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OS ESTABELECIDOS E
OS OUTSIDERS:
Sociologia das relações de
poder a partir de uma
pequena comunidade. –
Norbert Elias e John
Scotson.
Prof. Msc. Araré de Carvalho Júnior
Norbert Elias
 Norbert Elias nasceu em
Breslau em 1887 e morreu em
Amsterdam em 1990.
Sociólogo, estudou medicina,
filosofia e psicologia nas
Universidades de Breslau e
Hedelberg. Trabalhou com
Karl Mannheim em Frankfurt.
Elias Abandonou a Alemanhã
Nazista em 1933, indo para a
França e depois para a
Inglaterra, onde foi professor
na Universidade de Leicester;
lecionou mais tarde, como
professor visitante, em
universidades na Alemanhã,
Holanda e Gana.
 Elias desenvolveu uma abordagem a que deu
o nome de “sociologia figuracional”, a qual
examina o surgimento de configurações
sociais como conseqüências não-
premeditadas da interação social e foi descrita
em seu livro O que é Sociologia?(1970). Sua
obra mais conhecida é O Processo Civilizador
(2. vols., 1939), que analisa os efeitos da
formação dos estados na Europa sobre os
estilos de vida individuais, a personalidade e
as moralidades.
Sociologia Figuracional
 Elias foi um dos principais precursores da
chamada "Sociologia Figuracional", através da
qual se estuda as relações humanas de forma
processual (micro e macro social). O sentido
figuracional é usado para ilustrar redes de
interdependência entre indivíduos e a distribuição
de poder nas mesmas. É importante apontar que
Elias não tem uma visão estática dessas
configurações e busca captá-las em contínuo
processo de constituição e transformação. Nesse
sentido, configurações não podem ser
planejadas, programadas ou previstas porque são
construídas e redimensionadas o tempo todo
 Para Elias, o "saber" é desenvolvido através de
configurações sociais ao longo da evolução da
sociedade, também o tempo aparece como produto
da evolução de nossa sociedade. Evolução que não
significa progresso, mas que é formada por
progressos e retrocessos e que, no caso do tempo,
está fundamentada no desenvolvimento da
capacidade humana de síntese e representação
simbólica. Também é importante como os homens se
inserem nas relações sociais. Elias não utiliza os
termos "desenvolvimento", "evolução" e "progresso",
no sentido de uma necessidade automática ou
intrínseca à sociedade Ele refere-se a tais termos no
sentido de explicitar, empírica e teoricamente,
mudanças estruturais que aconteceram na sociedade
a longo prazo.
 O conceito de configuração se refere a um padrão
mutável criado na relação entre indivíduos em
sociedade. Eles podem ser considerados como
jogadores vistos pela totalidade de suas ações nas
relações que mantêm entre si, formando uma teia
flexível de tensões. As configurações se formam
necessariamente pela interdependência dos indivíduos
em sociedade e podem ser marcadas por uma
figuração de aliados ou de adversários. As
configurações de seres humanos interdependentes têm
duas características fundamentais na obra de Elias:
são modelos didáticos que devem ser interpretados
como representações de seres humanos ligados uns
aos outros no tempo e no espaço; e servem para
romper com as polarizações clássicas dentro da
sociologia, que tendem a pensar o „indivíduo‟ e a
„sociedade‟ como formas antagônicas e diferentes.
Os Estabelecidos e os Outsiders:
Sociologia das relações de poder.
 Nesse trabalho Norbert Elias apresenta uma rara
oportunidade de encontrar um estudo focado em
uma pequena comunidade reflexões
metodológicas e teóricas de amplo espectro para
a pesquisa em ciências sociais. Trata-se de um
estudo das relações de poder na comunidade
de Winston Parva (nome fictício), próxima de
Leicester – Inglaterra. Realizado no final dos anos
50 e início dos 60 pelo professor John L. Scotson,
interessado em tratar do problema da
delinqüência juvenil naquela localidade, o estudo
passou a ter outras perspectivas com Norbert
Elias.
 De um problema associado a altos índices de
delinqüência juvenil, os pesquisadores foram
levados a refletir sobre questões que dizem
respeito à própria sociedade. No centro de
suas discussões estavam as relações de
poder e de status no interior de uma
comunidade. A investigação os levou a
buscar explicar o porquê das diferenças de
status e poder, enfrentando os desafios e
limitações de um trabalho empírico num
determinado microcosmo.
 Quais são os aspectos comunitários
específicos de uma comunidade? A resposta a
esse tipo de pergunta, à primeira vista, é bem
simples e, talvez óbvia. É evidente que se
está fazendo referência à rede de relações
entre pessoas que se organizam como uma
unidade residencial – de acordo com o lugar
em que normalmente vivem. As pessoas
estabelecem relações quando negociam,
trabalham, rezam ou se divertem juntas, e
essas relações podem ou não ser
altamente especializadas e organizadas.
 As unidades sociais dotadas de um núcleo de
famílias que constroem seus lares ali levantam
problemas sociológicos específicos. Estes são o
que se costuma chamar de „problemas
comunitários.
 Os tipos de interdependências, estruturas e
funções encontrados nos grupos residenciais
de famílias que constroem lares com um certo
grau de permanência suscitam problemas
próprios, e que o esclarecimento desses
problemas é central para a compreensão do
caráter específico da comunidade como
 Entre os problemas centrais figura aquele
referente às distinções do valor
atribuído, nessas redes comunais de
famílias, a cada uma das famílias.
Invariavelmente, algumas famílias ou talvez
grupos delas em uma mesma comunidade, tão
logo são ligadas umas às outras pelos fios
invisíveis da vizinhança, passam a se ver e a
ser vista pelos outros como “melhores”
ou, alternativamente, como “menos
agradáveis”, “menos boas”, “menos
dignas”, ou seja qual for a denominação que se
use. Em termos acadêmicos, falamos da
“hierarquia classificatória” das famílias ou da
“ordem de status”.
 A classificação das famílias de Winston
Parva, desempenhava um papel central em todos
os setores da vida comunitária. Influenciava o rol
de membros das associações religiosas e
políticas. Desempenhava um papel no
agrupamento das pessoas em bares e clubes.
Afetava a reunião dos adolescentes e
penetrava nas escolas. As diferenças de
status e classificação são freqüentemente
demonstradas como dados factuais, mas
raramente explicadas. Em Winston Parva, foi
possível ver com um pouco mais de clareza de
que modelo elas eram produzidas e que papel
desempenhavam na vida das pessoas.
 Elias apresentou nesse estudo, visto de perto, um
episódio de desenvolvimento de uma área
industrial urbana. Esse desenvolvimento trouxe
atritos e perturbações. Os que já se haviam
fixado na região e que, em condições
favoráveis, tinham tido tempo de criar, uma
vida comunitária bastante estável, uma
tradição provinciana própria, viram-se diante
do fato de que chegava um número maior de
pessoas para se estabelecer em suas
imediações e em seu seio, pessoas estas que
até certo ponto, tinham idéias, maneiras e
crenças diferentes das que eram costumeiras
e valorizadas em seu círculo.
