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Liderança de
Poder
na Igreja
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Liderança de
Poder
na Igreja
O Ministério no Espírito segundo
Paulo
Brian J. Dodd
Traduzido por Lena Aranha
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Todos os direitos reservados. Copyright 2005 para a língua portuguesa da Casa
Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovad...
À memória de meu pai, Asa, e a minha mãe, Mildred,
ao meu irmão, Jim e a minha irmã, Suzanne.
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SUMÁRIO
1. Liderança Fortalecida pelo Espírito................................................9
2. Discipulado e Rendição....
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LIDERANÇA FORTALECIDA PELO ESPÍRITO
Ai dos que descem ao Egito a buscar socorro
e se estriham em cavalos!
Têm confiança ...
chegando, para mim, bem próximo: "Qual a diferença entre a igreja e a Disneylândia? A
Dis-neylândia tem o verdadeiro Micke...
Salvador ressurreto a quem a igreja pregava: "Porque os judeus pedem sinal, e os gregos
buscam sabedoria; mas nós pregamos...
O que era surpreendente a respeito da liderança de Paulo não era a maneira como
refletia o estilo de liderança eficiente d...
compreender a liderança, não podemos ignorar a crítica implícita à igreja de hoje, que
necessita de algo mais, que seja di...
possíveis escolhidos? Antes de responder impetuosamente a essas questões, devemos
lembrar-nos de que muitas pessoas da épo...
que Paulo era um hipócrita, pois ele foi o primeiro a admitir que era o maior de todos os
pecadores (1 Tm 1.15; a palavra ...
grande pecador como ele para liderar sua igreja:
E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus, Senhor nosso, porq...
leis da liderança". Havia apenas um princípio que os líderes precisavam conhecer: Deus,
ao reconciliar o universo e a huma...
ministério de Paulo e, conseqüentemente, o da Igreja Primitiva eram ministérios
caracterizados pelo poder do Espírito. O p...
explicação de Jesus a respeito dessa conversão em nosso relacionamento com Deus (Jo
3). Se nos desviarmos do lugar em que ...
Pedro e Paulo. E isso pode acontecer com você e comigo.
Você e Eu Podemos Ter o mesmo Ministério de Poder
Os cessacionista...
faz lembrar que Deus trabalha de baixo para cima, por meio das pessoas mais
improváveis. Duas coisas são essenciais para o...
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DISCIPULADO E RENDIÇÃO
E é por Cristo que temos tal confiança em Deus-,
não que sejamos capazes, por nós, de pensar algu...
O PODER ESPIRITUAL FLUÍA POR INTERMÉDIO do ministério de Paulo, mas o
apóstolo deixa claro que este poder não vem dele. El...
oposição humana e, freqüentemente, redirecionado pelo Espírito. Por exemplo, Paulo
estava apenas iniciando seu trabalho em...
gostam de surpresas— até mesmo as pessoas que freqüentam a igreja— e não querem
sentir-se desconfortáveis. Elas querem um ...
compelido pelo Espírito: "E, agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém,
não sabendo o que lá me há de ac...
teologia de Paulo, assim como para entender o caminho que leva à liderança de poder.
"Carne" não é o mesmo que "corpo", ma...
cristão, qualquer indivíduo que tenha se submetido ao relacionamento de confiança com
Deus por intermédio de Jesus Cristo,...
líderes espirituais, a responsabilidade vem quando nos humilhamos e admitimos que
não podemos fazer o trabalho de Deus — o...
em sua linhagem, de família de elite, e nas .conexões sociais (israelita, da tribo de
Benjamim, hebreu de hebreus), assim ...
Na figura 2.2, a divisão no meio marca a fronteira entre viver sem poder e com poder no
Espírito. Isso também coincide com...
Pedi por saúde, para que pudesse fazer coisas maiores,
Adoentado fui, para que pudesse fazer coisas melhores.
Pedi por riq...
ministério flui e se desenvolve com facilidade. Não há necessidade de forçar as coisas.
A força é o caminho da carne. Ao c...
Jesus é Rei com toda a pompa e circunstância que isso pressupõe. No entanto, sou o
primeiro-ministro, com toda a autoridad...
primeiros discípulos. O Evangelho de João narra uma circunstância em que Jesus
modelou a liderança, na qual demonstrou que...
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  1. 1. 1
  2. 2. www.bibliotecacrista.com.br Encontre mais livros evangélicos de graça no site: Liderança de Poder na Igreja 2
  3. 3. Liderança de Poder na Igreja O Ministério no Espírito segundo Paulo Brian J. Dodd Traduzido por Lena Aranha 3
  4. 4. Todos os direitos reservados. Copyright 2005 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina. Título do original em inglês: Empowered Cburcb Leadersbip InterVarsity Press, Downers Grove, Illinois, USA Primeira edição em inglês: 2003 Tradução: Lena Aranha Preparação dos originais: Kleber Cruz Revisão: Leonardo Marinho Projeto gráfico e editoração: Leonardo Marinho Capa: Leonardo Marinho CDD: 253 - Liderança ISBN: 85-263-0675-8 Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800 701-7373 As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário. Casa Publicadora das Assembléias de Deus Caixa Postal 331 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Ia edição: 2005 4
  5. 5. À memória de meu pai, Asa, e a minha mãe, Mildred, ao meu irmão, Jim e a minha irmã, Suzanne. 5
  6. 6. SUMÁRIO 1. Liderança Fortalecida pelo Espírito................................................9 2. Discipulado e Rendição................................................................31 3. Pague o Preço, Carregue a Cruz..................................................61 4. O Poder de Deus em Vasos Trincados........................................79 5. O Poder do Exemplo Pessoal......................................................93 6. O Poder dos Parceiros................................................................105 7. Por meio da Oração ................................................................... 121 8. A Sublimidade da Servidão........................................................ 139 9- A Liderança Necessária É Apostólica......................................... 149 Apêndice: Ouvindo a Direção de Deus para o seu Ministério..... 159 Notas.................................................................................................181 6
  7. 7. 1 LIDERANÇA FORTALECIDA PELO ESPÍRITO Ai dos que descem ao Egito a buscar socorro e se estriham em cavalos! Têm confiança em carros, porque são muitos, e nos cavaleiros, porque são poderosíssimos; e não atentam para o Santo de Israel e não buscam ao Senhor. ISAÍAS 31.1 TODO METRO QUADRADO DO PLANETA tem seu endereço em um satélite, o geocódigo. Esses endereços precisos passaram a existir em virtude do ímpeto militar estadunidense de ser capaz de lançar bombas, guiadas por laser, que acertem um alvo através de uma chaminé. Hoje, um cidadão comum, se quiser gastar a quantia requerida, pode ter uma versão pessoal do sistema de posicionamento global (mais conhecido por GPS) no painel do carro. O computador GPS dirá ao motorista a distância até a próxima entrada, mostrará no mapa onde ele se encontra e a rota mais rápida para o destino desejado. Uma das versões até mesmo fala com o motorista por meio de um sistema de voz computadorizado: "Volte imediatamente. Você está indo na direção errada". O GPS trabalha com o princípio de triangulação, dos antigos mapas de navegação. Em mar aberto, sem ponto de referência ou bússola, o navio fica à deriva. Quando alguém viaja grandes distâncias, até mesmo um grau de diferença resulta em centenas de quilômetros de desvio em relação ao destino. Antigamente, os marinheiros determi- navam a localização e o rumo ao criar um triângulo entre o navio e dois outros pontos fixos (daí a origem do termo triangulação). Durante o dia, ter terra à vista era essencial. Em noites límpidas, as estrelas forneciam toda sorte de pontos fixos pelos quais a posição poderia ser determinada. Na era tecnológica, o viajante necessita apenas ler um mapa gerado pelo computador que, a partir do GPS, e por meio de uma rede de satélites, decodifica a posição através da triangulação. Qualquer pessoa que queira encontrar o caminho e a direção de Deus sabe a importância de um ponto de referência. Sem o posicionamento de Deus, ficamos à deriva em mar aberto. Sem pontos de referência fixos à nossa volta, apenas com objetivos conflitantes, valores e opiniões flutuantes, não podemos navegar por uma rota segura. Precisamos de pontos de referência eternos: a Palavra de Deus e a vontade de Deus. Essa necessidade nunca foi tão grande para os líderes da igreja cristã do Ocidente. Temos negligenciado, com freqüência, o magnífico sistema de posicionamento global de Deus e encontramo- nos à deriva, à mercê dos ventos. A ausência de um ponto de referência divino é muito óbvia no mercado florescente de livros e seminários sobre liderança. Devoramos a sabedoria do mundo e nos entupimos com práticas, técnicas e jargões seculares. A caricatura dessa tendência apareceu em um recente artigo de jornal, que registrou o encontro dos líderes de duas importantes denominações — atualmente estão em declínio — no instituto Disney: "Palestrantes do instituto Disney incentivaram os líderes locais da igreja a pensar de forma mais criativa para impedir a diminuição do número de membros".1 O quê?! O Mickey Mouse nos ajudará a fazer crescer nossa participação em baixa no mercado? Isso mesmo, embora saibamos que as igrejas devotadas ao cristianismo bíblico são as únicas que experimentam o crescimento. Isso fez com que a velha piada quase acertasse o alvo, 7
  8. 8. chegando, para mim, bem próximo: "Qual a diferença entre a igreja e a Disneylândia? A Dis-neylândia tem o verdadeiro Mickey Mouse!" Essa tendência de se confiar nas estratégias de lideranças seculares e de se igualar o ministério às técnicas de gerenciamento afetou e infestou o pensamento de quase toda uma geração de líderes cristãos. No início da década de 1980, quando, pela primeira vez, comecei a selecionar livros sobre liderança, minha motivação era bem simples. Queria tornar-me um pastor mais eficiente. As pessoas de minha igreja não eram o que precisavam ser — conforme meu ponto de vista —, e eu não tinha certeza de como transportá-las do lugar onde estavam para o lugar onde eu achava que deveriam estar. Portanto, busquei gurus de liderança, desapercebido de que muito do que ensinavam relacionava-se aos princípios de liderança secular, os quais eram bem contrários aos princípios de liderança do Reino ensinados por Jesus e incorporados por Paulo. O chamariz do sucesso pode ser sedutor. As sirenes levam muitas pessoas a delegar, sem nenhum senso crítico, muita autoridade a líderes de destaque, palestrantes de palanque e pastores de "megaigrejas". Parece que têm muito sucesso (leia-se, eram responsáveis por muitas pessoas e muito dinheiro), portanto o que eles têm a dizer deve funcionar como autoridade para mim. Nos Estados Unidos, esse alto valor atribuído ao sucesso é estranho ao valor do Reino de Deus que valoriza a fidelidade e a obediência. Conforme o padrão estadunidense, a vida humana de Jesus foi um fracasso, pois terminou de forma vergonhosa e desonrosa em uma cruz, além de todos os seus seguidores o terem abandonado. Aceitei a tendência por um tempo, mas algo estranho aconteceu comigo nesse processo. Lembrei-me do provérbio sobre o sapo e a chaleira. Estava aprendendo as últimas novidades sobre liderança, mas não tinha consciência de que o aumento do calor poderia "cozinhar" meu espírito. Aprendi, em uma época em que tudo era mais simples em mi- nha vida, que aquEle que foi crucificado e ressuscitou era o foco da igreja, e que a mensagem a respeito da cruz "é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus" (1 Co 1.18). Não encontrei essa mensagem nos livros que estava lendo (e, realmente, lia sobre todos os assuntos). Entretanto, por um certo período de tempo, em minha mente, a cruz foi substituída, vagarosa e sutil-mente, pelo foco na visão, na excelência e na sensibilidade daquele que busca a Deus. Meu ministério refletia minha maneira de pensar, atualizada, mas sem poder. Não estou afirmando que a culpa é de alguma outra pessoa além de mim mesmo. Por minha conta, estava desviando-me do rumo, sendo levado pelas ondas dos princípios e jargões de liderança, mas, com freqüência, ignorando e até mesmo indo na direção contrária ao caminho de Jesus, ao caminho da cruz e ao caminho do Reino de Deus. Percebo agora que isso não aconteceu apenas comigo. À nossa volta, podemos encontrar exemplos de pessoas que se renderam aos caminhos do mundo. Basta apenas um exemplo. Tenho diante de mim, enquanto escrevo, essa carta de muitas páginas que me foi endereçada por um executivo da igreja. O título da carta, em grande destaque, é "Comprometido com a excelência", mas em sua abordagem sobre o desenvolvimento do ministério curiosamente não há menção a Jesus. As palavras me remetem aos jargões que são freqüentemente usados por equipes esportivas, enfatizando sempre a máxima: "Temos de vencer". A expansão dessas equipes é muito mais importante que a expansão do Reino. Será que é difícil ver aquilo que é tão óbvio? Encontramos o inimigo, e o inimigo somos nós! À medida que faço uma retrospectiva, percebo que o principal motivo que me fez vir a Jesus não se deve a nenhum líder brilhante ou à excelência da igreja, mas a um despertamento espiritual. Deus atuou de maneira soberana, e tive um encontro com o 8
