram apenas 20 minutos de distância pela interestadual, mas pelo menos eu sairia desta cidadezinha. Enquanto isso, eu tinha l7 anos, um garoto queria transar comigo em uma ponte de ferrovia no meio do nada e eu me sentia viva. Por enquanto. — Pare. Shhh — empurrei o ombro do Eric para afastá-lo do meu pescoço. — O que foi? — Brian perguntou, por sobre o riso nervoso de Tiffany. — Shhh. Silêncio, Tiff. Encostei-me à parede enferrujada, sobre a distante água escura que se mexia com o vento e distorcia o reflexo da lua. Meus olhos estavam tensos, buscando a escuridão para encontrar a fonte do 9
  10. 10. ruído. — Vocês estão escutando? — Não — disse Brian. Meu coração batia aceleradamente em meu peito. Eu odiava ser a pessoa cautelosa, mas desta vez não pude evitar. Olhei para um lado dos trilhos, mas não vi nenhum assustador farol de trem virando a curva. Olhei para o outro lado. Escuridão. Pensei em deixar minha cerveja e colocar o ouvido nas trevas da ferrovia para sentir as vibrações, como em filme antigo de faroeste. — De repente, estou com muito medo. Eric colocou os dois braços à minha volta, massageando meus seios fortemente. — É só uma viagem — ele sussurrou, para que Brian e Tiffany não pudessem escutar. Mesmo em estado de bebedeira, eles teriam ficado realmente petrificados se mencionássemos a palavra maconha. O efeito havia desaparecido há uma hora, foi o que pensei. Mas Eric deve estar certo. Eu estava paranoica por causa da maconha, e agora estava bêbada também. Mas nada daquilo explicava o zumbido em meus ouvidos. Finalmente, a clareira ao fim da ponte explodiu com as luzes azuis do carro de polícia. 10
  11. 11. Capitulo 2 -S aiam da ponte e venham em direção à minha voz — escutamos o comando metálico por meio de um megafone. Senti Eric tenso atrás de mim. Ambos desviamos o olhar da viatura para a outra extremidade da ponte. Eric e eu éramos muito parecidos, infelizmente para nós dois. Tenho certeza de que estávamos considerando o mesmo cenário. Se fugíssemos na outra direção, não teríamos acesso ao carro. Seguiríamos pelos trilhos da ferrovia até a cidade mais próxima, ou caminharíamos quilômetros pela floresta até a próxima ponte sobre o mesmo rio. Teríamos de voltar para casa de qualquer forma, e no fim das contas a polícia nos encontraria. Brian e Tiffany nos dedurariam para não serem fichados. E o pior de tudo, meu pai me diria que eu havia tornado tudo mais difícil para minha mãe, deixando-a pensar que fui sequestrada, em vez de apenas detida. Além do mais, eu tinha de ficar com Tiffany. A verdade é que não era minha culpa de ela estar nesta confusão. Ela veio até mim, pedindo uma confusão, mas não estaria encrencada se não fosse por mim. E Brian 11
  12. 12. definitivamente não ficaria do lado dela. Ele já estava seguindo a ordem do policial, pisando de trave em trave da ferrovia, deixando Tiffany paralisada contra a fria parede de metal. Ele provavelmente esperava consegui alguma vantagem com seu bom comportamento. Eu nunca poderia esperar que Eric ficasse firme por mim, mas pelo bem de Tiffany, esperava mais de Brian. Retirei o copo de cerveja da mão trêmula de Tiffany e o coloquei no chão, junto ao meu. O policial já devia suspeitar que estávamos bebendo, mas parecia estúpido levar a cerveja aos sair da ponte e apresentá-la a ele. Coloquei o braço em volta dela. — Vamos. — Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. Enquanto caminhávamos, atrás do Eric, ela retirou o celular do bolso e apertou um botão. — Para quem você está ligando? Para seu advogado? — pensei que um pouco de humor a animaria. Aparentemente não era o momento para isso. — Meu Deus! — ela berrou para mim. — Mãe? — gritou ao telefone. — Estou bem, todos estamos bem, mas estou em apuros. Você tem de ir à delegacia me buscar. — Tiffany, desligue o telefone — disse a voz metálica no megafone. Ela apertou outro botão para desligar o telefone, como alguém que estava acostumado a obedecer ordens. — Ai meu Deus — ela gritou para mim —, ele sabe quem eu sou! Isso era muito esquisito, mas não impossível. Esta era uma cidade pequena. Provavelmente frequentávamos a mesma escola da filha do policial. — De qualquer forma, ele descobriria quem você é quando visse sua carteira 12
  13. 13. de motorista — eu disse. — O que importa? Ele vai contar para meus pais! Quase fazia sentido, se não fosse pelo fato de que ela mesma tinha acabado de ligar para os pais. Eu estava a ponto de recordar-lhe esse detalhe quando Brian chegou ao fim da ponte. O policial musculoso com corte militar saiu das sombras em direção à luz da lua e à luz azul giratória da viatura. O espertalhão deve ter dirigido todo o caminho desde a estrada principal até aqui com os faróis apagados. Disse algo, com tranquilidade. Brian murchou diante de sua autoridade. Inclinou a cabeça, cedeu um pulso para que o policial o algemasse ao corrimão no fim da ponte e afastou as pernas. Depois deixou o policial passar as mãos sobre ele, fazendo uma busca. Que idiota, ele teria se submetido a uma busca sem roupas se o policial estalasse os dedos. Logo Eric também chegou ao fim da ponte. O policial não parecia tão grande perto do Eric, que tinha 1,92 metros, mas Eric era magro e o policial tinha o corpo parecido com o do Matt Damon. Eric também deixou o policial algemá-lo ao corrimão e examiná-lo. Ao contrário de Brian, Eric não colaborou com o policial em nenhum momento, como se eles já se conhecessem, o que era provável, considerando o que Eric vinha aprontando ultimamente. De qualquer forma, todos na cidade conheciam Eric porque seu pai era um advogado bem-sucedido. Ajudei Tiffany a se sentar em uma trave da ferrovia no fim da ponte para que pudéssemos colocar nossos sapatos. O policial estava de costas e não pude 13
  14. 14. escutar o que estava dizendo, mas podia ouvir Eric mentindo. — Não estou chapado. Você acha que alguma pessoa nesta cidade venderia para mim? Deus sabe que já tentei — e depois: — Para começar, foi ideia da minha namorada vir aqui. — Obrigada, imbecil — eu disse, fazendo sinal de aprovação com os dedos. — O cavalheirismo não está morto. — Foi sua ideia, Eric — lembrou Tiffany. Ela me olhou de soslaio. — Não foi? — Não digam mais nada uma para a outra. O policial ainda falava pelo megafone, calmo e indiferente, mas com uma ameaça disfarçada. Apontou um dedo para Tiffany. — Sua vez. — Ai, meu Deus — ela se levantou e caminhou em direção a ele. Eu a observei pronta para segurá-la se desmoronasse. Pelo menos eu tentaria. Não estava tão segura de meu próprio equilíbrio. Também observei para ter certeza de que o policial não era um pervertido, mas ele não a apalpou nem a algemou ao corrimão. Algemou suas duas mãos nas costas, enquanto ela balbuciava “Ai meu Deus, ai meu Deus". Depois a levou pelo cotovelo até o banco de trás da viatura, afivelou o cinto de segurança em volta dela e fechou a porta. Gesticulou para mim. Era minha vez. O zunido baixo começou de novo. Ou talvez nunca tivesse parado. Eric e Brian fizeram um ruído. — Ela tem um pequeno problema com 14
  15. 15. ordens — Eric disse ao policial. — Já tentei isso também. — Parece um bom motivo para não beber, sendo menor de idade, e não invadir propriedades públicas — o policial caminhou em minha direção. — Ela tem mesmo um problema sério — disse Brian. — Senhor, eu nunca tentei controlá-la, mas sei que houve um incidente no nono ano. Imaginei se ele estava falando daquela vez em que eu não conseguia desatar meu tornozelo do tornozelo de Julie Meadow depois da corrida de três pernas na aula de Educação Física, ou daquela vez que Todd Pemberton me deixou presa entre os andares no elevador com defeito. — Levante-se — o policial me ordenou. — Veja bem — disse Eric —, quando ela resistir à prisão, não quero ficar mais encrencado por causa disso. Lembre que te avisei. O policial não se importou. Levantei-me lentamente, tremendo mais do que Tiffany. Alguma coisa ruim estava para acontecer. Ele me algemaria. Ou eu surtaria e imploraria para que não fizesse isso. — Vire-se de costas — ele disse. Coração acelerado. Fiquei de frente para a viatura. Atrás de mim, o policial segurou meu pulso. — Você precisa descobrir qual é a sensação — ele disse, com o hálito quente na minha nuca. — Já sei qual é a sensação — murmurei. — Não acredito que saiba — as algemas se abriram, fazendo um som 15
  16. 16. metálico. — Vejam! — gritei, quando mais luzes azuis surgiram de entre as árvores. Uma segunda viatura chegou à clareira. Talvez a chegada de reforço distraísse Dudley Certinho de sua missão. — Será que somos uma ameaça tão grande para a sociedade? Ou é só um dia carente de crimes? Um enorme carro do corpo de bombeiros passou pela clareira. Galhos de árvores pendurados roçaram suas luzes vermelhas. — Carente de incêndios também — adicionei. Por último veio uma ambulância. — E ainda carente de emergências médicas. Por que você chamou a cavalaria? — Pensei que precisaríamos deles quando você fosse atingida por um trem — disse o policial. — Que trem? O zumbido que antes era baixo aumentou para um rugido quando o farol do trem surgiu por detrás das árvores escuras do outro lado da ponte. Em alguns segundos, a locomotiva chegou ao meio da ponte. Dois copos de cerveja explodiram na parede de metal e flutuaram, caindo e desaparecendo na escuridão. Mais alguns segundos e a locomotiva passou por nós. O maquinista escolheu esse momento para tocar a buzina ensurdecedora. Eric e Brian, algemados ao corrimão, taparam um dos ouvidos com a mão que estava livre. Tropecei alguns passos antes de perceber que o policial me arrastava de costas pelo cotovelo até o carro, resmungando. Passamos pelo pessoal da emergência, que conversava decepcionado por 16
  17. 17. não ter serviço. — Lá está McPherson — Quincy, o paramédico que por acaso eu conhecia. — Eu sabia, mesmo quando você só tinha 13 anos, que seria encrenqueira. — Que cara de pau! — gritei para ele, mas o policial me empurrou para dentro do carro e fechou a porta. Tentei a maçaneta. Fechada. Não entre em pânico. Tentei respirar com calma. Pelo menos o policial tinha se esquecido de me algemar. E eu não podia entrar em pânico na frente de Tiffany. Estirando o cinto de segurança até o limite, ela se deitou de lado e chorou no banco de couro sintético. Coloquei sua cabeça em minha perna e retirei seus cabelos umedecidos de cima dos olhos. — Você já fechou a edição do anuário? Poderia acrescentar um comentário à lista de conquistas que está junto com a minha foto de aluna veterana: Conseguiu fazer a melhor aluna ser presa. Ela suspirou. — Não é engraçado, Meg. Eles podem me tirar esse título. Podem até tirar nossas bolsas de estudos para a universidade. Eu realmente duvidava que a Universidade do Alabama, em Birmingham, olhasse o registro policial dos calouros. — Eles não conseguem nem escrever meu nome direito — eu disse. — Recebi formulários de inscrição endereçados ao Sr. Mac McRearson. Bem que eu gostaria de morar no dormitório para que eles me dessem um colega de quarto homem. Mas me programei para trabalhar duro e poder pagar um apartamento. Não queria morar em um dormitório com horas de visita, horário de dormir e 17
