Família Krahenbuhl

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Família Krahenbuhl

  1. 1. FAMÍLIA R E N É R. K r à h e n b u h l 2007
  2. 2. Foto da capa: Em frente da casa do Nicolau Kràhenbühl em Friburgo SP (foto tiradaaprox. em 1904):Nicolau Kràhenbühl (com barba), de Signau BE, junto à esposa Ana Donatsch[Donatz], de Malans GR, ambos imigrados da Suíça, rodeados por:Dora Cristina Wellendorf, casada com João Kràhenbühl (atrás, ao centro) Dorotea Kràhenbühlcasada com Jorge Frederico Fahl (à direita de Dora Wellendorf) Henrique Kràhenbühl casado comAmália Henriqueta Luíza Fahl (atrás, à direita) Amália Henriqueta Luíza Fahl, esposa de HenriqueKràhenbühl (sentada) Nicolau Albino (sentado no colo da mãe Amália Henriqueta Luíza) JoãoKràhenbühl (sentado na balaustrada à esquerda) Guilhermina Cristina Kràhenbühl (na varanda à dii Ireita, em pé, próximo à coluna) Margarida Kràhenbühl (segunda da direita, atrás) Ana ElisabethKràhenbühl (sentada na escada, à esquerda) Maria Madalena Kràhenbühl (sentada na escada, aocentro) Augusta Kràhenbühl (sentada na escada, à direita) Cristiano Kràhenbühl (na frente, à direita)O original se encontra no arquivo do René Kràhenbühl em Füllinsdorf/Suíça.© Copyright by René Kràhenbühl. Todos os direitos reservados.Edição própria. Füllinsdorf BL (Suíça) / Campinas SP (Brasil), 2006
  3. 3. "Felizes os pais que podem mostrar a seus filhos o que seusancestrais conquistaram"(ditado, sem autor, no museu de Londrina PR) * * *"Aquele que se mantém presente na memória dos entes queridos,não está morto. Morto é apenas aquele que é esquecido"(Barão Josef Cristiano von Zedlitz, poeta austríaco, 1790-1862) * * * O autor René Robert Kràhenbühl Ob. Rainweg 6 CH-4414 Füllinsdorf BL Suíça rene.r.kraehenbuehl@bluewin.ch Traduções do alemão para o português Revisão da edição em português Walter Kràhenbühl Dione Kràhembühl Salvador Haydée Kràhenbühl Padula Rua Otávio Mazzotini, 595 Rua D. Joaquim M. Silva Leite, 40 Rua Monteiro Lobato, 72 Jardim do Lago Jardim do Lago Centro BR-13050-016 Campinas SP BR-13050-006 Campinas SP BR-13930-000 Serra Negra SP familiasalvador@terra.com.br hkpadula@uol.com.br
  4. 4. índice Páginas Prefácio 1 Introdução e agradecimentos 2-3 Um cofre misterioso 4-9 Maus tempos (na Suíça) - bons tempos (no Brasil) 10-16 27 cartas dos emigrantes (traduzidas para o português) 17-71 Fotos e ilustrações 72 - 88 Apêndice a) Glossário e Equivalentes 89 - 92 b) Câmbio, medidas e pesos 93 c) Indicação das fontes 94 - 95 d) Bibliografia 96 - 99 e) Tabelas dos filhos de João Kráyenbühl (1789-1859), de Signau BE, (Linhagem A - H) e seus descendentes 100 - 126 f) Lista das colônias parceiras no estado de São Paulo nas 127 • 128 = quais trabalharam imigrantes suíços e alemães g) Mapas da Suíça: Central, Signau e arredores, Schlossrued Mapas do Brasil: Santos, São Paulo, Campinas, Friburgo SP 129-136 h) A família do autor 137
  5. 5. Prefácio"Amado pai, amados irmãos e irmãs !"- Uma bem sucedida emigração de quatro irmãos Krãhenbühl da Suíça para oBrasil, nos anos 1854 e 1857, documentada e baseada em vinte e sete fascinantescartas, documentos históricos e inúmeras ilustrações.Este livro é dedicado a todos os descendentes dos irmãos de meu bisavô, UlrichKrãhenbühl, de Signau, residente, na época, em Schlossrued e Dintikon, estado deAargau na Suíça: Pedro, Cristiano, Samuel e Nicolau, os quais emigraram para oBrasil. Muitos desses descendentes colaboraram para o bom resultado deste livro,construindo, assim, uma ponte com os parentes na Suíça. A eles, meu cordialagradecimento.René Krãhenbühl, Füllinsdorf (Suíça), 2006Transcrição de correspondênciasna antiga escrita alemã bem comoredação dos textos René R. Krãhenbühl, Füllinsdorf BLrTradução para o Portuguê Walter Krãhenbühl & Dione Krãhembühl Salvador, Campinas-SPPatrocinadores do projeto Alberto Morato Krãhenbühl e família, São Paulo-SPImpressão e encadernação NOVA BANDEIRA, Produções Editorais, São Paulo-SPDistribuição no Brasil através de Dione Krãhembühl Salvador e Ernestina N. Krãhenbühl, Campinas-SP (familiasalvador@terra.com.br) Ceei Soares Krãhenbühl Piccina, São Paulo-SP (ceci@consurb.com.br)Distribuição na Suíça através de René R. Krãhenbühl, Füllinsdorf BLObservações: © A permissão para a reprodução do brasão inovativo da emigração Suíça-Brasileira, foi gentilmente concedida por Adyr José Bannwart e Fernando von Zuben Bannwart. © Este livro também está disponível em alemão. 1
  6. 6. Introdução e agradecimentosFinalmente a história dos 4 irmãos de meu bisavô Ulrich Kràhenbühl 1 , que em 1854 e1857 emigraram da Suíça para o Brasil, pode ser divulgada.Quando, em 1977, eu terminei um levantamento da família Kràhenbühl de Signau2, esta-va com a firme convicção de que pouco tempo seria necessário para lançar a segundaparte da pesquisa. Mas, as diversas interrupções do trabalho no Brasil e a contínuadescoberta de novos parentes, datas históricas, documentos e fotografias, sempre meforçaram a adiar a intenção. Tinha a impressão de que precisaria esperar pela finalizaçãoda coleta dos dados para a publicação. Sabe-se, também, que a história familiar nunca seconclui. Sempre há alterações nas famílias, nos locais e muitos outros acontecimentospodem ocorrer.Talvez ainda esperássemos muito tempo por este livro, se eu não tivesse sido motivadopelos parentes brasileiros para transcrever a antiga escrita para a forma atual. Assim,decidi ilustrar com fotografias a fascinante história dos Kràhenbühl e relacioná-la com agenealogia correspondente. Esta publicação confirma o orgulho que vocês podem ter deseus ancestrais. Ao contrário de muitos descendentes de imigrantes, vocês têm a provada sua origem.Esta publicação poderá, também, fortalecer os laços familiares entre a Suíça e o Brasil.Os raros documentos e a história dos parentes nascidos no século XIX estão prestes acair no esquecimento, também dentre os descendentes na Suíça. Eu espero que estelivro seja um impulso para que as novas gerações procurem contatos e os conservem.Walter Kràhenbühl e sua filha Dione, com suas traduções, e Haydée KràhenbühlPadula, com suas correções, possibilitaram a edição deste livro em dois idiomas.Um agradecimento especial do autor aos seguintes parentes, pessoas e instituições peloseu apoio financeiro, cooperação, estímulo, disponibilidade ou doação de documentos efotos:No BrasilAdyr José Bannwart, Campinas-SPAlberto Morato Kràhenbühl, São Paulo-SPCyro & Saly Pincke Kràhenbühl, Dois Córrego-SPDione Kráhembühl Salvador, Campinas-SPElise Philipowsky Costa, Piracicaba-SPGuido Kràhenbühl & Vilma do Carmo Costa Oliveira, Ituverava-SPHaydée Kràhenbühl Padula, Serra Negra-SPHelena Ferreira de Camargo, Birigüí-SPHélio Morato Kràhenbühl +Henni Ingried Hein, Serra Negra-SPLea & Godofredo Rollbusch, Indaiatuba-SPMarcos & Pedro Paulo Valvano Kràhenbühl, Piracicaba-SPMaria Alvina von Ah Kràhenbühl, Campinas-SPMercedes Petry, Botucatú-SPNewton & Jacy Fahl, Londrina-PR1 Ulrich Kràhenbühl (1827-1906).2 Vide Bibliografia n°23.2
  7. 7. Nizze Krãhenbühl Ferraz +Noedy Krãhenbühl Costa +Paulo Masuti Levy, Limeira SPRachel Morato Krãhenbühl, Jundiaí SPRuy Carlos de Camargo Vieira, Brasília DFTácito Morato Krãhenbühl +Walter & Ernestina Krãhenbühl, Campinas SPFundação Pró-Memória, Indaiatuba SPInstituto Histórico e Geográfico de Piracicaba SPInstituto Martius-Staden, São Paulo SPMuseu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, Piracicaba SPUnicamp, Campinas SPGostaria de mencionar e agradecer especialmente o patrocínio de Alberto MoratoKrãhenbühl e família (proprietários da empresa Consurb S/A, São Paulo-SP). Graças a suacolaboração financeira, foi possível oferecer este livro a um preço reduzido e, assim,conseguir maior número de interessados.Sr. Alberto diz o seguinte: "Ao conhecer a extensa e minuciosa pesquisa geneaiógica realizada com entusiasmo e dedicação por meuprimo suíço René, pude reviver várias lembranças de minha infância em Piracicaba. Meu avô João quejuntamente com seu irmão Frederico e seu pai Peter criaram a 1a fábrica de veículos de transporte e outros artefatos mecânicos do Estado de São Paulo, conhecida como Casa Krãhenbühl, as histórias de minha avó em seu sotaque alemão e principalmente o exemplo de vida de meu pai Pedro Krãhenbühl. Homem de hábitos simples. Dotado de vasta cultura adquirida inicialmente nas arcadas da faculdade de direito São Francisco. Dom nato para a política, sempre objetivando o bem comum, com inigualável desprendimento dos bens materiais, ao longo de sua trajetória como deputado estadual por duas gestões. Espirituoso e arguto na percepção das cenas do cotidiano e na divulgação dos acontecimentos da época, retratados em sua coluna no "Jornal de Piracicaba", do qual foi proprietário. Campeão brasileiro de charadas. Colaborador assíduo das palavras cruzadas do jornal "O Estado de S^oJtyjJcy. Poeta e escritor carismático.Dedico portanto esta publicação a meu pai e a todos os seus descendentes e parentes, pois o quesomos hoje, devemos a estes homens que honraram o nosso nome e a história de nossas vidas."Na SuíçaRuth Gehrig-Kráhenbühl, Davos GRElise Kráhenbühl-Meier +Hans Kráhenbühl-Meier, Full A GChristian & Trudi Kráhenbühl-Meyer, Ammerswil AGRobert & Lena Kráhenbühl-Stóckli +Werner & Frida Krãhenbühl-Süess +Nella Lüdi-Kráhenbühl +Klara Meier-Kráhenbühl, Dintikon AGLina Schneider-Kráhenbühl, Biel/Bienne BEElsbeth Schweingruber-Appenzeller, Luzern LUNelly Sommer-Roth, Dintikon AGHelen Suter-Hunziker +Rita Zubler-Kráhenbühl, Dintikon AGArquivo Estadual de Aargau, Aarau AGArquivo Estadual de Graubünden GRDr. Béatrice Ziegler Witschi, Hinterkappelen BE Kràhen ... Gralhas. Krãhenbühl ...Colina das gralhas ! (Desenho por Nicole Weibel-Krãhenbühl)