  9. 9. Salvador ressurreto a quem a igreja pregava: "Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gregos. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (1 Co 1.22-24). Não fiquei impressionado com o fato de ter uma relação com Deus. Fui chamado a ter esse relacionamento. O chamado veio de fora. De repente, em meio à minha vida consciente, ali estava o Senhor Jesus vivo, que tocou-me, curou-me, transformou-me e chamou-me a que seguisse seus passos. Contudo, muito tempo depois, já como pastor, jamais deixei de recorrer a uma profusão de fontes — cassetes, livros e seminários sobre liderança —, cristãs e outras. Fiquei deslumbrado e fascinado, pois, como um guerreiro da fé já exaurido, recebi uma nova e promissora fonte de energia; senti que minha eficiência fora renovada e que meus sonhos foram preenchidos. No entanto, muitos, se não a maioria, dos livros cristãos sobre liderança não são realmente cristãos, a não ser pelo fato de que usam textos das Escrituras para comprovar os- pontos de vista e fazer sugestões à vida da igreja. Todas as características de liderança cristã encontradas na Bíblia estão claramente ausentes na maioria da literatura cristã popular: a cruz, o serviço sacrificial, o amor, a gentileza, o ministério exercido por vasos fracos, mas liderado e fortalecido pelo Espírito, a oração, o sofrimento e coisas similares. Em vez disso, a indústria de literatura sobre liderança cresce e está recheada com histórias sobre empresas multinacionais como o McDonald's e o Wal-Mart. O que aconteceu com Jesus, Pedro e Paulo?2 Precisei ouvir o aviso de Isaías, proferido na antigüidade: "Ai dos que descem ao Egito a buscar socorro e se estribam em cavalos! Têm confiança em carros, porque são muitos, e nos cavaleiros, porque são poderosíssimos; e não atentam para o Santo de Israel e não buscam ao Senhor" (Is 31.1). Eu estava negociando com o Egito, em vez de consultar ao Senhor. Não estava com discernimento para submeter a literatura sobre liderança, que estava lendo, ao contexto espiritual. O que eu precisava era de um diretor espiritual, não de mais livros seculares com invólucro de ensinamento cristão. Precisava de encorajamento para orar e assumir a responsabilidade da oração, em vez de estratégias para motivar as pessoas a tomarem a direção que queria que tomassem. Afinal, que benefício há em fazer com que as pessoas o sigam se você não recebeu instruções do Senhor para marchar? Era comum exper-mentar o poder de Dodd, em vez do poder de Deus. Paulo diagnostica esse dilema como a diferença entre viver "segundo a carne" e viver "segundo o Espírito". Terei mais a dizer sobre isso no próximo capitulo Após muitos anos absorvendo todos os livros e seminários sobre liderança que encontrei, retornei à escola para o doutorado em Novo Testamento, cujo foco era o estilo de liderança de Paulo. Comecei,para meu desconcerto, com a abordagem "segundo a carne", ao buscar explicações humanas e sociais para a eficácia de Paulo como líder. Não resta a menor dúvida de que o apóstolo era um líder cristão eficiente. Imaginei que truques atemporais, que também pudéssemos usar, ele aprendera com os líderes que o rodeavam. Minha questão de pesquisa inicial era: "Que influências sociais e culturais do estilo de liderança de Paulo podemos manifestar em nosso ministério?" O que Paulo aprendera com os fariseus, com a liderança civil do império, com a liderança militar romana, com os filósofos cínicos, com os retóricos greco-romanos, com os profetas Moisés e Abraão, e como adaptara esse conhecimento a seu ministério? Logo descobri (graças a Deus!) que meu projeto de pesquisa não daria uma dissertação. Por fim, apresentei uma tese que focava um aspecto crucial, embora parcial, do estilo de liderança de Paulo: a utilização da aprendizagem e do exemplo pessoal para os que estão "em Cristo".3 9
  10. 10. O que era surpreendente a respeito da liderança de Paulo não era a maneira como refletia o estilo de liderança eficiente das pessoas de sua época. Na verdade, o que impressionava era o estilo único cie liderança que ele adotava, centrado em Cristo e reflexo da cruz. Teólogos podem chamar esses aspectos de sua liderança de cristocêntrico e cruciforme. Esse estudo sobre Paulo produziu diamantes que eu não antecipara. Em vez de salientar a cultura de Paulo e os elementos humanos de sua liderança, o que saltava à vista era a maneira como o líder cristão deve refletir o evangelho que prega. Devemos pregar a cruz, e nossas vidas devem moldar-se à imagem de Jesus, em sua morte e ressurreição. Redescobri que as pessoas não precisam de líderes brilhantes, mas de testemunhas fiéis que apontem, por meio de suas palavras e vidas, para aquEle que foi crucificado e ressuscitou. O que os líderes mais precisam não são de técnicas, mas a consciência do ser dirigido pelo Espírito, a importância da oração e a essência da natureza de equipe no ministério eficiente (para usar a terminologia do Novo Testamento, a natureza eficiente do ministério de "num só corpo"). Na época em que fiz esse extenso estudo bíblico, o que alimentou meu espírito foram os aspectos singulares da liderança bíblica e cristocêntrica de Paulo. Assim, voltei ao ponto inicial. Quando comecei a partilhar com outros líderes cristãos as descobertas a respeito das epístolas de Paulo, percebi que eles também estavam sedentos por uma teologia cristã que se aplicasse essencialmente à liderança. Na verdade, a motivação para este livro nasceu em um retiro em que liderava cerca de cinqüenta pastores. As expectativas deles, ainda sem respostas, podiam ser encontradas nas epístolas de Paulo em que trata dos fundamentos da liderança efetiva e devotada. Esses pastores tinham questões, como: "Por que algumas vezes é tão difícil servir a Jesus? Por que é tão doloroso ser líder? Por que as pessoas criticam injustamente os líderes cristãos? Por que o fruto do Espírito demonstra tão pouco poder e dinamismo em meu ministério?" Essas não são questões que os clones cristãos de consultores de liderança secular possam responder, mas Paulo as antecipara. Na verdade, ele vivera em meio, conforme vim a perceber, à experiência compartilhada dos líderes mais fiéis e piedosos. Muito do que escrevo aqui já testei com praticantes da liderança cristã, e muito do que apresento aqui é proveniente de minhas experiências dolorosas de aprendizado. Acredito que me ative aos assuntos cruciais. O que apresentarei é uma leitura cuidadosa e rigorosa das epístolas de Paulo por alguém que está profundamente interessado no desenvolvimento da liderança e apaixonadamente comprometido com a renovação e crescimento da igreja. Apresento fatos a partir da experiência no ministério pastoral, da literatura sobre liderança e de estudos acadêmicos sobre o Novo Testamento. Meu desejo é que este livro, fundamentado na Bíblia, seja uma ajuda, tanto aos líderes e leigos como aos pastores e ministros, enraizada clara e solidamente em solo teológico. Meu trabalho ressalta a aplicação de valor, para que cada capítulo, por meio das questões para discussão, possa ser usado em reuniões e retiros de liderança, assim como em aulas e estudos bíblicos. Minha oração é que este livro ajude no surgimento e desenvolvimento de líderes que, para traçar o planejamento e perspectivas futuros de seu ministério, sejam orientados pela Escritura e nela fundamentados. Sempre que lemos a Bíblia cuidadosa e rigorosamente para que por meio dela nos beneficiemos, descobrimos que ela acaba também por nos ler. Se estamos prestando atenção cuidadosa a um texto para 10
  11. 11. compreender a liderança, não podemos ignorar a crítica implícita à igreja de hoje, que necessita de algo mais, que seja diferente e distinto do que nos é usualmente oferecido em estudos contemporâneos sobre liderança. No Ocidente, a ausência de poder tem infiltrado a igreja, o que resulta em uma diminuição de sua atuação. As lições de liderança aprendidas com o mundo não melhoraram nossa participação, assim como podemos notar que não obtivemos bons resultados com o pragmatismo e a heresia de valorizar o que quer que funcione. O reinado que estamos construindo é essencialmente diferente do Wal-Mart e da igreja dos mórmons. Se avaliarmos justamente nossas práticas de liderança, que refletem a maneira de ser do mundo, perceberemos que elas não frutificaram. Todas as semanas, 53 mil cristãos abandonam a igreja no Ocidente,4 e os Estados Unidos são hoje a quinta nação do planeta5 em número de pessoas que não freqüentam a igreja. Muitas dessas igrejas que ganham freqüentadores podem estar apenas conseguindo que as pessoas entrem na igreja, mas, conforme fica bem evidente, o evangelho não penetra em suas vidas ou cultura. Uma nova geração de líderes fortalecidos pelo Espírito é necessária — agora, imediatamente. O melhor local para buscar uma compreensão renovada sobre liderança é a Bíblia. É possível até imaginar que muito da literatura sobre liderança cristã não passa de um cavalo de Tróia, do território inimigo, pois muito pouco espaço é dedicado ao que a Bíblia diz. As palavras de Paulo a Timóteo ainda são verdadeiras: "Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra" (2 Tm 3-16,17). A fim de equiparmo-nos para "toda boa obra" do ministério e da liderança, é preciso aprender com afinco toda a extensão bíblica e teológica do suporte que Paulo nos dá em relação à liderança. Precisamos nos aprofundar na Palavra de Deus para saber o que os líderes necessitam, em vez de buscar outras fontes. Este livro busca envolver o leitor em um estudo extensivo do Novo Testamento para que tenhamos os fundamentos de uma liderança eficiente, inspiradora e revigorante. O Exemplo de Paulo É a Melhor Opção? Buscar o exemplo de Paulo para que nos equiparemos a ele é problemático para alguns leitores e, portanto, necessita de uma breve justificação. Quando nos deparamos com os ensinamentos desse apóstolo da antigüidade, alguns aspectos o desqualificam, a ponto de não ser admirado por muitas pessoas do mundo contemporâneo. Dentre estes ensinamentos estão suas atitudes e princípios doutrinários sobre as mulheres, seu silêncio sobre a abolição da escravatura e sua insistência, aparentemente rígida e dogmática, em relação à moralidade tradicional. Lidei com essas e outras objeções em maior profundidade em The Problem with Paul (O Problema com Paulo) e peço ao leitor, caso deseje um tratamento mais extenso dessas questões, que as busque nessa fonte.6 Minha abordagem para analisar Paulo a partir de seu ponto de vista cultural reconhece que ele era extremamente progressista, até mesmo liberal, em relação às mulheres em cargos de liderança (considere Febe, Priscila e Júnia em Romanos 16, apenas para mencionar algumas delas) e à aceitação de escravos na igreja. Na verdade, a Igreja Primitiva se expandiu mais rapidamente entre as mulheres e os escravos. Embora Paulo, para as pessoas de hoje, pareça em muitos aspectos politicamente incorreto, uma leitura justa de seus textos à luz da herança cultural da antigüidade fornece uma impressão muito mais favorável. Em vez de medir os pontos de vista de Paulo em relação às suscetibilidades modernas, algumas das questões relevantes para o tópico deste livro são: você nomearia Paulo para liderar sua igreja e ministério? As qualidades e valores dele o colocariam na lista dos 11
