Questões sociológicas

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Aula sobre texto de Giddens que elenca os desafios ao pensamento sociológico a partir da análise dos dilemas com a natureza do seu objeto de estudo.

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Questões sociológicas

  1. 1. Questões sociológicas Giddens, Anthony. Sociologia. 6 ed. Porto Alegre: Penso, 2012. p. 38-60
  2. 2. Ponto de partida Ao final de um dia de trabalho, e repente, os banheiros públicos de um certo parque em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos, estão mais movimentados do que seria de esperar. [...]. O que esses homens fazem ali? Certamente, existem outros banheiros em locais mais convenientes. Haverá algum interesse comum, além dos banheiros, que os traz a esse lugar? Nenhum desses homens está no banheiro para usá-lo para os fins para os quais foi construído oficialmente: eles estão ali em busca de “sexo rápido”.
  3. 3. Pesquisa sociológica e sua controvérsia Laud Humphreys, [...], visitou esses banheiros públicos para fazer pesquisas sobre os participantes. Ele escreveu sobre eles em seu livro Tearoom Trade (Humphreys, 1970). [...], o livro causou grande controvérsia quando foi publicado e, para certas pessoas, a questão ainda é difícil de lidar, [...]. [...], a metodologia de pesquisa de Humphreys foi muito criticada, pois seu trabalho de campo precisava ser oculto: ela não envolvia obter o consentimento informado dos homens que estudou. Todavia, sua pesquisa nos tearooms conseguiu lançar nova luz sobre as dificuldades de homens que eram forçados a manter suas tendências [homo]sexuais em segredo. [...]. A pesquisa de Humphreys foi realizada em uma época em que havia muito mais estigma associado a identidades homossexuais e em que a polícia aplicava as leis contra tal comportamento.
  4. 4. Diretrizes da pesquisa de Humphreys Humphreys passou um longo período de tempo pesquisando os banheiros públicos, pois uma excelente maneira de entender processos sociais é participar deles e observá-los. Ele também fez entrevistas que lhe possibilitaram obter mais informações do que teria se apenas observasse os banheiros. A pesquisa de Humphreys abriu uma janela para um aspecto da vida que muitas pessoas ficaram chocadas ao saber que sequer existia, e que certamente precisava ser entendido em um nível mais profundo. Seu trabalho baseou-se na pesquisa sistemática, mas também teve um tom de paixão; foi realizado com um certo distanciamento científico, mas, ao mesmo tempo, Humphreys estava envolvido na busca de soluções para problemas sociais.
  5. 5. Preocupação social envolvida Humphreys argumentava que a perseguição contra estilos de vida homossexuais leva os homens a existências angustiadas, nas quais devem recorrer ao segredo extremo e a atividades muitas vezes perigosas. Seu estudo foi realizado antes do advento da Aids, mas essa atividade seria muito mais perigosa atualmente. Ele argumentava que a tolerância pela subcultura homossexual colocaria os gays em uma posição em que poderiam proporcionar uns aos outros autoestima, apoio mútuo e alívio do tormento.
  6. 6. Sujeitos da pesquisa: o problema ético
  7. 7. Diálogo do sociólogo com os sujeitos da pesquisa [...], os pesquisadores não são mais vistos como os especialistas inteligentes e os participantes como meros sujeitos da pesquisa. Cada vez mais, os sujeitos da pesquisa se envolvem no processo [...] e podem ajudar a formular perguntas, comentar a interpretação do pesquisador sobre suas visões e, em certos casos, esperar receber uma cópia do relatório final da pesquisa. [...]. De fato, todos os órgãos financiadores perguntam rotineiramente às equipes de pesquisa sobre quais questões éticas esperam enfrentar e como pretendem lidar com elas, se usarão alguma forma de ocultação, que medidas serão criadas para proteger os participantes do risco e como seus resultados serão informados aos participantes ao final do estudo.