  8. 8. Um cofre misterioso e 27 cartas dos emigrantesTudo começou na casa de minha avó Elisa Krâhenbuhl-Meier em DintikonMeus falecidos pais, Robert e Lena Kràhenbühl-Stõckli 3 , residiram durante mais de 40anos em Burgdorf onde minha irmã Ruth 5 e eu 6 vivemos a nossa infância. Robert eLena 7 tinham uma forte tradição familiar. Não havia festa da qual não tomássemos parte,viajando até nossos avós maternos na região do Glarnerlancf. Inicialmente de trem emais tarde, de carro.No caminho fazíamos sempre uma parada em Dintikon, onde morava minha avó paterna,Elisa Kràhenbühl-Meier, viúva de Fritz (Frederico).Nessas terras também residiu meu bisavô Ulrich Kràhenbühl (1827-1906) (Linha F). Eleera o sucessor do seu pai, Johannes (João) Krãyenbühl [Pai-tronco], arrendatário nocastelo de Rued. Depois da morte de sua esposa Ana Bárbara, nascida Zurflüh, em1902, ele mudou-se para a quinta do seu filho em Dintikon, onde passou seus últimosanos e, em 1906, foi sepultado.Seu filho Fritz (Frederico), meu avô paterno, viveu até 1946. Por isso, minhas lembrançasdele já estão bastante desbotadas - lamentávelmente I Por ser um assíduo leitor eescritor, ele estava sempre em contato com os emigrantes para o Brasil, irmãos esobrinhos de seu pai. Da casa arrendada... ...no "Schloss" Rued... ...para Dintikon 9Minha tia Lina ainda soube informar que os parentes brasileiros, certa vez, mandaramum saco de café cru. Os suíços não sabiam como utilizá-lo até que, finalmente, des-cobriram uma torrefação. Este saco vazio desapareceu, mas, felizmente, não ocorreu omesmo com parte das cartas que vieram do Brasil. Minha avó Elisa Kràhenbühl foi aprimeira que passou às minhas mãos alguns documentos que tinham sido conservados,ainda com a antiga grafia alemã, para que eu - sendo criança - tivesse uma distração,3 Na Suíça é lei e costume que a mulher tome como primeiro nome o do ma do e segjndo o do pai.4 Burgdorf, uma cidade de 15 000 habitantes, capital do Emmental. e aprox S.2Z z.z ~aptal Berna.5 Ruth Vollenweider-Kráhenbühl (*1.8.1945). Vide foto na página 79.6 René Robert Kràhenbühl (*16.3.1939).7 Vide foto na página 80.8 Glarnerland = estado de Glarus na Suíça oriental.9 Lina Elise Kull-Krãhenbühl (1901-1987), filha de Fritz Krãherbü- -4
  9. 9. permitindo-lhes conversar e "fofocar" sossegadamente. Posteriormente, recebi maiscartas antigas de meu padrinho Werner Krãhenbühl 1 0 que era o novo proprietário dafazenda "Krãhenbühl". . /W/í"r/A- d^jggÊ Tí.^fcL Elisa e Fritz Kráhenbühl-Meier Ulrich e Barbara Kràhenbühl-Zurflüh (Linha F)Naquele tempo, como filatelista, interessavam-me primeiramente selos e carimbospostais. Foi grande a decepção, pois, os meninos da vizinhança já os haviam recortadoou descolado. Eu conseguia ler as cartas muito vagamente. Por isso sempre tinha dechamar minha mãe para que me ajudasse. Ela sempre me incentivava para queaprendesse a grafia do alemão antigo, pelo que, hoje, ainda lhe sou grato. Sem essesconhecimentos, minhas pesquisas genealógicas não teriam progredido. Os livros deregistros nas igrejas suíças, já desde o século XVI, bem como os do Brasil na época daimigração suíço-germânica - todos na grafia da época, formam a base de cada pesquisafamiliar. *:- : ••• • /V % Jif/un /->< - wt i J Primeira carta enviada pelos emigrantes em 1857. As cartas foram endereçadas para o irmão Ulrich em Schlossrued e mais tarde em Dintikon na Suíça. v „ Mfítn â u/v -V//////• - ijt- -:. /f/:sn " , f/itm./^ A/flJÔ f t :10 W e r n e r K r á h e n b ü h l - S ü e s s ( 1 9 0 8 - 1 9 7 9 ) , filho de Fritz K r á h e n b ü h l - M e i e r , p a d r i n h o de R e n é K r ã h e n b ü h l . 5
  10. 10. Uma nova emigraçãoMeu interesse por estas exóticas cartas e por seus remetentes foi despertado - e parasempre - na ocasião em que me foi oferecido um cargo de assistente de diretoria na filialda firma matriz, J.R. Geigy Ltda, Basiléia, em São Paulo, no ano de 1963. Imaginem asensação de um membro da família Kràhenbühl ao poder viajar para o Brasil um séculodepois da emigração dos quatro irmãos de meu bisavô I Em 1854 e 1857, viajaram denavio à vela r e eu aqui cheguei de avião. Estava bastante entusiasmado: o Brasil, então,passou a ser a minha segunda Pátria 12 . Chegando ao Brasil, escrevi minha primeira cartapara o endereço dos irmãos Kràhenbühl em Piracicaba. Uma carta do ano de 1896 empapel timbrado da firma Kràhenbühl era a única referência que eu tinha. Estava ciente deque nem o número da casa existiria mais IPode-se, criticar o serviço dos correios e, principalmente, o do Brasil. Mas, no meu caso,em especial, minha carta chegou às mãos de um funcionário do correio em Piracicaba,que deveria ser alguém com pendores para detetive, pois a encaminhou para o DoutorNoedy Kràhenbühl Costa, advogado muito conhecido na cidade: um gênio emlinguagens antigas e modernas, culto, autor de muitos artigos para o "Jornal dePiracicaba", e, além disso, uma pessoa muito receptiva, o que plenamente logo vivenciei.Sua resposta chegou em seguida e superou minhas mais ousadas expectativas. Ele fazia-me um precioso esboço da genealogia de Peter Kràhenbühl. Pedro, assim erachamado no Brasil, era o bisavô de Noedy. Desta forma éramos primos em 3 o g r a u e, medeparei com uma verdadeira "mina de ouro". Até o falecimento de Noedy 14 , há seis anos,nós mantivemos um forte contato. Suas cartas, a maioria de conteúdo histórico-familiar,são verdadeiras obras-primas, não somente pelo seu conteúdo prazeroso, mas, também,pela linguagem extremamente adequada, enriquecida de imagens, impregnada deexpressões em alemão, inglês, francês, latim e grego.Ao Noedy sou muito grato pelas muitas informações e documentos. Ele presenteou-mecom o batistério original 15 do Johannes (João) Kràhenbühl, avô de Noedy, que haviasido dado pelo padrinho Ulrich 16 ao seu afilhado. Este está de volta à Suíça e, hoje,ocupa um lugar de honra no meu arquivo.Também foi ele quem me mostrou o cemitério de Friburgo (Friedburg) em Campinas. Porvárias semanas, num sol ardente 17 , fiquei copiando as inscrições das lápides, sem saberda existência do Walter Kràhenbühl nas proximidades, que, mais tarde, passou a cuidardeste cemitério e fez uma minuciosa catalogação 18 das sepulturas. ! MU.-m-. futmci hi f.inmvv O endereço que deu certo ! A fábrica «Kràhenbühl» em Pira- c caba ainda existe - com pro- ; r a ~ a de fabricação atualizado11 Cristiano & Pedro, de H a m c „ r g : : .ee_: T- L :: -rruérpia pelo veleiro "Boussole".12 Principalmente porque a nossa c r — 5 a • • .o—a Sã: c: . de páginas 80/81.13 Peter (Pedro) Kràhenbühl (1824-188714 Noedy Kràhenbühl Costa [4." / 9" 5 - 2~ - I I . . ü e 83.15 Vide ilustração na página 80.16 Meu bisavô.17 Vide foto na página 7.18 Vide Bibliografia n c 2 6 .6
  11. 11. Somente em 1979 19 tive a oportunidade de conhecer o Walter 2 0 Kràhenbühl e firmar umaparceria, obtendo informações de Nicolau Kràhenbühl (Linha H).Como sua esposa Ernestina 21 , nascida Nilson Steffen, e descendente da linhagem deSamuel Kràhenbühl (Linha G), ficaram, assim, estabelecidos três pontos de contato paraminhas pesquisas.Faz-se necessário, mencionar duas outras especiais senhoras: Henni Ingried Hein dalinhagem de Samuel e Haydée Kràhenbühl Padula da linhagem de Niklaus, que meacompanharam ativamente desde 1975, nas minhas primeiras pesquisas, até hoje 22 .Espero que a amizade de Walter e Ema como, também, da Henni e da Haydée seconserve por muito tempo. Sem a preciosa colaboração deles, este livro não seria tal qualhoje se apresenta, com este rico material fotográfico.Até 1990 foi impossível detectar qualquer rastro de Cristiano Kràhenbühl (Linha D) e deseus descendentes. Graças à pesquisa de Ruy Camargo Vieira 23 de Brasília, estalinhagem é, também hoje, conhecida, pois Maria Kràhenbühl (1879-1978), uma filha deCristiano, acima mencionado, era casada com Guilherme Stein Jr 24 e participou nafundação da Igreja Adventista 25 no Brasil.René no calor (1979) Noedy Kràhenbühl Costa e neto Eduardo Ema N. Kràhenbühl SteffenÉ um verdadeiro milagre, que 27 cartas e muitos outros documentos tenham sobrevividopor mais de 100 anos. Partindo do princípio de que, desde 1854 26 até 1906 27 , teriam sidoescritas uma média de duas a três cartas ao ano para o meu bisavô em Schlossrued,mais tarde em Dintikon, teríamos hoje, à disposição cerca de cem a cento e cinqüentacartas para pesquisa, se - sim - se elas não tivessem sido jogadas no fogão à lenha IMas, não quero lamentar, pois alguma coisa extraordinária - além das cartas, documentose da fotografia da família de Niklaus 28 , sobreviveu ao nosso tempo efêmero: o misteriosocofre I Este deve ter sido doado ao meu tataravô Johannes (João) Kràhenbühl, ou aoseu sucessor, meu bisavô Ulrich, pelo proprietário do castelo: Carlos Frederico RodolfoMay von Rued 29 , para que ele pudesse guardar bem o contrato e o dinheiro doarrendamento. Assim, também as cartas tiveram um lugar seguro porque aquele cofre,19 Festa do Centenário da fundação da escola de Friburgo em Campinas. Vide "Correio Popular" em Campinas, Edição de 17.10.2004 e fotos nas páginas 72, 73 e 74.20 Walter Kràhenbühl (*27.7.1922) (Linha H).21 Ernestina (Ema) Nilson Kràhenbühl (*8.12.1928) (Linha G).22 Henni e Haydée moram em Serra Negra SP.23 Vide foto na página 8.24 Bisavô de Ruy Camargo Vieira: Vide Bibliografia n°5.25 Vide foto na página 8.26 Chegada de Cristiano e Pedro no Brasil.27 Falecimento de Nicolau.28 Foto da capa.29 Vide Bibliografia n°20. 7
