O PATRIMÔNIO TERRITORIAL DE SANTA LEOPOLDINA/ES COMO
PRETEXTO PARA A PROPOSIÇÃO DE UMA ROTA PATRIMONIAL
ANDRADE, BRUNO AMA...
INTRODUÇÃO
Este artigo, um recorte de estudos realizados no âmbito de trabalho de conclusão de curso
de graduaçãoi, insere...
ao seu posicionamento estratégico no ponto em que o rio se torna navegável, por 47 km,
até o litoral, na baía da Vitória. ...
A cidade de Santa Leopoldina é cortada pelo rio Santa Maria da Vitória, que possui 122 km
de extensão da sua nascente, na ...
Em suma, devido à extensão territorial da bacia hidrográfica (1844 km²) e à proximidade
com Vitória, para efeito de anális...
determinando um condicionante histórico ímpar. Frente a essa condição, faz-se necessária
a revitalização do rio, a fim de ...
Na Figura 6, abaixo, a unidade de projeto é o limite do parque; as formas triangulares são
as figuras territoriais obtidas...
previamente planejados, como Suiça, Luxemburgo, Tirol e Holanda, voltados ao cultivo do
café.
A história a narrar, que seg...
Figura 8 – Mapa das figuras territoriais inventariadas.

Fonte: Andrade, 2012a.

Identifica-se uma necessidade ímpar à mai...
Quadro 1 – Matriz das figuras territoriais
FIGURA
TERRITORIAL

ASPECTO
CRÍTICO

ASPECTO DE
VALOR

OBJETIVO

ENDEREÇO
PROJE...
O ensaio da rota apresenta e produz material a partir de uma aproximação empírica ao
objeto-concreto, aplica e adapta a me...
____. Il Progetto Locale. Firenzi: Alinea Editrice, 2010.
MAGNAGHI, Alberto (a cura di); GIACOMOZZI, Sara. Un fiume per il...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

O Patrimônio Territorial de SantaLeopoldina/ES como pretexto para a proposição de uma rota patrimonial.

147 visualizações

Publicada em

Artigo publicado pela revista Forum Patrimônio, apresentado no II Colóquio Iberoamericano de Paisagens Culturais, Patrimônio e Projeto.

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
147
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
2
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

O Patrimônio Territorial de SantaLeopoldina/ES como pretexto para a proposição de uma rota patrimonial.

  1. 1. O PATRIMÔNIO TERRITORIAL DE SANTA LEOPOLDINA/ES COMO PRETEXTO PARA A PROPOSIÇÃO DE UMA ROTA PATRIMONIAL ANDRADE, BRUNO AMARAL DE. (1); ALMEIDA, RENATA HERMANNY DE. (2) 1. Laboratório Patrimônio & Desenvolvimento. UFES. Rua José Adami, 109, Praia das Gaivotas, Vila Velha, ES. andrade.bruno@live.com 2. Laboratório Patrimônio & Desenvolvimento. UFES. Rua Doutor Moacyr Gonçalves, 711∕303, Jardim da Penha, Vitória, ES. renatahermanny@gmail.com RESUMO Este artigo visa discutir o valor patrimonial do território constituído a partir da ocupação de imigrantes germânicos na antiga colônia de Santa Leopoldina, estado do Espírito Santo, com a finalidade de desenvolver teoricamente a possibilidade de conservar, valorizar, requalificar e/ou transformar figuras territoriais identificadas por sua relevância cultural, ambiental, social e econômica, por meio da proposição de uma rota patrimonial, imaginada como instrumento metodológico e projetual. O território de Santa Leopoldina é formado por uma tríplice camada de sedimentos do passado, espacializada pelo elemento indígena, pelo elemento luso-brasileiro e pelo elemento germânico. No entanto, apesar de ter atingido um auge socioeconômico, entre o final do século XIX e início do XX, condição energizada pelo protagonismo do rio Santa Maria da Vitória, patrimônio natural navegável entre o núcleo urbano de Santa Leopoldina e o litoral, na cidade de Vitória, no inicio do século XX, o território do atual município de Santa Leopoldina expressa perda de sua condição de centro regional, situando-se à margem de processos de desenvolvimento. No enfrentamento dessa problemática, dota-se, no campo conceitual, a contribuição de Alberto Magnaghi, UNIFI/Itália, a partir da aproximação territorialista, e, no campo metodológico, os estudos avançados de Joaquin Sabaté, UPC/Espanha, a partir do instrumento projetual dos parques patrimoniais. Palavras-chave: Patrimônio Territorial. Rota Patrimonial. Imigração Germânica. Santa Leopoldina [ES].