 Durante a guerra, o maior grupo de novos
operários chegou juntamente com a fábrica de
que eram empregados e, de modo, geral, a
indústria e as oportunidades de emprego na
região estavam em crescimento.
 As tensões, relatadas por Elias, entre velhos e
novos moradores foram de um tipo peculiar. O
núcleo dos residentes antigos atribuía um valor
elevado aos padrões, às normas e ao estilo de
vida que eles haviam criado entre si. Tudo isso
tinha uma estreita ligação com seu respeito
próprio e com o respeito que eles julgavam ser-
lhes devido pelos outros. A ascensão de uma
minoria, para o nível de classe média, exercia um
poder considerável na antiga
comunidade, era, em termos dos valores públicos
coletivos, motivo de orgulho para a maioria dos
residentes mais antigos.
 Os recém-chegados que se fixaram no
“loteamento” foram vistos como uma
ameaça a essa ordem, não porque
tivessem qualquer intenção de perturbá-la,
mas porque seu comportamento levava os
velhos residentes a achar que qualquer
contato estreito com eles rebaixaria seu
próprio status, que os arrastaria para baixo,
para um status inferior em sua própria estima
e na do mundo em geral, e que reduziria o
prestígio de seu bairro, com todas as
possibilidades de orgulho e satisfação que lhe
estavam ligados.
 Nesse sentido, os recém chegados foram
vistos como uma ameaça pelos antigos
moradores. Elias afirma que em ordens
sociais de extrema mobilidade, é comum que
as pessoas sejam extremamente sensíveis em
relação a tudo o que possa ameaçar sua
posição. É comum que desenvolvam
angústias ligas ao status.
 Os mexericos (pride e blame gossip)
agarraram-se prontamente a tudo o que
poudesse se mostrar os recém-chegados sob
um prisma desfavorável e confirmar a
superioridade da moral e dos costumes dos
velhos residentes, símbolos de sua
respeitabilidade.
 Assim, na pequena Winston Parva, criou-se uma
determinada figuração marcada pela existência de um
grupo de moradores antigos da “aldeia” que se
colocavam como pessoas de valor humano mais
elevado que o dos moradores do “loteamento”
construído em época mais recente e, por
isso, estigmatizados pelos primeiros. Os
estabelecidos contra os outsiders . Da figuração
estabelecidos-outsiders, Elias identifica uma
constante universal: o grupo estabelecido atribuía aos
seus membros características humanas superiores;
excluía todos os membros do outro grupo de contato
social não profissional com seus próprios; e o tabu em
torno desses contatos era mantido através de meios
de controle social como a fofoca elogiosa no caso dos
que o observavam, e a ameaça de fofocas
depreciativas contra os suspeitos de transgressão.
 O estudo das relações entre as famílias “antigas” e
“novas” de Winston Parva pode contribuir um pouco
para solucionar o problema de que por que o “tempo
de residência” e a “idade das famílias” são capazes de
afetar profundamente o relacionamento entre as
pessoas. Ainda mais porque nesse caso, a
antiguidade não estava associada à riqueza, passada
ou presente. O fato de os dois grupos de Winston
Parva serem quase iguais, sob muitos aspectos que
costumam combinar-se com “antiguidade” e a
“recenticidade”, permitiu evidenciar algumas chances
de poder, ao alcance dos “antigos” grupos de
pessoas, que passam facilmente despercebidas
quando também estão presentes outras
chances, como as que provêm riqueza, do poderio
militar, de maior conhecimento, de etnia, religião ou
visão política.
 Mais do que a identificação de um determinado
modelo figuracional, este estudo apresenta dois
aspectos de grande relevância para as ciências
sociais. O primeiro está colocado pelo desafio da
pesquisa empírica ao operar com algumas categorias
analíticas tradicionais, como as das diferenças
étnicas, de classe social e nacionalidade. Não havia
em Winston Parva nenhum componente que levasse
a esses diferenciais – longe disto, pois ali todos
faziam parte do mesmo grupo étnico e nacional, sem
diferenciais significativos em termos do tipo de
ocupação, renda ou nível educacional. Nenhum dos
fatores de distinção, do arsenal clássico de
preconceitos, se encontrava naquela cidade.
Ocupações dos residentes de duas ruas de
elite e duas ruas comuns da Zona 02
Rua Elite A Rua Comum
A
Quantidade Ocupação Quantidade Ocupação
01 Jornalista -
01 Empregado de
Escritório
-
02 Balconista 01 Balconista
03 Operários Mecânicos 03 Operários mecânicos
- 01 Motorista de Caminhão
02 Ferroviários 02 Ferroviários
05 Operários de Malharias 02 Operários de
Malharias
02 Op. Fábrica de
Calçados
05 Op. Fábrica de
Calçados
03 Trabalhadores Braçais 05 Trabalhadores Braçais
Rua de elite
B
Rua comum
B
Quantidade Ocupação Quantidade Ocupação
03 Empregados de
escritório
-
03 Balconista -
01 Dono de Garagem -
03 Operadores de
Máquinas
01 Operador de Máquinas
01 Corretor de Seguros -
01 Motorista de caminhão 01 Motorista de Caminhão
01 Maquinista -
01 Ferroviário -
01 Pedreiro -
01 Bombeiro hidráulico -
02 Operários de Malharias 02 Operários de Malharias
01 Op. Fáb. Calçados 03 Op. Fáb. Calçados
01 Trabalhador Braçal 07 Trabalhador Braçal
 Aqui encontra-se o primeiro grande legado de
Elias. Pensamos constantemente a partir do
foco das diferenças – sexo, cor, classe, nação
– como diferenciais estruturais das relações
de poder. Dificilmente chegamos a
problematizar questões em que estão
colocados os termos da igualdade, ou que o
diferencial de poder possa estar associado,
como é o caso deste estudo, ao tempo de
residência naquele lugar e ao maior ou menor
grau de coesão e organização de cada grupo
inter-relacionado.
 O segundo ponto que deve ser evidenciado é a
relação entre Coesão dos Estabelecidos e a falta
da mesma por parte dos Outsiders. O estudo de
Winston Parva colocou para Elias a possibilidade
de reflexão sobre a anomia quando observou que
na relação de interdependência entre os
estabelecidos e os outsiders havia um elemento
de constância pela existência de uma “minoria
dos melhores” entre os estabelecidos – uma
minoria nômica – e uma “minoria dos piores”
entre os outsiders – minoria anômica – que
marcava o status de superioridade e de
inferioridade de ambos os grupos.
