ÍNDIOS DO RIO AÇU

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ÍNDIOS DO RIO AÇU

  1. 1. ÍNDIOS DO RIO AÇU HISTÓRIA DO POVO OTXUCAIANA, TAMBÉM CHAMADO TARAIRIÚ, QUE HABITAVA O SERTÃO RIO GRANDE DO NORTE FOLHETO DE POESIA POPULAR Autor: Benedito de Sousa Melo ALTO DO RODRIGUES/RN, 2013
  2. 2. 2 DADOS GERAIS DA OBRA Citar como: MELO, Benedito de Sousa. Índios do Rio Açu: História do povo Otxucaiana, também chamado Tarairiú, que habitava o Sertão do Rio Grande do Norte. Alto do Rodrigues/RN, 3ª edição do autor, 2013. Capa: Detalhe de óleo sobre tela: Albert Eckhout/ Índio Tarairiú, 1641/ Museu Nacio- nal da Dinamarca, Copenhague/ Domínio Público.
  3. 3. 3 ÍNDIOS DO RIO AÇU História do povo Otxucaiana, também cha- mado Tarairiú, que habitava o Sertão do Rio Grande do Norte Autor: Benedito de Sousa Melo 1. Caboclos da minha terra, Peço vossa inspiração, Para contar a história Dos índios do meu Sertão, Que tinham muita coragem, Mas foram postos à margem Pelas forças da opressão. 2. Na roda-viva do tempo, Já foram donos de tudo: Serra, várzea e tabuleiro, Bicho pequeno e graúdo; O que deixaram, de herança, Pouco resta, na lembrança, Quase tudo ficou mudo.
  4. 4. 4 3. A Ribeira do Açu, Há muitos tempos atrás, Era habitada por índios, Nossos bravos ancestrais, Perambulando na terra, Desde a várzea até a serra, No meio dos catingais. 4. Chamavam-se Potiguara, Os índios do litoral, No tempo das conhecidas Grandes piscinas de sal, Naturalmente formadas Nas planícies alagadas, Onde seria Macau. 5. Tarairiú era o nome Dos índios do interior, Que, outra língua, falavam, Sendo um povo lutador; Usando tacape e dardo, Depois de haver dançado, Guerreavam sem temor.
  5. 5. 5 6. Os Potiguara viviam Na vizinhança do mar, Onde hoje é Paraíba, Rio Grande e Ceará; Falavam língua tupi E utilizavam tingui Quando queriam pescar. 7. Os índios Tarairiú Eram donos do Sertão; Possuíam muitos chefes, Cada um mais valentão; Do Assú ao Seridó. Lutaram, num corpo só, Contra a colonização. 8. Chamava-se Janduí, Um índio longevo e forte, Que viveu mais de cem anos(1), Até que lhe veio a morte; Chefe de muitos guerreiros, Corajosos e ligeiros, Que duelaram com a sorte.
  6. 6. 6 9. Esculpiam, no jucá, Suas bordunas temíveis; Quando partiam pra luta, Eram sujeitos terríveis; Além de bons corredores, Não padeciam temores, Estes guerreiros incríveis. 10. As mulheres eram fortes, Além de muito jeitosas, Traziam pernas robustas E maneiras decorosas; Plantavam batata e milho, E conduziam seus filhos, Nos afazeres das roças. 11. Kuniangeya era o nome Do vale do rio Açu; Otxucaiana era o povo, Ou, também, Tarairiú, Que dominou esta terra, E sabia fazer guerra, Que assustava urubu.
  7. 7. 7 12. Então vieram colonos Das bandas de Pernambuco, Ocuparam todo o vale, Com gado, para ter lucro, E fornecer aos engenhos, Minas e outros empenhos; Nisso, o índio ficou puto. 13. Junto com esses colonos, Os negros também chegaram; Capturados no Congo, Os traficantes ganhavam Dinheiro, com suas vendas, Para a lida nas fazendas, Que os colonos fundavam. 14 Já faz quatrocentos anos Que negros pisam este pó; Trouxeram muitos saberes, Que sobrevivem ao redor; Também, nove baobás, Para honrar os ancestrais, Plantaram no Piató(2).
  8. 8. 8 15. A Ribeira do Açu, Mirada, foi, por franceses, Que não fundaram colônia, Mas vieram os portugueses, Que traziam seus zagais, Para cuidar dos currais, Com touros, vacas e reses. 16. Era um tempo de disputa Dos Estados europeus, Que buscavam alianças Para os interesses seus; Aliciavam os nativos, Para fazê-los cativos, Usando o nome de Deus. 17. As tramas, que eram urdidas, Os nativos percebiam; A pretexto de amizade, As suas terras, queriam, Pois capitães portugueses, Em guerra com os holandeses, Escravos, índios, faziam.
  9. 9. 9 18. Há mais de trezentos anos, Os holandeses tomaram O Nordeste brasileiro E, aqui, perambularam Astrônomos, naturalistas, Pintores, também cronistas; Muitas coisas, registraram. 19. Os índios Otxucaiana, Há muito tempo sabiam Que os brancos portugueses, As suas terras, queriam, Pra transformar em curral; Na extremidade do mal, Índios, escravos, seriam(3). 20. Foi por isso que ocorreu A memorável união De milhares de guerreiros, Vindos de todo o Sertão; Armas de fogo, usaram, Em cavalos, batalharam, Pra não ter escravidão.