  2. 2. INTRODUÇÃO Este artigo, um recorte de estudos realizados no âmbito de trabalho de conclusão de curso de graduaçãoi, insere-se no contexto investigativo de pesquisa intitulada “Patrimônio & Desenvolvimento, uma aproximação à figura da sustentabilidade”ii . Articulado por uma dupla temática contemporânea, patrimônio & projeto territórial, tem como objetivo discutir os parques patrimoniais como instrumentos de conservação e valorização da paisagem cultural (Sabaté, 2004), camada do território considerada patrimônio territorial (Magnaghi, 2010). Nessa perspectiva, compreende o patrimônio em sua categorização mais ampla (Unesco), reconhecendo e valorando recursos naturais e culturais. A discussão do valor patrimonial do território é empreendida por meio de identificação, registro, mapeamento, e proposição de endereço projetual de figuras territoriais, selecionadas e cadastradas segundo relevância cultural, ambiental, social e econômica; e sintetizada por meio da proposição de uma rota patrimonial, instrumento metodológico e projetual concebido com a finalidade de conservar, valorizar, requalificar e/ou transformar. Em seu desenvolvimento, o artigo segue uma sequência articulada de ideias, elaboradas a partir de uma compreensão histórica, uma aproximação empírica ao objeto-concreto em estudo, e uma proposição dialética entre hipóteses e objetivos. 1. UMA ROTA PATRIMONIAL PARA SANTA LEOPOLDINA [ES] 1.1. Histórico Antes de se instalarem no Espírito Santo, os imigrantes germânicos ocupam territórios situados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Com o sucesso da instalação dessas colônias, em 1855, D. Pedro II idealiza a fundação de colônias germânicas no Espírito Santo (FIGURA 1). Figura 1 – Detalhe da Planta da Província Espírito Santo, 1878. Fonte: Arquivo Nacional, Rio de Janeiro. Assim, segundo Schwarz (1992, p.2), em 1855, funda-se Suiça, uma colônia na região da cachoeira do rio Santa Maria da Vitória, com área de 567 km², constituída de lotes iguais de 62.500 braços quadrados. Em 1857, nela instalam-se 99 suíços, 24 hanoverianos, 6 luxemburgueses, 3 prussianos e 8 holsteinianos (Seide, 1980). Poucos anos após, são realocados para sítio “mais fértil e cortado de ribeiros cristalinos” (Ferrari, 1968), quatro léguas abaixo da primeira instalação, onde se erige uma morada provisória para o diretor da Colônia, armazéns e um barracão destinado ao alojamento de 50 famílias. Junto ao barracão, instalam-se comerciantes, constrói-se uma capela e um cemitério, e novas edificações para moradia e local de trabalho dos prestadores de serviços. Schwarz (1992), Petrone (2004), e Ferrari (1968) afirmam a importância da condição de entreposto comercial do núcleo de Santa Leopoldina (FIGURA 2), boca de sertão, devido
  3. 3. ao seu posicionamento estratégico no ponto em que o rio se torna navegável, por 47 km, até o litoral, na baía da Vitória. O café, transportado por tropeiros das áreas rurais da colônia até o núcleo urbano, era conduzido por canoeiros até a cidade de Vitória. Logo, no início do século XX, o núcleo se torna a cidade mais importante do Espírito Santo, com casas comercias operando diretamente com o exterior, principalmente com a Alemanha (Ferrari, 1968). Figura 2 – Foto do núcleo histórico de Santa Leopoldina, primórdios do século XX. Fonte: Laboratório Patrimônio & Desenvolvimento. 1.2. Objeto-concreto O município de Santa Leopoldina é formado por uma tríplice camada de sedimentos do passado, do elemento indígena, do luso-brasileiro e do germânico. Apesar de ter alcançado um auge socioeconômico, entre o final do século XIX e início do XX, energizado pelo protagonismo do rio Santa Maria da Vitória, navegável entre o núcleo urbano de Santa Leopoldina e o litoral, na cidade de Vitória, o território do atual município de Santa Leopoldina perde sua centralidade regional (FIGURA 3). Figura 3 – Mapa de delimitação da colônia de Santa Leopoldina. Fonte: Andrade, 2012a.