  12. 12. possíveis escolhidos? Antes de responder impetuosamente a essas questões, devemos lembrar-nos de que muitas pessoas da época de Paulo tinham dificuldades com seu estilo de liderança. Na verdade, podemos enumerar muitos aspectos considerados pelas pessoas da época como desqualificativos para o papel central de liderança. 1. Paulo era considerado um péssimo orador pelo padrão da época. "E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria" (1 Co 2.1). Seus críticos o descartaram secamente com as seguintes palavras: "Porque as suas cartas, dizem, são graves e fortes, mas a presença do corpo é fraca, e a palavra, desprezível" (2 Co 10.10). Lembre-se, essa é a maneira como Paulo registra a crítica feita a ele! 2. Ele tinha problemas de visão que lançavam sombra em suas habilidades de liderança. A cultura greco-romana, muito parecida com a estadunidense, obcecada pela imagem, enfatizava a forma física e a estatura como parâmetros para a posição e liderança que a pessoa exercia na sociedade. Paulo não correspondia a esses parâmetros e observa, com alegria, como os gaiatas transpuseram a bagagem cultural para aceitá-lo: "E vós sabeis que primeiro vos anunciei o evangelho estando em fraqueza da carne. E não rejeitastes, nem desprezastes isso que era uma tentação na minha carne; antes, me recebestes como um anjo de Deus, como Jesus Cristo mesmo" (Gl 4.13,14). 3. Ele considerou insignificantes suas qualidades e habilidades humanas, quando comparadas com o poder que emana da comunhão com Cristo. Paulo era capaz, culto e pertencia à elite, assim como tinha paixão e dedicação incomensuráveis (veja Fp 3.3-5). No entanto, ele aprendera à medida que caminhava com Cristo e estabelecia esse novo relacionamento. "Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo" (Fp 3-7). Paulo passou a perceber que todas as habilidades e qualidades humanas eram insufici- entes e vulneráveis, embora consideradas valorosas por aqueles que não caminhavam no Espírito. A fonte verdadeira da liderança revigorada fluía de Cristo, de quem Ele é e do que Ele faz por meio de seus líderes e seu povo. 4. Ele sustentava a si mesmo com trabalho secular e recebia apoio financeiro de algumas igrejas (a de Filipos), mas não de outras (a de Corinto). A prática do patronato, em que um patrão apoiava financeiramente seu cliente e recebia admiração por essa afiliação quando esse cliente era reconhecido e destacava-se socialmente, era algo comum e freqüente na sociedade da época. Isso é algo muito parecido com a alegria e realização que aqueles que apoiam financeiramente equipes esportivas desfrutam, embora não tenham feito nada efetivamente para ganhar o jogo. O fato de Paulo ganhar seu sustento com a manufatura de tendas impedia que os coríntios tivessem sentimento de propriedade em relação a seu ministério. 5. Ele confrontava as pessoas, era controverso e não se envergonhava disso (Gl 2; At 15). A atitude dele em Gaiatas 1-2 é a seguinte: "Sei quando estou certo. Até mesmo se Pedro ou um anjo do céu insistir que a circuncisão é necessária para ser salvo, eu os resistirei". A luva de veludo cia gentileza que Paulo usava encobria sua mão de ferro quando um assunto crucial estava em risco (2 Co 10.1; 1 Ts 2.7). 6. Ele tinha passagem pela cadeia. Ofensas múltiplas e desordens pareciam acompanhá-lo em todos os lugares que ia. Isso aconteceu somente depois que se tornou cristão! Antes disso, conforme confessou, participara do assassinato de cristãos: "... que, dantes, fui blasfemo, e perseguidor, e opressor" (1 Tm 1.13). Supõe-se até mesmo que ele tenha preferido ser conhecido por Paulo, em vez de seu nome hebraico, talvez, em parte, para minimizar as associações dramáticas que o nome Saulo poderia reavivar entre os cristãos (veja, por exemplo, At 9-13,14). Esse seria um homem que você gostaria de ver à frente de sua igreja? Paulo teve de implorar mais de uma vez para que seus amigos não se envergonhassem de suas prisões (2 Tm 1.8). Ninguém poderia dizer 12
  13. 13. que Paulo era um hipócrita, pois ele foi o primeiro a admitir que era o maior de todos os pecadores (1 Tm 1.15; a palavra grega prôtos significa "primeiro" ou "principal" pecador). Esse não é exatamente o perfil de um líder modelo. Por que Paulo foi tão eficiente quando tinha contra si tantos pontos desfavoráveis? A que seu sucesso e eficiência em todo o Império Romano poderia ser atribuído? Felizmente, Paulo tratou esse problema diretamente, e não temos de fazer especulações sobre a compreensão que tinha a respeito desse assunto. Para Paulo, o segredo de seu sucesso estava além de suas habilidades técnicas ou princípios humanos. Como ele justificava seu sucesso, embora fosse alguém que não estivesse à altura da expectativa social em relação aos líderes e figuras públicas? Sua explicação vai além do que poderíamos imaginar. Ele não diz apenas: "Veja o que Deus fez por meu intermédio. Deus não é maravilhoso?" Essa é parte de sua mensagem, mas apenas parte dela. Paulo diz que a razão por que Deus usou um líder tão improvável quanto ele é a mesma razão pela qual Deus está trazendo as pessoas mais humildes do planeta para seu Reino. O propósito de Deus é derrubar o foco do mundo — que dá mais ênfase à aparência, à realização e às habilidades humanas —, no qual Deus não é levado em consideração. Em vez disso, ... Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. EDeus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1 Co 1.27-31)- O ponto é o seguinte: Deus usa Paulo e os coríntios — e pessoas comuns como você e eu — para derrubar a pretensão do orgulho humano, aquela parte de nosso ser que quer nos elevar por vencer por nosso próprio mérito e depositar o crédito dessas vitórias em nós mesmos. Em nossa essência de seres pecadores existe um ser espiritual de dois anos de idade que quer "fazer tudo por si mesmo". Esse é nosso problema. A solução para esse problema é aprender a confiar em Deus, a viver na total dependência de Deus para que nos ajude e nos dê assistência diariamente. Se há algo sobre o que devemos nos gloriar, é em Jesus Cristo, o Capitão de nossa fé. Orgulho, arrogância e altivez são inimigos do ministério de poder. Deus se agrada de habitar no humilde. Se uma liderança humana capacitada pudesse resolver os problemas sérios que a pecaminosidade humana criou em nosso mundo, isso já teria acontecido. O problema é maior do que apenas a necessidade de uma nova visão ou direção. Não estamos, como pessoas, apenas seguindo pelo caminho errado; na verdade estamos mortos "por causa do pecado" (Rm 8.10), ainda fracos para mudar nossa situação difícil (5.6). Precisamos mais do que apenas boa liderança; precisamos do poderoso Salvador, aquEle que pode absolver a onda de pecado em si mesmo e ressuscitar-nos da existência condenada em que vivemos. Sem Jesus — quer os líderes sejam bons quer sejam ruins — não temos esperança nem perspectiva. O Império Romano possuía líderes poderosos, mas todos eles desapareceram. A Igreja Primitiva possuía uma liderança dúbia (pense em cada discípulo e personagem da história!), contudo a igreja cristã continua a expandir-se de forma cada vez mais rápida, até mesmo quando incluímos o declínio da igreja no hemisfério ocidental. O caminho de Deus é oferecer livremente uma solução para nossa condição: salvação de nosso estado pecaminoso, perdão e esperança na morte e ressurreição de Jesus. Isso é o que Paulo chama de "graça", a solução misericordiosa de Deus para nossa condição humana intratável e obstinada. Paulo diz que esta é a razão pela qual Deus escolheu um 13
  14. 14. grande pecador como ele para liderar sua igreja: E dou graças ao que me tem confortado, a Cristo Jesus, Senhor nosso, porque me teve por fiel, pondo-me no ministério, a mim, que, dantes, fui blasfemo, e perseguidor, e opressor; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade. E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e o amor que há em Jesus Cristo. Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por isso, alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna. Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus seja honra e glória para todo o sempre. Amém! (1 Tm 1.12-17) Portanto, Paulo, de todas as maneiras, é um líder modelo. Sua mudança dramática de religioso violento e fanático para o mensageiro perdoado de Jesus é um retrato da nova ordem mundial que Jesus nos trouxe. Paulo, um líder caído e perdoado, incorporou o que Deus queria que o mundo soubesse sobre Jesus: Ele derrama misericórdia, graça e amor em pessoas falhas. Ele nos salva de nossos pecados, nos levanta da poeira da morte e coloca nossos pés sobre uma base sólida. Nosso lado pecador fica privado de seu pior veneno, o orgulho. Qualquer pessoa que se apresente diante de Deus só pode assim o fazer graças à ação misericordiosa do Senhor, não por conquistas humanas. Paulo foi escolhido como líder tão-somente devido à graça, misericórdia e amor de Deus. Ministério Fortalecido pelo Espírito O propósito de Deus é a reconciliação da humanidade, orgulhosa e rebelde, para que esta se volte para Ele. Seu plano, diz Paulo, é escolher os líderes improváveis para que fique óbvio que é Deus quem está no comando. Esse é o incógnito divino, em que o Senhor se esconde nas coisas fracas para combater o orgulho humano, algo muito ofensivo ao Deus santo. Qualquer pessoa que se aproxime de Deus deve fazê-lo de forma humilde e agradecida, reconhecendo que o Senhor, misericordiosamente, substituiu a morte que acompanha o orgulho pela vida proveniente do Espírito. O sucesso do segredo da liderança de Paulo, portanto, não estava em comportamentos específicos do apóstolo, nem em seu caráter superior e, tampouco, em técnicas especiais. A eficiência de Paulo era algo divino. Deus se movia em seu ministério. Quando Paulo se apresentou, Deus escolheu mostrar-se por meio da presença poderosa do Espírito Santo. Paulo estava totalmente consciente do segredo de seu sucesso: "Porque não ousaria dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para obediência dos gentios, por palavra e por obras; pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus; cie maneira que, desde Jerusalém e arredores até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo" (Rm 15.18,19). Paulo tinha muita clareza da razão pela qual sua liderança era eficiente. Ele jamais poderia fundar a "escola de Paulo sobre as sete 14
