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nos dava vários indícios de intervenções posteriores à sua conclusão, além de uma inscrição “26 deN[novembro?] de 1775” [F...
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Santana do Bujaru: lugar de memória ou não-lugar?

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Através do exercício de etnografia, entender as tramas que se controem com o isolamento físico
da comunidade de Santana (Bujaru/PA) e a valorização local da Igreja de Santana, como bem cultural.
Subsidiando a interpretação, partir de signos que surgem durante as viagens de campo (materiais ou
imateriais) e inerentes ao imóvel. Para entender a relação espacial desta comunidade, foram usados
meios comuns de locomoção atuais para a localidade, a fim de caracterizar o lugar geográfico e o
isolamento físico da comunidade de Santana, as referências espaciais e temporais a ela associadas
dentro do município, referendando a intenção de inscrição de sua igreja como bem cultural do Estado do
Pará (Lei 5.625/90). Paralelamente, ao identificar algumas localidades do município (e o próprio
município) como, simultaneamente, Lugares de Memória e Não-Lugares, visar entender o papel e
relevância que qualificariam a Igreja de Santana do Bujaru como bem cultural. Por fim, discutir o
tombamento de um bem cultural como estratégia de proteção e entender como o esquecimento pode ser
benéfico para a preservação, levantando como discussão estratégias políticas para a sustentabilidade
destes bens.

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Santana do Bujaru: lugar de memória ou não-lugar?

  1. 1. Santana do Bujaru: lugar de memória ou não-lugar? Claudia Helena Campos Nascimento (1), Fernando Luiz Tavares Marques (2); Cybelle Salvador Miranda (3) (1) Mestranda do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPGAU, UFPA; Técnicaem Gestão Cultural/Arquiteta da Secretaria de Estado de Cultura do Pará – SECULT, Belém, PA. E-mail: crodianascimento@yahoo.com.br (2) Orientador; Professor do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPGAU/ITEC/UFPA, Belém, PA; Dr. em Arqueologia; Arqueólogo - MCT/Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, PA. E-mail: fernando@museu-goeldi.br (3) Orientadora; Professora do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo –PPGAU/ITEC/UFPA, Belém, /PA; Dra. em Ciências Sociais; Coordenadora do Laboraratório Memória e Patrimônio Cultural -LAMEMO/FAU/ITEC/UFPA. E-mail: cybelle@ufpa.brResumo: Através do exercício de etnografia, entender as tramas que se controem com o isolamento físicoda comunidade de Santana (Bujaru/PA) e a valorização local da Igreja de Santana, como bem cultural.Subsidiando a interpretação, partir de signos que surgem durante as viagens de campo (materiais ouimateriais) e inerentes ao imóvel. Para entender a relação espacial desta comunidade, foram usadosmeios comuns de locomoção atuais para a localidade, a fim de caracterizar o lugar geográfico e oisolamento físico da comunidade de Santana, as referências espaciais e temporais a ela associadasdentro do município, referendando a intenção de inscrição de sua igreja como bem cultural do Estado doPará (Lei 5.625/90). Paralelamente, ao identificar algumas localidades do município (e o própriomunicípio) como, simultaneamente, Lugares de Memória e Não-Lugares, visar entender o papel erelevância que qualificariam a Igreja de Santana do Bujaru como bem cultural. Por fim, discutir otombamento de um bem cultural como estratégia de proteção e entender como o esquecimento pode serbenéfico para a preservação, levantando como discussão estratégias políticas para a sustentabilidadedestes bens.Palavras-chave: Etnografia; Lugares de Memória/Pierre Nora; Não-Lugares/Marc Augé; PatrimônioCultural; Bujaru/PA.1. Caminhos que levam à Santana “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.” Cidades Invisíveis, Ítalo Calvino Para entendermos o significado do tema, temos que contextualizar o campo e o objetoda pesquisa para, em sequencia, podermos trabalhar os meios para esta análise. Os caminhos quelevam à Santana não são apenas vias físicas, mas também metodológicas que vão descortinar umconhecimento sobre esta comunidade invisível, cuja visibilidade pode oferecer, por sua vez, orisco de uma escolha entre ser um não-lugar ou um lugar de memória, conceitos que estarãosempre sendo articulados, a fim de buscar estabelecer novas estratégias e abordagens para apesquisa de campo, para que não haja a sacralização simbólica da Igreja de Santana do Bujaru. 1