 No entanto, para Elias, as tensões entre grupos
“nômicos” versus “anômicos” revelam outra faceta sobre
a própria maneira como as ciências sociais passam a
tratar os problemas sociológicos. Desmontando uma
longa tradição durkehimiana, na qual fatores “nômicos”
e de coesão grupal eram entendidos como fatores
morais, e sua ausência desenhava um quadro de
“anormalidade” e de condenação moral. Para Elias, “não
há justificativa para considerar as investigações
sociológicas do que se julga serem formas de „mau
funcionamento‟, ou como se diz, de „disfunção‟, como
um grupo distinto do que é formado por aquilo que se
julga „funcionar bem‟(...). Não se pode esperar encontrar
explicações para o que se julga „ruim‟, para um „mau
funcionamento‟ da sociedade, quando não se é capaz
de explicar, ao mesmo tempo, aquilo que se avalia como
„bom‟, „normal‟ ou „funcionando bem‟, e vice-versa”.
 Assim, em Winston Parva, as pessoas que
pertencem a um círculo de “famílias antigas”
são providas de um código comum por seus
vínculos afetivos específicos: uma certa união
das sensibilidades subjaz a todas as suas
diferenças. Assim, elas sabem onde se situar
em relação umas às outras e o que esperar
umas das outras, e o sabem “instintivamente”
melhor, como se costuma dizer, do que onde
se situar em relação aos outsiders e o que
esperar deles.
 As “famílias antigas”, nunca se formam
isoladamente, sempre se aglutinam ou se
agrupam em redes de famílias com sua própria
hierarquia interna de status e, em geral, com um
alto índice de casamentos endogâmicos.
 O fato das “famílias antigas” se conhecerem e
terem sólidos vínculos entre si, no entanto, não
significa necessariamente que elas se estimem.
É, apenas em relação aos intrusos que elas
tendem a se unir. Entre si, podem competir e
quase invariavelmente o fazem, de maneira
branda ou acirrada conforme as circunstâncias.
 No círculo dos Estabelecidos, há uma boa
dose de tradições familiares comuns,
enriquecidas a cada nova geração que surge.
Como outros aspectos da tradição comum,
isso cria uma intimidade – até entre as
pessoas que não se gostam – da qual os
recém chegados não conseguem participar.
 O poder, como tantos outros conceitos,
apresenta-se freqüentemente ligado a um lugar, a
um atributo específico de quem o detêm – pelo
controle material de objetos, de coisas e pessoas.
Nestes termos, o poder é algo fixo, estático. Elias
destaca a necessidade de pensarmos nos
aspectos figuracionais dos diferenciais de poder
que se devem puramente a diferenciais no grau
de organização dos seres humanos implicados.
Nele, o conceito de poder deixou de ser uma
substância para se transformar numa relação
entre duas ou mais pessoas e objetos naturais;
assim, o poder é um atributo destas relações que
se mantêm num equilíbrio instável de forças.
 O poder ocorre no interior das figurações em que os grupos
estabelecidos vêem seu poder superior como um sinal de
valor humano mais elevado; os grupos outsiders, quando o
diferencial de poder é grande e a submissão inelutável,
vivenciam afetivamente sua inferioridade de poder como um
sinal de inferioridade humana. Estigma, evitações e o medo do
contágio reforçam o tabu imputado aos outsiders, que não
dispõem de nenhuma possibilidade de revidar o grupo
estabelecido com os mesmos termos depreciativos que
recebem como desordeiros das leis e normas e sujos. Nesse
quadro, a delinqüência juvenil passa a ser uma manifestação
reativa dos jovens do “loteamento” frente ao sentimento de
exclusão e coerção por parte dos estabelecidos. Delinqüência
e atos de vandalismo passam a ser a forma particular que
alguns jovens do “loteamento” encontraram para manifestar o
sentimento de inferioridade social largamente enraizado desde
a sua infância, no interior de suas famílias e nas inter-relações
com as outras crianças de sua comunidade.
 A maioria dos Outsiders não entendiam
porque os velhos moradores os tratavam com
desprezo e os mantinham à distância. Mas o
papel de grupo de status inferior em que foram
colocados, bem como a segregação
indiscriminada de todos os que se instalaram
no loteamento em pouco tempo devem ter
desestimulado qualquer tentativa de
estabelecer contatos mais estreitos com os
grupos dos estabelecidos.
 Segundo Elias, se olharmos para o mundo em
geral, não poderemos deixar de observar muitas
configurações de natureza semelhante, embora
elas sejam quase sempre classificadas sob outras
designações. No mundo inteiro podemos
descobrir variações dessa mesma configuração
básica, encontros entre grupos de recém-
chegados, imigrantes, estrangeiros e grupos de
residentes antigos. Os problemas sociais gerados
por esses aspectos migratórios da mobilidade
social, conquanto variem no que tange aos
detalhes têm uma certa semelhança.
 Nesses casos, o “outsider” têm que se
acostumar com o papel de recém-chegados
que tentam fazer parte de grupos com
tradições já estabelecidas ou que são
forçados a uma interdependência com eles,
tendo que lidar com os problemas específicos
desse novo papel. Muitas vezes lhes é
atribuído o papel de outsiders em relação aos
grupos estabelecidos e mais poderosos, cujos
padrões, crenças, sensibilidade e costumes
são diferentes dos seus.
 Quando os migrantes têm a cor da pele e outras
características físicas hereditárias diferentes das dos
moradores mais antigos, os problemas criados por
suas formações habitacionais e por seu
relacionamento com os habitantes dos bairros mais
antigos costumam ser discutidos sob o rótulo de
“problemas raciais”. Quando os recém-chegados são
da mesma “raça”, mas têm língua e tradições
diferentes, os problemas com que eles e o s antigos
moradores se confrontam são classificados como
problemas das “minorias étnicas”. Quando eles não
são de “raça” nem “grupo étnico” diferentes, mas
apenas de outra “classe social”, os problemas da
mobilidade social são discutidos como “problema de
Classe”.
 Não há nenhum rótulo pronto que se possa
pespegar nos problemas surgidos no
microcosmo de Winston Parva, porque ali os
recém-chegados e os antigos residentes, pelo
menos na “aldeia”, não eram de “raça” nem
“ascendência étnica” diferentes, nem tão
pouco de outra “classe social”. No entanto,
alguns dos problemas fundamentais surgidos
do encontro entre os grupos estabelecidos e
outsiders em Winston Parva não diferiram
muito dos que podem ser observados em
encontro similares em outros universos.
 Independente do caso, os recém-chegados
empenham-se em melhorar sua situação,
enquanto os grupos estabelecidos esforçam-
se por manter a que já têm. Os primeiros se
ressentem e, muitas vezes, procuram elevar-
se do status inferior que lhes é atribuído,
enquanto os estabelecidos procuram
preservar o status superior que os recém-
chegados parecem ameaçar.
 Postos no papel de outsiders, os recém-
chegados são percebidos pelos estabelecidos
como pessoas “que não conhecem seu lugar”;
agridem-lhes a sensibilidade, portando-se de
um modo que, a seu ver, traz claramente o
estigma da inferioridade social; no entanto, em
muitos casos, os grupos de recém-chegados
tendem inocentemente a se conduzir, ao
menos por algum tempo, como se fossem
iguais a seus novos vizinhos.