  4. 4. A cidade de Santa Leopoldina é cortada pelo rio Santa Maria da Vitória, que possui 122 km de extensão da sua nascente, na serra do Garrafão, no município de Santa Maria de Jetibá, a 1.300 m de altura, até deseguar na baía de Vitória. O seu eixo navegável ocorre entre o núcleo urbano de Santa Leopoldina e a baía de Vitória (cerca de 47 km), historicamente explorado com objetivos socioeconômicos: transporte de café até o litoral (cerca de 120 sacas de café por canoa, entre o final do século XIX e início do XX); e translato de imigrantes, a partir da metade do século XIX (Schwarz, 1992). A ocupação da região, por imigrantes germânicos, a partir de um projeto externo do II Império, possibilita um encontro de diversas culturas europeias ao longo do rio e afluentes, principalmente de origem camponesa, como os prussianos e pomeranos. Assim, é erigida relevante produção arquitetônica na região, na forma de conjuntos, em pequenos núcleos urbanos, e edifícios isolados, no meio rural (Schwarz, 1992), além do patrimônio imaterial dos imigrantes e descendentes, legados à contemporaneidade. Ainda no final do século XIX, a colônia de Santa Leopoldina é desmembrada, e, desse processo, emancipam-se Santa Tereza, em 1890, Afonso Claudio e Ibiraçu, ambos em 1981, e, tardiamente, Santa Maria de Jetibá, em 1988. Remanescente desse processo, o atual município de Santa Leopoldina se constitui pelo distrito-sede e os distritos de Mangarai e Djalma Coutinho. É importante ressaltar, o momento áureo de desenvolvimento da colônia se dá devido ao intercâmbio socioeconômico com o litoral, no final do século XIX, regido a partir do rio. Todavia, a partir de desmembramentos político-administrativos e abertura de rodovias, que conectam diretamente as regiões produtoras à capital, o rio perde o valor de rota socioeconômica, rompendo-se seu vínculo de memória. Contudo, considera-se que o rio, recurso patrimonial natural, seja o elemento chave para a reativação de sua condição próspera, partindo-se da conservação, afim de reconectar os estratos sócio-espaço-temporais, constituintes de diversificadas paisagens culturais no território determinado pela bacia hidrográfica do rio Santa Maria da Vitória, estruturado pela topografia acidentada, de vales e montanhas, e nutrida pelos afluentes do rio (FIGURA 4). Figura 4 – Mapa de elevação do objeto-concreto. Fonte: Andrade, 2012a.
  5. 5. Em suma, devido à extensão territorial da bacia hidrográfica (1844 km²) e à proximidade com Vitória, para efeito de análise e projeto, recorta-se espacialmente a região do baixo rio Santa Maria da Vitória, espacializado pelo município de Santa Leopoldina/ES como objeto-concreto deste trabalho (Serra, 2006). 1.3. Metodologia A metodologia aplicada é uma abordagem híbdrida qualitativa de pesquisa no campo conceitual e metodológico, fundamentada, respectivamente, nos estudos de Magnaghi e Sabaté, e no campo empírico, numa aproximação ao objeto-concreto através de representações, na forma de fotografias, ortofotomosaico e manipulação de softwares específicos, como ArcGis. A coleta de dados secundários se fundamenta no estudo dos trabalhos mais atualizados de Joaquin Sabaté e Alberto Magnaghi, formando a bibliografia de investigação da dupla temática, patrimônio & projeto territórial. Isso porque, como indica Bacon, “(...) devemos considerar o caminho antigo e então olhar em torno de nós e descobrir qual o caminho correto, e aí caminhar por ele” (apud Serra, 2006, p.167). Outros dados secundários são os modelos físicos “(...) representações que se distinguem dos modelos conceituais por simularem as formas do objeto” (Serra, 2006, p.95). Neste estudo, a produção de modelos físicos abrange o tipo analógico, com a manipulação da base Ortofotomosaicoiii, e o ensaio de uma rota para Santa Leopoldina, por meio do uso do software ArcGis. No que se refere à descrição do território investigado, elaborada com a intenção de conhecer o mais profundamente possivel, realiza-se estudos de situações inseridas na temática patrimônio & projeto territorial, por meio da investigação de trabalhos recentes de Joaquin Sabaté, particularmente aqueles dedicados à análise de paisagem e proposição de rota, empiricamente. Quanto à abordagem empírica do território de Santa Leopoldina, com a finalidade de coletar “(...) informações diretamente do real, isto é, dos objetos-concretos, e a conformação de uma base empírica para as suas conclusões“, várias são as dificuldades encontradas, como a escassez de material cartográfico para análise do objeto-concreto, assim como, em visita de inspeção, dificuldade de acessibilidade e sinalização aos recursos partrimoniais da região do baixo rio Santa Maria da Vitória, dentre estes, alguns edifícios tombadosiv pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC). Em adição, a metodologia projetual orientadora deste estudo, é a de Joaquin Sabaté (2001, 2004 e 2005), através, também, de uma contribuição de pesquisa em experiências precedentes acerca de análise de paisagens culturais e projeto de parques patrimoniais, na Europa e nos Estados Unidos. A apropriação desse estudo se reflete em lições balizadoras da proposição de uma rota para Santa Leopoldina. Ademais, apropria-se da investigação avançada de Alberto Magnaghiv, por meio da leitura de textos analíticos e descritivos, especialmente aqueles dedicados a apresentar experimentações conceituais e metodológicas, como a análise detalhada do território do Valdarno, em Empoli, Itália, e correspondente metodologia de projeto de um parque fluvial. 1.4. Hipóteses e Objetivos Ao reconhecer a condição de ruptura entre os recursos patrimoniais e o campo territorial do estudo, a região do baixo rio Santa Maria da Vitória, uma rota patrimonial se apresenta como instrumento projetual de (re)conecxão entre o rio e os recursos patrimoniais (delineado tendo como referência os afluentes e as estruturas históricas do território, o traçado da rota não necessariamente segue o eixo principal do rio). Além disso, sabe-se, houve um rompimento do uso do rio como veículo de deslocamento e vínculo de memória,
  6. 6. determinando um condicionante histórico ímpar. Frente a essa condição, faz-se necessária a revitalização do rio, a fim de que seja restaurada a sua força-motriz – a navegabilidade. Além disso, os edifícios históricos, alguns tombados pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC), que tiveram auge e relevância no passado, estão em desuso, ou com uso indevido, ou ainda em condição de conservação precária. Um último fator, a ausência de uma imagem forte para o território do rio, que possa destacá-lo em escala local, regional ou global, assim como no passado, em decorrência de sua articulação à produção de açucar e, principalmente, de café, indica a relevância da elaboração de uma imagem para a rota, incorporando um tema representativo da narração da história do rio. Essa imagem deve reforçar o reconhecimento da região acerca da memória do rio pelas suas comunidades, e sua revalorização – a recuperação da cultura do rio (Sabaté, 2001). Em suma, o objetivo deste artigo é identificar e rearticular os recursos patrimoniais (Sabaté, 2001) presentes no território referenciado pelo baixo rio Santa Maria da Vitória e espacializado no município de Santa Leopoldina/ES, que narram a história da sua ocupação urbana e rural, tendo em vista a tessitura de uma rota patrimonial, em nível de estudo preliminar. 1.5. Projeto da rota patrimonial Seguindo metodologia de Sabaté (2001), a partir da definição de duas unidades de paisagem (FIGURA 5), identificadas a partir do reconhecimento da topografia e dos recursos hídricos, parte-se para a definição da unidade de projeto. Logo, a Figura 6 demonstra a criação do Parque Patrimonial do baixo rio Santa Maria da Vitória, uma unidade de projeto definida pela presença de figuras territoriais relevantes nos ciclos de territorialização de Santa Leopoldina, a serem conectadas pela rota patrimonial. Figura 5 – Unidades de paisagem no baixo rio Santa Maria da Vitória. Fonte: Andrade, 2012a.