  2. 2. 2. Descrição de um lugar A Igreja de Santana está localizada no distrito de mesmo nome, no município de Bujaru, estadodo Pará. O acesso a esta comunidade se faz por um ramal de terra localizado no quilômetro 25 da estradaPA-140, distando 108 km por via rodoviária de Belém, e a Igreja se localiza às margens do rio Bujaru. Háa possibilidade também de acesso por via fluvial, subindo o rio Bujaru desde a sua foz no rio Guamá. O distrito de Santana do Bujaru localiza-se na margem esquerda do rio Bujaru, possuiassociações agrícolas e é identificada como uma comunidade remanescente de quilombos; como marcoarquitetônico, a igreja de Santana. A comunidade de Santana é eminentemente rural, porém foi, outrora, asede do município e a sua igreja uma das quinze freguesias existentes no final do século XIX. Sobre esta igreja tem-se poucas informações documentais disponíveis. Uma delas é orelato de Dom Antônio de Almeida Lustosa, que em 1935 diz que “A matriz de Bujaru é uma boa igrejade pedra, dedicada à Sant’Ana. Consta que foi construída em 1847 e que o vigário da época dainauguração ainda era vivo em 1880.” (LUSTOSA, 1976, p.251) Da mesma fonte temos em 1935 adescrição de uma “localidade próxima de Belém, pertencente hoje ao município de São Domingos doCapim e à paróquia de Sant’Anna de Bujaru. Outrora, ao que consta, era sede da Fazenda de SantaTereza, do Convento do Carmo” (LUSTOSA, 1976, p.253). No “Rol dos Confessados” do ano de 1765(RODRIGUES, 2008, p.165) temos a referência à Igreja de Santana do Bujaru e de São José do Acaráentre outras. Algumas ações públicas por parte do Estado têm sido deflagradas para este sítio em atenção asolicitações da comunidade, o que dá foco ainda maior para a carência de dados, exigindo outrasestratégias para estudo do objeto, que levará inevitavelmente à pesquisa de campo mais aprofundada. Algumas visitas ao sítio e seus arredores foram feitas em várias condições, o que permitiu umacompreensão das fronteiras simbólicas que Santana do Bujaru faz com a vivência da comunidade. Orelato destas experiências servem para buscar entender as entrelinhas desta pesquisa no seu sentidomacro, revelando a complexidade física e sígnica de aproximação com a Igreja de Santana do Bujaru.3. Etnografia do caminho para o invisível 3.1 Havia uma igreja no (des)caminho... A caminho de uma visita técnica, de levantamento e inventário preliminar no município deAcará, recebemos a solicitação do então diretor do DPHAC que aproveitássemos para fazer um registropreliminar de reconhecimento da igreja de Bujaru, visto possuir processo de tombamento e estarmos nocaminho. Como técnicos, quatro curiosos, tentamos convencer o motorista que nos levava a buscar aigreja, mas este, sem a mesma curiosidade científica, nos levou com a máxima eficiência a Acará,comprometendo-se, no retorno, a buscar a referida igreja. Um processo sobre uma igreja de Bujaru, com fotos distorcidas, já havia passado pela minhamão: para quem tem uma visão belemcentrista do patrimônio cultural arquitetônico não causou grandeinteresse. Ademais, o processo visava o apoio para o projeto e obras na referida igreja, questão que nãoera atribuição técnica, e sim administrativa e política. Ao chegarmos a Acará, nossos olhares de estrangeiros foram provocados por vários elementos.A igreja de São José do Acará era uma igreja desproporcionalmente grande para a cidade [FOTO 1],assim como o seu cemitério anexo. Sua estrutura em pedra argamassada, exposta na fachada posterior, 2