  18. 18. monitoramento. Já tive bastante do tratamento Big Brother com meus pais em casa. E minha prisão não ajudaria essa situação pelos próximos meses. Tiffany riu um pouco, depois suspirou novamente. — Também vou precisar de outro namorado, depois disso. Isso era verdade. Agora que ela e Brian tinham sido presos juntos, um encontro no curso de minigolfe não teria o mesmo ar romântico. Enquanto carros-tanque e caminhões reboque e furgões decorados com grafite continuavam passando e fazendo barulho, o policial encarou Brian e gritou com ele. Depois encarou Eric e também gritou com ele. Pelo vidro da janela da viatura e com o barulho do trem, não consegui escutar o que ele estava dizendo. Mas pela cara do Brian e do Eric, parecia bastante forte. Um dos bombeiros que observava caminhou em sua direção para tentar afastar o policial. Um segundo policial colocou a mão no ombro do bombeiro e o interrompeu. O segundo policial era mais velho do que o policial que nos deteve. Não estava nem perto da idade de se aposentar, mas era velho demais para estar usando um uniforme de guarda sem ter recebido uma promoção para detetive. A passagem interminável do trem atrás deles me deixou tonta. Olhei para Tiffany, que outra vez balbuciou. Ai meu Deus. — Estamos escapando fácil, Tiff. Fácil demais, se você pensar bem. Por que os garotos recebem os gritos, como se apenas eles importassem? Deveríamos nos sentir ofendidas. — Então vá dizer ao policial o quanto você está ofendida — ela 18
  19. 19. contestou. — Deixe-o algemar você à ponte. Tentei abrir a maçaneta uma vez mais, brincando. — Portas fechadas — mas comecei a tremer novamente no carro aquecido. Eu não deveria ter dito isso — Tiflany se sentou meio sem jeito e encostou a cabeça em meu ombro. — Você tem uma obsessão com essa história de ser trancada. Que bom que eu estou algemada e não você. Também acho, pensei. Eu imaginava Tiffany como uma versão ambulante e falante de uma planilha de cálculo, mas ela tinha mais alma do que eu reconhecia. Nós duas demos um salto, provavelmente alguns segundos atrasado por causa dos nossos reflexos paralisados, quando o policial que nos deteve abriu sua porta. O barulho do trem o acompanhou para dentro da viatura. O último vagão do trem deixou a ponte. Observei suas luzes traseiras intermitentes desaparecerem na curva dos trilhos. O policial ajeitou o corpo musculoso no banco do motorista e bateu a porta. Depois disse algumas palavras em seu rádio, pegou uma prancheta e começou a preencher formulários. Em nenhum momento nos olhou de relance através da grade de metal que o separava de nós, perigosas delinquentes. Gotas de suor escorriam por seu grosso pescoço de policial. Procurei Eric e Brian e os vi no banco traseiro da viatura do policial mais velho que estava estacionada ao lado da BMW do Eric. O caminhão de bombeiros e a ambulância, desalentados, saíram pela clareira em direção à estrada, sem ligar as luzes. 19
  20. 20. — Por que você está tão nervoso? — perguntei ao policial. — É verdade que dois adolescentes foram mortos aqui há muito tempo? — É verdade — ele disse, sem levantar a vista. — E por pouco vocês não adicionaram mais quatro à contagem de corpos esta noite. — Quatro não — eu disse. — Se eu tivesse ficado presa nos trilhos, teria sido a única a morrer. Meu namorado não atravessaria a rua para salvar a minha vida. Isso é que é namorado. O policial riscou algumas partes do formulário que não se aplicavam a nós, talvez condenação prévia, ou serviços à comunidade ou outra coisa significativa. — Como você nos encontrou aqui? — perguntei. — Vocês estavam sem sorte. Cuidado com o dia 15 de março. Uma onda daquela paranoia que eu havia sentido na ponte passou por mim. Era 15 de março. Meu cérebro submerso lutou para retornar à superfície. Mas antes que eu pudesse fazer uma observação engraçadinha, Tiffany levantou a cabeça de meu ombro. Seu próprio cérebro embriagado deve ter reconhecido a expressão Idos de março dos versos de Shakespeare. — Ah, você se formou em inglês na universidade? Eu vou me formar em inglês! — Neste momento — disse o policial — você não vai se formar em nada. Me segurei para não gritar com o policial. Claro que ele podia ver o quanto Tiffany estava assustada. Se ela pensasse que seu curso universitário 20
  21. 21. de inglês estava ameaçado, poderia derreter em uma poça de lágrimas e cerveja bem aqui no banco de couro sintético rasgado de sua viatura. E seria bem feito para ele ter de limpar tudo. — Todo mundo lê Júlio César na escola — eu disse a ela, em um tom alto o suficiente para o policial escutar. — Você não precisa ir à universidade para ser policial. Para quê? Só precisa saber dirigir, ler e escrever — o vi marcar um X em outra seção do formulário. — Ou não. — Não — ela disse, quase desmaiando. Coloquei o braço em volta dela novamente e perguntei ao policial: — Será que você poderia tirar suas algemas? Eu me responsabilizo por ela. Seus olhos finalmente encontraram os meus. Eu não tinha registrado seu rosto antes, talvez porque estivesse tudo um pouco embaçado para mim. Não sei se foi porque o álcool ou a adrenalina já estava perdendo o efeito, mas observei seus olhos pela primeira vez agora, encaixados perfeitamente no retângulo do espelho retrovisor. Eles eram de um estranho castanho-escuro em contraste com o rosto claro. Ele olhou para o formulário. — Por que não? — perguntei — Você se sente ameaçado? Um homem do seu tamanho? Ele literalmente se virou em seu banco e me olhou através da grade de metal que nos separava. Um dos sarcasmos que lancei para ele finalmente surtiu efeito. Ele realmente se sentiu ameaçado. Mas por quê? — Ai! — uivei quando Tiffany me beliscou com as mãos algemadas. O policial saiu do carro e abriu a porta de Tiffany. Ela se inclinou em 21
  22. 22. direção a ele no assento e ele se ajoelhou para abrir as algemas. — Aqueles meninos só querem levar vocês para a cama — ele disse. — Você sabe disso, não é? — imaginei que ele estivesse falando com Tiffany, pois não estava me olhando por sobre o ombro dela. Mas seus olhos cruzaram com os meus e logo se concentraram nas algemas de Tiff. — Isso não é verdade — ela disse. Bem, claro que era verdade. Mas se ela não sabia disso, agora não era o momento de informá-la. — Como você sabe que nós não estávamos tentando levá-los para a cama? — Perguntei. O policial parou de brincar com sua chave nas algemas, se agachou e me encarou. A ladainha de Tiffany mudou de "Ai meu Deus, ai meu Deus" para "Cale a boca, cale a boca". O policial disse: — Você tem uma boca tão grande que vai meter as duas em uma encrenca pior só para ter a última palavra. — Algumas pessoas não sabem a hora de fechar a boca — eu disse. — Cale a boca! — Tiffany choramingou. Comecei a pensar que podia ser um bom conselho. O policial deu alguns segundos a mais de atenção às algemas de Tiffany. Ela soltou os braços com 22
  23. 23. um choramingo e esfregou os pulsos. Ele bateu a porta, deu uma volta por detrás do carro e abriu minha porta. — Saia. Saltei para fora e me apoiei no carro, tentando não demonstrar medo quando ele bateu a porta novamente. Parou exatamente na minha frente e me olhou com desprezo. Eu estava prestes a receber o mesmo tratamento do Eric e do Brian. Talvez não. Seu olhar desceu até minha camiseta pressão social. Ou à ausência dela sobre a linha do meu umbigo. Teoricamente isso poderia ter servido a meu favor, mas eu não tinha coragem nem condições de fazer algo sob a intensidade daqueles profundos olhos castanhos. Apesar de ser como sou, olhei em volta para ter certeza de que o carro do policial mais velho ainda estava a alguns metros de distância e de que ele não me havia abandonado com este policial, com a floresta e uma aventura sexual indesejada. O policial conseguiu se recompor. Desviou os olhos da minha camiseta e olhou diretamente em meus olhos. Provavelmente estava verificando se minhas pupilas estavam dilatadas. Eu só podia esperar que a maconha já tivesse perdido o efeito, deixando minhas pupilas no tamanho normal. Encarei seus olhos escuros, como se não tivesse nada a esconder. Com a cabeça, ele apontou para Tiffany no carro. — Quanto ela bebeu? — Dá um tempo para garota, pode ser? Sei que ela está bêbada, mas é a primeira vez. Poxa, é a primeira vez que ela toma uma bebida mais forte. — Mmph — ele disse. 23
  24. 24. Graças a Deus ele acreditou em mim. Talvez eu tenha conseguido livrar Tiffany. — E você? — Eu? — ri — Sou culpada. Ele indicou com a cabeça. — E a maconha? Me senti ruborizar. Talvez ele estivesse blefando. Perguntei: — Que maconha? O policial colocou as mãos na cintura e inclinou a cabeça para um lado. Devia existir um desenho para ele, como no dicionário, ilustrando a palavra ceticismo. — Posso não ter feito faculdade — ele disse —, mas passei pela Academia de Polícia. Pronunciou as palavras Academia de Polícia cuidadosamente, como se fossem termos estrangeiros. Pensei que estivesse zombando de si mesmo. Quase ri, mas não me sentia confiante o suficiente. Ele prosseguiu: — O que você acha que nós fazemos na Academia de Polícia? Navegamos na internet? — Honestamente posso dizer que nunca pensei nisso. — Você sabe que seu namorado foi expulso de Auburn por traficar maconha em sua residência estudantil — ele disse. — Por isso estamos namorando. — Você queria maconha. 24
  25. 25. — Nem tanto. O que acontece é que Eric é como eu. — Eric é... — ele se interrompeu com uma careta. Depois tentou de novo. — Você é uma i... Quase me chamou de idiota. O que eu não poderia discutir, considerando a presente situação. Mas era chocante que um policial me dissesse isso. Ou quase me dissesse. — Sou o quê? — provoquei-o. Ele balançou a cabeça. — Não adianta dizer nada a uma adolescente de l7 anos. Vocês pensam que são imortais. Não escutam. Precisam ver por si mesmos. — Ver o quê? Ele suspirou. — Antes de retirar vocês da ponte, dei uma olhada no carro do seu namorado. Tudo que vi foram dois barris de cerveja. Não tenho nada contra você, em termos de posse de drogas. Confesse agora e que sabe não faremos um teste de drogas em seu namorado. Você sabe que, se fizermos, vamos acusá-lo por dirigir drogado. Com certeza o acusariam. Me apoiei no carro frio para ganhar forças e olhei por sobre os ombros arqueados do Eric no carro do outro policial. Na verdade, estávamos namorando, se é que se pode chamar assim, há apenas algumas semanas. Ele tinha voltado para casa para morar com os pais e “se recompor” (tradução: “fumar bastante maconha”) depois da já mencionada prematura expulsão da instituição de ensino superior. 25