  8. 8. Dilemas éticos e epistemológicos na pesquisa de Humphreys Quando escreveu Tearoom Trade, Humphreys disse que não era totalmente verdadeiro com as pessoas cujo comportamento estava estudando. [...]. Embora não contasse nenhuma mentira direta durante suas observações, ele também não revelava a verdadeira razão para sua presença no tearoom. Será que esse aspecto particular do seu comportamento era ético? [...]. Com base no que observava no tearoom, Humphreys não coletou informações sobre os participantes que viessem a identificá-los. O que ele sabia sobre eles era semelhante ao que todas as outras pessoas presentes sabiam. Desse modo, sua presença não submeteu ninguém a mais risco do que já encontravam em suas vidas cotidianas. Ao mesmo tempo, se Humphreys tivesse sido totalmente franco a cada estágio, a pesquisa poderia não ter avançado como avançou. De fato, alguns dos dados mais valiosos que foram coletados por sociólogos nunca teriam sido obtidos se o pesquisador tivesse explicado antes o projeto a cada pessoa encontrada no processo de pesquisa.
  9. 9. Dilemas éticos e epistemológicos na pesquisa de Humphreys O que levantou mais dúvidas foi que Humphreys anotou as placas dos carros das pessoas que vinham para os tearooms, obteve seus endereços com um amigo que trabalhava para o Departamento de Veículos Motores e visitou seus lares sob o disfarce de estar realizando uma pesquisa neutra. [...], o conhecimento que obteve poderia ter sido prejudicial. Como a atividade que estava documentando era ilegal, policiais poderiam ter exigido que ele liberasse as informações sobre as identidades dos sujeitos. Também é possível que um pesquisador menos hábil tivesse deixado algo escapar ao entrevistar as famílias dos sujeitos, ou que Humphreys tivesse perdido suas anotações, que poderiam ser encontradas por outra pessoa.
  10. 10. Posicionamento da sociologia a respeito na atualidade [...], os pesquisadores de hoje não consideram esse tipo de projeto legítimo. Por todo o mundo, os órgãos de fomento à pesquisa sociológica, como o European Science Foundation ou o Economic and Social Science Research Council do Reino Unido, bem como as organizações profissionais a que os sociólogos pertencem, como a International Sociological Association (ISA), hoje têm diretrizes éticas muito mais rígidas para pesquisadores envolvidos com qualquer tipo de pesquisa sociológica.
  11. 11. Perguntas sociológicas
  12. 12. O óbvio X o socialmente construído [...], ao olhar as surpreendentes atividades que ocorrem em banheiros públicos, Humphreys estava perguntando como sociedade funciona, de maneiras que são diferentes das versões oficiais de como ela deveria funcionar. Ele também observou que aquilo que consideramos natural – [...] – na verdade é socialmente construído, dependendo de como é usado. O construcionismo social é uma perspectiva que parte da premissa de que a realidade social é – em graus variados – produto das interações entre indivíduos e grupos, e não algo óbvio para todos [...].
  13. 13. Diferentes perspectivas para o mesmo tema de acordo com a abordagem teórica Um interacionista talvez pergunte: como esse comportamento se dá nos processos de interação? Que tipos de interação ocorrem? Humphreys observou que as pessoas que frequentavam os tearooms aprendiam com o outros a fazer silêncio. Essa era uma resposta à demanda de privacidade sem envolvimento. Outra observação foi que os homens que iam ao banheiro e que não respondiam aos primeiros avanços sexuais não eram mais abordados. [...]. Uma abordagem funcionalista poderia perguntar: qual é a contribuição do tearoom para a continuação da sociedade como um todo? A resposta é que ela proporciona uma válvula de escape para a atividade sexual que, quando em segredo, proporciona que outros membros da sociedade continuem como pessoas “normais” em suas vidas cotidianas, sem desafiarem a ordem aceita das coisas. Uma abordagem marxista poderia perguntar: o pensamento sobre as relações de classe econômicas é visível nos tearooms? Humphreys observou que o sexo impessoal nos tearooms tinha uma qualidade democrática. Homens de todas as classes sociais e raças se encontravam nesses lugares em busca de contato sexual. Por fim, uma abordagem feminista talvez se perguntasse: como as vidas das mulheres podem ser consideradas nesse estudo, realizado com um grupo formado apenas por homens? [...], mas uma feminista, atualmente, poderia perguntar como as vidas das mulheres – talvez das esposas e parceiras que nada sabiam sobre a atividade de seus parceiros – são afetadas e colocadas em risco pelo comportamento secreto nos tearooms.