  3. 3. nos dava vários indícios de intervenções posteriores à sua conclusão, além de uma inscrição “26 deN[novembro?] de 1775” [FOTO 2] e outros dados que se somaram durante esta visita técnica, como umcemitério anexo à igreja, bastante grande e com elementos que acenavam para um conjunto de referênciasestéticas invisíveis na arquitetura da cidade, e outros dados trazidos pela equipe que foi buscarinformações sobre os sítios e fazendas, os quais teriam sido refúgio dos Cabanos, como qualidade técnicade alguns elementos das ruínas, como calhas de drenagem e imaginárias. O estudo da documentação sobre o município do Acará nos dizia que este havia sido fundadoem 1833 por imigrantes nordestinos, como os dados oficiais sobre Bujaru. Esta incongruência nosindicava duas hipóteses: ou a data inscrita na parede posterior da igreja não significava informaçãorelevante ou, ao contrário, traria à luz um equívoco histórico. Na viagem de retorno, ao passar novamente por Bujaru, a única igreja que nos haviachamado atenção havia sido a localizada na cidade, a qual registramos sem, contudo, encontrar quem nosdesse o nome de seu orago. Era a matriz de São Joaquim: igreja errada.4 No mesmo caminho, outra igreja Nova viagem técnica e, agora sabendo qual igreja procurávamos, tendo novamenteBujaru como caminho e passagem, após longa negociação com o motorista que nos levava, conseguimosconvencê-lo a encontrar a igreja de Santana do Bujaru na ida, para registrarmos. Haveria um desvio narota: entrar num ramal por volta do quilômetro 25 da rodovia PA-140 e seguir até o final. Não nosdisseram que, apesar do ramal estar em excelentes condições, a distância entre a estrada e a localidade erade cerca de doze quilômetros, o que irritou bastante o motorista que queria otimizar a diária recebida, noslevando o quanto antes ao nosso destino final, que seria a comunidade de Quatro-Bocas, em Tomé-Açu,para cedo retornar à Belém. Agora, ao menos, sabíamos que se tratava da igreja de Santana e estávamosno caminho certo. Após passar por longas extensões de áreas rurais, chegamos a um ponto em que o caminho seabre, e vemos os fundos de uma edificação. Sua fachada está voltada para o rio Bujaru e, embora bemmenor que a igreja do Acará, esta também se destaca pela desproporcionalidade em relação às demaisedificações que delimitam a lateral do largo, agora entendido como um terreiro, que se estende entrecinqüenta e cem metros da margem do rio em relação à fachada principal da igreja. A chegada de um automóvel com identificação de carro oficial chamou atenção da comunidade,que foi muito solícita em facultar-nos o acesso à igreja. Enquanto isso, fomos registrando externamente,olhando detalhes como a fechadura antiga [FOTO 4] e os dois sinos [FOTO 5] de bronze em torreãodeslocado; desta vez, como única arquiteta do grupo, o foco foi não perder os detalhes. Os demaiscolegas, turismólogos, fizeram observações do sítio: o trapiche, o rio e a pessoa que tivesse a chave.Embora não houvesse um grande primor artístico na fachada principal, havia uma riqueza de detalhes euma proporção próxima ao retângulo áureo, o que denotava intencionalidade plástica na construção. Entrar na igreja proporcionou nova surpresa: a riqueza dos detalhes arquitetônicos dos altares edas imaginárias denotavam claramente que não estávamos frente a um bem com valores técnicos ehistóricos irrelevantes. Elementos típicos do repertório landiano estavam ali, embora a desproporção e oacabamento não fossem à altura de sua assinatura. Um brasão sobre o arco-cruzeiro remetia ao Império.Sem saber, ou com uma consciência de um valor não-técnico, mas essencialmente cultural, a solicitaçãoda Paróquia de Bujaru para a SECULT revelou um não-lugar de nossas referências culturais. 3