  12. 12. por meio de uma chave especial, podia ser ancorado a um armário ou ao assoalho - umainvenção genial. Assim meu bisavô conseguiu levar consigo na sua mudança paraDintikon, esta peça singular junto com a correspondência tão preciosa. « AQUI DORMEM-, GUILHERME STE1N JIÍNIOB * Í 3 - Í 1 . 1871 + 05-16-1957 MARIA KRÀHENBÜHL S T E I N * 13-12-1879 + 01 - 04 - 1978 ELE SÉTIMO DIA BATIZADO HO BRASIL,NA<SÍA Haydée Kràhenbühl Padula + Henni Ingried Hein (1980) BRASILEIRA. •PRIMEIRO AÜTOR ADVENTISTA NO BHASIL. IDVESTIFFTAS; AR K • •DEDIClrfôS NOSSA VICà A DEB5. ESTAHOÍ FIEPTÍFLFFIJÍDO ATÉ O DIA DA VOLTA DE JE! - •• r . T E a v A M E S f E COM E L E : , ,v n f l i j i ÂDVÈ"SírST4,DO SÉTIMO DIA COMEMORAR 0 CENTEKARIO DA "PRIMEIRA E S C O L A S(BATINA E FBI METRO BATISMO I I A L I Í Ã B O S NO BRASIL, RECORDA. COM GRATIDÃO, D E S S E S OtIERIDOS PIONEIROS IMDALATTÍBÀ, 23 DE SETEMBRO CE ISãS, No cemitério de Indaiatuba SP Ruy Carlos de Camargo Vieira na Suíça junto com Nelly + Fredy Sommer-Roth em DintikonFrederico (Fritz), filho do Ulrich, depois da morte de seu pai, continuou usando essecofre. Após o término do serviço rural, costumava sentar-se à escrivaninha para preparara correspondência para o Brasil. Com o seu falecimento, o cofre - mencionadocontinuamente por meu pai - desapareceu. Há um ano, minha prima Rita 30 surpreendeu-me, oferecendo-me como presente, aquele cofrezinho, encontrado na arrumação da casa.Em péssimo estado de conservação estava esta obra-prima de um marceneiro desco-nhecido. Depois de uma restauração bem sucedida, alegro-me, diariamente, por tê-locomigo.Transcrevi para o alemão atual as vinte e sete cartas dos emigrantes. Walter Kràhenbühle a sua filha Dione Krãhembühl 3 1 Salvador traduziram-nas para o português, de modoque os descendentes dos quatro imigrantes suíços pudessem lê-las, também. As notas derodapé têm por objetivo explicar termos desconhecidos, não usuais, localidades eO cofre com as cartas está aberto Walter Kràhenbühl em Campinas - traduzindo30 Rita Z u b l e r - K r ã h e n b ü h l e m Dintikon AG.31 V i d e e x p l i c a ç ã o na p á g i n a 92, r o d a p é n ° 2 6 3 .8
  13. 13. Notável não é somente a linda e limpa escrita dos remetentes, principalmente as doNiklaus, logicamente por ser professor, mas, sobretudo, o conteúdo das cartas. Davaminformações sobre acontecimentos na família, mas estendiam-se em considerações sobrecondições climáticas, preços dos produtos agropecuários e demais informações impor-tantes para a época. É impressionante observar o fato de que as pessoas, em sua maio- ria, levando uma vida árdua num ambiente simples e rural, consi- gam dissertar, analisar e tecer comentários pessoais sobre as situações político-econômicas e sociais do país. Infelizmente, até hoje não foram encontradas, no Brasil, as cartas escritas pelo meu bisavô Ulrich para os seus irmãos, com exceção de um lindo cartão postal do Rütli32, enviado no ano de 1905 para Niklaus e Samuel. Espero que todas as cartas, contratos, ilustrações, fotografias como também objetos do meu arquivo de família 33 , estejam à disposição dos descendentes da linhagem Krãhenbühl até quando eu fizer minha passagem.Dione Krãhembühl SalvadorCom a publicação das vinte e sete cartas em formato de livro, tenho a satisfação de saberque um pedaço do cofre misterioso está sendo compartilhado com a nossa família e como público leitor. ( a.MjW«H {Sen 1£ $íetiyt£ei /!(•£. / fír.f /...,. ,.,,» .• r-, . „ .. • , ;./ <„ ..- t .,• Jt .. . . . <• r.- i.l „•:; / , / • í/*£.£— J - • -••. t . "â / -.A., 7* r- 1 . . , í-, / . V - Íf* V — * JL - .«• JC , JÍ, f.. Nicolau Krãhenbühl tinha uma boa escrita Postal de „Rütli" enviado por Ulrich Krãhenbühl32 Local histórico na Suíça situado a margem do lago de Lucerna, berço da fundação do Estado em 1291.33 O arquivo informatizado (FAMARCHIV) contém mais de 7000 referências. O autor aceita, com prazer, originais e cópias de fotos e outros documentos familiares.
  14. 14. Maus tempos (na Suíça) - bons tempos (no Brasil)Por que se emigrava da Suíça naqueles tempos ?A Suíça nem sempre foi a "terra que mina leite e mel". No século XIX, os camponeses etambém os artesãos, com uma legislação liberal, tinham menos proteção do Estado euma forte concorrência estrangeira, o que culminou, para muitas famílias, na fatalidade:declarar falência e transformar-se em dependentes do auxílio social. Como, naquele tem-po as famílias tinham muitos filhos, o problema se agravava sobremaneira.Béatrice Ziegler descreve em seu livro "Schweizer statt Sklaven" 34 as condições de partidacomo segue:"...A legislação da República Helvetica (1798-1803), com a eliminação das servitudes e aextinção das culturas obrigatórias na região central do país, resultou não somente numamaior liberdade nas condições de produção - que tolhiam o desenvolvimento - mastambém expôs completamente o lavrador à economia monetária, a concorrência e quasesempre ã obrigação de pagamentos de liberação. Logo teve início a luta pelo solo, pelasobrevivência; ao sistema de parcelamento das áreas rurais contrapunha-se aconcentração destas.Lavradores mais ricos começaram a utilizar o seu solo com maior investimento de capitale se esforçaram por formar áreas arredondadas, de fácil manejo, através da compra deparcelas menores. Medidas como a divisão de áreas municipais de uso comum e aextinção do iivre uso de florestas empobreceram cidadãos que não possuíam área ruralprópria, pois não lhes permitiam criar animais, privando-os assim de uma base -mesmoque parca - de subsistência.Com a eliminação das restrições profissionais na República Helvetica, também osartesãos foram impelidos a uma concorrência, o que levou os profissionais dacomunidade, que gozavam de proteção até então, a uma grave crise ou mesmo à ruína.Com a supressão das restrições á migração na República Helvetica iniciou-seimediatamente uma intensa migração interna. O desemprego latente ou patente emmuitas regiões rurais levou suas vítimas a abandonar as comunidades de origem, poistinham a esperança de um futuro melhor nas regiões ainda fortes economicamente ou emfranco desenvolvimento, principalmente nas cidades. Isto significava um alívio efetivo paraas comunidades em que ocorria a emigração, já que os emigrantes em geral perdiam seus direitos á ajuda e aos serviços oferecidos pelo município...". J Htrífy ^tj-j;nnirríx;ui, Além desta tendência geral, havia obrigações individuais. No caso de meu tataravô, Johannes Kràyenbühl [João Kràhen- bühl], é certo que como arrendatário, por si só, pôde oferecer para o grande número de filhos um lar onde ninguém precisou «^Sfiwia J V passar fome. Além disso, o valor de 1700 francos anuais para o arrendamento tinha de ser alcançado, havendo também a obrigação de suplementar o proprietário do castelo com uma parte da produção da quinta. O contrato de arrendamento assinado em 1839 menciona, dentre outros, que "... o arrendatário deverá fornecer gratuitamente a palha para forração do curral ... bem como 18 hectares de batata e 15 cestas de cenoura....".Contrato de arrendamento (1839)34 Vide Bibliografia n°49. A citação foi traduzida pela Sra. Annagret Schellenberg, São Paulo SP.10
