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  1. 1. ÍUBRO 1968 DA EDKÕRA ABRIL llMil FÉ MISTHIIIISAI IIMBIINIIA US nmimunmus Will il iillflllin: IIIIMPIAIIIIS IIJÍIEII ESPANIIISII nn Mililllliln: EENEIIBII um mis num mma n¡ iillillnlin: illlilllJil lili¡ um nniimii: r l
  2. 2. Existem quase oitenta mil padres católicos casados em todo o mundo. No Brasil, mais de quinhentos. E aumenta o número dos que I querem casar. Este e um problema da Igreja. e l J il E Texto de Gabriel Romeiro á dois anos, os alto-falantes da paróquia de Piraí, Estado do Rio, pediam aos gritos “o perdão de Deus para o escândalo de um amasiamento público". Nesse dia, o an- tigo vigário da paróquia, Padre Ciro Monteiro, casava no civil com a tax-presidente das Filhas de Maria. Apesar das censuras do nôvo vigário, o povo de Piraí apoiou Ciro. Hoje, Ciro é pai de um menino de quatro meses e trabalha como as- sessor de Educação do prefeito. Em breve, deverá receber de Roma a dispensa do celibato e Dom Valdir Calheiros, bispo de Volta Redonda, fará o seu casamento na Igreja. O que aconteceu com o Padre Ciro não é um fato raro nos últimos tempos. No Brasil, há mais de quinhentos padres casados, num total de quase 13 mil sacerdotes católicos. Um entre cada 26 padres casou. Em todo o mundo, há perto de 80 mil padres casados; todo _ano casam mais ou me- nos 2 500. De dez anos para cá, mais de 7 mil pa- dres alemães e mais de 7 mil padres franceses abandonaram o seu trabalho na Igreja para casar. Na Itália, 70 mil ainda estão trabalhando, mas 15 mil já casaram. Bispo tinha que ser bom marido Durante o Concílio Vaticano II, alguns bis- pos tentaram colocar em discussão a lei do celi- bato eclesiástico. Entre êles estava o bispo de Lins, São Paulo, Dom Pedro Paulo Koop. O Papa Paulo VI, no entanto, impediu debates sôbre o assunto na aula conciliar. “É necessário que o bispo seja irrepreensível, espôso de uma -só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento; e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito. Pois, se alguém não sabe go- vernar a própria casa, como cuidará da Igreja de Deus? " É o que diz São Paulo na primeira das duas cartas que escreveu ao seu discípulo Timó- teo. E, na carta ao discípulo Tito, São Paulo dizia que o dever do padre era ser uma pessoa "irre- preensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução nem são insubordinados". Nos primeiros tempos da Igreja, o celibato não era obrigatório para bispos e padres. Mas o evan- gelho de São Mateus narra um sermão de Jesus que termina assim: "Há pessoas que nascem cas- tradas; há outras a quem os homens castraram; e há outras que se castraram, por causa do reino dos céus. Quem é apto para admitir, admita". Por causa do sermão, muitos cristãos logo renun- ciaram livremente ao casamento. Alguns chega- ram mesmo a tomar essas palavras ao pé da le- tra e se castraram fisicamente. O prestígio do celibato, nos primeiros séculos da Igreja, era crescente. Chegou a tal ponto que, SEGUE ll