  4. 4. 5 Todos os caminhos levam a Santana Quase de forma obsessiva, a Igreja de Santana do Bujaru tornou-se tema recorrente. Asprovocações que foram levantadas em Acará, ganharam força material em Bujaru. Tantas perguntas nãopoderiam ser respondidas sem um aprofundamento de pesquisa, coisa nem sempre possível quando arotina de análises de processos demanda rapidez nos resultados. Outras frentes foram construídas para trazer respostas à demanda da comunidade de Santana:um escritório de arquitetura desenvolvia o projeto de “restauração” e uma conservadora elaborava orelatório para a recuperação do acervo de imaginárias. No dia da apresentação destes resultados àcomunidade, no salão paroquial da igreja de São Joaquim, também houve a fala sobre as potencialidades(vistas sobre o prisma da economia da cultura) para o bem em questão. A paixão da comunidade,acrescida da apreensão sobre os resultados que estavam sendo apresentados gerava uma responsabilidadede envolvimento com o tema. Percebi então que não poderia ser feito daquela forma: nós, técnicos,“doutores do assunto” trazendo as “verdades” de forma quase burocrática. Quem seria Landi para aquelacomunidade e o que ele traria de bom? Ele iria fazer a igreja ficar nova? Uma destas “verdades” foi a constatação de que a imagem que a comunidade apresentou como“Nossa Senhora do Carmo” era, de acordo com os atributos que possuía, Santa Bárbara. Um de seuselementos - a palma - estava erroneamente na mão do São José. Desfeito o equivoco “científico”, foicriado outro, identitário. A concepção do projeto arquitetônico não apresentava consistência técnica no que se refere àpesquisa, gerando dúvidas sobre algumas intervenções que estavam sendo propostas. Compreendermos a arquitetura para além dos elementos físicos e aparatos tecnológicos e aceitaras relações humanas que nela se estabelece são aproximar a arquitetura da antropologia, sendo esta umabusca científica de descrição do fato cultural. Se ainda entendemos como signo capaz de estabelecercomunicação, as intervenções, mesmo que repletas de acertos técnicos (desconsideremos os equívocos),podem gerar ruídos no meio em que o bem, no caso a igreja de Santana do Bujaru, se estabelece commais força, isto é, com a sua comunidade, através de um fluxo cultural legítimo. Ainda que a arquitetura seja vista como um meio de comunicação simbólico e espacial, semmergulharmos na questão do contexto onde ela se insere, temos uma relação de familiaridade se fizermosa justa analogia entre as estruturas de arranjo que se estabelecem no espaço doméstico, como nosapresenta Baudrillard, aos espaços familiares embora coletivos, como a igreja de Santana, fazendo comque a aproximação e incorporação deste bem pela comunidade garanta a permanência do bemarquitetônico, fazendo com que esta esteja em pé por todos estes séculos, tornando-a em lugar onde amemória é viva e rica. Em poucas situações podemos contemplar tamanha complexidade simbólica quenos ligue a um contexto histórico de mais de duzentos anos. Esta presença física e simbólica reafirma aafirmação de Baudrillard, onde “aquilo que faz a profundidade das casas de infância, sua pregnância na lembrança, é evidentemente esta estrutura complexa de interioridade onde os objetos despenteiam diante de nossos olhos limites de uma configuração simbólica chamada residência. (...) Seres e objetos estão, aliás, ligados, extraindo os objetos de tal conluio [real e moral] uma densidade, um valor afetivo que se convencionou chamar de presença (BAUDRILLARD, p. 22) 4
  5. 5. 6 Considerações preliminares sobre o Lugar Existe um envolvimento de fato da comunidade, tanto de Santana quanto de Bujaru como umtodo, com a igreja do distrito de Santana. Eles reconhecem-na como marco histórico de fundação domunicípio, embora atribuam que a igreja tenha sido construída no final do século XIX. Existe umenvolvimento social que faz da festividade de Santana, ao lado da Festividade de São Joaquim e de SantaMaria em Guajará-Açu, uma das principais datas do calendário, juntamente com algumas açõesrecentemente transformadas em eventos, como o Festival do Jet-Ski e o Festival Gastronômico. O quediferencia esses dois grupos de acontecimentos é o que Teixeira Coelho sublinhou como a diferença entreuma ação cultural legítima e uma “fabricação cultural”: o sentimento de uma continuidade firmada nacultura, em detrimento da objetividade do acontecimento. Estas impressões puderam ser reafirmadasquando de uma experiência etnográfica: chegar a Santana sem automóvel. Assim, de acordo com a visão local, isto é, os habitantes de Bujaru, Santana é um lugar dememória no sentido pleno, isto é, um local de referência cultural e histórica legítima e referendada pelacomunidade como