  15. 15. Quem já teve a oportunidade de caminhar na colina deste castelo, pode facilmente sentircomo era dura a vida do trabalhador no campo, no curral e na quinta nos tempos deGotthelf 35 . Tudo isso se agravava diante da falta da esposa, mãe de família, já falecida em1834 em Signau.É surpreendente constatar que, com falecimento dele, em 20 de maio de 1859, cada umde seus oito filhos herdasse quase 2000 francos 3 6 . T a m b é m naquela época era umavultosa soma. Certamente era resultado de grande economia.A família Kràhenbühl natural de Signau no EmmentalJohannes Kràyenbiihl 3 7 , pai dos quatro irmãos emigrantes, Cristiano, Pedro, Samuel eNicolau, começou como serviçal na quinta "Grossmatf em Signau BE.Como se tornouarrendatário no castelo de Rued, ainda hoje é desconhecido. Suponho que o fato de seusogro 3 8 ser arrendatário no castelo "novo" de Signau, forneceu boas referências para queo proprietário em Schlossrued o contratasse. Após o falecimento de sua esposa Bárbara,teve de cuidar, sozinho, dos oito filhos com idades entre 1 a 21 anos. Em vista da ameaçade empobrecimento, a decisão de deslocar-se para Schlossrued, certamente deve ter-lheagradado bastante, apesar de ele e de sua família serem, por muitas gerações, 3 9 deEmmental. O arrendamento regulamentado prometia, no míni- mo, saciar as bocas famintas e dar uma boa forma- ção aos filhos que ainda estavam na casa após os casamentos das filhas mais velhas: Elisabete e Bárbara. Logo ficou claro que o posto de arrendatá- rio, bastante reconhecido pela sociedade da época, prometia renda suficiente para sustentar apenas uma família. A situação agravou-se em virtude de uma temível doença que se alastrou pela plantação deA quinta „Grossmatt" perto de Signau onde bata-tas.trabalhou Johannes Kráyenbühl (1789-1859)Cristiano e Pedro casaram-se ainda jovens e se empenharam na formação de novasgerações, enquanto João, Ulrich, Samuel e Nicolau continuaram ajudando o pai nafazenda. a yaaaasaoaaayaâ Por isso, deve ter parecido não só para eles, OrlSEEEaE^-EimS mas também para muitos suíços na mesma E. DE P â R A V I Ç I . J I IU ZXSMGUn situação, um verdadeiro milagre as notícias lle&erfar^cfír-lí ttrfctrg; dos jornais de que estavam procu-rando tõttitll- l ; voluntários para a emigração para o Brasil. O jutdt i>urf<f»rtft í c r b o f l c h c n í c u ?fejjtcr!H!fl5õ€et»p&uiHt^cn. fato de muitas comunidades apoi-arem os I 2t.li.*I.irf-**.. ;*;«Jík * « B^Butn. ír, «» j&vjfr£aí ai -:.i< j , - planos para emigração, através de | K . áj?. m j jfeff^Mj .. | j financiamento para viagem, resultou que, 3 ••••••StMf. v «iiMiitei. Stítiaw fia *t -i-. : • • entre 1850-1860, aproximadamente 65000 -V ! I V - - suíços, procurassem um novo futuro, dis- V tante da Pátria 40 .O contrato de emigração para Pedro Kràhenbühl (1854)35 Jeremias Gotthelf (1797-1854), pastor, professor e famoso escritor suíço em Lützelflüh BE.36 Correspondendo hoje a aprox. 20 000 francos suíços ou aprox. R$ 50.000.37 Johannes Krãyenbühl-Berger (1789-1859): vide tabela pai-tronco no Apêndice.38 Pai da Magdalena, nascida Berger, (1790-1834) de Langnau i.E.39 Em linha direta dos ancestrais se encontra Conrad [Conrado] Kráyenbühl, nascido por volta de 1549, nos registros da igreja de Signau. Vide também brasão da família Kràhenbühl, de Signau, na página 75.40 Conforme J.L. Spyri (Apêndice c, n° 12). 11
  16. 16. A emigração -e os remanescentesEm 1854 Cristiano e Pedro, na idade de 32 e 30 anos, respectivamente, deixaramSchlossrued com suas famílias, com destino à Basiléia para, em Hamburgo, embarcaremno navio a velas "Hannover" sob o comando do capitão Büttner: Cristiano, acompanhadode sua esposa Ana Bárbara, nascida Maurer, e de sua filha Ana Bárbara de sete anos ePedro com sua esposa Bárbara Margarida, nascida Zurflüh e com cinco filhos na idadede 6 a 14 anos. O navio a velas deixou o porto em 15 de setembro 41 com destino aSantos e ancorou em meados de novembro.Infelizmente, não foram encontrados, com exceção do contrato de emigração, evidências,documentos e cartas escritas pelos emigrantes do período de 1854 até 1857. Porinformações obtidas posteriormente, sabe-se que Cristiano e Pedro foram, inicialmente,contratados pelas colônias Sete Quedas e São Lourenço. Aparentemente, davam boasinformações para os irmãos remanescentes. Estas notícias positivas vindas do Brasil,certamente motivaram os dois irmãos, ainda solteiros, Samuel e Nicolau, a também procu-rarem sua sorte na emigração. De sua primeira carta escrita ainda em Santos, datada de6 de agosto de 1857, sabemos que em Antuérpia eles embarcaram no navio a velas"Boussole" e, oito semanas depois, pisaram em terras brasileiras (vide carta n° 1 napágina 19). • •ftí 3B0RT 9h. «ei Wh-ísSk < "*» v tttfíi . W yvtMí, .-Ist n»m- .-we^eesr»^ K. £ Í W PR . r S jp M êm t O veleiro „Boussole" de Nicolau e Samuel (1857) . 7/- U MHCfltl n U PILICI CHTB1L 03 ORO R B ; S 1 AV R E E K 5 .-ilc (oalcJ ei ímio 3 <a matiiúea íe Tonlre j-atLc et áe U mit - ! -S.Á-f 7 X^Pr/Â/ "y -A „ j JW . /, >t ty et r.-^, e -r/" 1 " 7 / , ti lati domo- H pnXcaiou cn » <í; bewin, o4<* ôe ròãproí^ii Mim. nua» j u ^ r - ^ , - ^ t . vbkk ^ ! a r- • íf «r IreMin^M F f . Etsnms, k « ( /f _t I S / c/s/v/ J.O passaporte de Samuel Krãhenbühl A colônia São Lourenço SP Cópia da lista dos passageiros no arquivo (FAMARCHIV) de René Krãhenbühl.12
  17. 17. Também eles começaram ganhando o seu pão na fazenda de café do Senador Luiz Antônio Souza Barros em São Lourenço. Pelas 27 en- ^ cantadoras cartas soubemos bastante sobre o destino deles e de seus irmãos, sobre as suas • alegrias e tristezas, êxitos e fracassos, desa- pegos e invejas, acrescidos de observações muito elucidativas sobre a situação política e econômica. Ficamos surpresos, não somente com estas análises impressionantes, quase filo- .1 ^ sóficas, saídas da mão de simples campone- p ses, mas, também, com paralelo que podemos traçar com a situação do Brasil de hoje. Na ocasião da morte do pai João na idade de 70 anos em Schlossrued e estando seu filho João [Hans] já independente e estabelecido / / . , com sua família na aldeia vizinha de Gonten- schwil, seu recém-casado filho Ulrich perma- / •,/ < neceu na quinta, assumindo o arrendamento e passando a ser o interlocutor com seus irmãos emigrantes.Procuração com as assinaturas dos 4 emigrantesOs relacionamentos não se rompemQuem já viveu por um tempo prolongado no exterior sabe o quanto é importante ter emsua Pátria um ancoradouro à disposição. Hoje com uma ligação ou uma mensagemeletrônica pode-se rapidamente esclarecer e resolver muitas coisas. Em 1859, quando opai João foi sepultado na Suíça, não havia estes meios de comunicação. Apenas ocorreio funcionava, de maneira mais lenta do que hoje: as cartas eram transportadas pornavios a vela e, mais tarde, por navios a vapor. Chegando ao porto, ainda tinham depercorrer uma grande distância até o destinatário tanto no Brasil quanto na Suíça.Dependiam do transporte em carroças, puxadas por cavalos e, posteriormente, de trem oque consumia, ainda, alguns dias ou mesmo semanas.Ulrich exerce sua missão para com os irmãos com lealdade e honestidade, resolvendoquestões de cartório e registros de modo que conseguiu transferir para cada irmãoemigrante, em 1862, a herança no valor de, aproximadamente, dois mil francos suíços 42 .A despeito do triste momento, para as famílias na Suíça e no Brasil, o dinheiro era muito bem vindo, pois permitia que os irmãos colonos pagassem os empréstimos da viagem e os pri- meiros compromissos assumidos podendo de- clarar-se livres de débitos e independentes. <<v ••••• • . i . A /...../..... •.,„.-A i^/^//....^..-/^a Ulrich vai prorrogando o seu contrato em , • .... Schlossrued até a morte de sua esposa Ana Bárbara de Trub BE [irmã de Bárbara Mar- 7 7 garida, esposa de Pedro, sendo duplamente cunhados/as] e só, então, muda-se para casa Recibo da herança para Samuel Kràhenbühl d o s e u ú n i c o fi|ho prjtz e m Dintikon.42 Vide cópia do recibo nesta página. 13
  18. 18. De volta ao BrasilCristiano 43 , o mais velho dos quatro irmãos, trabalha temporariamente como escriturário no Consulado Suíço em Campinas e na cons- trução da estrada de ferro. Dos quatro filhos que teve, dois morreram infantes na Suíça, uma w^ mi emigrou junto com os pais, casando-se em glpT ? wc (tii- ~iri-o.2l5.2iT x S gPiracicaba K e stKS••" » v ^CO E A A F l- Pauio 1870, formando a linha "Stein"44. Da outra filha, y s C.R O C A « M C r F PÁ I f .• i M S Cristina, nascida e registrada no Brasil, perde- ram-se os rastros após a morte de seu pai em 1883. 45 Pedro 46 , formado em mecânica e fundição, decide abandonar a plantação de café e trans- formar-se num construtor de "trolys", mudando- se para Piracicaba. Em 1870 funda com os dois filhos Frederico e João, a casa "Krãhenbühl". A crescente industrialização favorece o enri- fafer«Hcf>íí§ ** 05 W quecimento dele e dos filhos. Até hoje se nota, T O ÒASSt OA em Piracicaba, o espírito empresarial da família Krãhenbühl. Nota-se que os outros seis filhos também foram CASA KRÃHENBÜHL PIRACICABA bem sucedidos tanto na área da política comoPromoção da Casa Krãhenbühl da economia, das ciências e da literatura.Samuel 47 e sua esposa Maria Ursula Margarida Item de RhàzünsGR e Nicolau 48 com sua segunda 49 esposa Anna Donatsch deMalans GR e famílias mantêm, durante toda a vida, fortes laçosvivendo extremamente unidos, perto de Campinas, onde compramterras e exercem uma agricultura extensa e rentável. As casasdeles, ainda existentes hoje, quase deveriam ser denominadasmansões - testemunho do seu árduo trabalho e economia. Em1879, juntamente com imigrantes alemães, fundam uma escolaalemã própria e dão à vila o nome de Friedburg (Friburgo)50.Graças à sua sólida formação escolar, engajam-se ativamente nacomunidade e sobressaem-se tomando sempre novas iniciativas:Nicolau atuou ativamente como professor por mais de dez anos. Maria Ursula Margarida e Samuel Krãhenbühl43 Christian Kràhenbühl-Maurer (1822-1883): vide Linha D nas tabelas de descendentes.44 Vide Bibliografia n°5.45 Vide carta n°19, datada 6.6.1883 de Campinas e carta n°22, datada de 30.12.1891.46 Peter Kràhenbühl-Zurflüh (1824-1887): vide Linha E nas tabelas de descendentes.47 Samuel Kràhenbühl-ltem (1829-1910): vide Linha G nas tabelas de descendentes.48 Niklaus [ou Nikolaus] Kráhenbühl-Donatsch (1833-1917]: vide Linha H nas tabelas de descendentes.49 A sua primeira esposa, Philippina Thamerus, de Münsterappel (Alemanha), morre aos 22 anos de idade sem deixar filhos.50 Vide Bibliografia n°25.14
