Capítulo XI - Crónica de D. João I de Fernão Lopes

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Leitura analítica e crítica do Capítulo XI - Crónica de D. João I de Fernão Lopes

Publicada em: Educação
  • Bom dia, boa tarde e boa noite!!! Eu sendo um dos seus seguidores, venho por este meio pedir-lhe que publique um slide sobre o capítulo CXLVIII da crônica de D. João I. Caso ainda não queira publicar, gostaria que o envia-se para o email: marciofernandes08@hotmail.com. Gosto muito do teu trabalho e tem mi ajudado muito. Obrigado! :)
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Capítulo XI - Crónica de D. João I de Fernão Lopes

  1. 1. Leitura ativa do capítulo XI da Crónica de D. João I Do alvoroço que foi na çidade cuidamdo que matavom o Meestre, e como allo foi Alvoro Paaez e muitas gemtes com ele O Page do Meestre, que estava aa porta, como lhe disserom que fosse pella villa segumdo ja era perçebido, começou d'hir rrijamente a gallope em çima do cavallo em que estava, dizemdo altas vozes, braadamdo pella rrua: ─ Matom o Meestre! matom ho Meestre nos paaços da rainha! Acorree ao Meestre que matam! E assi chegou a casa d'Alvoro Paaez, que era d'alli gramde espaço. As gentes que esto ouviam sahiam aa rrua veer que cousa era; e, começamdo de fallar huüs com os outros, alvoraçavomsse nas voomtades e começavõ de tomar armas cada huü como melhor e mais asinha podia. Alvoro Paaez, que estava prestes e armado cõ huüa coiffa na cabeça, segumdo husamça d'aquell tempo, cavallgou logo a pressa em çima d'huü cavallo que anos aviia que nom cavallgara; e todos seus alliados com elle, braadamdo a quaaes quer que achava dizemdo: ─ Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre, ca filho he d'el-rei Dom Pedro. E assi braadavom ell e o Page himdo pella rrua. Quem dá o alerta é o pajem do mestre. Estado de exaltação do pajem Utilização do gerúndio – continuidade da ação. Existe o rumor de que matam o mestre, por isso é necessário que todos acorram a fim de o salvar. ”Alvoro Paaez” – homem de confiança de D. Fernando e defensor de D. João, Mestre de Avis (teve um papel importante na rebelião e apoio de D. João) Preocupação e atitude do povo: Vontade de salvar D. João; Entrega a esta causa; São capazes de tudo para o defender. Sensorialismo da linguagem = recurso às sensações Sensação auditiva – recriação do ambiente – permite ao leitor a vivência do momento Defesa do nacionalismo Sensação auditiva Importância do gerúndio = continuidade da ação
  2. 2. Soarom as vozes do arroido pella çidade, ouvimdo todos braadar que matavom o Meestre; e assi como viuva que rei nom tiinha, e como sse lhe este ficara em logo de marido, se moverom todos com maão armada, corremdo a pressa pera hu deziam que sse esto fazia, por lhe darem vida e escusar morte. Alvoro Paaez nom quedava d'hir pera alla, braadamdo a todos: ─ Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por que. A gemte começou de sse jumtar a elle, e era tanta, que era estranha cousa de veer. Nõ cabiam pellas ruas primçipaaes, e atravessavom logares escusos, desejando cada huü de seer o primeiro; e preguntamdo huüs aos outros quem matava o Meestre, nom mimguava quem rrespomder que o matava o Comde Joham Fernamdez, per mamdado da Rainha. E per voomtade de Deos, todos feitos d'huü coraçom, com tallemte de o vimgar, como forom aas portas do Paaço, que eram ja çarradas, amte que chegassem, com espamtosas pallavras começarom de dizer: ─ Hu matõ ho Meestre? Que he do Meestre? Quem çarrou estas portas? Alli eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taaes hi avia que çerteficavõ que o Meestre era morto, pois as portas estavom çarradas, dizemdo que as britassem pera emtrar demtro, e veeriam que eera do Meestre, ou que cousa era aquella. D'elles braadavom por lenha, e que vehesse lume pera poerem fogo aos Paaços e queimar o treedor e a aleivosa. Outros sse afficavom, pedimdo escaadas pera sobir açima, para veerem que era do Meestre; e em todo isto era ho arroido atam gramde que sse nom emtemdiam huüs com os outros, nem determinavom nehuüa cousa. E nom soomente era isto aa porta dos Paaços, mas ahimda arredor d'elles per hu homeës e molheres podiam estar. Huüas viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueyja pera açemder o fogo cuidamdo Sensação auditiva Comparação – reforça a relação do povo com D. João Discurso direto – aproxima o leitor da ação Sensorialismo da linguagem = recurso às sensações Sensação visual – relatos mais realistas A força e convicção do povo que apoia D. João Sensação auditiva Frases interrogativas – exaltação do povo – mostra a sua dedicação e preocupação em relação ao Mestre Estratégias para se certificarem da morte de D. João e para vingar o Mestre Utilização expressiva/subjetiva do vocabulário – “aleivosa” Sensação auditiva Esta algazarra/confusão só reforça a força e crença do povo