sendo de grande importância, sendo a igreja de Santana a sua principal referência. Outras observações foram registradas que, embora não sejam objetivamente ligadas àarquitetura, dizem sobre a localidade. No dia da apresentação da proposta, outra visita foi feita ao sítio e àigreja, na qual se revelaram questões incisivas quanto à saúde daquela comunidade, como a presença demorcegos e carrapatos em abundância. Este fato revelou que a comunidade apresenta problemasrelevantes de saúde pública, o que denota um certo grau de abandono institucional desta comunidade.7 Etnografia do caminho conhecido A perspectiva do flaneur sempre foi, a meu ver, a melhor forma de estudo para a arte e aarquitetura. Ser uma pessoa que caminha pelo espaço da cidade moderna a fim de experimentá-la, comoCharles Baudelaire, para ser afetada de forma indireta, quase involuntária pela experiência urbana, comopropõe Walter Benjamin, como método de pesquisa. Também é este mesmo sentido da etnografia:aproximação e distanciamento com seu objeto de pesquisa a fim de perceber meandros, detalhes e“piscadelas” que se estabelecem em princípio como ícones que podem revelar todo o enredar do tecidocultural, ou a “teia de significados” proposta por Geertz. De forma não prevista, assim vem sendo apesquisa sobre a igreja de Santana do Bujaru: sua distância, dificuldades de acesso e outros problemasinerentes ao momento da pesquisa tem exigido uma observação em detalhes, sobre vários prismas, mas deforma densa e sistemática. Nem sempre o objeto é o foco, mas é sempre o objetivo. Vem sendo produzidos alguns cadernos de anotações de pesquisa, mas o principal é o deregistros de campo. Em princípio buscou-se resgatar as impressões primeiras, que só assumiramsignificado ou forma inteligível a posteriori. É difícil fazer a transcrição imediata dos sentires quando oobjeto é repleto de subjetividade. Transcrever todos estes elementos de pesquisa será esforço para outromomento, mas alguns destes índices se apresentaram de forma mais incisiva, como já exposto. Nesse momento a busca foi pelo registro da proposta de chegar a Santana sem o auxílio de umautomóvel.8 Descaminhos para Bujaru Não é difícil o acesso a Bujaru, porém é necessária certa iniciação. Chegar à rodoviária deBelém, comprar uma simples passagem, por si, já exige um conhecimento prévio das rotas, das rodovias,dos acessos. Não há uma única placa das empresas de ônibus ou de vans que indiquem Bujaru comodestino [FOTOS 8, 9 e 10]. Tendo ido ou passado por Bujaru em viagens anteriores, sempre de carro,sabia que o caminho seguiria a BR-316 até o município de Santa Isabel, através do qual poderia chegar à 5
  6. 6. beira do Rio Guamá, no município de Inhangapi, e atravessá-lo por balsa para, na outra margemdesembarcarmos em Bujaru. “Bujaru não é destino, é passagem”, alguém me afirma na fila do guichê narodoviária de Belém, o que era visível e sensível. Durante as duas tentativas, pude observar que muitas pessoas tinham, de fato, como destino a cidadede Bujaru, algumas suas áreas rurais que eram denominadas como “quilômetro tal”, o que significavaque, no referido trecho haveria um ramal que levaria à comunidade. Ninguém se identificava indo paraesta ou aquela localidade, mas para um ponto da estrada onde encontraria um meio (normalmentefamiliar) de deslocamento ao seu destino, como uma motocicleta ou bicicleta, senão a pé. Mas fui alertadaque “saltar na estrada é perigoso, tem muito assalto”: era necessário ter um reconhecimento do territórioe ser reconhecido por sua população a fim de não sofrer riscos. Melhor seria pegar um moto-taxi no portode Bujaru, “mas os da cooperativa porque entre os outros tem muito assaltante“. A primeira viagem deu a exata medida da limitação de se chegar à Santana: não existetransporte regular para o distrito e o deslocamento individual por moto-taxi custaria cerca do dobro dovalor gasto para viajar de Belém a Bujaru. Tendo ido no dia do Recírio, foi grande a surpresa em vertodos os órgãos públicos com suas portas fechadas, como se fosse feriado. Haveria um ônibus no fim datarde a caminho de Santana, o mesmo que retornaria de madrugada