  26. 26. Mas eu o conhecia bem o suficiente para saber qual seria a sua reação. Se eu o entregasse e ele ficasse encrencado, me chamaria de vadia estúpida. Se eu não o entregasse, eles testariam sua urina e ele se encrencasse mais ainda, me chamaria de vadia estúpida. — Era só eu e ele — eu disse rapidamente. — Tiffany e Brian não sabiam. Eles teriam pirado completamente. Fumamos antes de encontrá-los. Eric e eu estávamos chapados e famintos e fomos até o McDonald´s para comer Big Mac. Foi quando vi Tiffany no banheiro. Eu deveria estar obviamente bêbada, porque ela insinuou que viajaria com os veteranos nas férias de primavera na próxima semana sem nunca ter bebido antes. Ela tinha medo de parecer boba. — Eu pensei: — Ah, coitadinha. Posso comprar uma cerveja para você. Brian também não bebe, mas entrou na onda. Provavelmente pelos motivos que você mencionou há pouco. — Ah — disse o policial. — Foi um impulso no calor do momento. Ela nunca teria feito isso se tivesse tido tempo para pensar melhor. E eu nunca teria feito isso se não estivesse chapada. Nem caminhar pela ponte. Foi completamente sem premeditar. Tentei medir a reação do policial. Não consegui perceber nada. Seus olhos escuros estavam rindo de mim, ou imaginando minha cara quando eu saísse da prisão em tempo de me ajuntar à Associação Americana de Pessoas Aposentadas. — Interessante — ele disse. — Você violou muitas leis esta noite. Definitivamente estava rindo de mim. Ataquei: — Vamos listá-las? Que 26
  27. 27. divertido. Invasão de propriedade. Posse de maconha. Menor de idade comprando álcool. O que mais? Intoxicação pública, vagabundagem, reunião ilegal. Corrupção de menor. Espera, você pode corromper um menor quando você mesmo também é um menor? — Você é quem me diz. Está usando a camiseta “pressão social”. Então ele havia notado. — É, eu vi você observando minha camiseta “pressão social” — eu disse, só para testar o quanto ele havia notado. Ele havia notado, claro. Seu rosto branco e pescoço rosado contrastavam com o uniforme azul-escuro. Na verdade eu estava petrificada. Com os anos eu havia percebido pela forma com que os homens na TV falavam sobre Taylor Swift e Miley Cyrus que homens de 40 anos gostavam bastante de garotas adolescentes. Eu não imaginaria que uma adolescente com cabelos azuis estaria à altura, mas claramente gosto não se discute. E aqui estava este policial, trabalhando duro às 11h30 da noite, inocentemente sustentando sua esposa e 14 filhos em casa, se esforçando e economizando dinheiro para comprar aquele novo depósito de alumínio no qual já estava de olho para guardar o cortador de grama. E eu exibindo os seios em sua cara. Realmente ele não era culpado por olhar. Ele suspirou novamente. Seu rubor lentamente desapareceu e ele se recompôs. — Você pelo menos está arrependida? Sim, eu estava arrependida por distraí-lo de sua mulher por dois segundos. Melhor não dizer isso. — Sinto muito que você tenha prendido 27
  28. 28. Tiffany. E talvez sinta muito por ter prendido Brian. Eu estava com raiva do Brian por ter abandonado Tiffany, mas ele me havia salvado de ser a algemada. Sem as segundas intenções de se livrar de mais encrenca, diferente do Eric. — Você quer que eu me arrependa de ficar chapada? — Você se arrepende de quase ter morrido? — Isso não é verdade. — Claro que é! — agora ele estava furioso, gritando comigo e finalmente me dando o tratamento de Brian e Eric. — Você está tão bêbada que não viu o trem? — parecia que ele ia me atacar. Eu me encolhi, esperando o golpe. Mas ele pensou melhor. Fechou a boca e deu um passo para trás. Virando-se em direção à ponte, olhou a escuridão. Com meus olhos adaptados às luzes das viaturas, não conseguia ver nada além da placa "não ultrapassar". Mas a ponte tinha realmente impressionado esse policial. Parecia que ele conseguia ver aquela ponte mesmo na escuridão. 28
  29. 29. Capitulo 3 O policial acalmou-se no caminho até a delegacia de polícia. Ou talvez fosse apenas o rádio na viatura que tocava Beck, o que tornava a péssima viagem das drogas e a prisão forçada um pouco mais agradável. Eu imaginava que um policial dirigia em silêncio total, para que nada o distraísse de suas responsabilidades. No mínimo, imaginei que escutaria uma rádio sertaneja. Talvez o último prisioneiro no carro tenha trocado a rádio para a estação pop de Birmingham como uma piada. Tiffany se apoiou em mim, sonolenta. Apenas o cinto de segurança a impedia de cair no piso do automóvel. Eu também estava com sono. O interrogatório do policial tinha sugado cada gota da minha energia. O ruído do motor do carro me acalmava. Sentei-me no meio do banco. Inclinei-me sobre Tiffany, afastando seu cabelo dos olhos. Dessa forma, eu conseguia engana o policial, mantendo frouxo o cinto de segurança central em volta das pernas, sem afivelá-lo. Eu não usava cintos de segurança. Andar de moto normalmente me livrava desse problema, além de ser muito mais barato do que ter um carro. Tiffany balançou a cabeça e se despertou sem abrir os olhos. — Meg, 29
  30. 30. você sabe o que nós somos? — Criminosas? — arrisquei. — Sim, mas o que mais? — Bandidas? — Somos malvadas! Através do espelho retrovisor, vi o policial sorrir. Obviamente ele gostava mais de Tiffany do que de mim. Ela abriu os olhos e o viu sorrir também. — Senhor policial, você acha que somos malvadas? — Sim, mas não por muito tempo. — Bem, quero que saiba, por mais insignificante que seja, aprendi minha lição. Esta noite aprendi algumas coisas sobre mim mesma e elas são todas muito ruins. Eu lhe fiz um afago, tentando consolá-la Eu não tinha aprendido nada sobre mim esta noite. Já sabia de todas essas coisas ruins. — Sua amiga me contou que essa foi a primeira vez que você bebeu — disse o policial. — Não — ela respondeu. — Foi a primeira vez — eu disse, entre os dentes. — Não quero menti para o policial — ela se sentou, ajeitando a postura. 30
  31. 31. — Senhor policial, fui à Inglaterra com minha avó no verão passado e tomei uma lata de shandy, que é cerveja misturada com limonada. Comprei em uma máquina da Coca-Cola. Minha avó disse que não tinha problema, mas claramente ela estava errada. — Você ficou tonta? — perguntei. — Não sei. Comi bastante peixe e batata junto com a bebida. O policial riu, mostrando duas covinhas em suas bochechas. Decidi puxar conversa. — Você assiste Cops na TV? — Adoro Cops — ele respondeu. — E como a minha vida, mas sem as partes chatas. — Assiste Reno 911? — Sim. Provavelmente é até mais realista do que Cops. Pelo menos nesta cidade — estacionou e desligou o motor em frente à delegacia/tribunal/prefeitura, ao lado da minivan da mãe de Tiffany. — Permaneçam sentadas um minuto, senhoritas — deslizou pelo banco para fora do carro, fechou a porta e falou com o policial mais velho através da janela meio aberta do outro carro, onde Brian e Eric estavam sentados no banco de trás. Eric me disse algo pelo vidro. Não parecia nada bom. Depois lutou com os braços algemados nas costas. Finalmente a cabeça e ombros desapareceram e as algemadas surgiram na base da janela mostrando o dedo médio. Mostrei o espetáculo para Tiffany. — Ainda bem que não vou ao baile 31
  32. 32. de formatura. Ele provavelmente se recusaria a ir comigo. Tiffany coçou a testa. — Convide-o. Vamos todos juntos. Você consegue imaginar aonde eles nos levariam para jantar? — McDonald´s — eu disse com convicção quando o policial abriu a porta. O policial mais velho já estava puxando Brian e Eric para fora do carro. A mensagem que Eric estava tentando me passar se espalhou pelo estacionamento e ecoou no prédio. — Você contou a ele sobre a maconha. Ele te enganou, sua vadia estúpida! — Nossa! Não foi legal o que você disse — na verdade eu estava um pouco preocupada por ter sido enganada, e decepcionada comigo mesma. Afinal, eu tinha de manter minha reputação na prisão. Nosso policial nem me olhou. Eu era apenas mais uma informante para ele. — Não falem mais nada um para o outro — ele entoou no espaço entre nós. — Maconha? — a voz de Tiffany ecoou atrás de mim. — Você não — o policial lhe assegurou. — Sei que você não é uma pessoa má. Ele riu e Tiffany deu um risinho como se eles fossem velhos amigos. Meu Deus, esses dois quadrados foram feitos um para o outro. Dentro da delegacia, os policiais não pareciam interessados em tirar nossas digitais ou tirar uma foto nossa ou em nos vestir com o uniforme de presidiário. Possivelmente porque não queriam armar um escândalo. Os pais de Tiffany já estavam lá para superprotegê-la, histericamente. Ela se agarrou a 32
  33. 33. eles como um pequinês apavorado que foi separado de seus donos em um tornado. Eu já tinha me perguntado por que Tiffany não iria para a liga das melhores notas e pontuações nos testes. Eu com certeza iria para bem longe de Birmingham se tivesse conseguido uma bolsa de estudos em outro lugar que não fosse apenas outra cidadezinha como esta. Mas após testemunhar a adulação coletiva entre Tiffany e seus pais, compreendi porque ela não estava pronta para se aventurar em um lugar mais adiante. — Me liga amanhã — ela disse, enquanto saía. — Pode deixar — eu disse, sabendo que não ligaria. Eu não ligava para ninguém. Seus pais a levaram para casa. O pai de Brian chegou logo depois. Era austero e quieto, como o filho. Devia haver muito silêncio naquela casa, e isso provavelmente funcionava. Ele levou Brian para casa. Depois o pai do Eric chegou gritando. Ele agiu como se a prisão tivesse sido culpa do policial, culpa da prefeitura por ter proibido a entrada na ponte, culpa minha por ter seduzido seu menino. Pelo menos deduzi que ele estava falando sobre mim quando disse “aquela vadia punk” Ele culpava todos, menos Eric. Até se atreveu a gritar com o meu policial. Não da forma como o policial havia feito com Eric gritando direto na sua cara. Aquilo era pessoal demais. Não, o pai do Eric caminhava em volta do policial e balançava os braços, nunca olhando diretamente dentro dos seus olhos escuros. O policial ficou lá parado, em silêncio. Olhava para frente, como um daqueles soldados que protegia a Tumba do Soldado Desconhecido ou o Palácio de Buckingham com um rosto sem expressão alguma. Parece que ele 33
  34. 34. precisava de um shandy. O pai do Eric o levou para casa. Depois o policial ficou um bom tempo ao telefone em um escritório com parede de vidro. Tentei não observá-lo, mas ele continuou me olhando enquanto conversava. Provavelmente estava dizendo à sua mulher o quanto a amava e que nunca a trairia com uma garota criminosa de cabelos azuis, se é que existia essa criatura. Depois de alguns instantes, ele desligou o telefone e voltou à sala principal, onde disse algo ao policial mais velho que eu não consegui entender. Escorou-se na parede de cimento e cruzou os braços. Eu bocejei, espreguicei e me ajeitei na cadeira de metal dobrável. Estava assistindo uma reprise de Andy Griffith na minúscula televisão da escrivã, que se chama Lois, tinha três filhos adultos, oito netos, dois gatos, dois cachorros, uma iguana, muitas joias de ouro e um decote muito maior do que o meu. Morava em 2043 Sunny Level Cutoff e não se importava de dar seu endereço para delinquentes juvenis. — Quer ligar para seus pais de novo? — o policial mais velho me perguntou. Seu nome era policial Leroy. Nunca tinha se casado e não tinha filhos, uma iguana. — Quando falei com seu pai, ele parecia já estar acordado. Sim, meu pai já estava acordado. Meus pais eram os donos de um restaurante chamado Cafextra! Cafextra! Abaixo do nome, a placa dizia. Nossa especialidade é café da manhã, como se já não fosse óbvio o suficiente. Ficava aberto 24 horas por dia, único motivo pelo qual qualquer pessoa comeria lá. — Eles não virão — eu disse, sem tirar os olhos da TV. Dei uma risada nervosa. Este Barney Fife era mesmo uma comédia. Eu ainda estava bêbada. — Vou tentar ligar para eles — o policial Leroy pegou o telefone na 34
