"Mestre, são plácidas" - Ricardo Reis

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"Mestre, são plácidas" - Ricardo Reis

  1. 1. Mestre, são plácidas – Ricardo Reis Relação entre “nós” e o “Tempo” • O sen<do da relação entre o «nós» e o «Tempo» está simbolizado na referência à figura mitológica de Cronos, o deus que devora os filhos: o «Tempo» é assim definido como o pai e, simultaneamente, o devorador, o aniquilador de «nós». • A consciência do carácter inelutável desse facto exige a aprendizagem da sua total aceitação por parte do «nós», de modo a saber conformar-­‐se às leis do tempo (ao devir da vida, à inscrição do tempo em «nós» -­‐ «Envelhecemos»), assim, não vale a pena lutar contra as leis do tempo, pois elas são eternas e intocáveis, a “nós” cabe aceitá-­‐las de forma tranquila e plácida, exis<ndo, desta forma, uma relação de submissão entre “nós” e o “Tempo”. Importância das formas verbais «saibamos» (vv. 10 e 28), «Colhamos» (v.37) e «Molhemos» (v.38). • O uso das formas verbais «saibamos» (vv. 10 e 28), «Colhamos» (v.37) e «Molhemos» (v.38), na primeira pessoa do plural do modo conjun?vo, com valor impera?vo/opta?vo, é construtor de um sen?do exorta?vo, dirigido a um «nós», contribui para a formulação de máximas que encerram ensinamentos de vida e confere ao texto o estatuto de proposta de uma filosofia geral de vida.
  2. 2. Valor simbólico das referências às «flores» (vv. 6 e 37), aos «Girassóis» (v.43) e aos «rios» (v.40). Os elementos «flores» (vv. 6 e 37), «Girassóis» (v.43) e «rios» (v.40) presen?ficam a «Natureza» como a realidade com que o «nós» se iden?fica, convocando ainda, cada um deles, valores simbólicos próprios. Assim, as «flores» representam a beleza perecível, os «Girassóis» (que mudam de orientação, acompanhando o movimento do Sol), a vida iluminada e regida pela luz do Sol e os «rios», a passagem das «horas», do «Tempo». Todos estes elementos, de alguma forma, simbolizam a efemeridade do tempo, a passagem atroz do tempo que nunca pára e é irreversível. Refere a importância, no texto, do vocabulário rela<vo à ideia de calma. Os adje<vos «plácidas» (v.1), «Tranquilos» (vv. 14 e 46), «plácidos» (v. 14), «calmos» (v. 40) e os nomes «Calma» (v. 42) e «descanso» (v. 23) tornam recorrente no poema a ideia de calma e de serenidade. Contribuem, assim, para afirmar a centralidade do tema do sossego absoluto, sem qualquer perturbação, entendido como o ideal a a?ngir na vivência do «Tempo».
  3. 3. Filosofia de vida expressa no poema. A filosofia de vida expressa no poema é a defesa da arte de viver sem envolvimento emocional com o presente e sem expecta?vas de futuro, por forma a chegar à morte sem sobressalto e com o mínimo de sofrimento («Não a viver» -­‐ v. 12; «tendo/Nem o remorso/De ter vivido» -­‐ vv. 46-­‐48). O sujeito poé<co aspira a «decorrê-­‐la» (à vida), isto é, a a?ngir a sensação elementar de exis?r, aceitando voluntariamente o seu des?no, aprendendo a viver em conformidade com as leis da «Natureza», aceitando, com calma lucidez, a rela?vidade e a fugacidade de todas as coisas, recusando «tristezas» e «alegrias», na busca da indiferença à dor, ao desprazer, a qualquer sen?mento extremo. Valor expressivo da palavra «Mas» (v. 13). A palavra «Mas», que inicia a terceira estrofe, adquire extrema importância no sen<do do poema, uma vez que, por ser uma conjunção coordena<va adversa<va, estabelece uma oposição de sen?dos com a ideia anteriormente veiculada. Assim, após ter defendido que «nós» devemos não viver a vida (como todo o ser humano a vive), devemos saber «decorrê-­‐ la» tranquila e placidamente como as crianças, ou seja deixar que ela passe assim como o rio, porque nada que nós façamos vai mudar o seu curso, o que está de acordo com a sua filosofia de vida.

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