trazendo trabalhadores e produtosagrícolas: única forma de deslocamento coletivo. A segunda viagem contou com o apoio de uma fazendeira que, ao chegar em Bujaru, já melevou para almoçar na casa do prefeito, que disponibilizou um automóvel para os deslocamentosnecessários. Desde a primeira viagem foi sensível o valor cultural de Santana para a população de Bujaru:eles reconhecem como sítio inicial, atribuem-lhe valor histórico, mas também destacam a igreja de SantaMaria e o Bom Intento como referenciais históricos. Esta segunda viagem foi mais produtiva: tive acesso à legislação municipal, pude conhecervários interlocutores, situações e lugares que somaram informações relevantes e, principalmente, nãoconsegui chegar à Santana. Embora tenha passado dois dias em Bujaru, um fato se destacou: não há comochegar aos lugares se não houver autonomia sobre os meios.9 Território de memórias e não-lugares Bujaru possui vários lugares onde a comunidade mantém efetivamente uma relação física esimbólica, traduzido-se em expressões e narrativas que assumem corpo no discurso com sua população. Um ponto especial interesse para a pesquisa seria conhecer a igreja de São João Batista emGuajará-Açu por possuir aspectos arquitetônicos relevantes, observados em fotografia antiga. A surpresafoi o coro de desconhecimento desta, indicando-me a visita a outra: de Santa Maria. Ao chegarmos emSanta Maria, eis que identifico a fotografia da igreja de São João Batista: mesmo tendo o santo comoorago, o culto a Santa Maria por aquele povo levou a re-nomeação da igreja e da comunidade. Outro lugar para o qual fui convidada a conhecer: as ruínas do Sítio Bom Intento. Antecipadapor um conjunto de narrativas que faziam referência ao mito de riquezas encontradas e segredos adescobrir, pouco que sabe daquele lugar além do que ele se apresenta: a apreciação do pitoresco de umaruína e seus mistérios. Atualmente o local abriga uma comunidade agrícola e possui uma placa indicandoser um parque ambiental. A memória oral é a grande fonte de informação desta comunidade. Um sem-número de pessoasindicou pessoas idosas que são guardiãs deste ou daquele legado de informação. Neste ponto não há comonão lembrar das palavras iniciais de Nora:“Aceleração da história. Para além da metáfora, é preciso ter a noção do que a expressão significa: umaoscilação cada vez mais rápida de um passado definitivamente morto, a percepção global de qualquercoisa como desaparecida – uma ruptura de equilíbrio. O arrancar do que ainda sobrou de vívido nocalor da tradição, no mutismo do costume, na repetição ancestral, sob o impulso de um sentimento 6
  7. 7. histórico profundo. A ascensão à consciência de si mesmo sob o signo do terminado, o fim de algumacoisa desde sempre começada. Fala-se tanto de memória porque ela não existe mais.” (Nora, p.7) A realidade percebida em Bujaru é que os dados históricos ainda subsistem como tradição econstrução coletiva. As referências documentais se tornam menos relevantes que o dado humano, que asrelações interpessoais que garantem desde o transporte até a informação; da segurança da escolha certa,da escolha do melhor caminho à invisibilidade daquele que só passa por Bujaru. Neste sentido temos doisfocos: o da memória e da história como oposições e metáforas do legítimo e da construção. Não posso me furtar em relembrar o ocorrido em relação à imagem que a comunidade tinhacomo “Nossa Senhora do Carmo”, foi identificada, de acordo com seus atributos, como “SantaBárbara”. Qual seria a verdade a se preservar: a científica ou a cultural? Como ficariam todas as oraçõesque foram encaminhadas para a Mãe de Deus, porém para o endereço errado? Os encontros de reza deterço, as promessas, os milagres, enfim, a fé? E depois de nossa passagem pela comunidade, teria sidorelevante as nossas descobertas, toda a relação de culto à Nossa Senhora seria mudado para outra santa, ascarolas desconsiderariam as nossas “verdades” ou elas virariam piada frente ao seu grupo? E em Guajará-Açu, o que importa se a igreja é de Santa Maria ou de São João Batista se, naverdade de seu povo eles chamam de “nossa pequena Sé”? Até