  7. 7. Na Figura 6, abaixo, a unidade de projeto é o limite do parque; as formas triangulares são as figuras territoriais obtidas no inventário, primeiro passo da metodologia de Sabaté (2001); os triângulos menores são os pontos de conexão do rio com o território, em que se faz necessário uma travessia pelo rio para conexão com o recurso indicado; as três esferas indicam o ingresso ao parque, os portais de entrada, em Queimado, a partir da Serra e do leste, no Tirol, a partir do sul, e no núcleo urbano de Santa Leopoldina, a partir do norte e oeste; os dois circuitos, que compreendem a rota patrimonial, são os de interesse histórico-arquitetônico e natural-paisagístico, o primeiro conecta as figuras territoriais, enquanto o segundo promove a apropriação dos eixos dos rios e afluentes. No que tange aos parâmetros tipológicos (Sabaté, 2001, p.80 e 81) para o estudo do objeto-concreto, analisa-se que o contexto urbano é monocêntrico, devido à presença de apenas uma cidade na área do parque, isto é, o núcleo urbano de Santa Leopoldina. Quanto ao contexto geográfico, é heterogêneo, pois há mais de uma área geográfica no parque, devido à diversidade físico-geográfica da paisagem. Quanto ao contexto patrimonial, propõe-se uma configuração em nós e dispersa, pois se trata de uma constelação de pontos luminosos (figuras territoriais) que contam a história da ocupação do território. Essa análise permite consolidar o entendimento da totalidade do parque e dos recursos patirmoniais articulados pela rota. Figura 6 – Limite do Parque Patrimonial do baixo rio Santa Maria da Vitória. Fonte: Andrade, 2012a. Tendo por baliza os mapeamentos anteriores, desenha-se a rota patrimonial (FIGURA 7) conectora das figuras territoriais inventariadas (Andrade, 2012a), segundo metodologia de Sabaté (2001) e Magnaghi (2010). O estudo da rota propõe dois circuitos articulados em um único, dada a possibilidade de percorrê-la a partir de qualquer ponto de entrada. O circuito do leste é balizado pelo território do lusobrasileiro, ciclo de territorialização do século XIX, com o cultivo da cana-de-açucar e a mão-de-obra escrava, conectando as antigas sedes de fazendas, algumas das quais em processo de arruinamento, devido ao abandono. O outro circuito, do oeste, territorializado entre a metade e o final do século XIX, é o do território do imigrante europeu, germânico, fixado na região de Santa Leopoldina em núcleos
  8. 8. previamente planejados, como Suiça, Luxemburgo, Tirol e Holanda, voltados ao cultivo do café. A história a narrar, que segundo Sabaté (2001) deve ser identificada através do inventário, é a do lusobrasileiro e do imigrante germânico, da relação da produção agrícola, ora cana-de-açúcar, ora café, da relação com o rio e o fluxo comercial com a cidade de Vitória. O legado desses dois ciclos de territorialização está materializado nos edifícios sedes das fazendas, além da comunidade quilombola do Retiro, e da ruína da Igreja de São José do Queimado, inseridos como satélites (Sabaté, 2005) na narração principal da rota, complementando e enriquecendo a identidade local. Figura 7 – Uma rota patrimonial para o baixo rio Santa Leopoldina Fonte: Andrade, 2012a. 1.6. Endereço projetual Seguindo metodologia de Magnaghi (2009), um endereço projetual é conferido à figuras territoriais abrangidas no recorte em estudo, adquirindo, em consequencia, subsídio para a fabulação de um mapeamento e uma matriz dos endereços projetuais para as figuras territoriais. A mapa abaixo (FIGURA 8) localiza as figuras territoriais e suas respectivas imagens, afim de promover uma visualização da totalidade dos estudos e ensaios realizados, incluídos na lógica da rota patrimonial. Ademais, o endereço projetual, principal norteador deste ensaio, é a revitalização do rio Santa Maria da Vitória e afluentes, como meio de restabelecer a força-motriz do território, historicamente identificada, e suporte de todos os demais endereços projetuais. No que tange à matriz das figuras territoriais, elaborada a partir da metodologia de Magnaghi (2009), são analisados os aspectos críticos, os de valor, os objetivos e os endereços projetuais, além do registro de uma imagem representativa e a identificação da fonte da imagem. Segue, no Quadro 1, exemplificação de uma figura territorial para cada um dos quatro endereços projetuais possíveis(Magnaghi, 2009).