 Os mais antigos levantam sua bandeira, lutam
por sua superioridade, seu status e poder,
seus padrões e suas crenças, e em quase
toda parte utilizam, nessa situação, as
mesmas armas dentre elas a fofoca
humilhante, as crenças estigmatizantes sobre
o grupo inteiro, com base em observações
sobre seu pior setor, os estereótipos verbais
degradantes e, tanto quanto possível, a
exclusão de qualquer oportunidade de acesso
ao poder.
 Como os estabelecidos costumam ter uma integração
maior e ser mais poderosos, eles conseguem, através
da indução mútua dar uma sólida sustentação a suas
crenças. Muitas vezes, logram induzir até mesmo os
outsiders a aceitarem uma imagem de si modelada
pela minoria dos “piores”, bem como uma imagem dos
estabelecidos modelada pela “minoria dos melhores”.
Os mais “antigos” muitas vezes conseguem impor aos
recém-chegados a crença de que estes são inferiores
ao grupo estabelecido, não apenas em termos de
poder, mas também “por natureza”. E essa
internalização da crença depreciativa do grupo
socialmente superior pelo socialmente inferior, como
parte da consciência e da imagem que este tem de si,
reforça vigorosamente a superioridade e a dominação
do grupo estabelecido.
 A construção do sentido social do poder em Winston
Parva obedece a dois critérios-chave. Primeiro, o da
afirmação da superioridade e excelência
"psicológica", "humana" e „social" dos que chegaram
antes ao local. A esses caberia, sem mais, o primado
natural quanto ao status, à dignidade grupal e à
legitimidade dos direitos adquiridos. Eles são os
cidadãos de primeira classe. No outro polo faz valer-
se a estigmatização dos chegados por último, tidos
como inferiores. Esses, naturalmente, no início não se
conheciam, pois vinham de vários locais do país.
Eram menos coesos e não dispunham de armas para
se defenderem da maneira com que os nativos os
etiquetavam em resposta à ameaça e ao desequilíbrio
provocada por sua chegada a Winston Parva.
 Elias e Scotson demonstram com acurado
apuro um emaranhado de dependências e
interdependências entre os indivíduos e as
instituições do lugarejo. Mostram como as
normas de atribuição de status e a distribuição
de papéis e tarefas dentro das instituições
sociais e políticas do lugarejo obedecem "a
padrões díspares de união interna e controle
comunitário". Esses padrões se traduzem
"numa prática política que consiste, por
exemplo,
 em reservar para as pessoas do grupo cargos
prestigiosos em organismos locais – o
conselho, a escola e o clube --, excluindo os
moradores da outra área". Tudo está
imbricado naquele emaranhado cuja lógica
psicológica é compreensível só para quem
está bem situado dentro do universo
psicossocial da pequena aldeia. Um
verdadeiro outsider teria dificuldade em
entender o porque das distinções e
argumentos daquela lógica de “pertencer a um
grupo".
 Os membros do grupo estabelecido e até os
recém-chegados, talvez, são indivíduos
criados com uma rigidez particular de visão e
de conduta; muitas vezes, foram criados
acreditando que todo o mundo tem ou deveria
ter, essencialmente, os mesmos sentimentos e
comportamentos que eles. Em geral, o limiar
de tolerância a formas de conduta e a crenças
diferentes, quando se tem que conviver em
estreito contato com seus representantes,
continua a ser excepcionalmente baixa.
 De suas numerosas observações, Elias e Scotson, concluíram que
em grupos sociais muito próximos e homogêneos, como é o caso
dos dois estudados, se criam diferenças, largamente idealizadas,
que os dividem internamente e os colocam em luta pelo controle
social, gerando, no plano das relações, estereótipos e preconceitos
sociais recíprocos. Por mais que sejam "iguais", quando vistos
desde os critérios da sociologia mais clássica funcionalista ou
dialética, eles não logram explicar de maneira satisfatória o que
acontece no plano das imagens sociais que modelam as reais
relações de dominação/subordinação que se fundam de fato nas
representações, crenças e valores que cada grupo julga possuir,
diferentemente do outro, sentido como de nível inferior. Penso não
ser difícil se perceber a importância dessa constatação para o
estudo dos conflitos religiosos e dos fundamentalismos que, cada
vez mais, – para lá do discurso politicamente correto do
ecumenismo -- caracterizam algumas religiões e igrejas em suas
tendências doutrinais, rituais, crenças e objetivos de ação pastoral
e política
 O trabalho de Elias e Scotson traz muitas novidades. Depois de
uma detalhada descrição dos estilos de vida dos dois "bairros", das
estruturas familiares, das instituições comunitárias e redes de
apoio, do modo de viver dos jovens, dos conflitos entre as gerações
quanto à autoridade, da sexualidade e da religião -- em tudo muito
parecidos -- eles mostram que as relações de poder não estavam
ancoradas em diferenças sociais gritantes como as que seriam
provavelmente buscadas e discutidas por um psicólogo ou um
sociólogo interessado só em categorias analíticas auto-explicativas
e, por isto, pouco atento ao cotidiano real da vida das pessoas. A
atenção dos dois pesquisadores não esquece o nível macro-
teórico, mas se volta em especial àquele micro, das relações entre
as pessoas e grupos. Esse é para eles o „ubi‟ gerador da
subjetividade, especialmente em culturas de corte fortemente
individualista como as da sociedade neo-liberal globalizada. O
comportamento e a vivência das pessoas nasce é aí, embora –
evidentemente ! -- possam sofrer e sofram as influências de outras
matrizes contextualizadoras.
 Como mesmo evidência Elias, a meta do estudo
em Winston Parva não teve como intuito
enaltecer ou censurar um lado ou o outro ou
estudar o que se poderia considerar “disfuncional”
por exemplo: estudar a minoria de famílias
desestruturadas do loteamento num isolamento
inteiramente artificial. A meta do autores, foi
explicar seres humanos em configurações
independente de sua bondade ou maldade
relativas, em termos de suas interdependências.
A configuração das pessoas do loteamento teria
sido incompreensível sem um claro entendimento
da observada entre as pessoas da “aldeia”, e
vice-versa.
 Nenhum dos grupos poderia ter se
transformado no que era independentemente
do outro. Eles só puderam encaixar-se nos
papéis de estabelecidos e outsiders por serem
interdependentes. É pelo fato de as ligações
na vida social, muitas vezes, serem ligações
entre fenômenos que, no mundo do
observador, recebem valores diferentes, ou
até antagônicos, que seu reconhecimento
exige um grau razoável de distanciamento.