  15. 15. leis da liderança". Havia apenas um princípio que os líderes precisavam conhecer: Deus, ao reconciliar o universo e a humanidade consigo, está construindo seu Reino. Apenas Ele poderia fazer tal coisa. Os esforços humanos por si só, sem o poder de Deus, resultam em nada. Somos por Deus convidados a nos unirmos a Ele nessa tarefa de construção de seu Reino. Esse não é um tema passageiro nas epístolas de Paulo em que descreve sua liderança e ministério: "E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus" (1 Co 2.3-5). Para que não pensemos que isso se aplique apenas a Paulo e não a nós, lembre-se de como ele descreve todo o ministério e, portanto, toda a liderança como dependentes dos dons e do fortalecimento do Espírito: Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas-a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil. Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro, a operação de maravilhas; e a outro, a profecia; e a outro, o dom de discernir os espíritos; e a outro, a variedade de línguas; e a outro, a interpretação das línguas. Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer. Porque, assim com o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito (1 Co 12.4-13). Estas frases foram reunidas para nos lembrar que o ministério e o trabalho eficiente para Deus não se originam em nós, mas é o Espírito quem opera todas essas coisas, pois são manifestações "do Espírito", "pelo Espírito" e "no Espírito", graças ao Espírito de Deus. Qualquer orgulho humano referente a realizações originadas no ser humano é despedaçado contra as rochas dessa realidade espiritual. O mundo e todos os que nele estão são confundidos. A única ajuda real que temos vem do alto. Só estamos verdadeiramente servindo a Deus e a seus propósitos quando nos unimos ao que Deus está fazendo por meio de seu Espírito. Somos vasos afortunados, pois fomos escolhidos para a tarefa, fomos selecionados na prateleira e empregados no serviço a Deus. Somos vasos, Deus é o oleiro, e o Espírito de Deus é a presença e o poder que Ele derrama em nós e por meio de nós.7 O Espírito Santo é o segredo do sucesso de Paulo. Isso em parte explica por que esse não é um tópico apreciado em livros e seminários sobre liderança no tão pragmático Ocidente. Você não pode engarrafar ou vender o Espírito Santo. Como Jesus diz: "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (Jo 3-8). O crescimento do Reino e a expansão da igreja são obras de Deus efetuadas por meio do poder do Espírito Santo. Deus utiliza pessoas comuns e sobre elas derrama o seu Espírito, e elas realizam coisas maravilhosas. Contudo, Deus escolhe em quem, quando e onde derramar o seu Espírito. Todos nós conhecemos os abusos de pretensos dons e supostas obras do Espírito Santo. Os impostores religiosos estão sempre à nossa volta. Basta isso para que qualquer um fique nervoso, mas o princípio da Reforma ainda é muito sólido: o uso abusivo de algo não anula o uso apropriado. Há lunáticos e mentirosos que abusam dos dons e ensinamentos do Espírito Santo; porém, isso não muda o seguinte fato crucial: o 15
  16. 16. ministério de Paulo e, conseqüentemente, o da Igreja Primitiva eram ministérios caracterizados pelo poder do Espírito. O poder do Espírito Santo é a chave do sucesso de Paulo. Ele diz isso reiteradamente: "Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas, sim, poderosas em Deus,para destruição das fortalezas; destruindo os conselhos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo" (2 Co 10.3-5). Alguns intérpretes querem dirigir nossa atenção aos termos retóricos dessa passagem para apresentar a argumentação efetiva que é empregada aqui. Contudo, o ponto de vista de Paulo é consistente com sua compreensão da razão pela qual suas palavras e ministério carregam tamanha força: é "o poder divino" que o capacita e faz com que sua argumentação com seus oponentes seja tão eficiente. Isso foi o que o apóstolo disse inicialmente aos tessalonicenses: "Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós. E vós fostes feitos nossos imitadores e do Senhor, recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo" (1 Ts 1.5,6). Tenho certeza de que era isso que ele também tinha em mente em 2 Coríntios 10. Alguns capítulos depois, em 2 Coríntios, ele teve de abordar o mesmo assunto de uma perspectiva distinta. O ataque de seus oponentes era baseado em uma simples equação: como Paulo tinha todos os tipos óbvios de problemas e dificuldades não seria possível que ele estivesse falando por Deus. A resposta de Paulo para esse ataque frontal é, novamente, lembrar a seus leitores de Corinto que suas dificuldades, sua fraqueza e seus problemas o qualificavam para o tipo de ministério que Deus queria realizar por intermédio dele. Deus quer derrubar qualquer pretensão de que a maneira do Senhor é trabalhar por meio de líderes pretensiosos, a saber, Ele não trabalha da mesma forma que Hollywood. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas per- seguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando estou fraco, então, sou forte (2 Co 12.9,10). Paulo não nega o argumento deles. Ele é fraco, sofre perseguições e está propenso a todo tipo de dificuldade. Ele continua seu argumento e concorda com seus oponentes de que nada é (2 Co 12.11). Porém, nada disso importa a Paulo, visto que o segredo do seu sucesso não está em seus atributos, mas no trabalho soberano do Espírito Santo: "Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós, com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas" (2 Co 12.12). O poder de Paulo vinha do alto. Ele era servo do Deus vivo que, por meio do Espírito Santo, o ungiu e lhe deu poder de forma extraordinária. O Espírito era uma parte crucial de como Paulo compreendia sua eficácia, assim como era um componente-chave de sua teologia. Aos gaiatas ele escreve: Só quisera saber isto de vós-, recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão (Gl 3- 2-4). Imagino se essa questão no versículo 3 não deveria estar sobre as escrivaninhas de todos os líderes cristãos: "Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?" Cada um de nós iniciou a caminhada com Deus por meio da escolha, da ação e da iniciativa do Senhor. Somos nascidos "do Espírito", para utilizar a 16
  17. 17. explicação de Jesus a respeito dessa conversão em nosso relacionamento com Deus (Jo 3). Se nos desviarmos do lugar em que recebemos poder, se acabarmos "pela carne", esvaziaremos o evangelho de seu maravilhoso poder transformador. Quando preenchemos o espaço com o desejo e a determinação para fazer "da nossa maneira", a presença e o poder do Espírito são banidos. Paulo diz o seguinte: "Digo, porém-. Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne; e estes opõem-se um ao outro; para que não façais o que quereis. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei" (Gl 5.16- 18). A vida cristã é para ser uma vida dirigida pelo Espírito, e a liderança cristã também deve ser liderada pelo Espírito. Os seminários são estimulantes, mas o poder provém do Espírito. Os princípios ajudam-nos a não perder o controle, mas o Espírito nos direciona para o que Deus quer que façamos. Contudo, a liderança dirigida e fortalecida pelo Espírito não era apenas uma idéia de Paulo. Os cristãos, antes de Paulo, já haviam se defrontado com crentes que demonstravam uma unção espiritual e poderosa em seus ministérios. Lucas fornece um relance de como essas coisas aconteciam: "E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça" (At 4.33). Esse poder foi primeiramente demonstrado em Pentecostes, quando os ouvintes compreendiam o que era dito sobre as grandezas de Deus em sua própria língua (At 2.11). Depois, Pedro curou o paralítico pelo poder do Espírito Santo e perguntou às pessoas: "Varões israelitas, por que vos maravilhais disto? Ou por que olhais tanto para nós, como se por nossa própria virtude ou santidade fizéssemos andar este homem?" (At 3-12; veja At 4.7) Estêvão, "cheio de fé e de poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo" (At 6.8). E essas histórias maravilhosas sobejam no livro de Atos. Tudo que seus oponentes poderiam pensar para interromper a atividade deles era recorrer ao poder carnal, às autoridades seculares ou à força coercitiva. Quando Estêvão foi apedrejado até a morte, Paulo observou com aprovação, assim como cuidou das vestes dos executores. No entanto, o poder do Espírito adornava o trabalho dos cristãos e os levava a sofrer horríveis perseguições e grandes oposições. Todo o propósito era chamar a atenção para a nova revelação de Deus por meio da presença e poder do Senhor entre seu povo. De acordo com Lucas, esse é o tipo de ministério que Jesus prometeu a seus primeiros discípulos: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra" (At 1.8). Jesus, antes de prometer e fortalecer o ministério de seus discípulos, serviu-lhes de modelo. Ele manifestara continuamente o poder divino de Deus, e a ressurreição foi o ápice da demonstração de que Deus estava atuando de forma única e poderosa em Jesus: "Varões israelistas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; [...] ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela" (At 2.22,24; cf. At 10.38). Portanto, não é de admirar que Paulo tenha herdado imediatamente esse mesmo Espírito de poder para desempenhar sua função de líder. Isso não se iniciou com ele ou com os primeiros discípulos, nem mesmo com Jesus. Os primeiros discípulos perceberam que esta era a maneira como Deus, havia muito tempo, já vinha atuando por meio de seus líderes escolhidos. A Igreja Primitiva percebeu que o fortalecimento divino para a liderança chegava até Moisés. "E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em suas palavras e obras" (At 7.22). Deus fortaleceu e ungiu os líderes escolhidos em todas as épocas. Isso aconteceu com Moisés, Davi, Jeremias, Jesus, 17
  18. 18. Pedro e Paulo. E isso pode acontecer com você e comigo. Você e Eu Podemos Ter o mesmo Ministério de Poder Os cessacionistas são pessoas que acreditam que os milagres e os dons espirituais relatados nas Escrituras eram apenas para os tempos bíblicos; não para os nossos dias. Todo aquele poder cessou com os primeiros apóstolos; daí o nome cessacionista. Esta é uma posição teológica quase que exclusivamente encontrada no Ocidente materialista, a qual é praticamente incompreensível para dois terços do mundo em que os cristãos estão acostumados a testemunhar a ação poderosa do Espírito Santo. Se os cessacionistas estão corretos, por que Paulo disse a Tito: "... Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tt 3.5,6)? Como podemos pensar que o Espírito era para aquela época, mas não para hoje? O Espírito fornece a cada cristão poder, amor e moderação: "Porque Deus não nos deu espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação" (2 Tm 1.7). É verdade, o amor e a moderação são componentes cruciais, mas não devemos convenientemente ignorar a necessidade do poder do Espírito de Deus. A teologia bíblica de liderança tem de iniciar aqui, e um ministério eficiente precisa ser continuamente dirigido pelo Espírito. Onde quer que a igreja esteja viva e crescendo, todas essas observações são como leite materno, os fundamentos iniciais do ministério. Apenas no Ocidente, racionalista e abertamente materialista, onde a igreja mais luta, é que essas verdades escriturais são contestadas. Paulo antecipou esses dias em que vivemos, quando a imoralidade se espalharia como um câncer, e a igreja teria "aparência de piedade, mas negando a eficiência dela" (2 Tm 3.5). Essas palavras não apenas soam bem verdadeiras, como descrevem muitas de nossas igrejas cristãs de hoje. E a carapuça serviu para muito de meu ministério e para o de muitas igrejas pelas quais passei. O que precisamos em nossas igrejas e em nossa liderança não são princípios, idéias ou prédios novos, mas uma dependência renovada em Deus, para sermos renovados pela presença e poder do Espírito Santo. O Espírito Santo, melhor do que qualquer um de nós, sabe como chamar a atenção ao Cristo cruci- ficado e ressureto, em quem temos vida, esperança e salvação. O assunto deste livro é o ensinamento de Paulo e o exemplo de liderança fortalecida pelo Espírito Santo. Dividi os capítulos a seguir em três seções. A primeira seção é sobre quem nos confere o poder. A rendição de nosso ser é o início de nosso relacionamento com Deus. O que necessitamos é de uma comunhão renovada mais do que liderança (capítulo 2). O capítulo 3 trata da necessidade do sofrimento, de nosso chamado a "levar a cruz", para sermos líderes eficientes e piedosos. O capítulo 4 explora a característica crucial da liderança, a saber, ser um vaso trincado. Você pode até dizer que esses capítulos são apenas sobre o Oleiro e a dependência dos vasos de barro (nós, os líderes) nEle para que sejamos moldados e utilizados conforme a mão artística de nosso Criador desejar. Na seção seguinte, dois capítulos são dedicados à discussão do poder que temos como líderes e da razão pela qual aceitamos a Cristo: o poder do exemplo pessoal (capítulo 5), e o poder do companheirismo, trabalho de equipe e da multiplicação do ministério por meio da reprodução de líderes (capítulo 6). Quando Cristo entra em nossas vidas, entramos em uma nova esfera, chamada pelo apóstolo Paulo de "em Cristo". Estar "em Cristo" é ser uma nova criatura (2 Co 5.17), é passar a ter uma dupla cidadania, pois, embora tenhamos um pé na terra, devemos ser totalmente leais aos céus. Estar "em Cristo" significa que nosso caráter submete-se a uma transformação, e tornamo-nos parte de um novo povo, o corpo de Cristo. Por essa razão, o exemplo que damos e a equipe que construímos causam um impacto divino. Na terceira seção, dedico dois capítulos a como Paulo diz que devemos continuar a viver no Espírito. O capítulo 7 ressalta a necessidade crucial de oração. O capítulo 8 nos 18