  9. 9. Figura 8 – Mapa das figuras territoriais inventariadas. Fonte: Andrade, 2012a. Identifica-se uma necessidade ímpar à maioria dos recursos, referente ao endereço de Conservação, partindo do princípio de que é o elemento primordial para a intervenção projetual das figuras territoriais analisadas, como no núcleo urbano de Santa Leopoldina, a Comunidade Quilombola do Retiro e a Fazenda Ibiapaba (QUADRO 1). O endereço de Valorização abrange a conservação e se amplia para a necessidade de ativação da figura territorial na lógica socioeconômica contemporânea do território, através da rota patrimonial, como se constata nas figuras territoriais em Luxemburgo, Tirol (QUADRO 1), Holanda, Fumaça e Natividade. A Requalificação abarca as figuras que estão além da categorização de Conservação e Valorização, por estarem mais degradadas em uma relação de negação com o curso d’água, ou, ainda, uma área que possui menor relevância socio-econômico-cultural ante as outras figuras do território, como a Represa Suiça e o seu entorno (QUADRO 1), lócus da primeira ocupação da colônia de Santa Leopoldina, por suiços. E a Transformação abrange recursos que necessitam de intervenção, no sentido de uma profunda mudança, seja de uso, de qualificação histórica e estética, e relevância sócio-econômico-cultural, a fim de se inserirem na dinâmica proporcionada pelo projeto da rota patrimonial, como as ruínas de Bela Vista, Holanda I (QUADRO 1) e Queimado, e as fazendas de Holanda II e Sapucaia.
  10. 10. Quadro 1 – Matriz das figuras territoriais FIGURA TERRITORIAL ASPECTO CRÍTICO ASPECTO DE VALOR OBJETIVO ENDEREÇO PROJETUAL IMAGEM FONTE DA IMAGEM Fazenda Ibiapaba Degradação e abandono Memória; referência históricoarquitetônica Intervenção projetual; conexão com o território Conservação Andrade, 2012a. Casa paroquial e Igreja do Tirol Desconexão com o território Memória; Referência históricoarquitetônica Conexão com o território Valorização Andrade, 2012a. Represa da Suiça Desconexão com o território Memória; Geração de energia Apropriação naturalisticopaisagística Requalificação Disponível em http://panoramio. com/photo/56215, acessado em 12/07/12. Casarão Holanda I Arruinamento Memória; Referência históricoarquitetônica Intervenção projetual Transformação Andrade, 2012a Fonte: Andrade, 2012a. Em suma, a categorização tem caráter preliminar, ao identificar possíveis intervenções pontuais no território através das figuras que o compõem. Essa categorização fortalece o projeto da rota patrimonial ao endereçar intervenções individuais para cada figura territorial, com a finalidade de recuperar, (re) ativar e (re) conectar o patrimônio à lógica contemporânea socio-econômico-cultural local. 2. CONCLUSÃO Este artigo se dispõe a apresentar uma investigação orientada por uma dupla temática contemporânea, patrimônio & projeto territorial, e dupla discussão metodológica, de Joaquin Sabaté e Alberto Magnaghi, de forma a fabular um método híbrido capaz de promover reflexão acerca dos subsídios adequados à experimentação projetual de uma rota patrimonial. O objetivo de conservar e reconectar os recursos patrimoniais (Sabaté, 2001) presentes no território, e que narram a história da ocupação urbana e rural de Santa Leopoldina/ES, a partir da tessitura de uma rota, constituída de dois circuitos, estabelece-se na forma de uma projeção de possibilidades de percursos e de endereços projetuais, tendo em vista essa articulação, desenhados no software ArcGIS. Ainda, das hipóteses levantadas e dos objetivos promovidos, o ensaio da rota patrimonial responde e atende às expectativas iniciais, no que tange à vinculação dos recursos, antes desconectados, partindo do rio e das figuras territoriais como referência. Sugere a revitalização do rio, força-motriz do território, a partir da rota de interesse natural-paisagístico; a concervação, valorização, requalificação e/ou transformação das figuras territoriais, a partir da rota de interesse histórico-arquitetônico; e duas imagens fortes de narração da história do parque patrimonial do baixo rio Santa Maria da Vitória, a do lusobrasileiro e a do imigrante germânico, responsáveis pelo auge socioeconômico da região entre o final do século XIX e início do XX.