 Será que os grupos de pessoas apresentados podem
ser vistos como uma soma dos atos de “eus” e
“outros” inicialmente independentes, que se
encontram numa terra de ninguém e começaram a
interagir e a formar comunidades, ou padrões,
situações ou configurações novas, que seriam
fenômenos secundários somados à sua pura
individualidade não social? Para Elias a pesquisa
sociológica deve partir do estudo dos indivíduos como
taís, ou de elementos ainda menores, - as “ações”
individuais -. Segundo Elias não podemos ser pegos
na armadilha da polaridade, de falar e pensar como
se só fosse possível escapar de postular indivíduos
sem sociedade postulando sociedade sem indivíduos.

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Os Estabelecidos e os Outsiders: Sociologia das relações de poder

  • 1. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS: Sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. – Norbert Elias e John Scotson. Prof. Msc. Araré de Carvalho Júnior
  • 2. Norbert Elias  Norbert Elias nasceu em Breslau em 1887 e morreu em Amsterdam em 1990. Sociólogo, estudou medicina, filosofia e psicologia nas Universidades de Breslau e Hedelberg. Trabalhou com Karl Mannheim em Frankfurt. Elias Abandonou a Alemanhã Nazista em 1933, indo para a França e depois para a Inglaterra, onde foi professor na Universidade de Leicester; lecionou mais tarde, como professor visitante, em universidades na Alemanhã, Holanda e Gana.
  • 3.  Elias desenvolveu uma abordagem a que deu o nome de “sociologia figuracional”, a qual examina o surgimento de configurações sociais como conseqüências não- premeditadas da interação social e foi descrita em seu livro O que é Sociologia?(1970). Sua obra mais conhecida é O Processo Civilizador (2. vols., 1939), que analisa os efeitos da formação dos estados na Europa sobre os estilos de vida individuais, a personalidade e as moralidades.
  • 4. Sociologia Figuracional  Elias foi um dos principais precursores da chamada "Sociologia Figuracional", através da qual se estuda as relações humanas de forma processual (micro e macro social). O sentido figuracional é usado para ilustrar redes de interdependência entre indivíduos e a distribuição de poder nas mesmas. É importante apontar que Elias não tem uma visão estática dessas configurações e busca captá-las em contínuo processo de constituição e transformação. Nesse sentido, configurações não podem ser planejadas, programadas ou previstas porque são construídas e redimensionadas o tempo todo
  • 5.  Para Elias, o "saber" é desenvolvido através de configurações sociais ao longo da evolução da sociedade, também o tempo aparece como produto da evolução de nossa sociedade. Evolução que não significa progresso, mas que é formada por progressos e retrocessos e que, no caso do tempo, está fundamentada no desenvolvimento da capacidade humana de síntese e representação simbólica. Também é importante como os homens se inserem nas relações sociais. Elias não utiliza os termos "desenvolvimento", "evolução" e "progresso", no sentido de uma necessidade automática ou intrínseca à sociedade Ele refere-se a tais termos no sentido de explicitar, empírica e teoricamente, mudanças estruturais que aconteceram na sociedade a longo prazo.
  • 6.  O conceito de configuração se refere a um padrão mutável criado na relação entre indivíduos em sociedade. Eles podem ser considerados como jogadores vistos pela totalidade de suas ações nas relações que mantêm entre si, formando uma teia flexível de tensões. As configurações se formam necessariamente pela interdependência dos indivíduos em sociedade e podem ser marcadas por uma figuração de aliados ou de adversários. As configurações de seres humanos interdependentes têm duas características fundamentais na obra de Elias: são modelos didáticos que devem ser interpretados como representações de seres humanos ligados uns aos outros no tempo e no espaço; e servem para romper com as polarizações clássicas dentro da sociologia, que tendem a pensar o „indivíduo‟ e a „sociedade‟ como formas antagônicas e diferentes.
  • 7. Os Estabelecidos e os Outsiders: Sociologia das relações de poder.  Nesse trabalho Norbert Elias apresenta uma rara oportunidade de encontrar um estudo focado em uma pequena comunidade reflexões metodológicas e teóricas de amplo espectro para a pesquisa em ciências sociais. Trata-se de um estudo das relações de poder na comunidade de Winston Parva (nome fictício), próxima de Leicester – Inglaterra. Realizado no final dos anos 50 e início dos 60 pelo professor John L. Scotson, interessado em tratar do problema da delinqüência juvenil naquela localidade, o estudo passou a ter outras perspectivas com Norbert Elias.
  • 8.  De um problema associado a altos índices de delinqüência juvenil, os pesquisadores foram levados a refletir sobre questões que dizem respeito à própria sociedade. No centro de suas discussões estavam as relações de poder e de status no interior de uma comunidade. A investigação os levou a buscar explicar o porquê das diferenças de status e poder, enfrentando os desafios e limitações de um trabalho empírico num determinado microcosmo.
  • 9.  Quais são os aspectos comunitários específicos de uma comunidade? A resposta a esse tipo de pergunta, à primeira vista, é bem simples e, talvez óbvia. É evidente que se está fazendo referência à rede de relações entre pessoas que se organizam como uma unidade residencial – de acordo com o lugar em que normalmente vivem. As pessoas estabelecem relações quando negociam, trabalham, rezam ou se divertem juntas, e essas relações podem ou não ser altamente especializadas e organizadas.
  • 10.  As unidades sociais dotadas de um núcleo de famílias que constroem seus lares ali levantam problemas sociológicos específicos. Estes são o que se costuma chamar de „problemas comunitários.  Os tipos de interdependências, estruturas e funções encontrados nos grupos residenciais de famílias que constroem lares com um certo grau de permanência suscitam problemas próprios, e que o esclarecimento desses problemas é central para a compreensão do caráter específico da comunidade como
  • 11.  Entre os problemas centrais figura aquele referente às distinções do valor atribuído, nessas redes comunais de famílias, a cada uma das famílias. Invariavelmente, algumas famílias ou talvez grupos delas em uma mesma comunidade, tão logo são ligadas umas às outras pelos fios invisíveis da vizinhança, passam a se ver e a ser vista pelos outros como “melhores” ou, alternativamente, como “menos agradáveis”, “menos boas”, “menos dignas”, ou seja qual for a denominação que se use. Em termos acadêmicos, falamos da “hierarquia classificatória” das famílias ou da “ordem de status”.
  • 12.  A classificação das famílias de Winston Parva, desempenhava um papel central em todos os setores da vida comunitária. Influenciava o rol de membros das associações religiosas e políticas. Desempenhava um papel no agrupamento das pessoas em bares e clubes. Afetava a reunião dos adolescentes e penetrava nas escolas. As diferenças de status e classificação são freqüentemente demonstradas como dados factuais, mas raramente explicadas. Em Winston Parva, foi possível ver com um pouco mais de clareza de que modelo elas eram produzidas e que papel desempenhavam na vida das pessoas.