  19. 19. faz lembrar que Deus trabalha de baixo para cima, por meio das pessoas mais improváveis. Duas coisas são essenciais para os líderes de hoje: seguir verdadeiramente e refletir claramente a vida de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor. O capítulo 9 descreve a nova classe de líderes da linha de frente, os quais, hoje, vejo Deus levantando, assim como descreve como podemos nos unir ao que Deus está fazendo em nossa terra. O título do apêndice que vem a seguir é auto-explicativo: "Ouvindo a Direção de Deus para seu Ministério". Mas, antes de mais nada, devemos retomar o fio da meada. 19
  20. 20. 2 DISCIPULADO E RENDIÇÃO E é por Cristo que temos tal confiança em Deus-, não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, e o Espírito vivifica. 2 CORÍNTIOS 3-4-6 É parte de nossa disciplina de humildade que não devamos guardar nossa mão sempre que possa prestar serviço e que não devamos assumir que a disponibilidade de horário esta ali para que nós mesmos a gerenciemos, mas permitir que seja organizada por Deus. DIETRICH BONHOEFFER, LLFE TOGHETHER (VIDA KM COMUNHÃO) Um outro ancião disse ainda: Se vir um jovem monge tentando subir aos céus pela própria vontade, pegue-o pelo pé e jogue-o ao chão, pois o que ele está fazendo não é bom para ele. THOMAS MERTON, THE WISDOM OF THE DESERT (A SABEDORIA DO DESERTO) Onde quer que o Senhor me envie, eu irei. ROBERT DUVALL, The APOSTLE (O APÓSTOLO) 20
  21. 21. O PODER ESPIRITUAL FLUÍA POR INTERMÉDIO do ministério de Paulo, mas o apóstolo deixa claro que este poder não vem dele. Ele é um canal, um vaso, um mero condutor do poder do Espírito que gera vida e o qual flui por intermédio dele e de seu ministério. Na passagem de 2 Coríntios, citada acima, Paulo aplica isso a todos nós ao utilizar a primeira pessoa do plural. O que é verdade para Paulo, seus companheiros de ministério e os coríntios é verdade para todos os cristãos, inclusive você e eu-.' "Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus" (2 Co 3-5). Para experimentar a liderança de poder, temos primeiro de aprender quem é a fonte de poder, aquele poder verdadeiro que não vem de nós, nem de nossos esforços e, tampouco, de nossa sabedoria humana. "Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Co 4.7). Portanto, temos de ser modelados por Deus para sermos canais de seu poder. Deus é quem equipa e fortalece o ministério eficiente. O ministério eficiente é aquele que confere vida no Espírito aos outros e fornece uma antecipação do Reino de Deus que virá em plenitude. Deus é quem dá vida, por meio de Jesus e por intermédio do Espírito: "O qual nos fez também capazes de ser ministros dum Novo Testamento, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, e o Espírito vivifica" (2 Co 3-6). Discipulado Como isso é verdade. O que necessitamos não é de novos pioneiros e desbravadores que nos guiem ao futuro, mas sim de discípulos autorizados, canais do poder do Espírito para trazer as pessoas à presença de Deus e ao seu Reino. Precisamos de líderes que modelem a maneira de se submeter a Deus e que recebam a força e purificação de Deus para o serviço no mundo. É animador sentir-se forte, competente e no comando, mas não há poder espiritual verdadeiro nisso nem habilidade para materializar a realidade do Reino de Deus. A liderança vivificadora flui da dependência profunda naquEle que fortalece, purifica, guia e vivifica nosso viver. Em suma, o que precisamos é de discipulado, em vez de liderança. Os líderes que precisamos necessitam modelar a maneira de seguir a Cristo, de viver sob o governo de Cristo e de buscar a semelhança de Cristo, ao depender confiantemente de Deus. Qualquer João, José ou Maria pode ter uma idéia e reunir outros para iniciar a construção de um prédio, favorecer o crescimento de um grupo, fazer planejamentos ou reuniões para receber doações. Não há nada essencialmente cristão em relação a essas coisas. As igrejas não são as únicas a fazer isso — corporações e seitas também o fazem. Se isso for liderança, então temos líderes mais que suficientes na igreja. Os assim chamados líderes, muito freqüentemente, modelam uma vida bem materialista, mais "segundo a carne". Retornaremos a esse ponto posteriormente. Paulo modelou o discipulado. Não creio que tivesse notado isso a respeito do ministério de Paulo até que dei o salto qualitativo em meu ministério, em que passei de planejador a discípulo. Não me entenda mal, não estou criticando a organização, o cuidado com a administração do tempo ou a coordenação de esforços das várias equipes para conquistar um objetivo comum. Ao contrário, estou criticando a dinâmica cie ministério que é fundamentada no controle e direção humanos, em vez de no poder e liderança de Deus. Estou tentando lançar uma luz sobre as mentiras plantadas em seminários e escolas de teologia que advogam que "ministério significa gerenciamento". Temos de encarar os fatos. A descrição dos eventos em Atos dos Apóstolos não diz que Paulo era um mestre visionário que tinha um plano de quinze anos para evangelizar os maiores centros do Império Romano, os quais por sua vez evangelizariam suas próprias regiões.2 Ele não era um líder nesse sentido, a saber, visionário. Em vez disso, o ministério de Paulo é retratado em contínua intermitência, pois é interrompido pela 21
  22. 22. oposição humana e, freqüentemente, redirecionado pelo Espírito. Por exemplo, Paulo estava apenas iniciando seu trabalho em Tessalônica, quando uma revolta o levou a deixar a cidade (At 17.1-10). Hoje, se perguntasse a qualquer especialista em implemen- tação de igrejas, perceberia que não é possível implantar uma igreja, que sobreviva por um longo período, em apenas três ou quatro semanas. Contudo, isso foi exatamente o que Paulo fez. Ele escreve aos tessalonicenses como se fossem uma comunidade cristã muito ativa: "À igreja dos tessalonicenses" (1 Ts 1.1; 2 Ts 1.1). Quando Deus quer realizar algo por nosso intermédio, é preciso que sejamos discípulos, não planejadores. De acordo com meu mentor F. Dale Bruner: "As duas primeiras palavras de uma teologia cristã sólida são: Deus pode". A partir do momento em que compreendemos isso, podemos compreender toda a teologia e desenvolver a fé construída sobre fundamentos sólidos. Deus é capaz. Deus não precisa de Noé nem de Moisés para compreender ou perceber o significado da arca ou do êxodo. Deus apenas requer a obediência deles. O dilúvio veio, e o mar se abriu. Deus pode. Atos igualmente poderosos podem acontecer quando estivermos bem alinhados com o que Deus escolheu fazer. Os líderes da Igreja Primitiva, em Antioquia, compreenderam isso muito bem. Deus é capaz. Eles não necessitavam de um planejamento. Eles precisavam apenas conhecer a mente de Deus por meio do Espírito. Essa era a maneira normal de exercitar a liderança cristã na época de Paulo: E, servindo eles ao Senhor ejejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulopara a obra a que os tenho chamado. I...] E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre. E, chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas dos judeus; e tinham também a João como cooperador (At 13-2,4,5). Liderados pelo Espírito, inspirados pelo Espírito, fortalecidos pelo Espírito — eles obedeciam a Deus, e a liderança deles era vivificadora. O texto não nos conta como eles escutavam o Espírito Santo, mas Ele se dirigia a eles enquanto oravam e jejuavam. Presumivelmente, a palavra vinha por meio de um dos profetas. A direção não vinha explicitamente de um líder visionário. Os resultados falam por si sós. O amor de Jesus espalhou-se por todo o Império Romano, e as igrejas, as eme eram bases missionárias, foram estabelecidas em locais estratégicos para o fomento do evangelho. O racionalista do hemisfério esquerdo (RHE) que existe em mim faz agora objeções (você também é RHE?). O que dizer sobre todos os lunáticos que afirmam serem guiados por Deus e desencaminham as pessoas? O que dizer sobre todas as pessoas irresponsáveis que culpam a Deus pelas coisas que elas fazem? Será que você consegue imaginar como isso pode tornar as coisas confusas? Como podemos nos proteger contra os abusos de autoridade? O que dizer dos fanáticos idiossincráticos que lançam mão de coisas assim e as usam para causar confusão e destruição na igreja? (Meu RHE continua a gritar suas objeções quando volto a ponderar sobre essa passagem das Escrituras.) A verdade é que uma visão, proveniente do desejo pessoal imposto a outros cristãos, pode ser muito destrutiva e opressora. Os princípios da Reforma devem ser aplicados aqui: o abuso de algo nunca anula seu uso apropriado. O fato de pessoas abusarem da afirmação de que são lideradas pelo Espírito não significa que devemos negligenciar a liderança do Espírito em nossa própria vida. A questão verdadeira não se refere a nossas objeções racionais, mas a nossa necessidade obsessiva de manter um firme sentido de controle. Como Mike Yaconelli muito bem afirma, em Dangerous Wonder (Prodígio Perigoso), Mas a verdade é imprevisível quando Jesus está presente; todos se sentem desconfortáveis, embora, ao mesmo tempo, misteriosamente felizes. Pessoas não 22
