A Capa da Ana

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Uma história de Matilde Rosa Araújo.

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A Capa da Ana

  1. 1. A Capa da Ana in, O Gato Dourado Matilde Rosa Araújo 1978 Livros Horizonte
  2. 2. <ul><li>Ana tina uma capa azul. Tão linda a capa da Ana! Não era capa alentejana, não era capa da Nazaré, não era capa de estudante. Era a capa simples da Ana! Dei-lha quando fez cinco anos. </li></ul><ul><li>Tão linda, a minha Ana com a capa! Estreou-a quando começou a escola. </li></ul><ul><li>Eu ficava-me à janela e via-a partir com a capa (era azul), ela a anda em passos miudinhos. </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 2 - 10
  3. 3. <ul><li>E eu ficava-me a olhar. Apoiava as mãos contentes no parapeito da janela salpicada pela chuva ou pelo sol da manhã. </li></ul><ul><li>A minha filha é uma flor que anda! </li></ul><ul><li>Ó chuva, não venhas molhar a minha filha que vai para a escola! Ó sol, não aqueças de mais a cabecinha da minha filha que vai para a escola! Carros que correm na rua, parem, não magoem a minha filha que vai para a escola! </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 3 - 10
  4. 4. <ul><li>Mas eu devo deixar que ela vá sozinha, eu não lhe devo dar a mão… </li></ul><ul><li>Ser livre é crescer. </li></ul><ul><li>E eu tinha confiança naquela capa azul. Era contra o sol, contra o vento, contra a chuva. </li></ul><ul><li>Mas o vento, às vezes, soprava vu…vu…vu e a capa azul abanava, abanava, e eu dizia à janela, dizia em segredo ao vento, que a minha filha era uma flor que ele podia escangalhar com um soprozinho. </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 4 - 10
  5. 5. <ul><li>Mas, um dia, Ana chegou-se ao pé de mim e poisou em mim os olhos que estavam tristes: </li></ul><ul><li>_ Mãe, a capa desbotou. Mãe, a capa já não está tão azul. </li></ul><ul><li>Eu olhei a capa, poisei as mãos nos ombros de Ana e os olhos também. </li></ul><ul><li>_ Tens razão, Ana. A capa já não está tão azul como era. </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 5 - 10
  6. 6. <ul><li>_ É agora, mãe? Eu gostava tanto da minha capa! </li></ul><ul><li>E na voz transparente de Ana havia lágrimas pousadas. </li></ul><ul><li>_ Agora, milha filha, deixa-te andar assim até que eu te possa comprar outra. </li></ul><ul><li>_ Tenho tanta pena da minha capa… Não se pode pintar outra vez? </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 6 - 10
  7. 7. <ul><li>_ Não, Ana. Só de uma cor mais escura, para ficar bem. </li></ul><ul><li>_ Que cor? </li></ul><ul><li>_ Escura. Azul escuro ou preto. </li></ul><ul><li>_ Isso não! </li></ul><ul><li>_ Pois não, Ana. E sabes? Esta capa assim está bonita. </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 7 - 10
  8. 8. <ul><li>_ Bonita? </li></ul><ul><li>_ Andaste com ela ao sol, à chuva, ela viveu contigo, acompanhou-te. Agora é mais tua, tomou a cor do tempo. Contigo. </li></ul><ul><li>_ Bonita? </li></ul><ul><li>_ … </li></ul><ul><li>_ Bonita? </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 8 - 10
  9. 9. <ul><li>_ Sim, muito bonita. Mais que isso: linda! </li></ul><ul><li>Ana entendeu. Os seus olhos tinham uma capa nova, brilhante, límpida e contente. </li></ul><ul><li>_ E quando cresceres mais e esta não te servir, compramos outra capa… </li></ul><ul><li>Sol, chuva, vento da minha janela e todos os amigos que me lerem, vão contar esta história a todas as mães e a toda a gente. </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 9 - 10
  10. 10. <ul><li>Ela começa assim: Ana tinha uma capa azul… A minha filha partia livre para a escola. </li></ul><ul><li>E pouco mais diz. Só que ela partia livre para a escola. </li></ul><ul><li>FIM </li></ul>A capa da Ana – Matilde Rosa Araújo 10 - 10

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