  • 13.  Elias apresentou nesse estudo, visto de perto, um episódio de desenvolvimento de uma área industrial urbana. Esse desenvolvimento trouxe atritos e perturbações. Os que já se haviam fixado na região e que, em condições favoráveis, tinham tido tempo de criar, uma vida comunitária bastante estável, uma tradição provinciana própria, viram-se diante do fato de que chegava um número maior de pessoas para se estabelecer em suas imediações e em seu seio, pessoas estas que até certo ponto, tinham idéias, maneiras e crenças diferentes das que eram costumeiras e valorizadas em seu círculo.
  • 14.  Durante a guerra, o maior grupo de novos operários chegou juntamente com a fábrica de que eram empregados e, de modo, geral, a indústria e as oportunidades de emprego na região estavam em crescimento.
  • 15.  As tensões, relatadas por Elias, entre velhos e novos moradores foram de um tipo peculiar. O núcleo dos residentes antigos atribuía um valor elevado aos padrões, às normas e ao estilo de vida que eles haviam criado entre si. Tudo isso tinha uma estreita ligação com seu respeito próprio e com o respeito que eles julgavam ser- lhes devido pelos outros. A ascensão de uma minoria, para o nível de classe média, exercia um poder considerável na antiga comunidade, era, em termos dos valores públicos coletivos, motivo de orgulho para a maioria dos residentes mais antigos.
  • 16.  Os recém-chegados que se fixaram no “loteamento” foram vistos como uma ameaça a essa ordem, não porque tivessem qualquer intenção de perturbá-la, mas porque seu comportamento levava os velhos residentes a achar que qualquer contato estreito com eles rebaixaria seu próprio status, que os arrastaria para baixo, para um status inferior em sua própria estima e na do mundo em geral, e que reduziria o prestígio de seu bairro, com todas as possibilidades de orgulho e satisfação que lhe estavam ligados.
  • 17.  Nesse sentido, os recém chegados foram vistos como uma ameaça pelos antigos moradores. Elias afirma que em ordens sociais de extrema mobilidade, é comum que as pessoas sejam extremamente sensíveis em relação a tudo o que possa ameaçar sua posição. É comum que desenvolvam angústias ligas ao status.
  • 18.  Os mexericos (pride e blame gossip) agarraram-se prontamente a tudo o que poudesse se mostrar os recém-chegados sob um prisma desfavorável e confirmar a superioridade da moral e dos costumes dos velhos residentes, símbolos de sua respeitabilidade.
  • 19.  Assim, na pequena Winston Parva, criou-se uma determinada figuração marcada pela existência de um grupo de moradores antigos da “aldeia” que se colocavam como pessoas de valor humano mais elevado que o dos moradores do “loteamento” construído em época mais recente e, por isso, estigmatizados pelos primeiros. Os estabelecidos contra os outsiders . Da figuração estabelecidos-outsiders, Elias identifica uma constante universal: o grupo estabelecido atribuía aos seus membros características humanas superiores; excluía todos os membros do outro grupo de contato social não profissional com seus próprios; e o tabu em torno desses contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa no caso dos que o observavam, e a ameaça de fofocas depreciativas contra os suspeitos de transgressão.
  • 20.  O estudo das relações entre as famílias “antigas” e “novas” de Winston Parva pode contribuir um pouco para solucionar o problema de que por que o “tempo de residência” e a “idade das famílias” são capazes de afetar profundamente o relacionamento entre as pessoas. Ainda mais porque nesse caso, a antiguidade não estava associada à riqueza, passada ou presente. O fato de os dois grupos de Winston Parva serem quase iguais, sob muitos aspectos que costumam combinar-se com “antiguidade” e a “recenticidade”, permitiu evidenciar algumas chances de poder, ao alcance dos “antigos” grupos de pessoas, que passam facilmente despercebidas quando também estão presentes outras chances, como as que provêm riqueza, do poderio militar, de maior conhecimento, de etnia, religião ou visão política.
  • 21.  Mais do que a identificação de um determinado modelo figuracional, este estudo apresenta dois aspectos de grande relevância para as ciências sociais. O primeiro está colocado pelo desafio da pesquisa empírica ao operar com algumas categorias analíticas tradicionais, como as das diferenças étnicas, de classe social e nacionalidade. Não havia em Winston Parva nenhum componente que levasse a esses diferenciais – longe disto, pois ali todos faziam parte do mesmo grupo étnico e nacional, sem diferenciais significativos em termos do tipo de ocupação, renda ou nível educacional. Nenhum dos fatores de distinção, do arsenal clássico de preconceitos, se encontrava naquela cidade.
  • 22. Ocupações dos residentes de duas ruas de elite e duas ruas comuns da Zona 02 Rua Elite A Rua Comum A Quantidade Ocupação Quantidade Ocupação 01 Jornalista - 01 Empregado de Escritório - 02 Balconista 01 Balconista 03 Operários Mecânicos 03 Operários mecânicos - 01 Motorista de Caminhão 02 Ferroviários 02 Ferroviários 05 Operários de Malharias 02 Operários de Malharias 02 Op. Fábrica de Calçados 05 Op. Fábrica de Calçados 03 Trabalhadores Braçais 05 Trabalhadores Braçais
  • 23. Rua de elite B Rua comum B Quantidade Ocupação Quantidade Ocupação 03 Empregados de escritório - 03 Balconista - 01 Dono de Garagem - 03 Operadores de Máquinas 01 Operador de Máquinas 01 Corretor de Seguros - 01 Motorista de caminhão 01 Motorista de Caminhão 01 Maquinista - 01 Ferroviário - 01 Pedreiro - 01 Bombeiro hidráulico - 02 Operários de Malharias 02 Operários de Malharias 01 Op. Fáb. Calçados 03 Op. Fáb. Calçados 01 Trabalhador Braçal 07 Trabalhador Braçal
  • 24.  Aqui encontra-se o primeiro grande legado de Elias. Pensamos constantemente a partir do foco das diferenças – sexo, cor, classe, nação – como diferenciais estruturais das relações de poder. Dificilmente chegamos a problematizar questões em que estão colocados os termos da igualdade, ou que o diferencial de poder possa estar associado, como é o caso deste estudo, ao tempo de residência naquele lugar e ao maior ou menor grau de coesão e organização de cada grupo inter-relacionado.
  • 25.  O segundo ponto que deve ser evidenciado é a relação entre Coesão dos Estabelecidos e a falta da mesma por parte dos Outsiders. O estudo de Winston Parva colocou para Elias a possibilidade de reflexão sobre a anomia quando observou que na relação de interdependência entre os estabelecidos e os outsiders havia um elemento de constância pela existência de uma “minoria dos melhores” entre os estabelecidos – uma minoria nômica – e uma “minoria dos piores” entre os outsiders – minoria anômica – que marcava o status de superioridade e de inferioridade de ambos os grupos.