  3. 3. WytnrI-Iv-vwrüvvvwwnv www-ww- I i l EUBATO E : oxnsiucíú i F . ,,. _._. ... . . .u-wnn-w. rv-v-v-v-'V' - run-nun- - . .-. _ . -n. -v w-" -*' "' Século IV: trezentos bispos Casados em dado momento, muitos cristãos se negavam a participar das celebrações litúrgicas presididas por padres casados. O Concílio de Granges, em 350, condenou essa atitude. Já havia. então, uma primeira lei do celibato. O Concílio Ecumênico de Nicéia, reunido em 325, decidira que os bispos. padres e diáconos não po- deriam casar depois de ordenados. Mas. se já fôs- sem casados antes da ordenação. não tinham que largar a mulher. Agora. precisava abandonar a mulher A partir daí. a lei do celibato teve histórias di- ferentes no Oriente e no Ocidente. No Oriente. aos poucos começou a se tornar obrigatório para bispos. embora continuasse a não ser imposto aos padres e aos diáconos já casados no momento da ordenação. No século VI, Justiniano, imperador de Constantinopla. decretou que homem com fi- lhos não podia ser bispo. O bispo. se fôsse ca- sado. não podia ter relações sexuais com a mulher. embora pudesse morar com ela. Finalmente. o Concílio de Trullo, em 692. fi- xou a lei do celibato no Oriente. Os padres e os diáconos foram proibidos de casar depois de or- denados. Se já estavam casados no momento da ordenação, podiam continuar a viver com as mu- lheres. Mas deveriam se abster do ato sexual sem- pre que tivessem de celebrar a missa. Quanto aos bispos já casados. deviam abandonar as mulheres. que iriam para mosteiros distantes. Essa lei está em vigor até hoje nas igrejas orientais, tanto nas separadas de Roma. quanto nas unidas a Roma. No Ocidente, também devagar o celibato foi aceito em diversas regiões. No ano de 300, o Con- cílio regional de Elvira (Espanha) estabeleceu a lei do celibato para a região. Em 386. o Concílio regional de Roma implantou a mesma lei, e o Papa Sirício aconselhou alguns bispos da Espanha e do Norte da África que a obedecessem. O II Concí- lio regional de Cartago (Norte da África) adotou a norma em 390. No ano de 404. o Papa Inocên- cio I pediu ao bispo de Rouen (Norte da França) que usasse a lei na sua diocese, fazendo o mesmo. no ano seguinte. com o bispo de Toulouse (Sul da França). Nem por isso deixavam de surgir muitas rea- ções contrárias. No fim do século IV. São Jeró- . 2.4-. .. nimo dizia conhecer pessoalmente mais de 301 bispos casados. Até o fim do século VI, muito bispos e padres. mesmo já casados. mandavan colocar sôbre seus túmulos epitáfíos com dizere contra o celibato. Contudo, o Concílio regional _de Orange, n: França, no ano de 441. exigiu daqueles que fôssen ordenados diáconos uma promessa de castidade perpétua. Pouco depois. o Papa Leão I ordeno¡ que também os subdiáconos ficassem sempre solteiros. Hoje em dia, o subdiaconato é apenas a última das ordens chamadas menores, pela qual deve pas sar o semínarista antes da ordenação sacerdotal E. até pouco tempo. o diaconato era apenas a úl- tima dessas etapas. O Concílio Vaticano II resta- beleceu o diaconato permanente sem a obrigaçãc do celibato. para os que forem ordenados depois de casados. Esses diáconos podem pregar. batizar. distribuir a comunhão e presidir a celebração de casamentos. Os primeiros. na América Latina, foram ordenados em agôsto último pelo Papa Pau- lo VI. durante o Congresso Eucarístico Internacio nal de Bogotá. na Colômbia. Na época do Papa Leão I. não havia só diáco- nos. mas também subdiáconos que exerciam deter- SEGFE FhTn DE CLODUWIR BEZERRA Luciano era padre na Paraíba; dispensado das ordens. casou com Lourdes, numa capela. 55