  19. 19. Ele e Samuel dentre outras atividades abrem caminhos para construção de um cemitériopróprio, inaugurado em 6 de fevereiro de 1887, após muita oposição.No dia 20 de julho de 1884 a sogra 51 de Samuel é a primeira pessoa a ser enterrada nocampo onde se estabeleceu mais tarde o cemitério 52 . Até hoje ele é cuidado pelosdescendentes com amor e carinho 53 .Walter e Erna no cemitério Igreja luterana de Friburgo SP Pedra dos fundadores de Friburgo SP com Newton, Jacy + Martha Fahl e Henriqueta Büll (1979)Como última testemunha da geração imigrante, morre a segunda mulher de Nicolau, AnaDonatsch [Donatz], em 25 de julho de 1929. Ela deixa uma extensa legião de descen-dentes sendo 14 filhos, 78 netos e inúmeros bisnetos. A sua herança é considerável 54 .Contrato da herança de Anna (Ana) Fundadores de Friedburg/Friburgo SP perto de CampinasKráhenbühl-DonatzResumoOs maus tempos na Suíça obrigaram a emigração dos quatro irmãos da famíliaKrãhenbühl para o Brasil, que no século XIX 55 aboliu a escravatura e procuroutrabalhadores especialmente para as plantações de café 56 . Embora, naquele tempo, aimprensa européia alertasse sobre os perigos da exploração do emigrante - tema, até, delivros 57 da época - o estabelecimento dos Krãhenbühl e dos seus descendentes trans-51 Maria Elisabeth (Elisa) Goldmann, de Einsiedeln SZ, casada Item, de Malans GR (1805-1884).52 Ela foi sepultada antes da conclusão do cemitério.53 Vide foto nesta página (Walter e Erna no cemitério).54 Vide documento de herança de 30.4.1935 nesta página.55 Abolição da escravatura foi em 13.5.1888.56 Vide lista das colônias parceiras no estado de São Paulo no Apêndice.57 Vide Bibliografia n ° 3 e 4. 15
  20. 20. correu com sucesso. Isto se faz perceptível nas cartas onde não se cansam de ressaltar agratidão à velha Pátria e a Deus pela vida na nova terra. Neste contexto, permito-me citarnovamente Béatrice Ziegler, que finaliza o livro já citado como segue:"...Eles (isto se refere em especial a Peter Krãhenbühl e seus descendentes) foram delonge a mais bem sucedida das famílias listadas. Seu destino é interessante porque afamília ascendeu socialmente de uma família de simples artesãos a uma "família deempresários". Os irmãos Krãhenbühl eram mecânicos e segeiros. Embora tivessemassinado o contrato usual de parceria, teriam sido logo empregados como mecânicos pelosenador Luiz Antônio de Souza Barros. Graças a uma herança conseguiram pagar suasdívidas nos anos sessenta. A família Krãhenbühl tornou-se não só muito rica, mastambém teve acesso ã elite local de fazendeiros. A segunda geração integrou-se nasociedade brasileira: a língua, a escolaridade e o seu ambiente geral se tornarambrasileiros... A ascensão dos Krãhenbühl sem dúvida deveu-se de um lado à técnica e aseus conhecimentos profissionais assim como ã completa falta de concorrentes em suascircunjacências, e, de outro lado, à sua conseqüente integração no ambiento não-suíço...". & 9lepul>lif Sem. aittíifcstrf i L» .7> It) i . - "iítrffévs iH* <»iewt i<t - 2Str íKf^íefüBflewntrbuittt.A bela casa de Nicolau Krãhenbühl em Anna + Niklaus Krãhenbühl Nicolau Krãhenbühl foi baptizado emFriburgo SP construída em 1900 Signau (Suíça) no dia 29.12.1833Acrescente-se que tanto Pedro em Piracicaba como Cristiano, Nicolau e Samuel, emCampinas e arredores, juntamente com os seus descendentes, hoje espalhados em todoo Brasil, eram bem conscientes de suas raízes e até hoje ainda o são. No cotidiano,valores e tradições da velha pátria são cuidados e mantidos em família e no trabalho.O Bairro de Friburgo é um testemunho vivo desta filosofia.Após esta descrição rudimentar sobre a bem sucedida emi/imigração dos irmãos, agoraconvido os leitores e leitoras a se envolverem no mundo destes corajosos pioneiros, há150 anos, num país ainda tão inexplorado. Através daleitura das cartas originais 58 ao irmão Ulrich, meubisavô, remanescente na Suíça, o leitor terá o melhorretrato da vida desses imigrantes pioneiros. Signau no Emmental (aprox. 1900)58 V i d e as 2 7 cartas d o s e m i g r a n t e s (traduzidas p a r a o p o r t u g u ê s ) .16
  21. 21. Relação das 27 correspondências 59 que Ulrich Krãhenbühl (1827-1906)de Signau-BE, residente em Schlossrued AG e posteriormente emDintikon AG (Suíça), recebeu dos irmãos Pedro, Cristiano, Nicolau eSamuel, que emigraram para o Brasil em 1854 e 1857, bem como deseus familiares.N2 Localidades e datas Signatários Página1* Santos, 6 de agosto 1857 Samuel & Nicolau 192 São Lourenço, 4 de julho 1860 Pedro & Cristiano 263 São Lourenço, 17 de maio 1861 Samuel & Nicolau 274* Campinas, 25 de dezembro 1862 Nicolau 295 Sítio Posse, 25 de dezembro 1863 Nicolau 316 Sítio Posse, 8 de outubro 1864 Nicolau 337 Campinas, 25 de novembro 1864 Nicolau 348 St. Lorenzo, 17 de julho 1865 Pedro 369* Campinas, 16 de dezembro 1866 Nicolau 3810* Campinas, 2 de junho 1871 Nicolau 4011 Piracicaba, 7 de setembro 1872 Pedro 4312* Campinas, 21 de novembro 1873 Nicolau 4413 Campinas, 20 de novembro 1874 Nicolau 4714 Campinas, 23 de abril 1875 Nicolau 4815 Campinas, 20 de setembro 1877 Cristiano 5016* Campinas, 13 de dezembro 1878 Nicolau 5117 Friedburg, 13 de abril 1882 Nicolau 5318 Piracicaba, 8 de janeiro 1883 Pedro e sua esposa Margarida 5619 Campinas, 6 de junho 1883 Cristina, filha de Pedro 5720 Piracicaba, 6 de junho 1888 Margarida, esposa de Pedro 5821 Piracicaba, 4 de abril 1890 Margarida, esposa de Pedro 6022* Friedburg, 30 de dezembro 1891 Nicolau 6223 Friedburg, 3 de maio 1893 Nicolau 6559 Os originais das cartas estão no arquivo pessoal (FAMARCHIV) de René Krãhenbühl. 17
  22. 22. 24 Piracicaba, 10 de julho 1896 Frederico, filho de Pedro 6625 Piracicaba, 31 de janeiro 1899 João, filho de Pedro 6726 Friedburg, 27 de outubro 1902 Nicolau 6827* Friedburg, 11 de setembro 1906 Nicolau para o seu sobrinho 70 Frederico (filho de Ulrich)* = reproduzidas na publicação "Castelo da Paz" por Walter Krãhenbühl, de Campinas SP em julho de 199260.Observações • Para melhor compreensão, muitas vezes o texto teve que ser dividido em novas seções. • Na tradução das cartas para o português, procurou-se preservar a construção da frase original para que não se perdesse o caráter espontâneo das mesmas, sua originalidade e simplicidade. • Deixamos, porém, de propósito, a linguagem da época e o modo de expressar dos remetentes das cartas. • Explicações complementares foram inseridas entre colchetes pelo autor. ® Nomes de pessoas estão em negrito quando, pela primeira vez, aparecem numa página, e localidades aparecem em itálico, com o objetivo de salientá-los, facilitando a consulta.60 Vide Bibliografia n°25.18
  23. 23. BR-1 Santos, 6 de agosto de 1857Amado pai 61 , irmãos, irmã, parentes e conhecidos,Desde que os deixamos já decorreu bastante tempo e, certamente, muitas vezes vocêsdevem ter imaginado como estaríamos passando: se ainda vivíamos, ou se as águas domar nos teriam tragado. Até, agora, nada de mal nos aconteceu e estamos, graças aDeus, muito bem e, também, com saúde. Chegamos a Santos no dia 15 de julho.De Antuérpia62 escrevemos-lhes uma carta 63 no dia 10 de maio, espero que a tenhamrecebido. O embarque não aconteceu no dia 11, como havíamos escrito, pois deveriamchegar ainda mais pessoas, e por isso, o embarque foi prorrogado para o dia 20. Jánavegávamos na saída do porto, quando elas chegaram. Foi, então, lançada âncora eestas pessoas, aproximadamente 30, ainda embarcaram.Em Antuérpia a espera foi bastante enfadonha, pois ela é uma grande cidade semnenhuma montanha. Ali há cavalos muito grandes e fortes. Na torre da grande igreja háum carrilhão, que, a cada quarto de hora, toca lindas melodias e, na hora completa, tocadurante 5 minutos.Diziam sempre que nos países baixos não se ouvem os trovões. Na realidade, não éassim, pois nos dias 11 e 12 passaram tempestades sobre Antuérpia com fortes relâm-pagos e trovões. Verdade é que não tão fortes como lá na Suíça. Fora isso, tivemossempre tempo bom.De Basei até Antuérpia não foi necessário pagar nada pelos nossos caixotes. Umsecretário da "Steinmann" 64 havia exigido de nós 2 francos, alegando que ele havia pagoesta importância lá na estação. Mas, depois, devolveu-os dizendo que o escritório pagariatudo.Por estes dias, a emigração via Antuérpia foi bastante intensa. Só em nosso alojamentoestiveram abrigadas, por algum tempo, mais de 100 pessoas e o mesmo ocorreu noalojamento da "Cidade de Luxemburgo", onde estavam também muitos suíços. Cerca deoito dias antes do nosso, partiu um navio com destino ao Rio Grande do Sul. Dois diasantes, partiu um e, junto com o nosso, outro para a América do Norte.Quando esperávamos em Antuérpia, pagamos ao Senhor Steinmann, 40 francos cadaum, para podermos nos alojar no camarote. Então recebemos camas e louças. As camaseram compostas de colchões e travesseiros feitos com capim e os cobertores de algodão.Os utensílios eram constituídos de um pequeno caldeirão, no qual era servida a comida eonde, mais tarde, também cozinhávamos a sopa; uma jarra para água, um bule para café,duas tigelas, duas canecas, duas colheres e 2 garfos. Tudo era feito de folha de flandres.Nosso navio tinha dois mastros e se chamava "Boussole 65 ". Tinha 42 passos 66 decomprimento e 6 Vá de largura. Atrás e na frente, era um pouco mais estreito e ficava,61 Esta carta foi dirigida ao pai Johannes Kràhenbühl, Lehenmann no castelo de Rued (vide ilustração na página 4).62 Antuérpia era, além dos portos de Bremen e Hamburgo, o mais importante para a emigração dirigida ao Brasil.63 Infelizmente, nem todas as cartas enviadas foram salvas, muitas foram perdidas ou queimadas pelas famílias seguintes à Ulrich Kràhenbühl. A carta, em referência, também.64 Steinmann era uma das muitas agências de viagem para emigração. Vide ilustração na página 11.65 Vide ilustração na página 12.66 1 passo = 7 1 - 7 5 cm. 19