  3. 3. queimar o muro dos Paaços com ella, dizemdo muitos doestos contra a Rainha. De çima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo, e o Comde Joham Fernamdez morto; mas isto nom queria nehuü creer, dizemdo: ─ Pois se vivo he, mostraaenollo e veelloemos. Emtom os do Meestre, veemdo tam gramde alvoroço como este, e que cada vez se açemdia mais, disserom que fosse sua merçee de sse mostrar aaquellas gemtes, d'outra guisa poderiam quebrar as portas, ou lhe poer o fogo, e emtramdo assi demtro per força, nom lhe poderiam depois tolher de fazer o que quisessem. Alli sse mostrou ho Meestre a hüa gramde janella que viinha sobre a rrua omde estava Alvoro Paaez e a mais força de gemte e disse: ─ Amigos, apacificaae-vos, ca eu vivo e saão soom a Deos graças. E tamta era a torvaçam d'elles, e assi tiinham ja em creemça que o Meestre era morto, que taaes aviia hi que aperfiavõ que nom era aquelle; porem, conheçendo-o todos claramente, ouverom gram prazer quamdo o virom, e deziam huüs comtra os outros: ─ Oo que mall fez! pois que matou o treedor do Comde, que nom matou logo a alleivosa com elle. Creedes em Deos aimda lhe ha de viinr alguü mall per ella. Oolhae e veede que maldade tam gramde, mamdaram-no chamar omde hia ja de seu caminho, pera o matarem aqui per traiçom. Oo alleivosa! ja nos matou huü senhor, e agora nos queria matar outro; leixaae-a, ca ainda ha mall d'acabar por estas cousas que faz. E, sem duvida, se elles emtrarom demtro, nom sse escusara a Rainha de morte, e fora maravilha quamtos eram da sua parte e do Comde poderë escapar. O Meestre estava aa janella, e todos oolhavom comtra elle dizemdo: ─Oo Senhor! como vos quiserõ matar per treiçom! Beemto seja “Ver para crer” Este receio sentido pelos “do Meestre” reforça o poder que o povo enquanto personagem coletiva tem Sentimentos partilhados pelo povo ao longo de toda esta ação Crítica ao Mestre – o povo considera que D. João devia ter morto D. Leonor Teles. Expressividade e subjetividade da linguagem – “aleivosa” Insinuação de que foi D. Leonor quem matou D. Fernando
  4. 4. Deos que vos guardou desse treedor! Viimde-vos, daae ao demo esses paaços, nom sejaaes la mais. E, em dizemdo esto, muitos choravom com prazer de o veer vivo. Veëdo el estomçe que nehuüa duvida tiinha em sua segurança, deçeo afumdo e cavallgou com os seus, acompanhado de todollos outros que era maravilha de veer. Os quaaes mui ledos arredor d'elle, bradavom, dizemdo: ─ Que nos mandaaes fazer, Senhor? Que querees que façamos? E ell lhes rrespomdia, aadur podemdo seer ouvido, que lh'o gradeçia muito, mas que por estomçe nom avia d'elles mais mester. E assi emcaminhou pera os paaços do almiramte, hu pousava o Comde Dom Joham Affonsso, irmaão da Rainha, com que avia de comer. As donas da çidade, pella rrua per hu ell hia, sahiam todas aas janellas com prazer, dizemdo altas vozes: ─ Mantenha-vos Deos, Senhor! Beemto seja Deos, que vos guardou de tamanha traiçom, quall vos tiinham basteçida! Ca nenhuü por estomçe podia outra cousa cuidar. E hindo assi ataa emtrada do Ressio, e o Comde viinha cõ todollos seus e outros boõs da çidade que o aguardavom, assim commo Affomss' Eanes Nogueira, e Martim Affonsso Vallemte, e Estevam Vaasquez Phillipe, e Alvoro do Rego, e outros fidallgos; e, quamdo vio o Meestre hir d'aquella guisa, foy-o abraçar com prazer e disse: ─ Mamtenha-vos Deos, Senhor! Sei que nos tirastes de gramde cuidado, mas vos mereçiees esta homrra melhor que nos. Amdaae, vaamos logo comer. E assim forom per os paaços hu pousava o comde. E estamdo eles por sse asseentaraa mesa, disserom ao Meestre como os da çidade queriam matar o Bispo, e que faria bem de lhe hir acorrer; e o Meestre quisera allo hir. Disse entomçe o Conde: Nom curees disso, Senhor, se o matarem, quer o matemquer nom; ca posto que ele moira, nom mimguara outro Bispo portuguees que vos serva melhor que ele. Ao dito do Sentimentos partilhados pelo povo ao longo de toda esta ação Completa dedicação a D. João Sensação auditiva Apoiantes de D. João D. João não mostra grandes rasgos de personalidade nem atitudes intensas. Aceita e adequa-se às circunstâncias, aceitando as orientações que lhe são dadas e manifesta carinho pelo povo.
  5. 5. Conde çessou o Meestre de sua boa voomtade, e o Bispo foi morto desta guisa que sse segue. Notas finais/gerais: - Fernão Lopes manifesta a sua parcialidade/subjetividade através da empatia com o povo e do retrato que faz de D. Leonor Teles. - Fernão Lopes utiliza a “técnica da reportagem” na medida em que descreve de forma minuciosa e realista os acontecimentos como se também ele fosse parte atuante. - As suas crónicas mostram uma visão objetiva e cinematográfica dos eventos, já que as descrições feitas são pormenorizadas, assumindo planos mais gerais e outros particulares. - O recurso ao sensorialismo da linguagem é uma constante, o que confere uma maior verdade ao relato, ou seja, torna a prosa mais realista, permitindo ao leitor “ver”, “ouvir”, “tocar”, “cheirar” e “saborear” o mesmo que os participantes da ação. - O papel do povo, enquanto personagem coletiva, é crucial para a vitória de D. João. É a sua força, crença e espírito de sacrifício que permitem que a história seja assim feita. A união do povo é símbolo de poder e atribui poder a esta causa. Tudo isto é possível devido à coragem e patriotismo sentidos pela multidão.

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