  35. 35. mesa da escrivã. — Não perca seu tempo. Esta foi a última gota — repeti o que meu pai me disse ao telefone. — Eles já desistiram de mim. Em dezembro, quando matei aula com Davy Gillespie e Billy Smith e cheguei em casa bêbada, meu pai me avisou que isso aconteceria. Ele me disse que aquela seria a última vez que eu deixaria minha mãe preocupada, e da próxima vez eu estaria morta para eles. A verdade é que eu não tinha obedecido às suas ordens desde então. Já tinha aprontado bastante com Eric, mas não tinha sido pega, até agora. O policial Leroy colocou o telefone no gancho. Apesar de eu ainda analisar as proezas do policial Leroy me analisando. — Conheço seu pai — ele disse, finalmente Eu escutava isso bastante. Tradução: seu pai é um osso duro de roer. Suspirei. — Você jogou bola com ele na escola, certo? — Parece que você é o seu castigo merecido — ele deu um tapa no ombro de meu policial e se despediu de Lois, que estava falando ao telefone e digitando em seu computador. Ela acenou de volta, vagamente, enquanto o policial Leroy abria a porta. Parte da fria noite entrou quando a porta se fechou lentamente atrás dele. — Bem, vamos — disse o meu policial, mostrando o muro com o pé. Quando me levantei para segui-lo, Lois chamou: — After — parecia que 35
  36. 36. ela estava falando com o policial, pois after quer dizer depois em inglês. Sim, eu gostaria de fazer esse passeio pela prisão depois. Depois que estivesse sóbria e aparecesse a luz do dia. Depois que eu tivesse certeza de que não passaria a noite aqui. Mas ela escutou algo ao telefone e seus olhos perderam o brilho. Em seguida falou ao telefone novamente e virou para o outro lado. O policial acenou com a cabeça para um guarda que assistia à sua própria TV, abriu uma porta de segurança e me levou a um corredor de cimento que tinha várias celas. Escutei muitos palavrões sonolentos, o que eu até podia aguentar, mas um cavalheiro agarrou as barras da sua cela e disse: — Boa-noite, Clarice — e começou a listar quais partes de meu corpo ele planejava explorar com sua língua. Concentrei-me nas forças que ainda havia dentro de mim para passar por ele e continuar caminhando no mesmo passo lento. — Cale a boca, Jerry — disse o policial. — Era isso que você queria que eu visse? — perguntei, tentando manter estável minha voz trêmula. — Não, era isso — ele abriu uma cela vazia no fim do corredor e me conduziu para dentro. Parei. Respirei. — Entre — ele disse. Caminhei em direção a ele, ficamos lado a lado, passei por ele para entrar na cela, com o coração acelerado. Comecei a entrar em pânico. Virei 36
  37. 37. meu corpo par ficar de frente para ele e com uma mão alcancei seu ombro. Eu não sabia o que estava fazendo. Só estava desesperadamente tentando me conectar com ele, como uma amiga, qualquer coisa. Ele começou novamente. — Nunca me toque quando eu estiver de uniforme! — gritou. O rubor voltou ao seu rosto branco, como se estivesse tentando dar em cima dele e desviá-lo de sua mulher e dos 14 filhos e do depósito, brilhante e novo, direto do catálogo da Sears. — Tudo bem — murmurei. Coloquei a mão ofensiva sobre a minha outra mão e olhei a parede de cimento. As barras de metal se fecharam atrás de mim com um som estridente. Tentei desacelerar a respiração. Luzes vermelhas cegaram meus olhos, o que não era um bom sinal. — Será que você poderia deixar uma fresta da porta aberta? — Não. — Pode deixá-la destrancada? — Não. — Pode colocar a chave em um lugar onde eu possa alcançá-la? — Como em Andy Griffith? Isso vai contra o objetivo de uma prisão. — Claro — ele já estava saindo. Já estava voltando pelo corredor e me deixando nesta cela com dois beliches fixados à parede com suportes de metal, um vaso sanitário de metal Hannibal Lecter na cela ao lado. Eu não conseguia desacelerar a respiração e mal podia ver através das luzes vermelhas 37
  38. 38. intermitentes. — Meg. Estranho, este policial. — Como você sabe o meu nome? — Estou familiarizado com sua carteira de motorista. Parei você duas vezes nos últimos meses por dirigir sua moto sem capacete. Ah, é verdade. Agora eu me lembrava vagamente desse idiota. Mas — e era impressionante como meu cérebro podia processar isso na situação atual — em minha carteira de motorista aparecia meu nome como Margaret, não Meg. De alguma forma ele sabia que eu era Meg e não qualquer um dos outros apelidos de Margaret, dos quais eu já havia sido chamada por meus parentes idosos quando eu era pequena. — Como você sabe que não sou Maggie? — perguntei à parede de cimento. — Peg? Margot? Claro, Margot sempre me lembra um fungo — eu estava ofegante. — Meg olhe para mim. Comecei a me virar. Quando girei a cabeça, a escuridão se aproximou. O policial apareceu através das barras no fim de um longo túnel que se fechava enquanto eu observava. Minha pele se contraiu contra meus ossos. Me senti encolher e flutuar. Com o nariz cheio de amônia, afastei os sais aromáticos com um tapa. O frio da mesa de metal de Lois entrou pelas minhas costas. Virei o rosto de arquivo e dei de cara com a fivela do cinto do policial. Ele apertou meu pulso com dois dedos e olhou para o relógio, verificando minha pulsação. 38
  39. 39. Repassei o que podia ter acontecido. Desmaiei no chão da cela da prisão. Eca. E o policial me levantou com seus grandes e fortes braços e me retirou de lá. Eca? — Ela está fingindo — disse o policial, me odiando com seus olhos escuros. — Forçou o desmaio por hiperventilação. Sim, eca. — Não importa se ela está fingindo ou não — Lois falou de algum lugar na sala. — A maioria das adolescentes ficaria chateadas se você as jogasse na prisão com um bando de homens. — Não havia nenhum homem na cela com ela. — Quer dar um tempo, After? — Lois disse. — Melhor ainda — eu disse, quase sem forças — dá um tempo agora mesmo. Ele retirou os dedos de meu pulso. — Você tem algum problema de saúde do qual deveríamos estar cientes? — me perguntou, com tom oficial. Será que tenho? Em que ano estamos? Lembro-me de ter corrido oito quilômetros naquela manhã. Não, não hoje — sentei-me lentamente na mesa. — Aqui, querida — Lois me passou uma Sprite. Abri a lata com os dedos latejando e tomei um gole. — Beba mais rápido — disse o policial — É proibido comer ou beber na 39
  40. 40. cela. — Você não vai colocá-la de novo naquele lugar — Lois disse, incrédula. — Lois, eu não a trouxe aqui por atravessar a rua fora da faixa de pedestres. Você vai deixá-la passar a noite tomando Sprite e assistindo TV? — Os outros três vão passar a noite em casa com sua mães, e vão dormir em uma cama. Eles se encararam por alguns segundos. — Você não devia estar patrulhando? — Lois insinuou. O policial resmungou, atravessou a sala e abriu a porta. Desta vez um vento ainda mais frio entrou enquanto a porta lentamente se fechava. Ele se foi. — Obrigada — suspirei. — Mmmm-hmmm. Lois me ajudou a descer da mesa para a cadeira de metal dobrável. Ela também se sentou e falou baixinho ao telefone. Quando terminou de falar e olhou para mim novamente, perguntei: — Qual é o problema dele? — Ele é um bom policial — ela disse. — Bom demais, talvez. — O que ele tem de tão bom? Ele me assediou — deixei a Sprite e coloquei a cabeça entre as mãos. — Se esta cidade não é grande o suficiente para nós dois, vou embora de Birmingham em breve. Tudo o que eu quero é me formar em junho. E ir para Miami na semana que vem. 40
  41. 41. Ela murmurou no fone de ouvido Depois perguntou: — Miami? Para quê? Férias de primavera? — Sim — eu disse, sonhadora. — Com seus Pais? — Não, graças a Deus. Tiffany, Brian e eu vamos com vários veteranos da escola. Estaremos acompanhados, mas teremos um pouco de liberdade. Todos querem participar dessa viagem. Todos os anos, o técnico de futebol deixa a patrocinadora das torcedoras bêbada na primeira noite e ninguém tem notícias deles até o fim da semana. É uma tradição. Lois escorregou um pouco em sua cadeira — Odeio ter de te contar isso, querida. — Me contar o quê? — como se passar a noite na delegacia fosse bom demais para ser verdade. — Espero que não pense que o policial que te prendeu já te liberou. Eu o escutei ao telefone com os chefes há alguns instantes. Ele tem seu número. — Tem meu número? — ela quis dizer meu telefone? Será que ele estava planejando me ligar, apesar de sua esposa e os 14 filhos e o depósito? Deve estar passando por uma crise de meia-idade. — Ele vai te atingir no ponto fraco — Lois disse. — Quer ter certeza de que vocês não se livrarão dessas acusações com seus pais pagando uma multa. Ele quer que você pague. Mas quer você reabilitada, não em um centro de detenção de menores. Por isso pensou em um plano. 41
  42. 42. — Odeio planos. — Um de vocês passará uma semana com os bombeiros, outro com a ambulância e um com a patrulha policial. Todas as pessoas que você arrastou para a ponte da ferrovia no meio da noite. — E a quarta pessoa? — perguntei, já sabendo a resposta. Ela Piscou os olhos. — Creio que todos supõem que o advogado vai livrar seu filho drogado, como sempre. Obviamente. — E até o fim de semana — ela disse — você terá de entregar uma proposta de projeto aos chefes para desencorajar outros jovens de fazer o que você fez. Meu Deus, que hipocrisia. Mas eu tinha certeza de que poderiam me safar dessa proposta estúpida com os olhos fechados. — Não parece tão ruim. A parte de passear até parece divertida. Talvez eles me deixem dirigir — provavelmente soaria divertido se eu não me sentisse agora como se tivesse sido atropelada por aquele trem. — Eles querem que você faça a ronda à noite — ela disse. — Posso aguentar isso. Ela balançou a cabeça, melancolicamente. — Eles querem que você faça a ronda durante as férias de primavera, para que possa passar uma semana no turno da noite sem perder as aulas. 42
  43. 43. Levou um segundo para cair a ficha. Depois gritei: — O quê? Aquele policial é o demônio! — Não, ele simplesmente entende como os adolescentes pensam. Eu não estava segura de que isso fosse verdade. O policial pensou que eu planejava passar minhas férias de primavera bebendo e mostrando os seios. Sim, era isso mesmo. Mas não era só isso. Senti as lágrimas encherem meus olhos enquanto visualizava o vasto Atlântico azul. Meus pais costumavam falar sobre me levar para a Flórida algum dia quando tivessem economizado dinheiro, mas essa conversa parou há alguns anos. Agora eu passaria o resto da minha vida a cinco horas da praia sem nunca ver o mar. Meu primeiro pensamento foi para mim mesma, claro, mas o segundo foi para a minha mãe. Enquanto outra pessoa supostamente tomaria conta de mim em Miami, meus pais estavam planejando tirar suas primeiras férias, em quatro anos, em Graceland. Eles ainda poderiam ir, enquanto eu cumpria minha pena no turno da noite. Os pais de qualquer outra pessoa iriam, mas eu conheço minha mãe. Agora certamente ela ficará em casa. Ela até ficaria comigo na viatura se eles deixassem. Cancelaria suas férias por minha causa, e eu sofreria uma punição pior do que a cadeia: culpa. Era o suficiente para levar uma garota a beber. De novo. — Sei que parece o fim do mundo para você — Lois disse, dando um tapinha em meu joelho. — Era exatamente com isso que ele estava contando. Mas um adulto consegue ver que você tem muita, muita, muita sorte e deveria estar agradecida. Isso não é melhor do que ir ao tribunal? Refleti sobre sua pergunta. Coisas ruins podem acontecer em um 43