  4. 4. 931: João Xl, o papa, era filho de papa CELIBATO . ninadas funções na Igreja e nunca chegavam a "*3'”'“"^'^“' ser padres. A êsses o papa determinou a vida celibatária. Mas essa determinação não era consi- derada lei que devesse ser imposta em todo o Oci- dente. Tanto assim que, em 524, o Concílio regional de Arles (Sul da França) quis dos diá- conos a promessa da castidade eterna. mas não pediu o mesmo dos subdiáconos. Mesmo sem uma lei de influência universal, o celibato acabou seguido praticamente em todo o Ocidente no início do século IX. Já no fim do século. entretanto. a prática entrou em decadên- cia. Casados ou não, quase todos os padres ti- nham mulheres. Sérgio III, eleito papa em 898 mas expulso de Roma por uma facção que elegera João IX, voltou em 904 apoiado pelo Senador Teofilacto. Apaixonou-se pela filha do senador, Marozia, teve um filho com ela e morreu em 911. Muito influente em Roma, Marozia conseguiu que o filho se tornasse papa como o pai, com o no- me de João XI. aos 22 anos. Ele morreu aos 26, no ano de 935. no comêço de um século durante o qual o celibato seria muito discutido. As discus- v sões entraram pelo século Xl. já com os papas geralmente a favor do celibato. Até que, em l 123, no l Concílio Ecumênico de Latrão, êle se tornou lei para todos os subdiáconos, diáconos, padres e bispos do Ocidente. A lei sofreu sempre muitos ataques. Desde logo, muitos acharam que o melhor seria adotá-la tal como vigorava no Oriente. No Concílio de Cons- lança, em l4l5. o Cardeal Zabarella defendeu pú- blicamente êsse ponto de vista. Apareceram mui- tos documentos papais falsificados com o objetivo de justificar casamentos de padres. Mas em 1470 ainda havia quem não concordasse muito com o celibato. Nesse ano. Alexandre Bórgia. sobrinho do Papa Calisto III. por quem fôra nomeado su- cessiva e rapidamente bispo. cardeal e vice-chan- celer da Igreja. ligou-se a Vanozza dei Cattanei. Ela lhe deu quatro filhos. entre os quais César e Lucrécia Bórgia. e das amantes de Alexandre foi a mais duradoura. Antes. porém. de ser eleito papa com votos comprados em 1492. éle a substi- tuiu por Júlia Farnese. chamada Júlia Bela. César. seu filho. progrediu espantosamente na carreira. e aos dezesseis anos já era cardeal. Finalmente. no século XVI. os reformadores protestantes declararam nulo o voto de castidade dos padres e bispos. No meio do século. o Concí- lio de Trento, opondo-se aos protestantes. _confir- mou a lei em vigor já há quatro séculos. Assim mesmo, o Imperador Ferdinando l, em 1564, e posteriormente seu sucessor Maximiliano ll pe- diram ao Papa Pio lV que suprimisse a obrigaçãc para o clero alemão e o dos países vizinhos. C papa pensou seriamente em fazer essa concessão para diminuir as áreas de atrito com o protestan- tismo que se propagava muito nessa parte da Eu- ropa. Mas não chegou a faze-la até a sua morte porque a isso se opunha enêrgicamente o Rei Fi- lipe II. da Espanha. A lei do celibato triunfou de- finitivamente. Querem continuar padres, não podem Luís da Costa Paz tinha 27 anos quando foi ordenado padre na Igreja de Bom Despacho, Mi- nas Gerais. em 1962. Entre os que assistiam ê ordenação estava uma menina de treze anos. cha mada Maria da Conceição. Padre Luís passot como vigário pelas cidades de Santa Rosa e Me deiros. Em 1966. voltou a encontrar Maria dz Conceição, com dezessete anos. professora err Congonhas do Campo. Nasceu o namôro entre o: Sítil' IFOTO DE'. GUINALÍJU NICOLAIEYVSKY' Padre Luís e Maria tiveram que fugir _para casar. na Igreja de Bom Despacho, em Minas 57 21,1