  14. 14. Implicações práticas do estudo de Humphreys Depois da publicação desse livro, Humphreys participou do movimento político – o movimento dos direitos dos homossexuais – que tornou possível essa mudança. Ele usou suas descobertas para convencer os juízes e a polícia a diminuir a perseguição de homens envolvidos no sexo homossexual, para aliviar os efeitos colaterais prejudiciais da atividade sexual oculta.
  15. 15. Sociologia parte do cotidiano procurando ultrapassá-lo Em que circunstâncias vivem as minorias raciais ou sexuais? Como pode existir fome em massa em um mundo que é muito mais rico do que jamais foi? Que efeitos terá o uso cada vez maior da internet em nossas vidas? A família está começando a se desintegrar como instituição? [...]. [...], o objetivo da teorização e pesquisa em sociologia sempre é romper com o modo especulativo em que a pessoa comum geralmente considera estas questões. O bom trabalho sociológico tenta tornar as questões o mais precisas possível e tenta reunir evidências factuais antes de chegar a conclusões.
  16. 16. Procedimento da sociologia ...perguntas factuais ou empíricas. Por exemplo, muitos aspectos do comportamento sexual, [...], exigem uma investigação sociológica direta e sistemática. Desse modo, podemos perguntar: que tipos de ocupações e arranjos domésticos são mais comuns entre as pessoas que frequentam os tearooms? Que proporção de frequentadores dos tearooms a polícia prende?
  17. 17. Procedimento da sociologia Os sociólogos muitas vezes querem fazer perguntas comparativas, relacionando um contexto social dentro da sociedade com outro, ou comparando exemplos de sociedades diferentes. Existem diferenças significativas, por exemplo, entre os sistemas sociais e legais dos Estados Unidos, da Itália e da África do Sul. ...perguntas evolutivas ou históricas. Como chegamos de lá até aqui? Para entender a natureza do mundo moderno, temos que olhar as formas anteriores de sociedade e também estudar a principal direção que os processos de mudança tomaram.
  18. 18. Procedimento da sociologia [...], a sociologia não consiste apenas de coletar fatos, [...]. Sempre devemos interpretar o que os fatos significam e, para fazê-lo, devemos aprender a fazer perguntas teóricas – preocupados com por que as coisas ocorrem.
  19. 19. Procedimento da sociologia Ao mesmo tempo, os sociólogos tentam não buscar o conhecimento teórico por si só. Uma visão comum é que, embora não se deva permitir que os valores dos sociólogos desviem suas conclusões, a pesquisa social deve ser relevante para questões ligadas ao mundo real.
  20. 20. A sociologia é científica?
  21. 21. Peculiaridade da sociologia [...], estudar seres humanos é diferente de observar fatos do mundo físico, de modo que a sociologia e as ciências naturais não podem ser idênticas. Ao contrário dos objetos da natureza, os humanos são seres autoconscientes, que conferem significado e propósito ao que fazem. Não podemos sequer descrever a vida social propriamente, a menos que primeiro entendamos os conceitos que as pessoas aplicam em seu próprio comportamento.
  22. 22. Vantagens da sociologia com relação às ciências naturais Os pesquisadores sociológicos têm o benefício de poderem fazer perguntas diretamente para aqueles que estudam – [...] – e obter respostas que entendam. Essa oportunidade de conversar com os sujeitos da pesquisa e confirmar as interpretações dos pesquisadores significa que os resultados sociológicos são, pelo menos potencialmente, ainda mais fidedignos (diferentes pesquisadores chegam aos mesmos resultados) e válidos (a pesquisa avalia o que deve avaliar) do que os das ciências naturais
  23. 23. Desvantagens da sociologia com relação às ciências naturais As pessoas que estão cientes de que suas atividades estão sendo escrutinadas podem não agir da mesma forma em que agem normalmente. Elas podem se retratar consciente ou inconscientemente de um modo que difira de suas atitudes usuais. Podem mesmo tentar “ajudar” o pesquisador, dando as respostas que acreditam que ele quer.