  44. 44. tribunal. Provavelmente eu não seria presa, mas havia uma possibilidade remota. Tremi e coloquei minha jaqueta em volta do meu corpo. Se eu pudesse passear na ambulância, seria melhor do que ser julgada. Eu não gostava de ambulâncias, e menos ainda de ficar presa dentro delas. Mas Quincy, meu amigo paramédico, estaria comigo. Ele entendia meu problema e poderia me ajudar. Ele foi um idiota comigo na ponte, mas imagino que estivesse fingindo ser um moralista em frente a outros moralistas que estavam ali. Passear no carro de bombeiros seria ainda melhor. Eu dormiria bastante. Não acontecia muita coisa nesta cidade, portanto não havia muito para atear fogo. Definitivamente era melhor do que ir ao tribunal. Mas talvez eu tivesse de ficar com os policiais. Especificamente, com o meu policial. Neste caso, eu não tinha tanta certeza de que valeria a pena. 44
  45. 45. Capitulo 4 L ois saiu do trabalho às 6 horas da manhã e me ofereceu uma carona para casa. Disse que eu deveria ter ficado na prisão até que meus pais viessem me retirar, mas mudou de ideia quando eu contei que, se eles não tinham aparecido até agora, não apareceria antes que o tumulto do almoço passasse. Suas palavras exatas foram: — Dane-se. Vou te levar para casa, querida. Como qualquer senhora de 50 anos que tinha um pouco de dinheiro guardado e se considerava um espírito livre, Lois dirigia um fusca com uma flor amarela falsa em um vaso fixado no painel para combinar com a pintura amarela. Quando paramos na esquina do estacionamento da prisão/tribunal/prefeitura para fazer a curva para a rodovia, uma viatura entrou. Pelo canto do olho vi o policial levantar a mão. Acenando para Lois. De forma pouco exemplar, parou seu carro metade no estacionamento e metade na rodovia. Sim, era o meu policial. Não imaginei que ele me notaria no assento do passageiro do carro dela com o reflexo da luz dos postes no parabrisa. No entanto, eu tinha cabelos azuis, o que era quase como andar com uma seta sobre a cabeça. 45
  46. 46. Ele abaixou o vidro da janela e olhou para Lois com cara feia, obrigandoa a abaixar o vidro também. Opa! Ele a repreenderia por transportar uma criminosa impulsiva sem autorização. Depois me levaria de volta para dentro. Meu coração acelerou e meu corpo se preparou para outro golpe deste homem que havia decidido que eu precisava de um castigo, como se eu já não fosse castigada o bastante por meu pai. Lois acelerou. A força de inércia me apertou contra o assento enquanto o fusca partia para a rodovia. O motor pequeno chorava em protesto. — Dá um tempo, policial After — ela resmungou. — Vou te colocar em meu colo e te dar umas palmadas na bunda. Virei-me para encará-la, surpresa. Ela me olhou, agitada. — O que foi? — Nada — eu não quis admitir que estava tão bêbada que não tinha percebido que o nome do policial era After. E como ela estava sendo muito legal de me levar para casa, pareceu grosseiro abordar o assunto de suas relações sexuais durante o turno da noite no departamento de polícia. Se ela queria se envolver em umas palmadas extraconjugais com um homem dez anos mais novo, bem, isso era entre ela e o policial After, sua mulher, os filhos e a iguana da Lois etc. Se bem que eu duvidava seriamente que Lois — ou qualquer outra pessoa — já tivesse infligido punição corporal no policial After. Durante todo o caminho até minha casa ela verificou os espelhos, esperando que luzes azuis explodissem atrás da gente. Mas ele nos deixou livre. 46
  47. 47. Ela parou no estacionamento do restaurante. O cascalho saltou sob os pneus. Limpando as mãos em um pano, meu pai me olhou com raiva por detrás do balcão. Depois voltou para a chapa. — Não quero mais ver sua cara — Lois me disse —, pelo menos até o próximo fim de semana. Não se meta em confusão — ela deu um tapinha na ponta do nariz duas vezes. Um pouco da sua maquiagem pesada tinha saído durante a noite. Veias vermelhas apareceram. Sim, senhora, vou me comportar, seria a coisa mais educada a dizer. Mas não fiz promessas. — Obrigada por tudo. Em vez de entrar no restaurante fui para o trailer, que adquirimos junto com o restaurante. Meus pais haviam decidido que moraríamos ali temporariamente para economizar dinheiro até que o restaurante tivesse se firmado como principal estabelecimento da cidade e eles pudessem construir a casa dos seus sonhos, mas ainda morávamos no trailer. A coisa toda balançou quando bati a porta de metal atrás de mim. O chão rangia enquanto eu caminhava em direção ao banheiro. Depois de meu desmaio na prisão, meu corpo queria correr um pouco e provar a mim mesma que não estava doente, que não estava se desgastando e que estava bem. Mas a cabeça latejava. Eu precisava de mais tempo para me recuperar da cerveja, porém estava escalada para trabalhar durante toda a manhã. Algo na expressão de raiva de meu pai me dizia que era melhor não usar a prisão como uma desculpa para não trabalhar. Eu poderia correr mais tarde. Tomei banho com a cortina aberta e sequei a água do chão com uma toalha. Depois vesti 47
  48. 48. uma camiseta decotada que parecia inapropriada para trabalhar, mas 50% menos provocante do que minha camiseta "pressão social” e fui arcar com as consequências. Entrei pela porta da frente para poder pegar uns pratos e cumprimentar meu pai já com os braços cheios. Minha mãe se sentou em um banco com alguns clientes regulares, provavelmente reclamando sobre o que eu tinha feito desta vez. Ela parecia o antes em um daqueles programas de transformação da TV: permanente ruim, 18 quilos acima do peso, camiseta enorme com a foto de um gato com as patas na cabeça e um balão desses de pensamento que aparecem nos gibis que dizia: Já chegou o fim de semana? O que não fazia simplesmente nenhum sentido, porque meus pais trabalhavam nos fins de semana. Todos nós trabalhávamos. Quando minha mãe me viu, abriu a boca. Seus olhos se viraram em direção ao meu pai, atrás do balcão. Ela fechou a boca e me olhou com uma expressão atormentada enquanto eu passava. Eu sabia que meu pai tinha falado com ela: Quando Meg chegar, não se atreva a abraçá-la como se ela tivesse ganhado um concurso de beleza. Sem dizer uma palavra a ninguém, empilhei os pratos na lavadora, amarrei meu avental e anotei os pedidos dos clientes. Atendi os clientes e cozinhei, limpando cada bagunça antes que meu pai pudesse apontá-la para mim. Se eu trabalhasse rápido o suficiente, a adrenalina colocaria uma parede entre mim e minha terrível dor de cabeça. Estava cortando salsicha e relembrando meu tempo na prisão, desejando saber exatamente onde o policial After tinha colocado as mãos quando me levantou do chão, para que eu pudesse virar o jogo e deixá-lo em 48
  49. 49. apuros com os chefões, quando meu pai resmungou na chapa: — É muita cara de pau sua voltar aqui. Sua barba escondia o queixo, de forma que não pude perceber nada em sua mandíbula. Mas a mirada dos seus olhos azuis era tão forte que pareciam fazer estalar os ovos na chapa. Estávamos entrando em uma zona desconhecida. Ele podia até ter desistido de mim, mas nunca havia sugerido que eu não pudesse voltar para casa. Até agora. Normalmente a ameaça implícita me assustaria bastante, mas o policial After tinha me assustado algumas vezes durante a noite, e eu já estava cheia. Golpeei a tábua de cortar salsicha com a ponta da faca. — Ah, agora você está me expulsando de “casa”? — fiz aspas com os dedos. — E está me “demitindo"? — meus pais me obrigavam a trabalhar, mas não me pagavam. Eu os lembrava disso sempre que me metia em confusão. — Boa sorte em convencer Bonita a cobrir meu turno. Ela sempre cuida dos netos pela manhã. Ele olhou para ter certeza de que minha mãe estava na outra ponta da cozinha, fora do alcance da sua voz. Depois explodiu: — Não me importa o que sua mãe diz. Estou cansado de ver você brincar com ela como se fosse uma boneca. Vou levá-la Graceland como planejamos. — Você... — comecei a dizer, mas parei. Não tinha sentido sussurrar algo assim como: Você vai me mandar para um centro de detenção de menores? Ele diria que eu mesma estava cuidando disso. Justo neste momento minha mãe derrubou um pão que estava assando, fazendo um barulho 49
  50. 50. estridente, igual ao da porta da cela da prisão se fechando. O sangue sumiu do meu rosto e se concentrou nos pés. Meu coração acelerou, bombeando ar, mas eu não daria o gosto que meu pai me visse desmaiar por causa disso. Inclineime sobre o balcão e cortei mais salsicha, imaginando vagamente onde a faca me cortaria quando eu ficasse inconsciente. Meu pai rosnou para mim: — Você vai passar as férias de primavera no turno da noite com aquele policial After, como o Promotor Público me disse ao telefone. E depois vai trabalhar no turno da manhã aqui. Se tiver energia para ser presa nas oito horas restante do dia... — como um especialista, deslizou a espátula sob os ovos e os virou para cozinhar do outro lado sem quebrar as gemas. — Vaya con Dios. Vi os ovos deslizarem na chapa, com as gemas lentamente escurecendo. — O que você quer dizer com essa história de que vou participar do turno da noite com o policial After? Pensei que ficaria no carro de bombeiros ou na ambulância. — Não foi o que o promotor disse — meu pai se virou para mim pela primeira vez, com os olhos azuis em fúria. — Você acha que tem mais a aprender passeando de ambulância? — Já escutei essa ladainha — eu disse, usando a faca para raspar a salsicha da tábua de cortar dentro de uma vasilha. Eu pretendia juntar o resto do cozido de batatas picadas e fritas com muita eficiência, como se estivesse arrasando no programa Iron Chef. Mas estava pensando no policial After, seus olhos escuros deslizando para meu decote, as mãos fantasma em meu corpo 50
  51. 51. indefeso. Agora que eu sabia sobre minha punição, estava gostando da ideia de provocá-lo com minha sensualidade se por acaso ficássemos juntos. Dane-se sua mulher. Mas se ele não só planejou o fim das minhas férias de primavera como também me escolheu para passar esse tempo, não há dúvida de que ele mais uma vez tinha o controle da situação. Talvez até pretendesse conseguir o queria comigo. Coisas mais estranhas haviam acontecido. Mais coisas horríveis. E eu mereceria. — Fique no veículo — o policial After me ordenou. — Talvez eu tenha de sacar minha arma. Franzi as sobrancelhas para ele no banco da frente. Eu tinha pensado que ele poderia me fazer sentar no banco de trás esta noite. Felizmente, eu tinha sido promovida para o banco da frente E ele não tinha mais um corte militar. Na semana desde nosso infeliz encontro, seus cabelos haviam crescido e ele parecia ter um corte quase normal. Já não parecia ter acabado de voltar do Iraque. Olhei o Cadillac enferrujado à nossa frente, no acostamento da rodovia, inundado em grandes pinceladas de azul produzidas pelas luzes da viatura. — Sua arma? Você quer dizer seu revólver? Por quê? Eles só estavam em alta velocidade. — Você não viu as coisas que eu vi. Ainda — usou os controles na sua porta para levantar meu vidro, que eu deixara abaixado durante toda a noite, 51