  5. 5. Hoje padre que casar perde o sacerdócio : ELIBATO dois. No ano passado. casaram na Igreja de Bom n: .l'l. “l . uniu Dcspacho. Agora. Luís é professor de francês e portugués no ginásio de Lagoa da Prata, Minas Gerais. Mas gostaria de continuar trabalhando como padre. Também José Augusto Maia da Silva, que foi capelão militar e casou há cinco meses, tem êsse desejo: - Estou convicto de que não há nenhuma in- compatibilidade entre o sacerdócio e o casamento. que são dois sacramentos da Igreja. Gostaria de voltar brevemente às minhas funções de major- capelão. Muitos padres que casaram pensam assim, mas a Igreja só tem permitido o casamento com a con- dição de que abandonem as funções sacerdotais. Em outras palavras, o padre só tem direito de casar laicizando-se. isto é. voltando a ser leigo. E, como leigo. o único ato sacerdotal que êle pode fazer é dar absolvição, em casos extremos. Mais de um padre casado, entretanto, deu-se mal com o uso dêsse direito. Em São Lourenço. Minas Gerais. Hi- pólito Pedrosa, 52 anos, diretor de colégio. pai dc uma menina de oito anos, viu-se de repente na rua diante de um atropelado. O homem morria. Sem pensar nas conseqüências do que fazia, Hipó- lito deu a absolvição. Nesse dia. tôda a cidade descobriu uma coisa de que não suspeitava: Hipó- lito era padre. O vigário moveu uma campanha para expulsa-lo de São Lourenço e conseguiu apoio do povo. Hoje. Hipólito mora no Recife e trabalha na Sudenc. Nem todos os padres que casam obtêm licença para casar na Igreja. O exemplo do Deputado Fede- ral Pedro Vidigal. que se casou em 1966 quando era ainda Padre Vidigal, é incomum. Em quinze dias chegou do Vaticano a autorização para “uma solenidade religiosa íntima e discreta": era a pri- meira dispensa de ordem. desde o Concílio Vati- cano ll. Em geral. a demora e as dificuldades do processo fazem muitos padres desistir. No dia em que o Padre Vidigal chamou os jornalistas para anunciar seu casamento. um padre, ainda jovem. veio dizer-lhe que também pretendia casar-se na Igreja. mas já esperava há dcz anos uma resposta de Roma. Por isso. há algum tempo algumas vozes se têm levantado pedindo maior abrandamento. No ano passado. em carta aos bispos do Brasil. trezentos padres zissim colocavam o problema: "Há padres que deixaram o ministério há muito tempo-e não se estão importando com a possibilidade de um. processo, visto por alguns como um tanto humi- lhante. Não pediram e não vão pedir laicização. Não está na hora de se pensar numa anistia geral sem processo para todos eles, num grande espírito de reparação? Que sc faça uma consulta discreta a todos os padres do Brasil sôbre o problema, a que não se pode e não se deve fugir". Os apelos já dão resultados Também no ano passado, o teólogo alemão Karl Rahner, famoso pelas posições avançadas. em carta aberta onde fazia enérgica defesa da vida celibatária, declarou: “Não vou discorrer sôbre a questão do que a Igreja deva fazer quando um sacerdote lhe vem pedir _ por motivos bons ou maus - que ela o dispense de seu compromisso. Em tais casos, seja a Igreja tranqüilamente mag- nânima! " Esses apelos já deram os primeiros rc- sultados. Na assembléia do Conselho Episcopal Latino-Americano - Celam - em Medellín. Co- lômbia, no início de setembro passado. os bispos disseram que “os padres que abandonaram o sa- cerdócio são rcspeitados como irmãos e amados como filhos, embora sua decisão tenha causado sofrimentos". E, dirigindo-sc a êsses padres: "Vós encontrareis sempre nosso coração aberto para ajudar-vos a conservar ou recuperar os laços visí- veis de uma unidade essencial na Igreja de Cristo". *PGFN FOTO DE CLODOMIB BEZERRA José Augusto. padre da Paraiba. casou há quatro meses e gostaria de voltar ao trabalho de major-capelão.