  11. 11. O ensaio da rota apresenta e produz material a partir de uma aproximação empírica ao objeto-concreto, aplica e adapta a metodologia projetual de Sabaté (2001 e 2004), e promove uma intervenção, como instrumento de conservação, valorização, requalificação e/ou transformação do território, a fim de estabelecer um novo alcance de observação e representação do território. Sabaté (2010, p.3) revela o sucesso das iniciativas de valorização das paisagens culturais na Catalunha, que tiveram a participação de três grupos: a reflexão universitária, o trabalho de alguma administração sensibilizada, e o trabalho de agentes locais, “amantes de um território em que pretendem valorizar seu patrimônio”. Estes três grupos tenderam a convergir e a somar seus esforços, a partir de reflexões e ensaios projetuais. Seguindo essa perspectiva, ao incorporar a primeira ação, a reflexão acadêmica, este estudo pretende provocar as outras duas, de forma a reterritorializar os recursos patrimoniais articulados pela rota, reterritorializar a auto estima das comunidades, e promover a conservação e perpetuação dos seus recursos. Realizando leitura, reconhecimento, aprofundamento e experimentação de metodologias pouco conhecidas no Espírito Santo, e no Brasil; investigando possibilidade de um projeto territorial, a partir da contribuição da aproximação territorialista italiana, encontra respostas para um projeto de desenvolvimento local autosustentável. Ademais, desenvolve a compreensão do patrimônio territorial do lugar e a identidade como elementos e fatores primordiais para projetos que tenham por objetivo a autonomia e a valorização do território e das territorialidades, constituindo um novo ciclo de territorialização. Nesta perspectiva, se este artigo tem Santa Leopoldina como lócus empírico, a metodologia e bibliografia estudadas potencializam outras experimentações, em outros territórios, tendo em vista a abordagem territorial como central para a construção de uma sociedade justa, que possa construir autonomia e autogoverno, e produzir um novo território e novas territorialidades, como pressupostos de gestão. Por último, destaca-se um trecho de Graça Aranha, uma homenagem ao rio Santa Maria da Vitória, “coração” da região de Santa Leopoldina: “O rio Santa Maria é um pequeno filho das alturas, ligeiro em seu começo, depois embaraçado longo trecho por pedras que o encaichoeram e das quais se livra num terrível esforço mugindo de dor, para alcançar afinal a sua velocidade ardente e alegre. Escapa-se então por entre uma floresta sem grandeza, insinua-se vivaz no seio de colinas torneadas e brandas, que parecem entregarem-se complacentes àquela risonha e única loucura”. (Aranha, p.11, 2005)vi. REFERÊNCIAS ANDRADE, Bruno Amaral de. Uma rota patrimonial para o rio Santa Maria da Vitória. Instrumento de conservação, valorização, requalificação e/ou transformação do Patrimônio Territorial. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação). Departamento de Arquitetura e Urbanismo, Centro de Artes, UFES, 2012a. FERRARI, Ângela de Biase. Notas sobre os alemães no Espírito Santo. IN II Colóquio de Estudos Teuto-Brasileiros, Recife, abril de 1968. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Disponível em http://www.estacaocapixaba.com.br/temas/imigracao/notas-sobre-os-alemaes-no-espirito-santo/, acessado em 10 de Agosto de 2012. MAGNAGHI, Alberto. Il Nuovo Piano Paesaggistico: la Valorizzazione di un Bene Comune per la Qualità dello Sviluppo della Regione Puglia. Piano Paesaggistico Territoriale Regionale – PPTR, 2007.