  23. 23. gostam de surpresas— até mesmo as pessoas que freqüentam a igreja— e não querem sentir-se desconfortáveis. Elas querem um Jesus agradável e domesticado. Sabe de uma coisa?' Domesticação não é uma opção. Retire a surpresa da fé, e tudo que nos resta é uma religião ressequida e morta. Em vez de racionalização, quero responder ao meu RHE com uma observação bíblica óbvia. Isso é o que as Escrituras dizem que aconteceu — eles foram liderados pelo Espírito. Nós precisamos fazer os cálculos e juntá-los aos frutos: o Espírito movia-se com poder por meio do ministério deles. Ministros liderados pelo Espírito liberam o poder do Espírito em seus ministérios. Conseqüentemente, a vida é difundida. Posso enumerar muitos outros exemplos. Paulo era ávido por pregar o evangelho onde quer que fosse; contudo, em um determinado ponto de sua segunda viagem missionária, ele ministrou em Frigia e na Galácia, pois fora impedido "pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia" (At 16.6). Por quê? Alguém havia sido enviado por Deus para essa região? Aquele não era o momento ideal? Quem pode saber! Posteriormente, em sua terceira viagem, ele pôde, em seu caminho para Trôade, passar por Colosso e Éfeso. No entanto, nessa segunda viagem, ele teve de fazer um caminho mais longo rumo ao norte: "E, quando chegaram a Mísia, intentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não lho permitiu" (At 16.7). Seguir, em vez de planejar. Era esse o fundamento da liderança e do ministério de Paulo. Ele obedeceu e, na noite em que chegaram a Trôade, descobriu por que o Espírito o direcionara dessa maneira. Deus planejara usá-lo, assim como a seus companheiros, para difundir a mensagem sobre Jesus e plantar igrejas, que fossem bases missionárias, por toda a Macedonia, a província onde se encontravam as cidades de Filipo, Tessalônica, Apolônia e Beréia. "E Paulo teve, de noite, uma visão em que se apresentava um varão da Macedonia e lhe rogava, dizendo: Passa à Macedonia e ajuda- nos! E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedonia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho" (At 16.9,10). Portanto, o evangelho se difundiu, e a igreja foi estabelecida ao longo da fronteira oriental da Macedonia e, inclusive, descendo até Atenas e chegando a Corinto, em apenas alguns poucos meses. Ninguém planejara isso. Eles apenas estavam seguindo a direção do Espírito Santo. Deus acenava, e eles seguiam. Ao seguir a vontade revelada de Deus, foram posicionados exatamente onde precisavam estar. Caso se ativessem a um projeto preconcebido, eles deixariam de perceber o que Deus queria que fizessem. Posteriormente, o Espírito Santo direciona Paulo para Jerusalém, o local mais improvável que ele — ou nós, nas mesmas circunstâncias — planejaria visitar. Por que, com toda a oposição e conspiração contra sua vida, ele iria para Jerusalém? Não havia razão alguma. Esse é o motivo pelo qual Lucas registra o significado, para Paulo, de ser 23
  24. 24. compelido pelo Espírito: "E, agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer, senão o que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações" (At 20.22,23). Paulo começou a ser arrastado para lã. Podemos dizer que seguir o Espírito, nesse caso, levou à direção oposta que qualquer indivíduo com um mínimo de bom senso planejaria seguir. No entanto, o fruto da obediência de Paulo é evidente para todos nós. Temos o benefício da visão perfeita em retrospectiva e, desse modo, podemos observar que Paulo fez uma viagem sem percalços até lá. Depois seguiu para Roma e, presumivelmente, até a extremidade oeste do Império Romano, na Espanha. O planejamento não o direcionou para lá, mas o seu propósito em seguir a direção do Espírito. Devemos permitir que isso penetre profundamente em nosso ser. Não podemos descartar esse fato com o seguinte comentário: "Essa era a maneira como eles faziam as coisas naquela época, em uma cultura totalmente diferente". Devemos ter consciência de que isso era tão problemático para muitas pessoas RHE quanto o é para nós hoje. Os coríntios, por exemplo, ficaram perplexos quando Paulo mudou os planos, quando ele chegou a "Trôade para pregar o evangelho de Cristo e [abriu-se-lhe] uma porta no Senhor" (2 Co 2.12; veja 2 Co 1.15-2.13 para ler toda a narrativa). Os coríntios ficaram aborrecidos com isso, e muitos de nós também ficariam: "Paulo, você não veio até aqui seguindo seus planos? Você estava seguindo o Espírito? Que tipo de explicação é esta?" Contudo, essa é a explicação de Paulo. Mas isso não é tudo. Paulo nos chama a seguir seu exemplo: "Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito" (Gl 5.25). Essa é a maneira como a Versão Almeida Revista e Corrigida traduz esse texto, mas "andar" é uma palavra muito fraca para fazer justiça à forte palavra grega stoichômen, que se origina da terminologia militar para ali- nhamento obediente.4 Isso não significa "seguir a direção do Espírito com ponderação". Para estar de acordo com o Espírito é necessário submeter-se à mente e ao propósito de Deus em relação ao assunto relevante, tanto para fazer o que o Espírito diz que deve ser feito como para ser guiado "pelo Espírito" (Gl 5.17). Será que a tradução desse versículo fez com que os tradutores, como nós, ficassem desconfortáveis? O sentido deve ser: "Se vivemos pelo Espírito, devemos também ser controlados pelo Espírito". Esse foi o modelo que nos foi ensinado por Paulo, e seu significado fica bem claro. Isso não é o delírio de um maníaco carismático; é o que a Bíblia cliz. E se sua experiência com Deus não foi dessa maneira? E se esse tipo de interação pessoal com Deus, por meio do Espírito Santo, estiver faltando em sua vida? Suponho que isso também signifique que você não experimentou um ministério de poder. Você pode até ter alcançado alguns resultados, mas eles foram vivificadores? O Reino multiplicou-se? As pessoas foram transformadas em cristãos como as do Novo Testamento e enviadas aos não-cristãos? Jesus Cristo tornou-se o centro da vida dessas pessoas, ou, ao contrário, o resultado disso foi a igreja ou o ministério tornarem-se o centro de suas vidas? Como mudar do planejamento impotente para o seguir cheio de poder? Há uma resposta simples e uma complexa para esta questão. A simples é: pedimos para Deus nos guiar, e vamos aonde somos direcionados e fazemos o que Ele nos manda. A resposta complexa é que temos de nos libertar das forças internas e externas a nós, as quais nos desviam e nos impedem de escutar e obedecer a direção de Deus. Paulo denomina a força interna da qual precisamos nos libertar de "carne"; e a externa, de agradar às pessoas. O restante desse capítulo é sobre como podemos passar a ter um ministério liderado pelo Espírito, fortalecido pelo Espírito e, portanto, vivificador. Viver e Liderar "Segundo o Espírito" versus "Segundo a Carne" "Carne" (em grego, surx) é um termo desafiador, mas crucial para compreender a 24
  25. 25. teologia de Paulo, assim como para entender o caminho que leva à liderança de poder. "Carne" não é o mesmo que "corpo", mas há uma pequena sobreposição no uso e significado dessas palavras. "Carne" é um termo negativo para Paulo, ao passo que "cor- po" é neutro: carne ^ corpo. Os dois termos se sobrepõem, mas não são sinônimos.s O uso de "carne", crucial para a compreensão deste capítulo, diz respeito a viver "segundo a carne" (em grego, kata sarka) em contraste com viver "segundo o Espírito" (katapneuma). O problema com as pessoas que vivem "segundo a carne" é que elas não se submetem ao desejo e ao caminho de Deus. O problema com a "carne" é, na verdade, um problema com o desejo em que há intencionalidacle pecaminosa e rebelde em relação a Deus e seu controle sobre nossa vida. "Carne" não diz respeito à vida "no corpo", mas à condição espiritual de ser intencionalmente independente de Deus e de seu desejo. É mais do que a tentação física (outro significado de "carnal", palavra também usada na tradução de sarx). Talvez, nesse sentido, a melhor maneira cie definir "carne" seja desejo próprio ou intencionalidade independente — uma pessoa que em sua condição espiritual está distante de Deus e do que Ele quer que essa pessoa seja e faça/' Há duas passagens-chave em Paulo para que nos aprofundemos e possamos compreender a diferença entre viver "segundo a carne" e viver "segundo o Espírito". A primeira delas é Romanos 8.5-9: Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito, para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida epaz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem. o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. Paulo apresenta contradições contundentes entre essas duas maneiras de viver. A primeira delas, "segundo a carne". Os que vivem segundo a carne geralmente não têm consciência disso, mas a direção que tomam leva-os ao desapontamento, à destruição e à "morte". Estou convencido de que muitos líderes cristãos desempenham suas funções segundo a carne e não estão conscientes disso. Essa equação carne/morte espelha a sabedoria do Antigo Testamento: "Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte" (Pv 14.12). Não apenas esse caminho tem conseqüências terríveis, mas também é uma maneira de viver que ofende continuamente a Deus; é "inimizade contra Deus". Por que viver "segundo a carne" é antagônico a Deus? Porque os que vivem dessa maneira não se submetem à vontade de Deus e, tampouco, são capazes de o fazer (v. 7). Eles "não podem agradar a Deus" nem esperar ver os favores de Deus, pois são traidores que vivem em um outro reino sob o domínio de um outro monarca, o reino do "eu". A submissão a Deus é a chave, e muitos jamais encontram o ministério vivificador, pois se recusam a submeter-se. Qualquer pessoa que renda seu "reino do eu" a Deus submete-se ao senhorio de Jesus e recebe o amor e a bênção dos dons do Espírito Santo (Rm 8.5). Quando recebemos os dons do Espírito de Deus, experimentamos as bênçãos de viver sob o comando de Deus: vida em lugar de morte e paz em lugar da inimizade com Deus (Rm 8.7). Qualquer 25
  26. 26. cristão, qualquer indivíduo que tenha se submetido ao relacionamento de confiança com Deus por intermédio de Jesus Cristo, tem o Espírito Santo, que nele habita. "... se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele" (Rm 8.9). Paulo afirma que ser cristão é o mesmo que estar cheio do Espírito. Ser líder cristão é o mesmo que ser líder cheio do Espírito. A única outra opção que Paulo deixa em aberto é viver "segundo a carne" — e deixa claro onde isso nos leva. Como líder, vivi tanto o ministério controlado pela carne como o liderado pelo Espírito. A diferença é tão dramática quanto a distinção entre remar e velejar. O remador chega a seu destino por meio do desgaste, batalha e esforço pessoal. O velejador chega a seu destino pelo poder do vento. Remar é uma boa maneira para manter-se em forma, mas um método ruim para viajar. O velejar aproveita o poder do vento e permite que viajemos mais longe, mais rápido e com muito menos esforço do que quando remamos. Por muitos anos, ministrei como se estivesse em um barco a remo: com minhas forças e sabedoria e por intermédio de meu poder. Embora a maioria de minhas pregações fosse fundamentada nas Escrituras, pregava e ensinava a partir de minhas boas idéias. Na época, achava que esse não era o caso, mas, na verdade, não passava de um cristão fariseu. Acreditava e ensinava a Bíblia, mas o poder não fluía por intermédio de meu ministério. (Isso não quer dizer que Deus não usasse meu ministério — Ele assim o fazia, pois a Palavra realiza coisas incríveis e maravilhosas apesar do mensageiro.) Desde essa época, tenho aprendido a diferença entre pregar e ensinar biblicamente "segundo a carne" e pregar e ensinar bíblica e poderosamente "segundo o Espírito". Velejar é muito melhor. O restante deste livro é uma tentativa de descrever, em detalhes, a maneira de permanecer no caminho supremo do ministério liderado pelo Espírito e de abandonar o caminho medíocre do ministério "segundo a carne". O Caminho para o Poder: Render-se Render-se é a maneira pela qual podemos nos livrar das amarras da "carne". O problema da carne pode ser ilustrado por meio da analogia de como conduzir um carro. Quando vivemos segundo a carne, nossas mãos seguram tão firmemente a direção de nossa vida, e, por conseguinte, de nossa família e de nosso ministério, que as juntas dos dedos chegam a ficar esbranquiçadas. Render-se é soltar a direção e passar a ocupar o banco do passageiro, permitindo que Deus ocupe totalmente o lugar de motorista e o controle de nossa vida. Participamos da jornada à medida que Deus pede e requer isso de nós, e não contra-ordenamos o que Deus quer. Alguns cristãos estão quase rendidos, o que podemos chamar de "quase cristãos".7 Contudo, sempre que um assunto crucial, que envolve suas carreiras — como as finanças ou o futuro —, vem à tona, eles se inclinam e agarram a direção, pisando violentamente no freio. Substituem a obediência e submissão a Deus pela arrogância do desejo e determinação pessoais. Sempre que penso sobre isso, a imagem de um garoto de dois anos, berrando, me vem à mente-. "Eu sei fazer sozinho". A instância da intencionalidade se fecha ao poder do Espírito na vicia dessas pessoas, como se estivessem desligando a chave da ignição. A "carne" assume o controle, e o poder do Espírito é dissipado. Isso não quer dizer que Deus não esteja presente, mas que o Espírito se recusa a derramar poder em tais circunstâncias. Por quê? Retrato isso da seguinte forma: Quando minha filha tinha dez anos ela realmente gostava de falar e pensar sobre dirigir carros, embora não tivesse ainda o tamanho e a maturidade para assumir essa grande responsabilidade. Recusava-me a deixá-la ter o controle da direção. Imagine que estivéssemos dirigindo em uma estrada. Se ela agarrasse a direção ou puxasse o freio de mão, teríamos um grande problema a resolver! Se ela me forçasse a sair do assento do motorista, faria o possível para desligar o carro antes que ela tomasse o controle. Poder requer responsabilidade. No caso dos 26