  6. 6. “Um dom de Deus não pode ser imposto” Na encíclica Sacerdotalís COeÍÍbUIUS (Sôbre o Celibato Sacerdotal), Paulo VI afirma que “o ver- dadeiro e profundo motivo do celibato sagrado é a escolha duma relação pessoal mais íntima e mais completa ao mistério de Cristo e da Igreja, para o bem da humanidade tôda". No mesmo sentido, o teólogo Karl Rahner fala de sua vida celibatá- ría: “O celibato é uma realização de fé tão cheia de esperança, e é uma parte substancial de minha fé (embora não seja tôda ela! ). É simplesmente o seguinte: eu abro mão de uma grande, maravi- lhosa dádiva desta vida, porque eu creio na vida eterna". Quando Rahner destaca “minha" e “eu". quer dizer que o celibato é uma forma de o cristão viver a sua fé, e que êle foi chamado para vivê-la dêsse modo, assim como outros cristãos vivem sua fé no casamento. A encíclica Sacerdotalis Coelibatus foi escrita com a intenção explícita de declarar que o celi- bato pode ser vivido no mundo de hoje. Já no seu primeiro parágrafo, Paulo VI lembra que, “se- gundo alguns, a observância do celibato eclesiás- tico constituiria agora um problema; tornar-se-ia como que impossível em nossos dias e em nosso mundo". Uma crítica que se faz com freqüên- cia à lei do celibato é a de que ela coloca o padre FOTO DE CLODOMIR BEZERRA I j. I . a ' . S , : -. - Leovigildo, ex-Frei Henrique, pernambucano. diz que acha possível a extinção do celibato. na u. ) numa situação física e psicologicamente antína- tural. A união com uma mulher seria uma neces- sidade inelutável do homem. A carência afetiva decorrente da ausência de uma mulher em sua vida impediria o padre de se tomar um homem plenamente maduro. Respondendo a essa objeção, Paulo VI afirmou: “O homem, criado à imagem e à semelhança de Deus, não é composto somente de carne, e o instinto sexual não é tudo nêle. O homem é também e antes de tudo inteligência, von- tade e liberdade: tais faculdades o tornam supe- rior ao universo e o obrigam a considerar-se como tal; dão-lhe o poder de dominar suas tendências físicas, psicológicas e afetivas". E com energia Karl Rahner afirma, no mesmo sentido, que "o au- têntico celibato - apesar de suas falhas, que nos são tão freqüentemente apontadas - nada tem a ver com uma falta de sexualidade eunucóide, mas só é possível numa atitude autêntica dos sexos, um perante o outro, pela qual reconhecemos nós mesmos como homens, e a mulher como mulher". Da mesma forma pensa o teólogo e psicanalista francês Marc Oraison: "Seria ingênuo crer que um ser humano só pode ser feliz casado, e que um celibatário é obrigatoriamente infeliz e dese- quílibrado. A experiência - e também o folclore - contradiz cabalmente éste esquematismo um pouco pueril". lmprudência ou imaturidade? O número crescente de padres que abandonaram suas funções para casar não deixa de preocupar algreja. Para Paulo VI, a causa dêsse problema não está no próprio celibato, mas “no fato de não se ter sabido sempre avaliar a tempo, de modo satisfatório e prudente, as qualidades do candida- to ao sacerdócio; ou então os ministros sagrados nem sempre souberam viver de modo coerente o compromisso de sua total consagração a Deus". Para Pedro Paulo Resende, padre formado em psicologia e sociologia, que casou no ano passado, o problema está na formação fechada dos semi- nários: - Um padre termina o Seminário Maior aos 28 anos. Só então volta ao mundo que deixou em criança. Fomos arrancados do lar e nossa afeti- vidade. se não embotou. foi recalcada e jamais sublimada ou canalizada. 913m1 CELIBA CONTINUA