  52. 52. apesar do frio. — Parte da minha tarefa é ir com você a todos os lugares e descobrir como realmente é seu trabalho. Não posso fazer isso se ficar no carro. — Acho que há uma regra de que quando minha arma é sacada, você permanece no veículo. — Nenhuma regra desse tipo foi especificada pelos chefões. Ele suspirou pelo nariz. — Se você se ferir, tenho certeza de que serei designado para a função de carcereiro. — Não vou me ferir. — Não estou discutindo com você. Faça o que estou mandando — abriu a porta. — Espere um minuto — eu disse, colocando uma mão no seu braço exposto. Ele olhou para minha mão. Não me toque quando eu estiver de uniforme. Essa história de ele querer me seduzir já era. Retirei a mão — Desculpe, foi reflexo. Mas você não pode me deixar presa em seu carro. E se você levar um tiro e eu estiver presa aqui? Eu não acreditava que ele pudesse levar um tiro. Não acreditava que ninguém pudesse levar um tiro. Principalmente considerando como passamos a patrulha desta noite. Depois de toda aquela conversa agressiva quando ele 52
  53. 53. me prendeu sobre como ele queria que eu visse alguma coisa, isso é o que eu tinha visto: um policial retirar as vacas dos campos de morango do prefeito e colocá-las de volta no pasto ao lado. E eu estava pagando o salário desse policial com meus impostos. Ou estaria, se eu pagasse impostos, se trabalhasse em um emprego remunerado em vez de me escravizar no restaurante sem receber nada. Eu devia, sei lá, um dólar por ano em impostos sobre minhas gorjetas. Assediamos muitas pessoas inocentes. Expulsamos skatistas da calçada no trevo no centro na cidade. Expulsamos jovens com suas caminhonetes estacionadas nos fundos do cinema. Lois estava certa quando disse que o policial After sabia como os adolescentes pensavam. Maldito sorrateiro. Causamos um pequeno acidente de trânsito no cruzamento entre a rodovia que passava pela cidade e a interestadual que ia para Birmingham. O cruzamento de Birmingham era famoso por colisões, mas esse acidente nem era interessante — apenas um farol traseiro estilhaçado e alguns exasperadamente educados homens de negócios japoneses da fábrica de automóveis. Dirigimos até a ponte três ou quatro vezes com os faróis apagados para garantir que não havia nenhum jovem bebendo lá. Idos de março, nada. Não foi azar o policial After ter descoberto a gente na ponte. Ele nos descobriu porque estava obcecado por aquela ponte, como se ele fosse o fantasma de alguém que morreu lá mesmo. Jantamos, se é que se pode chamar de jantar uma refeição à 1:00 hora da manhã no Cafextra! Cafextral! Dava para perceber que o policial After fazia isso toda noite. Purcell lhe serviu café e cozinhou para ele sem perguntar seu 53
  54. 54. pedido, da mesma forma que fez comigo. O estranho é que isso acontecia em meu quintal e eu nem sabia, porque normalmente saía do trabalho por volta das 22 horas da noite. Enquanto o policial After e eu comíamos, o restaurante lotou com a multidão que voltava para casa depois da corrida de demolição. Claro que Purcell queria que eu anotasse os pedidos e servisse bebidas enquanto ele cozinhava, e obviamente eu recusei. Já bastava o fato de meus pais não me pagarem para trabalhar lá. Nem morta eu trabalharia de graça quando nem era meu turno. Purcell na verdade teve a coragem de começar a me insultar. Imagino que não estava preocupado em manter seu emprego. Nossa cidade oferecia muitos empregos para uma pessoa analfabeta, e a maioria deles provavelmente pagava melhor. Ele me ofendeu, quer dizer, até o policial After se levantar. Foi o que bastou. Purcell de repente se concentrou em virar a carne cortada na chapa. O policial After voltou a comer como se nada tivesse acontecido, sem olhar para mim. Sem conversar comigo, também. Tínhamos passado a maior parte da noite em silêncio. Quando estacionamos na rodovia, apagamos as luzes e esperamos os motoristas que dirigiam em alta velocidade. Era quase como um jogo para ver quem dormiria primeiro. Quem roncaria primeiro? Que tortura. Eu tinha saído do trabalho no Cafextra! Cafextra! aquela tarde, corrido um pouco e depois tentado dormir, mas o que eu poderia fazer? Nunca dormi às 3 horas da tarde e estava tensa demais pensando em hoje à noite. Agora o policial After estava me fazendo pagar. Será que não era suficiente perder as férias de primavera de meu último ano na escola para 54
  55. 55. passear pela cidade com um policial a noite toda? Ele não precisava me deixar entediada também. Mas agora pelo menos haveria um pouco de ação. — Você ainda vai poder sair pela porta — ele disse — O carro está configurado para que apenas as portas traseiras fiquem travadas e os suspeitos não possam sair. E ninguém conseguirá abrir sua porta pelo lado de fora. Os suspeitos não podem entrar. —Entrar? — gritei, enquanto ele se esforçava para se levantar do banco fazendo ruído por causa dos equipamentos presos em seu cinto. Fechou a pesada porta atrás de si com um barulho. Mas estava blefando, tentando me amedrontar. As luzes azuis projetavam listras na parte de trás de seu uniforme enquanto ele caminhava casualmente até o Cadillac enferrujado, parando bem atrás da porta do motorista. Inclinou-se para conversar com o motorista através da janela. Depois lentamente abriu o coldre de seu revólver com uma mão. Freneticamente busquei meu telefone em meu bolso. Eu não ligava para as pessoas, mas apertei o botão para ligar para Tiffany, que estava no hospital. Não estávamos tão próximas como quando éramos crianças. Estávamos tentando ser amigas de novo como antes, desde a oitava série. Ou talvez um pouco menos, agora que eu a havia feito perder as férias de primavera e o namorado. Mas sexta-feira na escola trocamos os números de telefone quando ela me pediu. Ela me disse que os paramédicos assistiam TV ou dormiam no hospital a maior parte da noite, mas eles a avisaram que, quando recebiam uma ligação, a coisa ficava feia. Ela precisaria de alguém para contatar para 55
  56. 56. salvá-la caso a ambulância em alta velocidade capotasse. Essa era uma emergência parecida. — Alô — ela disse, sonolenta. — Acorde! — gritei. — É Meg. Preciso que esteja em alerta de emergência. Se eu gritar, traga os paramédicos até a rodovia entre a loja de conveniência Compre até não poder mais e o Motel Cereja Dourada. O policial está com a mão em sua arma. — Ele está com a mão na arma? — agora ela estava acordada. — Achei que era só uma parada de trânsito, mas ele está com a mão na arma. Tenho certeza de que há alguma forma de alertar Lois, a escrivã, de dentro da viatura, mas não vejo um botão vermelho claramente identificado para chamar socorro — soltei uma pequena lamúria e quis me bater. — O que ele está fazendo? — Está parado ao lado do carro, conversando com o motorista. — Calma, Meg. Ele transmitiu por rádio o que está fazendo, certo? E, se pediu reforço, eles estarão a caminho. — Mas e se o reforço estiver do outro lado da cidade? E se ele levar um tiro na rodovia? Eu me sentiria muito melhor sabendo que a ambulância já está vindo para cá. Meu Deus, por que não prestei mais atenção nas aulas de reanimação cardiorrespiratória? Deixa para lá. Vou te dizer por que não. Era vez de Derek Bledsoe fazer o exercício de reanimação antes de mim, e ele babou sobre todo o manequim. A máscara bucal nova sobre sua boca não me fez sentir mais protegida. 56
  57. 57. — Meg, quer fazer o favor de se acalmar? Nunca te vi tão chateada. Nada te chateia. Exceto, você sabe, claustrofobia. — Agora ele está arrastando o motorista para fora do carro, algemandoo fazendo uma busca nele. — Calma. Pare de pensar nisso — ela fez uma pausa — Seu pai estava certo sobre esse policial ser o mesmo da ponte? — Sim. — Ele é bonito? Estranhamente senti meu rosto ficar vermelho. Pelo menos ela estava me fazendo esquecer a morte iminente do policial — Você o viu naquela noite. — Eu já te falei na escola. A única coisa que me lembro daquela noite é de ter balbuciado algo sobre shandy e tentar colocar a culpa em minha avó. — Certo. Bem, ele tem lindos olhos castanho-escuro, olhos sonolentos que te observam lentamente. — Oh! — Mas fora isso é um policial militar. Você sabe; uniforme perfeito, botas lustradas. — Ah... — ela parecia decepcionada. Depois abaixou o tom de voz para um sussurro. — Fique feliz por não ter de passar as férias de primavera com essas pessoas. — Já passei muito tempo com uma delas, Quincy, dos cabelos grisalhos. 57
  58. 58. Ele me levava na ambulância até o hospital em Birmingham. — Sério? Bom, eles têm muitas histórias. Dizem que quase todos os incidentes domésticos para os quais são chamados envolvem álcool. Ou uma motosserra. — Ou álcool e uma motosserra. — Vejo que você já escutou as histórias. E eu disse a eles "Gente, vou me formar em inglês, não em medicina". E nunca mais vou beber novamente. E então vocês podem pular essa parte. — Vai passar, e eles vão começar a contara as histórias dos fogos de artifício. Pelo menos você está conseguindo dormir um pouco. Ela bocejou. — Você ainda não teve notícias do Eric? — Não —, mas eu teria notícias dele. Ele ficaria furioso comigo até quando estivesse pronto para me chamar para fazer sexo. Era assim que funcionava com ele. — E você ainda não teve notícias do Brian? Em uma dessas rondas na ambulância você não o encontrou no carro dos bombeiros? — Não — ela parecia triste. Brian se recusou a falar com a gente na escola na semana passada. Agiu como um mártir que estava aguentando um castigo em vez de um aluno do último ano sofrendo as provocações por ter sido preso. Tiffany não lembrava nada daquela noite. Portanto não recordava que quando o longo braço da lei agarrou Brian e o retirou da ponte, ele a abandonou. Mas ela provavelmente não gostaria de saber isso. Ela e eu pensávamos de forma muito diferente quando se tratava de garotos. Ela queria 58
  59. 59. um relacionamento, eu queria uma aventura. — Qual o nome de seu policial? — ela perguntou. — Você disse que ele parecia nos conhecer na ponte. Descobriu se é o pai de alguém? — Não sei. Seu nome é policial After. — After, como depois, em inglês? — Sim. Esse nome pode causar confusões, não? Perguntei o que ele estava procurando. Ele disse que poderia me contar, mas teria de me matar. — Acho que eu sei quem ele é, Meg. Qual é seu primeiro nome? — Até onde sei, Policial. — Ele é alto? — Não tão alto quanto Eric. — Ninguém é tão alto quanto Eric — ela disse. — Magro? Observei seu corpo de Matt Damon. — Ah, não. — Loiro? — Honestamente, não saberia dizer. Seus cabelos têm menos de um centímetro de comprimento. — Meg, eu sei quem é ele. Ele é... 59
  60. 60. Capitulo 5 -D roga! — gritei. O passageiro do Cadillac abriu a porta e correu em direção à floresta. O policial After o intimou, sacou sua arma e mirou precisamente. Depois resmungou, guardou a arma e correu em direção ao suspeito. — O que aconteceu? — Tiffany perguntou, bruscamente. — Os paramédicos estavam escutando o policial After no rádio. Outro policial está a caminho. — Diga-lhe que venha rápido — o motorista, algemado e escorado no Cadillac, me viu. Caminhou em direção à viatura, me dizendo coisas que eu não queria escutar. — Quem é esse? — Tiffany perguntou. — Tem certeza de que ele não está dizendo isso para você? Onde está a mãe dele? Ele se aproximou. — Tiffany, o policial After está perseguindo outro suspeito — o motorista alcançou o para-choque dianteiro da viatura. — Não me sinto segura — ele veio até minha porta e deu um chutão. O carro inteiro tremeu. Me apoiei nos controles da sirene e fui para o banco do policial After. — Estou com muito medo. 60