  12. 12. ____. Il Progetto Locale. Firenzi: Alinea Editrice, 2010. MAGNAGHI, Alberto (a cura di); GIACOMOZZI, Sara. Un fiume per il territorio. Indirizzi progettuali per il parco fluviale del Valdarno empolese. Firenze: Firenzi University Press, 2009. Disponível em: http://www.lapei.it/public/books/Scenari/213CartaGiacomozziRuffini.pdf SABATÉ, Joaquin. Patrimonio y Proyecto Territorial. Espai Blau. Barcelona, Diputación de Barcelona, 2004. ____. Projectant l’eix del Llobregat: Paisatge Cultural i Desenvolupament Regional. Designing the Llobregat Corridor: Cultural Landscape and Regional Development. Barcelona: Universitat Politècnica de Catalunya; City, Design and Development Group (Department of Urban Studies and Planning), Massachusetts Institute of Technology, 2001. ____. Revista Identidades, Território, Cultura, Patrimônio. Laboratorio Internacional de Paisajes Culturales. Barcelona: Capistería Miracles, 2005. SCHWARZ, Francisco. O Município de Santa Leopoldina. Vitória: Traço Certo, 1992. SEIDE, Frederico Herdmann. Colonização alemã no Espírito Santo. Texto inédito produzido em 1980 por encomenda de Fernando Achiamé para a Enciclopédia Histórica Contemporânea do Espírito Santo, não editada. Reprodução autorizada pelo autor. Disponível em http://www.estacaocapixaba.com.br/temas/imigracao/colonizacao-alema-no-espirito-santo-2/, acessado em 10 de Agosto de 2012. SERRA, Geraldo G. Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo: guia prático para o trabalho de pesquisadores em pós-graduação. São Paulo: EDUSP & Mandarim Editora, 2006. PETRONE, P. Aspectos Geográficos da Área de Colonização Antiga no Estado do Espírito Santo. Vitória: IHGES, 2004. i O trabalho, intitulado “Uma rota patrimonial para o baixo rio Santa Maria da Vitória. Instrumento de conservação, valorização, requalificação e/ou transformação do Patrimônio Territorial”, sob a orientação da Profª. Drª. Renata Hermanny de Almeida, entre 2011 e 2012, é parte da creditação do curso de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal do Espírito Santo. ii Iniciada em atividade de pós-doutoramento realizada junto à Universitat Politècnica de Catalunya, a investigação tem como objetivo central desenvolver, no campo conceitual e no campo metodológico, uma ampliação da abordagem de estruturas sócio-ambientais, consolidadas ou não, particularmente por seu reconhecimento enquanto lócus privilegiado para a articulação das dinâmicas da permanência de espaços de valor patrimonial e da transformação do território, em uma tripla dimensão: social, econômica e ambiental. Conduzindo uma linha de pesquisa do Laboratório Patrimônio & Desenvolvimento (Patri_Lab), da Universidade Federal do Espírito Santo, a pesquisa incorpora discentes de graduação, em atividade de iniciação científica, e de pós-graduação, estruturando estudos direcionados para a bacia hidrográfica do rio Santa Maria da Vitória. iii O Ortofotomosaico IEMA 2007/2008 é distribuído gratuitamente pelo IEMA, e a sua reprodução é permitida sem restrições. Abrangendo todo o território do Estado do Espírito Santo, é fruto do convênio “VALE DE QUALIDADE AMBIENTAL” celebrado entre a Companhia VALE e o Governo do Estado, este representado pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – IEMA. É um produto cartográfico digital de escala 1:15.000 PEC ”A”(*), de resolução espacial de 1m, elaborado a partir de um Levantamento Aerofotogramétrico na escala 1:35.000 realizado em junho de 2007 sobre a região sul e maio/junho de 2008 sobre a região norte do estado. Formado pela articulação de cerca de 540 blocos de imagens de 10x10km. iv ESPÍRITO SANTO (Estado) Secretaria de Estado da Cultura. Conselho Estadual de Cultura. Arquitetura. Patrimônio Cultural do Espírito Santo. Vitória: SECULT, 2009. v Destaca-se a publicação “Il Nuovo Piano Paesaggistico: La Valorizzazione di un Bene Comune per la Qualità dello Sviluppo della Regione Puglia” (“Um Novo Plano Paisagístico: a Valorização de um Bem Comum para a Qualidade do Desenvolvimento da Região de Puglia”, tradução nossa). Além de um projeto de curadoria de Alberto Magnaghi e Sara Giacomozzi: “Um Fiume per il Territorio: Indirizzi progettuali per il parco fluviale del Valdarno Empolese” (“Um Rio para o Território: Endereço Projetual para o Parque Fluvial do Valdarno em Empoli)”. vi ARANHA, Graça. Canaã. São Paulo: Martin Claret, 2005.

×