  7. 7. A Igreja vê seus quadros diminuírem Para o Padre Paulo Ponte. professor no semi- nário de Fortaleza. a raiz do problema está no modo equívoco de se apresentar o celibato como uma obrigação imposta aos sacerdotes. Êsse equi- voco se manifesta com freqüência na Igreja e nem o Concílio se libertou inteiramente dêle. A certa altura. diz o decreto sobre os padres: "O celibato. que de inicio era recomendado aos sacerdotes. foi depois impôsto por lei. na Igreja Latina. a todos os que iriam ser promovidos à ordem sacra". Para o Padre Paulo Ponte. o celibato não pode ser im- pôsto por lei. simplesmente porque é um dom de Deus. Ema lei humana não pode substituir um dom de Deus. Uma coisa é impor o celibato aos sacerdotes: outra coisa é fazer padres só aqueles homens que optaram pelo celibato. A lei da Igreja não pode impor o celibato aos sacerdotes. mas pode restringir a ordenação sacerdotal somente àqueles que já escolheram a vida celibatária. Nesse caso. cada semínarista. antes de ser ordenado. deve não só fazer uma opção pelo sacerdócio. mas antes disso deve fazer sua opção pelo celibato. Não é o que acontece sempre. Muitos semi- naristas não veem no celibato mais do que mera condição para receber a ordenação sacerdotal. Outros reconhecem que o celibato tem um valor cristão. que foi aconselhado pelo Cristo. mas o aceitam apenas porque dele depende a ordenação sacerdotal. Se não houvesse essa dependencia. não escolheriam a vida celibatária. Para o Padre Paulo Ponte. o semínarista que se ordenasse com a pri- meira dessas dllClS atitudes "estaria fadado a sentir FNTU r-! Z FIIIZNHHR H"'7V¡: $1- O Prof. Amadeu. que já foi Padre Ricardo. ' conheceu Dona Maria Miranda há 18 anos, em Salvador. graves conflitos. recalques e frustrações futuras; e CELlBATl guardaria ressentimento ou revolta. ao menos in- 'i""”" “l conscientes. contra a autoridade eclesiástica que ele responsabilizaria por uma importante decisão de graves conseqüências"existenciais para a sua vida, mas da qual êle não tomara pessoalmente a primeira iniciativa". Êsse semínarista. diz Padre Paulo Ponte. nunca deveria ser ordenado padre. Quanto aqueles que têm a segunda atitude. em- bora sua situação seja melhor que a dos primei- ros. estão igualmente ameaçados de virem a se sentir frustrados e ressentidos. Escândalo no casamento. escândalo na separação Para que sejam evitados problemas com o ce- libato. o Concílio Vaticano II deu a seguinte in- dicação: "Já que a observância da continéncia per- feita atinge intimamente inclinações das mais pro- fundas na natureza humana. não se decidam a fa- zer a profissão de castidade nem a ela sejam ad- mitidos os candidatos. senão após uma provação realmente suficiente e com a devida maturidade psicológica e afetiva". Paulo VI foi mais longe e aconselhou que. durante períodos de treino. o cum- primento de celibato do semínarista seja posto i1 prova. antes que se torne definitivo pela ordena- ção sacerdotal: O Padre Paulo Ponte. porém. afirma que. no seu tempo de seminário. "a preocupação não era tanto de educar para o estado de vida do celibato. como de formar para a castidade. de garantir a continénciai perfeita. e assim ntestno na base dc uma repressão negativa da sexualidade". Mas. para ele. o mais importante é fazer com que o celibato não seja mais visto como imposição. Se- ria necessário. então. que celibato não fôsse mais uma condição para alguém ser ordenado padre. Só assim. aqueles que quisessem ser celibatários po- deriam adotar êsse estado de vida com plena liber- dade psicológica. Desse modo. o testemunho dos celibatários teria muito mais valor diante dos ho- mens de hoje. pois todos saberiam que não have- ria nenhuma imposição jurídica na base. E o mundo de hoje. crê o Padre Ponte. tem necessi- dade urgente do testemunho de vidas consagradas aos mais altos valores espirituais. Outros. como o teólogo Karl Rahner. zicham que a Igreja só deve ordenar homens casados onde -. “II, I'I"