  61. 61. Escutei um grito do lado de fora do carro e um barulho de cassetete. A porta traseira se abriu e o policial After empurrou o motorista no banco de trás. Depois veio o passageiro, tentando respirar e reclamar ao mesmo tempo. E foi isso. O policial After bateu a porta e caminhou em volta do carro. Voltei para o meu assento e agarrei a maçaneta para não ter de ficar nesta prisão com outros criminosos, mas o policiai abriu sua porta e se ajeitou atrás do volante. Agora eu me sentia segura. Outra viatura estacionou, com as luzes azuis girando. O policial Leroy passou por nós e averiguou o Cadillac com uma lanterna. Atrás de mim, o motorista suspeito gritava ao policial Leroy, como se ele pudesse escutá-lo. O passageiro suspeito continuava reclamando. O policial After falou algumas palavras pelo rádio para Lois, depois ligou o rádio na estação de rock de Birmingham nos alto-falantes traseiros. Um rap sobre a maconha abafou os suspeitos. Não parecia uma forma eficaz de iniciar a reabilitação deles, muito menos a minha. Mas o policial After estava indiferente. Anos trabalhando como policial deve tê-lo ensinado a não se perturbar com isso. Alcançou sua prancheta e começou a preencher formulários. Uma veia pulsava em seu pescoço, mas ele estava longe de perder a calma. — Foi bom conversar com você, Tiff — murmurei ao telefone. — Sem problemas — ela disse, quase sem forças. — Boa-noite. 61
  62. 62. Desliguei o telefone, e coloquei-o em meu bolso e me agachei para alcançar meu caderno no chão. Eu tinha dito ao policiai After que precisava tomar notas para a proposta estúpida e hipócrita que eu tinha de entregar aos chefões. Na verdade eu só queria fazer alguma coisa enquanto ele riscava os formulários em sua prancheta daquele seu jeito todo certinho. Eu já tinha escrito Idos de março, Academia de Polícia, levar para a cama e uma coisa que eu quero que você veja. Agora adicionei veículo, sacar a arma, ferido e suspeito. Ainda rabiscando perguntei ao policial After informalmente: — O que foi tão perigoso nisso? Reunir vacas foi mais perigoso. — Não ria — ele disse. — Reunir vacas pode ser realmente perigoso. Não tem que ser emocionante. Será uma sorte se não houver um touro — desenhou um X em uma seção do formulário. — Galinhas também são difíceis — suas covinhas apareceram novamente quando ele riu, da mesma forma que ele riu para Tiffany naquela primeira noite. Mas ele ainda não estava rindo para mim, estava rindo da sua própria piada. Nossa, Hulk Hogan deu uma de engraçadinho. O passageiro suspeito continuou reclamando e o motorista suspeito gritou ainda mais alto para o policial Leroy. Sem se virar, o policial After disse: — Cale a boca, Zeke. Aguenta firme, Demetrius — e aumentou o rádio novamente: All-American Rejects cantava Dirty little secret. Voltou aos formulários. Eu o analisei enquanto ele escrevia. Imaginei se eu estava desenvolvendo a Síndrome de Estocolmo, me identificando com meu captor, como fez Elizabeth Smart, ou se estava tendo alguma reação biológica pré-programada de mulher das cavernas a um homem 62
  63. 63. das cavernas que me salvou de um tigre dente de sabre. Na ponte, quando ele me ameaçou, eu havia notado apenas o uniforme escuro do policial After, seu rosto branco e seus olhos escuros. E suas covinhas. Agora que ele me havia resgatado, de certa forma, posso dizer que notei muito mais. Notei o quanto seu rosto era suave, exceto pela barba que já começava a parecer no fim da tarde e algumas rugas entre as sobrancelhas. Percebi como sua boca parecia delicada e macia enquanto ele mordia levemente o lábio, pensando sobre uma seção do formulário. Percebi como seus cílios loiros eram longos, adornando seus olhos escuros. Seus cílios não eram ralos, o que provava que ele havia cortado o cabelo tão curto de propósito. Não queria deixar crescer depois de perdê-lo todo. Nunca me havia sentido atraída por homens mais velhos, os pais gordos de meus amigos. Até imaginava como suas esposas suportavam fazer sexo com eles. Mas com o policial After era estranho. Eu quase podia ver como não seria nada desagradável ser sua mulher. Ele provavelmente a engravidou quando eles eram um pouco mais velhos do que eu, talvez quando tinham 19 anos, como aconteceu com meus pais. Agora o policial After tinha 4 filhos (mudei de 14 para 4, pois ele parecia ser mais responsável do que eu imaginei), com a mais velha quase e terminando o segundo grau e quase por engravidar. Moravam em um trailer triplo e eram muito felizes. Sua mulher ficava acordada algumas noites, escutando o rádio da polícia só para se sentir mais perto dele. Havia sempre bolo de frutas. Ela cozinhava com manteiga e esta era uma das coisas que o excitava nela depois de todos esses anos. 63
  64. 64. Ela não exagerava no bolo de frutas para manter a forma. Era uma das mulheres nesta cidade que parecia uma caipira, mas muito, muito bonita e cuidada, se você descontasse o cabelo armado como Lois, há 20 anos. É isso aí, ela excitava o policial After. Ao contrário de mim. Olhei para minha camiseta. Nenhum decote esta noite. Apesar de eu ter fantasiado sobre isso um pouco, no fim das contas toda essa estória de seduzir um homem casado me deixava desconfortável. E esta noite eu estava usando uma camiseta de gola alta com uma caveira e ossos cruzados para mostrar como eu me sentia sobre minha punição caso não estivesse claro. — Acho que você não estava preocupado com o perigo que corri — eu disse. — Imagino que você queria que eu ficasse no carro porque estava com vergonha de ser visto comigo na frente dos suspeitos. Ele retirou os olhos dos formulários e me olhou. Depois olhou através da grade de metal para os suspeitos. Demetrius ainda estava reclamando, e Zeke resmungou: — O que você está olhando? — Você tem o direito de ficar em silêncio — disse o policial After a Zeke. Olhou para mim: — Não sei o que quer dizer. Por que eu teria vergonha de ser visto com você? Ele perguntou de uma maneira tão séria que senti que deveria explicar o óbvio. — Meus cabelos e a forma como me visto. — Você se veste como se fosse japonesa. 64
  65. 65. — As japonesas sem noção que trabalham na fábrica de carros e usam aquelas sandálias esquisitas de plástico? Muito obrigada. — Não, as japonesas gatinhas que você vê no shopping em Birmingham. Ele olhou para os formulários, com a caneta na mão, mas não escreveu nada. O rubor passou do pescoço para as bochechas. Ele acabava de se dar conta que tinha me chamado de gatinha. — Quero dizer, as garotas japonesas — ele disse, olhando para baixo. — Você sabe como se veste. Com sua camiseta, sua jaqueta e suas calças jeans, seus sapatos e suas meias estranhas, seus grampos de cabelo e seus cabelos azuis. Ele estava cavando um buraco ainda mais fundo. Agora tinha dito que havia observado cada detalhe meu. Talvez isso fizesse parte do treinamento policial, para que ele pudesse fornecer uma descrição precisa minha quando eu fugisse. Apesar de que a parte dos cabelos azuis provavelmente seria suficiente para que eu fosse pega. Ou talvez ele se sentisse atraído por mim. Observei enquanto ele desenhava um X no formulário e bruscamente virou a página. Honestamente eu não sabia mais o que pensar. Normalmente eu era muito boa em ler as pessoas porque não me envolvia emocionalmente. Quando você é um forasteiro observando, é fácil ver com clareza, mas esse cara eu não conseguia ler. — Você se veste como um personagem de mangá — ele disse. Bom, isso explicava tudo. 65
  66. 66. — Seus filhos leem mangá? — ele provavelmente tinha uma filha que gostava de mangá e eu era parecida com ela. Ele tinha ficado vermelho porque pensou que eu entendi mal. E estava certo. Olhou para mim e colocou as mãos uma sobre a outra, com a caneta entre dois dedos. — Que filhos? Notei que sua mão esquerda não tinha aliança. — Eles não deixam vocês usarem aliança no trabalho? Virou sua mão grande e olhou-a. — Que aliança? Não sou casado. Zeke me disse que eu poderia ir até sua cela para uma visita conjugal sempre que eu quisesse. Ele me amarraria. Meu coração acelerou como se ele estivesse me amarrando com suas palavras. A palavra Vadia amarrou um dos meus pulsos, pinto amarrou o outro e mostre estava se enrolando em tomo do meu calcanhar esquerdo. Derrubei meu caderno e tentei abrir a maçaneta. Travada. Droga. Golpeei a janela. Me deixe sair. Que inferno! Escutei a trava se abrir. Tentei a maçaneta novamente, saí do carro e corri em direção ao Cadillac, longe do heh heh heh de Zeke. Depois daquele monte de faróis e do movimento das luzes azuis, a noite estava escura e a rodovia estava vazia. O policial Leroy se inclinou sobre o Cadillac, olhando debaixo dos bancos. Talvez pelo fato de ele conhecer meu 66
  67. 67. pai (ainda que não gostasse dele), pensei que poderiam me proteger dos suspeitos. E do policial After. Engraçado como um homem gordo quase estranho me confortava. Mas eu não conseguia me sentir confortável porque havia um zumbido que vibrava por meu corpo. Olhei em volta, nervosa, até perceber que era o motor do carro do policial Leroy que estava ligado em ponto morto. O policial After acendeu um cigarro atrás da sua porta para se proteger do vento. Depois jogou o pacote de cigarro dentro do carro, fechou a porta e caminhou em minha direção. Parou perto de mim e encostou-se ao parachoque do Cadillac. Afastei me um pouco dele. — Você prometeu que não me trancaria no carro. Ele exalou fumaça. — Eu não te tranquei antes. Travei a porta quando voltei para o carro. Esqueci. É o hábito. — Mesmo assim. Sua ideia de me punir é me encurralar em um canto e deixar homens lascivos me insultarem. — Eu não tinha pensado dessa forma Mas serve, de qualquer jeito — gesticulou com o cigarro, deixando um rastro de fumaça e um ponto de brasa. — É um alerta sobre o tipo de pessoa que você vai conhecer se continuar fumando maconha depois que Eric for encontrado deitado de barriga para baixo, morto em uma vala daqui a alguns anos, e seu suprimento acabar. O suspeito que foi mal-educado com você na cadeia semana passada está 67
  68. 68. esperando ser transferido para a penitenciária estadual por tráfico de drogas. E vamos encontrar algo bom aqui também disse, batendo no porta-malas do Cadillac. —Prendemos muitas pessoas que trazem drogas da Flórida para Birmingham passando por aqui. Elas supõem que estarão seguras se ficarem longe da interestadual, mas se enganam. — Odeio ter de te contar isso — eu disse —, mas traficantes de drogas não guardam maconha no porta-malas como se fosse uma mala ou um pneu reserva. — Sim, eles guardam. De qualquer forma, não dá para esconder a droga quando trazemos o cachorro. Eles sabem disso. Simplesmente esperam não ser pegos, mas eles mesmos estão chapados e sem discernimento. Não entendem que poderiam reduzir bastante suas chances de serem pegos se dirigissem dentro do limite de velocidade. E se escolhessem um veículo que não fosse um Cadillac Eldorado 1987 roubado — joga as cinzas no asfalto e deu mais uma tragada. Soltando a fumaça, disse: — Está frio aqui. Volte para o carro. Vamos sair assim que Leroy terminar sua busca. — Voltarei para o carro quando você apagar este cigarro. Não quero inalar sua fumaça. Isso é que é trabalho perigoso Ele riu. — A maconha é muito mais cancerígena do que o cigarro. — Se eu fosse uma completa maconheira, o que não sou, ainda assim não fumaria o equivalente a um pacote por dia. — Eu também não fumo tudo isso. 68
