A transferência

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Um conto de Augusto Brilhante Ribeiro
A transferência
Uma luta de poderes na igreja

Publicada em: Diversão e humor
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A transferência

  1. 1. A TRANSFERÊNCIA Ao longe ouvia-se o bater abafado e repetitivo de uma motobomba que começara cedo a matraquear. Zé Manel colocou o resto da carga no atrelado e meteu-se a caminho de casa. O trator que conduzia já não era novo, mas suficientemente afinado para o levar por caminhos de terra batida com sulcos cavados pelos rodados e pelas enxurradas de invernos que os fizeram ainda mais fundos. ´Tranquilamente lá foi ele, mas sempre preocupado com o atrelado pois receava que ficasse preso em algum buraco, que já estavam muito fundos. Tinha de falar com o presidente da freguesia para que mandasse fazer um arranjo, antes que fosse maior a despesa, pensava e falava com os seus botões. Uma ou outra vez gingou os braços com repentinos desvios de direção até que ao chegar ao cimo da encosta, finalmente encontrou terra plana e depois asfalto na estrada principal. Um pouco mais devagar do que o habitual subiu a encosta até ao planalto onde o esperavam os companheiros do jogo das cartas. Estes amigos tinham acabado o serviço deles e entretanto souberam novidades bem desagradáveis. Estavam à espera do Zé Manel para lhe contar o que sabiam e entretanto consumiam mais cigarros do que até àquela hora estaria previsto. Zé Manel, ao ver os amigos ao longe envoltos numa nuvem de fumo branco, comentou para si ─ O Tó Zé ainda não se convenceu de que aquele constante pigarro se deve ao excesso de fumo que lhe conspurca a garganta e os pulmões. Habitualmente estes amigos reservavam alguns dias da semana para se juntarem na taberna com o intuito de jogarem as cartas. Umas vezes jogavam a "bisca", outras a "sueca" e diziam que andavam a aprender uma outra modalidade, que nem se sabia bem o nome. Justificaram que fora um antigo colega deles que emigrara e agora estava a
  2. 2. viver na capital, que lhes ensinara aquele novo jogo. Ele tinha passado as férias do verão por lá e resolveu dizer-lhes como se jogava, só que aquilo era muito complicado e precisavam de alguns esclarecimentos antes de o jogarem a sério. “Sueca” que se preze tem de ter quatro jogadores e de todos, se houver fumador ele aguentará o cigarro no canto da boca até que não seja mais do que cinza. As mãos ficam ocupadas; uma a segurar nas cartas distribuídas e a outra a batê-las com sonoridade para alertar o parceiro de que há ou não há carta boa com ele. Outras vezes é uma indicação para o parceiro “puxar o trunfo”. Esta linguagem de sinais camuflados, que são conhecidos por todos, dá uma mística sensação de que se consegue enganar os adversários. No final de cada jogada fazem cruzes em papéis para registarem os pontos ganhos e discutem sempre que “aquela” carta foi “deitada” porque já tinha saído outra e assim ficam em grandes dissertações sobre as sábias regras do bater da carta na mesa. Pois é, estes que passam o dia na “sueca” ou na “bisca”, só o fazem porque o tempo lhes permite e também é uma forma de se distraírem após a labuta diária, quase de sol a sol. Trabalham assim porque são patrões deles próprios. O bom tempo é que lhes permite ir para o trabalho no campo. Por isso é que aproveitam o mais que podem a luz do dia. Quando o Zé Manel chegou ao cimo do planalto, cumprimentou os três colegas que o aguardavam, notando-lhes impaciência. O tratorista logo os acalmou, pois que só demorara um pouco mais do que o habitual, porque a carga era muita e os trilhos obrigaram-no a desvios imprevistos. ─ Nada disso, Zé Manel. Estamos aqui com uma impertinência dos diabos. O Tó Zé não continuou a frase e deixou o tratorista intrigado. Olhou para os outros e reparou que só bufavam, metiam as mãos nos bolsos, rodopiavam e colocavam-nas na cabeça, esfregando-as pela testa. ─ Alguém me diz o que se passa?! ─ quis saber o Zé Manel. O Tó Zé, homem experiente, aproximou-se dele e num gesto de como quem vai contar um segredo, sussurrou-lhe. ─ Querem mandar embora o nosso padre. ─ Mandar embora? ─ gritou Zé Manel em tom de desagrado ─ Quem? ─ perguntou com ar de zangado. ─ O Bispo! ─ acrescentou o Tó Zé.