  24. 24. Apreendendo causa e efeito
  25. 25. Busca da correlação Uma relação causal entre dois fatos ou situações é uma associação em que um fato ou situação produz o outro. [...]. Como a ciência natural, a sociologia depende da premissa de que todos os fatos têm causas. A vida social não é um conjunto aleatório de ocorrências, que acontecem sem rima ou razão. Uma das principais tarefas da pesquisa sociológica – em combinação com o pensamento teórico – é identificar causas e efeitos.
  26. 26. Causação e correlação A causação não pode ser inferida diretamente da correlação. A correlação significa a existência de uma relação regular entre dois grupos de ocorrências ou variáveis. [...]. Pode parecer que, quando se observa que duas variáveis estão intimamente correlacionadas, uma seja a causa da outra. Todavia, esse muitas das vezes não é o caso.
  27. 27. Exemplo do estudo sociológico de Durkheim Em seu trabalho clássico de 1897, Suicide [...], Emile Durkheim encontrou uma correlação entre as taxas de suicídio e as estações do ano. Nas sociedades que Durkheim estudou os níveis de suicídio aumentaram progressivamente de janeiro até junho ou julho. A partir dessa época, caíram ao longo do restante do ano. Pode-se supor que isso demonstre que a temperatura ou as mudanças climáticas estejam causalmente relacionadas com a propensão dos indivíduos a se matar. [...]. Todavia, a relação causal aqui não tem nada a ver diretamente com a temperatura ou clima. Na primavera e no verão, a maioria das pessoas tem uma vida social mais intensa do que nos meses do inverno. Os indivíduos que são isolados ou infelizes tendem a experimentar uma intensificação desses sentimento à medida que o nível de atividade das outras aumenta. Assim, são prováveis de ter mais tendências suicidas agudas na primavera e no verão do que no outono e no inverno, quando o ritmo da atividade social diminui.
  28. 28. Mecanismos causais Existe uma forte correlação, [...], entre o nível de desempenho educacional e o sucesso ocupacional nas sociedade modernas. Quanto melhores as notas que um indivíduo tira na escola, mais bem remunerado provavelmente será o seu trabalho. O que explica essa correlação? A pesquisa tende a mostrar que não é apenas a experiência escolar; os níveis de desempenho escolar são muito mais influenciados pelo tipo de lar de onde a pessoa vem. [...]. Os mecanismos causais aqui são as atitudes dos pais para com seus filhos, juntamente com as facilidades para aprender que o lar proporciona.
  29. 29. Variáveis independentes e variáveis dependentes Uma variável independente é aquela que produz um efeito sobre outra variável. A variável afetada é a dependente. [...]. O mesmo fator pode ser uma variável independente em um estudo e uma variável dependente em outro. Tudo depende de quais processos causais estão sendo analisados.
  30. 30. Controles Para descobrir se uma correlação entre variáveis é uma conexão causal, usamos controles, que significam que mantemos certas variáveis constantes para olhar os efeitos de outras. Dessa forma, podemos avaliar explicações para correlações observadas separando relações causais de não causais.
  31. 31. Exemplo da correlação entre privação materna e desvios de personalidade na vida adulta [...], os pesquisadores que estudam o desenvolvimento infantil afirmam que existe uma conexão causal entre a privação materna na infância e problemas sérios de personalidade na idade adulta. [...]. Como podemos testar se realmente há uma relação causal entre privação materna e transtornos da personalidade futuros? Faríamos isso tentando controlar, ou “filtrar”, outras influências possíveis que pudessem explicar a correlação
  32. 32. Identificando causas A identificação de fatores causais normalmente é orientada por pesquisas anteriores na área em questão. Se não tivermos uma ideia razoável de antemão sobre os mecanismos causais envolvidos em uma correlação, provavelmente teríamos muita dificuldade para descobrir quais são as conexões causais reais. Não saberíamos o que procurar.

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