  24. 24. contando o corrimão, mais ou menos 10 pés 67 acima da água. As laterais desciam quasereto até a água. A parte da frente saía inclinada para fora da água e a parte acima daágua era arredondada. Onde estava em contato com a água era mais pontiaguda e deuma construção especial. Também a parte de trás saía inclinada para fora da água. Aparte que ficava submersa, era chapeada de ferro. O quanto estava submersa, nãosabemos. O compartimento mais profundo do navio chamava porão. Qual a suaprofundidade, também não sabemos, pois, bem no fundo havia carvão, e em cima deste,barricas com água, barricas com carne, batatas e outros caixotes. No compartimentointermediário, bem na frente, estava o alojamento dos marinheiros; é claro, isolado dorestante do compartimento. Em seguida, a parte dos passageiros com mais ou menos 51/2pés de altura. Nas laterais, estavam as camas, duas sobrepostas, com capacidade para 4pessoas cada. A de baixo ficava mais ou menos a V2 pé acima do piso. Atrás destas,havia mais um porão.Na proa, havia uma bomba para bombear a água do mar. Em seguida, a roldana parabaixar e levantar a âncora, depois, a entrada para o alojamento dos marinheiros. Logoadiante ficava o mastro dianteiro, a cozinha dos passageiros, a entrada da frente docompartimento intermediário, a cozinha do camarote, a abertura por onde os barris,pacotes e caixotes eram baixados e içados; depois o mastro traseiro, depois a bomba detirar a água que penetra no navio, em seguida a entrada traseira para o compartimentointermediário e, por último, o camarote. Este tinha 8 passos de comprimento e 5 delargura. No camarote, as camas eram individuais. Por trás da cabina, finalmente, estava aroda da direção e a barra do leme.Em volta de todo convés, havia um corrimão de 41/2 pés de altura, com aberturas parasaída da água que era arremessada a bordo. A parte da frente era de madeira bastantegrossa. Cada mastro podia ter aproximadamente 70 pés de altura e era formado de trêspartes cada um. No mastro dianteiro - ambos estavam um pouco inclinados para trás -havia 3 e, no de trás, 4 velas sobrepostas. No mastro inferior poderia ter mais ou menos40 pés de comprimento e as superiores eram menores. Em cada mastro havia ainda umavela lateral, que era usada com vento lateral que, aliás, é o melhor. Bem na frente, naproa, havia outro mastro, bastante inclinado para frente sobre a água e era chamado demastro de quilha. Neste havia também 3 velas, que eram usadas somente com ventolateral. Quando o vento era fraco e principalmente quando vinha de trás, então eramestendidas velas menores junto às grandes e que eram chamadas de "velas de arrasto".Nosso navio era um bom veleiro, pois deixamos para trás vários navios, mesmo menorescom 3 mastros. Assim, no dia 27 de junho alcançamos um que deixou Antuérpia 9 ou 10dias antes de nós com destino ao Rio. Vimos navios quase todos os dias. Quandonavegávamos pelo canal, ali, não raro podiam-se contar 8, 10, 12 e até mais.A tripulação de nosso navio era composta de 146 pessoas, 197 passageiros, entre elesmuitas crianças, 5 marinheiros, (um já embarcou doente - ele tremia pelo corpo todo), ocapitão, o timoneiro, o contramestre e 1 grumete 68 .Alguns dentre os passageiros não tinham muita higiene, principalmente as mulheres. Opassageiro mais idoso tinha 65 anos. Entre os passageiros havia muitos provenientes daPrússia. Nós éramos os únicos suíços, mas convivemos muito bem com todos. Nuncarecebemos, nem da tripulação, nem da parte dos passageiros, uma palavra rude. Italianose Franceses não havia no nosso navio, como erradamente havíamos escrito e, sim, duasfamílias belgas, que falavam o mesmo "flamengo" como se fala também em Antuérpia.67 1 pé = 30-33 cm.68 Marinheiro de inferior graduação.20
  25. 25. A comida era preparada por dois passageiros, que provavelmente eram pagos pelo"Steinmann". Havia um outro que era encarregado de buscar os alimentos e entregá-losaos cozinheiros. A cozinha, como vocês poderão ver, era muito pequena. De um ladomedia 6 pés, do outro somente 4. Sobre o fogão podiam ser colocadas 6 panelas, mas só4 recebiam a chama direta, as outras duas recebiam o calor indireto. Antes de começar oenjôo, também faziam café, mas durante o tempo do enjôo e mesmo depois, faziamsomente aqueles que queriam, pois a maioria não gostava mais de café, inclusive nós.Leite usávamos somente nas torradas, no café não era muito bom, pois geralmentetalhava.Durante o enjôo só cozinhavam duas vezes por dia, ao meio dia e a noite. De manhã, amaioria fazia para si uma sopa, nós também, é claro uma sopa "cega" 69 pois no navio nãohavia nem manteiga, nem banha. Os outros passageiros tinham consigo farinha, ovos,manteiga, pão, presunto e toucinho e com isso cozinhavam algo melhor. No tempo deenjôo é muito bom ter destas coisas consigo. Também frutas secas, farinha torrada,migalhas de pão torrado, queijo, "Schabzieger" 70 e uma boa aguardente 71 são recomen-dados. Também leite é bom. Nós estávamos muito contentes com nosso suco de cereja eameixa, pois no tempo do enjôo davam pouca carne bovina, arroz queimado e batatascozidas. Nada disso tínhamos vontade de comer. Por muitas vezes, bem que teríamoscomido alguma coisa, mas não tínhamos apetite para nada, e ficar sem comer tambémnão é bom.Perto da costa chegaram até o navio três homens com um barco, vendendo pão, fumo eaçúcar. Também compramos um pãozinho deles. Agora comíamos um bocado de pão,com um gole de "Schnaps" e isso nos animava bastante. Mas, o pão acabou antes doenjôo. Quando se quiser levar pão a bordo, não se deve levá-lo de casa, mas comprá-lona cidade do porto, para que não se estrague antes do embarque. Quando o enjôo haviapassado, cozinhava-se novamente três vezes por dia. De manhã davam uma sopa debatatas, é claro, sem farinha ou pão, quatro panelas cheias. Para nós dois vinha umaquantia que um só não ficava satisfeito. Ao meio dia, davam arroz ou feijão, ervilhas oucevadinha, que é uma espécie de cevada. Eram seis panelas cheias, também davamcarne de boi ou de porco. A cevadinha e o arroz não eram muito apetitosos. À noitecozinhavam seis panelas de batatas. Essas comíamos com sal, alguns dias depois foidistribuída a carne de porco crua, porque a maior parte era toucinho. A partir daí fazíamoscarne grelhada ou salada, mas muitas vezes tínhamos de esperar bastante até conseguirentrar na cozinha, porque lá cozinhavam de manhã até tarde da noite e, também, sempretínhamos de procurar por uma frigideira ou uma lata. No dia 25 de junho acabaram asbatatas. A partir dai, cozinhavam novamente duas vezes por dia, de manhã: arroz ecevadinha; à tarde: feijão ou ervilhas, às vezes também arroz ou cevada, mas todos osdias davam carne bovina.Pegávamos água todos os dias e ela era, mais ou menos, suficiente. Cada família pegavapara si, mas tinha de ceder parte dela para cozinhar. Todas as semanas davam um poucode vinagre e duas colheres de açúcar por pessoa. Pão torrado nós dois recebíamos 7libras 72 por semana. Depois que distribuíram carne crua de porco, também recebíamosfarinha, uma caneca duas vezes por semana, por pessoa. Desta, mandávamos fazerpanquecas, que eram muito gostosas. Nós cuidávamos de ter sempre uma boa reservade toucinho, pois ovos, ou coisa semelhante, não tínhamos para misturar. Carne bovina ede porco, davam, em geral, pequenas porções, não muito mais que um bom bocado. Na69 Cega no sentido de "sem olhos", porque não continha manteiga ou gordura !70 "Schabzieger" é um tipo de queijo duro, contendo ervas: uma especialidade do estado de Glarus.71 "Kirsch" (aguardente suíça feita de cereja), ou "Schnaps" (aguardente suíça tipo bagaceira).72 Uma libra eqüivale a 0,453 kg. 21