quanto a ruptura com o ciclo deidentidade, mesmo que eivado de “erros” na cientificidade das informações, não pode provocar um hiatona tradição? Não raras vezes nos defrontamos com situações semelhantes, onde nos orgulhamos pordescobrir o documento inédito e o fato novo que revolucionará o lugar-comum das verdadesestabelecidas. Muitas vezes não temos como escapar do enfrentamento, mas, nas vezes em que,pessoalmente, optei por manter a capa das verdades sociais, me senti mais afim com o contexto. Como amanutenção da pátina, do estrato de solo que protege as informações relevantes de fato. “A história é areconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômenosempre atual...” (Nora, p. 9). Fica a opção entre deixar de lado as afirmações científicas e respeitar amemória ou de produzir um lugar de verdades-de-ninguém que serão, certamente, ressignificadas.10 Esquecimento e patrimônio “Há locais de memória porque não há mais meios de memória.” Pierre Nora Há uma relação clara entre abandono desta comunidade e a transformação dela em lugar dememória para a população de Bujaru: Santana é um lugar onde pode-se alimentar a utopia da preservaçãoda memória, alheia à necessária mercantilização da urbe. “Este ‘lugar sem lugar’ auto-cercado, diferentemente de todos os lugares ocupados ou cruzados diariamente, é também um espaço purificado. Não que tenha sido limpo da variedade e da diferença, que constantemente ameaçam outros lugares com poluição e confusão e deixam a limpeza e a transparência fora do alcance dos que os usam (...) excluído o risco da aventura, o que sobra é divertimento puro, sem mistura ou contaminação.” (Bauman, p.116) Santana do Bujaru é um espaço vazio, a margem da construção histórica e modernizadora daregião, que agora só tem significado para as pessoas que vivem naquele lugar. Nos séculos em que o rioera a grande via de locomoção, Santana localizava-se de forma coerente. Com a construção da rodoviaPA-140, tornou-se um dos 7
  8. 8. “lugares que ‘sobram’ depois da reestruturação de espaços realmente importantes: devem a sua presença fantasmagórica à falta de superposição entre a elegância da estrutura e a confusão do mundo (qualquer mundo, inclusive o mundo desenhado propositalmente), notório por fugir a classificações cabais. Mas a família dos espaços vazios não se limita às sobras dos projetos arquitetônicos e às margens negligenciadas das visões do urbanista. Muitos espaços vazios são, de fato, não apenas resíduos inevitáveis, mas ingredientes necessários de outro processo: o de mapear o espaço partilhado por muitos usuários diferentes.” (Kociatkiewcz e Kostera, In Bauman, p. 121) Santana do Bujaru, expressa materialmente em sua igreja e o acervo que a ela pertence possuiuma dupla (senão tripla) relação: a primeira com a população que habita o distrito que, sendo ou nãocatólicas, não tem como desconsiderar o lugar físico e simbólico da igreja; a segunda com a população deBujaru e aqueles que veem na igreja de Santana o seu potencial histórico, cultural e, porque não dizer,econômico como atrativo turístico – para estes a igreja é história de Bujaru manifesta neste lugar; paraaqueles que seriam atraídos eventualmente para lá, Santana seria um lugar de história (se fosseapresentado, traduzido como tal) e um não-lugar, por não estabelecer vínculo identitário legítimo. Poderiaainda dizer que para os que passam pela PA-140, Santana do Bujaru e sua igreja simplesmente nãoexistem. “O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos.” (Bauman, p.122) Até que ponto dotar Santana do Bujaru de um atributo que lhe é exógeno, como novaidentidade à santa de devoção, o convívio com um bem protegido por uma lei de patrimônio (oumesmo o título de patrimônio do Pará), valores históricos que são desconhecidos, mas que serãoatrativos para pessoas que invadirão o território, podendo transformar o ritmo da comunidade,são valores relevantes? Por sua vez negar a relevância que possui também poderia serdepreciativo à crença no valor que a igreja de Santana possui.11 Patrimônio: identidade ou história Neste momento há a expectativa por uma ação do poder público. As