  27. 27. líderes espirituais, a responsabilidade vem quando nos humilhamos e admitimos que não podemos fazer o trabalho de Deus — o planejamento e o direcionamento do conduzir que traga a plenitude do Reino. Em vez disso, quando decidimos confiantemente o rumo de nossa vida ou ministério sem qualquer ajuda ou direção de Deus, somos como garotos de dez anos que querem dirigir. A autoridade e capacidade de Deus estão acima de nossa compreensão. Somos como garotos de dez anos quando temos de lidar com o futuro e conhecer a mente de Deus para o futuro. Conhecemos as pinceladas que Deus revelou nas Escrituras. Contudo, nenhum cie nós pode ver claramente onde cada um desses caminhos nos leva, quais obstáculos e oposição estão diante de nós e qual caminho nos leva até nossa moradia celeste. Nenhum de nós, exceto Deus. Essa é a razão pela qual render-se é mais sensato do que determinar por si mesmo, como também é a razão pela qual Deus fortalece apenas os que se submetem. Muitos, ou talvez a maioria de nós, provavelmente não vão ao local de rendição e submissão por si mesmos. Paulo também não. Ele estava no caminho da morte, mas estava totalmente convencido de que servia a Deus — em seu caminho para assassinar cristãos em Damasco, com a aprovação de seus superiores religiosos! Esse foi o momento em que o Cristo ressureto o confrontou, o colocou de joelhos e o cegou. Ironicamente, a cegueira física de Paulo tornou-se o início de seu despertar para a vida no Espírito, pois ele recebeu a verdadeira visão espiritual. Para Paulo, essa visão veio subitamente por meio de um resplendor de luz do céu, e foi um choque para os cristãos primitivos encontrar esse homem transformado (veja At 9-1-31; 22.1-21; 26.1-23). Ele foi transformado da morte para a vida, do viver segundo a carne para o viver para Jesus, direcionado pelo Espírito, em um momento de sujeição, submissão e rendição. Em um segundo, teve de desistir de tudo o que algum dia considerou valioso, de tudo que construíra em sua vida até aquele momento. Isso nos leva a outra passagem importante que precisamos ler cuidadosamente, Filipenses 3-3-11. Nestes versículos, Paulo avisa seus queridos amigos a respeito das viagens de falsos missionários que insistiam que os cristãos gentios deviam ser circunciclados. Em Gaiatas, ele chama esses encrenqueiros de judaizantes, pois insistiam que os gentios deviam ser circuncidados e observar as restrições alimentares e o calendário santo dos judeus.8 Paulo, em Filipos, ao admoestar seus amigos sobre essas pessoas, explica claramente o que mudara para ele quando inclinou seu desejo para Jesus e consentiu em sujeitar-se: Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne. Ainda que também podia confiar na carne-, se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de bebreus-, segundo a lei, fui fariseu, segundo o zelo, perseguidor da igreja; segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como estercopara que possa ganhar a Cristo e seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé; para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e a comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte; para verse, de alguma maneira, eu possa chegará ressurreição dos mortos (Fp 3-3-11). Aqui, o contraste é o mesmo que encontramos em Romanos 8, mas Paulo distingue entre a atitude de confiança na "carne" e a que significa "estar em Cristo". Paulo identifica o "confiar na carne" como a confiança em cerimônias religiosas (circuncisão), 27
  28. 28. em sua linhagem, de família de elite, e nas .conexões sociais (israelita, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus), assim como a confiança em seu esforço para ser um perfeito fariseu (irrepreensível) e em seu zelo (como perseguidor dos cristãos). Paulo, conforme o padrão do mundo, ou pelo menos de acordo com os padrões de um judeu respeitador de sua época, tinha toda a razão para confiar "na carne" (Fp 3.4). Essa confiança estava mal direcionada, pois estava firmada na confiança de conquistas humanas, e não em Deus. Quando encontrou a Jesus na estrada de Damasco, literalmente face a face, ele apresentou esta confiança. Quando a comparou com sua nova experiência de vida em Jesus, ele percebeu que era skybala, uma palavra muito grosseira, traduzida por "estéreo" na Versão Almeida Revista e Corrigida, mas que foi traduzida por "refugo", uma forma mais branda, na Versão Almeida Revista e Atualizada. Ele passou a perceber que todas as coisas, que um dia tivera em alta estima, eram repugnantes quando comparadas com o tesouro supremo da vida em Jesus, vivida segundo o Espírito. Ele tornou-se apaixonado pela vida que encontrou em Jesus: "Para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e a comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte" (Fp 3-10). Sua mensagem tornou-se a seguinte: "Venda tudo e compre Cristo! Renuncie a toda confiança e intencionalidade pessoais e submeta- se e renda-se ao desejo e propósito de Deus em Jesus Cristo!" Para a maioria de nós, transpor a intencionalidade "segundo a carne" para aceitar a submissão a Cristo é um processo, mais do que um evento em um determinado momento. Começamos a caminhar do orgulho em direção à humildade. (Utilizo "orgulho" no sentido negativo, similar a "segundo a carne", não no sentido positivo, de auto-estima saudável.) "A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda. Melhor é ser humilde de espírito com os mansos do que repartir o despojo com os soberbos" (Pv 16.18,19). Deus se opõe ao viver orgulhoso "segundo a carne", mas honra o viver humildemente. Deixe-me tentar ilustrar esse processo de caminhar da vida na carne para a vida no Espírito. Na figura 2.2, a marca na linha representa onde estou nessa escala de "orgulhoso" e "não tão orgulhoso". Não sou tão orgulhoso, tão "carnal", como costumava ser. Estou caminhando na direção do "não tão orgulhoso". Na verdade, posso até mesmo ter orgulho de não ser "tão orgulhoso", e isso indica que ainda tenho muito que caminhar. Eventos e circunstâncias humilhantes aconteceram, e minha perspectiva, depois deles, ampliou-se consideravelmente. Percebo que necessito crescer bem mais. Dei alguns passos para me desviar do orgulho, mas percebo que "não tão orgulhoso" é ainda um estado de orgulho, de egoísmo, da "carne". Já me humilhei o suficiente para saber que tenho um longo caminho a percorrer. Não sou mais "tão orgulhoso", mas ainda me preocupo com o eme os outros pensam de mim, ainda me aborreço com as ofensas e o menosprezo que tenho de enfrentar, ainda me concentro no comparar minhas bênçãos e provações com o que os outros recebem. Ainda estou destituído de poder para o ministério. Não transpus a fronteira crucial de Brian J. Dodd para Deus, do desejo pessoal para o maravilhoso poder de Deus (veja a figura 2.3). 28
  29. 29. Na figura 2.2, a divisão no meio marca a fronteira entre viver sem poder e com poder no Espírito. Isso também coincide com o levar uma vida conforme o desejo humano, segundo a carne, à esquerda, e viver uma vida de rendição cheia do poder do Espírito, à direita. Caminho de uma para outra quando rendo meu desejo, meu futuro e minha determinação pessoal a Deus (veja a figura 2.3). Quanto mais submeto meu ser à direção e ao controle de Deus (quanto mais me movo para a direita), mais poder é liberado em meu ministério e vida, Esse tesouro é confiado quando aprendemos a não tomar a direção. Maior poder requer maior restrição pessoal. Render-se é o caminho para o poder do Espírito, experimentar e ser capacitado pelo poder que vem de Deus. A maioria de nós não participa voluntariamente desse processo. Charles Spurgeon, renomado pregador londrino do século XIX, expressa isso adequadamente: Deus nos faz em pedaços antes de nos exaltar. Prefiro utilizar as exatas palavras desse pregador: "Não é curioso que Deus, sempre que quer tornar um homem grande, primeiro o faça em pedaços?"9 Esse é o exemplo de Jesus e seus seguidores, assim como também de todas as grandes testemunhas das grandezas espirituais que andaram na face da terra. Para submeter-nos aos propósitos de Deus precisamos ter nossos desejos quebrantados e subjugados. Spurgeon continua: Será que nenhum de vocês já notou, era sua vida, que sempre que Deus está se preparando para dar-lhe crescimento, trazendo-o a uma esfera mais ampla do servir ou a uma plataforma mais alta da vida espiritual, você sempre é derrubado? Essa é a forma usual de Deus trabalhar. Ele o faz ficar faminto, antes de alimentá-lo; Ele o despe, antes de vesti-lo; Ele faz com que você seja nada, antes que faça com que você seja algo. Isso foi o que aconteceu com Davi. Ele seria o rei de ferusalém, mas o caminho para o trono passou pela caverna. Bem, alguns de vocês aqui vão para o céu, ou para o estado celestial de santificaçào, ou ainda para uma esfera mais ampla do servir, não se impressione se alcançar isso passando pela caverna. Quando percebemos quão profundamente necessitamos de Deus e nos convencemos de que os seus propósitos são muito superiores a nossas preferências, então estamos prontos a nos submeter a Deus. O processo é doloroso e muitas vezes não o queremos, mas é necessário para se tomar o caminho do ministério de poder pelo Espírito. Pedi a Deus por força, para- que pudesse alcançar, Enfraquecido fui, para que pudesse aprender a obedecer humildemente 29
  30. 30. Pedi por saúde, para que pudesse fazer coisas maiores, Adoentado fui, para que pudesse fazer coisas melhores. Pedi por riquezas, para que pudesse ser feliz, Empobrecido fui, para que pudesse ser sábio. Pedi por poder, para que pudesse ter a aprovação dos homens, Enfraquecido fui, para que pudesse necessitar de Deus. Pedi por todas as coisas, para que pudesse desfrutar a vida, Vida foi-me dada, para que pudesse desfrutar todas as coisas. Não alcancei nada do que pedi, mas tudo que esperava. Apesar de mim mesmo, minhas orações não verbalizadas foram respondidas. Estou entre os homens mais ricamente abençoados. — Autor desconhecido Fazendo o que Deus Quer que Seja Feito: Quebrantamento Quando passamos da existência centrada no desejo pessoal para a de submissão ao Senhor, pomo-nos em uma posição de prontidão contínua para fazer o que Deus quer que façamos. Esse é o segredo cristão para uma vida feliz e a característica mais crucial para um líder transmissor da vida-, fazer o que Deus quer que seja feito. Podemos escolher obedecer a Deus fiel e radicalmente, fazendo disso um hábito em nossa vida. Ao contrário, muitos de nós têm de ser condicionados a obedecer por meio de um processo espiritual de quebrantamento. Para que essa seja nossa escolha, precisamos ser convencidos de que os planos e iniciativas humanas trazem morte, não vida. Provavelmente, poucos de nós chegam a esse estágio por escolha própria. Com freqüência, precisamos experimentar quebrantamento e desespero profundos em nossos esforços antes que nos abramos verdadeiramente para buscar e realizar apenas o desejo de Deus. Você pode dizer que precisamos ser quebrantados, assim como um cavalo precisa ser dominado para tornar-se útil. Imagine Deus como o cavaleiro, e você como o cavalo. Se você for quebrantado,você está sob o comando do Mestre. O Cavaleiro divino, quando você é quebrantado, pode direcioná-lo em velocidades cada vez mais altas sem qualquer apreensão de que você virará à esquerda em uma vala quando as rédeas o puxam para a direita, para o único caminho que o Senhor vê. A rendição faz com que nossa lealdade cresça, e, portanto, nosso Mestre possa nos confiar com mais autoridade e poder. As únicas pessoas às quais Ele não outorga poder são as que buscam o poder em vez da submissão ao propósito planejado para esse poder: reconciliar o mundo que dEle se desviou. Quando buscamos, de forma habitual, primeira e unicamente o desejo de Deus, nosso 30