  26. 26. verdade, sempre tivemos que jejuar um pouco, o que, para quem não trabalha, até que étolerável, apesar de que, depois do enjôo, tínhamos muito apetite. Não aconselhamos aninguém emigrar via Antuérpia, pois como fomos informados, via Hamburgo73 é muitomelhor, principalmente com a alimentação.No dia 21, foi novamente levantada a âncora, mas avançamos somente até por volta demeio dia. Não havia quase nada de vento e com a chegada da maré, fomos obrigados aancorar de novo, pois até Antuérpia tanto a maré cheia como a baixa, são muito fortes. Nodia 22, finalmente, com vento forte saímos para o mar. Perto da costa, no quebradouro, ovento não era favorável, ele vinha quase que contra nós e, por isso, tivemos de navegarem bordejo [vaivém], as velas tinham de ser sempre viradas e corrigidas as suasposições. O vento era tão forte, que chegou a inclinar tanto o navio, que parecia tombar.No convés, quase ninguém conseguiu se manter em pé. No mar, o vento era bemfavorável e avançamos rapidamente. Em alto mar, o piloto que nos acompanhou desdeAntuérpia, deixou nosso navio, voltando de barco para Antuérpia. Com tempo encoberto etempestade, o mar tem um tom verde-escuro. Com tempo bom, parece mais azul-escuro.Próximo à terra, toma sempre uma cor de verde-sujo.Os primeiros 14 dias, em que estivemos no mar, foram bastante chuvosos, frios etempestuosos. Muitas vezes era arremessada grande quantidade de água sobre oconvés. Quando alguém olhava preocupado para aquilo, os marinheiros diziam que issoainda não era nada, que ainda podia ficar pior, que é assim mesmo com tempestade.Durante este tempo, passamos muito frio, dia e noite. Estaríamos muito contentes setivéssemos conosco as nossas ceroulas. O mesmo aconteceu com quase todos ospassageiros. No segundo dia em que estávamos em alto mar, começou o enjôo.Começou bastante forte e durou aproximadamente oito dias, para alguns até mais, outrosnem foram atingidos. Nós passamos, mais ou menos. Devido ao mau tempo o naviobalançava terrivelmente.Em 5 dias, navegamos pelo canal. Da costa inglesa podia-se avistar alguma coisa, masda francesa nada, pois estava tudo encoberto. A partir do dia 10 de junho tivemos tempobom, sem tempestades e também mais quente. O tempo permaneceu bom até o dia 28de junho. De 28 de junho até 9 de julho, tivemos mau tempo, mas a partir daí, até achegada, tivemos tempo bom. No mar, o tempo é muito variável, muda a cada instante.Na manhã do dia 11 de junho, avistamos a Ilha da Madeira. É uma das ilhas canárias donorte. Pertence ao continente africano, mas é habitada pelos portugueses. Da IlhaAntônia, da qual os nossos irmãos escreveram, não vimos nada. No domingo, dia 21 dejunho, os marinheiros e alguns passageiros fizeram uma encenação. Vestiram fantasias ese mascararam com tintas, e um deles, seminu, representava "Netuno", o deus dosmares, prometeu conduzir-nos em segurança até Santos. No final, ele ordenou o batismoe, então, pegaram água e jogaram sobre as pessoas. À noite desceram um barril pequenoaté o mar, que continha resina e alcatrão e que foi incendiado. O capitão dizia que esteera o "cometa" que deveria destruir a terra.Se tivéssemos tido vento no decorrer da semana, teríamos atingido a linha do equador,mas tivemos calmaria por três dias. Isso aconteceu só no dia 28. A temperatura eraagradável. Na manhã do dia 9 de julho avistamos as montanhas do Continente Brasileiro.Poderíamos ter chegado a Santos ainda nesse dia, mas o vento nos abandonou. Parachegar a Santos é necessário navegar por um braço de mar. Por falta de vento, pudemosembocar, apenas, no dia 12, quando então navegamos até próximo à fortaleza e aliancoramos novamente, porque o vento não era favorável. De manhã, então, veio um73 O porto de embarque importante para o Brasil era Antuérpia, logo depois de Hamburgo e Bremen.22
  27. 27. piloto, numa canoa, que nos deveria conduzir até Santos. A partir daí o capitão nãomandava mais nada, quem mandava agora, era o piloto. Nesse dia, pudemos navegar sóaté o forte e lá foi preciso ancorar novamente. Então, a polícia veio ao navio. Aqui atripulação também tinha de ser examinada por um médico, assim como aconteceu emAntuérpia. Pelo médico tivemos que esperar um dia, pois ele tinha de vir de Santos. Alicomemos as primeiras frutas brasileiras. O capitão, o piloto e dois marinheiros foram comum barco até a costa e trouxeram frutas. Também rosas e outras flores, ainda que agoraaqui seja inverno. Das frutas ganhamos duas bananas cada um, que eram muitogostosas. Na manhã do dia 14, chegou, enfim, o médico. Mas, de pouco valeu, pois,apenas, a metade das pessoas ainda estava no convés e por isso ele logo se retirounovamente.Nesse dia, finalmente, chegamos a Santos, pois estávamos distantes, apenas, uma hora.A partir do forte, um policial nos acompanhou a bordo. Assim que chegamos a Santos, apolícia subiu a bordo, mas ainda não pudemos desembarcar e tivemos que dormir, maisuma vez, no navio. Também dois policiais ficaram a bordo. Em 15 de julho, tivemos deentregar os passaportes e só aí teve início o desembarque. Passageiros e caixotes foramlevados em barcos até á margem, pois o navio não chegava até lá. As caixas tiveram queser examinadas primeiro no navio. Aqui a inspeção foi mais rigorosa, mas ninguémperdeu nada. Se alguém tem muita bagagem, é bom colocar alguns "Mil-réis" no bolso dopolicial.Ficamos muito alegres em poder pisar novamente em terra firme. Foi bom que saímos donavio, pois começaram algumas brigas a bordo e, com isso, talvez até seriam tomados denós alguns pertences. Ficamos sem dois lenços de pescoço, três cachimbos, 1 pequenagramática e 2 pentes de bolso. Tudo, inclusive a gramática desapareceu do camarote.Pela gramática e os cachimbos, nós sentimos muito, pois a gramática agora seria muitoútil para nós e os cachimbos não pudemos comprar em Antuérpia, porque lá nãoencontramos de boa qualidade. (Espingardas e pistolas eram baratos em Antuérpia). EmSantos fomos alojados numa hospedaria, onde nos foi permitido ficar gratuitamente pordois dias. Ali a comida era boa.Até aqui estivemos exatamente oito semanas, ou 56 dias no mar, e deixamos para trásaproximadamente 1500 milhas alemãs ou geográficas 74 . Tivemos uma viagem feliz, semtempestades, sem nenhuma doença a bordo. Poderia facilmente ter surgido algumadoença, pois o espaço no alojamento intermediário era muito pequeno para tanta gente.De lavar o alojamento, conforme nossos irmãos escreveram, nunca se falou nada, pois oespaço que não era ocupado pelas camas, estava quase todo tomado por caixas ecaixotes, de tal maneira que quase não se podia passar. Nós também tínhamos umacaixa no porão deste compartimento. Nós estávamos contentes por nos alojarmos nocamarote. Pagamos para isso mas não nos arrependemos, pois no compartimentointermediário havia sempre um cheiro desagradável, ou melhor dizendo, um fedor. Omelhor de tudo foi que tivemos uma boa tripulação, todos ainda jovens, até o capitão. Atodos temos de dar os nossos melhores elogios.O "Gigersami" [Samuel Gyger 75 ] escreveu uma frase sobre as mulheres e os marinheiros.Neste aspecto ele tinha certa razão, pois em nosso navio aconteceu algo semelhante.O marinheiro que embarcou já doente, morreu. Ele foi embrulhado e costurado numa lonavelha e, em seguida, baixado ao mar. Ele era um terrível pinguço. Parecia ter, no mínimo,50 anos, quando na realidade tinha, apenas, 32. Fora esse, não morreu ninguém, todoschegaram com saúde. "Pois no mar e na terra, nós estamos nas mãos de Deus" ["Dennzu Meer und zu Land, wir Menschen sind in Gottes Hand"].74 1 milha alemã = 7,420 km.75 Pessoa desconhecida. 23
  28. 28. Em nosso navio também havia colonos para Vergueiro 7 6 , mas não pudemos subir comeles, pois disseram que Vergueiro não quer saber mais nada de suíços. 77 Um certo Müllerde Zurich está lá com Vergueiro e este veio até o alojamento para encontrar os colonos.Mas ele não se comportou como nosso compatriota, pois "comia do pão do Vergueiro".Nós pedimos informações de Samuel von Loo 78 , e aí fomos encaminhados para umalemão de nome Wagner. Este não estava mais lá, realmente esteve ali por algum tempo,mas, atualmente, estaria trabalhando na estrada perto de São Paulo.Matter 79 também não está mais em Santos. Eles desistiram de sua venda. Ele agora éambulante de várias mercadorias. Esteve por aqui nestes dias com três mulas. Com oWagner encontramos um outro suíço de Sumiswalcf O Wagner, que é homem muitohonesto, aconselhou-nos a não subir, mas primeiro escrever para nossos irmãos, dando anotícia da nossa chegada, pois ele disse que alugar um guia com animais nos custariamuito dinheiro. Se os nossos irmãos estivessem em boa situação então, certamente,desceria um deles para nos buscar. Segundo ele, como no passado também já ouvimosdizer, nas colônias não é tudo assim como deveria ser, pois algumas famílias pagaram otransporte de suas bagagens e, ainda, tinham alguma reserva financeira ao chegar nascolônias e, agora, teriam muitas dívidas. Por outro lado também fomos informados de quenão devemos nos preocupar com isso, pois Lourenço [São Lourenço] é uma das melhorescolônias. Sobre isso em breve poderemos dar notícias mais detalhadas, pois já escre-vemos para os nossos irmãos 81 .Queríamos ir até Cubatão, que fica cerca de três horas daqui, para trabalhar lá naestrada, mas fomos informados em tempo, que lá eles não aceitam mais ninguém.Samuel ficou com Wagner e para mim [Niklaus] o Wagner conseguiu um lugar com umportuguês, ou brasileiro.Nós dois iniciamos um trabalho no dia 18 de julho. Nós nos encontramos com freqüência,pois estamos na mesma cidade. Por quanto tempo vamos ficar por aqui, não sabemos,vamos esperar pela resposta de nossos irmãos. De qualquer maneira, aqui não é umambiente saudável: o que não é morro, é charco, em redor de Santos. Também chovemuito aqui. Para mim, o pior é o idioma, pois na casa onde estou, ninguém sabe umapalavra em alemão.Em Santos, há muito comércio, belas lojas, vendas há aos montes e, também, outrosestabelecimentos. Meu patrão tem uma venda. Aqui tudo é muito caro.Terminamos agora esta carta, mas queremos escrever em breve novamente, quandopoderemos dar melhores informações sobre tudo. Quando receberem esta carta,escrevam logo, dizendo se estão com saúde, ou como estão vocês. Se caso nós nãoestivermos mais aqui, certamente vamos encontrar ajuda para, mesmo assim, recebê-la.Saudamos a todos mil vezes, principalmente ao pai, e esperamos que esta carta encontretodos bem e com saúde. Saudamos também o coral masculino e demais amigos.Niklaus Krãhenbühl Samuel Krãhenbühl76 Nicolau Pereira de Campos Vergueiro era Senador e um dos maiores proprietários de cafezais.77 A razão deve ter sido por causa da revolta de suíços na colônia Ibicaba. Vide Bibliografia n ° 3 & 4.78 Pessoa desconhecida.79 Pessoa desconhecida.80 Aldeia no Emmental.81 Trata-se dos irmãos Cristiano e Pedro que já haviam emigrado em 1854 via Hamburgo.24