  • 26.  No entanto, para Elias, as tensões entre grupos “nômicos” versus “anômicos” revelam outra faceta sobre a própria maneira como as ciências sociais passam a tratar os problemas sociológicos. Desmontando uma longa tradição durkehimiana, na qual fatores “nômicos” e de coesão grupal eram entendidos como fatores morais, e sua ausência desenhava um quadro de “anormalidade” e de condenação moral. Para Elias, “não há justificativa para considerar as investigações sociológicas do que se julga serem formas de „mau funcionamento‟, ou como se diz, de „disfunção‟, como um grupo distinto do que é formado por aquilo que se julga „funcionar bem‟(...). Não se pode esperar encontrar explicações para o que se julga „ruim‟, para um „mau funcionamento‟ da sociedade, quando não se é capaz de explicar, ao mesmo tempo, aquilo que se avalia como „bom‟, „normal‟ ou „funcionando bem‟, e vice-versa”.
  • 27.  Assim, em Winston Parva, as pessoas que pertencem a um círculo de “famílias antigas” são providas de um código comum por seus vínculos afetivos específicos: uma certa união das sensibilidades subjaz a todas as suas diferenças. Assim, elas sabem onde se situar em relação umas às outras e o que esperar umas das outras, e o sabem “instintivamente” melhor, como se costuma dizer, do que onde se situar em relação aos outsiders e o que esperar deles.
  • 28.  As “famílias antigas”, nunca se formam isoladamente, sempre se aglutinam ou se agrupam em redes de famílias com sua própria hierarquia interna de status e, em geral, com um alto índice de casamentos endogâmicos.  O fato das “famílias antigas” se conhecerem e terem sólidos vínculos entre si, no entanto, não significa necessariamente que elas se estimem. É, apenas em relação aos intrusos que elas tendem a se unir. Entre si, podem competir e quase invariavelmente o fazem, de maneira branda ou acirrada conforme as circunstâncias.
  • 29.  No círculo dos Estabelecidos, há uma boa dose de tradições familiares comuns, enriquecidas a cada nova geração que surge. Como outros aspectos da tradição comum, isso cria uma intimidade – até entre as pessoas que não se gostam – da qual os recém chegados não conseguem participar.
  • 30.  O poder, como tantos outros conceitos, apresenta-se freqüentemente ligado a um lugar, a um atributo específico de quem o detêm – pelo controle material de objetos, de coisas e pessoas. Nestes termos, o poder é algo fixo, estático. Elias destaca a necessidade de pensarmos nos aspectos figuracionais dos diferenciais de poder que se devem puramente a diferenciais no grau de organização dos seres humanos implicados. Nele, o conceito de poder deixou de ser uma substância para se transformar numa relação entre duas ou mais pessoas e objetos naturais; assim, o poder é um atributo destas relações que se mantêm num equilíbrio instável de forças.
  • 31.  O poder ocorre no interior das figurações em que os grupos estabelecidos vêem seu poder superior como um sinal de valor humano mais elevado; os grupos outsiders, quando o diferencial de poder é grande e a submissão inelutável, vivenciam afetivamente sua inferioridade de poder como um sinal de inferioridade humana. Estigma, evitações e o medo do contágio reforçam o tabu imputado aos outsiders, que não dispõem de nenhuma possibilidade de revidar o grupo estabelecido com os mesmos termos depreciativos que recebem como desordeiros das leis e normas e sujos. Nesse quadro, a delinqüência juvenil passa a ser uma manifestação reativa dos jovens do “loteamento” frente ao sentimento de exclusão e coerção por parte dos estabelecidos. Delinqüência e atos de vandalismo passam a ser a forma particular que alguns jovens do “loteamento” encontraram para manifestar o sentimento de inferioridade social largamente enraizado desde a sua infância, no interior de suas famílias e nas inter-relações com as outras crianças de sua comunidade.
  • 32.  A maioria dos Outsiders não entendiam porque os velhos moradores os tratavam com desprezo e os mantinham à distância. Mas o papel de grupo de status inferior em que foram colocados, bem como a segregação indiscriminada de todos os que se instalaram no loteamento em pouco tempo devem ter desestimulado qualquer tentativa de estabelecer contatos mais estreitos com os grupos dos estabelecidos.
  • 33.  Segundo Elias, se olharmos para o mundo em geral, não poderemos deixar de observar muitas configurações de natureza semelhante, embora elas sejam quase sempre classificadas sob outras designações. No mundo inteiro podemos descobrir variações dessa mesma configuração básica, encontros entre grupos de recém- chegados, imigrantes, estrangeiros e grupos de residentes antigos. Os problemas sociais gerados por esses aspectos migratórios da mobilidade social, conquanto variem no que tange aos detalhes têm uma certa semelhança.
  • 34.  Nesses casos, o “outsider” têm que se acostumar com o papel de recém-chegados que tentam fazer parte de grupos com tradições já estabelecidas ou que são forçados a uma interdependência com eles, tendo que lidar com os problemas específicos desse novo papel. Muitas vezes lhes é atribuído o papel de outsiders em relação aos grupos estabelecidos e mais poderosos, cujos padrões, crenças, sensibilidade e costumes são diferentes dos seus.
  • 35.  Quando os migrantes têm a cor da pele e outras características físicas hereditárias diferentes das dos moradores mais antigos, os problemas criados por suas formações habitacionais e por seu relacionamento com os habitantes dos bairros mais antigos costumam ser discutidos sob o rótulo de “problemas raciais”. Quando os recém-chegados são da mesma “raça”, mas têm língua e tradições diferentes, os problemas com que eles e o s antigos moradores se confrontam são classificados como problemas das “minorias étnicas”. Quando eles não são de “raça” nem “grupo étnico” diferentes, mas apenas de outra “classe social”, os problemas da mobilidade social são discutidos como “problema de Classe”.
  • 36.  Não há nenhum rótulo pronto que se possa pespegar nos problemas surgidos no microcosmo de Winston Parva, porque ali os recém-chegados e os antigos residentes, pelo menos na “aldeia”, não eram de “raça” nem “ascendência étnica” diferentes, nem tão pouco de outra “classe social”. No entanto, alguns dos problemas fundamentais surgidos do encontro entre os grupos estabelecidos e outsiders em Winston Parva não diferiram muito dos que podem ser observados em encontro similares em outros universos.
  • 37.  Independente do caso, os recém-chegados empenham-se em melhorar sua situação, enquanto os grupos estabelecidos esforçam- se por manter a que já têm. Os primeiros se ressentem e, muitas vezes, procuram elevar- se do status inferior que lhes é atribuído, enquanto os estabelecidos procuram preservar o status superior que os recém- chegados parecem ameaçar.
  • 38.  Postos no papel de outsiders, os recém- chegados são percebidos pelos estabelecidos como pessoas “que não conhecem seu lugar”; agridem-lhes a sensibilidade, portando-se de um modo que, a seu ver, traz claramente o estigma da inferioridade social; no entanto, em muitos casos, os grupos de recém-chegados tendem inocentemente a se conduzir, ao menos por algum tempo, como se fossem iguais a seus novos vizinhos.