  69. 69. Era verdade. Esse era o primeiro cigarro que ele fumava nas quase oito horas que passamos juntos em seu turno. Seu vício não podia ser muito intenso. — Mas fumará — eu disse. — É um vício É como cair em uma armadilha. Ele me olhou e deu uma tragada especialmente longa, como se estivesse se exibindo, para que eu visse. Essa reação parecia imatura da parte dele. Imaginei qual seria sua idade, já que não tinha mulher nem filhos. Os cabelos curtos, o corpo musculoso e o uniforme oficial o faziam parecer mais velho do que provavelmente era. Também a forma como se movia e falava, com tanta confiança. Jogou fora a bituca de cigarro (de repente jogar lixo no chão não era crime?) e indicou o carro com a cabeça. Abri minha pesada porta decorada com o símbolo da prefeitura e o lema do departamento de policia, Proteger e Servir, e me sentei no banco do carro. No rádio estava tocando a música Touch my body, de Mariah Carey. Gritando junto com a música, Zeke me deu alguns detalhes de como ele me estupraria. O policial After se inclinou no banco em minha direção — o que, naquelas circunstâncias, me fez recuar. — Sinto muito não poder quebrar a cara dele por você. — Está tudo bem. — É uma das primeiras coisas que eles ensinam na Academia de Policia 69
  70. 70. — disse, virando-se para Zeke. — Se você disser mais alguma coisa para ela vou adicionar corrupção de menor em sua lista de acusações — depois sussurrou para mim: — Que bom que você me deu essa dica na semana passada. Muito útil. — Poxa, cara! — disse Zeke. — Esta é a última mulher que vou conseguir em pelo menos dois anos. — Você não vai conseguir esta — pela janela, o policial After fez um movimento supersecreto de policial. O policial Leroy veio tentando se equilibrar por causa do peso e arrastou Zeke para fora do carro. Tropeçando atrás do policial Leroy enquanto caminhava até a outra viatura, Zeke virou o rosto e olhou para mim, lambendo os lábios. — Pronto? — o policial After me perguntou. Balancei a cabeça. Estava aliviada por Zeke ter saído, mas o peso do que ele me disse ainda estava em meu peito. As reclamações atormentadas de Demetrius no banco de trás eram uma constante lembrança. — Coloque o cinto de segurança — disse o policial After, impacientemente. — Não quero ter essa mesma conversa com você todas as vezes que der partida no veículo. Esperei, torcendo para que ele ligasse o carro de qualquer forma. Não ligou. — Não consigo — eu disse. — Claro que consegue. Eu não disse nada na noite em que te prendi, quando você fingiu ter colocado o cinto, porque estava no banco de trás, onde 70
  71. 71. é mais seguro, e eu estava cansado de discutir com você, mais viaturas policiais não saem do lugar se os cintos de segurança dos bancos da frente não estiverem afivelados. Olhei para ele. — Você acha que eu sou uma maluca drogada? Acha que eu sou idiota? — Então deixa eu te explicar dessa forma. Ou você afivela o cinto de segurança ou vamos à delegacia agora mesmo, ligamos para o promotor e contamos que o trato está cancelado. O cinto de segurança parecia um braço peludo quando o passei sobre meu peito e o clique do encaixe parecia o som de uma chave em uma fechadura. O policial After deu partida no motor e saiu em direção à rodovia. Ficamos em silêncio por alguns minutos, exceto pelo rádio, pelas reclamações de Demetrius e por minha própria respiração em meus ouvidos. Finalmente o policial After disse: — Meg. Ele provavelmente percebeu que eu desmaiaria novamente. Meus braços estavam cruzados. Aprendi na aula de oratória na escola que essa posição mostrava às pessoas que você se sentia desconfortável. Como se eu pudesse esconder isso. O cinto também apertava meus seios, fazendo parecer que eles eram maiores. Além disso meu peito crescia com respiração pesada. Minha camiseta de caveira e ossos cruzados parecia uma bandeira pirata sacudindo ao vento. Não é de se estranhar que o policial After tivesse notado. 71
  72. 72. — Meg, sinto muito — ele disse. — É ilegal no Alabama dirigir sem o cinto de segurança. Não posso deixar que você faça uma coisa ilegal em minha viatura. Era comovente sua atitude tão doce com uma criminosa. Eu quase me sentia culpada por fazê-lo sentir-se mal. Realmente não era culpa dele. No entanto, como eu estava tendo dificuldade para manter a consciência, me concentrei em minhas próprias necessidades. Apertei o botão para abaixar o vidro e coloquei a cabeça para fora, como um cachorro. Entre seus resmungos, Demetrius reclamou do vento e do frio, mas ao contrário de Zeke, não mencionou minhas partes íntimas, o que tornava mais fácil ignorálo. Olhando a enjoativamente familiar rodovia, as árvores e os prédios girando, imaginei se Graceland era tudo o que minha mãe tinha sonhado ou se ela estava mais impressionada com o candelabro no saguão do hotel em Memphis. Imaginei se o técnico de futebol, a patrocinadora das torcedoras e meus colegas já tinham chegado a Miami no ônibus. Imaginei se primeiro eles ficariam bêbados ou se correriam para a praia, como eu teria feito. Imaginei como seria a sensação da areia entre seus dedos, e se a água era agradável e morna. Ajeitei-me no banco quando estacionamos na entrada de emergência do hospital — O que estamos fazendo aqui? — o hospital era um dos lugares que eu menos gostava de visitar. 72
  73. 73. — Acho que quebrei o braço do suspeito — o policial After me olhou de lado — Por acidente. Segui a uma distância segura enquanto o policial After arrastava Demetrius para fora do carro e o conduzia a uma sala de emergência. Tiffany me encontrou na entrada com um abraço violento que quase me derrubou, — Foi tão emocionante ouvir pelo rádio o que estava acontecendo! Se eu pudesse trocar de lugar com você... — Cuidado com o que deseja — eu disse, enquanto o policial After voltava sozinho. — Tiffany, este é o policial After, aquele que te prendeu. Policial After, esta é Tiffany Hart, que não se lembra de você. Eles apertaram as mãos mais cordialmente do que deveriam. O policial After não tinha problema quando ela o tocava. — Sinto muito — Tiffany deu um risinho nervoso e se emocionou. — Você sabe como é quando a pessoa bebe muito. — Não, ele não sabe — eu disse. — Ele está sóbrio desde que nasceu. — Eu também! — disse Tiffany. — A não ser pelo sábado passado — inclinou a cabeça, aborrecidamente. O policial After mostrou suas covinhas. — Mas na verdade eu me lembro dele — ela disse. — Você sabe quem ele é, não sabe, Meg? As covinhas do policial After sumiram. 73
  74. 74. — O Sr. Harrison, meu patrocinador do anuário, também ensinou inglês para o programa avançado de seleção no ano passado Ele era o único John no grupo — ela tocou levemente a mão do policial After, que não recuou. Ela continuou tagarelando: — Mas seu nome completo era tão sonoro que o Sr. Harrison usou tudo junto: Johnafter. Os veteranos contaram à equipe do anuário sobre isso e nós começamos a chamá-lo de Johnafter também. Virou uma brincadeira, pois quando não conseguíamos decidir qual foto usar em um determinado lugar, dizíamos: — É o lugar perfeito para Johnafter. — Então ele aparece no anuário 50 vezes? — perguntei. — Não tínhamos nenhuma foto dele. Nenhuma foto social. Achamos que ele era muito antissocial — ela deu uma leve cotovelada nas costelas dele. — Não, só seu retrato de graduação e a foto de seu time de trilha. Ele estava no time de trilha que ganhou o campeonato estadual no ano passado, com Will Bilingsley, Rashad Lowry e Skip Clark. E namorou Angie Pettit. E — apontou para ele, dando a entender que havia mais por vir — ele estava na aula de espanhol comigo e com você, Meg. Eu olhei para ele. — ¡De verdad! —Sí — ele me olhou com cautela. — Esqueci completamente — eu disse. — Eu devia estar no fundo da sala, fumando metanfetamina e hackeando os computadores do Departamento de Defesa. Então, Johnafter, você tem apenas 18 anos? 74
  75. 75. Capitulo 6 -D ezenove ele disse, cheio de autoridade, como se fizesse a maior diferença do mundo. Depois acabou com meu indignado protesto e me informou que, apesar de seu turno ter terminado, teria de ficar até mais tarde (ou mais cedo, já que eram 6 horas da manhã) para esperar o suspeito receber assistência médica e depois transportá-lo de volta à delegacia em seu veículo. Tiffany se ofereceu para me levar de volta até a delegacia para que eu pudesse pegar minha moto. O policial After foi até a sala de emergência vigiar Demetrius. Uma noite estava cumprida, faltavam quatro. Antes de começar meu turno no restaurante, corri para dentro do trailer para dar uma olhada no anuário do ano passado. Durante a manhã, enquanto atendia aos pedidos de bacon e ovos, folheei as páginas. Em ordem alfabética, ele apareceu na primeira página das fotos de veteranos, onde deveria estar After, John. Mas, ao invés disso, seu nome foi impresso como Johnafter. Aquele Sr. Harrison era mesmo uma figura. Conferi o nome duas vezes, porque a foto não era do policial Era de um 75
  76. 76. veterano em um smoking falso que eles obrigavam os garotos a vestir, com rosto fino e cabelos loiros razoavelmente longos. Como um garoto normal. A única coisa que reconheci foram os olhos escuros com pálpebras, pesadas. Mas conforme prestaria mais atenção, sua boca delicada me pareceu familiar. E o queixo. Na noite passada, no canto escuro, a única coisa que eu consegui ver claramente na maior parte do tempo foi seu queixo iluminado pelo led do rádio. Na verdade, quanto mais eu olhava para esse garoto normal, mais clara se tornou minha lembrança de tê-lo visto na aula de espanhol no ano passado. Costumávamos passar pelas fileiras o dever de casa do dia anterior corrigido e olhávamos na pilha para retirar nossas folhas. Uma página estava sempre decorada com rabiscos intrincados nas margens, pequenas ilustrações cuidadosas das palavras em espanhol Perro. Sombrero. Corazón. Observei para ver quem pegaria esse trabalho. Foi um garoto mais velho com cabelos loiros sobre os olhos, bonito, porém tímido, não era meu tipo. Não era o tipo que gostava de garotas com cabelo lilás, ou sei lá que cor eu tinha naquele mês. De qualquer forma, ele não olhava para mim, ou se olhava, não era por muito tempo. Eu teria me lembrado desses olhos escuros. Encarei seus olhos na foto do anuário e li a legenda sob a foto: Johnafter. Trilha 1, 2, 3, 4. Capitão do time de trilha 4. Maior pontuação no exame de qualificação do ensino médio 4. Ele conseguiu a maior pontuação da escola no Exame de Qualificação. Assim como Tiffany. Naquele momento fui chamada para servir cuscuz de queijo, mas tentei resolver o enigma em minha cabeça. Alguma coisa não encaixava no Johnafter. 76

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