  10. 10. 10 21. Foi na década de oitenta Dos anos mil e seiscentos, Que houve a Guerra do Açu(4), Morrendo índios aos centos, Que os bandeirantes mataram, E os massacres duraram Após mil e setecentos. 22. Fizeram muitas promessas Aos chamados maiorais Da Ribeira do Açu, Para não lutarem mais; Bem longe, eram levados E, lá, seriam poupados, Se não voltassem jamais. 23. Foi isso que ocorreu Ao grande Rei Canindé, Senhor de todo o Sertão, Homem, menino e mulher, Pois o Rei de Portugal Prometeu não fazer mal, Se o índio mudasse a fé.
  11. 11. 11 24. Canindé foi batizado, Junto com outros guerreiros, Que rumaram pra missão, Onde não foram os primeiros, Que, para mudar a sina, Sujeitavam-se à rotina Dos padres missioneiros. 25. Os portugueses, contudo, Não cumpriram o acordado, Pois, acima da palavra, Imperava criar gado; Para a colônia aumentar, Mais terras iam tomar, Como fora projetado. 26. Os capitães portugueses, Casas-fortes, construíam, Para lutar contra os índios, Que no sertão resistiam, Do Assú ao Seridó, Desde Acauã(5) ao Cuó(6), Os capitães se escondiam.
  12. 12. 12 27. Foi o tempo em que chegou, Nesta frondosa ribeira, Coberta de carnaubais, Um tal Bernardo Vieira, Que deixou feito um presídio Para engaiolar o índio Que praticasse "besteira". 28. Os parceiros holandeses Já se haviam debandado, Como parte de um acordo, Com Portugal, celebrado, E o povo Tarairiú, Da Ribeira da Açu, Foi sendo dilacerado. 29. Mas ocorre que as famílas, Em muitas localidades, Possuem traços indígenas, Que têm visibilidade, E guardam recordações, Vivendo, por gerações, Na mesma propriedade.
  13. 13. 13 30. Casar-se primo com prima É um costume existente, De modo que tem lugar Onde todos são parentes, E transmitem, como herança, A persistente lembrança De antepassados valentes. 31. Falam de uma bisavó, Cabocla muito "danada", Pega a casco de cavalo, Para fazer-se casada Com um vaqueiro valente, Dando origem àquela gente, De natureza mesclada. 32. Têm diversos apelidos, As famílias do lugar: De Caboré a Cabôco, Pacamom e Carcará; São memórias ancestrais, E pode saber bem mais Qualquer um que perguntar.
  14. 14. 14 33. Alinhavei estes versos Com minhas palpitações, Pois a história contada Anda cheia de omissões. Sou filho dos Carcará, E vim aqui expressar Minhas nativas pulsões. Alto do Rodrigues/RN, março de 2013. NOTAS: (1) O cronista holandês Roulox Baro ("Viagem ao País do Tapuias", 1647) afirma que o chefe Janduí teria ultra- passado 160 anos. Por causa do costume de identificar os índios com o chefe, os Tarairiú seriam chamados de "Jandoins". (2) "Piató": Lagoa do Piató, no municí- pio de Assú/RN, onde, além dos nove bao- bás (herança africana), há uma comunida- de indígena, conhecida como "Caboclos do Assú".
  15. 15. 15 (3) Foi para resistir à tomada das ter- ras indígenas por criadores de gado de origem portuguesa, que o chefe Janduí, dos índios Otxucaiana, estreitou, em 1638, amizade com os holandeses, os quais haviam arrebatado da Coroa portu- guesa o domínio sobre a região Nordeste, produtora de açúcar, em nome da empresa denominada "Companhia das Índias Ociden- tais". (4) A Guerra do Açu, também chamada 'Guerra dos Bárbaros', de acordo com Pe- dro Puntoni, ocorreu "desde o último quartel do século XVII até a segunda dé- cada do século seguinte" ("A Guerra dos Bárbaros", 2002. (5) "Acauã", nesta passagem, é a "Serra da Acauã", mais conhecida como "Serra de Santana", sendo uma referência à região do Seridó, onde existem construções des- sa natureza. (6) "Cuó", neste verso, alude à "Serra do Cuó", elevação topográfica do municí- pio de Ipanguaçu/RN, onde há uma casa- forte.
  16. 16. 16 A PROPÓSITO DESTE FOLHETO Esta pequena obra buscou a forma literária do folheto de poesia popular ("cordel") para contar uma história, sem pretender alcançar caráter histo- riográfico. Fica explicado, deste modo, o conteúdo sucinto, destinado apenas a passar algumas infor- mações sobre o tema, sem a extensão e o rigor cien- tífico necessários para constituir uma História dos Índios do Rio Açu. Ainda assim, esclarecemos algu- mas passagens nas poucas notas ao fim do texto. Para obter mais informações, buscar, no Face- book, por Kuniangeya Tarairiú. Benedito de Sousa Melo, Alto do Rodrigues, 21 de julho de 2013.

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