potencialidades foramapresentadas e o véu da inocência foi rasgado. Se a igreja de Santana fosse mantida sob os olhos únicosde sua comunidade, continuaria sendo preservada por mais alguns séculos com a mesma competência,mas agora o risco sobre este patrimônio foi deflagrado e seria irresponsável fingir não vê-lo. Porém,atentos a todos os riscos, devemos trabalhar com mais delicadeza. Mais do que por um “modismo antropo-sociológico”, precisamos nos preocupar com asconsequências de nossas ações técnicas, que possuem um alcance muito mais profundo que a eficiênciaou precisão. Quando revelamos um fato histórico ou uma informação, essas pesquisas, ao mesmo tempoem que revelam novas dimensões da vivência de um grupo, falam que eles não são o que eles acreditavamser, estanca o ser de sua realidade cotidiana: a igreja invade de pessoas atentas e desconhecidas, quereviram sua casa e ressignifica suas referências. Esta nova dimensão não pode ser aberta sem aparticipação da comunidade. Há a necessidade de sistematização dos testemunhos revelados durante apesquisa, e mais que coloca-los a disposição da pesquisa acadêmica ou dos órgãos públicos, devemosconstruí-la e disponibiliza-la em conjunto com o meio social em que se insere. Apenas eles têm omandato para determinar que informações devem receber relevo em relação a outras. 8
  9. 9. Não se trata, em Santana do Bujaru em descobrir “sinais visíveis daquilo que foi (...) noespetáculo dessa diferença o brilho súbito de uma identidade inencontrável [ou] o deciframento de queestamos à luz do que não somos mais” (Nora, In Augé, p. 28), mas entender que lá não há nada para serdescoberto ou que seja mais verdadeiro ou relevante que a memória viva e a identidade de um lugar,fornecer as armas do conhecimento para que possam usá-las como acharem mais adequado.12 ReferênciasAUGÉ, Marc. Não-lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade . Campinas/SP: Papirus,1994 (Coleção Travessia do Século)BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III – Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. São Paulo:Brasiliense, 1994.BINDE, João Luis. Não Lugares - Marc Augé. ANTROPOS – Revista de Antropologia – Volume 2, Ano 1, Maiode 2008 (p.121/124)BOFF, Leonardo. A águia e a galinha. Petrópolis: Editora Vozes, 2002COELHO NETO, José Teixeira . O que é ação cultural. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988 (Coleção PrimeirosPassos, nº 216)DE CASTRO OLIVEIRA, Domingos Sávio. Capela Pombo, Belém PA: interpretação eperspectivas. Arquitextos, São Paulo, 10.109, Vitruvius, jun 2009DE CASTRO OLIVEIRA, Domingos Sávio. Capela Pombo, Belém PA: interpretação e perspectivas.Belém:UFPA, 2008DPHAC/SECULT. LEVANTAMENTO PRELIMINAR DO PATRIMÔNIO CULTURAL DO MUNICÍPIODO ACARÁ - 2009 (Relatório Técnico nº 033/09)GEERTZ, Cllifford. A interpretação das Culturas. Zahar. Rio de Janeiro, 1973LUSTOSA, Antonio de Almeida. No estuário amazônico: à margem da visita pastoral. Belém : ConselhoEstadual de Cultura, 1976.MARQUES, F. L. T. . Engenhos dos jesuítas no estuário amazônico. In: XI Jornadas Jesuíticas, 2006, PortoAlegre. Resumos, 2006.MARQUES, F. L. T. . O Indígena em Engenhos Coloniais no Estuário Amazônico: uma abordagemarqueológica. In: II Seminário de História do Açúcar: trabalho, população e cotidiano, 2007, Itu. II Seminário deHistória do Açúcar: trabalho, população e cotidiano. Itu, 2007. v. 1.MARQUES, F. L. T. ; CUNHA, Ana Paula Macedo . Empreendimentos Jesuíticos no Estuário Amazônico:Potencial Histórico e Arqueológico da Fazenda Jaguarari e do Engenho Real Ibirajuba. In: XIII Congresso daSociedade de Arqueologia Brasileira, 2005, Campo Grande. Resumos do XIII Congresso da SAB. Campo Grande,2005.MEIRA FILHO, Augusto. Evolução Histórica de Belém do Grão-Pará. Belém: Grafisa, 1976RODRIGUES, Paula Andréa Caluff. Traços de Antônio Landi (1713 / 1791) nas paroquiais da Amazônia:estudo imagético, tipológico e estilístico de igrejas da Mesorregião do Nordeste Paraense. Belém: UFPA, 2008.VÁRIOS. História e Cultura. São Paulo: EDUC/PUC-SP, 1999 (Série “Projeto História”, 10) 9

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