  31. 31. ministério flui e se desenvolve com facilidade. Não há necessidade de forçar as coisas. A força é o caminho da carne. Ao contrário, quando seguimos a direção de Deus, as portas, com freqüência, abrem-se facilmente e as barreiras caem ao toque de uma pena. As portas que o Senhor abre ninguém pode fechar, e nada pode interromper o avanço de Deus. Os indivíduos que são direcionados pelo Espírito podem ser eficientes e gentis, pois não necessitam usar a força para abrir portas (veja Cl 3.12; 1 Ts 2.7; 2 Tm 2.24). Quando vivemos e lideramos "segundo a carne", temos de usar a força. O caminho não foi desimpedido para nós, e carregamos o peso da responsabilidade sem a ajuda de Deus. Extenuamo-nos, pressiona-mo-nos e fatigamo-nos. Estamos puxando um arado para dois cavalos com apenas um, e o arreio mais formidável está vazio: não temos o ombro de Deus puxando o arado conosco. A primeira coisa que muitos líderes "segundo a carne" precisam aprender é que Deus já está fazendo algo. Quando nos desfazemos de nosso orgulho e nossa necessidade de receber elogios, podemos ver que Deus já está trabalhando, fazendo algo para que possamos nos unir a Ele. Teologicamente isso é denominado de graça preveniente. Deus já está trabalhando. Quando colocamos nosso ombro naquele arado, o Parceiro divino carrega a maior parte do peso, e, assim, o trabalho flui e é abençoado. Liderança de poder é isso. O salmista conhecia essa verdade: "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" (SI 127.1). Muitas vezes, frustramo-nos em nossos testemunhos e esforços evangelísticos por essa razão. Determinamos apresentar Deus a alguém, em vez de discernir que campos estão prontos para a colheita e, assim, nos unirmos ao que Deus está fazendo. Lidero uma equipe de evangelísmo denominada Share Jesus! (Compartilhe Jesus), em que pro- curamos fazer com que as igrejas e os discípulos sejam testemunhas mais eficientes. Uma das coisas mais importantes que ensinamos a eles sobre evangelismo é o seguinte: sempre que entrar em algum recinto, em algum parque ou participar de uma festa, ore: "Senhor, mostre-me ao lado de quem devo estar", e, a seguir, siga a sugestão do Espírito Santo. Isso faz com que toda a ansiedade seja retirada do processo. Não estamos falando de Deus para essa pessoa, mas estamos nos juntando a Deus e ao que a graça já está fazendo na vida dessa pessoa. Já observei pessoas fazerem isso e levarem alguém a Cristo e à igreja em questão de segundos. Isso soa inatingível? No entanto, foi exatamente o que aconteceu com Filipe e o eunuco etíope (At 8.26-40).n Obviamente, em tudo isso parto do pressuposto de que o desejo escrito de Deus, revelado nas Escrituras, é a proteção no caminho em que viajamos. A direção dada pelo Espírito pode nos dizer que caminho tomar, mas jamais nos pedirá para transpor a proteção ética da Palavra escrita de Deus, que está na Bíblia. Viver liderado pelo Espíri- to não pode substituir o pensamento e decisões transmitidas na Bíblia, mas apenas complementá-las, a saber, "tanto-mais" em vez de "ou-ou". Esse aspecto é muito mais profundo do que intencionalidade, rebelião e independência obstinada de Deus, as quais são apenas uma peneira em nossa alma em que o poder divino se esvai. Rendição, submissão, humildade, quebrantamento, retidão, confiança e obediência fazem com que nossa alma seja um vaso pronto a receber e a distribuir o poder de Deus que é derramado sobre o humilde e o humilhado. "Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós" (2 Co 4.7). Libertar-se da Escravidão: o Poder É do Mestre Para nós que somos cio mundo ocidental, permissivo e individualista, toda essa questão sobre rendição, submissão e total obediência pode ofender nossas suscetibilidades. Temos a tendência de ser cristãos do tipo "experimente-nosso-bolo-e-coma-o-também", em que vislumbramos o Reino de Deus como algo similar ao governo da Grã-Bretanha. 31
  32. 32. Jesus é Rei com toda a pompa e circunstância que isso pressupõe. No entanto, sou o primeiro-ministro, com toda a autoridade verdadeira para tomar decisões e desenvolver políticas de governo. Jesus é o rei representativo, sem autoridade verdadeira, que ratifi- ca minhas decisões e me resgata das dificuldades. Eu, porém, decido os objetivos e tenho o comando de meus subordinados, tempo e dinheiro. Isso é viver "segundo a carne", embora equivocadamente pensemos que estamos vivendo "segundo o Espírito". Quando, vez após vez, Paulo honra a Cristo como o Senhor (kyrios) é claro que freqüentemente compreendemos esse termo em seu uso comum, a saber, o mestre que possui e controla seus escravos.12 Paulo compreende seu papel como escravo cie Cristo (doulos), alguém compelido e controlado por seu mestre para realizar suas ordens e servir a seus propósitos. Os leitores cio Novo Testamento grego sabem muito bem que as versões da Bíblia velaram sutilmente as imagens de escravidão contidas no Novo Testamento. Essas versões têm a tendência de usar o termo "servo", mais bem aceito socialmente, em vez de escravo, ao traduzir dessa forma, no Novo Testamento, cerca de cento e noventa palavras associadas à escravidão. Isso, indubitavelmente, acontece de- vido a nossa vergonha coletiva em relação à história da escravidão, em que os escravos eram bens materiais. Os estudiosos sabem que a consciência dessa imagem mestre- escravo é crucial para a compreensão, hoje, das epístolas de Paulo, pois foram assim compreendidas no século I. A prática da escravidão era prevalecente-, o fundamento econômico em que o Império Romano repousava. Estima-se que um terço cio Império Romano, na época de Paulo, era formado por escravos, um terço por mestres e um terço por escravos emancipados.13 "Escravo de Cristo" é uma das maneiras como Paulo se autodenomina. Como as versões minimizam esse fato, seria valioso citar algumas das muitas instâncias em que Paulo se retrata como "escravo de Cristo". Ele se apresenta aos romanos como: "Paulo, servo [escravo] de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus" (Rm 1.1). É comum designar Paulo como apóstolo e pensar que essa era a maneira mais habitual por ele utilizada para descrever-se. No entanto, esse versículo alude ao que era uma convenção social de intitular os emissários como "apóstolos", que eram, com freqüência, escravos que serviam como representantes de seus mestres. Em Romanos 1.1, "apóstolo" é mencionado na segunda linha, depois de "servo" [escravo]. Aos filipenses, ele apresentou Timóteo e a si mesmo apenas como "servos" [escravos] de Jesus Cristo. Obviamente, Paulo comunicara sua compreensão de liderança subjugada a seu pupilo mais famoso, Timóteo (veja 2 Tm 2.24). Epafras foi treinado da mesma maneira por Paulo, seu mentor (Cl 4.12). Paulo deixa claro que o uso da imagem de escravidão serve para compreender que a relação do indivíduo com Cristo deve ser de obediência. Para Paulo, o assunto é claro-. "Todos obedecem algo, e você é escravo, portanto, obedeça". Paulo, utilizando uma linguagem distinta, contrasta a tensão entre a carne e Cristo, discutida acima, com o escravo do pecado versus o escravo da justiça (Rm 6.16; cf. Gl 4.3). Quando somos libertados da escravidão do pecado, somos "feitos servos [escravos] de Deus" (Rm 6.22). Em 1 Coríntios, qualquer cristão (que vive "em Cristo") torna-se "servo [escravo] [...] de Cristo" (1 Co 7.22). Paulo diz ser uma dessas pessoas, não escravo conforme a visão da sociedade (eleutheros, "livre"), mas que serve a todas as pessoas como escravo de Deus (1 Co 9.19). A seguir, apresentaremos a maneira como Paulo resume sua mensagem de obediência ao Mestre, Jesus: "Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor (kyrios); e nós mesmos somos vossos servos (douloi, "escravos"), por amor de Jesus" (2 Co 4.5). Paulo simplesmente segue os passos de Jesus, que se humilhou e tomou "a forma de servo [escravo]" (Fp 2.7). Isso reflete o padrão de liderança de Jesus, seu legado para os 32
  33. 33. primeiros discípulos. O Evangelho de João narra uma circunstância em que Jesus modelou a liderança, na qual demonstrou que devemos ser como escravos. Foi difícil para aqueles discípulos, como o é para nós, pensar no papel da liderança cristã como o do escravo menos importante. Toda a cena foi estranha para eles, o que se torna óbvio pela reação de Pedro.E, acabada a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o traísse, Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus, e que ia para Deus, levantou-se da ceia, tirou as vestes e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois, pôs água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, que lhe disse: Senhor, tu lavas-me os pés a mim? Respondeu Jesus e disse-lhe: O que eu faço, não o sabes tu, agora, mas tu o saberás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarãs os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu te não lavar, não tens parte comigo. Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça. Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo. Ora, vós estais limpos, mas não todos. Porque bem sabia ele quem o havia de trair, por isso, disse: Nem todos estais limpos (Jo 13-2-11). Jesus continua e os chama explicitamente de "escravos" de seu "Senhor" e Mestre, Jesus, que modelou para eles a liderança de poder e do servir como escravo. Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se asfizerdes (Jo 13.12-17). Jesus e Paulo deixam claro que a liderança cristã é mais bem caracterizada como escravidão ao Mestre, Jesus, inclusive com tudo que isso acarreta: submissão e obediência. Essa é uma outra maneira de dizer que o poder vem daquEle que dirige nossas vidas e liderança. O poder é encontrado na escravidão libertadora em Jesus, como Senhor. Nessa escolha de submissão e obediência somos libertados do mestre invisível que puxa nossas correntes: a "carne", a natureza pecaminosa, o "pecado". Todos servimos a um mestre ou a outro (Rm 6.16). Não Podemos Servir a Dois Senhores: O Problema com o Agradar às Pessoas Hã uma outra forma de vida "segundo a carne" que todo líder tem de confrontar: a pressão para agradar as pessoas. Todos nós conhecemos líderes que satisfazem a opinião pública, que se rendem à pressão, que tomam o caminho da menor resistência, que buscam evitar conflito e que procuram satisfazer a todos. Seus ministérios nunca são ministérios de poder e, por fim, são incapazes de satisfazer a todos. Quando é preciso tomar uma decisão, eles ficam à espreita, observando para que lado pende a maré da opinião pública. O resultado de se buscar satisfazer as pessoas é que a minoria que fala mais alto controla o ministério ou a igreja, infelizmente fundamentada no princípio de "quem não chora, não mama". Na verdade, o coletivo carnal de pessoas opressoras é como o rabo que balança o cachorro, em que o líder é controlado pela congregação. A necessidade do ego do líder por aprovação submerge à responsabilidade divina do líder de focar o desejo e a glória de Deus. Há um caminho que parece reto às pessoas, mas que leva à destruição... Paulo, em uma confrontação reveladora com a igreja de Galácia, dá seu exemplo pessoal, de forma sucinta, para que sirva como parâmetro de comparação para os membros dessa igreja: "Porque persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro 33

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