  8. 8. “Nem solteiro nem casado, marginal” ela não puder ter clero suficiente sem abrir mão do celibato: "O dever de cuidar de um clero su- ficiente para a cura de almas passa à frente da possibilidade e do desejo - em si mesmo legíti- mo - de possuir um clero celibatário". A êsse respeito, declara Dom Serafim Fernandes de Araújo, bispo-auxiliar de Belo Horizonte: - Grande parte dos sacerdotes brasileiros não mediu tódas as conseqüências quando chegou a hora do voto do celibato: depois de dez ou quinze anos de sacerdócio é que vão descobrir o proble- ma. Com isso, a Igreja vê seus quadros diminuírem cada vez mais. A solução está em ordenar padres casados. Só a minha arquidiocese terá, em um ano, mais de 2 mil novos padres. se fôr adotada a ordenação de homens casados. Mas essas soluções não se preocupam em res- ponder ao desejo daqueles padres que casaram e, que gostariam de continuar a exercer funções sa- cerdotais na Igreja. Karl Rahner. que considera a crise atual do celibato como fruto da fraqueza da fé dos padres, acha que de nada adiantaria permi- tir que éles se Casassem. Hoje em dia, a vida fa- miliar passa por uma grande transformação, aumentando os riscos e a fragilidade do matri- mônio. Para êle. se o casamento fôr concedido aos sacerdotes. em pouco tempo os bispos terão de contar com tantos problemas de casamentos desfeitos entre os seus padres. quanto hoje com os 'UE . ->Sl5' H4'r: '~l'¡. , Padre Jacó. de Pôrto Alegre, també_m quer vol-h tar ao sacerdócio, mas a Igreja nao permite. escândalos e infelicidades de seu clero celibatário. Para o psicanalista Marc Oraison, permitir que padres casern e continuem a exercer funções sa- cerdotais não resolve nada, simplesmente porque a crise do celibato não passa de um aspecto de uma crise mais geral das estruturas da Igreja. Para êle, contentar-se com essa permissão “seria sobre- tudo não reconhecer que o problema é muito mais vasto e não ter coragem de pôr em questão as es- truturas". Também há outros problemas Essa afirmação de Marc Oraison concorda com o grito de protesto do ex-Padre -Pedro Paulo Resende: - Até fome a gente passa. A estafa afugentou o apetite. É- domingo. A empregada saiu mais cedo. Ela também tem os seus familiares e o seu direito ao lazer. Mesmo quando animada e de boa vontade, é atrasada, não sabe fazer as coisas direito. Aliás, isso é quase uma exigência, porque, se não fór “canônica" (isto é, bem balzaquiana, com a face vincada, preferivelmente sem dentes ou até com defeitos físicos, simplória, analfabeta, desajeitada, sem expediente), o padre será alvo dos mais injuriosos e infundados comentários. No mesmo sentido, diz o Padre Adolfo Krippa, professor de Teologia na Universidade Católica de São Paulo: ' _ O padre não passa de um marginal. Não é solteiro nem casado; não tem estado civil e não tem profissão definida. E o Padre Michel Schooyans, professor na mes- ma Universidade, escreve: “No decorrer dos últi- mos anos, um número relativamente importante de padres pediu sua redução ao estado leigo. Em al- guns casos, a explicação principal se acha sem dúvida no pêso das obrigações sacerdotais, em par- ticular do celibato. Mas essa explicação está longe de valer na maioria dos casos. Ela é muito fácil. muito superficial para ser a única verdadeira e mesmo a principal. Muitos désses padresocupa- vam importantes funções na Igreja. eram perso- nagens em evidência, humanamente dotados, bem preparados. Geralmente, levavam uma vida sacer- dotal regular. Mas. então, onde convém procurar a causa principal dessas decisões? Pelo que se po- de julgar através de Confidências e narrativas, a SEGUE CELIBATO CONTINUAÇÃO