  • 39.  Os mais antigos levantam sua bandeira, lutam por sua superioridade, seu status e poder, seus padrões e suas crenças, e em quase toda parte utilizam, nessa situação, as mesmas armas dentre elas a fofoca humilhante, as crenças estigmatizantes sobre o grupo inteiro, com base em observações sobre seu pior setor, os estereótipos verbais degradantes e, tanto quanto possível, a exclusão de qualquer oportunidade de acesso ao poder.
  • 40.  Como os estabelecidos costumam ter uma integração maior e ser mais poderosos, eles conseguem, através da indução mútua dar uma sólida sustentação a suas crenças. Muitas vezes, logram induzir até mesmo os outsiders a aceitarem uma imagem de si modelada pela minoria dos “piores”, bem como uma imagem dos estabelecidos modelada pela “minoria dos melhores”. Os mais “antigos” muitas vezes conseguem impor aos recém-chegados a crença de que estes são inferiores ao grupo estabelecido, não apenas em termos de poder, mas também “por natureza”. E essa internalização da crença depreciativa do grupo socialmente superior pelo socialmente inferior, como parte da consciência e da imagem que este tem de si, reforça vigorosamente a superioridade e a dominação do grupo estabelecido.
  • 41.  A construção do sentido social do poder em Winston Parva obedece a dois critérios-chave. Primeiro, o da afirmação da superioridade e excelência "psicológica", "humana" e „social" dos que chegaram antes ao local. A esses caberia, sem mais, o primado natural quanto ao status, à dignidade grupal e à legitimidade dos direitos adquiridos. Eles são os cidadãos de primeira classe. No outro polo faz valer- se a estigmatização dos chegados por último, tidos como inferiores. Esses, naturalmente, no início não se conheciam, pois vinham de vários locais do país. Eram menos coesos e não dispunham de armas para se defenderem da maneira com que os nativos os etiquetavam em resposta à ameaça e ao desequilíbrio provocada por sua chegada a Winston Parva.
  • 42.  Elias e Scotson demonstram com acurado apuro um emaranhado de dependências e interdependências entre os indivíduos e as instituições do lugarejo. Mostram como as normas de atribuição de status e a distribuição de papéis e tarefas dentro das instituições sociais e políticas do lugarejo obedecem "a padrões díspares de união interna e controle comunitário". Esses padrões se traduzem "numa prática política que consiste, por exemplo,
  • 43.  em reservar para as pessoas do grupo cargos prestigiosos em organismos locais – o conselho, a escola e o clube --, excluindo os moradores da outra área". Tudo está imbricado naquele emaranhado cuja lógica psicológica é compreensível só para quem está bem situado dentro do universo psicossocial da pequena aldeia. Um verdadeiro outsider teria dificuldade em entender o porque das distinções e argumentos daquela lógica de “pertencer a um grupo".
  • 44.  Os membros do grupo estabelecido e até os recém-chegados, talvez, são indivíduos criados com uma rigidez particular de visão e de conduta; muitas vezes, foram criados acreditando que todo o mundo tem ou deveria ter, essencialmente, os mesmos sentimentos e comportamentos que eles. Em geral, o limiar de tolerância a formas de conduta e a crenças diferentes, quando se tem que conviver em estreito contato com seus representantes, continua a ser excepcionalmente baixa.
  • 45.  De suas numerosas observações, Elias e Scotson, concluíram que em grupos sociais muito próximos e homogêneos, como é o caso dos dois estudados, se criam diferenças, largamente idealizadas, que os dividem internamente e os colocam em luta pelo controle social, gerando, no plano das relações, estereótipos e preconceitos sociais recíprocos. Por mais que sejam "iguais", quando vistos desde os critérios da sociologia mais clássica funcionalista ou dialética, eles não logram explicar de maneira satisfatória o que acontece no plano das imagens sociais que modelam as reais relações de dominação/subordinação que se fundam de fato nas representações, crenças e valores que cada grupo julga possuir, diferentemente do outro, sentido como de nível inferior. Penso não ser difícil se perceber a importância dessa constatação para o estudo dos conflitos religiosos e dos fundamentalismos que, cada vez mais, – para lá do discurso politicamente correto do ecumenismo -- caracterizam algumas religiões e igrejas em suas tendências doutrinais, rituais, crenças e objetivos de ação pastoral e política
  • 46.  O trabalho de Elias e Scotson traz muitas novidades. Depois de uma detalhada descrição dos estilos de vida dos dois "bairros", das estruturas familiares, das instituições comunitárias e redes de apoio, do modo de viver dos jovens, dos conflitos entre as gerações quanto à autoridade, da sexualidade e da religião -- em tudo muito parecidos -- eles mostram que as relações de poder não estavam ancoradas em diferenças sociais gritantes como as que seriam provavelmente buscadas e discutidas por um psicólogo ou um sociólogo interessado só em categorias analíticas auto-explicativas e, por isto, pouco atento ao cotidiano real da vida das pessoas. A atenção dos dois pesquisadores não esquece o nível macro- teórico, mas se volta em especial àquele micro, das relações entre as pessoas e grupos. Esse é para eles o „ubi‟ gerador da subjetividade, especialmente em culturas de corte fortemente individualista como as da sociedade neo-liberal globalizada. O comportamento e a vivência das pessoas nasce é aí, embora – evidentemente ! -- possam sofrer e sofram as influências de outras matrizes contextualizadoras.
  • 47.  Como mesmo evidência Elias, a meta do estudo em Winston Parva não teve como intuito enaltecer ou censurar um lado ou o outro ou estudar o que se poderia considerar “disfuncional” por exemplo: estudar a minoria de famílias desestruturadas do loteamento num isolamento inteiramente artificial. A meta do autores, foi explicar seres humanos em configurações independente de sua bondade ou maldade relativas, em termos de suas interdependências. A configuração das pessoas do loteamento teria sido incompreensível sem um claro entendimento da observada entre as pessoas da “aldeia”, e vice-versa.
  • 48.  Nenhum dos grupos poderia ter se transformado no que era independentemente do outro. Eles só puderam encaixar-se nos papéis de estabelecidos e outsiders por serem interdependentes. É pelo fato de as ligações na vida social, muitas vezes, serem ligações entre fenômenos que, no mundo do observador, recebem valores diferentes, ou até antagônicos, que seu reconhecimento exige um grau razoável de distanciamento.
  • 49.  Será que os grupos de pessoas apresentados podem ser vistos como uma soma dos atos de “eus” e “outros” inicialmente independentes, que se encontram numa terra de ninguém e começaram a interagir e a formar comunidades, ou padrões, situações ou configurações novas, que seriam fenômenos secundários somados à sua pura individualidade não social? Para Elias a pesquisa sociológica deve partir do estudo dos indivíduos como taís, ou de elementos ainda menores, - as “ações” individuais -. Segundo Elias não podemos ser pegos na armadilha da polaridade, de falar e pensar como se só fosse possível escapar de postular indivíduos sem sociedade postulando sociedade sem indivíduos.