  3. 3. ─ E o que é que o padre fez? Tó Zé, que já sabia de outras situações com outros padres que lá estiveram, não teve papas na língua e vai de caluniar. ─ Se calhar andam por aí “saias”. Já não é o primeiro caso. Raios partam as mulheres, logo têm que se meter com aquelas pobres criaturas. ─ Não sei a razão, mas não deve ser nada disso. ─ ripostou o Zé Manel, acrescentando: ─ O padreco até me parece doente, sempre com aquele ar de quem não apanha sol. É certo que convive muito com a população, e especialmente com os jovens e isso até lhe agradecemos, porque leva-os para o bom caminho. É preciso tirar a limpo essa história que me parece mal contada, e se for preciso não o deixamos sair daqui. Terminou por ali o assunto e cada um empoleirou-se no trator e atravessaram a aldeia que pacatamente começava a dar os primeiros sinais de preparativos para o almoço. Era um dia de Inverno. O frio congelava as carnes e eles sentiam-no nos ossos. Todos ajudaram o Zé Manel a fazer a descarga, quanto mais não fosse para dar movimento ao corpo, pois que sendo assim, sempre se sentiam mais quentes. Depois ele levou-os até à adega, sem que antes tivesse dado ordens à empregada para levar presunto e enchido de lombo, com ferramenta adequada para os cortar, e também lhe falou para não se esquecer de trazer o pão de centeio. ─ Com que então, querem tirar daqui o padre!? ─ Pois é, Zé Manel, não sei que raio aconteceu, mas parece que assim é. ─ E o padre quer sair? ─ Não! Ouvi dizer que até queria trazer para aqui os pais. ─ Mas que raio de coisa! Porque é que querem que ele vá embora? Ficaram a resmungar o assunto uns com os outros até que o tempo foi passando. Uns dias mais tarde, depois de confirmada a imposição da transferência, gerou-se um alvoroço de indignação, pela aldeia fora. Os habitantes devotos à igreja fizeram reuniões secretas e falaram em não deixar sair o padre. Outros cristãos, especialmente os mais jovens, reclamaram a sua devoção e fé à Igreja após a vinda deste novo e muito ativo seguidor da doutrina de Cristo. Não se chegou a saber o que mais aconteceu para que a ordem fosse cumprida. O padre aceitou e transmitiu aos seus fiéis, que se o amavam,
  4. 4. então deixassem-no partir para cumprir ordens superiores. Na hora da despedida houve muito choro e muita demonstração de carinho do rebanho para com o “pastor”. Houve até, que nem “Madalena”, sinais de paixão vistos em gestos singelos de uma mulher que o acariciou e lhe limpou com o polegar lágrimas que lhe saltaram dos olhos encovados por mal dormidos. Depois abraçou-o e beijou-o como se a cruz em breve o esperasse. Foram cenas como esta que empalideceu outros acontecimentos de menor importância. Soluços e choro. Que havemos de dizer de tudo isto? A carência afetiva de algumas mulheres daquela aldeia estava espelhada em gestos carinhosos para um jovem padre. Daquilo faltava-lhes a elas mais do que os seus homens as sustentavam. Alguns dias depois o mistério começou a ser desvendado, sem que, como mistério que era, todos dissessem uns aos outros que nada dissessem, porque mistério é coisa para não se dizer nem falar dele. Ou porque era verdadeiro ou invenção, o que acabou por ser divulgado foi que houve uma quezília entre padres para disputa de lugares, e como no reino da Igreja ainda não impera a democracia, o mexilhão uma vez mais é que se “lixou”. in coletânea de vários contos. Augusto Brilhante Ribeiro.

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