  9. 9. l9Õ8: o i problema tem solução? maior parte désses padres. embora desejosos de viver e exercer integralmente o sacerdócio, disse se declaram impedidos por causa das estruturas eclesiásticas atuais". Na reunião do mês passado, em Medellín, os bispos latino-americanos apontaram 5 causas para a crise atual do clero, além do celibato: l - Uma crise de fé, por causa da formação intelectual muitas vêzes insuficiente, ao lado de uma crescente indiferença pela Igreja institucio- nal, cujas estruturas. demasiado tradicionais. já não inspiram confiança. 2 - O fato de a oposição Igreja-Mundo, man- tida durante séculos como base da formação do clero, se estar desmoronando. 3 - A existência de uma tensão entre as novas exigências do ministério sacerdotal e certa manei- ra de exercer a autoridade, o que provoca uma crise de obediência. 4 - A existência do sacerdote na Igreja está sendo ameaçada pela revalorização do leigo. 5 - As condições materiais de vida precária de muitos sacerdotes. Marc Oraison, o psicanalista, sintetiza essas causas na crise do sistema que divide os membros da Igreja em clero e leigos. Desde os primeiros turu PF. asiústu . 'I)II. IrI›, O mineiro Padre Ciro já casou no civil, em 1966; seu filho verá o casamento na Igreja. tempos da Igreja, havia nela bispos, padres e diá- conos. Mas êstes não constituíam um grupo à parte. com vida diferente da dos outros cristãos. Foi só a partir dos séculos III e IV que êles começaram a formar um corpo sociológico distinto dentro da Igreja. Depois das invasões bárbaras, nos séculos IV e V, êsse grupo assumiu funções de poder polí- tico e civilizador. O papado era uma superpotên- cia política na Idade Média e o trabalho civiliza- dor realizado nessa época pelo clero. entre os bárbaros. foi da maior importância. Nesse contex- to, definiram-se duas categorias: de um lado. os clérigos ou “pessoas da Igreja" que sabiam ler; do outro lado. os que não sabiam ler. O homem que queria ser sacerdote de Cristo tinha que passar de uma para outra categoria: tornar-se clérigo. E isso significava não só adotar o celibato, mas tam- bém passar a participar do poder político e cultu- ral. Até um século e meio atrás, êsse sistema con- seguiu vir se adaptando às diversas circunstâncias históricas. Com o aparecimento dos regimes repu- blicanos de governo, constatou-se definitivamente que os leigos tinham aprendido a ler, a organi- zar o mundo e a governar suas cidades. O sistema clerical deixava de ter sentido. Mas. ao invés de a Igreja procurar transformar suas estruturas tradi- cionais, o sistema clerical fo¡ mantido numa atitude defensiva e conservadora. o que trouxe um certo número de inconvenientes: fechamento sôbre si. imobilismo do pensamento teológico e do pensa- mento simplesmente, e nostalgia do poder passado. Não é de se estranhar que muitos padres, presos contra a vontade dentro dêsse sistema, quando queriam ser antes de tudo sacerdotes de Jesus Cristo, experimentcm um mal-estar que não sabem de modo algum como superar. E ninguém sabe como superar êsse mal-estar porque só no Con- cílio Vatícano II foram dados os primeiros passos de conjunto para a renovação das estruturas da Igreja e o rompimento do sistema clerical tradi- cional. Diante de tudo isso. a crise do celibato é apenas um detalhe. De nada adianta permitir que os padres casem, se êles tiverem que continuar amarrados ao sistema. O único modo de resolver o problema, pensa Marc Oraison, é aceitá-lo em tôda a sua ampli- dão e enfrenta-Io. cada qual no seu lugar. Êle ainda existirá por mais algum tempo, por maiores que sejam os esforços para solucioná-lo, porque realmente se trata de um problema complexo. m. CELIB¡ . «I. fI, I

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