  29. 29. Deve-se usar o seguinte endereço:Irmãos Krãhenbühlaos cuidados de Sekose Seitenthal,ferreiro fabricante de cubos 82SantosAs cartas poderiam ser enviadas só para um de nós como vocês preferirem. Mas dequalquer forma em letras francesas 83 . As cartas que nos foram confiadas, já colocamosno correio. Na época de 1854 e 1857 ainda não existia estrada de ferro...82 Uma profissão daquele tempo para "trolys".83 A grafia alemã não era compreensível no Brasil, por isso a solicitação. 25
  30. 30. BR-2 Colônia São Lourenço84, 4 de julho de 1860Amados irmãos,Em sua carta de 19.2.1860, endereçada a nosso irmão Niklaus, vimos a triste notícia dofalecimento de nosso pai. Além disso, vimos também, que a nossa dívida na nossa pátria,referente a despesas de herança, foi cancelada, ou que o nosso credor a pagou com odinheiro de nossa herança. 85 Agora nossa dívida na pátria foi cancelada mas, mesmoassim, nós continuamos a contabilizá-la para efeito do cálculo dos juros, enquanto nãotemos os recibos de quitação.Agora, gostaríamos de lhes pedir, como também a nosso irmão que providenciassemesses recibos, um do Senhor May 86 e um da comissão da divisão da herança no tabelião.Mas, tudo deve ser muito bem feito. Os recibos devem ter selo da Comunidade, selo daChancelaria do Estado e também o nacional. Ainda são necessários a assinatura e o selodo Embaixador Brasileiro ou do Cônsul na Suíça.Por favor, providenciem estes recibos de quitação o mais rápido possível, poisgostaríamos de recebê-los enquanto o Senhor Tschudi S / ainda está aqui no país. Podeacontecer que nosso patrão não queira aceitá-los, então, queremos que o Tschudi ne-gocie com ele. Quando ele vier à colônia, como foi dito que provavelmente ele virá, entãoqueremos falar antes com ele. Para o pagamento de eventuais despesas e para o seutrabalho, pegue dinheiro dos juros da sua herança.Gostaríamos de receber o mais rápido possível a herança que ainda nos cabe. Escrevam-nos, informando com quem vai estar o dinheiro e a quem devemos nos dirigir e se umacarta nossa será suficiente para receber o dinheiro, ou então, como deverá ser feito.Ainda uma observação: nós viemos para este país com destino à propriedade deVergueiro 88 , mas, já, em Santos, Vergueiro nos transferiu para o atual patrão: SenhorLuiz Antônio 89 . Luiz Antônio liquidou todas as despesas que Vergueiro teve com nossaviagem desde a nossa pátria. Agora, ou o Vergueiro não pagou a despesa na Suíça, ou oSenhor May a recebeu duas vezes. May, na verdade, nem teria o direito de recebê-lo,pois teria que repassá-lo para o Vergueiro. O Senhor May disse, também, formalmente,que ele daria esse dinheiro, somente para um teste, para ver se seria devolvido ou não.Nós e nossas famílias estamos todos bem de saúde e os filhos já cresceram bastante.Nós todos de nossas famílias enviamos a vocês todos nossas cordiais saudações.Seus irmãos Peter Kràhenbühl Christian Kràhenbühl84 São Lourenço era uma das muitas colônias de café. Vide foto na página 12.85 A herança recebida após o falecimento do pai João.86 Von May era o dono do castelo de "Rued", no qual trabalhava o irmão Ulrich Kràhenbühl.87 J.J Tschudi era o delegado extraordinário do Conselho Federal Suíço, para investigar as condições de trabalho nas colônias.88 José Vergueiro era proprietário da fazenda Ibicaba próxima a Limeira SP.89 Luiz Antônio de Souza Barros, proprietário da colônia São Lourenço, situada entre Piracicaba e Rio Claro.26
  31. 31. BR-3 São Lourenço, 17 de maio de 1861Muito amado irmão !Sua carta de 16 de dezembro de 1860 recebi corretamente e a enviei, em seguida, parameus irmãos em São Lourenço. Enquanto não estivermos todos reunidos, não poderemosfazer nada em relação à nossa herança porque moro três léguas 90 distante de Campinas,na direção de Itu. Quando me desliguei do serviço da estrada, lá cheguei e encontrei umalemão de nome Friedrich [Frederico] Thamerus 91 e agora, em janeiro, me casei com afilha dele, a Philippina 92 . Até hoje estou com meu sogro, que tem bastantes terras. Agora,estou com idéia de também comprar terras. Estou muito contente com minha mulher, commeu sogro e com todos da casa. No mês de maio, meu sogro e eu subimos até SãoLourenço, distante 14 léguas. Antes, quase não se conseguia andar por aquele caminhoruim.Informo-lhe que, conforme você nos orientou, fizemos no Judiciário em Piracicabaprocuração de plenos-poderes 93 , que será enviada a seguir. Atestados de vida nãomandamos fazer porque nos disseram que estes seriam desnecessários, já que tivemosque assinar de próprio punho a certidão e, que isso seria suficiente prova de vida porqueos mortos não podem escrever mais.Agora pedimos a você que, quando receber a procuração, faça com que, o mais rápidopossível, possa nos enviar a nossa herança, pois todos nós necessitamos muito dela.Você deve saber aonde obter uma letra de câmbio: O Banco de Zurich está em contatocom casas de comércio no Rio de Janeiro, outra seria a casa Volenweiler [Vollenweider]em Liestai, que negocia com Rio de Janeiro; em Schõftland, Walti & Lüthi [deve tratar-sede Walter & Lüthi em Schõftland, estado de Aargau] poderão orientar onde poderãoconseguir um intercâmbio. Provavelmente a remessa deve ser feita por intermédio doCônsul no Rio, pois através dele, nós também enviaremos o nosso documento. Se, poralgum motivo, os de Signau não quiserem aceitar a procuração, alegando não estar certae não quiserem liberar o nosso bem hereditário, então vá até autoridades superiores.Se ela foi averiguada pelo Cônsul então, com certeza, ela é correta e tem valor. Para oseu esforço, trabalho e perda de tempo retire do saldo a quantidade suficiente para vocêficar contente. Os de Signau devem prestar contas a você 94 .O que o Tschudi 9 5 fez aqui, não posso informar. Pelo que se sabe, não fez nada. Ainformação é que ele encontrou tudo bem em ordem, mesmo que em muitos lugares reinemuita desordem. Em São Lourenço ele permaneceu, talvez, duas ou três horas. Cristianoapenas conseguiu falar com ele sobre a dívida da pátria. Então ele o informou que,certamente, os recibos serão enviados a ele, todo o restante ele providenciará. Mas,como de início foi anunciado, ele já está de posse dos recibos, e até aqui nada foiprovidenciado. No jornal alemão de Petrópolis, nós lemos que em breve Tschudi viajaránovamente. Agora, nossos irmãos, têm esperança de que ele pague duas vezes a dívidada pátria, isto é, aqui e na Suíça.Com as receitas, até agora, não fizemos nenhuma experiência. Dos costumes, das frutase das árvores daqui agora eu não posso escrever nada, mas, prometo fazê-lo em breve.90 1 légua = 6600 m.91 Niklaus trabalhou no melhoramento do caminho que ligava Piracicaba até fazenda Sete Quedas em Campinas e Frederico Thamerus foi o primeiro morador do Bairro Friburgo. Vide foto na página 28.92 Philippina Thamerus (1840-1862), foi a primeira esposa de Niklaus; não teve filhos.93 Vide ilustração na página 13.94 Niklaus nesta carta trata o seu irmão de V.Sa.95 Johann Jakob Tschudi era delegado extraordinário do Conselho Federal da Suíça para avaliar as condições de trabalho dos parceiros suíços nas colônias. 27
  32. 32. No Gigersami [deve se tratar de um certo Samuel Giger ou Gyger, emigrante tambémda Suíça] a situação é péssima. Desde que ele passou a ser um Senhor, ele bebedemais. Provavelmente ele também se casará logo. No ano passado, eu também aindaescrevi uma carta ao Henrique Müller, marceneiro em Hõfli96.Até aqui estivemos todos bem, menos o Samuel, que esteve doente novamente. Eleainda está na colônia e trabalha lá com os carros. Nós todos daqui saudamos muitíssimoa todos e desejamos-lhes tudo de bom e boa saúde.Seus irmãos Niklaus Kràhenbühl Samuel KràhenbühlSchlossrued AG com o castelo e a casa arrendada de UlrichKrãhenbühl-Zurflüh Casa de Frederico Thamerus, primeiro morador em Friburgo SP e primeiro sogro de Nicolau Kràhenbühl96 D e n o m i n a ç ã o g e o g r á f i c a e m Schlossrued AG.28

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